1989: Paul’s Boutique – Beastie Boys

Paul's Boutique

Por: Renan Pereira

Sabe aquela prática de “copiar e colar”, que todos nós já praticamos em algum momento da nossa vida? Recontar para alguém aquela piada que você ouviu do seu colega, repetir um bordão que está na moda, ou até mesmo utilizar trechos de textos escritos por outras pessoas: tudo isso é legal, embora alguém possa questionar uma suposta “cópia”. Mas, se você pensar bem, nada surge do nada; houve até quem já disse que somos “a cópia de uma cópia de uma cópia” – e aqui já estamos nós utilizando aspas para copiar algo que outra pessoa já havia produzido.

Nunca existirá o que é cem porcento inédito, que demonstre uma total e absoluta novidade sem emprestar nenhuma ideia do passado. Na música, obviamente, isso também é verdade: pense em qualquer artista que você considera genial, e verá que mesmo o trabalho de quem é considerado “inovador” se agarra a algum elemento pré-estabelecido. Uma burrice sem tamanho, porém, seria condenar essa prática… O primeiro humanoide que “cantou”, procurando imitar o som de algum animal, não é o cara mais importante da história da música. O pássaro que plantou no ser humano o conceito de harmonia nunca será rotulado como o maior artista de todos os tempos.

A construção de algo que possa ser considerado “novo” está diretamente agarrada, de alguma maneira, à forma com que antigos conceitos são “copiados”. Julgar quem pratica bem a “arte de copiar” é muitas vezes complicado, mas é certo que quem trabalha com preguiça, utilizando velhos conceitos para produzir o mesmo resultado que já havia sido alcançado, não merece o nosso aplauso. Se você mergulhar nesse poço filosófico, verá que os maiores gênios da música são assim considerados porque souberam, magistralmente, como almejar o futuro através dos ensinamentos do passado.

Não podemos negar, porém, que nenhuma vertente musical pratica tão abertamente o “copiar e colar” quanto o hip hop. O gênero emergiu nos anos oitenta, justamente a partir da popularização de certos aparelhos inovadores, conhecidos como “samplers” – com os quais era possível selecionar trechos de áudio e repeti-los por várias vezes, tornando possível, assim, a criação de uma nova canção a partir de uma colagem de sons. Em 1979, a Sugar Hill Gang, que era constituída por três MC’s, rimou em cima de “Good Times”, canção do grupo Chic, dando início a um dos nichos musicais mais bem sucedidos da história.

Mas, até 1989, nada que vinha do hip hop parecia chamar a atenção do público em geral, indo além das comunidades negras dos Estados Unidos. Faltava ao gênero aquele registro seminal, capaz de chocar e modificar os olhares do público massivo. E ele chegaria naquele mesmo ano, quando os anos noventa já se preparavam para invadir os calendários. “Paul’s Boutique” marcou uma época, apresentando o hip hop a muita gente ao construir o ápice criativo do gênero: a perfeição na “arte de copiar”.

Em “Paul’s Boutique” há tudo o que você possa imaginar. São inúmeras colagens de sons que transferem o ouvinte a várias vertentes da música, construindo um excitante exercício de aventura, embora sem se desprender das rimas características do hip hop. Aproveitando a produção mais do que incisiva dos produtores Dust Brothers, que inclusive pensavam em fazer da base sonora de “Paul’s Boutique” um disco instrumental, os Beastie Boys não se contiveram em reaproveitar um ou outro conceito melódico do passado. Sem pedir licença para ninguém, Mike D, MCA e Ad-Rock construíram um turbilhão sonoro reaproveitando várias canções de grandes nomes da história da música. A abertura do álbum, com “To All the Girls”, já esbarra no jazz… Um início atmosférico que vai, aos poucos, transferindo o ouvinte para os cenários urbanos de Nova York.

Em “Shake Your Rump” os Beastie Boys brincam com as bases instrumentais quentes do funk dos anos setenta, perfazendo a explosão de rimas que envolverá o ouvinte até o desfecho do disco: versos velozes e bem-humorados, capazes de excitar até mesmo que não aprecia o gênero. “Johnny Ryall” é permeada por uma mistura sensacional de rock e funk com samples de Paul McCartney, Donny Hathaway, Pink Floyd, Jean Knight, entre outros. A colagem é constante e decisiva, transformando o conjunto de rimas plantado pelos MC’s em um paredão rítmico extremamente envolvente.

Vale dizer que, pelas regras atuais, “Paul’s Boutique” não poderia ser feito sem que fossem despendidos alguns milhões de dólares. Após a alocação desenfreada de samples, inciada pelos Beastie Boys e continuada por diversos outros nomes do hip hop, a mão pesada das gravadoras resolveu frear essa prática tendo como argumento os direitos autorais. Hoje em dia, quem deseja samplear deve ter a autorização do artista “sampleado” – e essa autorização significa, na maioria das vezes, muito dinheiro. De certa forma, com a nova legislação, a liberdade dos rappers foi por água abaixo: hoje em dia, apenas os nomes mais famosos do gênero, apoiados por grandes gravadoras, conseguem samplear à vontade. Mas, por outro lado, isso acabou exigindo um novo horizonte sonoro para os artistas do gênero, que foram obrigados a investir de forma muito mais contundente na produção de seu som… Se as antigas leis ainda estivessem em vigor, provavelmente não teríamos nos álbuns atuais de hip hop um primor em produção.

Mas na época de “Paul’s Boutique” tais barreiras eram inexistentes. Nomes como Sly Stone, Curtis Mayfield e John Williams tiveram bases sonoras copiadas em “Egg Man”, enquanto The Band, Ramones e Eagles foram sampleados em “High Plains Drifter”. Por quê? Para Mike D, MCA e Ad-Rock contarem suas peripécias em uma errante Nova York através de um conjunto fenomenal de rimas, que não deixam o ritmo veloz do registro cair em nenhum momento. E não é que sobrou até para os Beatles? A sexta faixa, “The Sounds of Science”, contém vários trechos de clássicos do quarteto de Liverpool; o mais proeminente deles, retirado da música “The End”, constitui um dos momentos épicos do disco: aquele incrível conjunto de riffs de guitarra construído por Lennon, Harrison e McCartney servindo de base para as rimas incendiárias dos Beastie Boys.

Anos mais tarde, com a mudança das regras, as alegações de direitos autorais sobre os samples de “Paul’s Boutique” começaram a aparecer. Em uma entrevista à revista VIBE, Mike D questionou o que seria mais legal do que ser processado pelos Beatles… É esse, afinal, o espírito da coisa. Por mais inovadora que tenha sido a colagem de sons proposta pelo disco, tudo estava ligado à diversão, a uma centrada irresponsabilidade que se mostrou capaz de apresentar uma nova abordagem ao hip hop. Os Beastie Boys eram brancos e alcançaram o público massivo: iniciava-se ali, sem nenhuma dúvida, uma nova era para o gênero. Depois do ritmo fantástico da sétima faixa, “3-Minute Rule”, “Hey Ladies” chega pra representar o maior êxito do disco quanto a singles; uma faixa extraordinária, agarrada propositalmente aos elementos da música pop.

A nona, “5-Piece Chicken Dinner”, é uma faixa country que passa rápido, durando menos de trinta segundos, apenas abrindo as portas para “Looking Down the Barrel of a Gun” e sua magnífica aproximação com o rock: em mais uma abordagem épica, guitarras potentes e rimas poderosas duelam durante toda a extensão da faixa. Impecável, “Paul’s Boutique” segue surpreendendo a todo instante: seja nos grooves perfeitos de “Car Thief” ou no conjunto de samples “roqueiros” de “What Comes Around”, a jornada excitante de rimas, ritmos e melodias continua a todo vapor. Tantas colagens acabaram formando, afinal, uma salada sonora jamais igualada…. Em nenhuma outra oportunidade, vertentes tão diferentes conseguiram conviver com tamanho mérito, trabalhando para construir uma unidade sonora que, em um primeiro momento, soa até inimaginável. Mesmo aventureiro, “Paul’s Boutique” demonstra uma união fantástica entre as faixas.

Até porque, em todo o disco, o tempero da salada é o mesmo. É claro que o ponto mais marcante de “Paul’s Boutique” é formado pelos samples, mas não louvar o paredão de versos construído por Mike D, MCA e Ad-Rock seria ignorar um dos principais momentos da história do hip hop… O que aconteceria, afinal, se os MC’s mais talentosos de sua época se unissem para construir um grupo com grandes pretensões? Seria épico, não? Mas foi, no fim das contas, o que aconteceu: para completar o time dos rappers mais talentosos dos anos oitenta, só faltaram os integrantes do Run DMC e do Public Enemy.

Depois de mais um turbilhão de ritmos e versos em “Shadrach” e da breve “Ask for Janice”, a última faixa, “B-Boy Bouillabaisse”, marca a conclusão perfeita do disco ao se caracterizar como uma das faixas mais ricas da história do hip hop: uma epopeia de rimas e ritmos quebrados, dividida em nove seções que, na edição especial de vinte anos do álbum, foram dividas em faixas separadas… Um conjunto excepcional que enfatiza todas as qualidades do registro, um disco cuja energia se encontra intocada até os dias de hoje.

Certa vez, Miles Davis disse que nunca se cansava de ouvir de ouvir “Paul’s Boutique” – e, sem querer, acabou fazendo de suas palavras o sentimento geral dos ouvintes. Afinal, não é pretensão em demasia afirmar que este é o melhor registro de hip hop de todos os tempos, e um dos mais interessantes álbuns da história, levando em consideração todos os gêneros. Nunca alguém havia feito o que os Beastie Boys fizeram, assim como, provavelmente, ninguém conseguirá superar a atmosfera sonora de “Paul’s Boutique”. Um álbum único, um clássico eterno, e a expressão mais rica na arte de “copiar e colar” sem nenhuma moderação.

NOTA: 10,0

Track List: (todas as faixas creditadas a Beastie Boys e The Dust Brothers)

01. To All the Girls [01:29]

02. Shake Your Rump [03:19]

03. Johnny Ryall [03:00]

04. Egg Man [02:57]

05. High Plains Drifter [04:13]

06. The Sounds of Science [03:11]

07. 3-Minute Rule [03:39]

08. Hey Ladies [03:47]

09. 5-Piece Chicken Dinner [00:23]

10. Looking Down the Barrel of a Gun [03:28]

11. Car Thief [03:39]

12. What Comes Around [03:07]

13. Shadrach [04:07]

14. B-Boy Bouillabaisse [12:33]

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