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Discografando: Alter Bridge

Discografando

Sobre o que ela se trata o Discografando? Basicamente, fazer uma breve análise da discografia completa de uma banda ou artista, sem necessariamente apontar qual álbum é o pior ou o melhor. A intenção dessa seção, portanto, não é ranquear os exemplares de uma discografia, mas dar uma passada pela carreira de um nome importante da música, contando a sua história através de seus lançamentos de estúdio.

Uma das bandas de maior destaque do nicho mais pesado do rock atual, o Alter Bridge surgiu como um projeto paralelo de Mark Tremonti e Scott Phillips que, em 2004, ficaram sem onde tocar com a pausa das atividades do grupo que faziam parte, o eternamente odiado Creed. Para isso, recrutaram o velho conhecido Brian Marshall (que também havia deixado o Creed), e o vocalista Myles Kennedy, um até então desconhecido que nunca havia alcançado um grande sucesso com sua antiga banda, The Mayfield Four.

2004: One Day Remains

One Day Remains

Classificação: 

O primeiro disco do Alter Bridge é muito pouco além do som que Tremonti, Phillips e Marshall faziam no Creed. Demonstrando pouco entrosamento entre os três e o vocalista Myles Kennedy, “One Day Remains” é um amontoado de canções soltas que, unidas em mesmo registro, não significam absolutamente nada.

Ainda que contenha algumas boas canções, caso de “Metalingus” e “Burn It Down”, o disco se perde na falta de um conceito central, escancarando descontinuidade a todo instante. Embora tudo estivesse sendo manejado dentro de um visível esforço instrumental, os exageros de Tremonti, a estrutura sombria e as heranças do Creed não conseguiram fomentar um trabalho consistente.

Pecando em sua estreia, o Alter Bridge logo foi rotulado com fracasso, prometendo ser um projeto tão infeliz quanto os demais grupos que, bebendo das influências do grunge, não conseguiam apresentar um resultado genuíno. De qualquer forma, as coisas mudariam, e o falho “One Day Remains” mostrou ser, pelo menos, um bom momento de aprendizado. Se não serviu para apresentar realmente o que era o Alter Bridge, foi responsável por colocar o projeto na ativa.

2007: Blackbird

Blackbird

Classificação: 

Dois anos depois de lançar o primeiro disco, o Alter Bridge voltou aos estúdios disposto a fazer do segundo exemplar de sua discografia um registro mais pesado, sincero e distante do Creed. Para isso, Myles Kennedy precisaria se inserir de forma mais atuante nos rumos conceituais do projeto… E mora aí, justamente, a grande virada da banda. Mais à vontade, o vocalista empunhou sua guitarra e participou ativamente do processo criativo que envolveu “Blackbird”.

Mostrando que Kennedy não era apenas um bom vocalista, mas também um compositor de qualidade, “Blackbird” chegou para transformar a sonoridade da banda: muito mais linear em comparação ao seu antecessor, o disco soube como controlar o ímpeto de Tremonti, que, no primeiro álbum, parecia querer vagar sozinho, distante dos outros integrantes. Além disso, foi capaz de construir uma unidade, um som próprio que o Alter Bridge não continha na época da estreia.

“Blackbird” foi, enfim, a prova de que os erros que embalaram “One Day Remais” – bem como toda a carreira do Creed – não se repetiriam. Elogiado pela crítica, e um relativo sucesso de público, o trabalho se notabilizou para fazer do Alter Bridge realmente uma banda, e não apenas um projeto paralelo de instrumentistas órfãos.

2010: AB III

AB III

Classificação: 

Ao rumar o seu trabalho para um teor mais obscuro, brincando com texturas progressivas, o Alter Bridge não conseguiu se esquivar das mesmices que habitualmente embalam o que chamamos de “metal”. Embora apresente uma estrutura sonora mais dinâmica, com o crescimento da complexidade dos instrumentais, o disco falha justamente por seguir a maré ao invés de apresentar um resultado realmente novo. Se “Blackbird” havia sido um divisor de águas, “AB III” foi apenas um “mais do mesmo”.

Porém, ao contrário do que em 2004, no início da década atual a banda já continha uma herança sonora de respeito. Apesar das parcas novidades, “AB III” é um disco válido, de boas canções. Mais melódico e acessível, o disco conseguiu ampliar a fama da banda, que se tornou, definitivamente, um nome emergente dentro do cenário alternativo. Mas, justamente por isso, houve quem o rotulou de “excessivamente comercial”, temendo o retorno de uma base artística totalmente descompromissada com a fuga do óbvio. Felizmente, “Fortress” mostrou que quem havia pensado dessa forma estava totalmente equivocado.

2013: Fortress

Fortless

Classificação: 

O melhor álbum do Alter Bridge até agora. Inventivo, o último trabalho da banda apresentou ao público um Alter Bridge que, até aquele momento, poucos conheciam. Buscando evoluir, mesmo sem desconstruir toda a obra que já havia sido edificada, a banda teceu um trabalho criativo e de força inegável.

Agora aberta aos ruídos, disposta a desafiar seus ouvintes com um som que passa longe de uma audição “facilitada”, o Alter Bridge mostrou que “AB III” fora apenas o acabamento de uma construção que ganharia novos andares. Melódica como sempre, mas ambiciosa como nunca, a sonoridade da banda evoluiu à medida em que novas inspirações e uma boa dose de inventos foram acrescidos a uma assinatura sonora que já estava construída.

Com grandes canções, que contém verdadeiros colossos instrumentais, “Fortress” caminha bem do início ao fim, prendendo a atenção do ouvinte a todo instante. Rico em detalhes, o registro se caracteriza por ser uma grata surpresa, um trabalho em que até os maiores críticos da banda teceram elogios. De uma vez por todas, o Alter Bridge se inseriu em plenitude dentro do panteão de bandas do metal.

Discografando: The Velvet Underground

Discografando

Eis a primeira postagem da mais nova seção do blog, a qual decidimos chamar de Discografando. Sobre o que ela se trata? Basicamente, fazer uma breve análise da discografia completa de uma banda ou artista, sem necessariamente apontar qual álbum é o pior ou o melhor. A intenção dessa seção, portanto, não é ranquear os exemplares de uma discografia, mas dar uma passada pela carreira de um nome importante da música, contando a sua história através de seus lançamentos de estúdio.

E nada melhor do que começar esta nova seção com uma das bandas mais influentes de todos os tempos, não? No caso, escolhemos o The Velvet Underground, banda norte-americana forma em 1964, na cidade de Nova York, por Lou Reed e John Cale.

The Velvet Underground & Nico1967: The Velvet Underground & Nico

Classificação: 5 estrelas

Frequentemente apontado como um dos mais importantes álbuns da história da música, “The Velvet Underground & Nico” iniciou a discografia da banda da melhor forma possível. Até aquele ano de 1967, quando as cores do movimento psicodélico e o movimento hippie tomava conta da cultura jovem de vários países do mundo, nada havia soado como o Velvet Underground. Nada. Em um tempo em que o tratamento suave das melodias dava as ordens na música popular, e o sentimento de “paz e amor” era geral, a banda nova-iorquina chegou para estremecer as bases do que era culturalmente aceitável.

Com “The Velvet Underground & Nico” e sua emblemática “capa da banana”, a estética do rock foi modificada para sempre. As melodias cuidadosas deram lugar a ruídos, sujeira e agressividade. A maconha e o LSD foram substituídos pela heroína, e o submundo foi abraçado: com letras que tratavam de sexo, prostituição, homossexualidade, caos e drogas, o Velvet Underground, de uma hora pra outra, inverteu os valores do rock… O que era anteriormente considerado de mal gosto se tornou poesia, e as pessoas começaram a olhar com mais carinho para os cenários menos coloridos da música. As sombras começaram a ter o seu valor.

Somando a um conceito lírico totalmente inédito, a presença da húngara Nico, com seu sotaque europeu, elevou o disco a uma áurea ainda mais andrógena. Os instrumentais elaborados por John Cale, acompanhando as guitarras sujas e raivosas de Reed, mostraram novas possibilidades para o uso dos instrumentos, criando novos conceitos de arranjos e gerando o embrião do que se tornaria, anos depois, o movimento punk. Em suma, “The Velvet Underground & Nico” não é só um dos melhores álbuns de todos os tempos; é o nascimento do rock alternativo.

White Light - White Heat

1968: White Light/White Heat

Classificação: 5 estrelas

As vendas de “The Velvet Underground & Nico” haviam sido um fracasso, e o produtor da banda, Andy Warhol, totalmente decepcionado, decidiu abandonar o grupo. O mundo só queria saber de “Sgt. Peppers’s Lonely Hearts Club Band”, e nem a aclamação recebida pela crítica conseguiu transformar o Velvet Underground em um sucesso.

Depois de quase se tornar a nova sensação do rock, a banda se viu de novo na estaca zero. Poucos conheciam e poucos estavam dispostos a ouvir o Velvet Underground; o psicodelismo estava em seu auge, dando pouco espaço para diferentes abordagens do rock. De certa forma indignada com o que estava acontecendo, o grupo nova-iorquino resolveu gravar um disco ainda mais experimental e barulhento.

Só que, para isso, a banda também não contaria com Nico, que estava vislumbrando uma carreira solo. Mesmo rachado, o grupo continuou com a intenção de gravar um novo álbum, que veio à tona em 1968, intitulado “White Light/White Heat”. Ainda mais desafiador que o álbum anterior, o disco foi marcado pela fantástica união da poesia andrógena de Reed com os instrumentais tortuosos de Cale, em um exercício insano de experimentação. No fim das contas, “White Light/White Heat” é um álbum que mesmo hoje, quase cinquenta anos depois de seu lançamento, mostra-se capaz de chocar o ouvinte.

The Velvet Underground1969: The Velvet Underground

Classificação: 5 estrelas

O clima dentro do Velvet Underground não estava dos melhores. Diferenças ideológicas e batalhas de egos permeavam o convívio dos dois fundadores da banda. No fim das contas, John Cale acabou sendo demitido, entrando para o seu lugar o também multi-instrumentista Doug Yule.

Sem a presença de Cale, a liderança se concentrou nas mãos de Lou Reed. Não por acaso, o terceiro álbum do Velvet Underground, auto-intitulado, é mais centrado nas letras do “poeta do underground”. São parcos os momentos de uma verdadeira experimentação, fazendo com que o disco, instrumentalmente, desse mais valor às melodias. “The Velvet Underground” é, portanto, o primeiro álbum tranquilo da banda.

Cada vez mais tomado pelas influências lisérgicas, Reed fez do disco um registro intimista, conceitualmente confessional, como bem representa a faixa “Pale Blue Eyes”, uma das mais conhecidas composições do músico. Liricamente impecável, o trabalho encontra na sensibilidade melódica uma completa oposição a tudo o que o grupo já havia feito, representando, com isso, o início de uma nova fase da carreira de Lou Reed. De acabamento sombrio, o registro encontra nas palavras e nos arranjos um produto extremamente relacionado ao íntimo de Reed, mas mesmo assim capaz de alcançar os sentimentos do público.

Loaded1970: Loaded

Classificação: 4,5 estrelas

Ainda mais distante dos ruídos experimentados em “White Light/White Heat”, “Loaded” parte do mesmo princípio sonoro de seu álbum antecessor para aconchegar os lirismos de Lou Reed em um ambiente tranquilo, permeado por abordagens serenas. As concepções sonoras mais silenciosas fazem a base, porém, para uma grande inquietação lírica: já abraçando elementos que seriam mais abordados em sua futura carreira solo, Lou Reed tratou de impressionar mais uma vez com um impecável conjunto de versos.

O compositor se viu a vontade para explorar Nova York de uma forma peculiar. Seja com o manuseio de personagens, como em “Lonesome Cowboy Bill” e “Sweet Jane”, ou em fantásticas incorporações intimistas, Reed arquitetou um disco que, como seu anterior, encontra nas palavras sua grande riqueza. São versos que se amarram, se completam, e mesmo assim surpreendem a todo instante. Eis aqui, indubitavelmente, a consolidação do “poeta do underground”.

A grande novidade de “Loaded” está, no fim das contas, no pensamento comercial que construiu o seu conceito. Sem barulhos, experimentos e canções longas, o disco foi planejado para alcançar as mãos do público, que sempre haviam se mostrado pouco generosas com a banda. Se isso foi um erro? É claro que não… Sem “Loaded”, a redescoberta da banda, que aconteceria anos mais tarde, com a explosão do punk, talvez não aconteceria. O álbum é um bom aquecimento para os momentos mais experimentais do grupo, embora esteja cronologicamente à frente.

Squeeze1973: Squeeze  

Classificação: 2 estrelas

Velvet Underground sem John Cale e Lou Reed? Sim, isso existiu, pelo menos oficialmente. “Squeeze”, último disco atribuído à banda é, na verdade, um projeto solo de Doug Yule sob o nome do antigo grupo: uma clara estratégia da gravadora para faturar algum dinheiro. Como resultado, um dos álbuns mais decepcionantes da história.

Pouca coisa de “Squeeze” remete à grandiosidade atingida pelo Velvet Underfround nos trabalhos anteriores. Sem Lou Reed as letras ficaram vazias, gritantemente medíocres… Se ainda houvesse John Cale para reger os instrumentais teríamos um produto interessante, mas, sem seus dois membros fundadores, o que era o Velvet Underground além de uma caricatura do passado? Tanto “Berlin”, de Reed, quanto “Paris 1919”, de Cale, lançados naquele mesmo ano, conseguiram mostrar mais do Velvet Underground do que o disco que carregou o nome do grupo.

Mas a estratégia da gravadora, no fim das contas, se mostrou totalmente equivocada: além de recolher inúmeras críticas da imprensa especializada, o disco não conseguiu vender bem. Infelizmente, um término decepcionante e melancólico para uma das mais brilhantes discografias da história da música.