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Experimente: O sabor da Carne Doce

Por: Renan Pereira

Goiânia tem nos reservado, nos últimos tempos, gratas surpresas musicais… Não, caro leitor, este blog não se vendeu, pois não estamos falando de música sertaneja. Estamos citando, na verdade, projetos da maior qualidade musical. Afinal, até que enfim, o público começa a olhar para a música feita na capital do estado de Goiás com menos preconceito.

Pois bem, eis que, em um cenário repleto de grupos emergentes como Cambriana, Banda Uó, Boogarins e Black Drawing Chalk, surgem Macloys Aquino e Salma Jô com uma das bandas mais saborosas da atualidade: a Carne Doce. Surgido em 2012, o projeto traz na vida íntima do casal seu grande diferencial, portando-se como uma colaboração musical que vai além do “horário comercial”. Macloys e Salma dormem e acordam juntos, o que acaba tornando a Carne Doce um dos projetos mais sinceros do cenário atual.

Repleta de sonoridades setentistas, a banda lançou o seu primeiro EP, intitulado “Dos Namorados”, em abril de 2013. É tida atualmente, pela mídia especializada, como uma das grandes apostas musicais para esse ano, bem como planeja seu primeiro disco de longa duração, agora com a companhia de João Victor e Ricardo Machado. Enquanto aguardamos o primeiro disco da Carne Doce, conferimos a entrevista que a banda concedeu ao RPblogging. As repostas são da vocalista Salma Jô.

Quando surgiu a ideia de transformar o casal Macloys Aquino e Salma Jô em um projeto musical?

No final de 2012, quando ficamos sem bandas. Já éramos um casal há três anos, o Mac tocava na Mersault e a Máquina de Escrever e eu cantava numa banda setentista, a The Galo Power. A banda dele acabou e eu saí da minha. Não me recordo se quando mostrei a primeira letra já tínhamos em mente publicar esse projeto, mas em poucos meses a gente já tinha as canções do EP e outras.

Por que o nome “Carne Doce”?

Nós pensamos em vários nomes, vários mesmo. Um dia chegamos nessa combinação dessas duas palavras e gostamos demais. Não tem um sentido especial, mas gostamos. O contraste entre carne e doce lembra os contrastes que a gente busca, entre ser atrevido e cúmplice, pesado e suave, entre fazer um som mais pop e ao mesmo tempo estranho. Gostamos também dos sentidos que as pessoas acham pro nome. Já perguntaram se carne doce era carne de mulher, ou de gente, se tinha alguma relação com a nossa alimentação. Intrigar é uma coisa que nos agrada.

No primeiro EP da banda, denominado “Dos Namorados”, observa-se uma constante inspiração no tropicalismo e nas grandes bandas brasileiras dos anos setenta – uma toada que dá novamente as caras na última música lançada por vocês, “Sertão Urbano”. Esse é um ambiente sonoro que permeará o primeiro disco de longa duração da Carne Doce?

Chico, Caetano e Gil são referências mais fortes pra mim que Mutantes, Novos Baianos, Secos e Molhados. Numa entrevista recente, Andre Midani disse sobre como esse coquetel (Chico, Caetano e Gil) é um engodo, “um engodo feliz, mas um engodo”, e eu tenho ciência e estou trabalhando nisso (risos). Já o Mac tem uma pegada rock oitentista. O João Victor e o Ricardo tem referências muito ecléticas, embora pontuais na música brasileira… Mas não temos o tropicalismo como referência, apesar de gostarmos de ritmos brasileiros misturados com rock.

Quais foram os motivos que levaram às recentes entradas de João Victor e Ricardo Machado ao grupo?

Entre as últimas semanas de dezembro e as primeiras de janeiro deste ano, nos aproximamos do Benke e do Raphael, que são guitarrista e baixista da Boogarins e também da Luziluzia, uma das bandas mais interessantes da cidade. João Victor e Ricardo Machado são da Luziluzia e então nos encontramos, nos identificamos como banda e como amigos. Os ensaios fluíram demais, as músicas foram rearranjadas, realçadas, ganharam mais dinâmica, mais ritmo e tudo favoreceu a composição de músicas novas, que estarão em nosso primeiro álbum.

Goiânia tem evoluído musicalmente nos últimos anos – ao ponto da cidade deixar de ser apenas conhecida como um reduto de duplas sertanejas. Os Boogarins já estão fazendo shows lá fora, tiveram seu disco resenhado pela Pitchfork, a Black Drawing Chalks já é uma banda respeitadíssima no cenário musical, a Cambriana é uma das grandes promessas da música alternativa… A que vocês creditam essa crescente altamente positiva?

Tenho receio de dizer que isso é resultado de uma evolução musical e faltar o respeito com o talento das outras gerações e das limitações que enfrentaram.

Boogarins, Black Drawing Chalks, Cambriana, Hellbenders e mesmo Banda Uó, bandas que “estão na mídia” e fazendo sucesso, trabalharam para isso, capricharam nos seus produtos, fizeram bons trabalhos de assessoria e marketing, e tiraram proveito das ferramentas que temos hoje mais à mão, de softwares de gravação às redes sociais. Os Boogarins, por exemplo, já eram grandes quando a imprensa nacional acordou para isso, e eles tem a favor deles o interesse dos estrangeiros na psicodelia e na canção brasileira, mas foi preciso a competência e a ousadia em gravar e distribuir sua música.

Falando em Boogarins, vocês têm feito alguns sons com eles nos últimos meses… Como é trabalhar com esses caras, que cresceram de uma forma tão meteórica, e hoje formam uma das bandas mais hypadas do Brasil?

A gente até gostaria de dizer que fizemos uns sons com o Boogarins, que trabalhamos juntos, mas a verdade é que só colaboramos em “Benzin”, uma canção do Dinho, que eles publicaram recentemente através do “Is Your Clam in a Jam?”.

No final do ano passado e começo deste 2014, ficamos muito próximos do Benke e do Dinho (guitarrista e vocalista do Boogarins). Passamos algumas tardes juntos conversando sobre os nossos planos, improvisando, mostrando o que tanto nós como eles estavam fazendo, experimentando músicas do Carne Doce e essa “Benzin”, aprendendo muito, e de brincadeira, entre laricas e banhos de piscina.

Aí nos aproximamos do Raphael (baixista), e nos apaixonamos por ele também. Benke, Dinho, Raphael e Hans, eles estão hypados, mas são, antes disso, muito tranquilos, humildes, amigos, generosos, divertidos, boa gente mesmo.

Não sei se vamos trabalhar juntos ainda, não sabemos quão grandes serão os Boogarins, se a agenda deles vai deixar, mas adoraríamos. Nossa rápida experiência com eles já nos fez muito bem.

Momento invasão de privacidade: mas afinal, quem manda na banda: o Macloys ou a Salma? E em casa?

A casa se confunde com a banda, porque estamos sempre pensando nas músicas, shows ou produções na hora de comer, de deitar. E também porque ensaiamos em casa, os meninos estão sempre aqui… Mas “mandar” me parece uma palavra injusta, porque a gente decide em conjunto, na banda e em casa.

Há já alguma definição de data de lançamento do primeiro disco do projeto?

Ainda não. Mas vamos começar a gravar em julho.

Como vocês definem o seu som?

Não definimos e já estamos tranquilos com não saber definir, queremos saber é como você define nosso som. Mas, se insistir, a gente pode responder como a Trupe Chá de Boldo: “o som é só uma onda… curta”, hehehe.

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2014: Despertador – Leo Cavalcanti

Despertador

“Despertador” parece ser um daqueles discos cuja capa logo vai entregando o conceito pelo qual o trabalho é guiado. Lá está Leo Cavalcanti imerso em um cenário intergalático, fazendo-se parte integrante dessa imensidão que é o universo. Entre cores e símbolos, o músico ostenta sua barba profética, fazendo com que todo esse exoterismo faça com que o ouvinte lembre, mesmo que vagamente, dos conceitos plantados pela música pop lá nos anos sessenta e setenta…

Porém, pouco ou quase nada do presente registro soa como uma mera “revitalização” de uma base musical antiga. Mais do que o segundo exemplar da discografia de Cavalcanti, “Despertador” é a concretização de um talento que já havia sido demonstrado no álbum “Religar”, de 2010. Há agora uma maior linearidade, a exploração de um som que o músico tornou sua própria identidade, e embora a complexidade e os heterogeneidade tenham sido diminuídos em nome de uma maior aproximação com o público de massa, Cavalcanti faz do novo trabalho praticamente uma assinatura musical.

Mas para alcançar esse madurecimento como artista, não bastou ao músico a utilização dos conceitos que haviam costurado com acerto o seu primeiro disco. Ciente de que algo a mais seria necessário para quebrar a barreira da “promessa” para se tornar, enfim, uma “realidade”, Cavalcanti topou fazer de seu novo trabalho uma grande exploração de sons sintéticos. Esbarrando nos rumos eletrônicos de Silva, ou até mesmo no pop tortuoso proposto por St. Vincent, o compositor paulistano faz de uma sonoridade repleta de frescor a nova morada de seus versos cativantes.

“Despertador” abre com sua faixa-título, em que ótimas harmonias vocais constroem a ponte perfeita para ligar o conceito sonoro à lírica sutil – que engloba, aliás, todo o trabalho. Seja pela base energética, composta por batidas dançantes, ou pelo seu andamento pop, que parece se comunicar com algum hit perdido do pop-rock oitentista, a primeira faixa já parece deixar claro o acerto proeminente no qual o disco será guiado. Ainda que algumas faixas, como a segunda, “Só Digo Sim”, demonstrem uma aproximação até mesmo exagerada a uma estética simplória, são os versos sempre bem pensados de Cavalcanti que acabam ficando na mente do ouvinte… Como bem demonstra a inteligente e psicodélica “Sonho Parasita”.

A quarta, “Leve”, brinca com texturas da MPB para construir um número que mescla a todo instante o velho e o novo, como se uma canção setentista de Caetano Veloso passasse por uma remixagem. Interação que ainda fica mais clara na faixa seguinte, “Inversão do Mal”, mostrando que mesmo atento aos aspectos modernos da música, Cavalcanti nunca deixou de ser um grande admirador do tropicalismo; é aqui, afinal, que o exoterismo do disco acaba encontrando seu ponto máximo.

Se a quinta faixa fala que “a alquimia é real quando se aprende a escutar à si”, o instante de maior intimismo do álbum acaba ficando para “O Momento”, uma canção mais calma, que se encontra naturalmente envolvida em uma estrutura sentimental. Um teor melancólico que é bruscamente interrompido pelas texturas tortuosas de “Get a Heart”, única composição do álbum com letra em inglês, e que parece soar como uma colaboração de Leo Cavalcanti com Annie Clark… Mais um ponto positivo para a competente produção de Fabio Pinczowski, sempre procurando fugir do óbvio mesmo quando o assunto é música pop.

“Tudo Tem Seu Lugar” é uma  belíssima marcha de dimensões épicas, envolta por cítaras em uma ambientação etérea, retratando as idas e vindas da nossa existência: é o momento em que o músico expõe seus mais íntimos pensamentos para mostrar a naturalidade com a qual os altos e baixos da vida devem ser tratados. Ainda que “Sua Decisão (Ser Feliz e Contente)” não consiga alcançar a mesma qualidade das melhores faixas do disco, e que soe como uma espécie de auto-ajuda, seria ignorância em demasia não citar “Despertador” como um trabalho guiado pela positividade… Ainda que hajam obstáculos, dores, pedras, a mensagem passada por Leo Cavalcanti é sempre otimista.

“Amoral” encerra o disco condensando todo o conceito lírico e sonoro utilizado por Cavalcanti nas nove faixas que a antecedem… Uma contemplação final do “pop intergalático” proposto pelo artista, que assume: “É bonito constatar que este ser-disco já não me pertence, pois tem vida própria”. Leo Cavalcanti se oferece ao cosmos, mergulha no universo para fazer de seu novo trabalho um novo filho, oferecido ao público de todas as galáxias e dimensões. Ainda que seja resultado de um pop simples, confesso e de fácil degustação, é um registro que se propõe a viajar além do lugar-comum. E põe além nisso.

NOTA: 8,0

1968: Gilberto Gil – Gilberto Gil

Por: Renan Pereira

Um dos artistas mais importantes da música brasileira em todos os tempos, Gilberto Gil foi, durante a sombria época da ditadura militar, muito mais do que um simples compositor engajado politicamente. Postando-se como líder de uma nova geração de músicos, Gil foi, a partir da segunda metade da década de sessenta, uma espécie de “presidente” do último movimento realmente revolucionário da nossa música. O tropicalismo foi, além de um ótimo mecanismo político, que funcionou como um grito juvenil anti-regime, uma vertente musical altamente inventiva, mesclando as tradições brasileiras com ideais vanguardistas originários no primeiro mundo.

Gilberto Gil nasceu em Salvador, mas ainda muito criança mudou-se, com a família, para a pequena cidade de Ituaçu, que na época não passava de um lugarejo com cerca de oitocentos habitantes. Lá, Gil teve seu primeiro contato com a música, numa época em que os acordes do baião de Luiz Gonzaga formavam a maior identidade sonora do Nordeste. Aos oito anos, mudou-se novamente para a capital baiana, onde começou a frequentar uma academia de acordeon; mas foi no secundário, quando ganhou de sua mãe um violão, que Gilberto Gil realmente nasceria como músico, altamente influenciado pelo também baiano João Gilberto.

Na época da faculdade, quando cursava administração, um encontro não mudaria somente a vida de Gilberto Gil, mas como os próprios rumos da música brasileira. Naquela época, acabara conhecendo os eternos amigos Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé; juntos, fizeram parte de espetáculos semi-amadores de vanguarda no teatro Vila Velha. Provavelmente, nem eles imaginavam que este encontro formaria o supra-sumo da “nova” MPB, mas é fato que, naquele instante, estavam sendo semeadas as bases do movimento tropicalista.

Vivendo na capital paulista desde 1965 (onde, inclusive, exerceu sua graduação de administrador de empresas no grupo Gessy Lever), Gil começou, aos poucos, a se tornar figura carimbada nos grandes festivais de música – que, naquela época, se responsabilizavam por revelar os novos nomes do cancioneiro popular. A primeira participação de Gil em um destes eventos havia ocorrido ainda em 1965, onde interpretou, no “V Festival da Balança” – promovido pelo Diretório Acadêmico João Mendes Jr. da Faculdade de Direito da Mackenzie – a canção “Iemanjá”. Organizado pelo estudante Manoel Poladian, que mais tarde se tornaria produtor musical, o evento foi registrado em disco pela gravadora RCA, e apresentou ao público, muito mais do que um ainda discreto Gilberto Gil, o brilhantismo vocal de Maria Bethânia em seu primeiro grande sucesso, “Carcará”.

Em maio de 1967, Gil teve, finalmente, a oportunidade de lançar seu primeiro LP, o regular “Louvação”; produzido por João Mello, e contando com os sempre acertados arranjos de Dory Caymmi, o álbum acabou se caracterizando como uma reprodução das raízes de Gil, contendo baião, bossa-nova, samba e a música romântica dos anos cinquenta, mais conhecida como “balada”.

Embora seu primeiro disco tenha chamado atenção, Gilberto Gil só se tornaria uma sensação a partir de sua participação no “III Festival de Música Popular Brasileira”, produzido pela TV Record em outubro de 1967. Após ter transformado, no ano anterior, o jovem Chico Buarque em um fenômeno nacional (ao mesmo tempo em que inserira a canção “A Banda” no cerne da cultura brasileira), o festival atrairia, em sua terceira realização, uma grande quantidade de novos (e grandes) artistas, além de uma audiência espetacular para a época. Neste evento, o tropicalismo enfim mostraria suas facetas, a partir de “Alegria, Alegria”, canção de Caetano Veloso, e do primeiro grande clássico da carreira de Gil, “Domingo no Parque”, que teve em sua interpretação o apoio da banda paulista Os Mutantes.

De forma surpreendente, nem Gil e nem Caetano conseguiram conquistar o “Sabiá de Ouro”, que naquela oportunidade ficaria para Edu Lobo com sua performance de “Ponteio”. Mas, indubitavelmente, o festival acabara por inserir o nome dos baianos na cultura nacional, fazendo-os cair de forma quase imediata nas graças do grande público. Além disso, “Alegria, Alegria” se tornaria o carro-chefe do fantástico segundo álbum de Caetano, enquanto “Domingo no Parque” formaria as bases para a criação do segundo álbum de Gil, lançado em maio de 1968.

Finamente produzido pelo maestro Rogério Duprat, o disco “Gilberto Gil” acabou elevando exponencialmente a complexidade sonora do músico, que claramente evoluía a passos largos. Mergulhando sem moderação no rock psicodélico (até mesmo devido à presença dos Mutantes), o registro foi responsável por inserir as raízes nordestinas de Gil a uma sonoridade claramente inspirada ao que se fazia na Grã-Bretanha… Comparar Gil e Caetano a Lennon e McCartney pode até ter se tornado um lugar-comum para os admiradores do tropicalismo, mas não dá para negar que os discos fundamentais do movimento brasileiro constantemente se aproximam, da produção às temáticas, aos trabalhos psicodélicos do quarteto de Liverpool. Apesar de brasileiro ao extremo, o movimento tropicalista liga-se ao psicodélico até mesmo por ser cultural: enquanto álbuns como “Revolver” e “Sgt. Pepper” mergulham profundamente nas tradições britânicas, os discos tropicalistas são de uma intensa abordagem dos nossos costumes.

As realizações vanguardistas de Gil em seu segundo LP já são escancaradas pela primeira faixa, a eufórica “Frevo Rasgado”, que mesclando as tradições pernambucanas ao psicodelismo, torna-se totalmente envolvida nas sempre marcantes orquestrações de Duprat, através de um ritmo empolgante. A segunda, “Coragem pra Suportar”, além de tensa e rica, constitui o primeiro número claramente anti-regime do disco, com uma sonoridade totalmente inserida nos ideais psicodélicos. Dinâmica, pulsante e contagiante, e mostrando quão certeira foi a participação dos Mutantes no disco, “Domingou” está mais para divertimento, falando sobre um dia de folga no Rio de Janeiro.

Fantasticamente orquestrada, “Marginália II” é uma das músicas mais complexas de toda a carreira de Gil, além de ser extremamente corajosa; cutucando os militares com vara curta, sua letra chega a dizer que “aqui é o fim do mundo”, criando um contraponto entre as belezas naturais do nosso país e a dificuldade de se viver durante a ditadura. Um dos singles do álbum, a chapada “Pega a Voga, Cabeludo” contém o psicodelismo mais “viajado” do disco, mostrando com maestria a junção das doidices dos Mutantes com a alta qualidade rítmica característica da música de Gilberto Gil. Melodicamente forte, e com arranjos espetaculares, de qualidade realmente impressionante, “Ele Falava Nisso Todo Dia” mostra o triste desfecho de um jovem que se preocupava demais com o seguro de vida.

Muito agradável, mas também crítica, a sétima faixa, “Procissão”, é mais um momento para se contemplar as raízes de Gil inseridas no rock malucão dos Mutantes, em uma grande performance do guitarrista Sérgio Dias. Mostrando que a qualidade técnica alcançada por Brian Wilson nos álbuns dos Beach Boys, e por George Martin nos álbuns dos Beatles, também poderia ser obtida aqui no Brasil (apesar da dificuldade geográfica, que muitas vezes privava a música nacional dos novos equipamentos do primeiro mundo), a oitava, “Luzia Luluza”, contém uma produção magnífica, e caracteriza-se por ser um número mais sereno, que se aproxima mais da bossa-nova, apesar de conter elementos claramente psicodélicos.

“Pé da Roseira” também bebe intensamente da fonte psicodélica, se mostrando como uma abordagem tupiniquim – com um ritmo extremamente brasileiro – do rock produzido na Inglaterra naquela época; com sua estrutura melancólica, reproduzindo sentimentos de dor e solidão, pode ser considerado um dos raros (e melhores) encontros do samba com a sonoridade dos Beatles. A última, e melhor faixa do álbum, é a maravilhosa “Domingo no Parque”, uma canção rica como ela só; brincando com a língua portuguesa, com uma letra repleta de figuras de linguagem como metonímias, anáforas e quiasmos, e com uma sonoridade altamente dinâmica (às vezes festiva, contempladora ou triste), a música constrói com contornos épicos um anticlímax surpreendente, um trágico desfecho, enquanto finaliza da forma mais arrebatadora possível o grandioso segundo disco de Gil. Na versão estendida do álbum, ainda há as faixas-bônus “Barca Grande”, “A Coisa mais Linda que Existe”, “Questão de Ordem” e a maluca “A Luta Contra a Lata ou a Falência do Café”, que continuam a mostrar o resultado majestoso alcançado por Gil ao mesclar a cultura brasileira ao rock psicodélico.

Talvez tão inesperado quanto o duplo homicídio cometido por José em “Domingo no Parque”, foi o status alcançado por Gilberto Gil em seu segundo registro da carreira. Além de ter evoluído de forma gigantesca em comparação ao seu primeiro álbum, é impressionante ver como, em pouco tempo, o baiano se tornou um dos gênios da nossa música, e o grande líder daquela geração que revolucionaria a MPB. Mas, no fim das contas, aqui ainda não está o maior o clássico do tropicalismo… até porque, no mesmo ano, Gil lideraria simplesmente o mais importante registro fonográfico da história de nossa música, o disco-manifesto “Tropicália ou Panis et Cicenses”.

NOTA: 9,7

Track List:

01. Frevo Rasgado (Gilberto Gil/Breno Ferreira) [01:53]

02. Coragem pra Suportar (Gilberto Gil) [02:55]

03. Domingou (Gilberto Gil/Torquato Neto) [02:55]

04. Marginália II (Gilberto Gil/Torquato Neto) [02:39]

05. Pega a Voga, Cabeludo (Juan Arcon/Gilberto Gil) [04:44]

06. Ele Falava Nisso Todo Dia (Gilberto Gil) [02:33]

07. Procissão (Gilberto Gil) [02:55]

08. Luzia Luluza (Gilberto Gil) [04:03]

09. Pé da Roseira (Gilberto Gil) [03:03]

10. Domingo no Parque (Gilberto Gil) [03:46]

1967: Domingo – Caetano Veloso e Gal Costa

Como o leitor sente o domingo? O ápice do fim de semana, prolongando do sábado aqueles sentimentos de alegria, preguiça, descomprometimento e descanso? Ou como o dia anterior à segunda-feira, já te lembrando dos compromissos e da realidade dura do dia seguinte? Os baianos Caetano Veloso e Gal Costa o pensam como um dia destinado ao lirismo e à boa música, criando em cima do “dia em que não se trabalha”, o dia santo, um abençoado trabalho da MPB.

“Domingo” é o álbum de estreia tanto de Caetano quanto de Gal, lançado em 1967, produzido por Dori Caymmi (filho de Dorival) e apadrinhado por Maria Bethânia (irmã de Caetano), que na época já era bastante conhecida pelo público devido ao espetáculo “Opinião”. O álbum traz uma sonoridade totalmente inserida na bossa-nova, tanto em letras e arranjos como no jeito de cantar.

Apesar de apresentar pouca inovação e de ainda não estar inserido completamente no movimento tropicalista, o primeiro álbum de Caetano e Gal é um registro histórico da música popular brasileira, se destacando por ser um trabalho elegante e especialmente sensível – musicalmente e no próprio sentido do verbo. As letras de Caetano já se apresentam incríveis, de um espantoso talento, com um inteligente lirismo que já tinha sido experimentado quando da gravação, por Maria Bethânia, em 1965, de “Sol Negro” (composição de Caetano e primeira aparição em estúdio de Gal, em dueto com Bethânia, presente no álbum de estreia da irmã de Caetano). A produção de “Domingo” também deve ser elogiada, cabendo a Dori Caymmi a competência pelos belos arranjos do disco.

A amizade de Caetano e Gal é coisa de longa data, e mesmo em 1967 ela já era sólida e relativamente antiga. Ambos contracenaram (juntos com Gilberto Gil, Tom Zé, entre outros), na juventude, espetáculos semi-amadores como “Nós, por exemplo” e “Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova”, no teatro Vila Velha, em 1964. Pode estar aí, inclusive, a grande base para a criação do movimento musical tropicalista.

O álbum abre com “Coração Vagabundo”, primeira composição de Caetano Veloso a ter êxito comercial; assim como em todo o álbum, há a utilização total dos elementos da bossa-nova, mas já trazendo algo a mais – mesmo bem discretas, características conhecidas da obra de Caetano, como a releitura e a reinvenção, já estavam presentes. “Onde eu Nasci Passa um Rio” é belíssima, assim como a faixa anterior; liricamente rica, trazendo uma certeira sensibilidade tanto na letra quanto na melodia, já é mostra de que Caetano seria capaz de fazer muito pela música brasileira. Com arranjos extravagantes e luxuosos, “Avarandado” deixa Gal Costa brilhar, com sua bela voz e sua bela interpretação, apoiada por mais uma bem-vinda composição de Caetano.

Em “Um Dia”, podem se dar provas que, além de um fantástico compositor, Caetano também é um ótimo cantor; na canção, sua voz é de um doce lirismo, acompanhando perfeitamente os sentimentos da letra. A quinta é a faixa-título, trazendo o misto de sentimentos quanto à tarde de domingo.

“Nenhuma Dor”, composta por Caetano e Gilberto Gil, é outra ótima canção, que na belíssima interpretação de Gal se mostra extremamente sensível e aconchegante. Deve ser dito que, se Caetano foi o guru deste álbum, onde a maioria das faixas são de sua autoria, Gal é a flor desabrochada, interpretando belamente, dando cores vivas ao chão criado por Caetano. “Candeias” é mais uma prova disso, onde Gal é o destaque total desta faixa composta por Edu Lobo.

A oitava canção do álbum é “Remelexo”, cantada por Caetano, e é uma ótima representação de uma pura paixão para a encantadora menina da roda de samba, contendo mais uma letra inteligente e afetuosa. “Minha Senhora”, cantada por Gal, é mais uma faixa fascinante, com outra interpretação linda e aconchegante para os ouvidos. A consistência de “Domingo” chega a ser gritante; o álbum é inteiramente feito por grandes canções, donde se pode ouvir toda a beleza que a música brasileira é capaz de oferecer. São músicas agradáveis, acolhedoras e aconchegantes, donde nenhum defeito pode ser arrancado, e alguma crítica negativa poderia ser considerada sandice.

“Quem Me Dera” é fruto de uma das cooperações de Gilberto Gil com o poeta Torquato Neto, e se mostra como uma ode à Bahia, alternando-se entre momentos tranquilos, como se Caetano estivesse sozinho com seu violão no pôr-do-sol de uma praia, com momentos mais agitados, onde há o acompanhamento de um grupo de samba. “Maria Joana” é a incrível união da bela voz de Gal com uma rica melodia, perfazendo mais uma canção inteligente e agradável.

Os acordes finais deste clássico álbum ficam por conta de “Zabelê”, outra canção liricamente rica e interpretada com maestria por Caetano e Gal. Tal maestria poderia assustar, pois construir um trabalho tão impecável, logo na estreia em estúdio, é coisa para poucos, muito poucos…

Há os que crescem, e estes devem ser elogiados, pois vão se destacando à medida que aprendem a brincar com o jogo. Há os que amadurecem, e a estes também cabem elogios, pois aprendem com o tempo. Então, o que deve ser dito a quem já nasce grande? Elogios para quem encanta desde sempre? Não, isso é muito pouco… Caetano e Gal já nasceram grandes, e desde o começo destacaram-se como alicerces da música brasileira. Mais do que se elogiar, deve-se glorificar, pois são dois nomes fundamentais da música do nosso país.

NOTA: 9,0

Track List: 

01. Coração Vagabundo (Caetano Veloso) [02:25]

02. Onde eu Nasci Passa um Rio (Caetano Veloso) [01:59]

03. Avarandado (Caetano Veloso) [02:45]

04. Um Dia (Caetano Veloso) [03:31]

05. Domingo (Caetano Veloso) [01:25]

06. Nenhuma Dor (Caetano Veloso/Gilberto Gil) [01:33]

07. Candeias (Edu Lobo) [03:11]

08. Remelexo (Caetano Veloso) [01:54]

09. Minha Senhora (Gilberto Gil/Torquato Neto) [04:14]

10. Quem Me Dera (Caetano Veloso) [03:24]

11. Maria Joana (Sidney Miller) [01:42]

12. Zabelê (Gilberto Gil/Torquato Neto) [02:49]

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