Arquivo da tag: transmissor

Lista: As 50 Melhores Músicas de 2014 [50-41]

50. Nessas Horas – Transmissor

A visível evolução da banda mineira Transmissor ficou evidente em “De Lá Não Ando Só”, o grande lançamento do pop-rock nacional em 2014. E a sexta faixa do disco, “Nessas Horas”, certamente é a canção que melhor agrega as novas possibilidades sonoras do grupo: mergulhada em uma melodia insuperável, a música se insere de corpo e alma em um terreno melancólico (e extremamente belo), em que a alta qualidade dos versos acaba esbarrando em harmonia com impecáveis arranjos… Lenta, “Nessas Horas” é obscura, lamentosa, além de especialmente combativa, inserindo ruídos de guitarra em uma estrutura confortável.

49. Fruta Elétrica – Carne Doce

Impossível passar imune pelo arrebatador “rock com pequi” do grupo goiano Carne Doce, uma das grandes revelações desse ano. Dentro de psicodélico e extremamente brasileiro debut da banda, “Fruta Elétrica” é aquela explosão de ritmo, uma verdadeira ode à face alegre e dançante da música tupiniquim. Tanto as linhas de baixo e bateria quanto os riffs de guitarra escancaram o lado mais “manguebeat” da banda, com a vocalista Salma Jô cantando sobre uma fruta deliciosa e perigosa, mas que todos acabam ficando com desejo de provar.

48. Tinashe feat. Devonté Hynes – Bet

Se não bastasse FKA Twigs para provar que o R&B está vivendo uma de suas maiores (e melhores) transformações em sua história, Tinashe surge para esquentar ainda mais o clima de “renovação”. Camadas sobre inúmeras camadas, climatizações explodindo em nossos ouvidos e moderníssimos efeitos eletrônicos formam a base de “Bet”, que ainda apresenta formidável melodia, uma performance vocal respeitável e um ótimo solo de guitarra criado por Dev Hynes, músico responsável pelo projeto Blood Orange. Não é à toa que a canção, faixa do disco “Aquarius”, dá as caras nessa lista.

47. David Bowie – ‘Tis a Pity She Was a Whore

“‘Tis a Pity She Was a Whore” é simplesmente a melhor música do Camaleão nos últimos anos. Sim, senhores: por melhor que tenha sido “The Next Day”, nenhuma faixa do aclamado disco chega aos pés desta que é apresentada no player abaixo. Nela, o veterano canta versos tristes no fundo de um sampler caseiro e futurístico, amplificando sua faceta mais experimental. Incrível como Bowie consegue expandir cada vez mais suas possibilidades.

46. White Lung – Drown With the Monster

Intensidade. Essa é a palavra-chave de “Drown With the Monster”. Nessa canção, a banda canadense faz das suas, aumentando tanto volume quanto velocidade ao máximo para plantar um número que, além de instrumentalmente picante, é liricamente crítico. E tudo isso, no fim das contas, sem que saibamos se o que toca é punk, metal ou indie. Na verdade, o chute mais próximo é de que se trata de uma grande mistura desses três rótulos. Um número diferente e impecável, que se reproduz em outras canções no ótimo disco “Deep Fantasy”.

45. Parquet Courts – Sunbathing Animal

“Sunbathing Animal” é nada mais do que uma grande explosão de energia de uma das mais insanas bandas da atualidade. Uma canção de absurda velocidade, em que instrumentos e vocal trabalham para um único fim: a criação de um número curto e grosso, que em seus primeiros segundos já é capaz de passar o recado ao ouvinte: não são necessários muitos acordes para se construir uma verdadeira muralha sonora.

44. Taylor Swift – Out of the Woods

Quando saiu a notícia de que Taylor Swift abraçaria de uma vez por todas a música pop, dando adeus àquela tímida garotinha country, certamente muitos torceram o nariz. Por mais que esse processo tenha se iniciado em 2012, com o lançamento do disco “Red”, foi nesse ano que Swift se tornou, finalmente, a musa pop que vinha ensaiando ser. Pois o resultado surpreendeu: não tanto pelas vendas, pois ninguém esperava que “1989” patinaria nas prateleiras. O que realmente surpreendeu foi a qualidade sonora, claramente acima da média para o pop atual.  E isso “Out of the Woods” mostra muito bem: moderna, incrivelmente bem produzida, a canção traz em uma estonteante linha de bateria a base necessária para Swift mostrar que aquela menininha de outrora hoje é uma artista completa.

43. Sun Kil Moon – Carissa

“Carissa” é a primeira faixa do “disco-livro-filme” chamado “Benji”, a maior obra até hoje de Mark Kozelek como contador de histórias. Mais do que um simples conjunto de faixas, “Benji” faz com que o ouvinte se descole daquela ideia inicial de “ouvir música” para se impregnar nos interessantes, tristes e sensíveis causos do músico. Em “Carissa”, o compositor nos conta sobre uma tragédia que ocorrera na família, trilhando um número incrivelmente humano e sincero sobre chegadas e partidas.

42. St. Vincent – Prince Johnny

Embora Annie Clark seja conhecida pela forma única com que faz sua guitarra produzir sons inimagináveis, em “Prince Johnny”, uma das melhores músicas de sua carreira, o cenário é basicamente atmosférico, sem aquelas tradicionais mudanças bruscas. A base da canção é dura como rocha, mas nada impede que, nela, St. Vincent demonstre toda sua fraqueza como personagem em um grande conflito de sentimentos… Um número direto, sem excentricidades, que acaba escancarando o lado mais humano da musicista.

41. Swans – Oxygen

Arrastada, tortuosa, intrigante, “Oxygen” é o ápice energético de “To Be Kind”, o fantástico disco que o Swans lançou em 2014. Composta por Michael Gira logo após uma grave crise de asma, essa incrível canção “revela” a importância de estar respirando, de poder sentir seu coração batendo… É raro pararmos para pensar na importância disso, mas os gritos do vocalista a clamar por oxigênio fazem com que a gente imagine a angústia de uma pessoa que está com dificuldades de respirar. Mas, no fim, o que acaba marcando não é o conceito angustiante da faixa, mas sim a louca viagem sonora que ela nos oferece.

2014: De Lá Não Ando Só – Transmissor

De Lá Não Ando Só

Por: Renan Pereira

Se evoluir é um exercício pelo qual devemos pautar nossa existência, os mineiros do Transmissor têm muito o que ensinar. Fazendo de seu terceiro disco, “De Lá Não Ando Só”, um grande e nítido acumulado de vivências e novas experiências, a banda extrapola toda e qualquer expectativa, independente de sua extensão, para construir uma obra pautada na evolução. É como se o já maduro “Nacional”, de 2012, se comportasse apenas como um ensaio para o disco que agora temos em mãos.

Embora siga uma linha sonora explícita, “De Lá Não Ando Só” é um grande agregador de novas nuances à musicalidade do Transmissor. Ainda que a mistura do pop rock dos anos 2000 com as heranças setentistas do Clube da Esquina continue formando a base sonora do grupo, Pedro Hamdan, Daniel Debarry, Henrique Matheus, Jennifer Souza, Thiago Corrêa e Leonardo Marques encaram novos caminhos de uma velha paisagem. Todo o teor poético não está somente mantido, como se mostra melhor resolvido, encontrando na interação com uma forte base instrumental o seu maior exercício de expansão ao ouvinte. As belas melodias também se fazem presentes mais uma vez, porém acompanhadas por arranjos mais ricos em detalhes e complexidades. Não, o Transmissor não deixou de falar simples… Apenas aumentou o seu tom, que agora pode ser ouvido com maior nitidez.

Desejando não fazer do novo álbum um simples “mais do mesmo”, a banda mostra acerto ao flertar com “novos” aspectos do rock. Há um acumulado muito maior de referências em comparação aos trabalhos anteriores: se antes o grupo se mostrava satisfeito em refletir a sonoridade que fez o conjunto nascer e crescer como unidade, agora eles parecem querer superar a si próprios, absorvendo uma nova gama de texturas, características dos anos oitenta e noventa… Isso, claramente, torna a estrutura sonora mais poderosa e comunicativa.

O início do disco, porém, parece ser muito mais uma extensão do que já havia sido apresentado no álbum anterior: “Queima o Sol”, a faixa de abertura, parte dos conceitos de “Nacional” para soar agradável e classuda, um pop rock melódico com a leveza característica da música mineira. Já na segunda faixa, “Só Um”, o ouvinte é apresentado aos arranjos nitidamente evoluídos, que aumentam a comunicação das guitarras com o ouvinte… Afinal, ainda que os teclados atraiam, e as performances do baterista Pedro Hamdan se mostrem colossais, são as linhas de guitarra que dão ao trabalho o seu grande diferencial.

É claro que os vocais também formam um destaque positivo: doces, massageando nossos ouvidos, se comportam com perfeição durante todo o registro, ainda que dividido entre Jennifer, Leonardo e Thiago. É a moça que lindamente canta a terceira faixa, a simples, porém bela, “25 Horas por Dia”. “Todos Vocês” brinca com uma estrutura repleta de grooves inteligentes, mas é a primorosa letra que se destaca: “A verdade nunca foi à sua casa, pra bater à porta, pedindo pra entrar. Nesse tempo as coisas são tão diferentes, e o frio que há na gente, já pede pra ficar“. Profundo e bonito.

“Mais Quente do que Quis” é uma daquelas faixas que tem tudo para ser um grande hit, mas que, infelizmente, provavelmente será deixada de lado por nossas rádios tão preocupadas em banalidades. Tudo vai soando muito bem, não? O ápice, contudo, é atingido na bonita melancolia de “Nessas Horas”, que comprova todo o crescimento da banda: embebida em arranjos elegantes, que se comunicam com o rock progressivo, a faixa parece ser a mostra perfeita dos novos rumos sonoros do sexteto, que agora abraça texturas obscuras, de maior complexidade. A próxima, “Nada pra Te Devolver”, trata de seguir a mesma linha, com o grupo acertando em cheio no alvo mais uma vez.

“Retiro” contém flertes eletrônicos, que assentam muito bem a letra composta por versos curtos que é amparada pelo bonito vocal de Jennifer Souza. A musicista, aliás, parece encontrar um espaço maior dentro da banda com o novo disco: isso se deve ao teor democrático pelo qual o trabalho foi bordado, em que todos os membros do grupo colaboraram com quase igual importância. A nona faixa, que dá nome ao álbum, é um bom número pop que, pelo clima suave e melancólico, pode ser comparada às canções de Silva.

Na décima faixa, a banda brinca até mesmo com a aceitabilidade do público ao nomeá-la de “O que Você Quer Ouvir” – e não é que a música é, no fim das contas, justamente isso? Em “Canso a Cabeça” somos novamente apresentados a uma nova faceta do grupo, em que guitarras pesadas são o norte da canção… Uma densidade que se repete na apoteótica “Casa Branca”, que atesta o amadurecimento da banda a partir de uma ideia: consistência.

Mesmo pautando seu trabalho na linearidade sonora, em nenhum momento o Transmissor faz de “De Lá Não Ando Só” um registro capaz de enjoar o ouvinte. A toada aqui, na verdade, vai justamente no sentido contrário: as pontuais evoluções são alocadas com tanta inteligência que nos prendemos interessados do início ao fim da obra. Um grande disco, candidatíssimo a um dos melhores do ano, e o mais completo trabalho que o Transmissor já produziu. Será que alguém ainda pretende se embaraçar ao citar Skank, Pato Fu ou Jota Quest? O posto de melhor banda mineira da atualidade já tem dono… e ele é dividido, em partes iguais, entre os seis integrantes do Transmissor.

NOTA: 8,5

Entrevista: Radiolaria

Por: Renan Pereira

Minas Gerais sempre teve um estoque interminável de talentos da música brasileira. Seja com a poesia setentista do Clube da Esquina, com o rock rural de Beto Guedes, com os ensaios progressivos do 14 Bis, ou com a explosão pop-rock dos anos noventa e o surgimento de bandas como Skank e Pato Fu, o estado do pão-de-queijo também se tornou casa de uma reconhecida música de qualidade. Atualmente, ao lado de outros projetos (como o grupo Transmissor), a banda Radiolaria se mostra como uma genuína herdeira de todo esse passado de glória, fazendo com a música que ecoa de Minas (ou da capital Belo Horizonte, mais precisamente) continue relevante frente ao cenário alternativo nacional.

Surgida no fim da década passada, a banda Radiolaria se propõe a encontrar em suas canções, sem muito alarde, o meio-termo perfeito entre o popular e o experimental. Ainda que a tarefa seja árdua, e demonstre até mesmo pretensões que poderiam ser perigosas para um grupo estreante, tudo parece acontecer com naturalidade. Seu primeiro disco, o competente e linear “Vermelho”, dá as provas necessárias para fazer do conjunto um dos projetos mais promissores da nova geração.

Entrevistamos a banda para que pudéssemos conhecê-la melhor, além de suas músicas: pois em adição às bases sonoras, sempre sentimos vontade em conhecer as ideias e as direções artísticas adotadas pelos artistas. Segue, com isso, a nossa nova entrevista, cujas respostas foram discutidas por todos os integrantes da banda e redigidas por Felipe Barros.

radiolaria

Quando a Radiolaria surgiu, e quando o projeto começou a ser levado à sério, de forma profissional?

A banda, já sob a alcunha de Radiolaria (uma vez que já tínhamos outros projetos antes, com outros nomes, e que de certa forma funcionou como embrião da Radiolaria), passou a existir “formalmente” a partir do ano de 2009, logo após termos lançado uma demo com cinco músicas (em 2008). Este talvez tenha sido o ponto de partida referente ao processo de composição, quando percebemos que era o que queríamos fazer musicalmente; compor e criar coisas novas. Neste momento, a banda passou a existir de forma mais séria e consciente, com uma proposta mais definida e um pouco mais madura, ainda que as composições do primeiro disco tenham nascido de uma forma despretensiosa e quase natural, frutos de um processo de amadurecimento e aprendizado musicais de cada um dos integrantes, especialmente dos compositores que passaram a se aventurar com mais frequência na criação de canções. Do ponto de vista da profissionalização, acho que ela veio a reboque desta fase de amadurecimento que mencionei, quase que como uma consequência natural do processo criativo, e da necessidade que sentimos de levar esses resultados ao público.

Quais são os artistas que mais inspiram o grupo?

É difícil determinar aqueles artistas que mais nos inspiraram, tanto conjunta quanto individualmente, apesar de ser possível falar sobre bandas que nos acompanham desde o início do projeto. A banda começou como uma banda de Rock, com repertório que englobava coisas do movimento sessentista britânico, como Beatles, Cream, The Who e Stones, além de coisas nacionais, como Mutantes, Secos e Molhados e Clube da Esquina.

Creio, porém, que como compositores e músicos, nosso trabalho beba em fontes bem mais diversas. Eu (Felipe Barros) e o Felipe Xavier começamos na música lírica ainda muito novos, cantando em corais, e aos poucos, com o passar do tempo, fomos conhecendo mais profundamente o rock e outros estilos, como mpb, samba, pop, música caribenha, música latina, etc. De modo que tudo isso permeia nosso universo musical, que inclusive está sempre em expansão com o contato com coisas novas.

Momento pergunta mais do que óbvia: qual seria aquele disco que a banda levaria para uma ilha deserta?

Não consideramos a pergunta óbvia não, porque se assim fosse teria uma resposta também óbvia, ou fácil (risos).

Na verdade é um exercício muito difícil esse de pegar cinco músicos e fazer com que elejam conjuntamente um disco pra que sirva de símbolo de uma grande influência numa situação hipotética como essa da ilha deserta. Creio que não conseguiríamos eleger um único disco, já que como já mencionamos, nossa caminhada musical bebeu e bebe em muitas fontes, sendo que os ídolos e seus trabalhos (discos) são muitos.

Pra não gerar confusão neste sentido, creio que ninguém iria se opor ao fato de que levaríamos o nosso “Vermelho”, ainda que de lá sentíssemos falta do “Buena Vista Social Club”, do “Revolver” (Beatles), do “Acabou Chorare” (Novos Baianos),  do “Jardim Elétrico” (Os Mutantes), do  “Medle” (Pink Floyd), do “Chega de Saudade” (João Gilberto), e de tantos outros (risos).

Sobre o processo de composição da banda, como que ele ocorre? Vocês sentam e falam “vamos compor” ou deixam as coisas simplesmente acontecerem?

As músicas têm surgido de forma variada e aleatória, quase que despretensiosamente. Na maioria das vezes, começamos pela harmonia no violão, em seguida vem uma melodia de voz, consequentemente outros elementos surgem, e com isso a letra. Temos canções que foram feitas individualmente, bem como canções em conjunto. Às vezes traz um estribilho, um riff, outro vem com um rascunho, uma poesia, ou até palavras soltas, e num segundo momento tudo isso é montado e arranjado. Outros parceiros não integrantes da banda também contribuíram com algumas letras.

radiolaria

Os anos noventa parecem ter sido bem mais receptivos a bandas mineiras, pelo menos no que tange ao sucesso comercial… Mas é claro que a situação do mercado fonográfico atualmente está extrema, tanto que muitas vezes nem as próprias gravadoras sabem qual caminho tomar. Qual é a análise que vocês podem fazer dessa situação, atendo-se ao cenário mineiro?

De fato, o mercado fonográfico sofreu enorme impacto com a questão do compartilhamento de músicas, surgimento do mp3, smartphones, etc, e concordo que o mercado, e mesmo seus mais diversos agentes, inclusive bandas, não sabem bem o caminho que tudo isso irá tomar. Mudança e inovação parecem ser as palavras de ordem e fazer previsões nesse cenário é bastante difícil.

Do ponto de vista do mercado mineiro podemos observar que a despeito da ausência de um sucesso comercial que pudesse gerar dividendos maiores aos artistas locais, e notoriedade nacional, tal qual aconteceu com Skank, Jota Quest, Pato Fu, na década de noventa, a galera da nova geração não deixa de se engajar na criação de projetos, de novas bandas, músicas, festivais, enfim, na proposição de uma ”nova” música mineira, que bebe nas fontes antigas, mas que propõe novos caminhos e tenta criar sua identidade.

Claro que a ausência de um aporte das gravadoras, especialmente no sentido de financiar a distribuição maciça dos trabalhos, além de remunerar os músicos como acontecia nos contratos de outrora, tudo isso dificulta a vida de quem procura viver de seu trabalho musical autoral. Não é nada fácil, mas acaba servindo como um divisor de águas entre aqueles que mesmo assim lutam por uma criação artística autêntica, e aqueles que pensam na grana antes de pensar na música. Não quero dizer que não se deva correr atrás do dinheiro, pois sem ele você não se sustenta enquanto artista, e provavelmente teria de largar tudo e partir pra outras profissões. Mas é interessante ver que aqueles que estão na luta pela construção de uma carreira, de uma identidade e de um espaço, estão com seu foco maior na música mesmo.

Além disso, hoje contamos com outros meios de financiamento da arte e da música no Brasil, como as leis de incentivo, assim como os financiamentos coletivos de projetos, de modo que a turma dá um jeito de se virar pra não deixar de produzir.

Vocês são a favor do financiamento coletivo para a produção de discos? Hoje em dia, até bandas experientes e conhecidas estão apelando para essa plataforma, como foi o caso recente dos Raimundos, por exemplo…

O financiamento coletivo é um meio que achamos válido pra angariar os fundos necessários aos processos envolvidos na criação musical. Muitas vezes pessoas que curtem o trabalho de um artista independente podem ajudar com uma grana e fazer com que aquele trabalho seja possível, cresça e siga adiante.

Mas creio que no universo independente possa acontecer um esgotamento da via de financiamentos coletivos para artistas que não consigam ampliar seu leque de fãs ao divulgar satisfatoriamente seu trabalho. Imagine seus vizinhos e colegas de faculdade tentando bancar todo o seu trabalho. Seria complicado. Portanto acho que quem se socorre do financiamento coletivo, que é extremamente válido, tem também que ver ele como um instrumento de financiamento da produção, mas se preocupando sempre em utilizar aquilo que foi produzido de forma inteligente e planejada, a fim de disseminar seu trabalho; o que no caso das bandas independentes pode ser feito majoritariamente pela internet.

Em um texto presente no site da banda, a seguinte citação chama a atenção: “as canções se equilibram, sem alarde, entre o popular e o experimental”. Creio que essa seja a grande chave para tornar um trabalho artisticamente válido e, ao mesmo tempo, atrativo ao público. Esse meio termo não é muito fácil de ser encontrado, não é verdade? Às vezes, as coisas se desequilibram sem mesmo que você perceba…

De fato é um ponto muito sensível este do equilíbrio popular/experimental. Não creio que tenhamos tido isso como norte no momento da criação das musicas, ou mesmo da produção do disco. Na verdade, acho que quando isso surge, esse equilíbrio, é fruto daquilo que já mencionamos, ou seja, do fato de termos fontes de inspiração muito vastas, que têm muito do popular, assim como do experimental. Creio que seja mais por aí do que por uma busca consciente de fazer algo assim. Não quero dizer com isso que não haja um direcionamento de estética na produção do disco, ou que eventualmente um dos compositores se proponha a fazer uma música mais pop ou mais experimental. Acho que tudo isso aconteceu no disco, mas de uma forma mais natural, sem uma busca rígida por esse equilíbrio.

Falando sobre o disco “Vermelho”: a perceptível linearidade das faixas foi algo pensado desde o início, ou que acabou surgindo naturalmente?

Essa linearidade estética, e de sonoridades, foi muito fruto do processo de produção mesmo, quando já em estúdio, através do ouvido atento dos nossos produtores e colaboradores na busca pelos timbres, arranjos, etc.

O disco conta com músicas que passeiam por universos distintos e mesmo estilos distintos, de forma que a busca por uma unidade estética foi importante para “amarrar” as composições e dar ao conjunto da obra algum ar de linearidade.

Como a banda espera estar daqui uns vinte anos? Com os bolsos cheios da grana e tocando no Faustão, ou com uma discografia respeitada dentro do cenário alternativo?

Na verdade gostaríamos de ambas as situações: a grana (desde que fruto de reconhecimento de um trabalho cuidadoso e muito bem feito); e com uma carreira sólida, de trabalhos artísticos de qualidade e que pudessem tocar as pessoas de forma verdadeira, sem apego a modismos ou tendências meramente comerciais.

Infelizmente parece que essas duas coisas, atualmente, não se encontram. O cenário “mainstream” sofre de uma inanição artística severa, em que o rentável comercialmente parece ser predominantemente superficial e passageiro ou até descartável.

Esperamos que esse cenário possa mudar e que as coisas voltem a se encontrar como no passado, mas, independente disso acontecer, estaremos fazendo a nossa música da forma como acreditamos.

Agradecemos imensamente a participação da banda Radiolaria. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “Vermelho”, o álbum de estreia da banda.

Clipes & Singles: Semana 11/2014

Clipes & Singles

Marcelo Perdido – Creme Brulée

Prestes a lançar o seu primeiro disco em carreira solo, o ex-vocalista do Hidrocor, Marcelo Perdido, continua a apresentar ao público faixas que farão parte do álbum “Lenhador”. Em “Creme Brulée”, toda aquele conceito nostálgico das demais músicas que já haviam sido liberadas volta a dar o ar de sua graça, em um número romântico, melódico e que conta com uma criativa letra.

Daft Punk feat. Jay-Z – Computerized

Por incrível que pareça, “Random Access Memories” continua a render bons frutos. O encontro da vez reúne os franceses do Daft Punk com um dos maiores nomes da música norte-americana, Jay-Z. Acredita-se que a música não é mais um single referente ao disco, mas sim apenas uma sobra de estúdio, que (infelizmente) ficou de fora do álbum.

Lestics – Desvario

O sexto álbum de estúdio da banda paulistana Lestics está a caminho, e a julgar pela primeira faixa do novo disco a ser revelada, “Desvario”, um trabalho de grande qualidade será lançado. Embebida em um clima melancólico, e permeada por um belíssimo arranjo de cordas, a canção se comporta como um acompanhamento perfeito para o sempre assertivo teor poético apresentado pelo conjunto.

Franz Ferdinand – Fresh Strawberrys

Quando o clipe de “Erdbeer Mund” (a versão em alemão da canção “Fresh Strawberrys”) foi lançado, o público se perguntou: ué, não teremos um vídeo para a versão original da música? A resposta foi dada pelo Franz Ferdinand com o lançamento do tão aguardado clipe, em que a banda interpreta a canção em meio a um clima existencialista, parecendo se agarrar a todo instante ao inventos prtaticados por David Bowie lá no final dos anos setenta.

Banks – Brain

Se “Brain”, a nova canção da californiana Banks, já havia mostrado a constante evolução que adorna a carreira da cantora, agora, com seu clipe, o single ganha ainda mais significado. Inserida em um cenário misterioso, a artista atua sensualmente através de um progressiva brincadeira com sombras e luzes.

The Kooks – Down

Depois de alguns anos se arrastando em uma carreira pouco destacável, lançando trabalhos pouco criativos e sendo inclusive considerada com uma das piores bandas do indie rock britânico, o pessoal do The Kooks parece ter finalmente aberto os olhos. Por isso, eles investem em uma completa mudança de rumo: distante do indie rock insosso de outrora, a nova aposta da banda se encora em uma concepção moderna e dançante de R&B… Algo que promete bons frutos.

Foster the People – Best Friend

Dentro do conceito dançante do novo disco do Foster the People, “Supermodel”, se encontra a canção “Best Friend”, que ganhou um lyric video que segue a estética da capa do álbum. Embora o novo trabalho tenha decepcionado quem esperava um sucessor à altura de “Torches”, ainda há espaço para singles em potencial.

Transmissor – Fotografia 3×4

“Ainda Somos os Mesmos”, disco-tributo que homenageia um dos maiores clássicos da música brasileira, o álbum “Alucinação”, de 1976, de Belchior, é o projeto que atualmente mais movimenta a música alternativa do nosso país. Dentre os bons nomes que participam do projeto está a banda mineira Transmissor, que recrutada para reviver a canção “Fotografia 3×4” acabou criando uma formidável versão.

Panda Bear – Marijuana Makes My Day

Logo depois de ter anunciado o seu terceiro álbum em carreira solo, Loah Lennox, o Panda Bear do Animal Collective, surge mais psicodélico do que nunca na canção “Marijuana Makes My Day”. Claramente se agarrando em conceitos lisérgicos, a música utiliza das conhecidas referências do músico para criar um número extremamente exotérico, que pode até mesmo ser considerado como a mais fumada composição do artista até aqui.

Caio Prado – Maldade do Meu Bem

Caio Prado, um dos nomes mais promissores da MPB, acaba de lançar o primeiro clipe de sua carreira. Referente à canção “Maldade do Meu Bem”, o clipe se agarra a uma estrutura estética que acompanha, com louvor, as confissões e o recolhimento proposto pelo artista, onde tudo vem acompanhado por monumentais arranjos de cordas.