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Lista: As 50 Melhores Músicas de 2014 [20-11]

20. Tune-Yards – Water Fountain

O ritmo, as referências e, principalmente, a criatividade de Merrill Garbus se encontram em seu ponto máximo na seminal “Water Fountain”, a amostra perfeita de toda a esquisitice (ou seria genialidade?) que engloba o projeto Tune-Yards… Impossível dizer o que é melhor: a espetacular percussão, as vozes perfeitamente encaixadas, a matadora linha de baixo ou as grandes variações. Tudo, no fim, acaba criando um número especialmente único.

19. Iceage – The Lord’s Favorite

A insanidade por trás da banda Iceage fica clara quando Elias Bender Rønnenfelt configura-se, em “The Lord’s Favorite”, em uma espécie de semi-deus pronto para aproveitar todos os pecados mundanos relativos principalmente à luxúria. Mas é a inteligência da canção que acaba marcando: diferente, até certo ponto desconexa com tudo o que o grupo havia feito até então. “The Lord’s Favorite” joga um inédito e excitante conjunto de referências sonoras ao post-punk, construindo um turbilhão sonoro que, além de impressionar, cheira a todo instante a novidade… Mesmo que se aproveite, no fim das contas, das mais antigas ideias. Uma canção, enfim, memorável.

18. Ex Hex – Don’t Wanna Lose

Reconfigurando um som que é basicamente gêmeo da música pop, as garotas da banda Ex Hex acabaram produzindo, quase sem querer, um dos maiores encontros do ano entre guitarras e melodia. “Don’t Wanna Lose” é uma canção simples, curta e direta, mas crava sua marca significando praticamente a perfeição em uma canção de power-pop: nervosa, dançante, caliente e impregnante.

17. St. Vincent – Digital Witness

Todo o estranho jogo proposto pela música de St. Vincent encontra conforto estético na explosão pop de “Digital Witness”. Bebendo, como sempre, do mais efervescente líquido da vanguarda musical dos anos setenta, fazendo do androgenismo experimentado por grandes nomes do passado, como David Bowie e Talking Heads, o seu grande dogma, Annie Clark acaba criando para si um universo particular, em que tudo acaba girando em torno de sua instigante persona.

16. S. Carey – Crown the Pines

Companheiro de Justin Vernon no projeto Bon Iver, S. Carey faz de sua carreira solo a perfeita extensão do trabalho de seu mais famoso companheiro. Em “Crown the Pines”, a música folk, sempre tão agarrada às raízes, acaba por percorrer novos caminhos em um claro sentido de reinvenção. Na canção, em meio a uma carregada base sentimental, uma explosão harmônica faz com que os Beach Boys encontrem o Coldplay, para depois se fundirem a Bon Iver e tudo se ligar ao Radiohead, criando, no fim, uma mágica canção.

15. Carne Doce – Sertão Urbano

Condomínios que oferecem o prazer maior dentro da cidade, o mato significando o progresso… Para o grupo Carne Doce, a natureza é o ponto de partida para uma canção que poderia até se tornar um hino para os ativistas do Greenpeace, uma grande discussão do boom urbano em detrimento do mato, mas que, na realidade, congrega em apenas uma canção toda a excitante mistura tropical proposta pelo conjunto – uma das grandes revelações de 2014.

14. Beck – Waking Light 

Uma das figuras mais mutáveis (e geniais) da música mundial, o californiano Beck voltou nesse ano com tudo à produção de estúdio. A melhor página desse novo capítulo da carreira do músico está em “Morning Phase”, que acompanha o teor acústico e orquestrado do clássico “Sea Change”, porém  com sentimentos de calmaria e contemplação. Faixa final do disco, “Waking Light” é um tratado melancólico e harmônico, representando a concepção sonora perfeita para o amanhecer.

13. Sharon Van Etten – Your Love Is Killing Me

“We Are There” marca a evolução definitiva de Sharon Van Etten… A belíssima “Your Love is Killing Me”, certamente uma das melhores canções desse ano, é apenas uma das provas do gigante talento da compositora nova-iorquina. Naturalmente sofrida, inserida em uma melodia fantástica e em um melodrama capaz de derrubar o maior dos machões, a canção contém uma das mais impressionantes explosões de sentimentos já ouvidas na música popular. Sem dúvida, um número primoroso.

12. Kendrick Lamar – i

Pra variar, Kendrick Lamar está de parabéns. Apresentando uma canção alegre, suave e positiva, o músico mostra que seu poderio pode ser infinito, até mesmo se colocando distante do teor pesado e político da obra-prima “good kid, m.A.A.d city”. “i” é uma música dançante que trata basicamente sobre paz, escancarando mais uma vez a sinceridade e a humanidade presentes na música de Lamar.

11. Os Irmãos Carrilho – Ela Quer te Ver

Os Irmãos Carrilho, dupla formada pelos curitibanos Alexandre Provensi e Matheus Godoy, se comporta como um dos projetos mais sinceros da atualidade. Afinal, quantos são os jovens brasileiros interessados em reviver de forma sincera a música de raiz? Se inspirando em antiguidades, eles fazem de “Ela Quer te Ver” um dos números mais belos e sensíveis de 2014, com seu romantismo puro e harmônico. Um verdadeiro deleite para os ouvidos.

Lista: As 50 Melhores Músicas de 2014 [50-41]

50. Nessas Horas – Transmissor

A visível evolução da banda mineira Transmissor ficou evidente em “De Lá Não Ando Só”, o grande lançamento do pop-rock nacional em 2014. E a sexta faixa do disco, “Nessas Horas”, certamente é a canção que melhor agrega as novas possibilidades sonoras do grupo: mergulhada em uma melodia insuperável, a música se insere de corpo e alma em um terreno melancólico (e extremamente belo), em que a alta qualidade dos versos acaba esbarrando em harmonia com impecáveis arranjos… Lenta, “Nessas Horas” é obscura, lamentosa, além de especialmente combativa, inserindo ruídos de guitarra em uma estrutura confortável.

49. Fruta Elétrica – Carne Doce

Impossível passar imune pelo arrebatador “rock com pequi” do grupo goiano Carne Doce, uma das grandes revelações desse ano. Dentro de psicodélico e extremamente brasileiro debut da banda, “Fruta Elétrica” é aquela explosão de ritmo, uma verdadeira ode à face alegre e dançante da música tupiniquim. Tanto as linhas de baixo e bateria quanto os riffs de guitarra escancaram o lado mais “manguebeat” da banda, com a vocalista Salma Jô cantando sobre uma fruta deliciosa e perigosa, mas que todos acabam ficando com desejo de provar.

48. Tinashe feat. Devonté Hynes – Bet

Se não bastasse FKA Twigs para provar que o R&B está vivendo uma de suas maiores (e melhores) transformações em sua história, Tinashe surge para esquentar ainda mais o clima de “renovação”. Camadas sobre inúmeras camadas, climatizações explodindo em nossos ouvidos e moderníssimos efeitos eletrônicos formam a base de “Bet”, que ainda apresenta formidável melodia, uma performance vocal respeitável e um ótimo solo de guitarra criado por Dev Hynes, músico responsável pelo projeto Blood Orange. Não é à toa que a canção, faixa do disco “Aquarius”, dá as caras nessa lista.

47. David Bowie – ‘Tis a Pity She Was a Whore

“‘Tis a Pity She Was a Whore” é simplesmente a melhor música do Camaleão nos últimos anos. Sim, senhores: por melhor que tenha sido “The Next Day”, nenhuma faixa do aclamado disco chega aos pés desta que é apresentada no player abaixo. Nela, o veterano canta versos tristes no fundo de um sampler caseiro e futurístico, amplificando sua faceta mais experimental. Incrível como Bowie consegue expandir cada vez mais suas possibilidades.

46. White Lung – Drown With the Monster

Intensidade. Essa é a palavra-chave de “Drown With the Monster”. Nessa canção, a banda canadense faz das suas, aumentando tanto volume quanto velocidade ao máximo para plantar um número que, além de instrumentalmente picante, é liricamente crítico. E tudo isso, no fim das contas, sem que saibamos se o que toca é punk, metal ou indie. Na verdade, o chute mais próximo é de que se trata de uma grande mistura desses três rótulos. Um número diferente e impecável, que se reproduz em outras canções no ótimo disco “Deep Fantasy”.

45. Parquet Courts – Sunbathing Animal

“Sunbathing Animal” é nada mais do que uma grande explosão de energia de uma das mais insanas bandas da atualidade. Uma canção de absurda velocidade, em que instrumentos e vocal trabalham para um único fim: a criação de um número curto e grosso, que em seus primeiros segundos já é capaz de passar o recado ao ouvinte: não são necessários muitos acordes para se construir uma verdadeira muralha sonora.

44. Taylor Swift – Out of the Woods

Quando saiu a notícia de que Taylor Swift abraçaria de uma vez por todas a música pop, dando adeus àquela tímida garotinha country, certamente muitos torceram o nariz. Por mais que esse processo tenha se iniciado em 2012, com o lançamento do disco “Red”, foi nesse ano que Swift se tornou, finalmente, a musa pop que vinha ensaiando ser. Pois o resultado surpreendeu: não tanto pelas vendas, pois ninguém esperava que “1989” patinaria nas prateleiras. O que realmente surpreendeu foi a qualidade sonora, claramente acima da média para o pop atual.  E isso “Out of the Woods” mostra muito bem: moderna, incrivelmente bem produzida, a canção traz em uma estonteante linha de bateria a base necessária para Swift mostrar que aquela menininha de outrora hoje é uma artista completa.

43. Sun Kil Moon – Carissa

“Carissa” é a primeira faixa do “disco-livro-filme” chamado “Benji”, a maior obra até hoje de Mark Kozelek como contador de histórias. Mais do que um simples conjunto de faixas, “Benji” faz com que o ouvinte se descole daquela ideia inicial de “ouvir música” para se impregnar nos interessantes, tristes e sensíveis causos do músico. Em “Carissa”, o compositor nos conta sobre uma tragédia que ocorrera na família, trilhando um número incrivelmente humano e sincero sobre chegadas e partidas.

42. St. Vincent – Prince Johnny

Embora Annie Clark seja conhecida pela forma única com que faz sua guitarra produzir sons inimagináveis, em “Prince Johnny”, uma das melhores músicas de sua carreira, o cenário é basicamente atmosférico, sem aquelas tradicionais mudanças bruscas. A base da canção é dura como rocha, mas nada impede que, nela, St. Vincent demonstre toda sua fraqueza como personagem em um grande conflito de sentimentos… Um número direto, sem excentricidades, que acaba escancarando o lado mais humano da musicista.

41. Swans – Oxygen

Arrastada, tortuosa, intrigante, “Oxygen” é o ápice energético de “To Be Kind”, o fantástico disco que o Swans lançou em 2014. Composta por Michael Gira logo após uma grave crise de asma, essa incrível canção “revela” a importância de estar respirando, de poder sentir seu coração batendo… É raro pararmos para pensar na importância disso, mas os gritos do vocalista a clamar por oxigênio fazem com que a gente imagine a angústia de uma pessoa que está com dificuldades de respirar. Mas, no fim, o que acaba marcando não é o conceito angustiante da faixa, mas sim a louca viagem sonora que ela nos oferece.

Live Sessions: Edição 04

Mac DeMarco em Santa Efigênia, São Paulo

Em passagem pela capital paulista, o canadense Mac DeMarco resolveu passear pela cidade na companhia do pessoal da Noisey. O resultado? Uma curiosa performance ao-vivo de “Still Together” filmada no viaduto Santa Efigênia, um dos cartões-postais da cidade.

Real Estate no David Latterman

Uma das bandas mais queridinhas do público indie nos dias de hoje, o Real Estate fez a sua primeira performance ao-vivo na TV americana no desejado palco do programa de David Latterman. A apresentação contou com a canção “Talking Backwards”, que está presente no último álbum do grupo, “Atlas”.

The Kooks na TV britânica

Como promover o seu futuro disco de forma magistral? O The Kooks te ensina. Além de estar abandonando o indie rock insosso que permeava seus últimos discos, a banda inglesa está disposta a nos surpreender: no programa de Alan Carr, os caras acabaram fazendo uma apresentação espetacular ao som de “Around Town”, contando com a participação de um primoroso coral gospel. De tão bem produzido, o vídeo poderia muito bem se tornar um clipe oficial.

Chlöe Howl na Noisey Acoustics

Uma das inglesinhas mais promissoras da música pop, Chlöe Howl, se apresentou em um terraço de um prédio, no Brooklyn, em Nova York, para a série de sessões acústicas da Noisey. Sem o turbilhão sonoro sintetizado que geralmente a acompanha, Howl entrega seu lado mais orgânico através de uma performance deliciosamente singela.

John Butler no Triple J

Em sua passagem pelo programa Triple J, John Butler, com o auxílio de sua banda, tocou uma surpreendente versão cover da estourada “Happy”, de Pharrell Williams. Vale a pena também conferir os outros vídeos da apresentação da banda, bem como dar uma vasculhada pelo canal da rádio australiana.

Nirvana no Rn’R Hall of Fame

Após ser introduzida ao Rn’R Hall of Fame, a banda Nirvana fez o seu primeiro show desde a morte de Kurt Cobain. Ele ocorreu em Nova York, e contou apenas com vocalistas femininas: Joan Jett, Kim Gordon, Annie Clark (St. Vincent) e Lorde cantaram ao lado de Krist Novoselic, Dave Grohl e Pat Smear alguns dos maiores clássicos da icônica banda de rock alternativo.

Baleia no estúdio Maravilha8

Em uma apresentação ao-vivo no estúdio Maravilha8, os cariocas da banda Baleia mostraram porque formam um dos melhores grupos da atualidade no Brasil. “Temporal” foi executada magistralmente, e às vezes você até chega a duvidar se o que você está ouvindo é na realidade uma performance ao-vivo. Essa é pra dar o play umas três ou quatro vezes.

Arcade Fire no Lollapalooza Brasil

No mês de abril tivemos aqui no Brasil, mais precisamente na cidade de São Paulo, mais uma edição do festival Lollapalooza. Ocorrido no Autódromo de Interlagos, o evento teve como grande destaque a apresentação dos canadenses do Arcade Fire, que atualmente vivem o auge de sua carreira. O show completo não está disponível no YouTube, mas no vídeo abaixo você pode conferir (ou recordar) um pouco do que Win Butler e seus pupilos aprontaram em território tupiniquim.

Ella Eyre em La Blogothèque

O pessoal lá da França sabe como produzir apresentações ao-vivo interessantíssimas… Veja a apresentação de Ella Eyre produzida pelo canal La Blogothèque e faça sua boca cair até o chão.

Clipes & Singles: Semana 10/2014

Clipes & Singles

Coldplay – Magic

Para anunciar a data de lançamento de seu novo álbum, “Ghost Stories”, a banda inglesa Coldplay resolveu liberar mais uma canção inédita de seu catálogo para audição. Se trata de “Magic”, canção que encontra na base eletrônica inserida pelo produtor Paul Epworth um cenário de novidade para os rumos sonoros do grupo. “Ghost Stories” deve sair no dia 19 de maio.

Arctic Monkeys – Arabella

Depois de se tornarem os maiores vencedores da última edição do Brit Awards, os ingleses do Arctic Monkeys resolveram lançar em clipe uma das faixas de maior destaque de seu último disco, “AM”. No vídeo produzido para “Arabella”, ousados cortes de câmeras refletem um clima todo sensual.

Silva – Universo

Se em “Janeiro” e “É Preciso Dizer” o capixaba Silva parece revisitar (da sua própria maneira) melodias cantaroláveis características dos anos oitenta, agora, em “Universo”, uma constante colagem de sons e alocações bem pensadas de loops tornam a terceira canção a ser compartilhada do álbum “Vista Pro Mar” em um número que se agarra mais à sonoridade de “Claridão” – embora com um teor mais voltado à contemplação. Mais uma bela canção para o que promete ser um grande disco.

Sharon Van Etten – Taking Chances

“Are We There”, o novo disco de Sharon van Etten, está para ser lançado no dia 27 de maio. E é apresentando um notável crescimento que a cantora compartilha “Taking Chances”, a primeira canção do novo trabalho a ser revelada. Esbanjando classe, a artista mostra que o novo álbum tem tudo para suceder muito bem o aclamado “Tramp”.

Janelle Monéa – What Is Love

Produzida especialmente para a trilha sonora do filme “Rio 2”, a nova canção de Janelle Monéa, como não poderia deixar de ser, soa como uma verdadeira ode ao clima tropical do Brasil. Misturando aspectos do samba e do axé, a nova canção surge como uma das melhores músicas brasileiras já feitas por artistas gringos nos últimos anos.

Franz Ferdinand – Erdbeer Mund

Para dar imagens ao seu recém-lançado single em alemão, a banda Franz Ferdinand se entregou à zoeira. Em um vídeo pra lá de psicodélico e com aspecto Lo-Fi, o guitarrista Nick McCarthy veste-se com sua irmã e dança com pouca desenvoltura em “Erdbeer Mund”, canção voltada ao público germânico.

Broods – Never Gonna Change

Em um clipe repleto de simbolismos é que o duo Broods dá força a seu single “Never Gonna Change”, faixa presente no EP de estreia do projeto de Georgia e Caleb Nott, lançado no último mês de fevereiro. Unindo um clima de romance com um ambiente úmido, o registro audiovisual é delineado pela imersão.

St. Vincent – Del Rio

Lançada como faixa bônus no Japão e Lado B do single “Digital Witness”, “Del Rio” parece soar como um complemento às complexas estruturas arquitetadas por Annie Clark em seu último trabalho sob a alcunha de St. Vincent. Envolta por uma estrutura de guitarras tortas e desconstrução constante, a artista volta a nos surpreender com sua impecável verve experimental – e, ao mesmo tempo, pop.

Run the Jewels – Run the Jewels

Lançando o registro audiovisual da canção que dá título ao projeto (bem como ao primeiro disco) do projeto encabeçado por EL-P e Killer Mike, os rappers parecem querer dar um ponto final à promoção de seu aclamado, bem como aquecem os motores para o lançamento do segundo disco do Run the Jewels, previsto ainda para 2014.

The Men – Pearly Gates

Apresentando ao seu público o seu mais novo disco, “Tomorrow’s Hits”, a banda The Men revelou o vídeo de “Pearly Gates”, uma das faixas do álbum. Gravado na estrada, e estrelado por malandros e policiais, o clipe consegue, de forma curiosa, alcançar os conceitos anárquicos da canção.

2014: St. Vincent – St. Vincent

St. Vincent

Por: Renan Pereira

Annie Clark é uma daquelas figuras ímpares da música, aqueles seres complexos que às vezes até duvidamos que façam parte do mesmo mundo que a gente. Andrógena e estranha são alguns dos adjetivos com os quais os mais apressados tentam rotulá-la, em uma fracassada tentativa de defini-la.  Talvez nem ela mesma saiba, ao fundo, quem realmente ela é… Certo dia, enquanto revelava a origem de sua alcunha artística, St. Vincent, que remete ao nome do hospital em que o poeta Dylan Thomas falecera, ela disse que “aquele foi o lugar em que a poesia veio a morrer. Essa sou eu”. Indecifrável.

É bem provável que essa ânsia de rotular à primeira vista venha do nosso comportamento quanto a coisas que, de alguma forma, fogem do que consideramos habitual. Embora seja assumidamente pop, St. Vincent não detém os mesmos predicados que formam normalmente o conceito de “diva”. De aparência frágil, voz suave e com uma proeminente via experimental, Annie Clark vai muito além das obviedades que permeiam a música popular. Algo que estranha e faz com que nos surpreendamos positivamente, pois até mesmo o mais pacato dos seres humanos sempre sente uma pontinha de atração pelo exótico. E, sem dúvida, St. Vincent intriga.

Fazendo de seu novo disco uma grande contemplação do universo particular que ela construiu ao longo desses oito anos, Clark borda o seu mais acessível e completo trabalho. Os experimentos e a base “estranha” se mantém, mas tudo que forma a complexa estrutura artística de St. Vincent é moldado a fim de atingir o grande público. A música pop não precisa ser óbvia, e a cantora trata de corrigir uma das mais errôneas ideias quanto ao que se considera “vendável”.

Bastam os primeiros segundos de “Rattlesnake” para que o ouvinte perceba a complexidade que entorna o disco. Envolta em uma sonoridade inventiva e dinâmica, que lembra os momentos mais experimentais de David Bowie e do Talking Heads, Clark dispara um fantástico conjunto de versos, contendo experiências intrigantes que construíram a artista única que ela é… A primeira faixa, por exemplo, é um verdadeiro relato sobre as percepções da musicista enquanto ela andava pelo deserto. “Uma comunhão com a natureza”, ela diz.

Perguntada sobre como o disco soaria, ela não titubeou ao afirmar que seria como “um registro festivo que você poderia tocar em um funeral”. De fato, apesar de mostrar toda a humanidade que pode existir dentro do androginismo, “St. Vincent”, o disco, não renega aos ouvintes uma constante e acertada aproximação com percepções entusiasmantes. Em “Birth in Reverse”, lá está St. Vincent empunhando sua guitarra para construir um número característico seu, tortuoso e complexo – e, ao mesmo tempo, festivo. Ainda está disposto a rotulá-la? Pois saiba que a tarefa fica cada vez mais difícil.

“Prince Johnny”, a terceira faixa, é uma canção extremamente sensorial, na qual St. Vincent brinca com nossas emoções vagando entre a suavidade e o caos. Essa guerra de sentimentos é, em grande parte, possibilitada pela forma inventiva com a qual a artista utiliza a sua guitarra… Não espere dela riffs óbvios, mas sim um conjunto de linhas tortas voltadas a intrigar o ouvinte. A própria forma classuda com que “Huey Newton” se desenvolve mostra com primor a intensa colagem de texturas e sentimentos que Annie Clark não se cansa de fazer. No poderoso single “Digital Witness”, tudo isso se funde em união a um jogo estético que sempre esteve presente na carreira da compositora.

A platônica “I Prefer Your Love” mostra St. Vincent flertando com algo mais próximo ao tradicional, porém com uma altíssima carga sentimental: a canção foi escrita para a mãe da artista, que na época estava doente. Segundo a própria musicista, enquanto “Strange Mercy”, seu álbum anterior, era tratado com um teor mais íntimo, o presente registro é mais expansivo quanto aos sentimentos. Algo que faz com que tudo se aproxime do ouvinte, apesar do dinamismo intensamente inventivo… Vai dizer que “Regret”, apesar de conter arranjos experimentais, não é uma canção acessível?

Haverá aqueles fãs das antigas, que dirão que o novo disco não contém uma sonoridade tão inédita quanto “Strange Mercy”. E isso é verdade. Porém, St. Vincent sempre tratou de fazer de seus registros em estúdio trabalhos únicos, distintos entre si… E apesar de ser menos experimental, “St. Vincent” é mais consistente, acumulando uma extensa bagagem para formar o melhor conjunto de canções já produzido pela musicista… e sem se esquecer, enfim, do público. “Bring Me Your Loves” parece ser, até mesmo, um alento destinado para os mais sedentos por grandes novidades. De certa forma, Annie Clark está disposta a agradar a gregos e a troianos.

A nona, “Psycopath”, esbarra com força na new wave dos anos oitenta, se comportando como um pop-rock com influências de David Byrne, enquanto a décima, “Every Tear Disappears”, utiliza todas as texturas tortuosas de St. Vincent para pregar em nossa mente um conjunto melódico memorável. Como se ainda bastasse algo para causar surpresa (ou até mesmo estranheza), um soft rock essencialmente setentista surge na última faixa, “Severed Crossed Fingers”, na qual St. Vincent explora a capacidade do ser humano em ter esperança mesmo quando ela, na verdade, inexiste. Mais uma sacada inteligente da musicista, que encerra o disco com uma inesperada tranquilidade.

É surpreendente a forma como Annie Clark insiste em nos surpreender a todo instante? Sim e não. No fim, mesmo sabendo que não dá para prever o que a artista irá aprontar, lá estamos nós sendo pegos de surpresa mais uma vez. Às vezes pensamos que St. Vincent ficaria bem em uma camisa-de-força, em outras temos certeza de que um trono seria mais adequado para ela. É justamente por nos confundir, por brincar com nossas percepções, que St. Vincent é uma das figuras mais necessárias da música atual.

NOTA: 8,9

Track List:

01. Rattlesnake [03:34]

02. Birth in Reverse [03:15]

03. Prince Johnny [04:36]

04. Huey Newton [04:37]

05. Digital Witness [03:21]

06. I Prefer Your Love [03:36]

07. Regret [03:21]

08. Bring Me Your Loves [03:15]

09. Psychopath [03:32]

10. Every Tear Disappears [03:15]

11. Severed Crossed Fingers [03:42]

Clipes & Singles: Semana 05/2014

Clipes & Singles

Rodrigo Amarante – Maná

Para apresentar o clipe de “Maná”, nada melhor do que as palavras de seu próprio criador, o músico Rodrigo Amarante: “Essas imagens foram feitas por meu pai e minha mãe em 75 e 76 durante o carnaval em Saquarema, município do estado do Rio de Janeiro. Essas pessoas que se veem aqui são minha família, meus pais e avós, tios, primos e amigos, gente maravilhosa, meus grandes heróis na infância. Todo ano eles formavam esse bloco chamado Saquarema de Banda. Dá pra ver muito claro porque ao invés de chamar de Banda de Saquarema eles inverteram o nome. Todos eles de banda, alguns mesmo entortados, todos palhaços, crianças em espírito. Foi assim que eu cresci e tão logo eu consegui segurar uma baqueta passei a tocar com eles no bloco. Esses foram os momentos mais felizes da minha infância e eu e minha irmã fomos pra sempre marcados por essa época, essas pessoas. Minha irmã, com quem dirigi e editei esse vídeo é hoje ritimista da Estação Primeira de Mangueira e foi pra ela que eu escrevi essa música. Maná é a graça, a bênção, e Má é ela, Marcela. Esse vídeo é uma homenagem à todos que fizeram parte desse bloco, especialmente os mais velhos que faziam tudo acontecer, uma prova de que apesar de nos sentirmos muito modernos e livres no século 21 nossos pais e avós eram muito menos caretas do que somos. Bom, pelo menos os meus”.

Major Lazer feat. Pharrell Williams – Aerosol Can

Uma sucessão energética de batidas explode na parceria do Major Lazer com Pharrell Williams. “Aerosol Can”, faixa do futuro EP “Apocalypse Soon”, é liberada para audição e mostra que os inventos do projeto continuam a todo vapor: em uma exploração das possibilidades dos sons sintéticos, uma sequência rítmica invejável é a morada de um ótimo conjunto de rimas. No mais, Pharrell Williams deixa bem claro que ele é, atualmente, um dos nomes mais requisitados quando o assunto é “parceria”.

Autoramas – Domina

À primeira vista, o novo clipe do Autoramas pode até parecer tosco. Filmado em uma base Lo-Fi e sem um tratamento aparente de imagens, o vídeo parece mais um retrato caseiro de amigos curtindo as férias do que um registro audiovisual de uma banda. Mas e se essa for, realmente, a intenção? O bom humor do conjunto não perdoa, e seu novo clipe, filmado em Fernando de Noronha e retirado do DVD “Autoramas Internacional”, deixa bem claro, mais uma vez, do que se trata o universo particular do grupo.

Tegan and Sara – Don’t Find Another Love

Se existe um projeto musical que, hoje em dia, está totalmente afinado com as trilhas sonoras, este é a dupla formada pelas irmãs Tegan and Sara. Depois de apresentar “Shudder to Think” para o filme “Dallas Buyers Club”, musicar uma propaganda para a Oreo e co-produzir a trilha de “Lego – O Filme”, o dueto foi recrutado para acrescentar uma canção à trilha sonora do ramake de “Um Amor Infinito” – cujo original, de 1981, havia sido estrelado por Brooke Shields. “Don’t Find Another Love” é um número de incrível melodia, em que as doces harmonias vocais das irmãs massageiam nossos ouvidos.

Damon Albarn – Heavy Seas of Love

“Everyday Robots”, disco de Damon Albarn em carreira solo, tem tudo para ser um dos melhores álbuns deste ano. Depois de nos surpreender positivamente com a faixa-título do trabalho, o líder do Blur agora apresenta sua parceria com o mestre Brian Eno. Em “Heavy Seas of Love”, uma estrutura orgânica formada por acordes de piano e coros de vozes encontra toques robóticos em uma fantástica concepção de arranjos.

Banks – Brain

Um dos álbuns de estreia mais esperados de 2014, o primeiro disco de Banks começou a ganhar os seus primeiros contornos através de apresentação da parceria entre a cantora californiana e o produtor Shlohmo. Envolvida em uma sonoridade deliciosamente inédita, “Brain” deixa claro que a artista está em evolução constante: em sua canção mais complexa até esta data, Banks e seu vocal límpido flutuam por incríveis arranjos eletrônicos, compostos por seções tortuosas de batidas e uma forte aproximação com o Lo-Fi.

Fernanda Takai – You and Me and the Bright Blue Sky

“Na Medida do Impossível” será o primeiro álbum de músicas inéditas de Fernanda Takai em carreira solo. Previsto para o mês de março, o novo trabalho da vocalista do Pato Fu contará com participações de nomes como Pitty, Marcelo Bonfá, Marina Lima e Julieta Venegas, e provavelmente mostrará uma faceta mais introspectiva do senso composicional de Takai. Flertando com os dogmas da música pop, o primeiro single do futuro registro, “You and Me and the Bright Blue Sky”, constrói com muita leveza o cenário perfeito para o sensível vocal de Takai passear livremente. Sensibilidade, aliás, é o que não falta ao clipe, que retrata lindamente a paixão do ser humano pelo seu cachorro, e vice-versa.

St. Vincent – Digital Witness

Todo o jogo estético que preenche a carreira de Annie Clark acaba encontrando uma morada natural com as imagens que preenchem o poderoso single “Digital Witness”, até agora a mais proveitosa prévia do disco “St. Vincent”, que será lançado em 25 de fevereiro. Próxima da vanguarda setentista, e bebendo dos conceitos andrógenos de David Bowie e do Talking Heads, Clark reforça o teor visual de sua música com o novo clipe, em que ela estabelece, na estranheza coreográfica de seu próprio universo, a ambientação perfeita para seus inventos.

Cloud Nothings – I’m Not Part of Me

“Here and Nowhere Else”, disco que tem a incumbência de suceder o elogiado “Attack on Memory”, de 2012, acaba de ganhar seu primeiro single com “I’m Not Part of Me”. Deixando claro que Dylan Baldi não dormiu no ponto, a faixa se comporta como uma continuação dos inventos da banda, embora se agarre à antiga estrutura Lo-Fi que havia sido abandonada no último disco do conjunto. Se não demonstra o resultado incrível que muitos esperavam, a canção é, sem dúvida, um bom aperitivo para o novo disco, cujo lançamento está previsto para o dia 1º de abril.

Lana Del Rey – Once Upon a Dream

Enquanto aguardamos o novo disco de Lana Del Rey, “Ultraviolence”, a cantora não se cansa de apresentar ao seu público novas nuances de seu universo particular. Depois do curta “Tropico”, Lana investe mais uma vez em sua atmosfera característica na versão de “Once Upon a Dream”, regravação que integrará a trilha sonora do aguardado filme “Malévola”, estrelado por Angelina Jolie e uma das grandes apostas da Disney para esse ano de 2014.

Clipes & Singles: Semana 50/2013

Clipes & Singles

Pelo menos musicalmente, 2013 e 2014 se fundem na mais nova edição da nossa seção Clipes & Singles. Na segunda semana de dezembro, canções referentes a trabalhos recentes e futuros se misturam em uma seleção heterogênea, mas fortemente ligada à música alternativa. Quer provas de que o indie está ditando as ordens do mundo musical? Acompanhe os vídeos abaixo e divirta-se em uma viagem por diferentes vertentes da atualidade.

Apanhador Só – Mordido

Antes que você conte outra, devo afirmar que o último disco dos gaúchos da banda Apanhador Só está não apenas entre os melhores do ano, mas entre os maiores clássicos do indie rock brasileiro. Portanto, alguma música do disco merecia um registro audiovisual, não? Comprovando que ao-vivo as coisas ficam ainda mais quentes, o clip de “Mordido”, canção que abre o disco “Antes que Tu Conte Outra”, mostra que mesmo fora do estúdio os caras conseguem captar todos os efeitos que constroem a estrutura torta (e inventiva) de sua base musical.

St. Vincent – Birth in Reverse

O ruído tomou conta da música de St. Vincent. Isso pelo menos é o que mostra “Birth in Reverse”, trazendo um conceito mais próximo do rock do que da música pop. Primeira faixa disponibilizada do futuro álbum de Annie Clark, a ser lançado ainda no primeiro semestre de 2014, a canção faz o ouvinte se deparar com um show de guitarras, amparadas em uma estrutura praticamente matemática.

Zula – Twin Loss

Cenários pouco famosos de Nova York e uma movimentação constante formam o clipe de “Twin Loss”, canção de destaque dos novatos do Zula. Faixa integrante do ótimo álbum “This Hopeful”, lançado em novembro, a canção passeia por elementos psicodélicos enquanto encara uma sonoridade tranquila, pautada no rock alternativo dos anos noventa, mas nem por isso pouco colorida, bordando em imagens um registro propositalmente atmosférico.

Kaiser Chiefs – Misery Company

Parece que o Kaiser Chiefs realmente perdeu o fio da meada. Acompanhando o resultado ruim dos trabalhos mais recentes do grupo, “Misery Company”, primeira faixa liberada do futuro disco “Education, Education, Education & War”, se agarra ao conceito sempre bem-humorado e irônico, tradicional das canções do quinteto, mas se perde em uma sonoridade pobre, em que nem o ritmo consegue soar interessante. Agora é esperar, e torcer para que as demais canções do álbum não sejam tão fracas quanto o primeiro single.

Young Galaxy – Fever

Brincando com o poder da nossa visão, o grupo Young Galaxy constrói, com as bases sonoras de “Fever”, mais um clipe relativo ao disco “Ultramarine”. Refletindo o alcance de nossos olhos, as cores e os cenários que podem (ou não) ser visualizados, o vídeo se agarra aos detalhes para dar imagens certeiras a uma canção naturalmente psicodélica.

Pixies – Another Toe in the Ocean

Embora o rápido “EP1” não tenha sido muito bem recebido pela crítica, a banda Pixies continua se esforçando para a promoção do registro. Nova música do grupo a ganhar imagens, “Another Toe in the Ocean” é retratada em animação, trazendo como protagonista Black Francis, que primeiro participa de uma corrida maluca, depois é envolvido em uma explosão de doces, se mete no meio de uma operação policial para deter um bebê gigante e, no fim, é engolido por uma baleia gigante dentro de um copo de suco. Se a música não nos remete aos gloriosos tempos da banda, o clipe pelo menos é bem divertido.

Lorde – No Better

Lorde não deve abandonar os holofotes muito cedo. Seja com a já clássica “Royals” ou com o belo conjunto de canções do disco “Pure Heroin”, a neozelandesa vem se tornando uma nova estrela da música pop. Embora não esteja presente no bem-sucedido álbum de estreia da artista, “No Better” é uma sequência de toda a atmosfera sonora plantada por Lorde, encontrando nas batidas de hip-hop e em um teor que, apesar de pop, não deixa de experimentar, uma atmosfera totalmente assertiva. Se 2013 foi um grande ano para Lorde, 2014 promete ser igualmente glorioso.

Maximo Park – Leave This Island

Com a soturna “Leave This Island”, o Maximo Park apresenta ao público mais um capítulo de seu futuro disco “Too Much Information”, a ser lançado no início de fevereiro. Mais melódica do que dançante, a música ganha nas imagens repletas de simbolismo, que discutem a velhice e a passagem de tempo, um significado mais do que especial, que alcança sem muita dificuldade o conceito suave proposto pela canção.

Rashid – Bate e Gol

Se em “Confundindo Sábios” Rashid explorou diversas nuances do cotidiano popular, não poderia faltar ao disco alguma música falando sobre futebol, uma das maiores paixões do brasileiro. Embora a canção embarque em metáforas, um jogo de futebol entre duas equipes de rappers foi gravado para a canção “Bate e Gol”. Nomes como Emicida, Rael, Kamau e, é claro, o próprio Rashid, disputam uma pelada entre amigos, em que o juiz é interpretado pelo ator Milhem Cortaz, o policial Fábio Barbosa de “Tropa de Elite”.

Stephen Malkmus & The Jicks – Cinnamon and Lesbians

E se um clipe seguir literalmente a letra de uma canção conceitualmente lisérgica, como “Cinnamon and Lesbians”? O resultado sem dúvida é divertido. Mostrando mais uma prévia de “Wig Out at Jagbags”, álbum de lançamento previsto para o início de janeiro, o veterano Stephen Malkmus e a banda The Jicks dão imagens literais a seu bem-humorado novo single, deixando, mais uma vez, bem clara a proposta noventista que será carregada pelo futuro disco.