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Entrevista: Fernando Temporão

Por: Renan Pereira

Fernando Temporão é um dos mais talentosos compositores da nova geração da música brasileira. Radicado nas tradicionais rodas de samba do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, o músico apresentou, em seu primeiro disco em carreira solo, uma sonoridade que vai muito além do samba que o lapidou.

“De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” foi eleito pelo RPblogging como uns dos 30 melhores discos nacionais de 2013 devido à abrangência deliciosamente pop com a qual o músico expôs traços de sua intimidade, quebrando com naturalidade aquele muro que sempre é construído contra o ouvinte quando o artista decide abordar seu próprio interior. Temporão fala simples, mas de coração.

Um nome emergente da música brasileira, Temporão volta a abrir a gaveta da sua alma nessa entrevista ao RPblogging. Nela, o artista nos conta um pouco mais sobre a sua carreira, partilhando também suas opiniões um pouco sobre os rumos da música alternativa feita principalmente no Rio de Janeiro.

Fernando Temporão

Como e quando você começou na música? Desde o princípio, você tinha certeza de que gostaria de seguir carreira como músico?

Tudo começou com um violão velho do meu pai que ficava lá em casa, encostado no canto. Acho que ter aquele instrumento ali, à mão, foi determinante pra tudo o que veio depois. Além do violão, meu pai sempre comprou muitos discos, ouvia música o tempo todo – em alto volume – e eu acompanhava de perto todo esse universo da chegada dos cd’s, os Lp’s, a coleção de discos antigos, os amplificadores, caixas de som, vitrolas… ainda lembro quando ele comprou nos Estados Unidos um cd-player de cartucho, onde cabiam 5 cd’s, foi uma revolução! A música era, portanto, onipresente. Em 1994, quando fiz 11 anos, pedi aos meus pais que pagassem um professor de violão, e essas aulas só aprofundaram minha curiosidade pela música. Meu professor era o Nelson Cerqueira, irmão do DJ Edinho, um cara que tocava numa banda de Ska muito bacana chamada Kongo e conhecia tudo de reggae. Eu, aos 11 anos, tinha nessas aulas, frequentemente, momentos de bate papo sobre música, política, futebol… tinha um lado bacana de tirar as músicas que eu queria saber tocar e um lado mais sério também, de estudo. O Nelson era um instrumentista exigente e lembro dele passar umas coisas do Bach, Villa-Lobos e até mesmo do João Pernambuco pra estudar. Acho que ainda sei tocar “Sons de Carrilhões”.

Então esse ambiente musical em casa foi fundamental, e ter aprendido a tocar violão com 11 anos foi bacana também porque a partir daí eu passei a ter alguma autonomia com o instrumento, passei a tirar músicas de ouvido e virar as tardes e noites todas tocando. Anos depois, na faculdade de Ciências Sociais, quando bateu uma crise e eu passei a questionar se era aquilo mesmo que queria pra mim, concluí que o que me dava mais prazer era fazer justamente o que eu já fazia todo santo dia: tocar violão, compor e cantar. Essa simples constatação afetiva me ajudou a sustentar essa opção pela música profissionalmente.

Você não vem de uma família de músicos, e por mais que haja sempre um apoio incondicional dos pais, viver de arte é algo muito complicado. Houve algum momento em que seus pais tentaram te convencer a investir em outra profissão e deixar a música pra lá?

Vir de uma família tradicional, no sentido das escolhas profissionais dos meus pais, tios e avós, é sempre mais complicado, porque todo protagonismo é traumático por natureza. Eu sou o primeiro e, por enquanto, único membro da família inteira a trabalhar e viver de arte. Tenho um irmão mais novo, Gabriel, que está estudando música e, quem sabe, siga o mesmo trilho. Mas embora o contexto familiar seja esse de um núcleo mais tradicional, sempre tive apoio dos meus pais pra seguir na música. Em nenhum momento eles sugeriram algo ou fizeram qualquer tipo de pressão pra que eu investisse em outro caminho. Na realidade, a pressão que sinto e sempre senti, no sentido de sustentar essa escolha, é minha mesmo, é uma cobrança que me faço o tempo todo.  Pode ser que essa paixão evidente pelo ofício que escolhi, tenha convencido eles desde cedo de que não haveria mesmo outra estrada pra mim e, além disso, meus pais sempre nutriram muita simpatia pelas artes, pela música… na realidade minha escolha parece ser muito mais um motivo de satisfação do que frustração pra eles. Isso me ajuda e me atrapalha. De qualquer forma, acho que normalmente as pessoas tendem a procurar um ofício que proporcione um equilíbrio entre a satisfação pessoal, o prazer, e o retorno financeiro. Só que os artistas costumam estar tão afetados por um amor e pela inevitabilidade de se fazer o que se faz, que esses cálculos pragmáticos ficam em segundo plano.

Como foi adentrar no mundo da música e perceber que, aos poucos, você estava tocando com gente importante e, mais do que isso: se tornando um artista importante?

Acho que esse tipo de percepção acontece naturalmente, com o tempo, com os acidentes e acertos da vida. Mais do que chegar em algum lugar ou atingir objetivos ou se tornar algo, o grande lance da vida é ter prazer com o que se faz, dia após dia, sem muita preocupação com as consequências disso. Em algum momento eu certamente vou fazer um apanhado de tudo o que fiz, mas por enquanto a sensação que tenho diariamente é a de que as coisas ainda estão começando e tenho tudo por fazer. Se no meio dessa caminhada toda alguém considerar minha música importante e relevante, acho que posso pensar que estou indo pro lugar certo. Eu me vejo, ainda hoje, subindo um degrauzinho a cada dia, conhecendo pessoas maravilhosas a cada dia, crescendo um pouco mais a cada erro e acerto e, principalmente, aprendendo a sobreviver entre os desafios que me são impostos por esse universo profissional da música. Mas é, de fato, muito bacana quando a gente pode trocar experiências com pessoas que admiramos e que são importantes pra nossa evolução.

Você tem uma raiz artística muito ligada ao samba. Trabalhou com o grupo Sereno da Madrugada e lançou um trabalho em parceria com o João Callado. Por que, no primeiro trabalho solo, você decidiu seguir outra trilha musical?

Essa é uma pergunta que tem sido feita com frequência e que, inclusive, deu a tônica para algumas críticas do disco. Senti algum grau de frustração em jornalistas que esperavam um disco de samba. Acho importante explicar:

Minha relação com o samba e com o universo do samba se estabeleceu inicialmente na Lapa, no comecinho dos anos 2000, quando entrei para a faculdade. Naquele momento, havia um clima muito forte de revalorização dos antigos compositores de samba e choro na mesma medida em que ocorria uma revitalização da Lapa enquanto espaço urbano, como se uma coisa alimentasse a outra. Novos espaços estavam surgindo, o circo voador estava sendo reconstruído, brotavam novas casas noturnas, a Lapa passou a ser um lugar minimamente seguro para ser frequentado à noite, os músicos estavam tendo novos espaços para trabalhar e muita gente nova (que era o meu caso) chegou junto para ver aquilo acontecer e fazer parte. Acho que havia um clima de novidade e uma sede de se conhecer os compositores antigos, os discos, as histórias, uma coisa da identidade carioca que sempre esteve no ar mas que naquele momento se cristalizou artisticamente. Nesse momento, nós que estávamos num nicho artístico mais tradicional – no caso a Lapa e a faculdade de Ciências Sociais – criamos o Sereno da Madrugada e começamos a tocar por ali, no centro da cidade, mas essa sede de música brasileira, de revalorização do baile, da gafieira, estava por todo lado, inclusive pela zona Sul, onde o pessoal da Orquestra Imperial, de um nicho artístico mais contemporâneo, também passou a fazer seus bailes de samba semanais. Eu estudava no centro, vivia tocando e vendo shows na Lapa, mas morava na Zona Sul, ia aos bailes da Orquestra Imperial, e acompanhava as carreiras do Kassin, do Domenico, do Rodrigo Amarante e cia. Ainda trabalhava na gravadora Biscoito Fino e convivi com Francis Hime, Áurea Martins, Herminio Bello de Carvalho (de quem me tornei parceiro), Luiz Melodia e uma turma da MPB. Então posso dizer que foram anos intensos de pesquisa musical, de ouvir, a cada semana, 2 ou 3 novos discos, estudar violão de 7 cordas, fazer shows com o Sereno e, em paralelo, ir aos shows do Los Hermanos, do Monarco, da Adriana Calcanhoto e do Élton Medeiros.

Então essa curiosidade pelo antigo (que não deixava de ser novidade para mim) convivia tranquilamente com o amor ao contemporâneo porque, de fato, essas coisas não competem, né? Eu compunha muito, mas poucas músicas eram sambas… e eu tentei bastante! A maioria das músicas tinha uma pegada mais pop, já naquela época. E segui assim, fazendo minhas parcerias com o pessoal da Lapa (Moyseis Marques, João Callado, Alfredo Del-Penho, Roberta Nistra, João Martins e etc…), fazendo os shows e gravando.

Agora, o disco que fiz com o Sereno se chamou “Modificado” e já apontava uma vontade importante de trazer ao samba da Lapa, sempre tão reverente, uma linguagem mais contemporânea… gravamos inclusive o ‘Samba a Dois’ do Camelo como uma forma de indicar isso. O samba título do disco, de autoria do Padeirinho da Mangueira, dizia “Vejo o samba tão modificado, que também fui obrigado a fazer modificação (…)” e isso era uma espécie de manifesto pra nós do Sereno. Acho que meu desejo de trabalhar com o novo está muito presente desde essa época e  posso afirmar que minha busca, com o Sereno, já era fazer mais ou menos o que fiz agora no disco solo… E, depois, com o fim do grupo, teve o disco com o João Callado que, embora seja um trabalho mais tradicional, com participação de muita gente bacana, não pode ser visto como um definidor de identidade, até porque as músicas são quase todas do João, e eu entrei mais como letrista para a estética daquele repertório bonito. Foram dois trabalhos compartilhados.

Quando resolvi fazer um meu, um disco solo que refletisse, portanto, quem eu sou musical e artisticamente, as músicas que estavam guardadas no baú eram essas que estão no disco, já estava tudo pronto, definido há muito tempo do ponto de vista da linguagem que eu utilizaria. Acho importante dissecar bastante os fatos nessa questão para que fique claro o quão natural foi fazer o “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”. Embora haja realmente uma diferença estética importante quando se comparam os trabalhos, não acredito em nenhum tipo de rupturas ou mudanças de trilha do ponto de vista pessoal e afetivo. A trilha desse disco é a trilha que já estava dentro de mim.

Além de trazer uma grande qualidade lírica e melódica, o disco “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” é um primor em produção. Quão grande foi a participação do time de produtores e colaboradores na sonoridade final do trabalho?

O Kassin e o Alberto Continentino foram importantíssimos nesse processo de construção da ‘cara’ do disco. Eu levei muitas idéias prontas, muitas coisas que eu queria que fossem feitas de uma forma específica, mas lá no estúdio nasceram tantas outras fundamentais sobre a forma, instrumentação, arranjo e etc. Acho que o diálogo com os produtores foi muito bacana, fluido, tranquilo, e o disco ficou da forma que eu gostaria que ficasse. E eu acredito muito nessa maneira de trabalhar, coletivamente, de ir criando enquanto se grava, sem muita responsabilidade ou necessidade de ter que estar com tudo pronto antes de chegar no estúdio. E tem a contribuição dos parceiros, do Domenico, que fez música e tocou no disco, do Mauro Aguiar, um verdadeiro gênio, um dos grandes letristas da música brasileira, do Verocai, que escreveu lindos arranjos de cordas… de um monte de gente.

Está satisfeito com a recepção do disco, tanto pela crítica quanto pelos ouvintes?

Olha, eu me sinto muito feliz. Embora eu saiba que a crítica é relativa e não define muita coisa, foi bacana a ter tido uma resposta tão positiva, em sites, revistas, blogs e etc. E o público surpreende sempre. A quantidade de pessoas que escrevem é muito grande. Hoje mesmo recebi um recado de um rapaz que queria a cifra de “O que é Bonito” para gravar um vídeo de aniversário pra noiva dele… é bacana quando as pessoas querem tocar as músicas. Eu sou muito crítico, comigo e com os outros… acho que mesmo com toda a satisfação, eu tendo a buscar outras coisas pro próximo disco. Mas tudo funcionou pra um primeiro projeto feito de maneira independente, temos quase 10 mil downloads de pessoas que foram ali, espontaneamente procurar meu som… a música tem circulado sem máquina nenhuma pra empurrar. A preocupação tem sido cada vez maior com um lado mais burocrático, esse lance de produção, e de profissionalizar a coisa toda, fazer grana pra bancar as próximas empreitadas.

No mês passado, você participou do ótimo “Cultura Livre”, da Roberta Martinelli. O ponto que talvez mais tenha surpreendido quem assistiu ao programa foi a sua indignação com a forma que a música independente vem sido tratada pelo pessoal do Rio de Janeiro. A gente percebe que a imprensa carioca está muito concentrada dentro de um único grupo de mídia, e esse grupo de mídia não parece muito interessado em abraçar o que está sendo feito atualmente dentro da MPB, exceto raríssimos casos. O apoio do poder público do Rio também é pequeno, infelizmente. O pior de tudo é que, acompanhando o cenário alternativo atual, se vê uma produção muito maior ligada a São Paulo, embora existam muitos artistas de qualidade no Rio de Janeiro – talvez até em igual proporção com a capital paulista. Como sobreviver a isso?

São vários problemas que todo artista independente precisa superar. Os governos do Rio de Janeiro, nas esferas municipal e estadual, até têm grana pra sustentar durante todo o ano, centenas de shows para artistas independentes, com remuneração digna e estrutura. Mas falta quem pense, quem elabore, quem conheça a cena e tenha tesão de fazer acontecer. A própria rede de SESC’s existe no Rio, mas não existe alguém lá dentro que consiga fazer um centésimo do que é feito em SP. Não sei se conseguiríamos fazer igual, porque a dimensão é menor, mas poderíamos fazer muito mais. Acho que o Rio sempre teve um protagonismo artístico e cultural no Brasil, por uma série de motivos, mas não basta ter uma cena brilhante, como temos hoje, se não há vontade dos jornalistas, por exemplo, de vestir a camisa. É preciso algum grau de bairrismo pra que as coisas aconteçam. Os poucos projetos que acontecem aqui na cidade, com estrutura e cachê, feitos por curadores cariocas, tem pouquíssimos artistas cariocas. Os espaços oferecidos, quando existem, são no esquema “dê o seu jeito”. Tudo contribui para que o artista desista de tocar e vá abrir uma cafeteria. Eu sempre disse que uma cena só se constrói com vontade política, porque isso é um ato politico de identidade local, e quando, ao lado dos músicos, existem jornalistas, empresários, produtores. Acho que em São Paulo houve mais vontade de fazer acontecer, além de todos os outros fatores que ajudam, como o tamanho da cidade, a quantidade de espaços e etc. Mas o último ano foi sensacional pro Rio. Espero que continue melhorando.

Creio que você seja um defensor do samba. Falando sobre o gênero, talvez no Brasil o mais culturalmente marcante de todos, ele anda mais sumido do que deveria, não é verdade? Embora ele se encontre muito fundido a outras vertentes, aquele samba mais clássico e puro parece engavetado nas estantes dos grandes compositores do passado. Por que, afinal, há essa impressão?

Acho que essa é uma questão de mídia e mercado. Existem diversos artistas talentosos que fazem samba tradicional e que, assim como a maioria dos compositores contemporâneos dessa “nova MPB”, não têm espaço pra mostrar o trabalho. Talvez a combalida Lapa seja o reduto único. Quando a gente fala de música no Brasil, acho que raramente padecemos de falta de qualidade. Se as pessoas não conseguem ouvir samba é porque as rádios não tocam, a tevê não toca e por aí vai. Existe um filtro de mercado muito perverso que privilegia, normalmente, o que é banal, popularesco, comercial. A Regina Casé está lá na tevê, todo fim de semana, com Péricles, Thiaguinho, Arlindo Cruz e Xande de Pilares. Esse é o único samba que as pessoas podem ouvir. Artistas como Marcos Sacramento e Moyseis Marques, dois dos maiores cantores de samba do Brasil, não estão no “Esquenta”. Não acho que o samba esteja sumido… quem procurar vai achar com facilidade no beco do rato, no semente, no samba do ouvidor, no renascença. O problema é que as pessoas procuram cada vez menos as coisas. E, como todo produto, é importante que as coisas cheguem até as pessoas. Só que não vai tocar no radio se não pagar jabá… na tevê idem. Dilemas que a internet não conseguirá dissolver em curto prazo, embora haja avanços.

Penso que, embora todo artista tenha aquela vontade de sair Brasil afora fazendo shows, não existam tantas oportunidades. Você planeja sair com a sua banda, levando sua música para os quatros cantos do país?

Com certeza o desejo é enorme. É muito frustrante não poder estar fisicamente em todos os espaços onde sei que a minha música é tocada. A internet é muito importante no sentido de fazer as pessoas conhecerem o som, mas elas querem mais, querem ver o show, o artista. Um exemplo: parte grande do meu público é de jovens do norte/nordeste que perguntam, dia sim dia não, quando estarei na Bahia, Recife, Manaus ou João Pessoa. Então é realmente muito frustrante saber que todo risco financeiro para levar a banda para fora do estado é meu. Por isso, repito, é fundamental que o artista consiga essa estrutura básica de produção para que possa circular. Mas nem sempre isso é possível. Os planos próximos, infelizmente, se restringem a Rio e São Paulo. E a esperança, tá viva, sempre.

Agradecemos imensamente a participação de Fernando Temporão. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”, o primeiro álbum solo do músico.

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2014: Encarnado – Juçara Marçal

Encarnado

Por: Renan Pereira

Apesar de “Encarnado” significar o início de uma carreira solo, Juçara Marçal passa longe de ser uma estreante. Experiente, há mais de vinte anos trabalhando em prol da música alternativa paulistana, emprestando sua voz para projetos como Vésper, A Barca e o aclamado Metá Metá, a cantora acumula toda essa vivência para construir, no primeiro disco que carrega o seu nome no título, um trabalho mais do que simplesmente convincente. Uma obra-prima, “Encarnado” surge como um capítulo fundamental dos novos rumos da música brasileira.

Se o fato de compreender o primeiro exemplar da discografia solo de uma grande intérprete já não bastasse, “Encarnado” se comporta como a maior obra já produzida por um incansável núcleo criativo que renova, já há algum tempo, a MPB produzida na cidade de São Paulo. Composto por nomes como Kiko Dinucci, Romulo Fróes e Thiago França, por exemplo, esse aglomerado de artistas com ideais partilhados tem se especializado em construir verdadeiros colossos em estúdio nos últimos anos… Os discos “Metal Metal”, do Metá Metá, e “Passo Elétrico”, do Passo Torto, são apenas dois exemplos da extrema competência que envolve essa turma.

Sendo uma integrante desse núcleo, Juçara Marçal utiliza com propriedade um conglomerado de referências da Vanguarda Paulista para costurar seu álbum de estreia. Seja com referências diretas a velhos nomes, como Itamar Assumpção e Tom Zé, ou com a utilização da sonoridade ruidosa que envolve o grupo Passo Torto, Juçara faz de “Encarnado” muito mais uma continuação dos inventos de um movimento do que um simples “início”.

Até porque, se existe um mote que guia o pensamento da cantora neste álbum, esse é “começar pelo fim”. Sim, a morte é o tema central do disco. Mas embora carregue o título de “Encarnado” e tenha uma temática bem definida, o álbum significa, na realidade, muito mais do que música… Ainda que o conceito central seja a morte, seria um erro crasso não degustá-lo como uma grande ode à vida.

Vida que morre para renascer, reencarnar. “Não diga que estamos morrendo, hoje não”, entrega a cantora logo nos primeiros versos do disco, mostrando que apesar da chegada dos últimos suspiros, o que prende a artista à temática é a vontade de sobreviver. Uma vida maleável, frágil, incerta, que é representada com louvor pela colossal instrumentação construída por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rohrer. Aliás, tratar “Encarnado” como um trabalho só de Juçara seria um descompasso.

Mas Juçara Marçal é, obviamente, a grande estrela da obra, fato que é inserido na mente do ouvinte logo nos primeiros instantes de “Velho Amarelo”, a primeira faixa. Trabalhando para alocar a cantora em um palco do qual o espectador não desviará os olhos, a canção, composta por Rodrigo Campos, se comporta como uma apresentação perfeita do conceito da trabalho, delineando os rumos instrumentais e líricos que o embalarão em sua totalidade.

Ancorado em uma atmosfera caótica, mas que nunca se descontrola, o álbum vai entregando ao público formidáveis interpretações de Juçara ao mesmo tempo em que o tema central é encarado de diferentes maneiras por cada faixa. Na agressiva “Damião” o olhar é voltado para a vingança, enquanto em “Queimando em Língua” é uma representação romântica que embala a morte. Tudo encarado sob uma ótica arriscada e inesperada, que, segundo palavras de Romulo Fróes no release do disco, era inimaginável até mesmo para as pessoas que sempre acompanharam de perto a carreira da cantora. Juçara surpreende a todo instante, quebrando com o habitual conforto que normalmente embala a MPB.

Em “Pena Mais Que Perfeita” há a aceitação do destino, derramando lástimas enquanto o momento derradeiro é aguardado com melancolia. Única canção do álbum composta por Juçara, “Odoya” transforma a voz da cantora em um instrumento que vaga em oração, pedindo proteção para encarar o momento mais chocante do disco: uma dança com os aspectos mais violentos da morte. “Ciranda do Aborto” é a faixa central do disco, construindo com contornos épicos um número de força absurda, que assusta, espanta, e faz a artista se desmanchar em uma interpretação magistral. Monumental, a canção se candidata não apenas à melhor música desse ano, mas de muito tempo.

Um dos poucos momentos em que Juçara se agarra ao conceito pronto do Metá Metá mora na “Canção Pra Ninar Oxum”, de Douglas Germano, com suas alusões claras às heranças africanas. Em “E o Quico”, de Itamar Assumpção, a cantora se rende a suas referências da Vanguarda Paulista, brincando com a loucura no cenário de uma abdução. Outro grande artista lembrado por Juçara, Tom Zé empresta para “Encarnado” a canção “Não Tenha Ódio no Verão”, originalmente lançada no disco “Tropicália Lixo Lógico”, de 2012.

“A Velha Capa Preta”, composição de Siba, personifica a morte, tratando-a como um monstro, uma vilã, ao dizer que ela “anda no mundo vestindo mortalha escura
, e procurando a criatura que espera condenação. Quando ela encontra um cristão sem vontade de morrer, e ele implora pra viver, mas ela ordena que não”. A passagem do tempo também é fatal, e “Presente de Casamento”, apesar de se ambientar em um incêndio, é um retrato da espera da morte inevitável enquanto se está na velhice.

Na última faixa, “João Carranca”, Juçara Marçal entorpece-se de malemolência para mostrar mais uma de suas facetas: a de contadora de histórias. Na canção, é contada a saga de um garoto bonito que, após ter o rosto desconfigurado, passou a ser zombado: “E o que era belo, agora espanta, e o seu nome hoje é João Carranca”. Versos de Dinucci para um grande samba, deixando claro, no desfecho do disco, de onde vem as inspirações dos músicos que o bordaram.

A certeza que fica, no fim, é que cantando sobre a morte Juçara nunca esteve tão viva. De forma excepcional, ela passa por cima de todo o seu passado para renascer em uma nova artista, com uma nova carreira… Morrer, afinal, às vezes pode ser bom. E ao morrer em doze canções, para depois reencarnar, Juçara Marçal oferece um veneno letal àqueles que tem decretado a morte da música brasileira… esses sim não tem o direito de viver novamente.

NOTA: 9,2

Track List:

01. Velho Amarelo [04:25]

02. Damião [02:06]

03. Queimando a Língua [05:04]

04. Pena Mais Que Perfeita [04:16]

05. Odoya [02:49]

06. Ciranda do Aborto [05:40]

07. Canção Pra Ninar Oxum [03:25]

08. E o Quico [02:42]

09. Não Tenha Ódio no Verão [02:52]

10. A Velha da Capa Preta [03:47]

11. Presente de Casamento [01:18]

12. João Carranca [02:00]

Entrevista: Romulo Fróes

Por: Renan Pereira

É com um prazer imenso que o RPblogging traz Romulo Fróes como o entrevistado desse mês de março. Integrante da vanguarda paulista, e um dos mais respeitados nomes da MPB, Romulo vem construindo uma carreira consistente desde 2001, quando lançou o seu primeiro EP. Com quatro álbuns em carreira solo, e uma incrível colaboração no seminal coletivo Passo Torto, Fróes cada vez mais se consolida como um dos músicos mais completos da cena paulistana, tendo participado de grandes obras da música – mais recentemente, do já clássico “Encarnado”, de Juçara Marçal.

romulo froes

Quando foi dado o pontapé inicial da sua carreira como músico?

Minha carreira teve início como a de tantos outros músicos, montando bandas na época do colégio. Com uma dessas bandas, o Losango Cáqui, cheguei até a lançar dois discos, que foram mais importantes para me aproximar do universo em torno da música, shows, gravações, do que propriamente para enriquecer a minha obra. Em 2001 lancei um EP com apenas quatro músicas que me serviu de diretriz para o que pretendia fazer dali em diante. Mas minha estreia mesmo acho que foi com o “Calado”, meu primeiro disco solo lançado em 2004, que já trazia minhas composições em parceria com o Clima e o Nuno Ramos, parceria essa que perdura até hoje.

Quais foram os nomes que te inspiraram no início? Estes ainda te inspiram?

Desde sempre, e em meu primeiro disco ainda mais, o samba de vertente mais triste me influenciou mais do que qualquer coisa. O modelo para as minhas primeiras canções eram artistas como Paulinho da Viola, Zé Keti, Batatinha, Cartola e acima de todos, Nelson Cavaquinho. Estes artistas ainda continuam servindo de farol para a minha obra, mas minhas canções já se contaminaram de muitas outras referências, inclusive de artistas contemporâneos a mim, coisa que não acontecia em meu início de carreira.

Já fazem treze anos que você lançou seu primeiro trabalho em estúdio. Muita coisa costuma mudar em tanto tempo… O que mudou em você, como músico e como pessoa?

Puxa vida, essa é difícil. É tanta coisa que muda em sua vida em um ano, em um mês, que dirá em treze anos! Mas se pudesse me ater a um único ponto de vista, acho que o que mais se transformou em mim neste tempo todo, foram minhas expectativas em relação a minha carreira. Estou me referindo ao seu aspecto prático, ao sucesso e a minha reavaliação do que é sucesso e principalmente ao aprendizado de se construir uma obra à margem da indústria fonográfica. O que se mantém intacto em mim nesses treze anos é meu profundo compromisso com o meu trabalho, minha incansável dedicação ao ofício de compor e meu desejo irreversível de contribuir para a canção brasileira. Mas hoje sou muito mais realista com a minha condição de artista independente, já não carrego a ilusão de uma recepção maior ao meu trabalho e nem mesmo espero que a minha obra seja posicionada historicamente na música brasileira. Aprendi a abaixar as expectativas para vencer o ressentimento.

Seu senso composicional é rotulado por alguns como “poesia urbana” – e é realmente perceptível que a cidade sempre te instigou. Muito tempo atrás Adoniran Barbosa já cantava São Paulo, mas como a cidade muda constantemente, quem deseja inserir a cultura paulistana em sua música também deve mudar a todo instante… Como você vê São Paulo no presente, e de que forma ela te inspira a evoluir como letrista?

É curiosa essa associação das minhas canções com São Paulo e penso que isso se deva muito mais a minha participação no Passo Torto, grupo do qual faço parte ao lado do Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos. Procure em meus discos solos alguma canção que faça menção a São Paulo ou a vida das pessoas nessa cidade, você não vai achar. É claro que somos influenciados pela vida que levamos em uma cidade como São Paulo, mas minhas canções e de meus parceiros mais habituais, Clima e Nuno Ramos, não fazem referência direta a essa condição, elas são muito mais abstratas que descritivas. Se referem muito mais a sensações, pensamentos, angústias, questionamentos, sobre a própria música brasileira e sobre a vida de qualquer um, do que propriamente se referem a nós mesmos e ao nosso cotidiano. Minha inspiração vem antes da música popular brasileira de todas as épocas, que da cidade em que nasci e vivo até hoje.

O que você pode nos dizer da sua participação no Passo Torto? Se alguém me pedisse informações sobre a banda, eu começaria dizendo que se trata de um supergrupo da vanguarda paulista… É dessa forma que vocês tratam o projeto?

Sem falsa modéstia, eu pessoalmente chamo de minha pelada semanal. É onde posso relaxar e exercitar minha composição sem a responsabilidade maior que um trabalho pessoal carrega. No Passo Torto, posso, por exemplo, me arriscar mais a escrever letras, coisa que raramente acontece em meu trabalho solo. Posso também me aproximar do trabalho desses artistas que fazem parte do grupo junto comigo e por quem tenho profunda admiração, e trazer para o meu próprio trabalho tudo o que aprendo com eles. Quando digo que me sinto mais relaxado no Passo Torto, não estou dizendo que não levo o projeto a sério, muito pelo contrário. Tenho um orgulho indisfarçado pelo que eu, Kiko, Cabral e Rodrigo estamos construindo e às vezes penso que nosso segundo disco, “Passo Elétrico”, talvez seja a melhor coisa que fiz até hoje!

Para quem está atualizado com a “nova música popular brasileira”, é impossível não citar o seu nome junto a outros, como, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Juçara Marçal, dentro de um movimento de “renovação” da MPB feita em São Paulo. Mas, ao mesmo tempo, essa nova geração é muito auto-suficiente, as coisas vão simplesmente acontecendo, e fica difícil saber qual é o conceito que une esses artistas… Como você pode nos explicar esse “movimento”?

Faltou acrescentar aos artistas lembrados por você, os nomes de Marcelo Cabral e Thiago França. Este Núcleo, do qual tenho a honra de pertencer, desenvolveu meio que sem querer um modo de trabalhar em conjunto que nasceu da vontade irrefreável que todos temos em gravar discos. Um ajuda no trabalho do outro e dessa colaboração ininterrupta ainda acabam surgindo projetos paralelos como o Metá Metá, o Marginals e o Passo Torto. Não há um movimento, no sentido de haver um pensamento único em nossos trabalhos, há sim uma movimentação que como você mesmo disse é difícil de ser acompanhada. Não é comum que um mesmo núcleo criativo produza tantos trabalhos tão diversos entre si quanto o “Bahia Fantástica” do Rodrigo Campos, o “Malagueta, Perus e Bacanaço” do Thiago França e o “Encarnado” da Juçara Marçal, pra citar alguns. Acho que essa é nossa grande contribuição à música brasileira.

No ano passado, você emprestou uma composição para os curitibanos da Banda Mais Bonita da Cidade. Creio que essa interação com outros lugares, e até mesmo com outros gêneros musicais, mostra um artista que deixou de simplesmente ser inspirado por outros para se tornar uma referência. Inspirar outros artistas é sentir um “dever cumprido”?

Fico muito honrado que outros artistas se interessem por minha música, de verdade. Mas no caso da gravação da Banda Mais Bonita da Cidade a canção que eles escolheram não é minha. “Olhos da Cara”, que abre meu último disco “Um Labirinto Em Cada Pé”, interpretada lindamente à capela pela Dona Inah, é uma canção só do Nuno. Não deixa de ser curioso que uma canção de um outro autor e cantada por outra pessoa, seja identificada como uma canção minha. Mostra o quanto minha personalidade artística já se consolidou.

Você participou, através de versos, do primeiro álbum em carreira solo da Juçara Marçal – o qual considero o melhor disco brasileiro de 2014, até agora. Não foram poucos, aliás, os trabalhos de alta qualidade em que você, de alguma forma, participou… Como um defensor ferrenho da nova geração da MPB, o que você diria àquela pessoa que pensa que “a música brasileira morreu”?

Eu diria para ela ficar calada, sob o risco de se passar por tola. Pra ficar apenas no Encarnado, álbum da Juçara Marçal que você citou e do qual tenho a honra de participar com duas canções, ele não é somente um dos maiores discos lançados em 2014, é um dos maiores discos lançados em qualquer tempo! Se ele terá um reconhecimento a altura da Juçara e sua grande música, como mencionei anteriormente, não está ao alcance dela. Mas posso afirmar sem medo de errar na previsão que aquele que, por preguiça ou preconceito, deixar de ouví-lo, perderá um dos acontecimentos mais marcantes em toda a história da música brasileira.

O RPblogging agradece imensamente a participação de Romulo Fróes.

2013: Nada Pode Me Parar – Marcelo D2

Nada Pode Me Parar

Por: Renan Pereira

Marcelo D2 teve problemas para produzir seu quinto disco de inéditas em carreira solo. A utilização de samples, isto é, trechos de gravações de outros artistas, é um fato recorrente desde os primórdios do rap, mas tal utilização quase sempre esbarra em situações comerciais, geralmente envolvendo altas cifras em direitos autorais; vide a utilização de versos de “Smells Like Teen Spirit” no último álbum de Jay-Z, que rendeu uma boa valorização da conta bancária de Courtney Love.

Em suma, Marcelo D2 não conseguiu utilizar todos os samples que gostaria. “É difícil fazer sample no Brasil. Fica mais fácil negociar quando o músico está vivo, é uma homenagem. Complicado é tratar com as editoras e com os herdeiros, que, em muitos casos, não entendem de música”, disse o artista. Entre os samples não liberados, estão trechos de “Mr. Tambourine Man” (na voz de Raul Seixas), “Take Five” (de Dave Brubeck), de uma música do Parliament e de um discurso sobre o rap, feito pelo apresentador Roberto Maya na década de oitenta, no programa “Documento Especial”, exibido pela extinta TV Manchete. “Os caras do Parliament pediram R$ 50 mil, quase a metade do orçamento do meu disco”, protestou D2.

Sim, Macelo D2 não tem o mesmo poderio financeiro de nomes como Jay-Z e Nas, e por isso não pode fazer tudo o que quer. Mas, de certa forma, ele parece se aproximar a passos cada vez mais largos desse cenário internacional do hip-hop, repleto de rappers milionários e egocêntricos. Segundo palavras do próprio D2, “Nada Pode Me Parar” é o disco “mais rap” de sua carreira, se distanciando das concepções do Planet Hemp ou até mesmo do samba com que ele tem flertado nos últimos tempos.

E está justamente nesse “abraço” a concepções estrangeiras a falha tentativa de Marcelo D2 em modernizar a sua música. Se antes o músico não se mostrava capaz de se desprender da base de “À Procura da Batida Perfeita”, a maior obra de sua carreira, agora ele procura simplesmente seguir o que há de mais corriqueiro no atual cenário internacional, tentando não deixar sua música ruir em suas próprias mesmices. Ainda há flertes com o samba, lembranças dos discos anteriores, mas o que destoa em “Nada Pode Me Parar” é o desejo de Marcelo D2 em se tornar uma espécie de Kanye West tupiniquim.

Próximo dos trabalhos mais comerciais do rap atual, “Nada Pode Me Parar” se comporta como um produto de fácil audição, especialmente vendável, mas artisticamente pouco relevante. Embora a produção de Mário Caldato, velho conhecido de D2, se mostre assertiva em quase todos os momentos, os sons atraentes e os efeitos modernos não conseguem maquiar o completo vazio que há nos temas: Marcelo D2 fala muita coisa, rima com propriedade, mas não vai além da obviedade que vem permeando suas letras nos últimos anos.

Na primeira faixa, “MD2 (A Sigla no Tag)”, o disco experimenta sua primeira aproximação com o hip-hop internacional ao contar com a participação do coletivo espanhol Cooking Soul (que já produziu para Jay-Z e Kanye West), com o qual, inclusive, D2 nunca se encontrou pessoalmente… No fim das contas, o encontro via twitter não chega a ser tão comercial quanto o de Paula Fernandes com Taylor Swift, mas é mais um brasileiro tentando pegar carona nos êxitos de algum gringo. Contudo, a produção é bem realizada, as batidas atraem, formando uma atmosfera contempladora para D2 disparar versos auto-biográficos.

Mergulhando com tudo no hip-hop da costa oeste dos Estados Unidos, “Danger Zone” não apenas conta com a participação do californiano Aloe Blacc, como contém alguns versos em inglês. Embora coletivo, o disco funciona como uma verdadeira biografia de Marcelo D2, em que o músico tenta mostrar como o rap mudou a sua vida; aspecto contundente desta ideia, a terceira faixa, “Eu Já Sabia”, conta com a participação de Stefan (filho de D2) e de Helio Bentes (da banda Ponto de Equilíbrio), e se aproxima artificialmente das antigas concepções do rapper carioca.

Com boas intenções, mas com rimas pouco criativas, “Livre” e “Você Diz que o Amor Não Dói” parecem mostrar que Marcelo D2 tornou-se um artista repetitivo, que precisa se reinventar ao invés de reproduzir os mesmos temas de sempre. A seguinte, “Fella”, apresenta uma nova geração do rap através de nomes como Shock (Start), Batoré (Cone Crew) e Akira Presidente, mostrando-se porém como uma composição demasiadamente crua, que precisava ser melhor trabalhada para ser lançada em um álbum. Também há aproximações sonoras com o trabalho atual dos rappers paulistanos, como na assertiva “A Cara do Povo”, em que D2 experimenta um momento de verdadeira evolução em sua música… É uma pena que o disco seja inconstante, soando como um conjunto de faixas desunidas, distantes entre si, e os acertos estejam limitados a raros momentos.

“Feeling Good” é uma espécie de “rap romântico”, pouco criativo, enquanto “Madame Bonfumé” é uma vinheta em francês, “uma dessas viagens de estúdio”, segundo o próprio D2. “Está Chegando a Hora” é provavelmente a melhor faixa do álbum, contando com um ótimo sample de “Abre Alas”, canção de Ivan Lins lançada lá nos anos setenta… Essa é a segunda vez em que Lins empresta uma gravação para D2, procurando repetir o sucesso de “Desabafo”, que continha o refrão de “Deixa Eu Dizer”.

Pouco genuíno, “Nada Pode Me Parar” comporta-se como um claro conjunto de ideias copiosas. E Marcelo D2 é infeliz ao copiar os famosos nomes do rap norte-americano até na arrogância, caso de “Eu Tenho o Poder”. Ao contrário de “021”, do Planet Hemp, que tratava do Rio de Janeiro com sentimentos raivosos, “Rio” é uma canção de exaltação, cantando as belezas da cidade maravilhosa. Contudo, Marcelo D2 continua a ser Marcelo D2, e apesar de menos autêntico que outrora, suas convicções continuam as mesmas: a liberação da maconha ainda é um de seus temas preferidos, como bem visto na participação do artista no programa “Na Moral”, de Pedro Bial, e na décima-terceira faixa do disco, a pró-maconha “4:20”.

Álbum mais eletrônico de Marcelo D2, “Nada Pode Me Parar” contém apenas uma faixa tocada com banda: esta é o samba “Na Veia”, gravada em Nova York e composta por Arlindo Cruz. “Vou Por Aí”, a última, conta das viagens de D2 pelo mundo, através de uma produção bem característica do rap norte-americano.

Ao investir em obviedades, Marcelo D2 pende-se à música comercial, fugindo do universo alternativo do qual pertencia. Embarcando desde 2006 em registros pouco relevantes, o músico continua na mídia apenas pelos antigos êxitos ou por suas fortes opiniões sobre temas relevantes da sociedade. Seria ótimo se ele se propusesse a ir além do lugar-comum, realmente evoluindo sua música, pois o que temos, desde “Meu Samba É Assim” até agora, é uma sequência de discos que apenas mostram um rapper com suas capacidades esgotadas. Marcelo D2 pode até pensar que nada pode o parar, mas a triste realidade é que a sua carreira está tão parada quanto água de poço.

NOTA: 3,9

Track List:

01. MD2 (A Sigla no Tag) [02:41]

02. Danger Zone [03:04]

03. Eu Já Sabia [02:53]

04. Livre [03:25]

05. Você Diz Que o Amor Não Dói [02:52]

06. Fella [02:42]

07. A Cara do Povo [02:39]

08. Feeling Good [03:16]

09. Madame Bonfumé [00:38]

10. Está Chegando a Hora (Abre Alas) [02:48]

11. Eu Tenho o Poder [02:46]

12. Rio [02:59]

13. 4:20 [01:41]

14. Na Veia [04:28]

15. Vou Por Aí [03:12]

1972: A Dança da Solidão – Paulinho da Viola

A Dança da Solidão

Por: Renan Pereira

Paulinho da Viola foi um dos mais bem-sucedidos compositores do nosso país em uma época em que a música popular brasileira encontrava-se efervescente, apesar das dificuldades impostas pela censura. O início dos anos setenta, foi sem dúvida, um marco divisório para a nossa cultura, que ainda ecoando os sentimentos tropicalistas, ofereceu novas possibilidades estéticas para a nossa música. “Transa”, “Expresso 2222”, “Acabou Chorare”, a estreia dos Secos & Molhados… Se fossem citados todos os discos que, lançados naquela época, viriam a marcar para sempre o seu nome na história da música brasileira, este texto se estenderia demais. O fato é que, em meio a tanta produção, se destacar não era algo fácil. Mas Paulinho da Viola, com sua música classuda e inteligente, conseguiu tal feito – o que não chega a ser, na realidade, uma grande surpresa.

Paulo César Batista de Faria havia começado sua carreira como sambista ainda no início dos anos sessenta, mas foi apenas em 1968 que ele teve a oportunidade de lançar seu primeiro trabalho em carreira solo; sua estreia, o disco “Paulinho da Viola”, já mostrava que uma brilhante carreira ali se consolidava – o que acabou sendo comprovado pelos trabalhos que o sucederam.

Embora seja muito difícil apontar qual é o melhor álbum da carreira do sambista (“Foi um Rio que Passou em Minha Vida” é uma espécie de lugar-comum, talvez pelo êxito de sua faixa-título), estão em “Dança da Solidão” seus momentos mais íntimos e confessionais. É como se, em um único álbum, o músico deixasse fluir todos os seus sentimentos, motivado por uma constante que envolve todo o registro: a solidão. Ao contrário do trabalho de muitos sambistas da época (e até mesmo do que Paulinho havia feito até aquele momento), a musicalidade do disco não parece ter sido obtida ao redor de uma mesa de boteco; amparado por sua viola, Paulinho acaba nos entregando um registro que soa como se tivesse saído do cenário mais caseiro do sambista, fazendo o ouvinte criar na mente a constante imagem do artista, sentado em sua cama, a disparar todas as suas emoções através dos tocantes acordes de seu instrumento.

Mas os aspectos caseiros do registro não atingem a sua produção, que, acertada ao extremo, dá destaque maior à Paulinho e sua viola através de um som límpido, lapidado, capaz de tornar a capacidade rítmica do samba apenas um plano de fundo para as concepções desiludidas de Paulinho. Algumas faixas até podem trazer uma base mais alegre, com aspectos visivelmente festivos, mas, no fundo, apenas mostram apenas o compositor a tentar superar sua tristeza. Do início ao fim do registro, é a solidão que dá as caras.

Como um tenista que destrói a sua raquete quando não está feliz com o seu jogo, Paulinho da Viola não poupa, na primeira faixa do álbum, nem o instrumento que, de tão incorporado a si, ajuda a construir o seu nome artístico; “Guardei Minha Viola” é um acerto melódico e rítmico que mostra o compositor tomando medidas drásticas para tentar superar a desilusão amorosa. A lenta e íntima “Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim)”, com belos lirismos, é um recado claro de que o artista não mudará suas convicções para ter um novo amor. A terceira, “Papelão”, é mais um convincente número que continua a escancarar, com ótimos arranjos, os sentimentos de um magoado e abandonado coração.

A poesia simples e triste de Nelson Cavaquinho marca sua presença na ótima releitura de “Duas Horas da Manhã”, um momento pra lá de dramático, perfeitamente inserido nos sentimentos doloridos do álbum. A quinta faixa, “Ironia”, mostra que o sofrimento pode ser acentuado através das recepções irônicas de terceiros, que só machucam ainda mais um peito já ferido. Uma faixa diferente do disco, que basicamente apenas retrata uma festa legítima dos morros cariocas, “No Pagode do Vavá” é um bem-vindo momento de diversão, apesar de um pouco deslocado, em meio a tantas canções tristes. A sétima canção é o clássico que, de forma perfeita, emprestou seu título ao álbum, sendo uma das mais brilhantes e famosas composições de Paulinho da Viola.

O grande Cartola foi um dos artistas que mais inspiraram Paulinho da Viola, e a presença de uma canção sua em um registro tão íntimo pode ser considerada uma prova disso; “Acontece” marca sua presença no álbum com uma veia poética bela e triste. A nona é a igualmente ótima “Coração Imprudente” que, perfeitamente produzida, acaba soando mórbida ao mostrar que há como retirar os espinhos do coração – mas apenas para ele voltar a doer novamente. “Orgulho” é mais uma canção de profunda melancolia, mostrando que ainda há como o álbum surpreender o ouvinte, utilizando versos ásperos, mas que em nenhum momento fazem Paulinho da Viola abandonar sua classe.

A formidável “Falso Moralista” é outra releitura perfeitamente inserida no disco, dessa vez utilizando uma composição de Nelson Sargento, com quem Paulinho já havia trabalhado nos anos sessenta, no projeto “A Voz do Morro”. A última, “Passado de Glória”, é uma homenagem repleta de saudosismos à escola de samba da Portela, soando nostálgica ao falar do carnaval de antigamente.

É incrível como Paulinho da Viola conseguiu elucidar as dores de um coração solitário com tanta classe. Utilizando bases rítmicas sólidas, melodias impregnantes e muito sentimento do início ao fim, o sambista tratou as tristezas de forma única, cantando-as de forma elegante e jovial, sem escorregar em desesperos que poderiam diminuir a qualidade de sua obra. Enfim, com tantos acertos, com tanta boa música, não há como não alocar o poético “A Dança da Solidão” entre os maiores clássicos da música brasileira, principalmente quando falamos dos mais íntimos e tristes sentimos.

NOTA: 9,0

Track List:

01. Guardei Minha Viola (Paulinho da Viola) [02:33]

02. Meu Mundo é Hoje (Eu Sou Assim) (José Batista/Wilson Batista) [03:11]

03. Papelão (Geraldo das Neves) [02:27]

04. Duas Horas da Manhã (Ary Monteiro/Nelson Cavaquinho) [03:10]

05. Ironia (Paulinho da Viola) [02:38]

06. No Pagode do Vavá (Paulinho da Viola) [03:08]

07. Dança da Solidão (Paulinho da Viola) [02:32]

08. Acontece (Cartola) [03:06]

09. Coração Imprudente (Capinan/Paulinho da Viola) [02:06]

10. Orgulho (Capinan/Paulinho da Viola) [02:45]

11. Falso Moralista (Nelson Sargento) [02:33]

12. Passado de Glória (Monarco) [03:09]