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Lista: As 50 Melhores Músicas de 2014 [30-21]

30. Vince Staples – Blue Suede

Você pode até dizer que “Blue Suede” é apenas mais uma ótima produção, que suas batidas são incríveis e que a música se resume basicamente a isso… Tudo isso, é claro, se as rimas de Vince Staples não forem levadas em consideração. Se a produção é ótima (digna de Madlib), a performance do rapper é ainda melhor. Suas rimas são cruas, e verdadeiras: nelas, Staples trata da mortalidade da forma como ela é, sem grandes firulas. O ser humano é frágil, e nasce para um dia morrer: e, geralmente, nunca da forma desejada. É nada mais do que a realidade… “Jovens sepulturas obtém os buquês”, brada o rapper.

29. Nação Zumbi – Cicatriz

Uma filosofia relativamente barata diz que um grande guerreiro é reconhecido pela quantidade de cicatrizes que tem no corpo… E é exatamente essa mensagem que a Nação Zumbi quer passar em “Cicatriz”, canção que facilmente se insere entre as melhores do experiente grupo. Segundo Du Peixe e sua trupe, as marcas de guerra não precisam ser escondidas, e sim expostas: troféus de batalhas vencidas. A fraqueza humana se transformando em poder.

28. Ty Segall – The Singer

Para Ty Segall, 2014 será sempre considerado o ano de sua evolução definitiva. Íntimo das mais diversas nuances do rock, o músico, em “The Singer”, se vê à vontade para percorrer os dogmas do estilo em vias de reinvenção. Para isso, utiliza o psicodelismo para passear nos anos setenta, jogando um pouco de purpurina na guitarra através de uma breve brincadeira com o glam, e trazendo tudo para os tempos atuais – criando um número que, ao mesmo tempo, é clássico e atual. “The Singer”, assim como o rock clássico, é simples e direta, além de forte e arrebatadora. Uma canção com aquele espírito que muitos desinformados pensam que já morreu.

27. How to Dress Well – Words I Don’t Remember

Através de seu projeto How to Dress Well, Tom Krell reinventa a música pop com uma grande condensação de gêneros e referências. Provas? Apesar do disco “What Is this Heart?” ser imperdível, uma de suas faixas, “Words I Don’t Remember”, já é capaz de oferecer aos ouvintes uma ótima amostra dos poderes do músico. Sensível, atraente e naturalmente progressista, a canção se espalha em pouco mais de seis minutos de puro brilhantismo sonoro e lírico.

26. ruído/mm – Requiem for a Western Manga

A banda curitibana ruído/mm tem o dom de contas histórias mesmo sem utilizar nenhuma palavra… E isso acabou fazendo do fantástico “Rasura” um dos melhores discos de 2014. Terras distantes, heróis destemidos, discos voadores e grandes batalhas se espalham por números instrumentais primorosos, dos quais “Requiem for a Western Manga” é um destaque. Uma verdadeira epopeia, a canção faz com que o ouvinte experimente dez minutos de uma grande aventura, digna de uma superprodução de Hollywood, com Clint Eastwood no elenco e tudo mais.

25. Romulo Fróes e Juçara Marçal – Espera

A poesia de Romulo Fróes é reconhecidamente torta, “difícil” para os ouvidos acostumados com a música que se toca nas rádios… Mas em “Espera”, parceria do músico com Juçara Marçal, Fróes se abre para um novo público. Apesar de liricamente complexa, mantendo os tradicionais flertes do músico com versos curtos e de aparência desconexa, a canção se mostra extremamente fluida, deliciosa e descomplicada – mesmo fazendo parte do pesado “Barulho Feio”, o último e mais profundo lançamento do compositor. Na música, tudo se casa perfeitamente: as vozes de Romulo e Juçara se fundem em total harmonia com o ritmo acústico que, por sua vez, une-se com os ruídos da cidade de São Paulo de forma até mesmo natural. Um grande conjunto de nuances, alocadas em menos de dois minutos de impecável canção.

24. Ghostface Killah & BadBadNotGood ft. Danny Brown – Six Degrees

Além de reunir Ghostface Killah e Danny Brown, dois dos grandes rappers da atualidade, a canção “Six Degrees” traz na produção os canadenses do BadBadNotGood, verdadeiros monstros do hip-hop com suas passagens pelo jazz e pelo fusion. O resultado? Só poderia ser fantástico… Uma das melhores músicas do ano, uma mostra perfeita de que as mais diferentes vertentes nunca haviam se fundido em tamanha proporção quanto no ano que se finda. Ilimitada, cheirando a novidade, “Six Degrees” parece trazer consigo o conceito a ser seguido pelas grandes obras do hip-hop nos próximos anos.

23. Perfume Genius – Fool

Ah, as emoções… Volta e meia elas têm permeado essa lista, nos mostrando que, mesmo no mundo pós-moderno, a música continua a serviço dos mais puros e honestos anseios do ser humano. Em 2014, poucos artistas conseguiram escancarar sentimentos de forma tão certeira quanto Mike Hadreas em seu projeto autoral Perfume Genius. “Fool”, além de nos presentear com um conjunto harmônico complexo, nos surpreendendo com suas variações inesperadas, apresenta uma gigantesca amplitude de emoções, permeados pela performance vocal teatral de Hadreas.

22. Run the Jewels ft. Zack De La Rocha – Close Your Eyes (And Count to Fuck)

O novo dueto entre os rappers El-P e Killer Mike, apresentado no segundo disco do Run the Jewels mostra, nada mais nada menos, do que o colosso do hip-hop em 2014. Resultado obtido através de rimas incendiárias e uma produção arrebatadora, o registro marca uma das melhores colaborações da história do rap, que pode ser resumida através da intensidade de “Close Your Eyes (And Count to Fuck)”.

21. Juçara Marçal – Velho Amarelo

“Velho Amarelo”, a primeira faixa de “Encarnado”, trabalha para alocar Juçara Marçal em um palco do qual o espectador não desviará os olhos. A canção, composta por Rodrigo Campos, se comporta como uma apresentação perfeita do conceito da trabalho, delineando os rumos instrumentais e líricos que o embalarão em sua totalidade… Se é certo que vamos morrer, por que não podemos escolher onde e como?

2014: Barulho Feio – Romulo Fróes

Barulho Feio

Por: Renan Pereira

Romulo Fróes não é músico, e quem diz isso é ele mesmo. Prefere ser chamado de “compositor”, devido ao seu grande apego à canção. Não conhece as notas que toca no violão, mas é requisitado por onze entre dez bons nomes da “nova” geração que precisam de um conselho sonoro ou estilístico. Um novo… Nelson Motta? Não, ele mesmo ri da comparação. Fróes é um cara simples, que gosta de ficar com seus amigos, de ajudar e de ser ajudado. A cara da “nova cena paulistana”, que de nova realmente já tem muito pouco, e que não pode mais ser restringida apenas à capital paulista.

Tudo começou na virada do século, com as novas possibilidades que foram apresentadas através dos novos conceitos da música dita independente – que atualmente forma, no fim das contas, a única vertente “a ser lavada à sério” no nosso país. Os novos artistas passaram a lançar seus discos com suas próprias forças, sem o auxílio – e as regras – das gravadoras, em um movimento que, com a popularização da internet, apenas acelerou… e que é, hoje em dia, impossível de ser parado. E, em certa fatia, graças a Fróes e seus companheiros de “vanguarda paulistana”.

Amigos que, no quinto disco solo do compositor, voltam a se fazer presentes. Na sonoridade ruidosa de “Barulho Feio”, Thiago França parece soprar de forma aleatória, e a guitarra de Guilherme Held grita em agonia enquanto Marcelo Cabral faz de seu baixo o construtor de um muro sonoro alto e impiedoso. Em meio a esse cenário caótico, porém quase silencioso, surge Romulo Fróes a percorrer, em voz e violão, os sons da maior metrópole da América Latina. “Não Há, Mas Derruba”, a primeira faixa, é o início de uma jornada que já vai deixando claro o conceito do disco: lento, triste e difícil, o mais complexo capítulo da discografia de Fróes.

É curioso perceber que a complexidade alcançada por Fróes é produto do que há de mais simples e tradicional na MPB: o minimalismo quase silencioso do conceito “voz e violão”. Eis aí uma representação clara da paixão do compositor pela canção em seu estado mais puro, demonstrada na exploração intensa das heranças da bossa-nova e dos sambistas “tristes”, como Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho. Então estamos de frente a uma música que, no fundo, é um “grande mais do mesmo”? Muito pelo contrário: a fim de construir um resultado “novo”, Fróes pauta sua carreira na evolução, ou melhor, na desconstrução: a forma esbarrando no disforme, seguindo-se o padrão de não se ter um padrão. No fim das contas, tanto a voz quanto os acordes acústicos se perdem em meio ao “caos controlado” que se instala no disco.

A ambientação que torna “Barulho Feio”, até certo ponto, de difícil degustação ao ouvinte, parte do cenário desconstruído – tanto pelos instrumentos quanto pelos sons de fundo, gravados por Fróes em uma caminhada da Praça da República até a Catedral da Sé: buzinas de carros, gritos, pastores enlouquecidos… Os “barulhos feios” que procuram “encontrar a beleza onde não há”. E isso é de fácil percepção? Não, de jeito nenhum. “Barulho Feio” é um desafio ao modo imediatista e disperso com que a música é tratada nos dias de hoje, revelando a sua beleza apenas à medida em que as audições se sucedem. Não serão poucos os que o interromperão no meio em busca de algo mais pop, ou até que chegarão ao fim sentindo um grande vazio, o considerando “insípido, inodoro e incolor”. Pois Fróes nos obriga a ruminar o disco para que sintamos seu gosto, sua cor e seu cheiro.

Uma tarefa recompensadora. Pois além do cenário desafiador, o álbum nos oferece belas canções. Letras formidáveis, bonitas parcerias com Clima, Nuno Ramos e Alice Coutinho, poemas que são sussurrados por Fróes em grave e bom som… As faixas, na primeira audição, soam dispersas, quase inaudíveis, mas aos poucos vão ganhando uma força que surpreende. É um petardo depois de outro, mantendo o conceito central e ao mesmo tempo se montando como um passeio por várias texturas, demonstrando a habilidade de Fróes como compositor. Quando a dobradinha com Juçara Marçal surge em “Espera”, podemos até jurar que o disco, a partir dali, vai seguir um ritmo mais leve… até surgir a pesadíssima “Ó” para nos encher novamente de incertezas. De passo a passo, de esquina a esquina, de canção a canção, a intenção de Fróes é pegar o ouvinte de calças curtas.

“Barulho Feio” é ótimo. E é chato. No fim, a nossa receptividade à obra acaba sendo igualmente proporcional à paciência com que a tratamos. Talvez por exigir do público uma tarefa cada vez mais árdua em um mundo que clama por imediatismo, o disco será ignorado até por pessoas que veem com bons olhos a carreira de Fróes – tanto em trabalhos solo ou unido a Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral na banda Passo Torto. Logo, não é um trabalho que abre portas, que possa ser oferecido a quem quer ser apresentado à tão falada “nova vanguarda paulistana”. É um álbum muito particular de um artista provocante, que gosta do “difícil” não para ostentar o selo de “underground”, mas por ser sincero ao seu fardo de fazer algo novo desconstruindo o que já existe há tanto tempo.

Quem topa a tarefa, chegando ao interior da Catedral da Sé nos instantes finais de “A Luz Dói” com os ouvidos tão atentos quanto no início da jornada, verá que o tempo gasto pede ainda mais tempo, e que uma grande obra pede passagem para se apresentar. Por isso, pode ser dito que “Barulho Feio” é um disco que cresce continuamente, mas somente a quem lhe dá a oportunidade de crescer.

NOTA: 8,5

2014: Encarnado – Juçara Marçal

Encarnado

Por: Renan Pereira

Apesar de “Encarnado” significar o início de uma carreira solo, Juçara Marçal passa longe de ser uma estreante. Experiente, há mais de vinte anos trabalhando em prol da música alternativa paulistana, emprestando sua voz para projetos como Vésper, A Barca e o aclamado Metá Metá, a cantora acumula toda essa vivência para construir, no primeiro disco que carrega o seu nome no título, um trabalho mais do que simplesmente convincente. Uma obra-prima, “Encarnado” surge como um capítulo fundamental dos novos rumos da música brasileira.

Se o fato de compreender o primeiro exemplar da discografia solo de uma grande intérprete já não bastasse, “Encarnado” se comporta como a maior obra já produzida por um incansável núcleo criativo que renova, já há algum tempo, a MPB produzida na cidade de São Paulo. Composto por nomes como Kiko Dinucci, Romulo Fróes e Thiago França, por exemplo, esse aglomerado de artistas com ideais partilhados tem se especializado em construir verdadeiros colossos em estúdio nos últimos anos… Os discos “Metal Metal”, do Metá Metá, e “Passo Elétrico”, do Passo Torto, são apenas dois exemplos da extrema competência que envolve essa turma.

Sendo uma integrante desse núcleo, Juçara Marçal utiliza com propriedade um conglomerado de referências da Vanguarda Paulista para costurar seu álbum de estreia. Seja com referências diretas a velhos nomes, como Itamar Assumpção e Tom Zé, ou com a utilização da sonoridade ruidosa que envolve o grupo Passo Torto, Juçara faz de “Encarnado” muito mais uma continuação dos inventos de um movimento do que um simples “início”.

Até porque, se existe um mote que guia o pensamento da cantora neste álbum, esse é “começar pelo fim”. Sim, a morte é o tema central do disco. Mas embora carregue o título de “Encarnado” e tenha uma temática bem definida, o álbum significa, na realidade, muito mais do que música… Ainda que o conceito central seja a morte, seria um erro crasso não degustá-lo como uma grande ode à vida.

Vida que morre para renascer, reencarnar. “Não diga que estamos morrendo, hoje não”, entrega a cantora logo nos primeiros versos do disco, mostrando que apesar da chegada dos últimos suspiros, o que prende a artista à temática é a vontade de sobreviver. Uma vida maleável, frágil, incerta, que é representada com louvor pela colossal instrumentação construída por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rohrer. Aliás, tratar “Encarnado” como um trabalho só de Juçara seria um descompasso.

Mas Juçara Marçal é, obviamente, a grande estrela da obra, fato que é inserido na mente do ouvinte logo nos primeiros instantes de “Velho Amarelo”, a primeira faixa. Trabalhando para alocar a cantora em um palco do qual o espectador não desviará os olhos, a canção, composta por Rodrigo Campos, se comporta como uma apresentação perfeita do conceito da trabalho, delineando os rumos instrumentais e líricos que o embalarão em sua totalidade.

Ancorado em uma atmosfera caótica, mas que nunca se descontrola, o álbum vai entregando ao público formidáveis interpretações de Juçara ao mesmo tempo em que o tema central é encarado de diferentes maneiras por cada faixa. Na agressiva “Damião” o olhar é voltado para a vingança, enquanto em “Queimando em Língua” é uma representação romântica que embala a morte. Tudo encarado sob uma ótica arriscada e inesperada, que, segundo palavras de Romulo Fróes no release do disco, era inimaginável até mesmo para as pessoas que sempre acompanharam de perto a carreira da cantora. Juçara surpreende a todo instante, quebrando com o habitual conforto que normalmente embala a MPB.

Em “Pena Mais Que Perfeita” há a aceitação do destino, derramando lástimas enquanto o momento derradeiro é aguardado com melancolia. Única canção do álbum composta por Juçara, “Odoya” transforma a voz da cantora em um instrumento que vaga em oração, pedindo proteção para encarar o momento mais chocante do disco: uma dança com os aspectos mais violentos da morte. “Ciranda do Aborto” é a faixa central do disco, construindo com contornos épicos um número de força absurda, que assusta, espanta, e faz a artista se desmanchar em uma interpretação magistral. Monumental, a canção se candidata não apenas à melhor música desse ano, mas de muito tempo.

Um dos poucos momentos em que Juçara se agarra ao conceito pronto do Metá Metá mora na “Canção Pra Ninar Oxum”, de Douglas Germano, com suas alusões claras às heranças africanas. Em “E o Quico”, de Itamar Assumpção, a cantora se rende a suas referências da Vanguarda Paulista, brincando com a loucura no cenário de uma abdução. Outro grande artista lembrado por Juçara, Tom Zé empresta para “Encarnado” a canção “Não Tenha Ódio no Verão”, originalmente lançada no disco “Tropicália Lixo Lógico”, de 2012.

“A Velha Capa Preta”, composição de Siba, personifica a morte, tratando-a como um monstro, uma vilã, ao dizer que ela “anda no mundo vestindo mortalha escura
, e procurando a criatura que espera condenação. Quando ela encontra um cristão sem vontade de morrer, e ele implora pra viver, mas ela ordena que não”. A passagem do tempo também é fatal, e “Presente de Casamento”, apesar de se ambientar em um incêndio, é um retrato da espera da morte inevitável enquanto se está na velhice.

Na última faixa, “João Carranca”, Juçara Marçal entorpece-se de malemolência para mostrar mais uma de suas facetas: a de contadora de histórias. Na canção, é contada a saga de um garoto bonito que, após ter o rosto desconfigurado, passou a ser zombado: “E o que era belo, agora espanta, e o seu nome hoje é João Carranca”. Versos de Dinucci para um grande samba, deixando claro, no desfecho do disco, de onde vem as inspirações dos músicos que o bordaram.

A certeza que fica, no fim, é que cantando sobre a morte Juçara nunca esteve tão viva. De forma excepcional, ela passa por cima de todo o seu passado para renascer em uma nova artista, com uma nova carreira… Morrer, afinal, às vezes pode ser bom. E ao morrer em doze canções, para depois reencarnar, Juçara Marçal oferece um veneno letal àqueles que tem decretado a morte da música brasileira… esses sim não tem o direito de viver novamente.

NOTA: 9,2

Track List:

01. Velho Amarelo [04:25]

02. Damião [02:06]

03. Queimando a Língua [05:04]

04. Pena Mais Que Perfeita [04:16]

05. Odoya [02:49]

06. Ciranda do Aborto [05:40]

07. Canção Pra Ninar Oxum [03:25]

08. E o Quico [02:42]

09. Não Tenha Ódio no Verão [02:52]

10. A Velha da Capa Preta [03:47]

11. Presente de Casamento [01:18]

12. João Carranca [02:00]

Entrevista: Romulo Fróes

Por: Renan Pereira

É com um prazer imenso que o RPblogging traz Romulo Fróes como o entrevistado desse mês de março. Integrante da vanguarda paulista, e um dos mais respeitados nomes da MPB, Romulo vem construindo uma carreira consistente desde 2001, quando lançou o seu primeiro EP. Com quatro álbuns em carreira solo, e uma incrível colaboração no seminal coletivo Passo Torto, Fróes cada vez mais se consolida como um dos músicos mais completos da cena paulistana, tendo participado de grandes obras da música – mais recentemente, do já clássico “Encarnado”, de Juçara Marçal.

romulo froes

Quando foi dado o pontapé inicial da sua carreira como músico?

Minha carreira teve início como a de tantos outros músicos, montando bandas na época do colégio. Com uma dessas bandas, o Losango Cáqui, cheguei até a lançar dois discos, que foram mais importantes para me aproximar do universo em torno da música, shows, gravações, do que propriamente para enriquecer a minha obra. Em 2001 lancei um EP com apenas quatro músicas que me serviu de diretriz para o que pretendia fazer dali em diante. Mas minha estreia mesmo acho que foi com o “Calado”, meu primeiro disco solo lançado em 2004, que já trazia minhas composições em parceria com o Clima e o Nuno Ramos, parceria essa que perdura até hoje.

Quais foram os nomes que te inspiraram no início? Estes ainda te inspiram?

Desde sempre, e em meu primeiro disco ainda mais, o samba de vertente mais triste me influenciou mais do que qualquer coisa. O modelo para as minhas primeiras canções eram artistas como Paulinho da Viola, Zé Keti, Batatinha, Cartola e acima de todos, Nelson Cavaquinho. Estes artistas ainda continuam servindo de farol para a minha obra, mas minhas canções já se contaminaram de muitas outras referências, inclusive de artistas contemporâneos a mim, coisa que não acontecia em meu início de carreira.

Já fazem treze anos que você lançou seu primeiro trabalho em estúdio. Muita coisa costuma mudar em tanto tempo… O que mudou em você, como músico e como pessoa?

Puxa vida, essa é difícil. É tanta coisa que muda em sua vida em um ano, em um mês, que dirá em treze anos! Mas se pudesse me ater a um único ponto de vista, acho que o que mais se transformou em mim neste tempo todo, foram minhas expectativas em relação a minha carreira. Estou me referindo ao seu aspecto prático, ao sucesso e a minha reavaliação do que é sucesso e principalmente ao aprendizado de se construir uma obra à margem da indústria fonográfica. O que se mantém intacto em mim nesses treze anos é meu profundo compromisso com o meu trabalho, minha incansável dedicação ao ofício de compor e meu desejo irreversível de contribuir para a canção brasileira. Mas hoje sou muito mais realista com a minha condição de artista independente, já não carrego a ilusão de uma recepção maior ao meu trabalho e nem mesmo espero que a minha obra seja posicionada historicamente na música brasileira. Aprendi a abaixar as expectativas para vencer o ressentimento.

Seu senso composicional é rotulado por alguns como “poesia urbana” – e é realmente perceptível que a cidade sempre te instigou. Muito tempo atrás Adoniran Barbosa já cantava São Paulo, mas como a cidade muda constantemente, quem deseja inserir a cultura paulistana em sua música também deve mudar a todo instante… Como você vê São Paulo no presente, e de que forma ela te inspira a evoluir como letrista?

É curiosa essa associação das minhas canções com São Paulo e penso que isso se deva muito mais a minha participação no Passo Torto, grupo do qual faço parte ao lado do Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos. Procure em meus discos solos alguma canção que faça menção a São Paulo ou a vida das pessoas nessa cidade, você não vai achar. É claro que somos influenciados pela vida que levamos em uma cidade como São Paulo, mas minhas canções e de meus parceiros mais habituais, Clima e Nuno Ramos, não fazem referência direta a essa condição, elas são muito mais abstratas que descritivas. Se referem muito mais a sensações, pensamentos, angústias, questionamentos, sobre a própria música brasileira e sobre a vida de qualquer um, do que propriamente se referem a nós mesmos e ao nosso cotidiano. Minha inspiração vem antes da música popular brasileira de todas as épocas, que da cidade em que nasci e vivo até hoje.

O que você pode nos dizer da sua participação no Passo Torto? Se alguém me pedisse informações sobre a banda, eu começaria dizendo que se trata de um supergrupo da vanguarda paulista… É dessa forma que vocês tratam o projeto?

Sem falsa modéstia, eu pessoalmente chamo de minha pelada semanal. É onde posso relaxar e exercitar minha composição sem a responsabilidade maior que um trabalho pessoal carrega. No Passo Torto, posso, por exemplo, me arriscar mais a escrever letras, coisa que raramente acontece em meu trabalho solo. Posso também me aproximar do trabalho desses artistas que fazem parte do grupo junto comigo e por quem tenho profunda admiração, e trazer para o meu próprio trabalho tudo o que aprendo com eles. Quando digo que me sinto mais relaxado no Passo Torto, não estou dizendo que não levo o projeto a sério, muito pelo contrário. Tenho um orgulho indisfarçado pelo que eu, Kiko, Cabral e Rodrigo estamos construindo e às vezes penso que nosso segundo disco, “Passo Elétrico”, talvez seja a melhor coisa que fiz até hoje!

Para quem está atualizado com a “nova música popular brasileira”, é impossível não citar o seu nome junto a outros, como, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Juçara Marçal, dentro de um movimento de “renovação” da MPB feita em São Paulo. Mas, ao mesmo tempo, essa nova geração é muito auto-suficiente, as coisas vão simplesmente acontecendo, e fica difícil saber qual é o conceito que une esses artistas… Como você pode nos explicar esse “movimento”?

Faltou acrescentar aos artistas lembrados por você, os nomes de Marcelo Cabral e Thiago França. Este Núcleo, do qual tenho a honra de pertencer, desenvolveu meio que sem querer um modo de trabalhar em conjunto que nasceu da vontade irrefreável que todos temos em gravar discos. Um ajuda no trabalho do outro e dessa colaboração ininterrupta ainda acabam surgindo projetos paralelos como o Metá Metá, o Marginals e o Passo Torto. Não há um movimento, no sentido de haver um pensamento único em nossos trabalhos, há sim uma movimentação que como você mesmo disse é difícil de ser acompanhada. Não é comum que um mesmo núcleo criativo produza tantos trabalhos tão diversos entre si quanto o “Bahia Fantástica” do Rodrigo Campos, o “Malagueta, Perus e Bacanaço” do Thiago França e o “Encarnado” da Juçara Marçal, pra citar alguns. Acho que essa é nossa grande contribuição à música brasileira.

No ano passado, você emprestou uma composição para os curitibanos da Banda Mais Bonita da Cidade. Creio que essa interação com outros lugares, e até mesmo com outros gêneros musicais, mostra um artista que deixou de simplesmente ser inspirado por outros para se tornar uma referência. Inspirar outros artistas é sentir um “dever cumprido”?

Fico muito honrado que outros artistas se interessem por minha música, de verdade. Mas no caso da gravação da Banda Mais Bonita da Cidade a canção que eles escolheram não é minha. “Olhos da Cara”, que abre meu último disco “Um Labirinto Em Cada Pé”, interpretada lindamente à capela pela Dona Inah, é uma canção só do Nuno. Não deixa de ser curioso que uma canção de um outro autor e cantada por outra pessoa, seja identificada como uma canção minha. Mostra o quanto minha personalidade artística já se consolidou.

Você participou, através de versos, do primeiro álbum em carreira solo da Juçara Marçal – o qual considero o melhor disco brasileiro de 2014, até agora. Não foram poucos, aliás, os trabalhos de alta qualidade em que você, de alguma forma, participou… Como um defensor ferrenho da nova geração da MPB, o que você diria àquela pessoa que pensa que “a música brasileira morreu”?

Eu diria para ela ficar calada, sob o risco de se passar por tola. Pra ficar apenas no Encarnado, álbum da Juçara Marçal que você citou e do qual tenho a honra de participar com duas canções, ele não é somente um dos maiores discos lançados em 2014, é um dos maiores discos lançados em qualquer tempo! Se ele terá um reconhecimento a altura da Juçara e sua grande música, como mencionei anteriormente, não está ao alcance dela. Mas posso afirmar sem medo de errar na previsão que aquele que, por preguiça ou preconceito, deixar de ouví-lo, perderá um dos acontecimentos mais marcantes em toda a história da música brasileira.

O RPblogging agradece imensamente a participação de Romulo Fróes.

2013: O Mais Feliz da Vida – A Banda Mais Bonita da Cidade

O Mais Feliz da Vida

Por: Renan Pereira

Se A Banda Mais Bonita da Cidade não havia conseguido, em seu primeiro disco, suprir as expectativas do público que havia louvado o famoso vídeo de “Oração”, elevando o grupo a um verdadeiro fenômeno musical, agora, em “O Mais Feliz da Vida”, o resultado parece ser outro. Mais segura em estabelecer-se em um caminho, sem precisar mais atirar para todos os lados, a banda enclausura-se dentro de um cenário calculado, medindo os temas e conceitos a fim de não cair no mesmo pop incerto do primeiro exemplar de sua discografia.

Emprestando o teor “conceitual” de famosas bandas do passado, como King Crimson, The Who e Pink Floyd, os paranaenses alcançam um marcante crescimento instrumental e, principalmente, lírico. Profundas, mas sem abandonar a já atestada sensibilidade, as letras presentes no álbum são capazes de nos deliciar com o seu modo singelo e austero de discutir temas complexos, como a tristeza, a solidão e a velhice. Assunto já demonstrado na capa do disco, a passagem dos anos para A Banda Mais Bonita da Cidade torna-se um ponto aberto de onde podem ser retiradas as mais profundas (ou simples) questões sobre a vida.

Bebendo do Arcade Fire de “Funeral”, influência confessa de Rodrigo Lemos, a banda alcança um resultado gratificante sem esconder suas referências. Pélico empresta aos paranaenses a faixa-título de seu último trabalho, bem como Rômulo Fróes participa da regravação de “Olhos da Cara”, composição de Nuno Ramos que já havia aparecido no disco “Um Labirinto em Cada Pé”. Além disso, o veterano Chico Neves aparece na produção da faixa-título: os toques do produtor mostram-se rápidos, porém essenciais… A canção acaba delineando a continuação do álbum, produzida por Vinícius Nisi.

A primeira faixa acaba deixando claro que o toque épico de “Oração” volta a estar presente, só que agora em texturas cuidadosamente tratadas, distantes do rumo lo-fi das primeiras gravações da Banda Mais Bonita da Cidade. O crescimento torna-se óbvio quando percebemos o vocal de Uyara Torrente alocado em um novo universo, que tenta alcançar a grandiosidade sem abandonar a concepção singela das antigas composições: apesar dos toques conceituais, o álbum não se desgarra dos versos sensíveis e de fácil acesso. No instrumental, o mesmo jogo grandioso do Arcade Fire é remodelado para a realidade da banda paranaense, em uma adaptação mais madura dos ideais sonoros dos nova-iorquinos do Fun. Não há como não destacar as marcantes linhas de bateria de Luís Bourscheidt, alcançando o estilo de Chris Tomsom, do Vampire Weekend, enquanto Rodrigo Lemos, cada vez mais próximo do rock progressivo, constrói com sua guitarra cenários aconchegantes, bordando texturas a fim de alocar os versos e as vozes em uma estrutura capaz de rapidamente agradar.

A suposta fuga do piegas em “Potinhos” só vem a atestar a incrível acertabilidade da banda ao investir em temas sensíveis: a segunda faixa pode até falar que o coração está fora de moda, mas acaba sendo construída, de forma irônica, para tocar a alma do ouvinte. A regravação de “Que Isso Fique Entre Nós”, apesar de soar, em um primeiro momento, como um mero reaproveitamento de ideias, acaba inserindo-se perfeitamente ao conceito de “O Mais Feliz da Vida”: A Banda Mais Bonita da Cidade torna a canção de Pélico um número genuinamente seu, rumando-o nos mesmos rumos pop/épicos das demais faixas. Caso da brilhante “Saindo de Casa”, a música mais dinâmica do disco, que mescla momentos de força instrumental com outros de pura sensibilidade (amplificados pela presença de um xilofone).

É deliciosa a ingenuidade romântica da quinta faixa, “Deixa Eu Dormir na Sua Casa”, que abraça os mais coloridos sentimentos do Summer of Love de 1967 para a construção de mais uma faixa de rápida e extrema agradabilidade: dos versos simples, passando pelo belo jogo de harmonias vocais e chegando nas memoráveis melodias, tudo parece minuciosamente pensado para encantar o ouvinte. Com Rodrigo Lemos no vocal principal, “A Balada da Contramão” aposta em um acabamento instrumental etéreo, que brinca com os mais atuais elementos da música alternativa, mas sem abandonar o caráter pop no qual o registro se encaminha. A Banda Mais Bonita da Cidade faz o certo ao almejar a aceitação do público mesmo evoluindo os rumos de sua música; se em seus trabalhos mais recentes, bandas como a Móveis Coloniais de Acaju e o Vanguart investiram na banalização de seu som para alcançar o público de massa, enquanto outros nomes, como Cícero, ignoraram o público em nome de uma “evolução conceitual”, o coletivo paranaense conseguiu alcançar estes dois resultados em um assertivo trabalho, agradável a todos.

Alocada em uma atmosfera melancólica, até então inédita para A Banda Mais Bonita da Cidade, “Uma Atriz” engrena-se às grandiosidades do clássico “The Wall”, do Pink Floyd, com Rodrigo Lemos inclusive relembrando o timbre característico da guitarra de David Glimour; também é de se destacar o trabalho de Vinícius Nisi ao incrementar o instrumental através da aclimatação soturna dos acordes de órgão e piano, fazendo-nos recordar, vagamente, do modo com que Thiago Pethit tocou no disco “Berlim, Texas”. Clima soturno, aliás, é o que não falta à oitava faixa, a dolorida “Um Cão Sem Asas”, que leva poesia a uma das questões mais difíceis da vida: a morte aguardada por quem já está em idade avançada. “Olhos da Cara” é outra regravação que insere-se de forma certeira em “O Mais Feliz da Vida”, preenchendo o conceito e escancarando a construção progressiva do álbum; à medida em que as faixas se sucedem, as temáticas tornam-se cada vez mais complexas.

A décima, “Maré Alta”, parece emprestar os teclados do Procol Harum para arquitetar mais uma atmosfera enevoada, em que a letra trata da tristeza de maneira apocalíptica: o choro se transformará em uma enxurrada que tudo inundará. A climatização subaquática do final da faixa, que parece ter sido retirada de algum álbum de Panda Bear, parece mostrar o quanto a banda cresceu em ambição: se, quando surgiu, propunha apenas musicar as ideias dos músicos da cena alternativa curitibana, agora A Banda Mais Bonita da Cidade quer se tornar um dos maiores nomes da música brasileira. A última, “Reza Para Um Querubim”, encerra o disco com um turbilhão de emoções ao abordar a pós-morte com uma magnífica sensibilidade. No fim, o céu é o que queremos, acima de tudo.

Finalmente, A Banda Mais Bonita da Cidade conseguiu extrapolar todas as expectativas. Fazendo justiça ao título de “salvadores da música brasileira”, os curitibanos entregaram ao público um número de grandes pretensões, e que, sem dúvida, alcança o resultado planejado. Ao discutir a passagem do tempo com toda a sutileza possível, eles conseguiram construir não apenas a sua afirmação no cenário nacional, mas um dos trabalhos mais inteligentes e tocantes dos últimos tempos. Se é arte o que A Banda Mais Bonita da Cidade se propõe a fazer, “O Mais Feliz da Vida” parece ser o trabalho que melhor demonstra os seus ideais… Afinal, é um registro essencialmente artístico, do início ao fim.

NOTA: 8,6

Track List:

01. O Mais Feliz da Vida (Rodrigo Lemos) [04:18]

02. Potinhos (Luiz Felipe Leprevost/Thayana Barbosa) [04:05]

03. Que Isso Fique Entre Nós (Pélico) [03:27]

04. Saindo de Casa (Alexandre França) [03:42]

05. Deixa Eu Dormir Na Sua Casa (Luiz Felipe Leprevost/Troy Rossilho/Alexandre França) [04:29]

06. A Balada da Contramão (Rodrigo Lemos) [04:16]

07. Uma Atriz (Vitor Paiva) [05:25]

08. Um Cão Sem Asas (Vitor Paiva/Uyara Torrente) [01:57]

09. Olhos da Cara (Nuno Ramos) [04:00]

10. Maré Alta (Tibério Azul/Castor Ruiz/Rodrigo Lemos) [04:38]

11. Reza Para Um Querubim (Luiz Felipe Leprevost/Troy Rossilho/Thiago Menegassi) [05:18]

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