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1979: Rita Lee – Rita Lee

Rita Lee (1979)

Por: Renan Pereira

No final dos anos setenta, Rita Lee já era uma pop star, embora até mesmo o conceito de “música pop” ainda fosse um pouco incerto. Se postando desde os últimos anos da década de sessenta como uma das principais vozes femininas da música brasileira, quando fez parte do revolucionário movimento tropicalista enquanto integrante do lendário grupo Os Mutantes, a paulistana sempre foi uma estrela de brilho inegável, uma figura intrigante, revolucionária e inteligente. Portanto, nunca foi surpreendente vê-la a frente de seu tempo.

Como todos sabem, assim foi enquanto ela teve a companhia de Sérgio Dias, do produtor Liminha e de seu antigo marido, Arnaldo Baptista, na banda mais revolucionária do rock tupiniquim. Mas a relação extremamente conturbada com o companheiro, que detinha uma conhecida personalidade auto-destrutiva, foi criando, de forma clara, um prazo de validade quanto à presença de Rita no conjunto. A própria incapacidade dos Mutantes em fazer de “Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida” um registro assinado pelo conjunto serviu para que o público visualizasse que, uma hora ou hora, Rita Lee seria chutada da banda. O fato é que, em 1972, a banda encontrava-se ansiosa para gravar um novo disco, aproveitando a chegada no Brasil da mesa de gravação de 16 canais; mas, por contrato, o grupo não poderia lançar mais nenhum disco naquele ano. O jeito foi lançar o disco creditando-a a Rita Lee, que era uma moça bonita e, por isso, a figura mais “vendável” da banda… No fim, a fama de Rita se elevou a um ponto que não cabia mais no conjunto.

Naquele mesmo ano, de forma controversa, Rita saía do grupo, ao mesmo tempo em que se divorciava de Arnaldo Baptista. Seu primeiro esforço verdadeiramente fora dos Mutantes ocorreria em 1973, em parceria com Lucia Thurnbull no duo As Calibrinas do Éden – que acabou se tornando, na realidade, no embrião do que viria a ser o grupo Tutti Frutti. Nele, Rita pôde finalmente ditar todas as rédeas da carreira, flertando intensamente com a música radiofônica… Se Sérgio Dias e seus novos mutantes passaram a investir em um rock virtuoso e chato, Rita Lee soube utilizar de forma magistral o seu carisma para se tornar um sucesso ainda maior entre o público de massa.

Em 1975, com o lançamento de “Fruto Proibido”, o segundo disco do Tutti Frutti, Rita Lee alcançava sua consagração como artista. As grandes conquistas pessoais, porém, viriam nos dois anos seguintes, quando casou-se com o músico Roberto de Carvalho e deu a luz a seu primeiro filho, respectivamente. Em contrapartida, a presença incisiva de seu novo marido como “guru” do Tutti Frutti acabaria partindo a banda em dois pedaços em 1978: como o nome da banda pertencia a Luis Sérgio Carlini, Rita Lee foi forçada a uma nova mudança.

Mas, dessa vez, tudo parecia ocorrer de uma maneira muito natural. Já experiente, e tendo o apoio total de Roberto de Carvalho, Rita pôde traçar essa nova empreitada com mais tranquilidade, buscando comprovar sua hibridez. Com isso, em 79, lança-se o disco “Rita Lee”, o primeiro trabalho genuinamente solo da artista. Nele, a cantora tratou de se reinventar mais uma vez: surpreendentemente, as bases sonoras do Tutti Frutti, que tanto haviam sido louvadas, acabaram sendo deixadas de lado em nome de um novo estilo, com fortes influências na música que era feita naquela época lá nas terras do Tio Sam.

Como a primeira faixa, a convidativa “Chega Mais”, já anunciava, a levada era diferente: dançante, leve e nitidamente próxima dos anseios do público da época. Se os brasileiros queriam uma extensão genuína das evoluções da música disco, Rita Lee estava entregando, logo na primeira faixa, o maior dos presentes: um grande convite à festa, envolto por uma bateria swingada e uma forte presença de teclados. Deixar passar em branco a performance de Roberto de Carvalho na guitarra também seria um pecado, pois sua qualidade rítmica poderia fazer inveja a qualquer Nile Rodgers.

A segunda, “Papai me Empresta o Carro”, apesar de conter arranjos mais próximos do que Rita e Roberto faziam no Tutti Frutti, com um andamento mais próximo do rock, é uma grande antecipação do conceito bem-humorado que envolveria o gênero nos primeiros anos, assim como o hit “Meu Doce Vampiro”, com seu viés romântico e seus flertes com o R&B, parecia servir como norte para o trabalho que artistas como Biafra, Dalto, Gal Costa e Marina Lima desenvolveriam algum tempo depois. Assim, embora estivesse ruminando sons característicos do fim dos anos setenta, Rita Lee estava inaugurando a década de oitenta para a música brasileira.

Com uma letra crítica quanto à rotina, a quarta, “Corre-Corre” posta-se como um primor rítmico, uma faixa deliciosamente dançante que poderia muito bem se encaixar na extensão do último disco do Daft Punk, “Random Access Memories”, tido hoje em dia como um “álbum moderno”. Era a faceta inovadora de Rita Lee agindo novamente, algo que o grande sucesso alcançado pela faixa “Mania de Você” consegue comprovar com nitidez.

A base sonora de “Elvira Pagã”, a seguinte, não acompanha o nível das demais faixas do disco, mas os versos sarcásticos de Rita Lee acabam compensando a falta de qualidade do instrumental. Falando da capacidade lírica de Rita, a sétima, “Maria Mole”, escrita em parceria com o produtor Guto Graça Melo, é mais um divertido número que comprova o bom-humor insuperável da cantora: propositalmente suave até mesmo nos arranjos, a canção se comporta como um verdadeiro tratado sobre a extrema preguiça.

É bem provável que a nova geração, que hoje vê em Rita Lee uma velhinha maluca e bipolar, não tenha conhecimento do ativismo da cantora em prol da renovação da sempre tendenciosa MPB – que, no término dos anos setenta, vivia tempos nebulosos. Motivada por sua polêmica prisão por porte de maconha (tida na época como um dos atos mais truculentos da ditadura militar), a musicista compôs em parceria com Paulo Coelho, em 1976, a crítica “Arrombou a Festa”, que claramente ironizava os rumos da música popular brasileira. Em 79, motivada por um cenário envolto por nomes horrendos como Sidney Magal, Rita compôs uma “segunda parte” para o single, que acabou fechando o seu verdadeiro primeiro álbum em carreira solo de forma magistral.

Nos dois anos seguintes, seriam lançados os dois últimos grandes álbuns de Rita, que viria a cair em um declínio abissal, resultando na artista praticamente insignificante que ela é hoje em dia. Porém, como nunca podemos nos prender apenas ao presente, deixar de louvar a contribuição de Rita para a música brasileira seria de uma ignorância incrível, negando que é o passado que nos construiu. A década de oitenta foi sim muito importante, e, no Brasil, foi Rita Lee quem a iniciou.

NOTA: 8,4


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2012: Reza – Rita Lee

Por: Renan Pereira

É muito bom ter novamente, depois de um longo tempo, um novo álbum de Rita Lee. O último álbum da nossa rainha do rock, antes de “Reza”, havia sido o bom “Balacobaco”, de 2003, e, com isso, nota-se um intervalo de nove anos entre estes lançamentos. Só que o tempo na música é algo relativo: como muita coisa pode mudar em pouco tempo, longos anos também podem passar sem nenhuma grande mudança. E Rita não muda, continua sendo a mesma artista fantástica desde a época dos Mutantes, e a idade que hoje a torna idosa não modifica a mulher que sempre conhecemos (ou tentamos conhecer). Em “Reza”, Rita é Rita.

De diferente, temos alguns enfeites desnecessários ali ou acolá, umas letras mal trabalhadas, ou até mesmo alguns exageros eletrônicos, que podem tornar certos pontos da sonoridade do disco estranhos para os ouvintes mais conservadores. Mas Rita Lee nunca foi uma daquelas artistas de aceitar convenções ou seguir movimentos – ela é quem é, dane-se os que os outros pensam, e ela faz o que quer fazer. “Reza” não é muito coeso, atira para todos os lados, mas representa bem o que é a personalidade desta artista tão ímpar e importante da nossa cultura.

Por isso, se o ouvinte deseja ouvir coisas certinhas, onde tudo soa no seu devido lugar, “Reza” não é uma das melhores audições. O álbum caminha por um terreno relativamente tortuoso, às vezes lembrando Mutantes, com um som mais psicodélico, passando pelo hard rock dos trabalhos de Rita com a banda Tutti-Frutti, e chegando até mesmo a um som mais chiclete, que pode nos lembrar de certas coisas feitas por Madonna nos anos noventa. As ligações entre vertentes tão distintas são, em “Reza”, esporádicas demais, ou melhor, quase inexistentes, tornando o disco como uma colcha de retalhos ainda sequer costurada. Mas, mesmo que sejam retalhos, algumas canções chamam atenção por pontos positivos… Coragem é coisa que Rita sempre teve, ainda que às vezes lhe falte juízo, e com isso ela é capaz de reviver, em 2012, certos psicodelismos capazes de fazer os mais rabugentos esbugalharem os olhos.

O maior ponto positivo de “Reza” é justamente ser um álbum de Rita Lee – mas se engana quem pensa que ela fez tudo sozinha. Roberto de Carvalho, o maridão dela, é uma constante e forte presença nos álbuns de Rita, e neste último não poderia ser diferente. O cara, além de ter que aguentar a personalidade nada fraca de Rita, é um músico muito competente, mais conhecido como compositor e guitarrista, mas também atuando de maneira concisa na produção. Por isso, nada neste álbum (ou em muitos de Rita) deve ser creditado apenas à cantora.

Para começar, a primeira faixa, “Pistis Sophia”, vai procurando ambientar o ouvinte no suposto tema do álbum; basicamente, uma oração em meio a outras orações. A segunda faixa é a boa faixa-título, continuando no mesmo tema e se interligando bem à primeira música; com estas duas canções, o álbum se inicia surpreendentemente bem, contendo uma interessante introdução para um rock de óbvia qualidade. Alguns pontinhos de rock psicodélico também agradam, mostrando que Rita foi longe no seu passado para construir “Reza”. Já “Tô um Lixo” é um pop-rock até moderninho, mas não deixa, por causa disso, de ser uma faixa válida.

É a partir de “Divagando” que o álbum começa a ficar totalmente desconexo; a canção é um pop ao melhor estilo Lulu Santos, e não se trata de uma música ruim, mas claramente mal alocada e sem nenhuma interligação (sonora ou temática) com as três faixas anteriores. “Vidinha” também é desconexa, se tratando de um hard-rock não muito empolgante, onde as guitarras se limitam ao óbvio e a letra não passa de “tudo o que você pode imaginar que uma pessoa sem muita criatividade e descontente fale de sua vida”. A sexta faixa, “Loucas”, até pode lembrar mais o grande trabalho feito por Rita com a banda Tutti-Frutti, mas na verdade só por causa de alguns elementos do instrumental – a letra não vai nada muito além daqueles “clássicos modernos” do sertanejo universitário.

Infelizmente, tudo de bom que tentou ser construído, em um animador início, vai sendo rapidamente destruído. “Bixo Grilo” pode ser considerada uma das piores músicas já gravadas por Rita; é uma canção altamente artificial, tentando ser “cool”, cheia de enfeites eletrônicos, uma atmosfera alucinógena e um tema contemporâneo – em que mais uma letra ruim pode ser ouvida, mas não muito compreendida. “Paradise Brasil” até tem uma letra mais legalzinha, com uma pequena crítica, apesar de não ser também nada de incrível; agora, o que peca é o instrumental, que além de ser um pop dançante (Rita é ou não a rainha do rock, afinal?) é um pop preguiçoso, daqueles chiclete, sem dinamismo nenhum.

“Rapaz” é, finalmente, uma canção ao nível de Rita Lee; com elementos psicodélicos, e com um tema promíscuo (o que Rita sempre gostou) bem trabalhado, se trata de uma faixa bem válida, apesar de não estar nem perto das melhores canções já gravadas pela roqueira. E não é que o álbum continua teimando em fazer algumas mudanças drásticas e incompreensíveis? Depois de rezar, de se drogar, de dançar em uma boate e de transar, na décima faixa “Reza” vai direto para o Iraque, mais precisamente em “Bagdá” – convenhamos, a música é até engraçadinha, simpática, mas é capaz de irritar ao ser ouvida por várias vezes; apesar de o instrumental ser bem feito, a letra é bastante fraca.

Agora, em que estamos pra lá de “Bagdá”, temos a música “Tutti-Fruditti”, mais uma com ares psicodélicos, mas que não passa do medíocre. Porém bons momentos são ouvidos novamente na consistente “Gororoba”, um rock bem nutritivo, e na totalmente psicodélica “Bamboogiewoogie”, a melhor música de “Reza”, que poderia muito bem ter feito parte de algum álbum dos Mutantes. Mas “Pow” trata de encerrar o álbum de forma ridícula, não passando de barulhos sem nexo e de experimentalismos incompreensíveis, nos fazendo pensar se Rita realmente tem algum rumo na atual fase de sua carreira.

Meses atrás, ela descobriu ser bipolar (só agora?), e se, em “Reza”, era esse o traço de personalidade que ela e seu marido gostariam de explorar, talvez o álbum tenha sido competente. É como se Rita virasse um disco, e cada fase do seu humor fosse uma faixa, em que as mudanças se mostrassem drásticas e sem propósito. Mas o mais grave é que ela parou de fazer shows, e este é seu primeiro álbum em nove anos; será que ela mesma ainda se leva à sério, será que ela ainda quer algo a mais ou agora é só viver do passado? Apesar de seu talento não ter a abandonado, o que é provado em algumas boas faixas do “Reza”, Rita precisa decidir se ainda quer continuar a utilizá-lo.

NOTA: 3,8

Track List:

01. Pistis Sophia (Rita Lee) [01:50]

02. Reza (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [02:26]

03. Tô um Lixo (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:22]

04. Divagando (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [04:08]

05. Vidinha (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [05:33]

06. As Loucas (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:12]

07. Bixo Grilo (Rita Lee) [04:37]

08. Paradise Brasil (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [04:20]

09. Rapaz (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:39]

10. Bagdá (Rita Lee) [03:04]

11. Tutti-Fuditti (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:31]

12. Gororoba (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [02:55]

13. Bamboogiewoogie (Rita Lee) [07:35]

14. Pow (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:43]

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