Arquivo da tag: punk

2014: Nheengatu – Titãs

Nheengatu

Por: Renan Pereira

Os protestos ocorridos no Brasil em 2013, enquanto era realizada a Copa das Confederações, não serviram apenas para colocar um fim na inércia crítica que parecia abalar a população brasileira há muitos anos: também foram responsáveis por “acordar alguns gigantes que estavam dormindo”. Os Titãs pareciam curtir um sono eterno, e muita gente até duvidava que a banda voltaria a fazer, algum dia, um novo projeto relevante. Ainda que o barco titânico tivesse começado a afundar nos anos noventa, com o lançamento dos péssimos “Volume Dois” e “As Dez Mais”, foi na década passada que a banda passou a ser nada além do que um fantasma a perambular pelos anais do rock nacional, comportando-se como uma entidade morta que nada mais tinha a acrescentar. A morte de Marcelo Fromer e a saída de Nando Reis foram verdadeiros golpes de pá na carreira dos Titãs, embora tenha sido a posterior saída de Charles Gavin que pareceu enterrar a banda de uma vez. O lançamento de “Sacos Plásticos”, então, soou como um atestado de óbito… Mas veio a agitação política de 2013, e a banda milagrosamente renasceu.

Mesmo sem apresentar nenhuma novidade sonora, os Titãs fazem de seu novo lançamento, “Nheengatu”, uma especie de “renascimento tardio” do conjunto. Aproveitando o clima politicamente crítico que se estabeleceu no país com os protestos, bem como o constante aparecimento dos integrantes na mídia, o grupo finalmente resolveu aplicar o seu talento em “cravar a unha na ferida” para produzir um disco artisticamente válido. Mostrando uma habilidade crítica até mesmo surpreendente para uma banda envelhecida, os Titãs fazem de seu novo trabalho uma obra que seu público estava querendo ouvir há muito tempo.

Para isso, eles não titubearam em emprestar quase todas as bases de dois de seus álbuns mais cultuados: “Cabeça Dinossauro”, de 1986, e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, do ano seguinte. Isso é ruim? Digamos que seja apenas em partes… Embora fique claro que a banda não tem mais condições de acrescentar novos elementos ao seu legado (um fato que já era explorado por Nando Reis há mais de uma década), temos músicos talentosos pisando em um terreno que conhecem muito bem. Se nos últimos anos o público teve aguentar a banda tentando flertar com o pop-rock atual com pouquíssimos êxitos, agora podemos acompanhar Branco Mello, Paulo Miklos, Sérgio Brito e Tony Bellotto de volta a seu habitat natural.

A primeira faixa de “Nheengatu”, “Fardado”, já deixa claro o rumo pelo qual o disco é guiado: procurando ser instrumentalmente feroz e liricamente crítico – mas, em contrapartida, esbarramos logo no início em conceitos já batidos, apresentados há muitos anos na famigerada “Polícia”. A segunda, “Mensageiro da Desgraça”, é um recado claro a candidatos a “salvadores de pátria”, um oferecimento especial a nossos “queridos” políticos, assim como “Vossa Excelência” havia sido em 2005. Nosso cotidiano tão deprimente, com nossos pensamentos tão dispersos, é bem explorado em “República dos Bananas”, que traz um conceito sonoro totalmente embebido no ska, amplificando a “volta às origens” que o disco busca promover.

“Fala, Renata” trata daquelas pessoas que, aproveitando-se dos fatos, falam muito, mas, no fim das contas, não dizem nada de relevante – ou de suportável. Tony Bellotto se destaca em “Cadáver Sobre Cadáver”, uma melódica canção sobre violência que parece fazer uma interação entre a fase mais suja e os anos mais “pop” dos Titãs. Outro destaque positivo acaba ficando para a produção de Rafael Lemos, que acerta ao fazer o “feijão com arroz”, deixando os integrantes da banda totalmente à vontade… Algo muito diferente do que Rick Bonadio tentara quatro anos atrás no fatídico “Sacos Plásticos”, em que o produtor tomara as rédeas para si tentando transformar os Titãs em uma espécie de Jota Quest para tiozinhos.

Apesar de conter guitarras interessantes, “Canalha” é uma canção mais fraca, em meio a tantas porradas… E a maior dessas porradas é, sem dúvida nenhuma, a sétima faixa, a pesadíssima “Pedofilia” – tanto na temática quanto na instrumentação. Um disco de altos e baixos, “Nheengatu” é capaz de fazer o ouvinte se sentir instigado em alguns instantes para logo depois se ver estacionado em redundâncias, como é o caso da oitava faixa, “Chegada ao Brasil (Terra à Vista)”. Mas convenhamos que um lançamento dos Titãs com altos e baixos já consegue ser superior a tudo o que a banda havia feito na última década – o que acaba gerando, obviamente, um resultado muito mais positivo do que negativo.

“Eu Me Sinto Bem” traz um bem-vindo instante de novidade, em que os Titãs mesclam sua identidade punk com um clima totalmente tropical, flertando inclusive com melodias da música nordestina. A seguinte, “Flores Pra Ela”, traz novamente guitarras encorpadas, mas por ficar conceitualmente isolada no disco, acaba passando quase despercebida, e será certamente mais um número esquecido do vasto catálogo de canções do grupo. “Não Pode” até traz de volta à tona aquele espírito anárquico de “Cabeça Dinossauro”, mas dentre os discursos do disco, é aquele que menos cola: podia até funcionar 30 anos atrás, mas ver cinquentões explorando uma ideia “contra as regras” não deixa de aparentar uma forçação de barra.

“Senhor” busca inspirações em “Igreja”, outra faixa do álbum “Cabeça Dinossauro”, para fazer críticas às instituições religiosas oportunistas – este em particular um discurso que ainda cai como uma luva, veja bem! Sim, pouco evoluímos. Já fazem quase trinta anos que o disco mais reverenciado da discografia dos Titãs foi lançado e, mesmo assim, muitas de suas críticas continuam valendo para os dias de hoje. Tanto que, mesmo repetindo conceitos, a banda consegue construir um trabalho cronologicamente relevante, atento aos problemas da sociedade atual. Se pararmos para pensar, é impressionante: as mazelas da sociedade que seus pais enfrentavam enquanto jovens são as mesmas que você enfrenta hoje em dia.

“Baião de Dois”, como seu próprio título pode deixar transparecer, se assemelha à “Eu Me Sinto Bem” quanto às intervenções estilísticas da música nordestina – talvez o único aspecto realmente novo para a sonoridade dos Titãs que “Nheengatu” apresenta. Mas melhor do que nada, não? Ainda há a última faixa, a igualmente boa “Quem São os Animais?”, que lembra os grandes hits da história dos Titãs: um pop-rock de primeira, com melodia convidativa e cheio de personalidade.

Bem, é inevitável que finalmente os Titãs voltaram pra valer. Mas o melhor de tudo, ainda, é vê-los com vontade de produzir. Todos estão muito bem, com projetos paralelos bem-sucedidos, mas a música continua sendo para os caras um aspecto relevante – algo que, anos atrás, muita gente já andava duvidando. Se os Titãs precisavam provar que ainda estavam vivos, provaram. “Nheengatu” pode até ser um reaproveitamento de velhas ideias, mas é um disco que utiliza-se, acima de tudo, de boas ideias.

NOTA: 6,5

Anúncios

2013: Silence Yourself – Savages

Silence Yourself

Por: Renan Pereira

Selvagens: não apenas a tradução literal do nome da banda, mas do que, de fato, ela é a formada. A primeira impressão, porém, é que o ouvinte acabará embarcando em mais um disco simplesmente melancólico, refletindo as dores e os descaminhos amarosos de jovens garotas. Mas, para início de conversa, o público que não se deixe enganar: as expressões sisudas e de quase contemplação das integrantes da banda na capa do disco não são nada mais que o ponto de partida para um registro raivoso e barulhento, apesar do título do álbum anunciar um suposto “silenciamento”.

Mas algumas coisas realmente são o que parecem. Veja as cores da capa do álbum (ou a falta delas) e já se tornará claro em que tipo de ambiente a sonoridade do registro se aloca. Pois bem, “Silence Yourself” parece realmente ter saído das mais profundas sombras de um cenário enevoado, em que as mágoas femininas se transformam em versos ásperos, vocais estridentes e ruídos agressivos. Portanto, esqueça-se do tal “sexo frágil”, e acompanhe o quanto as mulheres podem ser fortes e combativas – ou até mesmo selvagens.

O que Jehnny Beth e suas companheiras querem passar é, enfim, aquela ideia do “cansei de ser boazinha”. Relacionamentos vêm e vão, o tempo passa e as mágoas só se acumulam, e a decepção com o sexo masculino acaba chegando em um ponto em que a tolerância se desfaz, abrindo espaço para uma tristeza ríspida e o total desapego de qualquer docilidade. É como se as garotas quisessem se libertar, afirmar sua coragem e mostrar quão hostil o universo pode ser, em uma atitude que se desprende da vaidade e parte para o ataque, perfazendo um conjunto de faixas que parecem submeter o machismo a verdadeiros chutes nas partes baixas.

O primeiro desses “golpes baixos” é “Shut Up”, que surge em meio a ruídos e muita sujeira, enfatizando o lado obscuro que será explorado por todo o registro; com uma pesadíssima linha de baixo, a canção se apoia em um instrumental característico do pós-punk, revivendo características de bandas alternativas da década de oitenta para envolver os versos cheios de atitude de Jehnny Beth. Barulhenta, “I Am Here” contém uma grande quantidade de riffs raivosos, que se impregnam nos ouvidos quase de forma abrupta, forçada, trabalhando para injetar ainda mais agressividade à sonoridade da banda. Da mesma forma é “City’s Full”, dando fortes “porradas sonoras” em mais uma base instrumental pra lá de abrasiva.

Mas, por mais que a intensidade do instrumental perfeitamente atmosférico seja um grande ponto positivo do disco, delineando as ideias e esclarecendo o seu propósito, não há como tirar de Beth os grandes méritos “conceituais” do registro: as letras da vocalista são o que constroem a personalidade do grupo, transformando essas garotas aparentemente inofensivas em seres de selvageria inegável. Provas disso estão por todo o álbum; muito embora o conjunto de faixas mostre nos riffs sujos de Gemma Thompson e nas linhas de baixo de Ayse Hassan um padrão sonoro imensamente atrativo, está nos versos de Jehnny Beth a real força que faz de “Silence Yourself” um registro de destaque. A quarta faixa, a fortíssima “Strife”, é inclusive uma boa prova dessa ideia.

Segue a igualmente ruidosa “Waiting for a Sign”, mantendo o álbum em seu devido patamar: muito barulho e sujeira em uma musicalidade tradicionalmente pós-punk, enquanto Beth dispara suas raivas através de versos estrondosos. Mas a sexta faixa, “Dead Nature”, é número curioso, totalmente inesperado, em que os ruídos de guitarra constroem mais um número ambientado nas sombras, mas especialmente silencioso, carregado de mistério; é como se as garotas, perfazendo um instrumental pra lá de tenebroso, quisessem assustar os seus ouvintes. Mas, no fim das contas, o que temos é apenas uma introdução para a sétima e mais poderosa canção do registro; “She Will” é primorosa, passeando de Joy Division a PJ Harvey com uma qualidade assombrosa. Aliás, fazer sua música soar inédita mesmo se amarrando a ideias do passado é uma das grandes virtudes deste álbum.

Investindo na qualidade rítmica, com uma colossal de linha de baixo, “No Face” é mais um número formidável, afirmando quão consistente o álbum pode ser – conseguindo atrair do início ao fim. Porém, deve ser observado que, na reta final de “Silence Yourself”, as composições parecem deixar de soar como um grito liberativo, deixando-se envolver pelo caos enquanto começam a clamar por um desfecho sentimental… E aí mora, enfim, o significado do título do trabalho, que em um primeiro momento havia soado tão estranho: amparada pelo texto na capa do disco, a ideia que se prega é desconstruir, para que depois tudo seja colocado devidamente em seu lugar, e, no fim, resignar-se ao silêncio. É como em uma discussão, onde primeiramente os defeitos são reclamados, tenta-se chegar a uma solução, e depois o que resta é apenas lidar com o resultado final.

A pulsante “Hit Me” é uma concepção clara desse aspecto caótico, soando intensa e sofrida, almejando algo que parece ainda não estar ao alcance. A penúltima, “Husbands”, pode ser descrita como o perfeito entrosamento entre as integrantes, em que todas parecem dar o máximo de si, e em igual proporção, para criar um primoroso número post-punk; é, enfim, a música que melhor reúne a sonoridade característica da banda, com Fay Milton espancando a bateria, Ayse Hassan construindo extraordinárias bases de baixo, Gemma Thompson invadindo nossos ouvidos com uma raivosa construção de riffs e Jehnny Beth gritando seus versos rispidamente magoados. Já a última, “Marshal Dear”, é a melhor forma possível de finalizar um registro deste porte emocional, buscando e alcançando, através de sua atmosfera gótica, o desfecho conceitual do disco; com fantásticos arranjos, mesclando o barulho com o silêncio, é uma concepção final não apenas da musicalidade do álbum, mas também da filosofia pregada pela banda… No finalzinho, um solo de clarinete com o acompanhamento de um piano mostra a conclusão das abordagens sujas e, enfim, o silêncio.

“Silence Yourself”, e até mesmo este texto, poderiam muito bem ser mal interpretados por alguns… Feminista? Ah, longe, muito longe disso. É fato que Jehnny Beth e sua trupe atacam o sexo oposto, mas o que faria uma banda de homens, nesse caso, senão a mesma coisa? Distantes de qualquer aspecto que poderia tornar sua música fechada apenas ao público feminino mais desiludido, as Savages acabaram construindo algo muito maior que um simples capítulo da famigerada “guerra dos sexos”. A música das garotas é abrangente, atacando as dores e pregando sua filosofia de desconstrução de forma a atingir o mais variado grupo de ouvintes. Afinal de contas, Beth, Thompson, Hassan e Milton não são simples exemplares do sexo feminino: mais do que mulheres, elas são selvagens.

Mas se fosse apenas consistente em seu conceito, “Silence Yourself” não acabaria se tornando um álbum de destaque. Para servir de base para suas ideias, o registro acaba revivendo, de forma competente, os elementos do antigo post-punk, tão esquecido nos dias de hoje, a praticamente revisitar as glórias de grandes grupos como Wire e Joy Division – mas aplicando tais elementos, felizmente, no mundo atual.

Com isso, as Savages conseguem fazer de seu primeiro disco um trabalho extremamente convincente, em que os ruídos e os versos se completam, trazendo aos dias de hoje um pouco da agressividade há muito perdida pela maioria das bandas de rock. Curiosamente, pode-se concluir que coube a quatro mulheres fabricar um dos álbuns mais “machos” dos últimos tempos.

NOTA: 8,5

Track List:

01. Shut Up [04:48]

02. I Am Here [03:20]

03. City’s Full [03:27]

04. Strife [03:57]

05. Waiting for a Sign [05:25]

06. Dead Nature [02:06]

07. She Will [03:27]

08. No Face [03:35]

09. Hit Me [01:41]

10. Husbands [02:50]

11. Marshal Dear [04:03]

1985: O Concreto Já Rachou – Plebe Rude

O Concreto Já Rachou

Por: Renan Pereira

Não só a situação política contraditória e as desigualdades sociais deram origem ao crítico rock de Brasília. Deve-se também levar em consideração que, lá no início dos anos oitenta, a capital federal não era uma cidade muito atraente para os jovens; poucas oportunidades de lazer e o convívio constante com os ares da política fizeram nascer uma geração pouco festeira e otimista, mas extremamente preocupada com os rumos que o nosso país tomava. Pode-se dizer, desse modo, que o rock de Brasília está para os anos oitenta assim como o movimento punk da Inglaterra está para os anos setenta, tanto na identidade sonora simples e jovial, quanto na veia crítica que permeava as composições.

Não é muito difícil perceber, contudo, o porquê das abordagens políticas realizadas pelas bandas oitentistas. Em 1985, por exemplo, ano de lançamento de “O Concreto Já Rachou”, a política do nosso país era um cenário de completa incerteza. No executivo, José Sarney, um antigo aliado dos militares, comandava a política do país em sua redemocratização. O povo estava feliz pelo retorno da liberdade política, mas ao mesmo tempo enfrentava tempos economicamente difíceis, já começando a experimentar um panorama trágico de inflação alta. Poucos aspectos deste cenário eram realmente animadores, e quem vivia naquela época (principalmente nas classes de menor poder aquisitivo) deveria se apegar unicamente à esperança de experimentar dias mais justos em nosso país. Era necessário, em todas as áreas, um pensamento social mais crítico, e o rock de Brasília, e especialmente a banda Plebe Rude, fizeram a sua parte.

Falando em Plebe Rude, é o bom o ouvinte, primeiramente, se desapegar da provável ligação sonora da banda com o punk setentista. A amarração está apenas no conceito crítico, e talvez no visual “The Clash” dos integrantes. Por mais que, na época, o grupo se auto-rotulasse “punk”, a viagem sonora proposta pelos brasilienses não passa muito perto do cru e agressivo, se estabelecendo, na verdade, dentro do movimento new-wave que tomava conta do cenário internacional. A musicalidade, portanto, até tem certo nível comercial, mas nada que faça o tom crítico do álbum desbotar; muito pelo contrário, a Plebe Rude soube muito bem como se situar no panorama da época, aproveitando tudo o que estava sendo feito para construir uma identidade segura.

Como o disco retrata a época contraditória em que foi concebido, não é muito surpreendente ver a banda utilizar de luxo para falar sobre a falta de dinheiro. Pois bem, é com um violino triste que “Até Quando Esperar” se inicia, abrindo o álbum da melhor maneira possível; afinal de contas, esta é um canção formidável, instrumentalmente forte e criticamente impecável, simbolizando a diminuição da esperança à medida em que a desigualdade só se agravava… Só Deus poderia ajudar? A pobreza e a riqueza voltam a andar juntas (ou a se desencontrar, ao mesmo tempo) no sucinto solo de violino; como na sociedade brasileira, um breve esplendor em meio a tanta indigência.

A segunda faixa, “Proteção”, discute, em meio a uma instrumentação econômica, a funcionalidade do setor de segurança: será que a repressão havia realmente cessado? “Me proteger do quê?”, canta Phillipe Seabra, em tom de indignação… enfim, eis mais uma ótima canção de protesto. “Johnny Vai à Guerra” ataca as forças armadas, e aquela promessa de “vida de emoções e aventuras”, frase forte em apelo mas vazia em conceito; guerrear, seja lá contra quem, acabou se tornando algo divertido?

Embora o álbum seja um produto da já longínqua década de oitenta, não há como não traçar um paralelo a partir dele à atual condição da nossa sociedade. “Minha Renda”, por exemplo, parece ser o recado mais certeiro para aqueles artistas, bandas e gravadoras que utilizam a música para simplesmente lucrar, deixando a arte de lado; a canção elucida, com primor, a situação mutuamente aproveitadora em que artistas e contratantes acabam se metendo, em que utilizam melodias fáceis e propostas de qualidade propositalmente diminuída para alcançar um público maleável e despreocupado. A curiosidade, nesta faixa, fica por parte da brincadeira feita pela Plebe Rude com Herbert Viana, líder dos Paralamas do Sucesso e produtor de “O Concreto Já Rachou”.

O único momento em que o álbum realmente deixa sua qualidade decair está presente na quinta faixa, “Sexo e Karatê”; não pela proposta visivelmente mais divertida que, possivelmente, critica a produção cinematográfica da época, mas por conter a única letra não muito bem resolvida do disco. No fim, é o instrumental forte que acaba salvando a faixa, que se não está no mesmo nível das demais, também não rebaixa a música da Plebe Rude a níveis necessariamente baixos.

É a sexta faixa, “Seu Jogo”, que contém a qualidade lírica mais impressionante do disco; sua letra é construída por um conjunto formidável de versos elaborados, que controvertem (embora não muito claramente) a vida errante de um jovem recém chegado à idade adulta, comparando suas decisões à movimentação de peças em um tabuleiro. A sétima e última faixa do álbum (isso mesmo, você não leu errado, são apenas sete faixas) é a sensacional “Brasília”, que reflete os descaminhos da capital nacional e a rotina sem-graça dos membros da banda (e de todos os brasilienses) em sua terra natal… É engraçado pensar que, em um dia, a cidade planejada por Lúcio Costa, hoje marcada pela incompetência dos três poderes, “sede” da roubalheira e da injustiça, já foi chamada de “Capital da Esperança”.

Mas, espera aí, por que um disco com apenas sete faixas? A explicação é simples: naquela época, lançar mini LP’s para testar a capacidade comercial de novas bandas era uma prática comum por parte das gravadoras – em suma, caso o trabalho não fosse muito bem aceito pelo público, o prejuízo não seria muito grande. Caso a aposta da gravadora desse certo, e o público aceitasse de bom grado a sonoridade do novo grupo, aí sim ele teria o direito de gravar um disco maior. E foi isso que felizmente aconteceu com a Plebe Rude, que em 1987, lançaria “Nunca Fomos tão Brasileiros”, um álbum com onze faixas.

Mas como pode um disco com apenas sete faixas, com pouco mais de vinte minutos de duração, se portar entre os maiores clássicos do rock brasileiro? Simplesmente, porque ele é arrebatador, constituído por inteligentes letras, fortes instrumentais, belas melodias… Além disso, é muito bem politizado, criticando, no momento certo e do modo certo, o que deveria ser criticado – tendo sido criado, aliás, em uma época em que pensamentos mais críticos sobre o futuro da nossa pátria se mostravam altamente necessários. Enfim, é um álbum que, do início ao fim, a todo instante, soa intenso, memorável, marcando uma importante página do rock nacional.

NOTA: 8,8

Track List:

01. Até Quando Esperar (Seabra/André X/Gutje) [04:28]

02. Proteção (Seabra) [02:09]

03. Johnny Vai à Guerra (Outra Vez) (Seabra/André X/Gutje/Bilaphra) [03:30]

04. Minha Renda (Seabra/André X/Gutje/Bilaphra) [02:37]

05. Sexo e Karatê (André X/Bilaphra) [02:01]

06. Seu Jogo (Pretorius/Seabra/André X/Gutje/Bilaphra) [03:59]

07. Brasília (Seabra/André X/Gutje/Bilaphra) [02:48]

2012: ¡Uno! – Green Day

Por: Renan Pereira

Após duas óperas-punk, os ótimos “American Idiot” e “21th Century Breakdown”, o Green Day decidiu retornar às suas origens. Não espere mais o ouvinte o mesmo cunho crítico dos dois últimos lançamentos da banda, ou aquelas baladas tristonhas ao estilo de “Boulevard of Broken Dreams” ou “21 Guns”, pois “¡Uno!”, tido como o primeiro álbum de uma trilogia, soa como uma viagem ao tempo; pense em tudo o que o Green Day fez na década de noventa, de bom ou de ruim, mescle com as tendências atuais, e você já estará sabendo do que o novo álbum se trata.

“¡Uno!” é de um pop-punk bem tradicional, nada muito diferente do que um dia a banda já fez; ele soa bastante como os trabalhos que ficam, cronologicamente, entre os fenômenos “Dookie” e “American Idiot”, em uma época em que os californianos ficaram relativamente no ostracismo – vale lembrar que, depois de estourar com “Dookie” e seus hits, o Green Day só viria a ter novamente um relevante sucesso com a sua primeira ópera-punk, lançada em 2004. Mas isso não chega a fazer de “¡Uno!” um álbum repetitivo, com uma musicalidade batida, pois hoje experiente, e tida como uma das melhores bandas do mundo, Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tre Cool não só sabem como agradar o público atual, mas também acariciam os fãs das antigas através de suas novas composições.

Mas um fato relevante, que não deixa de passar desapercebido, é que apesar desse retorno a uma sonoridade mais direita, mais despreocupada, nunca o Green Day havia soado tão pop – “¡Uno!”, definitivamente, não é um “Dookie” do século XXI. Se em 1994 os mais puristas já acusavam o Green Day de se vender, de “trair o movimento punk”, com certeza, agora em 2012, o acusarão de estar se entregando ao pop. Talvez não seja para tanto, até porque nunca se deve levar muito em consideração a mente extremamente fechada dos puristas… Mas que há algumas canções com letras comerciais e melodias chicletes, não há como negar.

A primeira faixa, “Nuclear Family”, já é um recado definitivo aos ouvintes; eis aqui o Green Day de antigamente, com o som cru de outrora, tratando com a mesma instrumentação forte as competentes melodias de sempre, sendo, afinal, uma ótima canção de abertura, dando claros indícios de como “¡Uno!” se comportará. De bons riffs é feita “Stay the Night”, mais um pop-punk tradicional, com espírito noventista, porém sem ignorar o ano de seu lançamento: soa como uma espécie de power pop, com um refrão pra lá de medíocre, mas que felizmente, devido ao ótimo dinamismo instrumental da canção, não chega a ser um estrago. Realmente, se não podemos afirmar que o Green Day está em seu momento mais brilhante da carreira, pelo menos podemos ter a certeza que, instrumentalmente, eles estão caprichando como nunca; provas disso estão em “Carpe Diem”, a terceira e uma das melhores faixas do álbum.

“Let Yourself Go” é pesada, rápida e direta, Green Day em seu estado máximo, um perfeito encontro entre a sonoridade do “Dookie” e a bagagem adquirida pela banda através dos anos. Já, a quinta faixa, “Kill the DJ”, é uma das criações mais estranhas do Green Day em toda sua história, mas no bom sentido; se trata de um dance-punk, com um primoroso trabalho de baixo, que constrói uma canção para tocar em rádios e danceterias, e que não deixa, apesar disso, de ser um dos maiores êxitos do disco – é, afinal, o Green Day fazendo com primor algo totalmente diferente de tudo o que já fez, sem medo de experimentar novos sons. Já, “Fell for You”, é uma canção mais fraca, forçadamente pop, artificialmente comercial.

 A sétima, “Loss of Control”, é um novo abraço ao punk de antigamente, só que não muito relevante, se tratando de uma música pouco dinâmica. Aliás, se há alguma relevância em “Troublemaker”, ela só pode ser negativa; é, assim como “Kill the DJ”, uma canção dançante, mas errando tudo o que há de acertos na oitava faixa, sendo assim, de longe, a pior música do álbum. Enquanto isso, “Angel Blue” é uma canção forte, um rock de atitude, mostrando inclusive o quanto o Foo Fighters é uma importante inspiração na atualidade. Só que na canção seguinte, a fraca baladinha “Sweet 16”, o álbum volta a decair.

É assim, de erros e acertos, que “¡Uno!” é construído. Sem dúvida, um lançamento mais fraco em relação aos dois últimos registros da banda, mas que nem por isso deixa de ter méritos. É louvável a atitude do Green Day em procurar dinamizar sua discografia, procurando não cair na mesmice, fugindo das fórmulas que construíram “American Idiot” e “21th Century Breakdown”, e tentando sempre soar jovem. Passam-se os anos, as décadas, mas ainda não podemos ter o Green Day como uma banda velha, significando, assim, o acerto constante do grupo em fazer um som vívido. Assim é “Rusty James”: jovial, atraente, e apesar de ser uma canção mais calma, não deixa de apresentar a força e a atitude tradicionais do som do Green Day.

Só que, para atestar de uma vez a inconstância do álbum, temos a medíocre “Oh Love” como encerramento; é uma música melódica, mas que por ser extremamente simples, acaba se tornando altamente enjoativa. Mas, para nossa felicidade, tal mediocridade não é uma constante do álbum, que mesclando antigos ideais com fórmulas atuais, acaba por ser um registro válido na boa discografia do Green Day. “¡Uno!” pode não ser uma grande obra, um trabalho primoroso, e sequer é um álbum consistente, mas continua a provar que o Green Day não deseja cair no marasmo.

“¡Dos!” e “¡Tré!” serão lançados nos próximos meses, concluindo assim um dos mais ousados projetos da atualidade. Afinal, qual banda hoje em dia lança trilogias? Até por isso, estes álbuns podem vir, assim como o primeiro ato da série, a não mostrar o Green Day em sua fase mais gloriosa, e mesmo assim formarão um trabalho digno de elogios. Mas, se o Green Day decidir surpreender os ouvintes, lançando trabalhos diferentes, de qualidade mais constante, acredita-se que ninguém se entristecerá. É esperar para ver.

NOTA: 6,7

Track List: (todas as letras creditadas a Billie Joe Armstrong, e instrumentais creditados a Armstrong/Dirnt/Cool)

01. Nuclear Family [03:03]

02. Stay the Night [04:36]

03. Carpe Diem [03:25]

04. Let Yourself Go [02:25]

05. Kill the DJ [03:41]

06. Fell for You [03:08]

07. Loss of Control [03:07]

08. Troublemaker [02:45]

09. Angel Blue [02:46]

10. Sweet 16 [03:03]

11. Rusty James [04:09]

12. Oh Love [05:03]

Download

1994: Dookie – Green Day

Por: Renan Pereira

Muitos dizem que o Green Day deixou o punk mais pop, mas é inegável que os caras deram um novo fôlego ao gênero. A banda, que teve seus primeiros suspiros lá no final da década de oitenta, iniciou-se sem grande pretensões, sendo apenas uma banda de punk rock formada por três amigos, sem dinheiro e sem grandes expectativas. Naquela época, o punk já havia caído em decadência, e as bandas que continuavam a fazer um som parecido àquele que se tornou fenômeno na década anterior produziam uma música que, cronologicamente deslocada, era apenas uma sombra do punk feito antigamente. Assim, juntando-se os fatores, temos uma banda que tinha tudo pra dar errado – mas que, talvez até por isso, tenha dado certo.

O que fez o Green Day se tornar uma banda relevante, não apenas no então decadente cenário punk, mas em toda música em geral, foi justamente trazer uma concepção diferente ao antigo gênero. Realmente, de nada adiantava continuar a fazer o mesmo som que marcou o final da década de setenta, pois, por mais que tivesse entrado para a história, não chamava mais a atenção do público dez anos após seu pico de sucesso. Houve gente dizendo que a banda estava se vendendo, que não estava mais respeitando suas origens, mas devemos ter sempre em mente que a música é uma arte viva, mutável, e que a evolução é sempre bem-vinda, principalmente quando é feita para uma melhor adequação a uma época.

E foi com esse punk punk rock renovado, o punk dos anos noventa, que o Green Day entrou para o mainstream. O segundo álbum da banda, o competente “Kerplunk”, de 1992, já havia feito um moderado sucesso, apresentando muito bem a sonoridade vívida do grupo californiano; mas foi com o eletrizante “Dookie” que a banda realmente se consagrou, com suas faixas poderosas e sua atitude inegável.

A primeira faixa, a ótima “Burnout”, já vai apresentando ao ouvinte o que ele ouvirá no álbum; um punk rock fortíssimo, explosivo, direto e eletrizante, simples e melodicamente competente, com performances instrumentais impecáveis. A segunda, “Having a Blast”, explora os mesmos elementos da faixa anterior, e apesar de ser ideologicamente parecida (assim como todas as faixas do álbum), tem méritos em não soar repetitiva. Aliás, uma das grandes qualidades do “Dookie” é, realmente, ter uma grande interligação entre as faixas, mas, ao mesmo tempo, soar dinâmico. “Chump” é mais um punk rock eletrizante, direto, igualmente ótimo às faixas anteriores.

“Dookie” pode ser um álbum construído por uma sonoridade simples, com temas pouco variados (basicamente, experiências próprias dos membros da banda, falando sobre sexo, drogas, mulheres e ataques de ansiedade), mas mesmo assim é musicalmente rico. Por quê? É, sobretudo, naturalmente vívido, sincero, mostrando uma banda que, consciente de suas limitações técnicas, trabalhou de forma exemplar suas maiores qualidades para construir um disco de altíssima consistência; todas as faixas são competentes, positivamente poderosas, detentoras de um punk melódico que foi capaz de conquistar público e crítica.

A clássica e politicamente incorreta “Longview”, cujo instrumental foi construído sob influências de LSD, é especialmente pesada, irônica, servindo como um grito para uma geração cansada das convenções e das melancolias daquele início de década. “Dookie” contém muitas das canções mais conhecidas da banda, e “Welcome to Paradise” é uma delas; apesar de ser uma regravação de uma faixa do “Kerplunk”, apenas com algumas alterações no instrumental, a versão do “Dookie” acabou se tornando um dos hinos da banda, com destaque principal para o dinamismo instrumental. “Pulling Teeth” talvez só esteja no álbum para torná-lo imperfeito em algum ponto, apesar de não ser uma música ruim; o problema é que, rodeada por músicas poderosas, acaba não tendo um grande destaque, se caracterizando como uma faixa apenas razoável dentro de um fortíssimo álbum.

Poucos singles já se mostraram tão poderosos quanto a sétima faixa do álbum, a famigerada “Basket Case”; é uma música ótima, considerada por alguns, até mesmo, como uma das melhores de todos os tempos no punk rock, mas talvez o massivo sucesso tenha a desqualificado para muitos olhos – foi, durante muito tempo, queridinha de emissoras de rádio e televisão, principalmente quando se fala de MTV. A oitava, “She”, também foi um single de sucesso, caracterizando-se como “apenas” mais uma; ou seja, mais uma eletrizante, espirituosa e vívida faixa do impressionante “Dookie”. “Sassafras Roots” é mais um punk impecável, e que, curiosamente, fala da mesma mulher da faixa anterior (uma ex-namorada de Billie Joe Armstrong). A décima é a altamente radiofônica “When I Come Around”, construída com criativos e dançantes riffs, alocados em uma estrutura bastante segura e competente.

O álbum passa muito rápido, praticamente voando, até por ser formado, realmente, por faixas de curta duração; mas as três próximas músicas são ainda as mais curtas do disco. “Coming Clean” tem, assim como todas as músicas do álbum, um espírito todo jovial, falando sobre dilemas adolescentes; o instrumental também não foge muito das demais, apresentando aquela união da força do punk com o acréscimo de melodias impregnantes. A penúltima é “Emenius Sleepus”, única canção do álbum com letra composta pelo baixista Mike Dirnt, sendo, assim como “In the End”, mais um punk convincente, fazendo o disco continuar o seu consistente caminho.

“F.O.D.” (sigla que quer significar “Fuck Off and Die”) inicia-se calma, acústica e melódica; mas o título acaba não sendo uma enganação, pois o instrumental cresce de forma inesperada e violenta, e vários “elogios” a uma terceira pessoa podem ser ouvidos – eis o espírito punk, por mais que seja o punk noventista do Green Day. Ainda há, depois de alguns instantes de silêncio, a faixa escondida “All by Myself”, escrita pelo baterista Tré Cool; pouco relevante, se destaca por ter uma saudável e bem-humorada paródia de artistas folk.

Irreverente, pesado, melódico e arrebatador, “Dookie” se tornou marca de uma época, tendo uma grande importância histórica por ter renovado o punk rock. A partir de seu sucesso, o mundo viu surgir uma nova geração de bandas punk, levando as marcas e os ideais do Green Day em sua música. Mas, se fosse apenas historicamente relevante, o álbum não seria uma audição tão excitante; mesmo hoje em dia, quase vinte anos após seu lançamento, “Dookie” é um álbum atraente, resplandecente… Tanto que, mesmo atualmente, é difícil olhar para Billie Joe Armstrong sem ver um jovem de, no máximo, uns vinte anos; talvez ele tenha, realmente, encontrado a fonte da juventude: cantar sobre drogas e masturbação em uma banda de punk rock.

Do início da primeira faixa aos acordes finais, o álbum apresenta um grande conjunto, extremamente consistente, composto por músicas de força e atitude. É verdade que o som do Green Day passa longe da genialidade, mas provavelmente este nem seja o ideal sonoro da banda, ainda mais naqueles tempos, muito anteriores ao “American Idiot”. O que a banda procurou fazer foi um som sincero, explosivo e animador, capaz de dar um novo rumo não apenas a sua carreira, mas também a várias outras bandas que voltaram a ter no punk rock um forte alicerce. “Dookie” é, enfim, um trabalho simples e arrebatador, que conquistou o mundo, elevou o Green Day ao mainstream e marcou uma época.

NOTA: 9,0

Track List: (todas as letras creditadas a Billie Joe Armstrong, exceto onde indicado, e instrumentais creditados a Green Day)

01. Burnout [02:07]

02. Having a Blast [02:44]

03. Chump [02:45]

04. Longview [03:59]

05. Welcome to Paradise [03:44]

06. Pulling Teeth [02:31]

07. Basket Case [03:01]

08. She [02:14]

09. Sassafras Roots [02:47]

10. When I Come Around [02:48]

11. Coming Clean [01:34]

12. Emenius Sleepus (Mike Dirnt) [01:43]

13. In the End [01:46]

14. F.O.D. | All by Myself (Tré Cool) [05:46]

Download

2012: Days Go By – The Offspring

Por: Renan Pereira

A primeira parte do “Days Go By”, nono álbum de estúdio da banda americana The Offspring, é realmente animadora. Mostra uma banda que, em seu processo de envelhecimento, consegue se reinventar e mesclar seu som às necessidades atuais, sem deixar de lado seus ideais sonoros tradicionais e sem soar puramente comercial. “The Future Is Now” é uma grande primeira faixa, com ótimos riffs, que passeiam durante toda a duração da canção entre o agressivo e o melódico; se trata de um pop punk fortíssimo, que absorve com competência muitas das boas coisas plantadas nas duas últimas décadas, e se faz soar moderno. A segunda, “Secrets from the Underground”, felizmente se mostra tão boa quanto a primeira, se caracterizando por ser um rock dinâmico, ora nervoso, ora cadenciado, que bebendo em referências contemporâneas, parece deixar bem clara a intenção da banda de se renovar. Isso é louvável, ainda mais para o The Offspring, que vinha se arrastando em trabalhos pouco animadores nos últimos tempos, e precisava de algo novo para tentar voltar aos trilhos.

Se inspirar em alguém pode ser perigoso, mas quando a inspiração vem de um dos trabalhos mais aclamados dos últimos anos, o risco torna-se muito pequeno; embriagando-se de Foo Fighters e de “Wasting Light”, a faixa-título é, indubitavelmente, um grande ponto positivo, uma canção dinâmica que traz tudo o que o rock contemporâneo pede, em um show instrumental, onde, especialmente as guitarras, mostram-se absurdamente competentes. O comecinho de “Turning Into You” pode até assustar por ser eletrônico, mas a canção acaba por se tornar, felizmente, mais um pop punk competente, dessa vez com um espírito mais old school, lembrando mais os trabalhos antigos do The Offspring. A quinta, “Hurting as One”, faz o álbum continuar sua caminhada em segurança, trazendo juntamente com a agressividade tradicional do som da banda, elementos de um rock mais atual, tornando a sonoridade agradável e vívida, e, acima de tudo, trazendo-nos novidades.

Até aqui, temos um álbum que se comporta de forma exemplar, mas infelizmente há uma continuação. Apesar das cinco primeiras faixas demonstrarem que o The Offspring ainda tem muita lenha para queimar, com competência e talento para se reinventar sem atropelar a história da banda, a partir da sexta faixa temos a tentativa de se destruir tudo de bom que havia sido construído, em um arrastado e desanimador show de horrores. A abominável “Cruising California (Bumpin’ in My Thunk)” é, provavelmente, a pior coisa já feita pelo The Offspring durante toda a sua carreira; apesar de aparentemente querer zoar com o pop atual, não faz nada mais que mostrar uma banda de rock querendo ser Katy Perry por um dia, em uma desesperada tentativa de soar comercial – se não fosse assim, a faixa provavelmente não teria sido incluída como single, não é?

“All I Have Left Is You” é outra coisa estranha, enjoativa, sem sentido, e se na faixa anterior a banda tentou ser uma pop star bonitinha, nesta faixa o The Offspring, como nunca, tenta ser Coldplay. “OC Guns” pode até ter alguma coisinha dos áureos tempos da banda, mas não escapa de ser mais uma faixa fraquíssima desta decepcionante segunda parte do álbum; tentando ser engraçada, tem alguma coisa de rap, reggae, e até mariachis mexicanos, mas não passa do medíocre, soando forçada e sem brilho. Enquanto isso, “Dirty Magic” até tenta retornar à boa qualidade da primeira parte do álbum, mas apesar de se mostrar bem superior às faixas “vizinhas”, não chega a animar, sendo excessivamente repetitiva, arrastando-se pelo tempo.

Tamanha queda de qualidade no álbum nos faz pensar um pouco sobre o momento atual do The Offspring. Sem dúvida, é uma banda já consagrada no cenário pop punk mundial, com muitos discos lançados, muitos discos vendidos, e quase trinta anos de carreira. Mas, o que a banda deveria fazer nesse momento, onde é muito mais um grupo experiente do que uma novidade, com seu auge sendo, visivelmente, coisa que ficou para trás? Deveria, pois, utilizar toda sua experiência para agradar o seu círculo de fãs, sem soar repetitiva e sem ignorar o seu passado. Mas, quanto vale a vivência para uma banda que, para início de conversa, nem sabe o que fazer? Primeiramente, o The Offspring deve encontrar um rumo, uma ideia a ser seguida, para que trabalhos desencontrados como “Days Go By” não voltem a ser lançados. Não que o disco deva ser totalmente criticado, pois tem uma primeira parte realmente competente… Mas o The Offspring não precisa ser, com trinta anos de bagagem, uma banda capaz de fazer apenas um meio-álbum. Sem dúvida, ela tem condições de fazer muito mais.

A décima, “I Wanna Secret Family (With You)”, é mais uma canção arrastada e de qualidade duvidosa, ficando muito atrás das melhores canções do disco, soando excessivamente enjoativa e comercial. Já, felizmente, “Dividing by Zero” é uma das melhores músicas do álbum, e nos mostra que, nem sempre quando temos o zero como denominador, não temos nada como resposta; a faixa anima, por ser um punk mais puro, direto e consistente, totalmente diferente de algumas canções forçadas deste disco.

“Slim Pickens Does the Right Thing And Rides The Bomb To Hell” é, assim como seu título, grande, mas em qualidade, e não em duração; afinal, é uma ótima faixa de encerramento, dando bons números finais a um álbum que, na verdade, nem é tão grande assim. “Days Go By” tinha tudo para ser um dos melhores discos do ano, se não fosse por algumas mancadas… E é até difícil acreditar que uma banda com tanta capacidade, tenha tratado seus fãs mais antigos com tanto descaso ao se entregar vergonhosamente, em algumas faixas, a coisas puramente comerciais.

Mas, apesar dos pesares, ainda temos algumas ótimas músicas, provando que o The Offspring continua a ter talento. Mas, infelizmente, “Days Go By” não é o grande álbum que poderia ser, não tendo uma boa consistência e cometendo alguns erros absurdos. Mas, mesmo errando, o The Offspring ainda promete boas coisas, e mesmo não estando em seu melhor momento na carreira, é uma banda que ainda vale a pena ser ouvida.

NOTA: 5,8

Track List: (todas as faixas creditadas a The Offspring)

01. The Future Is Now [04:08]

02. Secrets from the Underground [03:10]

03. Days Go By [04:02]

04. Turning Into You [03:42]

05. Hurting as One [02:50]

06. Cruising California (Bumpin’ in My Thunk) [03:51]

07. All I Have Left Is You [05:19]

08. OC Guns [04:08]

09. Dirty Magic [04:00]

10. I Wanna Secret Family (With You) [03:02]

11. Dividing by Zero [02:22]

12. Slim Pickens Does the Right Thing and Rides the Bomb to Hell [02:36]

Download