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2014: Supermodel – Foster the People

Supermodel

Por: Renan Pereira

Nunca bastou a nenhum projeto musical um simples conjunto de hits para que se candidatasse a uma quase unanimidade. Até por isso, o Foster the People ainda não obtém, sequer entre o público indie, uma louvação geral: há quem adore, há quem odeie e há quem o considera apenas um projeto legal. Mas afinal de contas, o que é o Foster the People? Um segundo álbum sempre tenta preencher as prováveis lacunas da estreia, e “Supermodel” se apresenta como o meio mais plausível para que certas dúvidas sejam respondidas.

Da força de “Torches”, o primeiro disco do conjunto, ninguém duvida. É provável também que ninguém levante alguma questão sobre a inteligência musical que permeia o cerne do conjunto, visto que seu líder, Mark Foster, não é apenas um músico, mas um sujeito graduado em música. Da mesma forma, ninguém discorda que, desde os primeiros segundos do primeiro disco, já estava clara a grande capacidade da banda em brincar de forma convincente com inúmeras facetas da música pop a fim de criar hits cativantes. O que dizer, afinal, de canções tão pegajosas e empolgantes como “Pumped Up Kids” e “Call It What You Want”? “Torches” convenceu com sua salada musical regada a números grudentos, mas ainda assim não foi capaz de dizer, em plenitude, o que o Foster the People é.

Seria a banda, enfim, uma grande hitmaker? Se o primeiro disco havia flertado com esse rótulo, seu sucessor deveria trazer a concretização de uma ideia sonora. Aguardado com ansiedade, “Supermodel” chega para tentar acrescentar mais alguns êxitos comerciais na sala de troféus do conjunto, enquanto tenta provar, até mesmo com certo ar de urgência, que Mark Foster e seus pupilos continuaram evoluindo nesses três últimos anos.

Assim como havia acontecido no registro anterior, “Supermodel” trata de saciar a sede do público por canções pegajosas logo em seu início. Fazendo seu dever de casa com primor, a primeira faixa, “Are You What You Want to Be?”, se comporta como um grande hino pop, partindo de onde “Torches” havia parado para conquistar o ouvinte sem nenhum dificuldade: uma letra interessante, arranjos certeiros e rumos melódicos pra lá de potentes servem como um perfeito abre-alas para o que promete ser um grande disco. A explosão sonora continua em “Ask Yourself”, que consegue emular um conjunto de clichês da música pop em uma estrutura atraente, satisfazendo os sempre ferrenhos planos comerciais da gravadora ao mesmo tempo em que consegue demonstrar a força artística do grupo.

Mas as estruturas óbvias do pop não conseguem se distanciar do descarte na terceira, “Coming of Age”, que apesar de se comportar como um número agradável para uma audição descompromissada, mais parece um rascunho do conceito “purpurinado” do último (e pior) disco do The Killers, “Battle Born”.  Ainda bem que gratas surpresas começam a surgir em “Nevermind”, uma assertiva canção de viés tropical que, para nosso espanto, bebe na fonte da chamada “nova MPB”, e mostra que, realmente, o Foster the People não deixou de crescer nesses três anos que separam “Torches” deste presente registro.

Toda essa evolução está ainda melhor condensada na dinâmica e moderadamente experimental “Pesudologia Fantastica”, em que a banda mostra pequenas fugas do habitual em uma estrutura rica e colorida, e deixando claro que o Foster the People está, mais do que nunca, disposto a flertar com o psicodelismo. Mais provas? Na curta “The Angelic Welcome of Mr. Jones” a banda incorpora os Beach Boys de “Pet Sounds” e “Smile” para criar uma vinheta de perfeita harmonia, condizendo bem com as pretensões do conjunto de fazer um “álbum perfeito de música pop”. Embora seja guiado por esse teor megalomaníaco, “Supermodel” nunca nega a seus ouvintes melodias de fácil acesso, visto “Best Friend” com suas guitarras rítmicas óbvias, uma pulsante linha de baixo e um clima todo animado. 

Mas a partir da oitava faixa, a banda parece deixar de atender suas próprias ideias a fim de satisfazer o dinheiro gasto com a luxuosa produção do disco, deixando as decisões conceituais e os rumos sonoros nas mãos do requisitado produtor Paul Epworth. Não há como negar a presença incisiva (e até mesmo exagerada) de Epworth na duvidosa “A Beginner’s Guide to Destroying the Moon”, que se enche de ecos de um pouco genuíno rock dos anos noventa para supostamente escancarar uma “evolução”. Porém, Epworth, Mark Foster e todas as pessoas que se envolveram com a produção de “Supermodel” deveriam saber que o Foster the People não alcança seus maiores méritos tentando imitar o Radiohead.

Mais um encontro com sons noventistas marca “Goasts in Tress”, um número pop que, de tão sem-graça e sonolento, poderia muito bem fazer parte de algum álbum do Travis. “The Truth” embarca em uma estrutura eletrônica tortuosa, e apesar de seu bom refrão, não diz nada quanto às qualidades do Foster the People; alguns até dirão que é a prova de que a banda sabe brincar com aspectos modernos da música eletrônica, mas a canção se trata, basicamente, de um ensaio do produtor Paul Epworth em que os integrantes do conjunto não são nada além do que meras marionetes. O fim do disco, realmente, não condiz com seu início arrasador: a faixa derradeira, “Fire Scape”, soa tão imatura que mais parece uma demo… Algo que seria até compreensível se o disco tivesse sido bordado com pressa, mas que não pode ser aceito quando se tem a notícia de que “Supermodel” foi construído ao longo dos três últimos anos.

Mas apesar de pouco assertivas, as últimas faixas não chegam a destruir o registro. Ainda que passe longe da ideia de “um perfeito disco de música pop”, o disco cumpre o seu papel de acrescentar novos hits à carreira da banda. Isso é muito pouco? Sim, se levarmos em consideração que o Foster the People é capaz de êxitos muito maiores… Não, se pensarmos que é essa é a grande intenção de qualquer projeto de música pop. É claro que as pretensões grandiosas não são cumpridas, mas negar ao disco o grande poder de suas primeiras faixas seria como assinar um atestado de surdez.

Se as faixas iniciais são convincentes, e as finais não atraem, não seria mais plausível, portanto, o lançamento de um EP? Talvez, mas é a urgência que claramente move o conjunto. Pressionado pelo público, pela crítica e pela gravadora a acertar em todas suas apostas, o Foster the People mostra, definitivamente, que grupo ele é: um trio ainda incomodado com os holofotes, ainda não completamente amadurecido e que não consegue caminhar por um disco de grande duração sem cometer alguns equívocos. Mas, ao mesmo tempo, é uma banda que merece nossa atenção e nossa torcida, pois se há algo que não lhe falta é capacidade: afinal, acaba ficando claro que, algum dia, eles farão um trabalho de dimensões grandiosas. “Supermodel” passa longe de ser um disco perfeito, mas mas ao comprimirmos apenas seus êxitos, veremos que se trata apenas de um ensaio para algo que ainda está por vir.

NOTA: 6,0

Track List:

01. Are You What You Want to Be? [04:30]

02. Ask Yourself [04:23]

03. Coming of Age [04:40]

04. Nevermind [05:17]

05. Pseudologia Fantastica [05:31]

06. The Angelic Welcome of Mr. Jones [00:33]

07. Best Friend [04:28]

08. A Beginner’s Guide to Destroying the Moon [04:39]

09. Goats in Trees [05:09]

10. The Truth [04:29]

11. Fire Escape [04:22]

2014: Singles – Future Islands

Singles

Por: Renan Pereira

É com certa dose de estranheza que o grupo Future Islands, após uma década em atividade, é somente agora descoberto pelo público de massa: pois “Singles”, o quarto álbum do trio da cidade de Baltimore, Maryland, pode ser encarado de inúmeras formas, menos como um “disco de estreia”. Maduro em essência, o trabalho converte a própria essência do Future Islands em uma base musical concisa, visando amplificar as melhores qualidades do conjunto em prol da construção de seu mais convincente catálogo de canções até aqui; intitulado com acerto, “Singles” consegue ser, além de um dolorido tratado sobre corações solitários, uma união de faixas facilmente assimiladas pelos ouvintes.

Tal qualidade deve-se basicamente a um ajuste fino na forma com a qual os arranjos são construídos. Se nos trabalhos anteriores a massa sonora surgia da força imposta pelos teclados de Gerrit Welmers, os alicerces de “Singles” surgem da forma com que a guitarra e o baixo de William Cashion encontram as dramáticas performances vocais de Samuel T. Herring. Absolutamente teatral, sendo, por agora, o grande “atrativo comercial” do Future Islands, Herring utiliza suas emoções escancaradas para conquistar o público e a crítica, bebendo de influências de gigantes da música, como David Bowie e Morrisey. 

No fim, todas as nuances apresentadas pelo álbum provém da união das performances melodramáticas de Herring com a base levemente dançante que vem adornado a carreira do grupo desde “Wave Like Home”, seu trabalho de estreia, lançado em 2008. Na realidade, é muito provável que a louvação que o disco tem recebido não existisse sem os vocais altamente emotivos: os versos são simplórios, muitas vezes até mesmo “bregas”, e só mesmo uma carga dramática tão atraente faz com que pensemos que há muito mais significado além dos clichês. Herring canta “baby don’t hurt me no more” e outras obviedades do tipo de uma forma tão autêntica, tão sincera, que tudo passa a ser inédito a nossos ouvidos.

O início do álbum, com a poderosa “Seasons (Waiting On You)”, já dá provas para o ouvinte que, apesar de seu conceito sisudo, “Singles” contém números dançantes em potencial: do baixo pulsante aos teclados que incluem bonitos detalhes à estrutura sonora, tudo parece trabalhar para criar a base perfeita para que Herring faça suas agonias dançarem em uma explosão pop. William Cashion e suas competentes linhas de baixo e os efeitos eletrônicos coloridos de Gerrit Welmers voltam a se destacar na dinâmica “Spirit”, mas é Herring mais uma vez que encanta o ouvinte: profundas, suas performances inserem na música pop um significado que não vinha sendo visto há muito tempo. Esquivando-se das superficialidades e das bizarrices vem adornando o universo pop nos últimos anos, Herring se apresenta absurdamente apaixonado e sincero, abrindo sua alma sem pensar em grana ou fama, e sim visando somente atingir, de alguma forma, os ouvintes que algum dia se depararem com sua música.

Na terceira faixa, “Sun in the Morning”, uma doce melodia se destaca em um intenso flerte com o passado; porém, é interessante como o grupo utiliza as heranças oitentistas do synthpop como um ponto de partida, e não como um norte a ser seguido… Afinal, se é do passado que é feito o futuro, o Future Islands sabe aproveitar de forma primorosa esse conceito. A seguinte, “Doves”, mostra que, sabendo onde pisar, o trio não precisa necessariamente se aventurar para fazer boas canções. Ainda que em alguns momentos haja um maior compromisso com o introspectivo, como em “Back in the Tall Grass” e suas interações com as origens europeias da dance music, tudo parece ser cuidadosamente bordado com a finalidade de atingir não apenas nossos ouvidos, mas também nossas emoções: afinal, com tantas aflições, Herring precisa de vários ombros amigos para poder chorar.

Nostálgica, “A Song for Our Grandfathers” carrega o ouvinte a uma proposta ainda mais melancólica, e aposta alto na climatização para que seus objetivos sejam alcançados. É a mesma melancolia, porém, que afasta a seguinte, “Light House”, de todos os méritos: é como se a banda sentisse certo conforto com o fundo do poço, e todas essas emoções que durante o restante do disco são encaradas com combatividade, servissem apenas para contemplar um momento máximo de desânimo. Algo não combina nem um pouquinho com a verve pulsante do Future Islands, que felizmente se redime na boa “Like the Moon”, em que Sam Herring volta a se apresentar como um grande destaque ao fluir seus sentimentos de forma assertiva.

“Fall From Grace” bebe do David Bowie do início dos anos oitenta, encontrando na base estilística do disco “Scary Monsters (and Super Creeps)” o sustento para uma das melhores canções do disco – um número que até se propõe a se aventurar com alguns riffs de guitarra surpreendentemente ruidosos. A faixa final, “A Dream of You and Me”, certifica a união do álbum com o público ao traçar um rumo de fácil audição, soando como um pop-rock retrô que parece salientar o ritmo agradável e as bonitas melodias que “Singles” nos reserva.

De certa forma, mesmo que involuntariamente, o Future Islands acaba plantando nos ouvintes um curioso sentimento: mesmo que você não veja com muitos bons olhos a proposta sonora da banda, passará a torcer pelo sucesso dela. Com isso, “Singles” é um daqueles discos que, mesmo não se fazendo presente na lista dos melhores, é capaz de cativar o ouvinte através da grande sinceridade com a qual o grupo encara a sua música: acreditando no que faz, sendo fiel a seus próprios valores, sem pensar em esconder os sentimentos que o guia. Um trabalho genuíno, competente, e se não elevará o Future Islands ao mainstream, parece ser, pelo menos, o ensaio de popularização que todas as bandas sinceras merecem.

NOTA: 7,2

Track List:

01. Seasons (Waiting for You) [03:46]

02. Spirit [04:22]

03. Sun in the Morning [03:48]

04. Doves [03:28]

05. Back in the Tall Grass [04:15]

06. A Song For Our Grandfathers [04:55]

07. Light House [04:47]

08. Like the Moon [04:40]

09. Fall From Grace [04:15]

10. A Dream of You and Me [03:49]

Entrevista: Radiolaria

Por: Renan Pereira

Minas Gerais sempre teve um estoque interminável de talentos da música brasileira. Seja com a poesia setentista do Clube da Esquina, com o rock rural de Beto Guedes, com os ensaios progressivos do 14 Bis, ou com a explosão pop-rock dos anos noventa e o surgimento de bandas como Skank e Pato Fu, o estado do pão-de-queijo também se tornou casa de uma reconhecida música de qualidade. Atualmente, ao lado de outros projetos (como o grupo Transmissor), a banda Radiolaria se mostra como uma genuína herdeira de todo esse passado de glória, fazendo com a música que ecoa de Minas (ou da capital Belo Horizonte, mais precisamente) continue relevante frente ao cenário alternativo nacional.

Surgida no fim da década passada, a banda Radiolaria se propõe a encontrar em suas canções, sem muito alarde, o meio-termo perfeito entre o popular e o experimental. Ainda que a tarefa seja árdua, e demonstre até mesmo pretensões que poderiam ser perigosas para um grupo estreante, tudo parece acontecer com naturalidade. Seu primeiro disco, o competente e linear “Vermelho”, dá as provas necessárias para fazer do conjunto um dos projetos mais promissores da nova geração.

Entrevistamos a banda para que pudéssemos conhecê-la melhor, além de suas músicas: pois em adição às bases sonoras, sempre sentimos vontade em conhecer as ideias e as direções artísticas adotadas pelos artistas. Segue, com isso, a nossa nova entrevista, cujas respostas foram discutidas por todos os integrantes da banda e redigidas por Felipe Barros.

radiolaria

Quando a Radiolaria surgiu, e quando o projeto começou a ser levado à sério, de forma profissional?

A banda, já sob a alcunha de Radiolaria (uma vez que já tínhamos outros projetos antes, com outros nomes, e que de certa forma funcionou como embrião da Radiolaria), passou a existir “formalmente” a partir do ano de 2009, logo após termos lançado uma demo com cinco músicas (em 2008). Este talvez tenha sido o ponto de partida referente ao processo de composição, quando percebemos que era o que queríamos fazer musicalmente; compor e criar coisas novas. Neste momento, a banda passou a existir de forma mais séria e consciente, com uma proposta mais definida e um pouco mais madura, ainda que as composições do primeiro disco tenham nascido de uma forma despretensiosa e quase natural, frutos de um processo de amadurecimento e aprendizado musicais de cada um dos integrantes, especialmente dos compositores que passaram a se aventurar com mais frequência na criação de canções. Do ponto de vista da profissionalização, acho que ela veio a reboque desta fase de amadurecimento que mencionei, quase que como uma consequência natural do processo criativo, e da necessidade que sentimos de levar esses resultados ao público.

Quais são os artistas que mais inspiram o grupo?

É difícil determinar aqueles artistas que mais nos inspiraram, tanto conjunta quanto individualmente, apesar de ser possível falar sobre bandas que nos acompanham desde o início do projeto. A banda começou como uma banda de Rock, com repertório que englobava coisas do movimento sessentista britânico, como Beatles, Cream, The Who e Stones, além de coisas nacionais, como Mutantes, Secos e Molhados e Clube da Esquina.

Creio, porém, que como compositores e músicos, nosso trabalho beba em fontes bem mais diversas. Eu (Felipe Barros) e o Felipe Xavier começamos na música lírica ainda muito novos, cantando em corais, e aos poucos, com o passar do tempo, fomos conhecendo mais profundamente o rock e outros estilos, como mpb, samba, pop, música caribenha, música latina, etc. De modo que tudo isso permeia nosso universo musical, que inclusive está sempre em expansão com o contato com coisas novas.

Momento pergunta mais do que óbvia: qual seria aquele disco que a banda levaria para uma ilha deserta?

Não consideramos a pergunta óbvia não, porque se assim fosse teria uma resposta também óbvia, ou fácil (risos).

Na verdade é um exercício muito difícil esse de pegar cinco músicos e fazer com que elejam conjuntamente um disco pra que sirva de símbolo de uma grande influência numa situação hipotética como essa da ilha deserta. Creio que não conseguiríamos eleger um único disco, já que como já mencionamos, nossa caminhada musical bebeu e bebe em muitas fontes, sendo que os ídolos e seus trabalhos (discos) são muitos.

Pra não gerar confusão neste sentido, creio que ninguém iria se opor ao fato de que levaríamos o nosso “Vermelho”, ainda que de lá sentíssemos falta do “Buena Vista Social Club”, do “Revolver” (Beatles), do “Acabou Chorare” (Novos Baianos),  do “Jardim Elétrico” (Os Mutantes), do  “Medle” (Pink Floyd), do “Chega de Saudade” (João Gilberto), e de tantos outros (risos).

Sobre o processo de composição da banda, como que ele ocorre? Vocês sentam e falam “vamos compor” ou deixam as coisas simplesmente acontecerem?

As músicas têm surgido de forma variada e aleatória, quase que despretensiosamente. Na maioria das vezes, começamos pela harmonia no violão, em seguida vem uma melodia de voz, consequentemente outros elementos surgem, e com isso a letra. Temos canções que foram feitas individualmente, bem como canções em conjunto. Às vezes traz um estribilho, um riff, outro vem com um rascunho, uma poesia, ou até palavras soltas, e num segundo momento tudo isso é montado e arranjado. Outros parceiros não integrantes da banda também contribuíram com algumas letras.

radiolaria

Os anos noventa parecem ter sido bem mais receptivos a bandas mineiras, pelo menos no que tange ao sucesso comercial… Mas é claro que a situação do mercado fonográfico atualmente está extrema, tanto que muitas vezes nem as próprias gravadoras sabem qual caminho tomar. Qual é a análise que vocês podem fazer dessa situação, atendo-se ao cenário mineiro?

De fato, o mercado fonográfico sofreu enorme impacto com a questão do compartilhamento de músicas, surgimento do mp3, smartphones, etc, e concordo que o mercado, e mesmo seus mais diversos agentes, inclusive bandas, não sabem bem o caminho que tudo isso irá tomar. Mudança e inovação parecem ser as palavras de ordem e fazer previsões nesse cenário é bastante difícil.

Do ponto de vista do mercado mineiro podemos observar que a despeito da ausência de um sucesso comercial que pudesse gerar dividendos maiores aos artistas locais, e notoriedade nacional, tal qual aconteceu com Skank, Jota Quest, Pato Fu, na década de noventa, a galera da nova geração não deixa de se engajar na criação de projetos, de novas bandas, músicas, festivais, enfim, na proposição de uma ”nova” música mineira, que bebe nas fontes antigas, mas que propõe novos caminhos e tenta criar sua identidade.

Claro que a ausência de um aporte das gravadoras, especialmente no sentido de financiar a distribuição maciça dos trabalhos, além de remunerar os músicos como acontecia nos contratos de outrora, tudo isso dificulta a vida de quem procura viver de seu trabalho musical autoral. Não é nada fácil, mas acaba servindo como um divisor de águas entre aqueles que mesmo assim lutam por uma criação artística autêntica, e aqueles que pensam na grana antes de pensar na música. Não quero dizer que não se deva correr atrás do dinheiro, pois sem ele você não se sustenta enquanto artista, e provavelmente teria de largar tudo e partir pra outras profissões. Mas é interessante ver que aqueles que estão na luta pela construção de uma carreira, de uma identidade e de um espaço, estão com seu foco maior na música mesmo.

Além disso, hoje contamos com outros meios de financiamento da arte e da música no Brasil, como as leis de incentivo, assim como os financiamentos coletivos de projetos, de modo que a turma dá um jeito de se virar pra não deixar de produzir.

Vocês são a favor do financiamento coletivo para a produção de discos? Hoje em dia, até bandas experientes e conhecidas estão apelando para essa plataforma, como foi o caso recente dos Raimundos, por exemplo…

O financiamento coletivo é um meio que achamos válido pra angariar os fundos necessários aos processos envolvidos na criação musical. Muitas vezes pessoas que curtem o trabalho de um artista independente podem ajudar com uma grana e fazer com que aquele trabalho seja possível, cresça e siga adiante.

Mas creio que no universo independente possa acontecer um esgotamento da via de financiamentos coletivos para artistas que não consigam ampliar seu leque de fãs ao divulgar satisfatoriamente seu trabalho. Imagine seus vizinhos e colegas de faculdade tentando bancar todo o seu trabalho. Seria complicado. Portanto acho que quem se socorre do financiamento coletivo, que é extremamente válido, tem também que ver ele como um instrumento de financiamento da produção, mas se preocupando sempre em utilizar aquilo que foi produzido de forma inteligente e planejada, a fim de disseminar seu trabalho; o que no caso das bandas independentes pode ser feito majoritariamente pela internet.

Em um texto presente no site da banda, a seguinte citação chama a atenção: “as canções se equilibram, sem alarde, entre o popular e o experimental”. Creio que essa seja a grande chave para tornar um trabalho artisticamente válido e, ao mesmo tempo, atrativo ao público. Esse meio termo não é muito fácil de ser encontrado, não é verdade? Às vezes, as coisas se desequilibram sem mesmo que você perceba…

De fato é um ponto muito sensível este do equilíbrio popular/experimental. Não creio que tenhamos tido isso como norte no momento da criação das musicas, ou mesmo da produção do disco. Na verdade, acho que quando isso surge, esse equilíbrio, é fruto daquilo que já mencionamos, ou seja, do fato de termos fontes de inspiração muito vastas, que têm muito do popular, assim como do experimental. Creio que seja mais por aí do que por uma busca consciente de fazer algo assim. Não quero dizer com isso que não haja um direcionamento de estética na produção do disco, ou que eventualmente um dos compositores se proponha a fazer uma música mais pop ou mais experimental. Acho que tudo isso aconteceu no disco, mas de uma forma mais natural, sem uma busca rígida por esse equilíbrio.

Falando sobre o disco “Vermelho”: a perceptível linearidade das faixas foi algo pensado desde o início, ou que acabou surgindo naturalmente?

Essa linearidade estética, e de sonoridades, foi muito fruto do processo de produção mesmo, quando já em estúdio, através do ouvido atento dos nossos produtores e colaboradores na busca pelos timbres, arranjos, etc.

O disco conta com músicas que passeiam por universos distintos e mesmo estilos distintos, de forma que a busca por uma unidade estética foi importante para “amarrar” as composições e dar ao conjunto da obra algum ar de linearidade.

Como a banda espera estar daqui uns vinte anos? Com os bolsos cheios da grana e tocando no Faustão, ou com uma discografia respeitada dentro do cenário alternativo?

Na verdade gostaríamos de ambas as situações: a grana (desde que fruto de reconhecimento de um trabalho cuidadoso e muito bem feito); e com uma carreira sólida, de trabalhos artísticos de qualidade e que pudessem tocar as pessoas de forma verdadeira, sem apego a modismos ou tendências meramente comerciais.

Infelizmente parece que essas duas coisas, atualmente, não se encontram. O cenário “mainstream” sofre de uma inanição artística severa, em que o rentável comercialmente parece ser predominantemente superficial e passageiro ou até descartável.

Esperamos que esse cenário possa mudar e que as coisas voltem a se encontrar como no passado, mas, independente disso acontecer, estaremos fazendo a nossa música da forma como acreditamos.

Agradecemos imensamente a participação da banda Radiolaria. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “Vermelho”, o álbum de estreia da banda.

Entrevista: Bianca

Por: Renan Pereira

Não à toa, a jovem Bianca Fraga tem se tornado, ao longo dos últimos meses, uma das grandes apostas da música brasileira. Natural do Rio de Janeiro, Bianca ainda está apenas começando, mas já se destaca pelo belo senso composicional e pela doce voz. Ao som da balada “Chained”, e através das imagens do belíssimo clipe da canção, Bianca foi apresentada ao Brasil, já conquistando vários ouvidos e corações.

Ao aceitar o convite do RPblogging para ser a entrevistada desse mês de fevereiro, Bianca participa de nossa terceira entrevista, contando um pouco sobre a sua carreira, seus pensamentos sobre aspectos da música e seus planos para o futuro:

Quando o clipe de “Chained” foi lançado, a música brasileira fez da jovem Bianca Fraga uma de suas maiores promessas… Sua vida mudou muito desde o lançamento do vídeo? Você esperava, no fundo, tanta repercussão positiva?

Antes de lançar o clipe de “Chained”, eu não sabia como iria ser… É mais desafiador e complicado do que eu imaginava. Apesar do clipe e da música terem sido produzidas pela Gomus, sou uma artista independente e tenho que correr atrás de maneiras alternativas de produzir um trabalho de qualidade e com um orçamento limitado. A resposta positiva me deu um incentivo para correr mais atrás do que eu quero.

Mas é claro que se o vídeo não fosse tão bem filmado, provavelmente a repercussão não seria tão grande. A música atual, mundo afora, dá uma importância cada vez maior ao conceito “imagem”, e o artista que deseja se destacar tem que se adaptar a essa nova “regra”. Para você, qual é a importância da imagem dentro de uma carreira musical?

No meio musical, a sua “imagem” é construída não só através dos elementos característicos da música de cada artista, mas a forma como você se veste, fala e se comporta. É inevitável ter uma “imagem”. Até mesmo artistas que não querem mostrar o rosto e que não acreditam em se fazer de bonitinho pra aparecer acabam querendo ou não construindo uma imagem. Eu espero passar a minha imagem da forma que eu sou. Com muita verdade.

Alguns sites de música apontaram você como uma das grandes apostas para esse ano de 2014. Como é encarar essa responsabilidade?

É maravilhoso, mas é uma grande pressão. Quero aproveitar ao máximo esse ano.

Muitos viram nas suas composições uma grande semelhança aos primeiros trabalhos de Mallu Magalhães… Afinal, é o mesmo caso de uma menina jovem que surge cantando em inglês e com uma doce voz. Você teme esse tipo de estereótipo? Afinal, se trata da Bianca, e não da Mallu; cada artista tem a sua própria personalidade.

Não me importo muito com comparações, mas acredito que apesar de termos essa semelhança, nossos trabalhos são bastante diferentes.

Você coloca The xx e The Knife como algumas de suas principais referências musicais… Pretende, algum dia, construir algum trabalho que flerta com a música eletrônica?

Estou só começando. Claro. Quero estudar mais esse lado.

Podemos esperar, nos próximos meses, mais composições inéditas reveladas em vídeo ao exemplo de “What If”? E sobre o primeiro disco, já existe alguma previsão?

Vem material novo por aí na semana que vem. Depois disso, podem aguardar muita música. Estamos no processo de pós produção de um novo trabalho.

Se alguma grande gravadora se interessar pelo seu trabalho, você topa seguir algumas regras impostas pela indústria fonográfica? Pergunto isso porque não são poucos os novos artistas que, na ânsia de crescer, acabam atendendo cegamente as ordens de produtores…

Não gosto de fazer nada que vá contra o que eu acredito e quem eu sou. É difícil pra mim até forçar um sorriso… Imagina forçar uma música ou uma imagem com que eu não me identifique!

O RPblogging agrade imensamente a sua participação nessa entrevista. Gostaria de deixar um recado final para os leitores?

Agradeço ao RPblogging pela oportunidade de dar essa entrevista. Fico muito feliz de saber que estão acompanhando o trabalho. Vem muita música por aí ainda no primeiro semestre desse ano! É só acompanharem: www.facebook.com/musicbianca
Instagram: @musicbianca

Muito obrigada!

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Experimente: O rock acessível da Sound Bullet

Por: Renan Pereira

Quando alguém fala de indie rock com sotaque carioca, é normal que venha em nossa mente que, se não é o Los Hermanos, é algo muito parecido. Não foram poucas as bandas nos últimos anos que, babando nas barbas de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, apresentaram um resultado muito copioso do grupo indie já dissolvido, mesclando sem muitas novidades o rock gringo com o samba tupiniquim.

Eis então a Sound Bullet, uma nova banda carioca de indie rock… E junto vem aquela desconfiança: “ah, mais uma bandinha nova tentando imitar o Los Hermanos”. Felizmente, esse não é o caso. Há influências do rock feito no Brasil na década passada? É claro que sim, mas a base sonora do grupo mora, na verdade, no rock britânico dos anos oitenta: um som que é adaptado à realidade brasileira e aos dias atuais, construindo um som acessível que agrada logo na primeira audição, sem nenhuma dificuldade.

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Formada em 2009, e integrada por Guilherme (voz e guitarra), Fred (baixo e voz), Ton (guitarra e voz) e Pedro (bateria), a Sound Bullet lançou o seu primeiro EP em novembro do ano passado. Centrado nos relacionamentos que envolvem a banda, “Ninguém Está Sozinho” apresenta, com o vigor necessário, as facetas sonoras propostas pelo quarteto. Adquirindo um ar britânico mesmo em um cenário litorâneo e tropical, o grupo flerta com o post-punk revival e o math rock em um sentido bem claro: atingir os ouvintes. Brincando intensamente com o pop, mas longe de soar descartável, o conjunto parece ter entendido muito bem as regras “impostas” pelos discos bem-sucedidos dos últimos anos… Se Dave Grohl fosse brasileiro, ele construiria um som muito parecido ao da Sound Bullet.

Ainda receoso quanto a “mais um indie rock carioca”? Ouça “Ninguém Está Sozinho” e veja como esta banda é diferente. Uma boa aposta para os próximos anos, e um som muito legal para experimentar.

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2014: High Hopes – Bruce Springsteen

High Hopes

Por: Renan Pereira

Bruce Springsteen parece não ter envelhecido. Apesar dos 64 anos que ele carrega nas costas, o grande “Boss” da música norte-americana continua sendo um artista de uma jovialidade surpreendente; quem acompanhou seu estupendo show na última edição do Rock in Rio sabe muito bem do que está sendo dito. Não é raro seus espetáculos ultrapassarem três horas de duração, com um set list gigantesco, capaz de agradar a todos os gostos, e com uma performance que não decai em nenhum momento. Claramente, Springsteen tem em mãos a mística fórmula da juventude.

Mostrando mais uma vez que quer continuar produzindo em um ritmo invejável, o músico decidiu lançar seu segundo disco em três anos. Sucedendo o ótimo “Wrecking Ball”, de 2011, “High Hopes” chega para mostrar mais um capítulo de uma longa discografia, brilhante apesar de conter alguns exemplares de gosto duvidoso. Mas se nos anos noventa Springsteen não conseguiu manter o nível que outrora havia sido apresentado, hoje ele colhe os ouros de uma “velhice” bem aproveitada: de certa forma, ele conseguiu unir, de forma exemplar, a maturidade adquirida em tantos anos de estrada com a tão citada “jovialidade aos sessenta anos”.

Mas “High Hopes” não é, necessariamente, um produto atual. Embora seja tratado como um “novo disco”, o álbum não é nada mais do que uma reunião de canções antigas que, por algum motivo, acabaram ficando de fora dos últimos álbuns do compositor. Há, obviamente, um trabalho cuidadoso para que tudo possa soar atual, como se a construção do disco não passasse de um exercício natural de continuação… O que, infelizmente, não é. Apesar da presença do guitarrista Tom Morello (Rage Against the Machine), ilustre convidado utilizado por Springsteen como uma ponte para as novas gerações, “High Hopes” não deixa de ser o que, no fundo, o seu conceito não consegue esconder: uma coletânea de sobras de estúdio.

Espera aí… Então “High Hopes” é um disco ruim? O texto começou tecendo elogios aos rumos atuais da carreira de Bruce Springsteen, e agora lá vem o autor se contradizendo, afirmando que “High Hopes” é um disco fraco? Não, não, “High Hopes” não é um disco ruim. Nenhuma de suas doze canções são de má qualidade: todas demonstram a característica qualidade de Springsteen como compositor. Boas canções, inegavelmente, mas que não funcionam como um conjunto… Se comportando como um quebra-cabeças em que as peças não se unem, “High Hopes” traz rascunhos de diferentes facetas do músico sem apresentar nenhuma interligação. Um mero amontoado de canções soltas, que vai diretamente ao oposto do conceito de “álbum”.

Porém, também não podemos afirmar que o disco é um lançamento desnecessário. Canções de potencial não devem ser simplesmente esquecidas, fadadas aos bootlegs não-oficiais, e Springsteen faz de “High Hopes” uma morada definitiva para suas boas sobras de estúdio. Um lançamento plausível, bem-recebido, mas nem por isso grandioso… Até o mais fanático admirador de Springsteen não negará a falta de poder do registro, comparando-o às grandes obras do compositor. É provável que até mesmo o músico não o considere como um de seus grandes trabalhos, e por isso o disco deve ser encarado sob a ótica correta: não uma nova obra-prima, mas um registro que aproveita ideias antigas em prol de um exercício físico. Afinal de contas, Springsteen nitidamente o lançou para não perder sua invejável boa forma.

Energia essa que é facilmente percebida na faixa-título, em que os arranjos de metais e a presença de Morello inserem a potência necessária para Springsteen brilhar… Porém, por melhor que seja, a canção, que se comporta como o carro-chefe do presente registro, não é nada mais do que a regravação de uma regravação: Springsteen já havia a gravado no EP “Blood Brothers”, de 1996, como uma versão cover da banda The Havalinas, cuja gravação original data de 1990. Um teor empoeirado que é amplificado pela faixa seguinte, “Harry’s Place”, canção composta em 2001 e que, a princípio, faria parte do álbum “The Rising”.

A emocionante “American Skin (41 Shots)”, inspirada em um cruel assassinato de um cidadão americano por policiais, viu a luz do dia em 2001, quando foi tocada por Springsteen em alguns shows e acabou fazendo parte do disco “Live in New York City”. Já “Just Like Fire Would”, apesar de ser um cover, soa como uma das clássicas canções oitentistas de Springsteen, trazendo aquele rock encorpado de “Born in the U.S.A.”, enquanto a soturna “Down in the Hole”, com seus arranjos atmosféricos, mostra uma faceta mais obscura do músico, mais ligada à música folk.

Como um bom passeio pela carreira do “Boss”, “High Hopes” não deixaria de apresentar aspectos mais atuais da carreira do compositor: como as interações com o R&B e o coro de vozes de “Heaven’s Wall”, que se relacionam naturalmente com a base conceitual de “Wrecking Ball”. A melodia e o modo como os vocais são tratados em “Frankie Fell in Love” deixam claro que aqui se faz presente mais uma clássica composição de Springsteen, um prato cheio para os admiradores dos hits radiofônicos do músico, bem como para as sempre atrativas apresentações ao-vivo. “This Is Your Sword” é mais um folk-rock de primeira, em que os agradáveis rumos melódicos, inspirados na música gospel norte-americana, servem como um complemento adequado para os belos lirismos de Springsteen.

Mesmo em disco visivelmente menor, menos super-produzido, há espaço para que a música de Springsteen alcance o épico; caso da reflexiva “Hunter of Invisible Game”, que apesar de seu caráter introspectivo, é transferida automaticamente a dimensões grandiosas através de seus belíssimos arranjos de cordas. A também épica “The Ghost of Tom Joad”, faixa do álbum homônimo de 1995, encontra nos riffs raivosos de Tom Morello uma expansão natural, devido à versão gravada pelo Rage Against the Machine em 1997, que acabou fazendo parte do disco “Renegades”… Como resultado, um misto das versões anteriores de Springsteen e da antiga banda de Morello, assemelhando-se às baladas grandiosas do Guns N’ Roses no início dos anos noventa.

“The Wall” retorna ao folk e ao íntimo de Bruce Springsteen, tratando com um instrumentação semi-acústica a memória de norte-americanos mortos na Guerra do Vietnã, enquanto a última faixa, “Dream Baby Dream”, é uma surpreendente regravação da canção mais acessível dos pioneiros do synthpop do Suicide, incluída a pedido de Morello… Um bom desfecho, com cara de canção de ninar, como tantos outros discos já se findaram.

No fim, o que fica é aquele famoso “sabor de quero mais”. Apesar de não ser um trabalho ruim, longe de se caracterizar como perda de tempo (ou dinheiro), “High Hopes” clama por algo maior que, em um futuro próximo, provavelmente virá. O grande ponto positivo é que, com um novo disco, Springsteen provavelmente pegará a estrada novamente, oferecendo ao público novas oportunidades de acompanhar um dos melhores shows da música mundial… E assim, ele felizmente continuará na ativa.

NOTA: 6,2

Track List: (todas as faixas compostas por Bruce Springsteen, exceto onde indicado)

01. High Hopes (Tim Scott McConnell) [04:57]

02. Harry’s Place [04:04]

03. American Skin (41 Shots) [07:23]

04. Just Like Fire Would (Chris Bailey) [03:56]

05. Down in the Hole [04:59]

06. Heaven’s Wall [03:50]

07. Frankie Fell in Love [02:48]

08. This is Your Sword [02:52]

09. Hunter of Invisible Game [04:42]

10. The Ghost of Tom Joad [07:33]

11. The Wall [04:20]

12. Dream Baby Dream (Martin Rev/Alan Vega) [05:00]

1963: With the Beatles – The Beatles

With the BeatlesPor: Renan Pereira

Para o segundo álbum dos Beatles, George Martin resolveu não inventar. Seguindo a máxima de que “em time que está ganhando não se mexe”, o produtor resolveu seguir o mesmo conceito que havia construído (com louvor) o álbum “Please Please Me”. Uma mescla de canções originais, hinos pop com a marca da jovialidade característica do quarteto, com regravações de músicas norte-americanas, explorando o R&B e os clássicos da Motown. Uma decisão acertada, visto a louvação extrema que os garotos estavam recebendo: uma histeria coletiva que, na música popular, apenas Elvis Presley já havia experimentado. Com apenas um disco de estúdio e alguns singles, os quatro garotos de Liverpool já haviam se tornado celebridades, cuja fama parecia ir muito além das terras da rainha. A Europa já estava sendo dominada pela beatlemania, e a conquista definitiva da América era uma questão de tempo.

Portanto, seguir os caminhos que haviam levado o grupo à fama era, indubitavelmente, a regra a ser seguida. Mas essa “repetição do resultado” significava, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade: como acompanhar a intensidade que havia caracterizado o primeiro disco? Se “Please Please Me” estava sendo um grande sucesso, é porque o álbum soube como abocanhar o público com uma intensa novidade, uma música pulsante e sutil, que se comportava como o magnum opus de sua época. Como alcançar, com o segundo disco, uma louvação à altura do primeiro?

“Evolução” foi a resposta encontrada. Apesar de seguir a mesma linha lírica e sonora, “With the Beatles” viria a apresentar o quarteto a novos aspectos. Agora eles eram o carro-chefe da Parlophone, e não mais uma banda iniciante, vista com olhares desconfiados; se nas gravações de “Please Please Me” os recursos eram escassos, para gravar seu segundo álbum a banda contou com as melhores condições possíveis: equipamentos modernos, inúmeras seções e um belo orçamento. Enquanto os garotos excursionavam pelo Reino Unido em um ritmo exaustivo, Martin pôde tecer com muito cuidado os rumos do novo disco… As seções de gravação eram esporádicas, descaracterizando aquele conceito “raçudo” de “Please Please Me”, que havia sido gravado, quase em sua totalidade, em apenas um dia.

Contudo, um novo conjunto de grandes canções era necessário… E “With the Beatles” mostrou, de certa forma, que a banda estava amadurecendo, fazendo suas possibilidades aumentarem, apesar de ainda presos a um conceito simples. Lennon e McCartney aumentavam suas habilidades composicionais, e George Harrison finalmente estreava como escritor. Segundo palavras de Paul, George “tinha um monte de fãs, então sempre lhe dávamos pelo menos uma canção para interpretar. Até que ele se tocou que deveria compor as canções ao invés de cantar as nossas”. O sucesso crescia, e todos deveriam seguir crescendo. Felizmente, como todo mundo sabe, foi isso o que realmente aconteceu.

Para abrir o ótimo conjunto de canções de “With the Beatles”, nada melhor que “It Won’t Be Long”, uma balada energética que poderia muito bem ter sido um single de grande sucesso; ambientada em um tema recorrente dos primeiros anos dos Beatles (as relações afetivas juvenis), a música aborda o retorno de uma garota que havia abandonado o personagem. Segundo Paul, que dividiu a assinatura da canção com John, a intenção foi “dar um pouco de duplo sentido e isso foi o destaque da canção”. De fato, em “With the Beatles”, eles começaram a se aventurar por novas técnicas. A curiosidade fica para a intensa repetição da palavra “yeah”, construindo uma ligação natural para “She Loves You”, até então o maior sucesso dos besouros; não à toa, no Brasil, eles acabaram ficando conhecidos como “os reis do iê-iê-iê”. A segunda faixa, a melódica balada “All I’ve Got to Do”, é uma canção visada ao mercado norte-americano, escancarando uma das grandes inspirações de John Lennon nos primeiros anos de carreira: Smokey Robinson.

Porém, é quando chega em sua terceira música que “With the Beatles” é tomado pela magia da beatlemania. Como ignorar, afinal, o poder de “All My Loving”, uma das mais bonitas canções dos primeiros anos da banda? Sua letra é resultado da intensa agenda de shows a qual o grupo foi condicionado após sua explosão: fazer mais de um espetáculo por dia, nessa época, não era algo incomum para os Beatles. McCartney escreveu a letra da canção movido pela saudade, escancarando a falta que a presença de sua namorada na época, Jane Asher, o fazia. O destaque, porém, fica para o grande trabalho de Lennon na guitarra base.

“Don’t Bother Me” é a canção de George Harrison, escrita enquanto o guitarrista se encontrava de cama devido a uma forte gripe. Segundo palavras do próprio, “foi um exercício para ver se eu conseguia compor. Não acho que seja uma canção muito legal, mas mostrou que eu devia continuar tentando e eventualmente faria alguma coisa boa”. Apesar de muitas vezes esquecida pelo público, “Little Child” é uma canção fantástica, que se destaca nos primeiros exemplares do catálogo de canções da banda: potente apesar de simplória, e escancarando uma ótima performance de John na gaita de boca, a faixa, que primeiramente havia sido destinada à voz de Ringo Starr, acabou encontrando no pulsante vocal de seus compositores uma morada natural, propensa a encantar o ouvinte… “Bebezinha, por que não vem dançar comigo? Estão tão triste e sozinho, baby, me dê uma chance”, cantam Lennon e McCartney. É a fascinante simplicidade dos primeiros trabalhos da banda em uma de suas melhores representações.

Seguem, então, duas regravações que mostram o que público já havia percebido em “Please Please Me”: os covers dos Beatles se mostravam geralmente superiores às suas versões originais. Tanto “Till There Was You” quanto “Please Mr. Postman”, retiradas do mais clássico R&B americano, encontraram uma concepção mais atraente nas mãos dos garotos ingleses. Apenas a versão para “Roll Over Beethoven”, clássico de Chuck Berry, acabou desandando: embora o instrumental acompanhe o poder da gravação original, o vocal de George Harrison (na época ainda pouco desenvolvido) deixa a desejar.

A nona, “Hold Me Tight”, é um bom exemplo dos anseios da banda de atingir o mercado norte-americano, pautando seus rumos cada vez mais na elaboração de singles em potencial – o que não é, de jeito nenhum, algo necessariamente ruim; se a maior das louvações vem do público, nada mais correto do que tentar alcançá-lo… E os Beatles sempre obtiveram o sucesso massivo ligando a sua fama à aclamação crítica: mais do que nunca diminuir a qualidade de seu som, eles sempre trabalharam para crescer. Provas dessa ideia podem ser facilmente encontradas quando os garotos faziam de simples regravações números primorosos, como é o caso de “You Really Got a Hold on Me”, uma performance verdadeiramente perfeita: o sempre incrível George Martin assume o piano, e Lennon canta de forma magistral.

“I Wanna Be Your Man” havia sido composta, por Lennon e McCartney, especialmente para os Rolling Stones, que já haviam lançado a canção cerca de um mês antes do lançamento de “With the Beatles”; a prática era comum na época, visto que outras canções dos Beatles fizeram mais sucesso com outros nomes do que na voz de seus próprios compositores; por ser uma canção mais crua, com um vocal menos exigente, este acabou sendo deixado a cargo de Ringo Starr. Uma garota com olhar irresistível, lábios sedutores, mas que tem o diabo no coração, é cantada por George Harrison na regravação de “Devil in Her Heart”, canção composta por Richard Drapkin e que havia sido gravada pela grupo feminino The Donays. Já “Not a Second Time”, uma das mais exóticas canções já compostas pelos Beatles, com um arranjo assombroso de piano, ficou famosa pelas tais “cadências eólicas” percebidas pelo crítico William Mann, na época escrevendo para o famoso jornal The Times.

Ainda que fosse formado por uma ótima sucessão de faixas, “With the Beatles” necessitava de um “algo a mais” para o final: a última faixa de “Please Please Me” era a estupenda versão de “Twist and Shout”, e a faixa derradeira do segundo álbum não poderia ficar devendo quanto à energia. Por isso, Martin e seus pupilos deveriam caprichar. O resultado, no fim, acabou se mostrando altamente satisfatório: o cover de “Money (That’s What I Want)”, o primeiro grande sucesso da Motown, conseguiu alcançar o nível requerido… Mais uma vez, um disco dos Beatles se encerrava caracterizando tudo aquilo que a banda representava: a rebeldia juvenil que acabou tomando conta do Reino Unido, e caminhava a passos para dominar o mundo.

Apesar de menos consistente que “Please Please Me”, “With the Beatles” alcançou com louvor o que se desejava: não somente manter o sucesso do grupo, mas aumentá-lo. Sem dúvida, os quatro garotos de Liverpool haviam passado no “teste do segundo álbum”. Agora, não formavam apenas mais uma banda iniciante: eram o símbolo de uma geração, e os maiores nomes de um movimento chamado “Invasão Britânica”. Com o lançamento do single “I Want to Hold Your Hand” e sua aterrissagem nos Estados Unidos, onde abocanharam uma audiência absurda com sua apresentação no programa de Ed Sullivan, os Beatles repetiram o êxito dos exploradores europeus de outrora, conquistando os territórios da América. Naquele quarteto de jovens estava presente a maior banda da história, e ninguém mais parecia duvidar disso.

NOTA: 8,8

Track List:

01. It Won’t Be Long (Lennon/McCartney) [02:13]

02. All I’ve Got to Do (Lennon/McCartney) [02:03]

03. All My Loving (Lennon/McCartney) [02:08]

04. Don’t Bother Me (Harrison) [02:28]

05. Little Child (Lennon/McCartney) [01:46]

06. Till There Was You (Meredith Wilson) [02:14]

07. Please Mister Postman (Dobbins/Garrett/Gorman/Holland/Bateman) [02:34]

08. Roll Over Beethoven (Chuck Berry) [02:45]

09. Hold Me Tight (Lennon/McCartney) [02:32]

10. You Really Got a Hold on Me (Smokey Robinson) [03:01]

11. I Wanna Be Your Man (Lennon/McCartney) [02:00]

12. Devil in Her Heart (Richard Drapkin) [02:26]

13. Not a Second Time (Lennon/McCartney) [02:07]

14. Money (That’s What I Want) (Bradford/Gordy) [02:49]

2013: De Graça – Marcelo Jeneci

De Graça

Por: Renan Pereira

O melhor da vida é de graça. Sobre esse conceito é construído o novo álbum de Marcelo Jeneci, que enfrenta a responsabilidade de suceder o aclamado “Feito Pra Acabar”, de 2010 – que fez com que, de uma hora para a outra, o experiente músico acabasse se tornando um dos mais importantes nomes da atual música popular brasileira. Antes disso, ele já havia trabalhado como sanfoneiro na banda de Chico César, composto músicas para nomes como Vanessa da Mata, Arnaldo Antunes e Leonardo, mas nada que pudesse lhe transformar em um artista conhecido. Agora, ao contrário de 2010, seu novo trabalho surge em meio a grande expectativa… Por isso, às vezes, é muito mais fácil agradar quando se é um nome iniciante, desconhecido; em suma, por mais incrível que o novo álbum de Jeneci pudesse ser, ele jamais superaria a áurea surpreendente de “Feito Pra Acabar”. Se antes ninguém esperava algo grande do músico, agora espera-se dele um dos melhores discos do ano: a responsabilidade cresceu exponencialmente, e o músico, prontamente, se dispõe a enfrentá-la.

Para tanto, ele não se desgruda dos aspectos singelos de seu disco anterior. Assim como “Feito Pra Acabar”, “De Graça” é um álbum feito para agradar toda a família, capaz de gerar uma resposta positiva da sua avó, fã de Roberto e Erasmo Carlos, da sua mãe, que insiste em ouvir música sertaneja romântica, ou do seu irmão mais novo, que só curte os hits do momento. É difícil não deixar que a música de Jeneci faça a alma flutuar, pairando sobre doces e coloridas nuvens de algodão: por mais carrancuda que a pessoa seja, um sorriso pairará em seu rosto quando ela experimentar os rumos sensíveis propostos por Jeneci.

Mas, indubitavelmente, as coisas mudaram. Nesse tempo, Marcelo Jeneci se divorciou e fez de sua nova namorada, Isabel Lenza, co-autora de algumas de suas novas canções. As apostas sonoras, embora ainda mais presas a um teor emotivo, também sofreram alterações: se os arranjos instrumentais antes acompanhavam a simplicidade lírica, agora, em “De Graça”, o músico sente-se à vontade para explorar rumos mais pretensiosos. Contando com Kassin e Adriano Cintra na produção, o álbum flerta tanto com sujeira quanto com polidez: há espaço para technobrega, indie rock, pop progressivo e até música barroca na salada proposta por Jeneci e seus produtores.

Porém, quando se trabalha com tantas texturas sonoras diferentes, distantes entre si, há o perigo de fazer com que o trabalho soe, de certa forma, desconexo – algo que não é necessariamente ruim, vide o “álbum branco” dos Beatles, mas que precisa ser trabalhado com muito cuidado. No fim das contas, apesar dos lirismos deixarem bem claro o tema pelo qual o disco é delineado, não há como negar que o turbilhão sonoro acaba afastando as faixas… Há uma constante brincadeira entre o grandioso e o simples, que em um primeiro pode até soar interessante, mas que lá pelo meio do trabalho já terá deixado ouvinte um pouco confuso. Tanto Kassin quanto Cintra trabalham bem, os arranjos de cordas de Eumir Deodato são magníficos, mas Jeneci acaba se perdendo no meio deste tempero.

Então “De Graça” é um álbum errôneo? Não, de jeito nenhum! Poderia ser melhor, é verdade, mas isso não significa, necessariamente, um resultado negativo. Jeneci, definitivamente, sabe como fazer músicas que agradam sem nenhuma dificuldade. Como não se deliciar, por exemplo, com a atmosfera colorida e os lirismos singelos da primeira faixa, “Alento”? Procurando superar a tristeza, a canção inicia o disco e sua temática de forma assertiva, esbarrando até mesmo na auto-ajuda. A faixa-título é, muito provavelmente, a música que mais surpreende no disco: alocada no calor melódico e rítmico da música do norte do Brasil, acaba flertando com o technobrega em uma participação mais do que incisiva do produtor Kassin.

Mas, no fim, os toques eletrônicos da faixa-título não dizem muito sobre a continuação do disco: nenhuma outra faixa soa como ela. A terceira faixa, de certa maneira, mostra Jeneci se afastando propositalmente dos rumos inéditos da anterior: estacionando no pop-rock do início dos anos setenta, o músico fabrica, em “Temporal”, um número que poderia muito bem ter feito parte do catálogo de canções de Erasmo Carlos. Voltando a investir fortemente na melodia, Jeneci consegue agarrar magistralmente “De Graça” ao mesmo teor acessível de “Feito Pra Acabar”… Não interessa se o ouvinte está ou não atento às novidades do mundo da música; o disco irá lhe envolver. Perceba como “Tudo Bem, Tanto Faz” não faz com que questionemos quão novas (ou velhas) são suas influências: ela quer agradar, acima de tudo, e acaba encontrando, em seu clima sentimental, um caminho certeiro para alcançar tal resultado. E melodia após melodia, verso após verso, “De Graça” vai alcançando uma evidente áurea sensível: “Nada a Ver” é uma música para “quebrar o gelo”, mostrando quão inúteis podem ser algumas normas dos relacionamentos interpessoais, enquanto “A Vida é Bélica” encontra o épico naturalmente ao brincar de forma incisiva com o rock progressivo.

Porém, ao se aproximar e se afastar constantemente por diversas nuances sonoras sem nenhuma moderação, Jeneci acaba fazendo com que o álbum comece a soar, a partir da sétima faixa, um pouco cansativo: ao invés de guiar o ouvinte, interrompe certos caminhos, fazendo com que nossos ouvidos acabem perdidos em meio à “selva de referências” pela qual o registro é delineado. Depois de “O Melhor da Vida”, mais um pop-rock simples e despretensioso, há “Um de Nós” e o momento mais exagerado do disco, com Jeneci agarrando-se aos aspectos mais imodestos da música progressiva. Da mesma forma, arranjos de cordas vão dando um ar magnífico (e de certa forma repleto de excessos) em “Pra Gente se Desprender”, para depois esbarrarmos na ingenuidade de “Julieta”. É preciso que ouvinte pause o disco para reencontrar.

No fim, tudo isso acaba fazendo com que as faixas de “De Graça” acabem soando melhor separadas do que unidas. Engraçado, não? Quando se constrói um disco, ainda mais quando se está preso a um “conceito”, o que se espera é a criação de uma unidade, que as canções tenham o poder de se complementar… E é estranho perceber que “De Graça” não alcança este resultado. Há grandes canções, nenhuma chega a representar um real demérito, mas a sucessão das faixas não funciona como deveria. Isso acaba tornando, infelizmente, alguns números primorosos (como “Sorriso Madeira” e seus arranjos excitantes) perdidos dentro de uma base musical que não sabe se quer ser simples ou grandiosa.

Para finalizar, há o aspecto infantil e circense de “Só Eu Sou Eu” e a seriedade lírica e instrumental de “9 Luas”, parecendo enfatizar a desconexão que embala o disco. Você pode até dizer que há um conceito seguido do início ao fim, embalado pela “intensidade da vida”, e que todas as faixas conseguem, de alguma forma, representar esta temática… E isso é tudo verdade. Mas devemos ter em mente que o conceito, sozinho, não é capaz de atestar a consistência de um trabalho. Se as letras até tentam se encontrar, os rumos sonoros vão em uma direção totalmente oposta, virando ao avesso a tal temática. Extrapolando no exemplo, é como se tivéssemos em mãos uma coletânea com o tema “amor”: lá existiria pagode, pop, rock e sertanejo.

Mas não dá para negar que, mesmo desconexo, “De Graça” contém belas canções. Pode até não ser um dos melhores discos do ano, como todos esperávamos, mas é uma boa continuação da carreira de Marcelo Jeneci. Ele ainda não é um dos gurus da música brasileira, e talvez tenhamos exagerado no tamanho das expectativas.

NOTA: 6,9

Track List:

01. Alento (Marcelo Jeneci/Isabel Lenza/Arnaldo Antunes) [03:50]

02. De Graça (Marcelo Jeneci/Isabel Lenza) [03:03]

03. Temporal (Marcelo Jeneci/Isabel Lenza) [02:27]

04. Tudo Bem, Tanto Faz (Marcelo Jeneci/Laura Lavieri/Arnaldo Antunes) [03:33]

05. Nada a Ver (Marcelo Jeneci) [03:37]

06. A Vida é Bélica (Marcelo Jeneci/Isabel Lenza) [03:29]

07. O Melhor da Vida (Marcelo Jeneci/Luiz Tatit) [04:50]

08. Um de Nós (Marcelo Jeneci) [04:47]

09. Pra Gente se Desprender (Marcelo Jeneci/Isabel Lenza) [05:57]

10. Julieta (Marcelo Jeneci/Isabel Lenza) [02:38]

11. Sorriso Madeira (Marcelo Jeneci) [02:37]

12. Só Eu Sou Eu (Marcelo Jeneci/Arthur Nestrovski) [01:49]

13. 9 Luas (Marcelo Jeneci/Raphael Costa) [05:18]

2013: New – Paul McCartney

New

Por: Renan Pereira

É muito bom ver que o nosso velho Paul McCartney continua a produzir, tanto ao-vivo quanto em estúdio, em um ritmo invejável. Realizando turnês constantes e seu segundo álbum em dois anos, o compositor inglês parece querer ficar distante de qualquer acusação de preguiça, mostrando que, apesar de ser um músico consagrado há mais de quarenta anos, nunca lhe faltou a vontade de construir novos trabalhos. McCartney sabe a extrema importância da música que desenvolvera nos últimos cinquenta anos, e por isso, mesmo já alcançando a sua sétima década de vida, se esforça para continuar produzindo algo que não deixa dúvidas quanto à relevância. E o melhor de tudo é ver que, além da quantidade, o atual trabalho do ex-beatle não se distancia da qualidade que se espera de um dos maiores gênios da história da música.

E em seu novo álbum de estúdio, “New”, McCartney trilha um caminho esperado, mas que nem por isso deixa de se mostrar altamente recompensador. Em suma, o músico continua sendo quem ele sempre foi, um mestre dos rumos melódicos e das harmonias vocais, puxando de seu trabalho realizado nos Beatles e na banda Wings os principais elementos delineadores de sua música… Mas o título do álbum, que inspira novidade de forma proposital, já deixa claro que, mesmo valorizando os aspectos mais tradicionais de sua carreira, McCartney está atento ao cenário atual. Ao recrutar um quarteto de produtores respeitados pelo que têm feito nos últimos anos, ele propõe-se a construir um álbum de essência jovial, apto a conquistar não apenas seu velho público, mas também uma nova legião de ouvintes.

Podemos dizer que “New” é o lado oposto do empoeirado “Kisses on the Bottom”, bem como um “Memory Almost Full” às avessas. Se em seus últimos trabalhos McCartney tinha como intenção a prestação de homenagem a aspectos históricos da música (seja o jazz norte-americano ou a sua própria carreira), agora ele volta-se novamente ao mundo atual para mostrar que a acessibilidade de sua música continua intocada. Passam anos e décadas, e Paul McCartney não deixa de cativar o público com conceitos simples, mas extremamente assertivos. Pois “New” é um daqueles tradicionais trabalhos do músico, repleto de músicas agradáveis, melodias atraentes e harmonias impecáveis, sem envergonhar-se de soar pop. Há novos aspectos, é claro, mas felizmente incapazes de fazer com que o compositor se afaste de seu habitat natural.

Se a proposta do disco é fazer com que, em pleno ano de 2013, a música de Paul McCartney seja comercialmente acessível sem soar descartável (ou uma pura mesmice), nada melhor do que contar com o apelo pop do produtor Paul Epworth no tratamento da primeira faixa, “Save Us”. Explosiva, a canção se agarra a guitarras pesadas, uma construção melódica impecável e harmonias vocais que parecem trazer para os dias atuais as participações dos já falecidos John Lennon e George Harrison… Afinal, se os quatro integrantes dos Beatles ainda estivessem vivos e tocando juntos, pode ter certeza que deles sairia algo parecido à primeira faixa de “New”: um misto das tradições sessentistas com o sentimento pop dos dias de hoje.

Em “Alligator” há espaço para mais uma canção de conceito tradicional, semi-acústica, em que o jogo de riffs e (principalmente) os sintetizadores alocados pelo produtor Mark Ronson constroem um verdadeiro colchão para a alocação da melodia. A terceira faixa, “On My Way to Work”, desenha paisagens urbanas de forma deliciosa, refletindo o cotidiano com uma destreza que só os músicos mais experientes conseguem ter; é como Chico Buarque, que em seu último disco conseguiu transformar cenas banais do dia-a-dia em uma grande canção em “Querido Diário”. O início orquestrado da excitante “Queenie Eye” acaba se transformando em um instrumental de caráter moderno, que acaba casando-se competentemente com o senso composicional que vem acompanhando McCartney desde os anos sessenta.

Quando o ex-integrante dos Beatles consegue converter suas ideias em um irresistível acerto melódico, o que temos como resultado é, geralmente, algo de extrema agradabilidade. Paul McCartney já criou grandes hinos da música pop, arquitetou a evolução da música popular através da fase psicodélica dos Beatles, e tornou-se um impecável baladeiro na companhia da então esposa Linda McCartney no Wings, mas nem todos os êxitos alcançados em uma carreira tão inventiva foram necessários para blindar o músico de algumas críticas. O que dizer, afinal, de alguns falhos trabalhos lançados por ele nos anos oitenta? Mas se, naquela época, McCartney tentou alcançar o “novo” a todo custo, investindo em toda a farofa (e nos sintetizadores bregas) daquela década ao esquecer-se de tratar com capricho os rumos melódicos, a partir dos anos noventa a toada passou a ser diferente… Foi mesclando as novidades com suas antigas ideias que o músico encontrou um cenário sustentável para a continuação de sua carreira, gerando álbuns de grande qualidade, como “Flaming Pie” e “Chaos and Creation in the Backyard” – e agora “New”. A própria quinta faixa do disco, “Early Days”, parece ser uma releitura de “Flaming Pie” com um pé na produção setentista do compositor.

A faixa-título é um número pensado para as rádios, utilizando os rumos pop/melódicos do Wings para criar um single de bom potencial. Não há nada tão novo em “New” quanto à sétima faixa, “Appreciate”, com o produtor Giles Martin alocando Paul McCartney em uma estrutura moderna, em que uma bateria eletrônica e efeitos sintetizados desenham uma atmosfera obscura, com algo de Nine Inch Nails e até de hip-hop; em suma, uma grata surpresa. “Everybody Out There” é um pop-rock clássico, um número tradicional da carreira-solo de McCartney, em que a novidade mora no desfecho da faixa, com mais um turbilhão sonoro proposto por Giles Martin. Ethan Johns produz, com igual maestria, a nona faixa, “Hosanna”, em que o jogo acústico é temperado por uma fantástica sobreposição de efeitos sonoros.

“I Can Bet” é mais um pop-rock de tendência clássica, mas que através de sua bem pensada concepção de ruídos atinge um bom resultado quanto à aproximação das tendências atuais… Há ainda flertes com os sintetizadores que acabaram caracterizando os últimos trabalhos da discografia setentista de David Bowie, acrescentando ao disco uma “áurea conceitual” que, na realidade, serve apenas para dar um charme a mais: apesar do verdadeiro espetáculo proporcionado pelos produtores, não espere de “New” o mesmo teor experimental que Nigel Godrich havia inserido em “Chaos and Creation in the Backyard”. “New” é um disco pop, delineado através de um competente pensamento voltado à acessibilidade, mas que não deixa de bordar novas texturas à música de McCartney – como mostra muito bem o andamento minimista de “Looking at Her”, a penúltima faixa do álbum.

“Road” é um encerramento perfeito, que parece condensar todos os acertos do disco em uma só faixa: mais um perfeita concepção melódica preenchida por uma incrível explosão pop, capaz de alocar o velho Paul McCartney em uma base sonora moderna e de acabamento especialmente hermético. Há ainda a faixa escondida “Scared”, oferecendo mais alguns instantes de música para os ouvintes mais sedentos, e nos deixando com aquele sempre bem-vindo “sabor de quero mais”. Se um Paul McCartney atrelado às tradições e atento às novidades era o que todo mundo esperava, “New” provavelmente não decepcionará ninguém. É um trabalho que parece ter sido feito para agradar a todos, seja o ouvinte um antigo beatlemaníaco ou um adolescente que apenas agora está descobrindo os grandes nomes da música… “New” é, enfim, satisfação garantida: um disco capaz de agradar você e toda a sua família.

NOTA: 8,1

Track List:

01. Save Us [02:39]

02. Alligator [03:27]

03. On My Way to Work [03:43]

04. Queenie Eye [03:47]

05. Early Days [04:07]

06. New [02:56]

07. Appreciate [04:28]

08. Everybody Out There [03:21]

09. Hosanna [03:29]

10. I Can Bet [03:21]

11. Looking at Her [03:05]

12. Road | Scared [07:39]

1973: Greetings from Asbury Park, N.J. – Bruce Springsteen

Greetings from Asbury Park, N.J.

Por: Renan Pereira

É um pecado a ignorância coletiva que gira em torno do primeiro disco de Bruce Springsteen: o fato de não estar entre os mais famosos lançamentos do “The Boss” não deveria ser uma justificativa para o esquecimento de uma obra tão importante. Mas essa questão não é, de forma alguma, novidade quando se discute a carreira de Springsteen. Há quem determine sua importância apenas pelos êxitos comerciais de “Born in the U.S.A.”, ignorando a qualidade de uma discografia que se apresentou, muitas vezes, mais interessante que o tão famoso álbum de 1984. O que dizer da cobertura da imprensa sobre a passagem recente do músico pelo Brasil? Não foram poucos os informativos que apresentaram Springsteen como o “autor de ‘Born in the U.S.A.'”, jogando para escanteio todos os demais êxitos de um numeroso e brilhante catálogo de discos… É como se David Bowie tivesse sua carreira resumida a “Ziggy Stardust”, ou se “Highway 61 Revisited” pudesse rotular todo o senso artístico de Bob Dylan.

Realmente, a imprensa brasileira não conhece Bruce Springsteen. O tratam como mais um daqueles rock stars que ganharam fama a partir dos anos oitenta, algo que, além de um completo equívoco, consegue diminuir de forma considerável todo o incrível resultado alcançado pelo compositor ainda nos anos setenta… É nessa década que moram os mais geniais lançamentos de Springsteen, ignoram os mal-informados: tratando-se de relevância artística, “Born to Run” e “Darkness on the Edge of Town” mostram-se inegavelmente superiores ao mais famoso disco do compositor.

Outro erro imperdoável é rotular Bruce Springsteen simplesmente como “roqueiro”. Muitas vezes, sua música esteve muito mais atrelada à música folk do que propriamente ao rock n’ roll, e seu primeiro álbum, “Greetings from Asbury Park, N.J.”, é uma ótima demonstração disso. E é aqui que voltamos, enfim, à questão principal deste texto… Através da análise da estreia de Springsteen, podemos perceber que, mesmo ainda distante dos rumos épicos que permeariam os lançamentos seguintes, o primeiro disco do músico acabou cumprindo seu papel com maestria: apresentou um dos músicos mais promissores de sua época, em um exercício pleno de cativação.

“Greetings from Asbury Park” pode até ter sido deixado de lado pelo público, mas soube perfeitamente como conquistar os olhares da crítica: muitos até mesmo começaram a ver na figura de Bruce Springsteen um “novo Bob Dylan”. Mas às comparações à Dylan só são válidas quanto a interação entre as tradições do folk e as guitarras do rock, pois, no conceito, os rumos sonoros utilizados por Springsteen se diferenciavam largamente. As abordagens eram distintas: no fundo, nenhum outro artista de folk ou de rock havia mergulhado nos mesmos conceitos apresentados por “Greetings from Asbury Park”… Nem The Byrds, Neil Young, Simon & Garfunkel, ninguém havia feito um folk rock parecido com o de Springsteen.

E é nessa toada de novidade constante que o disco é delineado. A primeira faixa é a entusiasmante “Blinded by the Light”, construída sobre um base instrumental impecável, dinâmica, e composta por Springsteen a partir de um pedido da gravadora. Havia um sentimento geral de que “Greetings from Asbury Park” não teria nenhum single em potencial e, com isso, Springsteen acabou trabalhando em duas novas canções  – sendo que uma foi, de fato, a primeira faixa. Ironicamente, “Blinded by the Light” só faria sucesso três anos depois, com o conjunto de rock progressivo Manfred Mann’s Earth Band.

“Growin’ Up” é uma música fundamental do catálogo de Bruce Springsteen; falando sobre um anseios de um rebelde adolescente de New Jersey, a faixa derrama-se em três minutos de puro sentimento, amparada por um instrumental que, apesar de mais calmo, não deixa de apresentar a energia característica deste disco. Possivelmente intimista, a canção é descrita por alguns como uma representação da juventude do compositor – e não por acaso, quando a tocava em seus shows, o músico geralmente fazia um longo discurso sobre os problemas que havia enfrentado no relacionamento com o seu pai.

O momento mais “Dylanesco” do álbum está na terceira faixa, a acústica “Mary Queen of Arkansas”, cujo tema, apesar de obscuro, parece evocar a personalidade de uma drag queen. Esta não é a única composição do disco em que os detalhamentos líricos são abandonados em função de uma abordagem mais hermética, afinal, o jovem Bruce Springsteen estava ainda construindo o seu senso composicional. A primeira fase de sua carreira, especialmente, caracterizou-se muito mais pelas letras evocativas do que pelos rumos críticos. Há também o canto das tradições, o culto à terra-natal, como é perceptível em “Does This Bus Stop at 82nd Street?”, que transforma em música uma viagem de ônibus de New Jersey até Manhattan.

Sabe aquelas composições clássicas de Bruce Springsteen, doloridas e desesperadas, repletas de fortes emoções, com um pequeno vislumbre de esperança? A primeira delas é “Lost in the Flood”, retratando os sentimentos de uma classe que sempre teve a atenção do compositor: os veteranos de guerra dos Estados Unidos, geralmente tão maltratados por uma sociedade que não reconhece o seu valor. Eis aqui, na quinta faixa, o ponto máximo do disco, que conta com uma espetacular performance de Springsteen, próxima do incrível showman que ele se tornaria anos depois.

A sexta faixa, “The Angel”, foi considerada por Springsteen, na época do lançamento de “Greetings from Asbury Park, N.J.”, como a canção mais sofisticada do disco; construída sobre piano, a composição traz assertivas relações e alegorias à imagem do automóvel, que trabalham para contar os descaminhos de um motociclista fora-da-lei. Em mais uma letra evocativa, que constrói imagens de uma mulher que cometera suicídio, é que situa-se “For You”, outro número certeiro que agrega cada vez mais qualidade à estreia de Springsteen… É como se, ao visitar a vida de seus personagens, o compositor quisesse explanar os mais íntimos sentimentos. O grande diferencial da música de Springsteen, no caso, sempre foi tratar do íntimo sem necessariamente se prender à pessoa do músico; indubitavelmente, ele é um mestre em saber atingir em cheio as emoções do ouvinte. “Spirit in the Night”, a penúltima, é a canção mais estranha do disco, visivelmente se afastando do propósito das demais; foi a outra canção escrita por Springsteen sob a pressão da gravadora por singles de potencial, e que acabou gerando, mais uma vez, sucesso apenas para a Manfred Mann’s Earth Band, três anos depois.

Mas é com a sensacional “It’s Hard to Be a Saint in the City” que o álbum se encerra, utilizando de um assertivo tom arrogante e vaidoso para contar a estória de um garoto que cresceu nas ruas… É um número perfeito para encerrar um disco que, ao contrário das obras mais comerciais de Bruce Springsteen, prendem muito mais pelas palavras do que pela “áurea rock n’ roll”. Um registro importantíssimo da história da música dos Estados Unidos, e o nascimento de uma lenda, de um dos músicos que sempre mostrou ser um perfeito entendedor dos rumos do país e da sociedade. “Greetings from Asbury Park, N.J.” é um pequeno clássico perdido, em que os versos alegoricamente religiosos da última faixa são capazes de condensar todos os êxitos líricos de um jovem Bruce Springsteen: “O diabo apareceu como Jesus através do vapor na rua, me mostrando uma mão eu sabia que até mesmo a polícia não conseguiu bater. Eu senti sua respiração quente em meu pescoço enquanto mergulhava no calor… É tão difícil ser um santo quando você é apenas um garoto na rua”.

NOTA: 8,4

Track List:

01. Blinded by the Light [05:06]

02. Growin’ Up [03:05]

03. Mary Queen of Arkansas [05:21]

04. Does This Bus Stop at 82nd Street? [02:05]

05. Lost in the Flood [05:17]

06. The Angel [03:24]

07. For You [04:40]

08. Spirit in the Night [05:00]

09. It’s Hard to Be a Saint in the City [03:13]