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2014: Nheengatu – Titãs

Nheengatu

Por: Renan Pereira

Os protestos ocorridos no Brasil em 2013, enquanto era realizada a Copa das Confederações, não serviram apenas para colocar um fim na inércia crítica que parecia abalar a população brasileira há muitos anos: também foram responsáveis por “acordar alguns gigantes que estavam dormindo”. Os Titãs pareciam curtir um sono eterno, e muita gente até duvidava que a banda voltaria a fazer, algum dia, um novo projeto relevante. Ainda que o barco titânico tivesse começado a afundar nos anos noventa, com o lançamento dos péssimos “Volume Dois” e “As Dez Mais”, foi na década passada que a banda passou a ser nada além do que um fantasma a perambular pelos anais do rock nacional, comportando-se como uma entidade morta que nada mais tinha a acrescentar. A morte de Marcelo Fromer e a saída de Nando Reis foram verdadeiros golpes de pá na carreira dos Titãs, embora tenha sido a posterior saída de Charles Gavin que pareceu enterrar a banda de uma vez. O lançamento de “Sacos Plásticos”, então, soou como um atestado de óbito… Mas veio a agitação política de 2013, e a banda milagrosamente renasceu.

Mesmo sem apresentar nenhuma novidade sonora, os Titãs fazem de seu novo lançamento, “Nheengatu”, uma especie de “renascimento tardio” do conjunto. Aproveitando o clima politicamente crítico que se estabeleceu no país com os protestos, bem como o constante aparecimento dos integrantes na mídia, o grupo finalmente resolveu aplicar o seu talento em “cravar a unha na ferida” para produzir um disco artisticamente válido. Mostrando uma habilidade crítica até mesmo surpreendente para uma banda envelhecida, os Titãs fazem de seu novo trabalho uma obra que seu público estava querendo ouvir há muito tempo.

Para isso, eles não titubearam em emprestar quase todas as bases de dois de seus álbuns mais cultuados: “Cabeça Dinossauro”, de 1986, e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, do ano seguinte. Isso é ruim? Digamos que seja apenas em partes… Embora fique claro que a banda não tem mais condições de acrescentar novos elementos ao seu legado (um fato que já era explorado por Nando Reis há mais de uma década), temos músicos talentosos pisando em um terreno que conhecem muito bem. Se nos últimos anos o público teve aguentar a banda tentando flertar com o pop-rock atual com pouquíssimos êxitos, agora podemos acompanhar Branco Mello, Paulo Miklos, Sérgio Brito e Tony Bellotto de volta a seu habitat natural.

A primeira faixa de “Nheengatu”, “Fardado”, já deixa claro o rumo pelo qual o disco é guiado: procurando ser instrumentalmente feroz e liricamente crítico – mas, em contrapartida, esbarramos logo no início em conceitos já batidos, apresentados há muitos anos na famigerada “Polícia”. A segunda, “Mensageiro da Desgraça”, é um recado claro a candidatos a “salvadores de pátria”, um oferecimento especial a nossos “queridos” políticos, assim como “Vossa Excelência” havia sido em 2005. Nosso cotidiano tão deprimente, com nossos pensamentos tão dispersos, é bem explorado em “República dos Bananas”, que traz um conceito sonoro totalmente embebido no ska, amplificando a “volta às origens” que o disco busca promover.

“Fala, Renata” trata daquelas pessoas que, aproveitando-se dos fatos, falam muito, mas, no fim das contas, não dizem nada de relevante – ou de suportável. Tony Bellotto se destaca em “Cadáver Sobre Cadáver”, uma melódica canção sobre violência que parece fazer uma interação entre a fase mais suja e os anos mais “pop” dos Titãs. Outro destaque positivo acaba ficando para a produção de Rafael Lemos, que acerta ao fazer o “feijão com arroz”, deixando os integrantes da banda totalmente à vontade… Algo muito diferente do que Rick Bonadio tentara quatro anos atrás no fatídico “Sacos Plásticos”, em que o produtor tomara as rédeas para si tentando transformar os Titãs em uma espécie de Jota Quest para tiozinhos.

Apesar de conter guitarras interessantes, “Canalha” é uma canção mais fraca, em meio a tantas porradas… E a maior dessas porradas é, sem dúvida nenhuma, a sétima faixa, a pesadíssima “Pedofilia” – tanto na temática quanto na instrumentação. Um disco de altos e baixos, “Nheengatu” é capaz de fazer o ouvinte se sentir instigado em alguns instantes para logo depois se ver estacionado em redundâncias, como é o caso da oitava faixa, “Chegada ao Brasil (Terra à Vista)”. Mas convenhamos que um lançamento dos Titãs com altos e baixos já consegue ser superior a tudo o que a banda havia feito na última década – o que acaba gerando, obviamente, um resultado muito mais positivo do que negativo.

“Eu Me Sinto Bem” traz um bem-vindo instante de novidade, em que os Titãs mesclam sua identidade punk com um clima totalmente tropical, flertando inclusive com melodias da música nordestina. A seguinte, “Flores Pra Ela”, traz novamente guitarras encorpadas, mas por ficar conceitualmente isolada no disco, acaba passando quase despercebida, e será certamente mais um número esquecido do vasto catálogo de canções do grupo. “Não Pode” até traz de volta à tona aquele espírito anárquico de “Cabeça Dinossauro”, mas dentre os discursos do disco, é aquele que menos cola: podia até funcionar 30 anos atrás, mas ver cinquentões explorando uma ideia “contra as regras” não deixa de aparentar uma forçação de barra.

“Senhor” busca inspirações em “Igreja”, outra faixa do álbum “Cabeça Dinossauro”, para fazer críticas às instituições religiosas oportunistas – este em particular um discurso que ainda cai como uma luva, veja bem! Sim, pouco evoluímos. Já fazem quase trinta anos que o disco mais reverenciado da discografia dos Titãs foi lançado e, mesmo assim, muitas de suas críticas continuam valendo para os dias de hoje. Tanto que, mesmo repetindo conceitos, a banda consegue construir um trabalho cronologicamente relevante, atento aos problemas da sociedade atual. Se pararmos para pensar, é impressionante: as mazelas da sociedade que seus pais enfrentavam enquanto jovens são as mesmas que você enfrenta hoje em dia.

“Baião de Dois”, como seu próprio título pode deixar transparecer, se assemelha à “Eu Me Sinto Bem” quanto às intervenções estilísticas da música nordestina – talvez o único aspecto realmente novo para a sonoridade dos Titãs que “Nheengatu” apresenta. Mas melhor do que nada, não? Ainda há a última faixa, a igualmente boa “Quem São os Animais?”, que lembra os grandes hits da história dos Titãs: um pop-rock de primeira, com melodia convidativa e cheio de personalidade.

Bem, é inevitável que finalmente os Titãs voltaram pra valer. Mas o melhor de tudo, ainda, é vê-los com vontade de produzir. Todos estão muito bem, com projetos paralelos bem-sucedidos, mas a música continua sendo para os caras um aspecto relevante – algo que, anos atrás, muita gente já andava duvidando. Se os Titãs precisavam provar que ainda estavam vivos, provaram. “Nheengatu” pode até ser um reaproveitamento de velhas ideias, mas é um disco que utiliza-se, acima de tudo, de boas ideias.

NOTA: 6,5

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Entrevista: Fernando Temporão

Por: Renan Pereira

Fernando Temporão é um dos mais talentosos compositores da nova geração da música brasileira. Radicado nas tradicionais rodas de samba do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, o músico apresentou, em seu primeiro disco em carreira solo, uma sonoridade que vai muito além do samba que o lapidou.

“De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” foi eleito pelo RPblogging como uns dos 30 melhores discos nacionais de 2013 devido à abrangência deliciosamente pop com a qual o músico expôs traços de sua intimidade, quebrando com naturalidade aquele muro que sempre é construído contra o ouvinte quando o artista decide abordar seu próprio interior. Temporão fala simples, mas de coração.

Um nome emergente da música brasileira, Temporão volta a abrir a gaveta da sua alma nessa entrevista ao RPblogging. Nela, o artista nos conta um pouco mais sobre a sua carreira, partilhando também suas opiniões um pouco sobre os rumos da música alternativa feita principalmente no Rio de Janeiro.

Fernando Temporão

Como e quando você começou na música? Desde o princípio, você tinha certeza de que gostaria de seguir carreira como músico?

Tudo começou com um violão velho do meu pai que ficava lá em casa, encostado no canto. Acho que ter aquele instrumento ali, à mão, foi determinante pra tudo o que veio depois. Além do violão, meu pai sempre comprou muitos discos, ouvia música o tempo todo – em alto volume – e eu acompanhava de perto todo esse universo da chegada dos cd’s, os Lp’s, a coleção de discos antigos, os amplificadores, caixas de som, vitrolas… ainda lembro quando ele comprou nos Estados Unidos um cd-player de cartucho, onde cabiam 5 cd’s, foi uma revolução! A música era, portanto, onipresente. Em 1994, quando fiz 11 anos, pedi aos meus pais que pagassem um professor de violão, e essas aulas só aprofundaram minha curiosidade pela música. Meu professor era o Nelson Cerqueira, irmão do DJ Edinho, um cara que tocava numa banda de Ska muito bacana chamada Kongo e conhecia tudo de reggae. Eu, aos 11 anos, tinha nessas aulas, frequentemente, momentos de bate papo sobre música, política, futebol… tinha um lado bacana de tirar as músicas que eu queria saber tocar e um lado mais sério também, de estudo. O Nelson era um instrumentista exigente e lembro dele passar umas coisas do Bach, Villa-Lobos e até mesmo do João Pernambuco pra estudar. Acho que ainda sei tocar “Sons de Carrilhões”.

Então esse ambiente musical em casa foi fundamental, e ter aprendido a tocar violão com 11 anos foi bacana também porque a partir daí eu passei a ter alguma autonomia com o instrumento, passei a tirar músicas de ouvido e virar as tardes e noites todas tocando. Anos depois, na faculdade de Ciências Sociais, quando bateu uma crise e eu passei a questionar se era aquilo mesmo que queria pra mim, concluí que o que me dava mais prazer era fazer justamente o que eu já fazia todo santo dia: tocar violão, compor e cantar. Essa simples constatação afetiva me ajudou a sustentar essa opção pela música profissionalmente.

Você não vem de uma família de músicos, e por mais que haja sempre um apoio incondicional dos pais, viver de arte é algo muito complicado. Houve algum momento em que seus pais tentaram te convencer a investir em outra profissão e deixar a música pra lá?

Vir de uma família tradicional, no sentido das escolhas profissionais dos meus pais, tios e avós, é sempre mais complicado, porque todo protagonismo é traumático por natureza. Eu sou o primeiro e, por enquanto, único membro da família inteira a trabalhar e viver de arte. Tenho um irmão mais novo, Gabriel, que está estudando música e, quem sabe, siga o mesmo trilho. Mas embora o contexto familiar seja esse de um núcleo mais tradicional, sempre tive apoio dos meus pais pra seguir na música. Em nenhum momento eles sugeriram algo ou fizeram qualquer tipo de pressão pra que eu investisse em outro caminho. Na realidade, a pressão que sinto e sempre senti, no sentido de sustentar essa escolha, é minha mesmo, é uma cobrança que me faço o tempo todo.  Pode ser que essa paixão evidente pelo ofício que escolhi, tenha convencido eles desde cedo de que não haveria mesmo outra estrada pra mim e, além disso, meus pais sempre nutriram muita simpatia pelas artes, pela música… na realidade minha escolha parece ser muito mais um motivo de satisfação do que frustração pra eles. Isso me ajuda e me atrapalha. De qualquer forma, acho que normalmente as pessoas tendem a procurar um ofício que proporcione um equilíbrio entre a satisfação pessoal, o prazer, e o retorno financeiro. Só que os artistas costumam estar tão afetados por um amor e pela inevitabilidade de se fazer o que se faz, que esses cálculos pragmáticos ficam em segundo plano.

Como foi adentrar no mundo da música e perceber que, aos poucos, você estava tocando com gente importante e, mais do que isso: se tornando um artista importante?

Acho que esse tipo de percepção acontece naturalmente, com o tempo, com os acidentes e acertos da vida. Mais do que chegar em algum lugar ou atingir objetivos ou se tornar algo, o grande lance da vida é ter prazer com o que se faz, dia após dia, sem muita preocupação com as consequências disso. Em algum momento eu certamente vou fazer um apanhado de tudo o que fiz, mas por enquanto a sensação que tenho diariamente é a de que as coisas ainda estão começando e tenho tudo por fazer. Se no meio dessa caminhada toda alguém considerar minha música importante e relevante, acho que posso pensar que estou indo pro lugar certo. Eu me vejo, ainda hoje, subindo um degrauzinho a cada dia, conhecendo pessoas maravilhosas a cada dia, crescendo um pouco mais a cada erro e acerto e, principalmente, aprendendo a sobreviver entre os desafios que me são impostos por esse universo profissional da música. Mas é, de fato, muito bacana quando a gente pode trocar experiências com pessoas que admiramos e que são importantes pra nossa evolução.

Você tem uma raiz artística muito ligada ao samba. Trabalhou com o grupo Sereno da Madrugada e lançou um trabalho em parceria com o João Callado. Por que, no primeiro trabalho solo, você decidiu seguir outra trilha musical?

Essa é uma pergunta que tem sido feita com frequência e que, inclusive, deu a tônica para algumas críticas do disco. Senti algum grau de frustração em jornalistas que esperavam um disco de samba. Acho importante explicar:

Minha relação com o samba e com o universo do samba se estabeleceu inicialmente na Lapa, no comecinho dos anos 2000, quando entrei para a faculdade. Naquele momento, havia um clima muito forte de revalorização dos antigos compositores de samba e choro na mesma medida em que ocorria uma revitalização da Lapa enquanto espaço urbano, como se uma coisa alimentasse a outra. Novos espaços estavam surgindo, o circo voador estava sendo reconstruído, brotavam novas casas noturnas, a Lapa passou a ser um lugar minimamente seguro para ser frequentado à noite, os músicos estavam tendo novos espaços para trabalhar e muita gente nova (que era o meu caso) chegou junto para ver aquilo acontecer e fazer parte. Acho que havia um clima de novidade e uma sede de se conhecer os compositores antigos, os discos, as histórias, uma coisa da identidade carioca que sempre esteve no ar mas que naquele momento se cristalizou artisticamente. Nesse momento, nós que estávamos num nicho artístico mais tradicional – no caso a Lapa e a faculdade de Ciências Sociais – criamos o Sereno da Madrugada e começamos a tocar por ali, no centro da cidade, mas essa sede de música brasileira, de revalorização do baile, da gafieira, estava por todo lado, inclusive pela zona Sul, onde o pessoal da Orquestra Imperial, de um nicho artístico mais contemporâneo, também passou a fazer seus bailes de samba semanais. Eu estudava no centro, vivia tocando e vendo shows na Lapa, mas morava na Zona Sul, ia aos bailes da Orquestra Imperial, e acompanhava as carreiras do Kassin, do Domenico, do Rodrigo Amarante e cia. Ainda trabalhava na gravadora Biscoito Fino e convivi com Francis Hime, Áurea Martins, Herminio Bello de Carvalho (de quem me tornei parceiro), Luiz Melodia e uma turma da MPB. Então posso dizer que foram anos intensos de pesquisa musical, de ouvir, a cada semana, 2 ou 3 novos discos, estudar violão de 7 cordas, fazer shows com o Sereno e, em paralelo, ir aos shows do Los Hermanos, do Monarco, da Adriana Calcanhoto e do Élton Medeiros.

Então essa curiosidade pelo antigo (que não deixava de ser novidade para mim) convivia tranquilamente com o amor ao contemporâneo porque, de fato, essas coisas não competem, né? Eu compunha muito, mas poucas músicas eram sambas… e eu tentei bastante! A maioria das músicas tinha uma pegada mais pop, já naquela época. E segui assim, fazendo minhas parcerias com o pessoal da Lapa (Moyseis Marques, João Callado, Alfredo Del-Penho, Roberta Nistra, João Martins e etc…), fazendo os shows e gravando.

Agora, o disco que fiz com o Sereno se chamou “Modificado” e já apontava uma vontade importante de trazer ao samba da Lapa, sempre tão reverente, uma linguagem mais contemporânea… gravamos inclusive o ‘Samba a Dois’ do Camelo como uma forma de indicar isso. O samba título do disco, de autoria do Padeirinho da Mangueira, dizia “Vejo o samba tão modificado, que também fui obrigado a fazer modificação (…)” e isso era uma espécie de manifesto pra nós do Sereno. Acho que meu desejo de trabalhar com o novo está muito presente desde essa época e  posso afirmar que minha busca, com o Sereno, já era fazer mais ou menos o que fiz agora no disco solo… E, depois, com o fim do grupo, teve o disco com o João Callado que, embora seja um trabalho mais tradicional, com participação de muita gente bacana, não pode ser visto como um definidor de identidade, até porque as músicas são quase todas do João, e eu entrei mais como letrista para a estética daquele repertório bonito. Foram dois trabalhos compartilhados.

Quando resolvi fazer um meu, um disco solo que refletisse, portanto, quem eu sou musical e artisticamente, as músicas que estavam guardadas no baú eram essas que estão no disco, já estava tudo pronto, definido há muito tempo do ponto de vista da linguagem que eu utilizaria. Acho importante dissecar bastante os fatos nessa questão para que fique claro o quão natural foi fazer o “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”. Embora haja realmente uma diferença estética importante quando se comparam os trabalhos, não acredito em nenhum tipo de rupturas ou mudanças de trilha do ponto de vista pessoal e afetivo. A trilha desse disco é a trilha que já estava dentro de mim.

Além de trazer uma grande qualidade lírica e melódica, o disco “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” é um primor em produção. Quão grande foi a participação do time de produtores e colaboradores na sonoridade final do trabalho?

O Kassin e o Alberto Continentino foram importantíssimos nesse processo de construção da ‘cara’ do disco. Eu levei muitas idéias prontas, muitas coisas que eu queria que fossem feitas de uma forma específica, mas lá no estúdio nasceram tantas outras fundamentais sobre a forma, instrumentação, arranjo e etc. Acho que o diálogo com os produtores foi muito bacana, fluido, tranquilo, e o disco ficou da forma que eu gostaria que ficasse. E eu acredito muito nessa maneira de trabalhar, coletivamente, de ir criando enquanto se grava, sem muita responsabilidade ou necessidade de ter que estar com tudo pronto antes de chegar no estúdio. E tem a contribuição dos parceiros, do Domenico, que fez música e tocou no disco, do Mauro Aguiar, um verdadeiro gênio, um dos grandes letristas da música brasileira, do Verocai, que escreveu lindos arranjos de cordas… de um monte de gente.

Está satisfeito com a recepção do disco, tanto pela crítica quanto pelos ouvintes?

Olha, eu me sinto muito feliz. Embora eu saiba que a crítica é relativa e não define muita coisa, foi bacana a ter tido uma resposta tão positiva, em sites, revistas, blogs e etc. E o público surpreende sempre. A quantidade de pessoas que escrevem é muito grande. Hoje mesmo recebi um recado de um rapaz que queria a cifra de “O que é Bonito” para gravar um vídeo de aniversário pra noiva dele… é bacana quando as pessoas querem tocar as músicas. Eu sou muito crítico, comigo e com os outros… acho que mesmo com toda a satisfação, eu tendo a buscar outras coisas pro próximo disco. Mas tudo funcionou pra um primeiro projeto feito de maneira independente, temos quase 10 mil downloads de pessoas que foram ali, espontaneamente procurar meu som… a música tem circulado sem máquina nenhuma pra empurrar. A preocupação tem sido cada vez maior com um lado mais burocrático, esse lance de produção, e de profissionalizar a coisa toda, fazer grana pra bancar as próximas empreitadas.

No mês passado, você participou do ótimo “Cultura Livre”, da Roberta Martinelli. O ponto que talvez mais tenha surpreendido quem assistiu ao programa foi a sua indignação com a forma que a música independente vem sido tratada pelo pessoal do Rio de Janeiro. A gente percebe que a imprensa carioca está muito concentrada dentro de um único grupo de mídia, e esse grupo de mídia não parece muito interessado em abraçar o que está sendo feito atualmente dentro da MPB, exceto raríssimos casos. O apoio do poder público do Rio também é pequeno, infelizmente. O pior de tudo é que, acompanhando o cenário alternativo atual, se vê uma produção muito maior ligada a São Paulo, embora existam muitos artistas de qualidade no Rio de Janeiro – talvez até em igual proporção com a capital paulista. Como sobreviver a isso?

São vários problemas que todo artista independente precisa superar. Os governos do Rio de Janeiro, nas esferas municipal e estadual, até têm grana pra sustentar durante todo o ano, centenas de shows para artistas independentes, com remuneração digna e estrutura. Mas falta quem pense, quem elabore, quem conheça a cena e tenha tesão de fazer acontecer. A própria rede de SESC’s existe no Rio, mas não existe alguém lá dentro que consiga fazer um centésimo do que é feito em SP. Não sei se conseguiríamos fazer igual, porque a dimensão é menor, mas poderíamos fazer muito mais. Acho que o Rio sempre teve um protagonismo artístico e cultural no Brasil, por uma série de motivos, mas não basta ter uma cena brilhante, como temos hoje, se não há vontade dos jornalistas, por exemplo, de vestir a camisa. É preciso algum grau de bairrismo pra que as coisas aconteçam. Os poucos projetos que acontecem aqui na cidade, com estrutura e cachê, feitos por curadores cariocas, tem pouquíssimos artistas cariocas. Os espaços oferecidos, quando existem, são no esquema “dê o seu jeito”. Tudo contribui para que o artista desista de tocar e vá abrir uma cafeteria. Eu sempre disse que uma cena só se constrói com vontade política, porque isso é um ato politico de identidade local, e quando, ao lado dos músicos, existem jornalistas, empresários, produtores. Acho que em São Paulo houve mais vontade de fazer acontecer, além de todos os outros fatores que ajudam, como o tamanho da cidade, a quantidade de espaços e etc. Mas o último ano foi sensacional pro Rio. Espero que continue melhorando.

Creio que você seja um defensor do samba. Falando sobre o gênero, talvez no Brasil o mais culturalmente marcante de todos, ele anda mais sumido do que deveria, não é verdade? Embora ele se encontre muito fundido a outras vertentes, aquele samba mais clássico e puro parece engavetado nas estantes dos grandes compositores do passado. Por que, afinal, há essa impressão?

Acho que essa é uma questão de mídia e mercado. Existem diversos artistas talentosos que fazem samba tradicional e que, assim como a maioria dos compositores contemporâneos dessa “nova MPB”, não têm espaço pra mostrar o trabalho. Talvez a combalida Lapa seja o reduto único. Quando a gente fala de música no Brasil, acho que raramente padecemos de falta de qualidade. Se as pessoas não conseguem ouvir samba é porque as rádios não tocam, a tevê não toca e por aí vai. Existe um filtro de mercado muito perverso que privilegia, normalmente, o que é banal, popularesco, comercial. A Regina Casé está lá na tevê, todo fim de semana, com Péricles, Thiaguinho, Arlindo Cruz e Xande de Pilares. Esse é o único samba que as pessoas podem ouvir. Artistas como Marcos Sacramento e Moyseis Marques, dois dos maiores cantores de samba do Brasil, não estão no “Esquenta”. Não acho que o samba esteja sumido… quem procurar vai achar com facilidade no beco do rato, no semente, no samba do ouvidor, no renascença. O problema é que as pessoas procuram cada vez menos as coisas. E, como todo produto, é importante que as coisas cheguem até as pessoas. Só que não vai tocar no radio se não pagar jabá… na tevê idem. Dilemas que a internet não conseguirá dissolver em curto prazo, embora haja avanços.

Penso que, embora todo artista tenha aquela vontade de sair Brasil afora fazendo shows, não existam tantas oportunidades. Você planeja sair com a sua banda, levando sua música para os quatros cantos do país?

Com certeza o desejo é enorme. É muito frustrante não poder estar fisicamente em todos os espaços onde sei que a minha música é tocada. A internet é muito importante no sentido de fazer as pessoas conhecerem o som, mas elas querem mais, querem ver o show, o artista. Um exemplo: parte grande do meu público é de jovens do norte/nordeste que perguntam, dia sim dia não, quando estarei na Bahia, Recife, Manaus ou João Pessoa. Então é realmente muito frustrante saber que todo risco financeiro para levar a banda para fora do estado é meu. Por isso, repito, é fundamental que o artista consiga essa estrutura básica de produção para que possa circular. Mas nem sempre isso é possível. Os planos próximos, infelizmente, se restringem a Rio e São Paulo. E a esperança, tá viva, sempre.

Agradecemos imensamente a participação de Fernando Temporão. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”, o primeiro álbum solo do músico.

2014: Ultraviolence – Lana Del Rey

Ultraviolence

Por: Renan Pereira

Lana Del Rey gostaria de estar morta. Sério. Em recente entrevista ao jornal inglês The Guardian, a musa dos hipsters voltou a demonstrar sua obsessão mórbida. “Eu não gostaria de continuar com isso, mas eu sou assim”, disse a cantora. É importante citar, porém, que nessas alturas da entrevista, haviam sido citados ícones do universo pop como Kurt Cobain e Amy Winehouse, não apenas ídolos de Lana, mas também artistas que morreram muito cedo. Se aprofundando no universo particular da tristonha garota, dá para perceber que essa revelação nem é tão peculiar assim… Seus deuses morreram, o mundo em que ela gostaria de viver não existe mais, e o que ela quer, no fim das contas, é continuar vivendo apenas para morrer.

Se seu primeiro disco já se chamava “Born to Die”, o presente álbum apresenta visões da cantora sobre uma vida dita “ultra violenta”. É triste, deprimente, e se arrasta durante quase uma hora buscando nos lamentos de uma jovem “morta-viva” um conceito sonoro único e imutável. Contudo, a produção de Dan Auerbach mostra-se certeira, deixando Lana distante daquele cenário incerto de “Born to Die”, e amplifica o já conhecido universo blasé através de toques de jazz, blues e rock psicodélico. Enfim, como desejava, a cantora conseguiu lançar um disco com a cara dos anos sessenta – uma década em que seu mundo particular ainda poderia ser levado a sério, diga-se de passagem.

Quem conferiu o bom curta “Tropico”, lançado por Lana no último mês de dezembro, conhece bem os pensamentos que envolvem a estranha mente da cantora: mesmo vivendo na segunda década do século XXI, Lana ainda rumina nomes como Elvis Presley e Marilyn Monroe dentro daquela atmosfera típica da juventude americana dos anos cinquenta e sessenta. Não à toa, a musicista cita Bob Dylan, Frank Sinatra e Leonard Cohen como suas principais influências na música, em uma ênfase totalmente centrada nos velhos sonhos (e pesadelos) da cultura da América do Norte.

“Minha vida é um verdadeiro filme de merda”, disse a cantora nessa mesma entrevista ao The Guardian. O engraçado é que é esse filme que a cantora procura explorar, a todo instante, em sua mais nova obra… O que já é percebido na primeira faixa, a longa e chorosa “Cruel World”, na que você, muito provavelmente, já dará graças a Deus por Auerbach ter decido ser o principal produtor do disco. É inegável que o músico, integrante do The Black Keys, insere toda sua bagagem (e qualidade) dentro do universo particular de Lana Del Rey com muita inteligência.

A faixa-título, que vem em seguida, se agarra assertivamente em uma sonoridade barroca, conseguindo tirar todo o sumo de Auerbach, e deixando Lana à vontade em um cenário especialmente construído para seus lamentos sobre vários aspectos da vida. “Shades of Cool” mantem os mesmos elementos, e apostando forte na melodia , faz com que a voz da cantora flutue com uma força que até então não havia sido observada; um poderoso solo de guitarra também ajuda para tornar a terceira faixa uma das melhores do disco. A quarta, “Brooklyn Baby”, cita vários elementos da cultura hipster em um pensamento melódico que é confessamente emprestado dos grupos de garotas dos anos sessenta, como The Ronettes, The Supremes e The Shangri-Las.

O já conhecido single “West Coast” surge preenchendo a quinta faixa, e o ouvinte, nessas alturas, provavelmente se vê surpreendido pela qualidade do disco, distante da plasticidade de “Born to Die”. Tudo vai correndo bem, e até com naturalidade, por incrível que pareça. O porém surge no momento em que percebemos que “Ultraviolence” não faz nada além de insistir em uma única toada, do início ao fim, e boas canções acabam sendo jogadas em um molho insosso, sonolento, e que, naturalmente, entedia. Ainda que os rumos etéreos de “Sad Girl” demonstrem uma boa interação das velharias com o pop atual, é a partir da sexta faixa que o disco, como um conjunto, acaba tornando-se repetitivo em excesso.

Até porque a sétima faixa, bem como as seguintes, estaciona em um nível de melodrama tão alto que chega a ser irritante. Sem conseguir segurar o ímpeto de Lana em forçar a barra, Auerbach acaba deixando que a personalidade superficial da cantora acabe tomando conta dos últimos instantes do disco. Com isso, muita artificialidade constrói os rumos da péssima “Pretty When You Cry”, da etérea “Money Power Glory” e de “Fucked My Way Up to the Top”, canção que conta com uma letra relativamente tosca.

Mesmo mantendo-se no conceito exagerado, “Old Money” apresenta uma boa melodia, mostrando-se superior às antecessoras. Um breve toque de qualidade dentro do deserto criativo da última parte do álbum, que ganha ainda mais descrédito quando Lana incorpora sua “guru” Marilyn Monroe na última faixa, “The Other Woman”. Muito original, não? Pois assim mesmo é Lana Del Rey: uma artista que faz toda questão de ser um mais-do-mesmo da velha cultura americana, repleta de todos os clichês possíveis e imagináveis. Goste ou odeie, ela é assim.

Dá até para imaginá-la retrucando o jornalista do jornal inglês que estranhou o desejo dela de morrer: “Não interessa se é estranho, se é errado… Eu sou assim”. Tão artificial e óbvia que queria ter morrido aos 27 anos, assim como seus ídolos. Ainda faltam alguns dias para a moça fazer seus 28, mas é improvável que ela queira, realmente, bater suas botinhas de grife. O que vem de uma pessoa artificial (em todos os aspectos) não pode ser levado muito a sério – aliás, bem como este álbum em questão. É o melhor trabalho de Lana? Sim… O que, no fim das contas, não quer dizer muita coisa.

NOTA: 5,5

2014: Ghost Stories – Coldplay

Ghost Stories

Por: Renan Pereira

O que é o Coldplay? Alguns podem dizer que se trata de uma famosa banda britânica de rock alternativo, outros lembrarão os grandes hits do conjunto, e algumas pessoas, certamente, soltarão que se trata “da banda de Chris Martin”. Por mais que pareça inútil interrogar sobre o que é, na realidade, um dos projetos musicais mais famosos da atualidade, tal questionamento acaba tornando-se necessário a partir dos rumos conceituais que vem envolvendo uma das marcas mais fortes da música mundial. “Obsessão” talvez seja a palavra que melhor representa as ideias da banda nos últimos anos… Obsessão em crescer? Aquele velho preceito de fazer cada vez mais e melhor? O perfeccionismo tão característico dos grandes nomes da arte? É triste ver que, nas mãos de Chris Martin, esses pontos acabam tornando-se triviais.

O que move o Coldplay, hoje em dia, é uma obsessão pobre, que já derrubou tantos artistas que, em outros tempos, obtinham respeito pela música que faziam… Quando o topo das paradas e o verde dos dólares passam a ser a grande referência de um trabalho, este deixa de representar um resultado artístico para se comportar como um mero caça-níquel, um comércio qualquer como uma metalúrgica ou uma padaria. Isso significa que a arte não pode vender? Não, de jeito nenhum: ela não só pode, como deve vender. Mas, antes de tudo, ela precisa ser, primordialmente, arte. O que o Coldplay atual, refletido em seu mais novo disco, “Ghost Stories”, não consegue ser.

Se houve uma época em que o Coldplay fazia música com sinceridade, este já passou há um bom tempo. Preocupada em fabricar produtos para as estantes das grandes lojas de departamentos, ou até mesmo para alavancar as vendas das emergentes lojas on-line, a banda deixa para lá todos os êxitos que alcançara principalmente em seus dois primeiros registros para fazer com que os lamentos de seu vocalista rendam financeiramente. Se Chris Martin encerrou, de forma pouco amigável, seu relacionamento com a atriz Gwyneth Paltrow, por que não tirar algum cascalho em torno desse acontecimento? Se tabloides sensacionalistas fazem tanto sucesso hoje em dia, por que não tornar ridícula sua própria música em nome de um sucesso comercial nas terras do Tio Sam, outrora tão pouco receptivas com a banda?

O fato é que, quando o dinheiro fala mais alto que todas as outras facetas que envolvem um disco, o resultado tende a ser desastroso. E assim é no fatídico “Ghost Stories”. Basta seu início em “Always in My Head” para perceber que a banda sequer trabalhou duro, deixando o conceito dos rumos sonoros nas mãos do renomado Paul Epworth, o produtor “da moda”. Curioso perceber como os arranjos eletrônicos estrelados não conseguem acompanhar a personalidade da banda (se é que ela ainda existe), perfazendo um cenário tão luxuoso e inútil quanto o apresentado no igualmente falho “Mylo Xyloto”. Enquanto isso, Chris Martin chora, mas não com tanta propriedade quanto em anos atrás… Incrível como tudo o que ele canta hoje em dia, em contrapartida ao teor extremamente íntimo de suas composições, soa artificial, um resultado programado através de equações de maximização de lucro. Nada, porém, soa tão falso quanto a segunda faixa, o single “Magic”, com seu pensamento de reconquistar o público indie através de uma cópia descarada da proposta sonora de Justin Vernon no projeto Bon Iver.

É o queridinho dos hipsters, aliás, que é novamente “sampleado” em “Ink” e “True Love”, faixas que voltam a apresentar a inércia poética inserida em uma sonoridade carente de personalidade. A quinta, “Midnights”, que conta com a participação do ótimo Jon Hopkins (considerado o herdeiro de Brian Eno), se agarra em uma concepção eletrônica ainda mais clara, demonstrando o fim da brincadeira da banda com seus instrumentos – o que sempre havia funcionado bem. Mas nem Hopkins, bem como Brian Eno em “Mylo Xyloto”, consegue inserir toda sua capacidade nos rumos comerciais do Coldplay atual.

Até porque milagre poucos conseguem fazer. Além de ser um mero produto, “Ghost Stories” é um produto mal-nascido, aqueles bens que as empresas lançam, não dão bons resultados, e precisam ser remodelados com urgência para evitar um rápido descarte. Para a sorte da conta bancária da gravadora Universal, o disco contém os famosos “singles de novela”, canções que parecem ter sido feitas sob medida para a trilha-sonora de algum folhetim insosso. Nessa ótica, nenhuma canção se encaixa tão bem quanto a nona faixa, “A Sky Full of Stars”, que chega a contar até com a participação do “estourado” Avicii para amplificar seu apelo comercial.

Se “Another’s Arms” é a falha tentativa de alocar a voz de Martin em uma concepção mais próxima da música ambient, “Oceans” traz um arranjo semi-acústico para tentar captar a atenção daquele fã das antigas. Inútil. É provável que aquele ouvinte que foi apresentado ao grupo através dos ótimos “Parachutes” e “A Rush of Blood to the Head” tenha desistido de “Ghost Stories” antes mesmo de seu fim. O que é ruim, visto que a última faixa, “O”, é não apenas a mais longa, mas a melhor canção do disco. Dentro deste conceito, é o melhor que o Coldplay poderia fazer.

Mas, afinal de contas, qual é a resposta para aquele questionamento um tanto quanto tolo que foi proferido no início deste texto? “A resposta está flutuando com o vento”, diria Bob Dylan. E ele teria razão. Como poderíamos responder alguma coisa? O Coldplay atual ora é uma tentativa falha de ser Bon Iver, ora é um projeto eletrônico altamente comercial, ora se resigna apenas aos versos chorosos de Chris Martin. Uma banda indecifrável, sem personalidade artística e com um futuro duvidoso – e inclusive, para muitos, um grupo que está morrendo por aqui.

NOTA: 2,5

Track List:

01. Always in My Head [03:36]

02. Magic [04:45]

03. Ink [03:48]

04. True Love [04:05]

05. Midnight [04:54]

06. Another’s Arms [03:54]

07. Oceans [05:21]

08. A Sky Full of Stars [04:28]

09. O [07:46]

2014: Nação Zumbi – Nação Zumbi

Nação Zumbi

Por: Renan Pereira

Nesse ano de 2014, fazem duas décadas que a banda Nação Zumbi, sob a liderança do visionário Chico Science, estremeceu os alicerces da música brasileira através do clássico álbum “Da Lama ao Caos”. E é bom perceber que, em vinte anos, a banda soube se reinventar e tocar a frente mesmo com a morte de Chico, ocorrida em 1997. Desde o disco “CSNZ”, lançado um ano após o trágico ocorrido, o que mais marcou conceitualmente a banda pernambucana foi a vontade de se superar, de crescer, de aprender através das feridas o que é ser um grupo completo e experiente.

Aos poucos, a lama e os caranguejos foram dando lugar a temas mais complexos, a intensidade dos elementos de percussão foi diminuindo, e a sonoridade envolvente passou a navegar para além dos mangues de Recife. Se “Da Lama ao Caos”, bem como o igualmente clássico “Afrociberdelia”, apontavam para uma direção musical totalmente nova, misturando a música regional de Pernambuco com o funk e diversas vertentes do rock, a Nação Zumbi, em sua nova fase, busca uma maior comunicação com os ouvintes de massa, trabalhando para que nossos ouvidos não sejam pegos com grandes surpresas.

Então aquele teor irrequieto dos primeiros trabalhos não existe mais? É possível dizer que, enquanto o som tornou-se mais polido, as letras conseguiram alcançar novas facetas, distantes da crítica social pregada pela mente insana do antigo líder. O que é totalmente compreensível: se, em seu início, a Nação Zumbi lutava pelo seu lugar ao sol, tentando dar uma nova cara à imutável cena nacional, agora a banda pode se gabar de seu espaço inquestionável. Tudo mudou, e muito… Obviamente, a proposta sonora da banda também deveria se transformar. Se você não quer viver tal mudança, é melhor ir atrás de passagens que te levem de volta para os anos noventa.

É claro que a percussão enlouquecedora faz falta, bem como o olhar crítico de Chico Science. A criatividade que entorna hoje em dia o som do conjunto não é nem sombra daquela de vinte anos atrás, e nas novas canções podem ser encontrados números tranquilos e/ou até mesmo românticos… E qual é o mal disso? Os integrantes do grupo andaram nos últimos tempos envolvidos em outros projetos, coletando novas referências, e o retorno da Nação Zumbi ao estúdio demorou tanto que teve até quem duvidou que ocorreria. Os tempos passam, as opiniões mudam, o passado fica para trás e o que nos resta é seguir em frente. Por mais que as marcas fiquem, o novo deve ser abraçado, como informa metaforicamente a primeira faixa do novo disco, “Cicatriz”.

A guitarra de Lúcio Maia insere a tensão necessária para a temática da segunda faixa, “Bala Perdida”, mas a produção e os versos não ajudam… A percussão pesada não cai bem na lentidão rítmica, e uma nova metaforização acaba soando como uma sobra conceitual d’O Rappa. “O Que Te Faz Rir” é um número curioso, ameno, mas que funciona com primor, ainda que a “testosterona” tradicionalmente imposta pelo vocal de Jorge Du Peixe se faça presente. Em suma, a Nação Zumbi não precisa abandonar sua personalidade para embarcar no trabalho mais sentimental de sua carreira.

A quarta, “Defeito Perfeito”, é uma boa demonstração da excelência da Nação Zumbi em criar seções rítmicas fantásticas, com grooves excitantes: em suma, uma música que agradará os ouvintes mais sedentos por inquietação sonora. Contando com a participação de Marisa Monte nos backing vocals, “A Melhor Hora da Praia” é aquele tipo de canção que, anos atrás, você jamais imaginaria a Nação Zumbi fazendo… Interessante como a evolução sentimental dos versos é capaz de levar a sonoridade a novos cenários, muito mais próximos da MPB do que propriamente ao manguebeat. Sobra até uma leve orquestração na quinta faixa, uma canção que poderia muito bem tocar nas rádios país afora… Assim como a balada “Um Sonho”, que apesar de pouco agregar, mostra uma Nação Zumbi que até então ignorávamos.

A sétima, “Novas Auroras”, parece condensar todo esse sentimento de abertura sonora pregada pelo disco… Afinal, ainda que nos álbuns sem Chico Science (e, principalmente, no clássico “Fome de Tudo”, de 2007), a banda já mostrava a clara intenção de ser um novo grupo, com uma nova toada, nunca esse conceito havia sido tão explorado quanto no presente registro. “Nunca Te Vi” pode ser uma prova de como, cuidadosamente, os marcantes arranjos de percussão da banda podem ser bem alocados dentro dessa sonoridade mais cadenciada e sentimental.

Tudo vai indo relativamente muito bem, mas… É obvio que algo está faltando. Surpreende que, logo em um momento de agitação social inédito para as novas gerações, a Nação Zumbi tenha abandonado o seu lado mais crítico. Não seria esse o momento ideal para o grupo apresentar, mais uma vez, seu olhar ácido sobre os acontecimentos que afligem a população? Talvez Du Peixe e seus companheiros estejam ainda dentro daquela inércia política que abatia o Brasil antes de junho de 2013 – até porque o processo de construção do novo disco havia se iniciado antes dos protestos que se espalharam pelo país. Um erro? Talvez esteja mais para um “menor acerto”.

Para não espantar seus ouvintes das antigas, a última trinca de faixas de “Nação Zumbi”, o disco, massageia os ouvidos daqueles que estavam ansiosos por canções pesadas, tomadas pelas antigas influências do conjunto. Riifs velozes, batidas furiosas e todo aquele sentimento inovador que permeava os primeiros registros do grupo dão o ar da graça em “Foi de Amor”, “Cuidado” e “Pegando Fogo” – mas a lírica, em contrapartida, está totalmente inserida nos conceitos atuais. Em suma, o desfecho do álbum marca o encontro da nova com a antiga Nação Zumbi.

Apesar de se comportar como um ponto de menor destaque dentro da discografia dos pernambucanos, “Nação Zumbi” se comporta como um necessário álbum de aprendizado. A banda não poderia passar toda a sua carreira cantando a lama dos manguezais do Recife, não é verdade? Além de passar por um momento de reflexão sonora, a Nação Zumbi nos convida a pensar sobre a importância das mudanças estéticas para o futuro de uma das mais importantes bandas do país. Assim, mesmo passando longe dos maiores êxitos do manguebeat, o presente registro contém, sem dúvida nenhuma, um válido resultado artístico.

NOTA: 7,0

Entrevista: Leo Cavalcanti

Por: Renan Pereira

Se você ainda não conhece Leo Cavalcanti, é bom prestar atenção à nova entrevista do RPblogging. Um dos novos nomes de destaque da música pop nacional, o músico se destaca através de uma base sonora dançante, inteligente e abrangente.

Filho de Péricles Cavalcanti, Leo já tem muitos anos de experiência com a música, mas lançou seu primeiro disco apenas em 2010. “Religar”, no fim das contas, se comporta apenas como um abre-alas para sua obra maior, o disco “Despertador”, lançado nesse ano e aclamado por diversos setores da imprensa (incluindo o RPblogging).

Aproveitando o recente lançamento do “Despertador” e a evidência que o nome de Leo Cavalcanti pleiteia na música nacional, tivemos o prazer de entrevistá-lo. Na entrevista, Leo nos contou um pouco sobre seu início, suas influências, sobre os conceitos de seus discos e seus planos para o futuro recente.

Você começou a compor ainda muito cedo, acredito que muito por influência caseira de seu pai, o também músico Péricles Cavalcanti. Mas quando você teve a certeza de que trabalhar com música era o que você queria para o seu futuro?

Comecei a compor na minha adolescência. As primeiras canções foram sobre os amores não-correspondidos na época. A certeza de querer trabalhar com música veio antes disso. Desde criança sonhava em ser um cantor, além de astronauta, pintor, arqueólogo, arquiteto… Sempre fui um sonhador desde criança.

Meu pai foi fundamental na minha formação musical, claro. Vi todo o processo criativo dele de pertinho. E ele que meu deu, quando eu tinha 9 anos, meu primeiro violão. Foi aí que tudo começou mesmo. Comecei a perceber que música é uma linguagem natural pra mim.

Com certeza, Péricles Cavalcanti foi a sua primeira influência musical. Porém, outros nomes também devem ter te inspirado em seus primeiros passos na música… Quem são esses artistas?

Meu pai com toda a sua bagagem musical, que não era pouca. Ouvíamos de tudo em casa: de música brasileira dos anos 30 à Michael Jackson. De Bach a Beatles. De Clementina de Jesus a Ella Fitgzerald. Além disso, como nasci dentro do meio musical, sempre fui a muitos shows desde pequeninho. As primeiras coisas que me pegaram mesmo foi o flamenco de Paco de Lucia, Michael Jackson, Beatles e Jackson do Pandeiro.

O seu primeiro disco, “Religar”, exibiu uma constante exploração dos elementos do tropicalismo. É muito interessante perceber que um movimento que emergiu lá nos distantes anos sessenta continua inspirando tantos e tantos novos artistas. É possível mensurar a importância de nomes como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil para a música brasileira?

Não considero que foram explorados em especial elementos tropicalistas neste disco – pelo menos não diretamente ou intencionalmente. É claro, ninguém que faça música no Brasil passou incólume pelo tropicalismo. É algo que influenciou a todos.

Mas vejo que “Religar” vai para outros lados. É um disco totalmente da era digital, feito de samples e batidas eletrônicas. Em termos de arranjos, creio que se direciona mais para o pop eletrônico do que pra chamada MPB. A música brasileira está mais presente na estrutura da composição – e é claro, no meu violão.

E é claro: imensurável a importância desses deuses da nossa música. Ela ainda está a se expandir, inclusive.

E como é ser elogiado por artistas do nível de Caetano, Arnaldo Antunes e Fernanda Takai? Seu ego fica massageado?

Eu fico muito feliz e honrado. São artistas que admiro profundamente. Mas não tenho vontade nenhuma e nem teria sentido ficar me gabando disso. Se “ego massageado” aqui significa algo que me estimula a continuar meu trabalho – e não “ego inflado” – então, sim. É um grande estímulo para continuar, ver meu trabalho sendo admirado por eles e principalmente pelo público.

Falando em massagem, você também já se embrenhou pelo yoga e pela massoterapia. Como essas atividades interferiram no seu modo de fazer música?

Interferiram profundamente. Musica é para mim um instrumento terapêutico. Um campo onde me conecto com o sagrado em mim. Esses estudos me abriram janelas. Sou apaixonado pela fonte de sabedoria que é o Yoga. Assim como massoterapia é um terreno de ferramentas poderosíssimas. Tenho grande curiosidade e admiração por ciências que visam a integração do ser humano em todos os seus níveis (físico, energético, emocional, intelectual e espiritual). O contato com esses estudos foram marcantes e firmou minha motivação com o fazer música.

Seu último disco, de lançamento ainda recente, é denominado “Despertador”, e traz o seu “despertar” para a música pop. Qual o motivo dessa mudança de direção, abraçando nuances sonoras mais modernas?

Não vejo exatamente como uma mudança de direção, mas sim como uma evolução natural. Meu trabalho, desde “Religar”, tem direcionamento dentro do universo da música Pop. Vejo que em “Despertador”, essa direção se consolida ainda mais – principalmente por esse disco ter uma unidade conceitual e sonora mais acentuada.

No “Religar”, foi o uso dos samples, do recurso de edição digital, que norteou o disco. No “Despertador”, o uso de sintetizadores. Nos últimos tempos, tenho ficado apaixonado pelas mil e uma possibilidades do sintetizador, e o poder delas. De possibilitar arranjos com pressão, ótimos para a pista (com os baixos synth) e também transcendentais, com um certo teor “espacial”.

Minha viagem para a Alemanha, antes de gravar o disco alimentou isso também. Ouvi música eletrônica nas rádios de lá. E adoro música pop em geral que utiliza sintetizadores, de Justin Timberlake a MGMT.

Tenho vontade de explorar muitas nuances sonoras e artísticas em geral, no meu caminho. É inevitável que cada trabalho traga algo particular do momento em que estou vivendo. Quero sempre me permitir mudar e transformar a sonoridade do meu trabalho.

“Despertador” é um disco bem comunicativo, a ponto de sua música ser denominada como “pop intergalático”. Como você define, afinal, esse pop que viaja além das fronteiras do nosso planeta?

Criei esse termo inicialmente como uma brincadeira, para quem perguntasse qual o gênero de música que faço (pergunta essa que fico sempre encabulado de responder): qual o tipo de música que vc faz? Como sei que nenhuma resposta convencional vai dar a informação, resolvi brincar com isso.

É música pop que aponta para mergulhos internos, para além dos fatos da vida cotidiana concretos. São exercícios filosóficos. Quando compus essas músicas, elas serviram para isso. Elas atuam num outro plano.

A sonoridade dos sintetizadores trazem um certo teor psicodélico e transcendental que resolvi identificar como “intergaláctico”.

Mas a música pop, além de se comunicar com o grande público, precisa fugir da redundância para ser artisticamente válida. Felizmente, a sua música se comporta muito bem quanto a inovações, com semelhanças à obra recente de nomes como Silva e St. Vincent. Esses dois artistas citados realmente foram fontes de inspiração de “Despertador”? Existem outros nomes da atualidade que te levam a tentar inovar?

Não, nenhum dos dois foram fonte de inspiração pro “Despertador”. Recentemente tenho escutado muito St. Vincent e estou absolutamente fã. Mas descobri recentemente, depois de gravar o disco “Despertador”. Silva, o mesmo, venho conhecendo melhor recentemente. A produção musical do trabalho dele é incrível.

Para mim, fazer música é um desafio onde sempre gosto de buscar o desconhecido. Traçar um caminho que não seja óbvio pra mim. Tudo o que ouço acaba fazendo parte disso. De música hindu tradicional ao R&B norte-americano.

Durante a gravação de “Despertador”, os meninos da banda estavam ouvindo muito Tame Impala. E eu fui apresentado durante a gravação e “abduzido” pelo som deles. Posso dizer que, se houve alguma banda que nos inspirou durante a gravação, foi essa.

No clipe de “Get a Heart”, você mostrou que sabe dançar e atuar. Mas o papel do artista, principalmente nos dias de hoje, em que a informação é rápida, fácil, e muito próxima do público, não pode se restringir apenas à arte… “Consciência política”, por exemplo, é um conceito com o qual você se importa?

Consciência política é algo imprescindível se você quer realmente lidar com a realidade de sua época. Não dá pra ignorar as estruturas decadentes e desequilibradas que norteiam nossa sociedade se você quer fazer um trabalho artístico realmente consistente.

Cada vez mais percebo que o que se chama de “arte” é algo tão amplo e potente, que fica difícil de limitar suas fronteiras. Percebo que inevitavelmente, quem faz arte, acaba se posicionando em outras áreas também, nem que seja de forma subjetiva, nem que não se pretenda fazer isso. Sua reverberação pode ser altamente transformadora, mudando todo o cenário a nossa volta. A arte atua no campo subjetivo, o que é fundamental para qualquer mudança objetiva que quisermos realizar.

Todos nós artistas somos, no fundo, ativistas. E é importante que, nesses tempos, possamos nos utilizar dessa virtude, cada vez mais.

Procuro me posicionar em tudo aquilo onde sinto propriedade em fazê-lo. Questões relativas a direitos humanos básicos e meio ambiente são assuntos que me envolvem e considero fundamentais. Mas ainda sinto que posso ir muito mais longe, no que tange esse assunto. Quero cada vez mais somar minha força a movimentos que considero ser realmente construtivos para a transformação dos velhos padrões limitantes que estão regendo ainda nossa sociedade.

Agora, depois de tanto trabalho para lançar o seu segundo disco, é hora de promovê-lo. “Despertador” terá a sua turnê pelo país? Reproduzir ao-vivo a salada sonora do álbum, com direito a muitos efeitos eletrônicos, é um desafio?

Estamos nesse desafio de criar oportunidades para o “Despertador” rodar o país o máximo possível. É o meu desejo tocar o máximo que der.

O show é o disco ampliado. Como o disco foi gravado quase todo ao vivo, não foi tão difícil trazer este resultado pro palco. Alguns arranjos mudaram e cresceram, ficou muito bom. Esse show é visualmente muito forte também. As projeções de imagens são protagonistas. Tem coreografia de dança no show, eu me expresso fortemente pela dança – e a ideia é cada vez mais trazer a dança pro meu trabalho. Eu diria que o show tem o aspecto intergaláctico do disco ainda mais acentuado. É uma experiência forte assisti-lo, isso eu posso afirmar.

Agradecemos imensamente a participação de Leo Cavalcanti. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “Despertador”, o novo álbum do músico.

Experimente: O sabor da Carne Doce

Por: Renan Pereira

Goiânia tem nos reservado, nos últimos tempos, gratas surpresas musicais… Não, caro leitor, este blog não se vendeu, pois não estamos falando de música sertaneja. Estamos citando, na verdade, projetos da maior qualidade musical. Afinal, até que enfim, o público começa a olhar para a música feita na capital do estado de Goiás com menos preconceito.

Pois bem, eis que, em um cenário repleto de grupos emergentes como Cambriana, Banda Uó, Boogarins e Black Drawing Chalk, surgem Macloys Aquino e Salma Jô com uma das bandas mais saborosas da atualidade: a Carne Doce. Surgido em 2012, o projeto traz na vida íntima do casal seu grande diferencial, portando-se como uma colaboração musical que vai além do “horário comercial”. Macloys e Salma dormem e acordam juntos, o que acaba tornando a Carne Doce um dos projetos mais sinceros do cenário atual.

Repleta de sonoridades setentistas, a banda lançou o seu primeiro EP, intitulado “Dos Namorados”, em abril de 2013. É tida atualmente, pela mídia especializada, como uma das grandes apostas musicais para esse ano, bem como planeja seu primeiro disco de longa duração, agora com a companhia de João Victor e Ricardo Machado. Enquanto aguardamos o primeiro disco da Carne Doce, conferimos a entrevista que a banda concedeu ao RPblogging. As repostas são da vocalista Salma Jô.

Quando surgiu a ideia de transformar o casal Macloys Aquino e Salma Jô em um projeto musical?

No final de 2012, quando ficamos sem bandas. Já éramos um casal há três anos, o Mac tocava na Mersault e a Máquina de Escrever e eu cantava numa banda setentista, a The Galo Power. A banda dele acabou e eu saí da minha. Não me recordo se quando mostrei a primeira letra já tínhamos em mente publicar esse projeto, mas em poucos meses a gente já tinha as canções do EP e outras.

Por que o nome “Carne Doce”?

Nós pensamos em vários nomes, vários mesmo. Um dia chegamos nessa combinação dessas duas palavras e gostamos demais. Não tem um sentido especial, mas gostamos. O contraste entre carne e doce lembra os contrastes que a gente busca, entre ser atrevido e cúmplice, pesado e suave, entre fazer um som mais pop e ao mesmo tempo estranho. Gostamos também dos sentidos que as pessoas acham pro nome. Já perguntaram se carne doce era carne de mulher, ou de gente, se tinha alguma relação com a nossa alimentação. Intrigar é uma coisa que nos agrada.

No primeiro EP da banda, denominado “Dos Namorados”, observa-se uma constante inspiração no tropicalismo e nas grandes bandas brasileiras dos anos setenta – uma toada que dá novamente as caras na última música lançada por vocês, “Sertão Urbano”. Esse é um ambiente sonoro que permeará o primeiro disco de longa duração da Carne Doce?

Chico, Caetano e Gil são referências mais fortes pra mim que Mutantes, Novos Baianos, Secos e Molhados. Numa entrevista recente, Andre Midani disse sobre como esse coquetel (Chico, Caetano e Gil) é um engodo, “um engodo feliz, mas um engodo”, e eu tenho ciência e estou trabalhando nisso (risos). Já o Mac tem uma pegada rock oitentista. O João Victor e o Ricardo tem referências muito ecléticas, embora pontuais na música brasileira… Mas não temos o tropicalismo como referência, apesar de gostarmos de ritmos brasileiros misturados com rock.

Quais foram os motivos que levaram às recentes entradas de João Victor e Ricardo Machado ao grupo?

Entre as últimas semanas de dezembro e as primeiras de janeiro deste ano, nos aproximamos do Benke e do Raphael, que são guitarrista e baixista da Boogarins e também da Luziluzia, uma das bandas mais interessantes da cidade. João Victor e Ricardo Machado são da Luziluzia e então nos encontramos, nos identificamos como banda e como amigos. Os ensaios fluíram demais, as músicas foram rearranjadas, realçadas, ganharam mais dinâmica, mais ritmo e tudo favoreceu a composição de músicas novas, que estarão em nosso primeiro álbum.

Goiânia tem evoluído musicalmente nos últimos anos – ao ponto da cidade deixar de ser apenas conhecida como um reduto de duplas sertanejas. Os Boogarins já estão fazendo shows lá fora, tiveram seu disco resenhado pela Pitchfork, a Black Drawing Chalks já é uma banda respeitadíssima no cenário musical, a Cambriana é uma das grandes promessas da música alternativa… A que vocês creditam essa crescente altamente positiva?

Tenho receio de dizer que isso é resultado de uma evolução musical e faltar o respeito com o talento das outras gerações e das limitações que enfrentaram.

Boogarins, Black Drawing Chalks, Cambriana, Hellbenders e mesmo Banda Uó, bandas que “estão na mídia” e fazendo sucesso, trabalharam para isso, capricharam nos seus produtos, fizeram bons trabalhos de assessoria e marketing, e tiraram proveito das ferramentas que temos hoje mais à mão, de softwares de gravação às redes sociais. Os Boogarins, por exemplo, já eram grandes quando a imprensa nacional acordou para isso, e eles tem a favor deles o interesse dos estrangeiros na psicodelia e na canção brasileira, mas foi preciso a competência e a ousadia em gravar e distribuir sua música.

Falando em Boogarins, vocês têm feito alguns sons com eles nos últimos meses… Como é trabalhar com esses caras, que cresceram de uma forma tão meteórica, e hoje formam uma das bandas mais hypadas do Brasil?

A gente até gostaria de dizer que fizemos uns sons com o Boogarins, que trabalhamos juntos, mas a verdade é que só colaboramos em “Benzin”, uma canção do Dinho, que eles publicaram recentemente através do “Is Your Clam in a Jam?”.

No final do ano passado e começo deste 2014, ficamos muito próximos do Benke e do Dinho (guitarrista e vocalista do Boogarins). Passamos algumas tardes juntos conversando sobre os nossos planos, improvisando, mostrando o que tanto nós como eles estavam fazendo, experimentando músicas do Carne Doce e essa “Benzin”, aprendendo muito, e de brincadeira, entre laricas e banhos de piscina.

Aí nos aproximamos do Raphael (baixista), e nos apaixonamos por ele também. Benke, Dinho, Raphael e Hans, eles estão hypados, mas são, antes disso, muito tranquilos, humildes, amigos, generosos, divertidos, boa gente mesmo.

Não sei se vamos trabalhar juntos ainda, não sabemos quão grandes serão os Boogarins, se a agenda deles vai deixar, mas adoraríamos. Nossa rápida experiência com eles já nos fez muito bem.

Momento invasão de privacidade: mas afinal, quem manda na banda: o Macloys ou a Salma? E em casa?

A casa se confunde com a banda, porque estamos sempre pensando nas músicas, shows ou produções na hora de comer, de deitar. E também porque ensaiamos em casa, os meninos estão sempre aqui… Mas “mandar” me parece uma palavra injusta, porque a gente decide em conjunto, na banda e em casa.

Há já alguma definição de data de lançamento do primeiro disco do projeto?

Ainda não. Mas vamos começar a gravar em julho.

Como vocês definem o seu som?

Não definimos e já estamos tranquilos com não saber definir, queremos saber é como você define nosso som. Mas, se insistir, a gente pode responder como a Trupe Chá de Boldo: “o som é só uma onda… curta”, hehehe.

2014: Indie Cindy – Pixies

Indie Cindy

Por: Renan Pereira

O quinto disco dos Pixies: um lançamento que, anos atrás, parecia tão improvável quanto um novo álbum do Johnny Cash. Mas o mundo da música, felizmente, costuma pregar surpresas naqueles ouvintes que insistem em sepultar artistas que envelheceram… David Bowie sendo aclamado por um novo trabalho? Leonard Cohen produzindo um dos discos mais coesos de sua carreira? Michael Gira alcançando seu ápice artístico aos sessenta anos? Se tudo isso vem acontecendo, o ouvinte esperto jamais duvidará das capacidades de um veterano.

E quando as inúmeras décadas vividas englobam Black Francis, David Lovering e Joey Santiago? O resultado tende a ser, no mínimo, bem curioso. É estranho acompanhar os Pixies dando à luz a seu quinto trabalho vinte e três anos depois de seu antecessor, o disco “Trompe le Monde”, ainda mais sem a marcante presença de Kim Deal, que abandonou a banda para investir em sua carreira solo. Mais estranho ainda é perceber que, “Indie Cindy”, tido como um disco novo, é, na verdade, nada mais do que a compilação dos três últimos EP’s do grupo, lançados ao longo dos últimos nove meses… É como se o novo trabalho necessitasse de um tempo de gestação para nascer com forças suficientes para sobreviver. Pois, no fim das contas, “Indie Cindy” tem a capacidade de viver, mesmo que seja na incubadora, com o auxílio de aparelhos…

Podemos dizer que esses “aparelhos” tem como fonte de energia o passado glorioso que os Pixies carregam. Autores de uma das mais influentes discografias da história da música, o quarteto de Boston se elevou à glória não apenas pela altíssima qualidade de suas canções, mas devido à sua intensa e recorrente preocupação em inovar. Lá em 1987, Kim Deal experimentava seu vocal em diversos cômodos do estúdio (procurando alcançar o perfeito eco natural), enquanto Black Francis investia em todos os tipos possíveis de distorção, e Joey Santiago disparava sujeira para todos os lados… Bastam poucos fatos para que não seja nada difícil perceber porque os Pixies foram rotulados de “salvadores do rock”, em uma época em que os excessos do hard rock e do new wave ditavam os rumos da música comercial.

Já hoje, em 2014, mesmo com o seu prestígio inalterado, o grupo não consegue trazer a um novo público a mesma aura atraente de vinte e tantos anos atrás. Isso é compreensível? É claro, pois o tempo é um adversário que, no fim das contas, ninguém consegue derrotar. Eles envelheceram, estão agora em uma época totalmente diferente, e os desejos do público não são mais os mesmos. Obviamente, ninguém espera ver dinossauros do rock reinventando a roda mais de duas décadas depois de viver o seu ápice artístico, ainda mais se lavarmos em consideração um conjunto que ficou tanto tempo sem trabalhar em estúdio… Mas músicas de alta qualidade é um desejo geral que nunca deixaremos de ter – e, para nossa infelicidade, é aí que “Indie Cindy” derrapa.

Entretanto, existem algumas faixas divertidas. Se você der o play na primeira faixa, “What Goes Boom”, se sentirá de volta ao fim dos anos oitenta, com uma canção que poderia muito bem ter feito parte do set list dos velhos discos dos Pixies: um turbilhão de guitarras, uma boa melodia e um teor energético formam uma base que parece acariciar os ouvidos dos fãs das antigas. Pule para a quarta faixa e você poderá matar a saudade de Francis, Lovering e Santiago pautando seus lançamentos na busca de novos elementos, mesmo que isso possa resultar em uma estrutura sonora pra lá de estranha… A sétima, “Blue Eyed Hexe”, não chega a ser um primor, mas consegue provar que esses tiozinhos de 50 anos ainda tem energia pra colocar na fogueira.

Há, além disso, bons momentos de pura nostalgia: “Another Toe in the Ocean” parece ser uma ode ao rock do início dos anos noventa, fazendo com que o ouvinte chegue até mesmo a sentir o cheiro que envolvia aqueles anos; “Jamie Bravo”, a faixa final, tem um riff inicial fantástico, soando clássica, e fazendo-nos recordar dos momentos mais inspirados da banda… Canções que mostram que, mesmo em um mundo tão distante do oitentista, os veteranos Pixies ainda podem ser relevantes.

Então, onde estão as derrapadas? Basicamente, em todas as músicas ainda não citadas. Quando brinca com estruturas semi-acústicas, por exemplo, a banda transparece sinais de cansaço ao errar no que a grande maioria das bandas ditas “alternativas” pautam suas bases sonoras: canções inofensivas, que soam como trilha-sonora para elevadores… Esses são os casos de “Greens and Blues” e “Ring the Bell”, baladas sem-graça que poderiam ter sido compostas por um grupo chato, como o Travis, e não por uma das maiores bandas da história. Há ainda aqueles momentos em que as canções parecem não ter rumo, como é marcante na décima faixa, “Andro Queen”.

“Magdalena 318”, “Silver Snail”, “Snakes” e a faixa-título são canções que não conseguem dizer porque se fazem presentes no registro… Números pouco atraentes, monótonos e óbvios que podem fazer com que a atenção do ouvinte se disperse, e o tão esperado retorno dos Pixies acabe se tornando um fato muito aquém das expectativas.

Sim, “Indie Cindy” não é um grande álbum de retorno. Somando-se os prós e os contras, o que se vê é um trabalho banal, com poucas faixas que lembram a qualidade extrema que os Pixies alcançaram lá na virada das décadas de oitenta e noventa. Visivelmente, o disco acaba soando deslocado, tanto cronologicamente quanto conceitualmente, e deixa dúvidas quanto à qualidade dos futuros trabalhos da banda, se é que eles existirão. Mas há um porém que deve ser destacado: é óbvio que eles não desaprenderam. Muitos agora vão abandonar os Pixies, rotulando-os de artisticamente aposentados, e é aí que a surpresa pode morar: o novo registro da banda pode até ter poucas faixas atraentes, mas nestas o grupo mostra que ainda sabe como compor ótimas canções. Esperemos, portanto, um trabalho à altura dos Pixies nos próximos anos.

NOTA: 5,9

Track List:

01. What Goes Boom [03:32]

02. Greens and Blues [03:46]

03. Indie Cindy [04:41]

04. Bagboy [04:52]

05. Magdalena 318 [03:26]

06. Silver Snail [03:29]

07. Blue Eyed Hexe [03:11]

08. Ring the Bell [03:34]

09. Another Toe in the Ocean [03:46]

10. Andro Queen [03:23]

11. Snakes [03:45]

12. Jaime Bravo [04:24]

2014: De Lá Não Ando Só – Transmissor

De Lá Não Ando Só

Por: Renan Pereira

Se evoluir é um exercício pelo qual devemos pautar nossa existência, os mineiros do Transmissor têm muito o que ensinar. Fazendo de seu terceiro disco, “De Lá Não Ando Só”, um grande e nítido acumulado de vivências e novas experiências, a banda extrapola toda e qualquer expectativa, independente de sua extensão, para construir uma obra pautada na evolução. É como se o já maduro “Nacional”, de 2012, se comportasse apenas como um ensaio para o disco que agora temos em mãos.

Embora siga uma linha sonora explícita, “De Lá Não Ando Só” é um grande agregador de novas nuances à musicalidade do Transmissor. Ainda que a mistura do pop rock dos anos 2000 com as heranças setentistas do Clube da Esquina continue formando a base sonora do grupo, Pedro Hamdan, Daniel Debarry, Henrique Matheus, Jennifer Souza, Thiago Corrêa e Leonardo Marques encaram novos caminhos de uma velha paisagem. Todo o teor poético não está somente mantido, como se mostra melhor resolvido, encontrando na interação com uma forte base instrumental o seu maior exercício de expansão ao ouvinte. As belas melodias também se fazem presentes mais uma vez, porém acompanhadas por arranjos mais ricos em detalhes e complexidades. Não, o Transmissor não deixou de falar simples… Apenas aumentou o seu tom, que agora pode ser ouvido com maior nitidez.

Desejando não fazer do novo álbum um simples “mais do mesmo”, a banda mostra acerto ao flertar com “novos” aspectos do rock. Há um acumulado muito maior de referências em comparação aos trabalhos anteriores: se antes o grupo se mostrava satisfeito em refletir a sonoridade que fez o conjunto nascer e crescer como unidade, agora eles parecem querer superar a si próprios, absorvendo uma nova gama de texturas, características dos anos oitenta e noventa… Isso, claramente, torna a estrutura sonora mais poderosa e comunicativa.

O início do disco, porém, parece ser muito mais uma extensão do que já havia sido apresentado no álbum anterior: “Queima o Sol”, a faixa de abertura, parte dos conceitos de “Nacional” para soar agradável e classuda, um pop rock melódico com a leveza característica da música mineira. Já na segunda faixa, “Só Um”, o ouvinte é apresentado aos arranjos nitidamente evoluídos, que aumentam a comunicação das guitarras com o ouvinte… Afinal, ainda que os teclados atraiam, e as performances do baterista Pedro Hamdan se mostrem colossais, são as linhas de guitarra que dão ao trabalho o seu grande diferencial.

É claro que os vocais também formam um destaque positivo: doces, massageando nossos ouvidos, se comportam com perfeição durante todo o registro, ainda que dividido entre Jennifer, Leonardo e Thiago. É a moça que lindamente canta a terceira faixa, a simples, porém bela, “25 Horas por Dia”. “Todos Vocês” brinca com uma estrutura repleta de grooves inteligentes, mas é a primorosa letra que se destaca: “A verdade nunca foi à sua casa, pra bater à porta, pedindo pra entrar. Nesse tempo as coisas são tão diferentes, e o frio que há na gente, já pede pra ficar“. Profundo e bonito.

“Mais Quente do que Quis” é uma daquelas faixas que tem tudo para ser um grande hit, mas que, infelizmente, provavelmente será deixada de lado por nossas rádios tão preocupadas em banalidades. Tudo vai soando muito bem, não? O ápice, contudo, é atingido na bonita melancolia de “Nessas Horas”, que comprova todo o crescimento da banda: embebida em arranjos elegantes, que se comunicam com o rock progressivo, a faixa parece ser a mostra perfeita dos novos rumos sonoros do sexteto, que agora abraça texturas obscuras, de maior complexidade. A próxima, “Nada pra Te Devolver”, trata de seguir a mesma linha, com o grupo acertando em cheio no alvo mais uma vez.

“Retiro” contém flertes eletrônicos, que assentam muito bem a letra composta por versos curtos que é amparada pelo bonito vocal de Jennifer Souza. A musicista, aliás, parece encontrar um espaço maior dentro da banda com o novo disco: isso se deve ao teor democrático pelo qual o trabalho foi bordado, em que todos os membros do grupo colaboraram com quase igual importância. A nona faixa, que dá nome ao álbum, é um bom número pop que, pelo clima suave e melancólico, pode ser comparada às canções de Silva.

Na décima faixa, a banda brinca até mesmo com a aceitabilidade do público ao nomeá-la de “O que Você Quer Ouvir” – e não é que a música é, no fim das contas, justamente isso? Em “Canso a Cabeça” somos novamente apresentados a uma nova faceta do grupo, em que guitarras pesadas são o norte da canção… Uma densidade que se repete na apoteótica “Casa Branca”, que atesta o amadurecimento da banda a partir de uma ideia: consistência.

Mesmo pautando seu trabalho na linearidade sonora, em nenhum momento o Transmissor faz de “De Lá Não Ando Só” um registro capaz de enjoar o ouvinte. A toada aqui, na verdade, vai justamente no sentido contrário: as pontuais evoluções são alocadas com tanta inteligência que nos prendemos interessados do início ao fim da obra. Um grande disco, candidatíssimo a um dos melhores do ano, e o mais completo trabalho que o Transmissor já produziu. Será que alguém ainda pretende se embaraçar ao citar Skank, Pato Fu ou Jota Quest? O posto de melhor banda mineira da atualidade já tem dono… e ele é dividido, em partes iguais, entre os seis integrantes do Transmissor.

NOTA: 8,5

1979: Rita Lee – Rita Lee

Rita Lee (1979)

Por: Renan Pereira

No final dos anos setenta, Rita Lee já era uma pop star, embora até mesmo o conceito de “música pop” ainda fosse um pouco incerto. Se postando desde os últimos anos da década de sessenta como uma das principais vozes femininas da música brasileira, quando fez parte do revolucionário movimento tropicalista enquanto integrante do lendário grupo Os Mutantes, a paulistana sempre foi uma estrela de brilho inegável, uma figura intrigante, revolucionária e inteligente. Portanto, nunca foi surpreendente vê-la a frente de seu tempo.

Como todos sabem, assim foi enquanto ela teve a companhia de Sérgio Dias, do produtor Liminha e de seu antigo marido, Arnaldo Baptista, na banda mais revolucionária do rock tupiniquim. Mas a relação extremamente conturbada com o companheiro, que detinha uma conhecida personalidade auto-destrutiva, foi criando, de forma clara, um prazo de validade quanto à presença de Rita no conjunto. A própria incapacidade dos Mutantes em fazer de “Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida” um registro assinado pelo conjunto serviu para que o público visualizasse que, uma hora ou hora, Rita Lee seria chutada da banda. O fato é que, em 1972, a banda encontrava-se ansiosa para gravar um novo disco, aproveitando a chegada no Brasil da mesa de gravação de 16 canais; mas, por contrato, o grupo não poderia lançar mais nenhum disco naquele ano. O jeito foi lançar o disco creditando-a a Rita Lee, que era uma moça bonita e, por isso, a figura mais “vendável” da banda… No fim, a fama de Rita se elevou a um ponto que não cabia mais no conjunto.

Naquele mesmo ano, de forma controversa, Rita saía do grupo, ao mesmo tempo em que se divorciava de Arnaldo Baptista. Seu primeiro esforço verdadeiramente fora dos Mutantes ocorreria em 1973, em parceria com Lucia Thurnbull no duo As Calibrinas do Éden – que acabou se tornando, na realidade, no embrião do que viria a ser o grupo Tutti Frutti. Nele, Rita pôde finalmente ditar todas as rédeas da carreira, flertando intensamente com a música radiofônica… Se Sérgio Dias e seus novos mutantes passaram a investir em um rock virtuoso e chato, Rita Lee soube utilizar de forma magistral o seu carisma para se tornar um sucesso ainda maior entre o público de massa.

Em 1975, com o lançamento de “Fruto Proibido”, o segundo disco do Tutti Frutti, Rita Lee alcançava sua consagração como artista. As grandes conquistas pessoais, porém, viriam nos dois anos seguintes, quando casou-se com o músico Roberto de Carvalho e deu a luz a seu primeiro filho, respectivamente. Em contrapartida, a presença incisiva de seu novo marido como “guru” do Tutti Frutti acabaria partindo a banda em dois pedaços em 1978: como o nome da banda pertencia a Luis Sérgio Carlini, Rita Lee foi forçada a uma nova mudança.

Mas, dessa vez, tudo parecia ocorrer de uma maneira muito natural. Já experiente, e tendo o apoio total de Roberto de Carvalho, Rita pôde traçar essa nova empreitada com mais tranquilidade, buscando comprovar sua hibridez. Com isso, em 79, lança-se o disco “Rita Lee”, o primeiro trabalho genuinamente solo da artista. Nele, a cantora tratou de se reinventar mais uma vez: surpreendentemente, as bases sonoras do Tutti Frutti, que tanto haviam sido louvadas, acabaram sendo deixadas de lado em nome de um novo estilo, com fortes influências na música que era feita naquela época lá nas terras do Tio Sam.

Como a primeira faixa, a convidativa “Chega Mais”, já anunciava, a levada era diferente: dançante, leve e nitidamente próxima dos anseios do público da época. Se os brasileiros queriam uma extensão genuína das evoluções da música disco, Rita Lee estava entregando, logo na primeira faixa, o maior dos presentes: um grande convite à festa, envolto por uma bateria swingada e uma forte presença de teclados. Deixar passar em branco a performance de Roberto de Carvalho na guitarra também seria um pecado, pois sua qualidade rítmica poderia fazer inveja a qualquer Nile Rodgers.

A segunda, “Papai me Empresta o Carro”, apesar de conter arranjos mais próximos do que Rita e Roberto faziam no Tutti Frutti, com um andamento mais próximo do rock, é uma grande antecipação do conceito bem-humorado que envolveria o gênero nos primeiros anos, assim como o hit “Meu Doce Vampiro”, com seu viés romântico e seus flertes com o R&B, parecia servir como norte para o trabalho que artistas como Biafra, Dalto, Gal Costa e Marina Lima desenvolveriam algum tempo depois. Assim, embora estivesse ruminando sons característicos do fim dos anos setenta, Rita Lee estava inaugurando a década de oitenta para a música brasileira.

Com uma letra crítica quanto à rotina, a quarta, “Corre-Corre” posta-se como um primor rítmico, uma faixa deliciosamente dançante que poderia muito bem se encaixar na extensão do último disco do Daft Punk, “Random Access Memories”, tido hoje em dia como um “álbum moderno”. Era a faceta inovadora de Rita Lee agindo novamente, algo que o grande sucesso alcançado pela faixa “Mania de Você” consegue comprovar com nitidez.

A base sonora de “Elvira Pagã”, a seguinte, não acompanha o nível das demais faixas do disco, mas os versos sarcásticos de Rita Lee acabam compensando a falta de qualidade do instrumental. Falando da capacidade lírica de Rita, a sétima, “Maria Mole”, escrita em parceria com o produtor Guto Graça Melo, é mais um divertido número que comprova o bom-humor insuperável da cantora: propositalmente suave até mesmo nos arranjos, a canção se comporta como um verdadeiro tratado sobre a extrema preguiça.

É bem provável que a nova geração, que hoje vê em Rita Lee uma velhinha maluca e bipolar, não tenha conhecimento do ativismo da cantora em prol da renovação da sempre tendenciosa MPB – que, no término dos anos setenta, vivia tempos nebulosos. Motivada por sua polêmica prisão por porte de maconha (tida na época como um dos atos mais truculentos da ditadura militar), a musicista compôs em parceria com Paulo Coelho, em 1976, a crítica “Arrombou a Festa”, que claramente ironizava os rumos da música popular brasileira. Em 79, motivada por um cenário envolto por nomes horrendos como Sidney Magal, Rita compôs uma “segunda parte” para o single, que acabou fechando o seu verdadeiro primeiro álbum em carreira solo de forma magistral.

Nos dois anos seguintes, seriam lançados os dois últimos grandes álbuns de Rita, que viria a cair em um declínio abissal, resultando na artista praticamente insignificante que ela é hoje em dia. Porém, como nunca podemos nos prender apenas ao presente, deixar de louvar a contribuição de Rita para a música brasileira seria de uma ignorância incrível, negando que é o passado que nos construiu. A década de oitenta foi sim muito importante, e, no Brasil, foi Rita Lee quem a iniciou.

NOTA: 8,4