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2014: G I R L – Pharrell Williams

Por: Renan Pereira

É muito normal que, de tempos em tempos, surjam novas estrelas da música. Às vezes elas surgem do nada, sem avisar, nos pegando de calças curtas… Noutras, em que o crescimento é progressivo, podemos acompanhar com nitidez o processo mais comum que envolve o nascimento de um novo sucesso da música popular. A presente fama de Pharrell Williams pode até estar associada a este segundo caso, mas tudo que envolve a popularização de seu nome deve ser considerada sob a ótica de que ele não precisou lançar nenhum disco para se tornar um músico famoso. É até engraçado observar que “In My Mind”, que até alguns dias atrás era o único exemplar da discografia solo de Pharrell, é, na realidade, o capítulo mais obscuro da carreira do produtor.

De certa forma, o desabrochar de Pharrell Williams mostra com clareza que, atualmente, o coletivo está se sobrepondo ao individual. Se os grandes êxitos nunca foram alcançados por quem decidiu andar na solidão, agora esta tônica parece se apresentar ainda mais relevante. Em suma, não é presunçoso afirmar que o produtor californiano seria apenas mais um músico perdido na multidão sem suas colaborações com outros artistas da música pop… A fama de Pharrell não veio de suas próprias canções, mas de suas aclamadas participações em trabalhos coletivos.

Mas também não podemos levar essa questão ao extremo, e dizer que Pharrell só é o músico respeitado que hoje é hoje em dia em função de sua contundente participação no premiado último disco do Daft Punk, “Random Access Memories” – ou, sendo ainda mais extremista, porque ele emprestou sua voz ao grande hit “Get Lucky”. Embora restrito muitas vezes aos bastidores, o crescimento do produtor ao longo dos últimos anos foi se tornando perceptível… Da parceria com Chad Hugo no The Neptunes, na banda N.E.R.D., chegando à produção de álbuns de Justin Timberlake, Jay-Z, John Legend, Frank Ocean e Daft Punk, tudo agora parece apontar, enfim, para “G I R L”, o primeiro trabalho solo de Pharrell a ser tratado com evidência.

É verdade que não dá para negar que o álbum está recheado de participações, mas pela primeira vez em muitos anos, Pharrell tem a oportunidade de trabalhar ditando todas as regras. Um exercício individual que se torna nítido logo no início do disco, com o surgimento luxuoso de “Marilyn Monroe”, a primeira faixa; embebida em uma produção caprichadíssima, a canção conquista os ouvintes sem grandes dificuldades através de seu ritmo cativante, que permeia todo um teor harmônico e sensual.

Porém, ao se embrenhar na continuação do disco, o ouvinte é desapontado por canções que não conseguem cumprir a promessa de um grande trabalho. Mostrando que o disco não estava sendo planejado, e que seu lançamento se deve muito à pressão que o músico vinha enfrentando para que sua recente fama fosse melhor aproveitada, “G I R L” se esparrama em faixas que, unidas, não conseguem significar muita coisa. Há o que parece ser sobras de estúdio de outros trabalhos, canções não amadurecidas e números incluídos somente para encher um set list, não existindo nenhum ponto de convergência.

Se a segunda faixa, “Brand New”, soa como uma faixa não aproveitada do último trabalho de Justin Timberlake, a quinta, “Gust of Wind”, parece ser uma sobra de “Random Access Memories”. A parceria de Pharrell com Miley Cyrus em “Come It Get Bea” resulta em uma música tão ruim que não seria nada surpreendente vê-la na extensão de “Bangerz”, e apenas quando se encontra com Alicia Keys é que o produtor consegue fazer de uma faixa colaborativa de seu novo disco um número a ser destacado: “Know Who You Are” consegue unir as obsessões dos dois músicos em relação ao R&B com grande acerto, estacionando em uma concepção habitual, bastante tradicional, porém sublime.

Das canções “solitárias” do disco, poucas também merecem um destaque positivo. Faixas como a funk “Hunter” e a estranha “Lost Queen” se perdem em estruturas pouco dinâmicas, mostrando até mesmo a pressa com a qual o disco foi bordado… É como se os executivos da Sony tivessem pedido a Pharrell para reunir canções para compor um disco de um dia para o outro, e o produtor simplesmente recolhesse sem muito cuidado alguns rascunhos de sua gaveta.

Mas se o recheio não é lá muito atraente, pelo menos os extremos do disco devem ser saboreados: tão assertiva quanto a primeira faixa, a última, “It Girl”, mergulha em R&B delicioso, que até consegue lembrar-nos dos momentos mais suaves da carreira de Stevie Wonder. Mas espera aí, e “Happy”? É uma canção deliciosa, um hit poderoso e perdeu injustamente o prêmio de “melhor canção original” na última edição do Oscar… mas sua presença no disco não é muito relevante; trata-se de uma decisão comercialmente óbvia, é verdade, mas a canção somente consegue encontrar seu real significado como trilha do filme “Meu Malvado Favorito 2”.

Porém, convenhamos que uma boa música, mesmo que não consiga se encaixar muito bem, é melhor do que a presença de uma canção de má qualidade, não é verdade? Pois o mesmo acontece com a quarta faixa, “Gush”, outro R&B bem-resolvido que mostra em qual terreno Pharrell Williams se sente mais à vontade: um ponto que o músico deveria considerar para o seu próximo trabalho. É melhor atirar em um alvo com precisão do que errar tiros dados para todos os lados.

Até porque, no fim, o que marca em “G I R L” é a sua inconsistência: um disco que não consegue manejar com competência até as suas melhores faixas. Porém, temos que admitir que se trata de um trabalho com boas ideias, com alguns singles de potencial e contando com a batuta de um artista que consegue mostrar sua qualidade… adjetivos comuns para um trabalho que, melhor amadurecido, poderia render ótimos frutos. De fato, a pressa acabou consumindo os rumos sonoros de “G I R L”, deixando até mesmo dúvidas sobre a forma com que Pharrell Williams conduz a sua carreira. Hoje ele é inegavelmente uma estrela, mas somente com trabalhos contundentes o prazo de validade de seu brilho pode ser estendido. E apesar de ser um dos produtores mais requisitados da atualidade, ele ainda não sabe, pelo jeito, o que fazer de sua carreira solo.

NOTA: 6,0

Track List:

01. Marilyn Monroe [05:51]

02. Brand New [04:31]

03. Hunter [04:00]

04. Gush [03:54]

05. Happy [03:53]

06. Come Get It Bea [03:21]

07. Gust of Wind [04:45]

08. Lost Queen [07:56]

09. Know Who You Are [03:56]

10. It Girl [04:47]

2013: Beyoncé – Beyoncé

Beyoncé

Por: Renan Pereira

Era inevitável que, após lançar de surpresa o seu tão aguardado quinto álbum, e bem no apagar das luzes de 2013, Beyoncé se tornaria a cantora mais falada desse início de 2014. Aproveitando o seu ápice artístico e toda a fama que acumulou nesses últimos anos, a artista resolveu investir de forma incisiva no que é, provavelmente, o grande pilar da música pop: a imagem. Considerado pela própria cantora como um “álbum visual”, seu novo disco, auto-intitulado, procura condensar uma carreira inteira de referências musicais em prol de uma união completa entre sons e imagens.

Batidas, melodias e harmonias são muito mais do que “sons”. A música sempre foi responsável por inserir em seus ouvintes as mais diferentes percepções, em um exercício muito mais sinestésico do que simplesmente auditivo. E dentro dessas percepções está incluída, obviamente, a visual. É claro que sempre vai haver gente chata dizendo que a imagem não é algo com que o artista deva se preocupar. Lamento informar, mas quem pensa dessa forma não entende nada de música ou não consegue se conformar com a passagem dos anos.

A música, e principalmente a dita “pop”, sempre foi visual. Pensemos rapidamente naquele disco considerado o melhor de todos os tempos do gênero, e já lembraremos de Michael Jackson dançando com zumbis no vídeo de “Thriller”. Se pensarmos em uma mulher importante para a música pop, pensaremos em Madonna, e se falarmos de seu auge artístico lembraremos de “Like a Prayer” e todo aquele conjunto de imagens que chocou a igreja católica. Não adianta: quem se embrenha na música popular terá que lidar, inconscientemente, com questões que vão muito além do som.

Sendo um dos nomes mais importantes da música atual, Beyoncé percebeu que esse mundo em que as mídias estão cada vez mais interativas seria um prato cheio para o lançamento de um disco que une sensações sonoras e visuais. Cada música tem o seu vídeo, e para que o disco seja entendido em sua plenitude não bata ouvi-lo… é necessário vê-lo.

Um conceito que acabou exigindo uma produção caprichadíssima. Para que as imagens pudessem se interagir perfeitamente com as músicas, um teor mais atmosférico foi exigido. Para tanto, Beyoncé caprichou ao recrutar um fantástico time de produtores, que contém inclusive outros nomes famosos da música pop, como Timbaland, Pharrell Williams e Justin Timberlake.

E o disco visual se inicia posicionando-se quanto à ditadura da beleza; segundo a própria Beyoncé, “Pretty Hurts” é uma advertência sobre os perigos da desenfreada busca pelo corpo perfeito. Eis aí um ponto de destaque do disco, que soa praticamente inédito dentro da discografia da artista… Experiente, Beyoncé vê a oportunidade de investir também em temas polêmicos. Algo que é explorado com veemência lá pelo final do disco, quando a fenomenal “Flawless” discute os direitos das mulheres, contando até com um discurso da escritora e ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche.

Mas o álbum, apesar de conter conceitos que inserem novos aspectos à carreira de Beyoncé, também trata de acrescentar à sua estrutura atmosférica revisitações aos discos anteriores da cantora. A poderosa “Drunk in Love” não somente revive a parceria de sucesso com o maridão Jay-Z de “Crazy in Love”, como surge se caracterizando como uma “versão amadurecida” do primeiro hit de Beyoncé em carreira solo. “Blow” se agarra nas referências oitentistas que já haviam ocupado o álbum “4”, enquanto a sétima faixa, “Jealous”, parece reviver o R&B altamente comercial que ocupou o terceiro e premiado disco da artista, “I Am… Sasha Fierce”. Tudo, porém, flui naturalmente, sem que as revitalizações sonoras soem aproveitadoras. Afinal, isso também faz parte do show, pois em seu novo disco, Beyoncé é, mais do que nunca… ela mesma.

Mas o que fala mais alto nesse disco são os sentimentos, afinal, nunca a cantora havia os explorado com tamanha maestria. Seja na estrutura dinâmica e futurista de “Haunted” ou em vias mais tradicionais, como as de “Rocket”, Beyoncé não nega a seus ouvintes o compartilhamento de suas mais íntimas emoções. Até quando ela se propõe a seduzir, como na extremamente sensual “Partition”, as coisas soam sinceras, e não uma simples apelação. É a parte visual da música falando alto.

Mas há de se dizer que o disco não é apenas Beyoncé, passando, na verdade, muito longe disso. Por trás das acertadas ideias da artista há um batalhão de colaboradores que fazem com que elas aconteçam da melhor forma. Em “Mine”, o rapper canadense Drake acaba ajudando (e muito) ao fazer da faixa uma das melhores colaborações dos últimos tempos, enquanto Frank Ocean implementa muitos dos conceitos de “Channel Orange” na subsequente, “Superpower”. Da mesma forma, o produtor Boots torna “No Angel”, a quinta faixa, em algo muito além do R&B comum com que ela poderia se caracterizar. Isso diminui os méritos de Beyoncé? Não, muito pelo contrário… Saber com quem andar é sempre um ponto positivo a ser considerado.

Sabendo onde pisar, Beyoncé abandona as inseguranças de outrora e exala confiança, a ponto de produzir algumas de suas melhores (quiçá as melhores) canções até o presente momento. E isso acontece quando os sentimentos de uma mãe de família são colocados acima de tudo. Fazendo da recente maternidade um tema relevante, ela brinca com a “participação especial” de sua filhinha na faixa final, “Blue”, e canta o amor de forma suave, como em “Heaven”, ou escancarando todo o poder que detém em suas mãos – caso de “XO”, a melhor canção do disco.

Por ser um disco que revela percepções muito íntimas de Beyoncé, o presente registro é um trabalho dedicado à família. Ao perceber que o bem-sucedido matrimônio e o nascimento de Blue Ivy fizeram a cantora evoluir não só como pessoa, mas também como artista, fica claro, mais uma vez, que a família é a base de todas as conquistas pessoais. Mesmo quem deseja fazer um grande disco de música pop precisa contar com o carinho e o apoio das pessoas a quem ama… E encontrando uma base sólida, tendo todas as condições de fazer o melhor trabalho possível, Beyoncé fez de seu último disco não “apenas” um ótimo registro audiovisual, mas o melhor álbum de sua carreira.

NOTA: 8,8

Track List:

01. Pretty Hurts [04:17]

02. Haunted [06:09]

03. Drunk in Love [05:23]

04. Blow [05:09]

05. No Angel [03:48]

06. Partition [05:19]

07. Jealous [03:04]

08. Rocket [06:31]

09. Mine [06:18]

10. XO [03:35]

11. Flawless [04:10]

12. Superpower [04:36]

13. Heaven [03:50]

14. Blue [04:26]

2012: Devotion – Jessie Ware

Por: Renan Pereira

De todas as artistas femininas que gravaram seu primeiro álbum no ano passado, a que mais chamou a atenção foi, sem nenhuma dúvida, a britânica Jessie Ware. Ela, que já vinha trabalhando há um bom tempo, emprestando sua voz para diversos projetos, viu o nascer definitivo de sua carreira através do belíssimo “Devotion”, lançado no final de agosto de 2012. Musicalmente rico, liricamente forte e deliciosamente confessional, o primeiro registro da carreira da cantora passeia de forma grandiosa pelos sentimentos nele inseridos, atraindo uma devoção praticamente imediata do público e da crítica.

Mesmo que vá atrás do que vem agradando uma grande parcela do grande público nos últimos tempos, domando os mesmos sentimentos melancólicos cantados por artistas como Adele e Lana Del Rey, “Devotion” não é um trabalho óbvio da música pop, que procura soar comercial acima de tudo. Embora seja de fácil aceitação, o disco se mostra superior a quase tudo o que tem sido feito ultimamente, sabendo ser complexo ao mesmo tempo em que parece soar de alta agradabilidade aos ouvintes. No fim das contas, Jessie Ware e seus produtores acabam nos presenteando com mais do que um competente álbum de estreia: o grande destaque do registro está no que ele é, ou seja, uma bela viagem pelos sentimentos de sua personagem principal – no caso, a própria cantora.

Bem como “Kaleidoscope Dream”, do californiano Miguel, e o premiado “Channel Orange”, de Frank Ocean, “Devotion” foi um dos grandes registros de 2012 que, de forma convincente, acabaram por caracterizar o ano como um período de grande renovação dentro do R&B; uma renovação não apenas de nomes, mas de ideias. Mesclando a música negra (antiga e moderna) com elementos contemporâneos da música eletrônica, a se incluir os atuais rumos do hip-hop, tais registros não apenas lidaram com o que já estava feito, assim como não procuraram simplesmente abraçar o novo a qualquer custo. Competentemente, difundiram uma sonoridade que, longe dos exageros comercias do pop atual e da mesmice muitas vezes encontrada dentro do R&B, sabiamente afagam nossos ouvidos, e que, além de boa música, nos apresentam instantes consistentes de crescimento do gênero.

Grandioso, “Devotion” se inicia com o bom gosto de sua faixa-título, dominada pela sonoridade inteligente, através da qual Jessie Ware divaga sobre um relacionamento que já acabara há algum tempo; é, afinal, uma canção sobre saudade. A fantástica “Wildest Moments”, que compreende ápice épico do disco, é outra faixa finamente produzida, construída sobre um dinâmico terreno, contendo mais um rico aspecto sonoro; enquanto a artista canta suas tristezas, é impossível não se sentir atraído pelo seu charmoso vocal, bem como não há como não se solidarizar com a personagem da canção – ou, até mesmo, inseri-la em seus próprios sentimentos, recordando momentos mal-resolvidos. Não por coincidência, aí está outro grande acerto do álbum: saber atingir as emoções do público, transferindo para ele, de forma certeira, os sentimentos íntimos de Jassie Ware.

É interessante ver como a elegância não é deixada de lado em nenhum momento do disco: mesmo “Running”, que compreende seu momento mais dançante, sabe ser inteligentemente fascinante, mesclando as tristezas de Ware em um ambiente compreendido entre o R&B dançante e o pop alternativo; seus riffs de guitarra, apesar de serem apenas mais um elemento dentro da luxuosa produção, formam um tempero delicioso. Abraçando a música pop sem nenhuma moderação, “Still Love Me” escancara, durante toda sua duração, as ambições de Jessie Ware, vislumbrando sua obsessão pelo inédito e aceitável. Embora tenha uma qualidade rítmica invejável, a quinta faixa, “No to Love”, peca pela falta de dinamismo, e acaba se caracterizando como a canção mais fraca do álbum.

Com ares épicos, “Night Light”, dona de mais uma letra certeira e de um instrumental luxuoso, é uma prova concreta de que, além de um ótimo nome da nova geração da música britânica, Jessie Ware anseia grandiosidade; afinal de contas, não há como não imaginar a cantora, daqui a algum tempo, dentro do supra-sumo do pop mundial. “Swang Song” também é complexa, deliciosa, prendendo a atenção do ouvinte através de seus versos melancólicos, atraindo a cada passo rítmico que se sucede.

Um grande crédito também deve ser dado ao quarteto de produtores do disco. Julio Bashmore, Kid Harpoon, Dave Okumu e Keith Uddin demonstraram ser exímios conhecedores não só da capacidade de Jessie Ware, mas de todas as disposições do pop moderno (construindo, desta forma, uma sonoridade profunda que surpreende a cada canção). “Sweet Talk” também é produzida com maestria, e apesar de liricamente complexa, procura soar de aceitação mais imediata, sendo claramente projetada para o grande público. Já, a agradável “110%”, topa atravessar o Atlântico, deixando a terra da Rainha para trás a fim de atingir de corpo inteiro o R&B tradicional dos Estados Unidos.

A belíssima “Taking in Water” é uma daquelas canções capazes de fazer o ouvinte viajar, independente de sua preferência musical. Aliás, é necessário afirmar que “Devotion” não é um álbum destinado aos amantes do pop moderno, ou aos admiradores do R&B; é mesclado por rock, lo-fi, soul music, levando suas canções a um rumo muito mais aventureiro e mais abrangente em comparação ao que normalmente se ouve no, muitas vezes, repetitivo pop atual. É a doce “Something Inside” que finaliza o álbum, em mais uma bela produção adornada pela elegante (e tristonha) voz de Jessie Ware.

“Devotion” é muito competente, consistente, uma grande estreia capaz de surpreender. Não é, porém, uma grande obra de arte, e embora não seja um álbum perfeito, é perfeitamente competente para apresentar Jessie Ware ao mundo. Através dele, afinal, vagamos pelo que há de melhor construção dentro da música pop atual.

Tematicamente forte, bonito e dolorido ao mesmo tempo, “Devotion” faz o ouvinte passear pelas nuances do pop enquanto Jessie Ware canta suas aflições. Por mais que seja atraente de uma forma até mesmo sádica, com o ouvinte se deliciando com as tristezas de Ware, o disco está muito além de um número simplesmente melancólico. É, afinal, um dos registros mais competentes que a música pop apresentou nos últimos tempos, vagando por uma sonoridade rica que cria a atmosfera perfeita para Jessie Ware brilhar, seja com sua voz doce ou com suas letras tristes.

NOTA: 8,5

Track List:

01. Devotion [03:24]

02. Wildest Moments [03:42]

03. Running [04:28]

04. Still Love Me [03:56]

05. No to Love [03:33]

06. Night Light [04:13]

07. Swan Song [03:43]

08. Sweet Talk [03:37]

09. 110% [03:27]

10. Taking in Water [04:27]

11. Something Inside [03:34]

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2012: Unorthodox Jukebox – Bruno Mars

Por: Renan Pereira

Depois de estrear em estúdio em 2010, com o álbum “Doo-Wops & Hooligans”, Bruno Mars acabou conquistando uma grande parte do público e da crítica, sendo considerado uma das melhores revelações dos últimos anos e um dos artistas mais promissores da música pop. Apesar da irregularidade de seu primeiro registro de estúdio, suas grandes performances no palco e seu incontestável talento bastaram para ele se tornar, rapidamente, um dos nomes mais comentados da música atual.

O crescimento de Bruno Mars em seu segundo disco não era somente esperado, como também inevitável. “Doo-Wops & Hooligans” havia feito um bom papel para apresentar o cantor ao mundo, mas acabou se esquecendo de ser consistente, de estar ao nível do artista em questão. Sendo o músico detentor de uma bagagem musical gigantesca, abrangendo os mais diferentes estilos, os mais diferentes artistas das mais diferentes épocas, ficava claro que Mars era capaz de muito mais, de voar muito acima da sonoridade comum e pouco abrangente de seu debut. Portanto, todas as expectativas foram lançadas para seu segundo álbum, que veio a ver a luz do dia em 6 de dezembro de 2012.

“Unorthodox Jukebox” não é tudo que os mais entusiastas esperavam, mas é o trabalho que nos diz que Mars está no caminho certo. A evolução é perceptível, as capacidades do músico vem sendo melhor lapidadas, e uma maior abrangência musical nos mostra um Bruno Mars muito mais à vontade, mais sincero, muito mais completo e competente. Em suma, é um álbum que, apesar de ainda cometer alguns deslizes, acerta em quase todos dos seus pontos principais, sendo capaz de satisfazer quem aguardava um bom registro da evolução sonora do músico, e não uma obra fundamental do pop atual.

Viajando do eletrônico ao rock, passando pelo R&B e o reggae, Bruno Mars nos mostra um novo conjunto de facetas, que só vem a enfatizar a ideia de quão bom músico ele é. É verdade que pouca coisa no disco é realmente nova, de inovação não há quase nada… mas, muitas vezes, um ótimo agrupamento de referências já basta para se criar um álbum competente. Bebendo intensamente de fontes antigas, sejam sessentistas, setentistas ou oitentistas, Mars desloca seu olhar constantemente para o passado para escolher os melhores caminhos para o seu futuro. No fim das contas, ele parece ter acertado.

É com ares épicos e melódicos que “Unorthodox Jukebox” se inicia: a bela “Young Girls”, delicada e finamente produzida, é um ótimo número de entrada, apesar da letra apenas razoável – a impecável atuação vocal de Mars, por si só, já seria capaz de torná-la uma canção atraente. A segunda faixa, considerada por alguns como um dos melhores singles do ano, é uma agradável passagem pelo pop-rock da década de oitenta; “Locked Out of Heaven” soa como uma competente visita do The Police ao pop do século XXI.

Falando sobre sexo, com sentimentos machistas, “Gorilla” já procura apresentar um Bruno Mars mais crescido, mais atrevido, se sentindo à vontade para tratar de temas mais pesados; através de uma sonoridade que vagueia entre o R&B tradicional e toques de um rock mais pesado, Mars canta uma das canções mais introspectivas do disco, fazendo referência, inclusive, a sua prisão em 2010 por porte de cocaína. “Treasure” mergulha totalmente nos primeiros anos da década de oitenta, ambientada em um cenário repleto de  referências à sonoridade de Prince e Michael Jackson; é uma canção de formato tradicional, sem muito se aventurar, mas com uma performance competente.

Com uma produção impecável, “Moonshine” se apresenta como uma das faixas mais significativas do álbum, contendo um instrumental belíssimo, com ótimos riffs de guitarra, uma bonita letra e uma performance vocal pra lá de sentimental; dinâmico, em “Unorthodox Jukebox” Bruno Mars mostra ser capaz de trabalhar com os mais diferentes estilos de música com igual competência. É fato, porém, que ele ainda não parece estar muito certo do caminho a tomar em sua evolução musical; ainda sem muita segurança, Mars e seus produtores tratam de atirar para todos os lados – e eis aí uma das grandes inconstâncias do disco. Obviamente, é de grande valor a mescla de estilos, a incorporação de diferentes vertentes musicais; só que “Unorthodox Jukebox” não parece incorporar seus mais diferentes aspectos em um registro totalmente conciso. Espalhadas, as faixas não conseguem criar um vínculo, permanecendo desamarradas entre si e impossibilitando a formação de um conjunto impecável – há boas faixas, canções competentes, mas que soam muito distantes entre si.

Em “When I Was Your Man” há mais uma oportunidade para se contemplar o talento de Bruno Mars em canções românticas; construída em piano, melódica e sentimental, faz o artista viver seus momentos de versão masculina da cantora inglesa Adele. Em contrapartida aos momentos de romantismo puro das duas últimas faixas, “Natalie”, que conta com a inconfundível produção do premiado Paul Epworth, volta a trazer um Bruno Mars mais abusado, em um ambiente tomado pela riqueza  instrumental. Quem conferiu “Doo-Wops & Hooligans” sabe que Mars é um grande admirador de reggae, e em seu segundo álbum, tão abrangente, o ritmo jamaicano não poderia faltar; como bom havaiano que é, o cantor se sente seguro para cantar a música mais quente e tropical do disco, um reggae muito mais atraente que os presentes no disco de estreia do músico. Em um álbum tão voltado para as ideias do passado, “Money Make Her Smile”, detentora de uma sonoridade bem atual, que incorpora elementos do hip-hop e do R&B moderno, se comporta praticamente como uma ilha, rodeada pelo oceano formado pelas apostas muito mais seguras do que inovadoras.

É com o blues “If I Knew” que o álbum se encerra: novamente mostrando quão competente Mars pode se mostrar nos mais diferentes estilos, mas soando como mais uma tentativa de se encontrar um caminho… Afinal, que tipo de música Mars pode fazer? Talvez ele seja competente até em música sertaneja, mas é chegado o momento do artista fazer a sua estrada. A insegurança é até admissível em um segundo álbum, mas Mars deve tomar cuidado, pois não poderá passar toda sua carreira atirando para todos os lados.

Pois “Unorthodox Jukebox”, apesar de conter boas canções, em que nenhuma chega a ser mal resolvida, peca justamente pela desconexão entre as faixas. Bruno Mars é um ótimo cara, continua a ser um dos grandes nomes do futuro do pop, mas sua insegurança é tão incontestável quanto o seu talento. No fim, ele acaba ficando à mercê das apostas seguras e comerciais, de fácil aceitação. Mas uma evolução vem acontecendo: “Unorthodox Jukebox” é bem mais atraente que “Doo-Wops & Hooligans”, muito melhor produzido, e apresentando um artista que, em dois anos, cresceu o que se esperava.

Se Bruno Mars um dia será um dos pilares da música norte-americana, só o tempo dirá. Mas o fato é que ele vem crescendo constantemente e, acima de tudo, tendo a vontade de crescer. Não bastam talento e ótimas referências musicais para formar um grande artista, mas é bom perceber que Mars vem buscando alcançar o algo a mais que ainda lhe falta.

NOTA: 7,0

Track List:

01. Young Girls (Mars/Lawrence/A. Levine/Bhasker/Hynie) [03:49]

02. Locked Out of Heaven (Mars/Lawrence/A. Levine) [03:54]

03. Gorilla (Mars/Lawrence/A. Levine) [04:04]

04. Treasure (Mars/Lawrence/A. Levine/Brown) [02:59]

05. Moonshine (Mars/Lawrence/A. Levine/Wyatt/Bhasker/Ronson) [03:49]

06. When I Was Your Man (Mars/Lawrence/A. Levine/Wyatt) [03:34]

07. Natalie (Mars/Lawrence/A. Levine/B. Levine/Epworth) [03:45]

08. Show Me (Mars/Lawrence/A. Levine/Chin-quee/Chin) [03:28]

09. Money Make Her Smile (Mars/Lawrence/A. Levine) [03:24]

10. If I Knew (Mars/Lawrence/A. Levine) [02:13]

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2006: FutureSex/LoveSounds – Justin Timberlake

Por: Renan Pereira

Não foi fácil para Justin Timberlake se desfazer da imagem juvenil que o acompanhou em grande parte da carreira, se bem que este é um desafio constante para artistas que, em alguma época, são reconhecidos como ídolos teen. Em 1993, aos doze anos, Timberlake se tornou uma estrela do cenário infantil ao ser contratado pela Disney, participando do programa televisivo da ABC “Mickey Mouse Club”, com sua futura namorada Britney Spears, sua futura companheira de turnê Christina Aguilera e seu futuro parceiro de banda JC Chasez. Com o fim do programa, em 1995, tendo como finalidade o aproveitamento da fama dos garotos que faziam parte do estrelato da Disney, o empresário Lou Pearlman, que já havia criado os Backstreet Boys, decidiu criar uma nova boy-band, denominada ‘N Sync. Para esta banda, foram recrutados, além de Timberlake e Chasez, Lance Bass, Joey Fatone e Chris Kirkpatrick.

Seguindo todo o modelo implementado por Pearlman nos Backstreet Boys, o ‘N Sync acabou se consolidando como um sucesso comercial imediato. O primeiro álbum de estúdio, homônimo ao grupo, lançado em 1997, teve uma vendagem absurda, se tornando um dos mais vendidos daquela época, e hits como “I Want You Back” e “Tearin’ Up My Heart” se tornaram canções suspiradas por um amplo número de garotinhas fanáticas pelo quinteto. Depois, houve o rompimento da banda com o seu empresário, mais alguns singles de sucesso, outros dois álbuns massivamente vendidos e, enfim, o hiato. Timberlake, como vocalista principal do grupo, despontava como uma grande promessa de pop-star, e com o fim dos serviços do ‘N Sync, lá pelos idos de abril de 2002, o mundo pop se perguntava o que seria do futuro do músico.

Mas eis que, no penúltimo mês do mesmo ano, é lançado “Justfield”, o tão aguardado primeiro álbum de Timberlake em carreira solo. Apesar de ainda juvenil, atrelado à musicalidade do ‘N Sync e contendo músicas melosas, excessivamente radiofônicas, ficava claro que a carreira de Timberlake só viria a crescer; em um futuro próximo, talvez, ele conseguiria se tornar um músico adulto, fazendo música para adultos, se livrando daquela insistente imagem de ídolo adolescente.

Porém, apesar da alta vendagem de “Justfield”, alguns anos se passaram para o lançamento de um segundo álbum solo. Depois de passar um tempo sem se sentir à vontade para compor, em 2005, motivado pelo fraco estado da música pop na época, Timberlake foi à procura do produtor Timbaland, com quem já havia trabalhado anteriormente, para a criação de um novo conjunto de canções. No início, ambos não sabiam ainda muito bem o que fazer, mas com o auxílio do produtor Danja, os primeiros rumos do trabalho começaram a ser tomados. Fortemente influenciados pelo trabalho que Prince havia realizado na década de oitenta, o que Timberlake e seus produtores decidiram foi a criação de algo totalmente diferente, algo totalmente novo não apenas para a carreira de Timberlake, mas também para a música pop da época. Com carta branca para experimentar à vontade, Timbaland tratou de utilizar toda sua veia criativa para produzir um registro que viria a surpreender o mundo pop.

As antigas fãs de Timberlake, aquelas que outrora suspiravam os hits do ‘N Sync, provavelmente levaram um grande choque ao conferir o conjunto de canções que formou “FutureSex/LoveSounds”, o tão aguardado segundo álbum do artista, lançado em setembro de 2006. Afinal, como o próprio título do registro pode demonstrar, as músicas melosas, juvenis e feitas para adolescentes haviam perdido seu espaço. Os rumos da carreira de Timberlake acabaram por ser bruscamente modificados através de uma drástica mudança na sonoridade e na temática de suas canções.

“FutureSex/LoveSounds” foi um lançamento ousado, inovador e surpreendente. O próprio Justin Timberlake nem parecia mais a mesma pessoa, agora fazendo o uso sem moderação de letras carregadas de erotismo e sensualidade, atacando descaradamente o público feminino e praticamente doutrinando o público masculino. Do adolescente mimoso não restava mais nada, e o que o mundo via, boquiaberto, era um artista que havia crescido de forma assombrosa, exalando ousadia e poder, a tratar o seu público como um lobo esfomeado a observar um rebanho, pronto para o ataque.

Mas, para a criação de um grande álbum, apenas a fome de um predador não basta. Sempre por trás de um grande projeto há uma generosa leva de influências e referências, e com “FutureSex/LoveSounds” não seria diferente. Por mais que o disco, basicamente, se equilibre através do tripé formado por Timberlake, com sua sensualidade, Timbaland, com toda sua experiência e conhecimento de black music, e Danja, com seus elementos eletrônicos modernos (onde se incluiu a música trance, na época em exponencial crescimento), o que não faltam no álbum são alusões a ótimos trabalhos dos mais diferentes artistas. Abrangeu-se principalmente a qualidade melódica de David Bowie e a música sensual de Prince, mas também foram explorados nomes como Michael Jackson, INXS, Arcade Fire, David Byrne, The Killers, The Strokes e Radiohead.

“FutureSex/LoveSound”, quase uma faixa-título, é a abre-alas, o primeiro e já definitivo recado de como o álbum se comportaria; sensual e finamente produzida, construída através das tão famosas batidas minimalistas de Timbaland, já é capaz de rebaixar tudo o que Timberlake havia anteriormente feito em sua carreira, se mostrando adulta e consciente. O primeiro dos clássicos do álbum é a fantástica “SexyBack”, uma produção impecável, obra-prima de Timbaland, que exala erotismo do início ao fim através de seu ritmo contagiante, excitador de músculos, de uma flutuação fenomenal de sintetizadores minimalistas e de uma linha vocal quente, mixada perfeitamente a fim de alastrar sensualidade.

Hoje em dia flertar com o dubstep é moda, mas em 2006 não era algo lá muito comum na música pop – e até nisso “FutureSex/LoveSounds” foi inovador, com sua sonoridade ímpar. Mas é da música negra norte-americana dos anos setenta e oitenta que vem a base forte de “Sexy Ladies”, mais uma canção dançante e sensual, em que o vocal de Timberlake está especialmente forte, como se estivesse assoprando frases eróticas nos ouvidos de seu público feminino. No final da mesma faixa, um prelúdio “bate-lata”, capaz de deixar até o mais desengonçado dos ouvintes com o corpo inquieto, abre os serviços da quarta canção do disco, a formidável “My Love”, uma das mais surpreendentes produções do álbum, cujos sintetizadores, minados com um fantástico efeito de alteração de volume, funcionam como um hipnotizante passeio de Timberlake pelo corpo de uma mulher; além de ser um número perfeito para demonstração de todas as qualidades de Timberlake como bailarino, é uma ode ao talento de Timbaland, uma canção tão certeira que até a participação do rapper T.I. soa memorável.

“LoveStoned” soa como se, em 2006, Timbaland e Michael Jackson tivessem colaborado juntos em uma canção – e talvez mais nada precisa ser dito para se concluir quão boa ela é. No desfecho da faixa, em meio a uma atmosfera beat-box, surgem uma orquestração maravilhosa, um belíssimo riff de guitarra e discretos toques de piano, que fazem Justin Timberlake viver um surpreendente momento de Tom Yorke. Com contornos épicos, “What Goes Around… Comes Around” se caracteriza como um clássico do pop moderno, uma longa e atraente balada onde Timberlake lamenta o desfecho de um relacionamento, com toques vingativos; surpreendendo pela produção, traz baglamas (instrumentos de corda pouco utilizados na música popular), R&B, violinos, dubstep e hip hop, uma riqueza de sons que impossibilita à faixa tornar-se enjoativa em qualquer instante de seus mais de sete minutos.

A partir da sétima faixa o álbum decai um pouco, o que, de jeito nenhum, chega a significar algo negativo – até porque manter em todo o registro a altíssima qualidade de suas seis primeiras canções seria algo extraordinariamente incrível. “Chop Me Up”, pendendo para o hip hop como nenhuma outra canção do disco, continua a brincar com os mesmos elementos sensuais das faixas anteriores, e de forma até competente, convincente, mesmo sem mostrar o mesmo brilhantismo. Felizmente, “Damn Girl”, que conta com a participação de will.i.am, volta a apresentar a surpreendente qualidade da esmagadora maioria das faixas do álbum, com uma produção pra lá de caprichada, trazendo na linha vocal de Timberlake o seu principal destaque.

Em “Summer Love”, Timberlake é novamente agraciado com toques geniais do seu guru Timbaland, que mais uma vez lapida uma poderosa melodia com seus tradicionais e formidáveis efeitos minimalistas. No desfecho da faixa, o prelúdio “Set the Mood” apresenta o momento do álbum que talvez mais possa se aproximar dos trabalhos anteriores de Timberlake, enquanto a décima, “Until the End of Time”, apesar de se apresentar como uma boa canção, com mais uma produção certeira, se caracteriza por ser o momento de menor criatividade em todo o registro; não que não seja ótimo reviver as ideias plantadas por Prince nos anos oitenta, mas um dos grandes méritos de “FutureSex/LoveSounds” está na inovação, na apresentação de novas texturas para a música pop, algo que, claramente, não aconteceu nesta música.

A penúltima, “Losing My Way”, é um número fenomenal, surpreendendo quem mais nada esperava do álbum; seu destaque maior está na excepcional melodia, capaz de lembrar o nível melódico de David Bowie em seus melhores trabalhos. Mas se Bowie teve Brian Eno, Timberlake teve Timbaland, e assim como a “Berlin Trilogy” deve muito ao famoso produtor inglês, a musicalidade de “FutureSex/LoveSounds” é atribuída em sua maior parte ao produtor virginiano. Se bem que, na última faixa, a produção ficou à cabo de outro renomado produtor: Rick Rubin contribuiu em “(Another Song) All Over Again”, uma canção que, apesar de totalmente diferente das demais, tem seus méritos por encerrar o álbum de forma convincente, mostrando como Timberlake, mesmo muito mais ousado que em outras oportunidades, não havia perdido sua veia romântica.

Em “FutureSex/LoveSounds” Justin Timberlake não se tornou apenas um artista maduro, mas também um dos maiores astros do pop. Munido com uma musicalidade rica, contagiante, inovadora e ousada, finalmente conseguiu deixar para trás seu status de ídolo teen, passando a ser um dos caras mais respeitados do show biz.

Enfim, este foi um trabalho que deixou profundas marcas na carreira de Timberlake, nos rumos da música pop da década passada, e elevou o talentoso produtor Timbaland a um novo patamar, tornando-o um dos mais bem-vistos da nova geração. Contém uma sonoridade rica, apoiada por uma produção praticamente perfeita, com ideias ousadas e espírito empreendedor, e por isso só poderia realmente se destacar como um dos melhores de sua época. Afinal, é um registro seminal, uma das mais fortes marcas deixadas pelo pop nos últimos tempos, cravada com muito poder e volúpia.

NOTA: 8,5

Track List:

01. FutureSex/LoveSound (Timberlake/Mosley/Hills) [04:01]

02. SexyBack (Timberlake/Mosley/Hills) [04:02]

03. Sexy Ladies/Let Me Talk to You (Prelude) (Timberlake/Mosley/Hills) [05:32]

04. My Love (Timberlake/Mosley/Hills/Harris) [04:36]

05. LoveStoned/I Think She Knows (Interlude) (Timberlake/Mosley/Hills) [07:23]

06. What Goes Around…/…Comes Around (Interlude) (Timberlake/Mosley/Hills) [07:28]

07. Chop Me Up (Timberlake/Mosley/Hills/Houston/Beauregard) [05:04]

08. Damn Girl (Timberlake/Adams/Davis) [05:12]

09. Summer Love/Set the Mood (Prelude) (Timberlake/Mosley/Hills) [06:24]

10. Until the End of Time (Timberlake/Mosley/Hills) [05:22]

11. Losing My Way (Timberlake/Mosley/Hills) [05:22]

12. (Another Song) All Over Again (Timberlake/Morris) [05:45]

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2012: Red – Taylor Swift

Por: Renan Pereira

Dar uma conferida em “Red”, quarto álbum de estúdio da queridinha do pop-country Taylor Swift, é como experimentar sentimentos opostos e ao mesmo tempo próximos, como a espera pelo lado da moeda em um jogo de cara-ou-coroa. “Red” é capaz de sempre transmitir uma dualidade de percepções, mesmo que esteja sempre tratando da mesma aposta da mesma artista. Ao mesmo tempo em que o álbum faz Swift se aventurar por outros caminhos, sacramentando sua evolução, é transmitida a impressão de que nunca Swift havia deixado tantas dúvidas sobre o que sua carreira é ou virá a ser.

De ponto positivo, temos, logo de cara, a grande capacidade comercial do álbum, que vem realmente vendendo horrores; levando em consideração as vendas na primeira semana, ultrapassou os números até de artistas puramente comerciais e no auge da fama, como Lady Gaga e Justin Bieber, sendo, afinal, o álbum mais vendido nos primeiros dias desde “The Eminem Show”, de 2002. Não restam mais dúvidas de como Taylor Swift é famosa e bem-sucedida, deixando de ser a jovenzinha que surpreendeu os Estados Unidos em “Fearless” para se tornar uma das maiores estrelas da música mundial.

Mas, mesmo dentro dos pontos positivos, “Red” é capaz de nos transmitir coisas nem tão positivas assim; o potencial comercial do disco é extremamente forte devido a sua capacidade de atirar para todos os lados, em busca dos mais diferentes públicos. Além da musicalidade tradicional de Swift, temos flertes com um pop mais chiclete, ao melhor estilo Katy Perry, algum pop-rock comparável ao de Sheryl Crow e fugidinhas ao rock alternativo, brindadas pela participação de Gary Lightbody, do Snow Patrol. Ou seja, “Red” é um daqueles álbuns em que qualquer ouvinte, com certeza, vai apreciar alguns momentos, mas nunca o todo da obra.

“State of Grace” é que dá os primeiros acordes, e se caracteriza por ser uma certeira faixa de abertura, tão poderosa quanto a Taylor Swift atual, mas mostrando que as suas performances podem ainda ser tão adoráveis quanto as de outrora; de novidade, há o oferecimento de um maior peso ao instrumental, com um olhar sempre voltado para as tendências atuais da música pop. “Red”, a faixa-título, é outra canção fortemente orientada ao pop, mostrando a mesma Swift de “Fearless”, cantando com as mesmas vocalizações e sobre os mesmo temas, só que com um instrumental mais roqueiro e com uma letra mais grudenta. Como se quisesse gritar para todos, escancarando tudo logo de cara, o início de “Red” tem a clara e bem-sucedida impressão de mostrar que Swift cresceu, é hoje uma mulher feita, uma artista experiente e pronta para encarar o auge do seu sucesso.

“Treacherous” é bem bonita, uma balada tristonha, muito bem construída; aqui cabe uma parabenização aos produtores, que fizeram um trabalho praticamente perfeito de mixagem, dando ao resultado final do disco uma maravilhosa sonorização, com instrumentos vívidos, onde tudo está direitinho e no seu devido lugar (com o volume ideal, na frequência ideal, etc.). A quarta faixa, “I Knew You Were the Trouble” é, porém, o primeiro momento estranho do álbum; com uma estrutura simples demais, fraquinha mesmo, exagera nos flertes com o pop atual, sendo nada a mais do que algum single dessas pop-stars atuais com a voz de Swift – algo que, definitivamente, não combina e não agrada. Mas “All Too Well” trabalha muito bem para reparar os estragos causados pela faixa anterior, nos trazendo Taylor Swift em um momento genuíno; pode não ser uma aventura em nada, sendo basicamente o que ela fez nos últimos tempos, mas é a grande artista em um momento consistente.

Terrivelmente comercial, “22” soa como um teen-pop, com uma linha vocal preguiçosa, muito aquém da capacidade de Swift, e com uma letra pobre e grudenta, que a caracterizam como uma forte candidata ao prêmio de pior música de toda a carreira da cantora. Engraçado, porque logo depois “Red” nos brinda com a belíssima “I Almost Do”, um pop-rock impecável, com uma instrumentação semi-acústica fantástica, em uma grande celebração do grande potencial de Swift, tanto como cantora quanto como compositora. Provavelmente os grandes culpados pelos maiores erros, pelos momentos trágicos do álbum (isentando Swift de uma maior culpa), sejam os suecos Max Martin e Shellback, que co-assinam as faixas 4, 6 e 8 de “Red” – justamente, as piores do disco. Estes indivíduos, que vêm trabalhando com os artistas mais comerciais do mundo (Britney Spears, Adam Lambert, Ke$ha, Christina Aguilera e até a boy-band One Direction), cismaram de querer levar Taylor Swift para o caminho dos fartos dólares, mas da obviedade pop – a fraca “We Are Never Ever Getting Back Together” dá mais provas do quão desastrosa foi a participação destes produtores na carreira da cantora.

Como já em outras oportunidades, se ouve uma grande canção logo após uma tragédia; “Stay Stay Stay” é o que se espera de Swift, uma canção adorável contando com uma adorável performance, sem fugir muito do tradicional pop-country – o ritmo em que, indubitavelmente, ela se sai melhor. Talvez, até por isso, se aventurar demais não seja a melhor ideia para a carreira de Swift, tanto que “Red” nos mostra que, quando ela abandona suas origens, não é a mesma artista segura de outros momentos. “The Last Time”, com participação de Gary Lightbody, é uma música muito boa, bem produzida, melódica, mas que não surpreende em nada; soa como se Swift tivesse aberto um espaço de seu disco para uma canção do Snow Patrol.

“Holy Ground” não está entre as melhores canções já gravadas por Swift, mas é uma faixa válida, uma música que vai crescendo no seu decorrer. Já, “Sad Beautiful Tragic”, é uma das canções que mais positivamente surpreendem no álbum; é uma canção triste, tocante e belíssima, com uma performance vocal que arrebata por sua segurança e sutileza. Outra canção que agrada é “The Lucky One”, um pop-rock calmo e envolvido por um cativante instrumental semi-acústico, em que os discretos riifs de guitarra, mais ao fundo, formam um delicioso tempero.

Outra participação especial em “Red” é a do músico folk inglês Ed Sheeran, ocorrida em “Everything Has Changed”; situada na forte segunda metade do álbum, esta é mais uma canção agradável e certeira, que se caracteriza por ser um dos mais bonitos duetos dos últimos anos. A penúltima, “Starlight”, apesar de ser mais orientada ao pop, não chega a ser tão enjoativa quanto as piores faixas do álbum; não é uma grande canção, mas é uma aposta válida, próxima a algumas coisas já feitas por outras artistas do gênero country-pop. A última canção, “Begin Again”, como se estivesse pedindo para que o ouvinte voltasse a ouvir o disco novamente desde o início,  trabalha perfeitamente para encerrar o álbum de maneira competente, mostrando a Taylor Swift crescida e experiente que todo o disco teve a intenção de mostrar.

As piores canções de “Red” são realmente fracas, comerciais demais, aproveitadoras, mas não chegam a afetar tanto o resultado final do álbum. Até porque, se “Red” fosse um disco daqueles antigos, de vinil, poderia ser dito que contém um Lado A inconsistente, de qualidade duvidosa, mas um praticamente impecável Lado B. Apesar de cometer alguns erros primários, como o de, em alguns momentos arrancar Swift de seu nicho, “Red” é um trabalho que cumpre o seu principal papel: o de mostrar a cantora adentrando definitivamente em seu amadurecimento musical.

Há do que se reclamar, mas é inegável que “Red”, apesar dos pesares, é um bom trabalho. Pode não ser o mais consistente e o mais brilhante da carreira de Swift, mas tem tudo para ser um importantíssimo divisor de águas. Crescendo musicalmente, ela caminha para ser um dos maiores nomes da história dentro do seu gênero, deixando de ser uma princesinha para se tornar uma mulher feita.

Dentro das dualidades de “Red”, o que fica, no fim, é o ponto positivo do crescimento musical de Taylor Swift, e as dúvidas negativas deixadas pelos seus flertes com um pop mais chiclete. Mas o que se espera é que ela não abandone suas origens, pois, grande artista que é, não precisa se rebaixar ao desespero comercial para ser uma estrela.

NOTA: 6,9

Track List:

01. State of Grace (Swift) [04:55]

02. Red (Swift) [03:43]

03. Treacherous (Swift/Wilson) [04:02]

04. I Knew You Were Trouble (Swift/Martin/Shellback) [03:39]

05. All Too Well (Swift/Rose) [05:29]

06. 22 (Swift/Martin/Shellback) [03:52]

07. I Almost Do (Swift) [04:04]

08. We Are Never Ever Getting Back Together (Swift/Martin/Shellback) [03:13]

09. Stay Stay Stay (Swift) [03:55]

10. The Last Time (Swift/Lightbody/Lee) [04:59]

11. Holy Ground (Swift) [03:22]

12. Sad Beautiful Tragic (Swift) [04:44]

13. The Lucky One (Swift) [04:00]

14. Everything Has Changed (Swift/Sheeran) [04:05]

15. Starlight (Swift) [03:40]

16. Begin Again (Swift) [03:57]

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1976: Arrival – ABBA

Por: Renan Pereira

Por mais que o grupo sueco ABBA, maior fenômeno pop dos anos 70, seja mais reconhecido por seus hits poderosos, que se impregnaram na cultura popular, não há como negar que bons álbuns foram lançados. Nenhum tão espetacular, é verdade, mas quase todos mantendo uma boa consistência, com um som característico de melodias potentes e cativantes, em que os efeitos de teclado de Benny Andersson e os belos vocais femininos de Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad são um chamativo em especial.

Em 1976, quando lançou “Arrival”, o ABBA era um sucesso visivelmente emergente. No ano anterior, canções como “I Do, I Do, I Do, I Do, I Do”, “SOS” e, principalmente, “Mamma Mia”, já haviam tocado imensamente em rádios por todo o mundo. Mas foi com o mega hit “Fernando”, lançado em março de 1976, que o grupo começou a se tornar uma lenda; a música, lançada como single, vendeu sozinha mais de seis milhões de cópias.

E “Arrival” veio para, de uma vez por todas, tornar o ABBA um grupo de sucesso indiscutível. Considerado por muitos como o melhor álbum de estúdio dos suecos, ele é formado por aquela sonoridade já conhecida da banda, misturando disco, dance e pop rock, só que com o diferencial de ser consciente do início ao fim – é como se a qualidade de “Mamma Mia” fosse estendida para um álbum inteiro, e a banda se mostrasse competente e segura como nunca. Tanto que, apesar de conter uma das músicas mais famosas do seu catálogo, “Arrival” não se tornou tímido, sem ficar escondido atrás de seu maior single, a luxuosa “Dancing Queen”.

Talvez nunca as composições da dupla Andersson-Ulvaeus estiveram tão diversificadas e surpreendentemente dinâmicas quanto neste disco. Tanto que a primeira faixa, a divertida “When I Kissed the Teacher”, permeada pelos riffs acústicos de Björn Ulvaeus, cujo instrumental não foge muito da simples combinação de guitarra, baixo, bateria e teclados, é que abre alas para “Danicing Queen”, praticamente a magnificência em forma de música.

Talvez o sucesso da segunda faixa, único single do ABBA que alcançou o topo da parada da Billboard, tenha até superado as expectativas – mas não dá pra dizer que não foi merecido. Dentre os grandes hits do grupo, “Dancing Queen” é o que teve a construção mais complexa, tanto que, no ano que antecedeu o lançamento de “Arrival”, não passava de uma aposta sonora em busca de palavras para formar uma letra; após várias versões, inúmeros takes, a música como hoje conhecemos veio à tona, brilhantemente construída, repleta de sensualidade e de uma tímida luxúria, cuja sensacional melodia é perfeitamente trabalhada pelo instrumental. Apesar de ser uma canção pop, e o gênero ser, na maioria das vezes, sinônimo de simplicidade, “Dancing Queen” pareceu fugir do rótulo, muito também em razão do fantástico casamento entre as belas harmonias vocais e os luxuosos efeitos sintéticos.

A romântica “My Love, My Life” é uma linda balada, de onde podem ser ouvidos, através de mais um grande trabalho de sintetizador, alguns elementos eruditos; se trata de uma canção simples, pop rock, com uma sonoridade mais para segura do que aventureira. Se há alguns momentos em que o álbum decai de sua alta qualidade, estes estão presentes nos dois minutos e cinquenta segundos de “Dum Dum Diddle”, que não é uma música das melhores, mas, mesmo assim, não deixa de ser uma válida e divertida audição. Já a quinta das dez faixas do “Arrival” é uma das mais belas composições do disco; se trata de “Knowing Me, Knowing You”, um número melodramático, um single que escapa um pouco do que o grupo fazia naquela época, fugindo dos momentos alegres e adocicados para se aventurar em tristezas e amarguras.

Os grandes destaques da obscura “Money, Money, Money” ficam para os próprios compositores da faixa; o trabalho de teclado de Benny Andersson é altamente criativo, e os riffs da guitarra de Björn Ulvaeus alocam a canção em um cenário hipnotizante. A dançante e altamente melódica “That’s Me” é mais um luxuoso e bonito momento do álbum, enquanto “Why Did It Have to Be Me?” é o mais roqueiro, devido ao maior destaque dado à guitarra de Ulvaeus.

A penúltima faixa, “Tiger”, é uma perfeita mostra que não só de seus singles vivia a pungente sonoridade do ABBA; a canção é uma das mais complexas e mais trabalhadas do grupo, com uma estrutura bastante dinâmica, repleta de quebras e variações de ritmo, em que a força dos riffs de guitarra está especialmente elevada. Para fechar, temos a faixa-título, um magnífico número para o encerramento; considerada uma obra-prima de Benny Andersson, é uma canção construída praticamente toda em sintetizadores (perfeitamente executados, por sinal), fazendo menção a um som mais folclórico, de raiz.

Apesar de ter apenas dez faixas, “Arrival” acaba se caracterizando como um álbum grandioso, um lançamento imponente de um ABBA que estava se tornando um fenômeno musical. Há gente que torce o olho para grandes sucessos, autores de grandes hits, mas mesmo a estas pessoas o grupo sueco deve ser uma unanimidade; afinal, dentro da música pop, foi um dos poucos projetos que conseguiu aliar, em um mesmo instante, o sucesso de público e a qualidade musical. E bem assim é o “Arrival”, capaz de vender horrores e de agradar os mais críticos ouvidos.

O ABBA se tornou um dos maiores e mais bem-sucedidos grupos da história não somente pelo sucesso de suas canções; se tornou um fenômeno porque era um grupo autêntico e adorável, em que a consciência musical e a ânsia de gravar boas canções estavam aliadas ao desejo de se ter sucesso. O ABBA foi a febre que foi porque, além de ser um grande grupo, cativava as pessoas… E essa cativação elevava seu som a uma das mais agradáveis e mágicas audições de sua época.

NOTA: 8,7

Track List:

01. When I Kissed the Teacher (Andersson/Ulvaeus) [03:00]

02. Dancing Queen (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [03:50]

03. My Love, My Life (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [03:52]

04. Dum Dum Diddle (Andersson/Ulvaeus) [02:50]

05. Knowing Me, Knowing You (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [04:02]

06. Money, Money, Money (Andersson/Ulvaeus) [03:05]

07. That’s Me (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [03:15]

08. Why Did It Have to Be Me? (Andersson/Ulvaeus) [03:20]

09. Tiger (Andersson/Ulvaeus) [02:55]

10. Arrival (Andersson/Ulvaeus) [03:00]

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1964: Where Did Our Love Go – The Supremes

Por: Renan Pereira

De tantos grupos e cantores talentosos que a Motown revelou ao mundo nos anos cinquenta e sessenta, The Supremes é um destaque indiscutível. O grupo vocal, classicamente formado por Diana Ross, Florence Ballard e Mary Wilson (que teve Betty McGlown e Barbara Martin no início, e depois tantas outras cantoras, por causa de uma intensa mudança de formações a partir do final dos anos sessenta), foi responsável por um dos sons mais apaixonantes da música negra americana, repleto de romantismo e sensualidade. Fortemente influenciado pela vertente doo-wop, o grupo, apesar de ser detentor de um soul clássico, em toda sua carreira flertou intensivamente com o pop; o que não é ruim de jeito nenhum, pois suas canções, além de comercialmente atraentes, são de um primor artístico invejável.

Foi com o álbum “Where Did Our Love Go”, de 1964, segundo do grupo e o primeiro de sua formação clássica (já sem Betty McGlown e Barbara Martin), que o The Supremes acabou se tornando um nome familiar ao público. Contendo singles fantásticos, como a faixa-título, “Baby Love” e “Come See About Me”, este é um disco que se caracteriza como um registro histórico, por ter sido de um estrondoso sucesso comercial e por ser uma das mais brilhantes produções já realizadas na soul music.

Mas, acima de tudo, temos belíssimas vozes. Diana Ross é, simplesmente, uma das mais aclamadas cantoras da história, um ícone da cultura norte-americana, detentora de uma voz fantástica e de um talento dinâmico e indiscutível; por mais que no The Supremes ela estivesse apenas começando sua bem-sucedida carreira, nela já era possível perceber uma capacidade absurdamente grande, fazendo-nos ver que, mesmo naquela época, o espírito da grande diva que já vendeu mais de cem milhões de discos já estava presente. Mary Wilson é o símbolo de The Supremes, a grande entusiasta do grupo, e a única que nele permaneceu desde a sua criação até o fim de suas atividades (mais precisamente, de 1959 a 1977); apesar de não ter tido uma carreira-solo posterior tão popular, seu nome ficou marcado para sempre como sinônimo do seu grupo. Já, Florence Ballard, com sua voz especialmente doce, era o pilar da estrutura mais sentimental do The Supremes; infelizmente, ela acabou falecendo muito nova, com apenas 32 anos, e este fato, tido como um dos maiores desastres da música, fez com que uma grande e duradoura carreira-solo fosse perdida.

Abrindo com sua faixa-título, “Where Did Our Love Go” inicia-se belo e agradável, com uma graciosidade que seria mantida por todo o álbum; apesar de não ser o intuito da canção (que foi a primeira do The Supremes a chegar ao topo das paradas), culturalmente acabou capturando o espírito político dos Estados Unidos daquela época, quando ainda estavam frescos certos fatos como o assassinato do presidente Kennedy, a guerra no Vietnã e a aprovação da Lei dos Direitos Civis. Aliás, mesmo cantando músicas de amor, o impacto cultural do The Supremes foi gigantesco; além de ter sido o único grupo da época, a incluir os Beatles, que teve a individualidade de cada um de seus integrantes captada pelo público, também marcou o surgimento de uma nova modalidade na música: a música feminina propriamente dita, cantando coisas de mulheres, para mulheres, e do jeito das mulheres, sem procurar se assemelhar aos grupos masculinos.

Após os grooves e versos apaixonantes da clássica primeira faixa, que iniciam o disco de forma arrebatadora, “Run, Run, Run” chega para manter o nível; apesar de ter sido um single de pouco sucesso, apresenta estruturas vocais e instrumentais fortíssimas, sendo inclusive bem mais alegre e dançante que a maioria das músicas do The Supremes. Se é pra falar de sucesso, então falemos de “Baby Love”, que é “somente” uma das músicas mais populares da história; produzida para se assemelhar a “Where Did Our Love Go”, é realmente semelhante à faixa-título, e cumpriu sua meta com louvor: tornou o The Supremes o primeiro ato da Motown a ter dois hits no topo da parada da Billboard. Mas não vá pensando o ouvinte que, por ter sacadas comerciais, o álbum é um simples caça-níquel; é, sobretudo, musicalmente talentoso… E palmas devem ser dadas a trabalhos que conseguem unir o sucesso comercial e a aclamação da crítica.

“When the Lovelight Starts Shining Through His Eyes” é uma canção refinada, chique, e eis aí mais um êxito do The Supremes: o grupo mudou totalmente a ideia de que negros não poderiam ter classe; e justamente por ser assim, acabou se tornando o primeiro grupo de música negra norte-americana a fazer um massivo sucesso também com o público branco. “Come See About Me” é mais um clássico, mais uma canção a alcançar o número um da Billboard; apesar de ser mais simples, mantém aquele espírito resplandecente das demais faixas. “Long Gone Lover” é mais fraquinha, pecando por ser excessivamente repetitiva – mas é um dos poucos momentos em que o álbum decai do mais alto nível.

A sétima, “I’m Giving You Your Freedom”, contém estrutura musical diferente, semi-acústica, e se caracteriza por ser uma canção melódica, mais puxada ao rock da Invasão Britânica, atestando também quão dinâmicas as garotas do The Supremes podiam ser. “A Breathtaking Guy” e “He Means The World to Me” são momentos raros no álbum, por serem, assim como as faixas 6 e 11, as únicas não escritas pelo histórico trio Holland-Dozier-Holland, considerado um dos mais competentes grupos de compositores dos anos sessenta e setenta. A décima, “Standing at the Crossroads of Love”, é mais uma daquelas imperdíveis audições, melódica e romântica como só ela; é, afinal, mais uma bela canção deste belo álbum.

“Your Kiss of Fire” é, assim como seu título pode demonstrar, uma canção mais para sensual; mas, talvez até por não ser de autoria do trio Holland-Dozier-Holland, não consegue captar de maneira efetiva a qualidade do The Supremes, e por isso acaba ficando meio deslocada no álbum (não deixando de ser, porém, uma boa música). Já, a pomposa “Ask Any Girl” dá ao álbum o final que ele merecia; luxuosa, brilhantemente produzida e, principalmente, mergulhando sem moderação nas belas vozes das integrantes – algo que o disco “Where Did Our Love Go” faz, competentemente, em quase toda sua totalidade.

O álbum poderia ser apenas mais um ótimo produto da Motown, entre tantos lançados pela gravadora naqueles tempos, e só isso já o faria grande. Afinal, foi a Motown que elevou a música negra dos Estados Unidos a um maior patamar, tornando-a não apenas um produto genuinamente norte-americano, mas um gênero musical influente em todo Ocidente. Mas, foi com o álbum “Where Did Our Love Go” e seus singles poderosos que a música negra alcançou, enfim, o mainstream. Com simpatia, doçura, elegância e muito talento, Diana Ross, Mary Wilson e Florence Ballard conseguiram agradar ao público negro e ao branco – algo que, naquela época, era um feito visto como praticamente impossível.

“Where Did Our Love Go” é um álbum simples, falando de amor e suas consequências, e aí está seu grande êxito: ser extremamente apaixonante, de um romantismo cativante, capaz de amolecer o mais empedrado dos corações. Afinal, como não se encantar ao ouvir a formação clássica do The Supremes? Pode não ser uma das mais brilhantes e geniais audições, mas, certamente, é uma das mais arrebatadoras.

NOTA: 9,3

Track List:

01. Where Did Our Love Go (Holland-Dozier-Holland) [02:33]

02. Run, Run, Run (Holland-Dozier-Holland) [02:16]

03. Baby Love (Holland-Dozier-Holland) [02:37]

04. When the Lovelight Starts Shining Through His Eyes (Holland-Dozier-Holland) [03:05]

05. Come See About Me (Holland-Dozier-Holland) [02:44]

06. Long Gone Lover (Robinson) [02:25]

07. I’m Giving You Your Freedom (Holland-Dozier-Holland) [02:39]

08. A Breathtaking Guy (Robinson) [02:24]

09. He Means The World to Me (Whitfield) [01:59]

10. Standing at the Crossroads of Love (Holland-Dozier-Holland) [02:28]

11. Your Kiss of Fire (Gordy Jr./Fuqua) [02:47]

12. Ask Any Girl (Holland-Dozier-Holland) [03:00]

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2012: MDNA – Madonna

Por: Renan Pereira

Por mais que ela seja a rainha do pop, a carreira de Madonna não tem sido, nos últimos anos, daquelas muito constantes. A entrada da cantora na década passada ocorreu com o competente álbum “Music”, de 2000, e tudo parecia que continuaria como nas décadas de oitenta e noventa; não teria pra ninguém, e Madonna dominaria a cena pop mundial. Mas depois, em 2003, veio o muito criticado “American Life”, e as coisas pareciam que desandariam de uma vez… Até vir à luz o consistente “Confessions on the Dancefloor”, de 2005, e mostrar que a rainha do pop continuava forte como nunca.

Porém “Confessions” foi o último álbum digno do título monárquico que Madonna tem. “Hard Candy”, de 2008, foi um álbum fraco, aproximando Madonna do restante da cena pop atual – o que é um desperdício, visto que ela sempre foi uma mestra para as cantoras. Eis que Madonna então adentra na década atual com uma nova casa e novas ideias; “MDNA” é o primeiro álbum da cantora, desde o início da sua carreira, que não tem a Warner como gravadora. Agora na Interscope, a cantora parece ter procurado se infiltrar ainda mais nos elementos pop atuais.

É como se tudo o que você já tenha ouvido de Madonna tenha sido revisto. Os refrões poderosos sumiram, a sonoridade simples e dançante deu lugar a uma viagem pelo que há de mais moderno na música eletrônica atual, e o que antes era puro sangue e carne parece ter se tornado frio e robótico. O fraco single “Give Me All Your Luvin'” já alertava para um álbum pouco empolgante, repleto de  modinhas e superficialidades, inclusive contando com as participações de duvidosa qualidade de M.I.A. e Nicki Minaj. Mas, felizmente, houve alguma surpresa positiva, e o álbum, apesar de ser um dos mais fracos da carreira de Madonna, não se mostrou tão entristecedor quanto o seu primeiro single.

Mesmo em um dos momentos menos brilhantes de sua carreira, Madonna ainda é capaz de dar verdadeiras lições sobre a música pop. Em “MDNA”, a grande lição é: “independente de quando ou onde você está, tenha personalidade”. Por mais que ele não empolgue, não se pode negar que Madonna acreditou muito no projeto, e lhe dedicou todas as suas forças; apesar de o tempo continuar passando, e de Madonna não ser mais aquela musa sex symbol de tempos atrás, sua música continua atraente, provocante… e nisso (pelo menos nisso) nada se mostra tão mudado. A personalidade dela está lá, apesar de meio maquiada por tantas firulas, e Madonna, mesmo não construindo um grande disco, continua a ser um dos fortes nomes da música.

“MDNA” abre com a razoável “Girl Gone Wild”, bem escolhida para single; apesar de não ser uma grande canção, ficando muito longe dos maiores clássicos da cantora, é uma música pulsante, radiofônica e de fácil recepção (ou seja, uma faixa válida para um álbum pop). Já a segunda faixa, “Gang Bang”, é bastante ruim, maltratando os ouvidos dos que se acostumaram a ouvir a cantora em grandes performances; a música é irritante, não tem nenhum dinamismo, e sua linha vocal é pífia, talvez a mais preguiçosa que Madonna já tenha cantado. A musicalidade eletrônica e minimalista de grande parte das canções, inclusive da terceira, “I’m Addicted”, deve causar estranheza aos ouvintes, que não esperavam ver Madonna fazendo algo próximo a um dubstep. O álbum soa muito diferente, estranho, e o ouvinte que queira se acostumar com ele deverá gastar um bom tempo para isso.

“Turn Up The Radio” é legal e vale a pena ser ouvida, pois, sem dúvida nenhuma, é uma das melhores canções do álbum; nela, o vocal de Madonna está como nos velhos tempos, bem como a melodia – se não é algo extremamente incrível, traz uma produção menos errônea, que conseguiu utilizar de forma bem mais convincente as firulas eletrônicas. A quinta é o tal primeiro single, “Give Me All Your Luvin'”, uma música inspirada em cheerleaders, e que conta as estranhas e já citadas participações especiais; é inegável que não se trata de uma grande canção, algo muito pequeno para uma cantora chamada de “rainha do pop”, e que mergulha profundamente nos elementos das músicas da moda – mas o pior de tudo ainda são os rappings. Infelizmente, “MDNA” pouco acrescenta à música pop atual, pois, simplesmente, acaba seguindo o mesmo caminho.

“Some Girls” também é ruim, melodicamente muito pobre, e com uma atuação vocal muito fraca, até mesmo por ficar escondida por trás de tantos sonzinhos irritantes. Tudo bem que Madonna tem condições, e por isso pode, com todo o direito, fazer um álbum super-produzido… mas exagerar nos modismos nunca havia sido uma marca dela. Em “Superstar”, pelo menos, a produção faz um trabalho competente, trabalhando bem uma boa melodia e dando o espaço necessário para a voz  de Madonna (mas, apesar disso, ouve-se mais uma atuação vocal decepcionante). “I Don’t Give A” é estranhíssima, soa como uma tentativa (mal-sucedida) de misturar o hip-hop de hoje com o som clássico de Madonna, resultando em uma faixa que só acrescenta ao álbum pontos negativos; em suma, é uma música sem-rumo, que vaga por muitas bizarrices e acaba por não chegar a lugar nenhum. “I’m a Sinner” é mais consciente, contendo um certo dinamismo que foi esquecido na maior parte das faixas do “MDNA”; no álbum, é uma das mais fortes, apesar de não estar no mesmo nível das melhores canções já gravadas por Madonna.

Aqui o álbum começa, felizmente, a caminhar por um terreno mais firme, onde certas estranhezas e experimentalismos desnecessários são deixados para trás. “Love Spent” é uma ótima música, que traz um pouco do bem conhecido e tradicional dance de Madonna, e que contém uma letra intrigante, parecendo trazer de volta, de tempos atrás, aquela compositora de letras afiadas. A seguinte, a romântica e orquestrada “Masterpice”, é uma das mais belas canções já escritas por Madonna, contendo uma letra poética, e que acaba por acrescentar mais um belo número ao catálogo de canções românticas da rainha do pop. É “Falling Free” que dá números finais ao “MDNA”, e, felizmente, com mais uma belíssima faixa desta surpreendente parte final; se o álbum não é nenhuma maravilha, ele pelo menos fecha com conceito máximo, com uma última faixa perfeita, melódica, orquestrada, e lindamente interpretada. Inegavelmente, Madonna pode, mesmo em seus momentos menos inspirados, realizar grandes feitos.

“MDNA” tem músicas péssimas, ruins, razoáveis, boas e ótimas, assim como os álbuns mais recentes de cantoras como Britney Spears, Katy Perry e Lady Gaga; é por isso, justamente, que acaba ficando uma maior crítica. Madonna sempre foi conhecida por ser bastante visionária, conseguindo prever sempre o que faria sucesso nos próximos anos, e, trabalhando nisso, acabava por ser uma das artistas mais influentes do mundo. Mas, agora, o que se vê é uma Madonna não influenciando, e sim sendo influenciada.

É claro que ninguém quer mais um “First Album” ou um “Like a Prayer”, afinal os tempos são outros, e pedem outras coisas. Mas desconfigurar um estilo tão marcante é um erro; Madonna é uma artista de um estilo consagrado, já conhecido por todo mundo, e se entregar com tudo às atualidades, que algumas vezes soam tão infundadas, parece não ser a ideia mais bem pensada. Uma rainha que se preze sempre ouve o que o povo lhe diz, mas a sua autoridade é maior. No pop, Madonna sempre deu as ordens, mas agora parece estar com mais vontade de recebê-las; infelizmente, essa cantora que apenas segue o que se tem feito pouco se parece com a Madonna dos áureos tempos.

Com isso, apesar de não ser um trabalho de todo ruim, com algumas belas canções, o “MDNA”, infelizmente, e talvez por ironia, distorceu o que se conhecia da genética musical de Madonna. Às vezes exigimos demais, até mesmo de artistas já há muito consagrados, mas porque é justamente destes que esperamos trabalhos marcantes. E assim não é com o “MDNA”, que se caracteriza por ser apenas mais um.

NOTA: 6,0

Track List:

01. Girl Gone Wild (Madonna/Vaughan/A. Benassi/B. Benassi) [03:43]

02. Gang Bang (Madonna/Orbit/Hamilton/Harris/Jean-Baptiste/Mika/Casanova/Kozmeniuk) [05:26]

03. I’m Addicted (Madonna/A. Benassi/B. Benassi) [04:33]

04. Turn Up the Radio (Madonna/Solveig/Tordjman/Williams) [03:46]

05. Give Me All Your Luvin’ (Madonna/Solveig/Minaj/Arulpragasam/Tordjman) [03:22]

06. Some Girls (Madonna/Orbit/Åhlund) [03:53]

07. Superstar (Madonna/Indiigo/Malih) [03:55]

08. I Don’t Give A (Madonna/Solveig/Minaj/Jabre) [04:19]

09. I’m a Sinner (Madonna/Orbit/Jean-Baptiste) [04:52]

10. Love Spent (Madonna/Orbit/Jean-Baptiste/Hamilton/Whyte/Buendia/McHenry) [03:46]

11. Masterpiece (Madonna/Frost/Harry) [03:59]

12. Falling Free (Madonna/Mayer/Orbit/Henry) [05:13]

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1979: Off the Wall – Michael Jackson

Por: Renan Pereira

Falar sobre o rei do pop é um prazer imenso, ainda mais quando se fala do álbum que serviu como um divisor de águas em sua carreira. “Off the Wall” marcou o amadurecimento artístico definitivo de Michael, se caracterizando como o momento em que ele se divorciou da imagem do jovem talentoso do Jackson 5, para se tornar, enfim, o melhor e mais bem sucedido artista do mundo. Obviamente, sempre ele foi um grande artista, desde muito pequeno, e foi “Thriller” que o fez tornar-se um ícone mítico; mas foi com “Off the Wall” que o jovem se tornou um adulto, mostrando um talento imenso e surpreendente, deixando claras marcas de que ali não estava apenas mais um homem com capacidade, simplesmente. Ali estava o músico mais habilidoso de sua geração, quiçá de todos os tempos.

O álbum é arrebatador, e certamente um dos melhores registros já feitos da música pop. Uma sonoridade encantadora, formada por melodias fortes, ritmos dançantes e estruturas dinâmicas, foi construída por Michael e seu produtor, o grande Quincy Jones. Este som emblemático, uma grande mistura, feita com muita consciência e talento, uniu elementos de funk, soul, disco e rock em um mesmo lugar, criando um novo formato de dance music. “Off the Wall” é um afastamento à disco music, pois traz uma sonoridade mais complexa, mais técnica, em que as batidas ainda continuam tendo um bom papel, mas não são mais as figuras principais da peça; o álbum é feito de grandes performances instrumentais, impecáveis arranjos, com estruturas dinâmicas mais semelhantes ao rock clássico do que propriamente à música pop da época.

Mas além de extremamente bem produzido e musicalmente rico, “Off the Wall” é marcado por grandes performances vocais de Michael. Mesmo antes de “Thriller”, ele já se mostrava um gênio, atuando com maestria tanto em números mais dançantes, fazendo sua voz ser mais um instrumento à serviço de mexer esqueletos, quanto em ocasiões mais melódicas, onde toda a sua doçura é experimentada. Com uma técnica absurda, Michael mostrou-se um cantor abrangente e extremamente competente, capaz de ser um mestre da dança em algumas faixas, e de emocionar em outras, especialmente na belíssima “She’s Out My Life”.

“Don’t Stop ‘til You Get Enough” não é somente um dos maiores sucessos da carreira de Michael Jackson, mas é um dos maiores clássicos da música pop; é considerada uma espécie de abre-alas para a fase madura da carreira de Michael, e seu primeiro single no qual ele detinha todo o controle criativo. O que isso rendeu? Uma música fenomenal, dançante e complexa, caracterizada pela extravagância, que contou com violinos, um espetacular solo de metais e um surpreendente solo de guitarra. Sensuais falsetes são usados por Michael, numa emblemática performance vocal, sendo mais um dos elementos desta rica canção.

A segunda faixa, “Rock with You”, mais um grande sucesso, é considerada um dos últimos êxitos comerciais da disco music, que começava a entrar no ostracismo (por ironia do destino, muito por causa do novo som visionário e rico explorado por Michael); esta é uma música dançante, mas cadenciada, com um ótimo ritmo, e de onde se ouve mais uma produção caprichada. “Workin’ Day and Night” poderia ser apenas mais uma, por não ser um single, mas “Off the Wall” é absurdamente consistente, como poucos álbuns de música pop são; a canção é um grande convite à dança, contendo um ritmo formidável, grandes intervenções de metais e uma impecável atuação vocal de Michael.

“Get on the Floor” é um misto de simplicidade e extravagância; dá bastante ênfase ao ritmo, sendo construída basicamente em cima de uma linha de baixo, mas à medida em que vai chegando ao final, sua produção vai se tornando forte e luxuosa como nas faixas anteriores. A faixa-título do álbum é a quinta, e uma das colaborações do compositor Rod Temperton para o álbum. Conta-se que Temperton havia sido chamado para colaborar em uma faixa, mas após Michael ouvir as músicas que o compositor o oferecera, decidiu colocar todas no álbum, por ter gostado delas.

Hoje em dia, todos sabemos que Michael era um grande fã dos Beatles, tanto que, entre muitas das suas extravagâncias, decidiu adquirir, lá pela segunda metade dos anos oitenta, os direitos de todo o catálogo de canções dos Fab Four. Mas antes da amizade com Paul McCartney, e consequentemente muito antes da tal “traição”, Michael regravou em seu “Off the Wall” a melódica “Girlfriend”, lançada pelos Wings em 1978; não se trata de uma das grandes composições de Paul, mas é uma boa música, apesar de não ser um dos destaques do disco.

“She’s Out of My Life” é uma canção fantástica, uma belíssima balada, triste como ela só, onde a performance vocal de Michael é magistral, emocionando fortemente. Segundo o próprio produtor do álbum, Quincy Jones, gravar esta canção para o “Off the Wall” foi uma experiência única, pois em todos os takes gravados, Michael chorou no final. No fim das contas, decidiu-se por deixar o choro na versão definitiva, o que trouxe algo a mais ao álbum: um pouco de emoção.

“I Can’t Help It” pende mais para o soul, até por ser uma composição de Stevie Wonder; mas se engana o ouvinte que pensa que é só uma regravação qualquer, pois Michael Jackson em grande forma está lá, bem como a produção certeira de Jones. “It’s the Falling in Love”, como seu título pode deixar transparecer, é uma canção romântica, com um bom ritmo, e com a cadência característica das músicas dançantes de Michael. É muito fácil, em uma música com intuito de se fazer dançar, colocar umas batidas quaisquer, abusar do grave e fazer os órgãos internos dos ouvintes vibrarem; mas os louros vão para os que conseguem fazer dançar devido à qualidade de suas músicas, e nisso Michael sempre foi um mestre. “Burn This Disco Out” fecha o álbum, sendo mais uma música rica, muito bem produzida, e trazendo todo o talento de Michael.

Há quem se contente com o razoável, e há inclusive quem acha o medíocre algo válido. Algumas pessoas gostam do que é bom, e a estas deve ser dada razão. Mas, para quem se contenta apenas com o melhor, algo deve ser escolhido com mais critério. Quando se trata de música pop, “Off the Wall” está entre os melhores de todos os tempos; Michael Jackson é um dos grandes gênios da história da música, e este é um dos melhores trabalhos de sua carreira. Se temos um dos melhores do melhor, temos a certeza de um grande trabalho – e o visionário “Off the Wall” é realmente um disco fantástico.

NOTA: 9,7

Track List:

01. Don’t Stop ‘til You Get Enough (Michael Jackson) [06:04]

02. Rock with You (Rod Temperton) [03:40]

03. Workin’ Day and Night (Michael Jackson) [05:14]

04. Get on the Floor (Michael Jackson/Louis Johnson) [04:39]

05. Off the Wall (Rod Temperton) [04:05]

06. Girlfriend (Paul McCartney) [03:05]

07. She’s Out of My Life (Tom Bahler) [03:37]

08. I Can’t Help It (Stevie Wonder/Susaye Greene) [04:29]

09. It’s the Falling in Love (Carole Bayer Sager/David Foster) [03:48]

10. Burn This Disco Out (Rod Temperton) [03:41]

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