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2014: Barulho Feio – Romulo Fróes

Barulho Feio

Por: Renan Pereira

Romulo Fróes não é músico, e quem diz isso é ele mesmo. Prefere ser chamado de “compositor”, devido ao seu grande apego à canção. Não conhece as notas que toca no violão, mas é requisitado por onze entre dez bons nomes da “nova” geração que precisam de um conselho sonoro ou estilístico. Um novo… Nelson Motta? Não, ele mesmo ri da comparação. Fróes é um cara simples, que gosta de ficar com seus amigos, de ajudar e de ser ajudado. A cara da “nova cena paulistana”, que de nova realmente já tem muito pouco, e que não pode mais ser restringida apenas à capital paulista.

Tudo começou na virada do século, com as novas possibilidades que foram apresentadas através dos novos conceitos da música dita independente – que atualmente forma, no fim das contas, a única vertente “a ser lavada à sério” no nosso país. Os novos artistas passaram a lançar seus discos com suas próprias forças, sem o auxílio – e as regras – das gravadoras, em um movimento que, com a popularização da internet, apenas acelerou… e que é, hoje em dia, impossível de ser parado. E, em certa fatia, graças a Fróes e seus companheiros de “vanguarda paulistana”.

Amigos que, no quinto disco solo do compositor, voltam a se fazer presentes. Na sonoridade ruidosa de “Barulho Feio”, Thiago França parece soprar de forma aleatória, e a guitarra de Guilherme Held grita em agonia enquanto Marcelo Cabral faz de seu baixo o construtor de um muro sonoro alto e impiedoso. Em meio a esse cenário caótico, porém quase silencioso, surge Romulo Fróes a percorrer, em voz e violão, os sons da maior metrópole da América Latina. “Não Há, Mas Derruba”, a primeira faixa, é o início de uma jornada que já vai deixando claro o conceito do disco: lento, triste e difícil, o mais complexo capítulo da discografia de Fróes.

É curioso perceber que a complexidade alcançada por Fróes é produto do que há de mais simples e tradicional na MPB: o minimalismo quase silencioso do conceito “voz e violão”. Eis aí uma representação clara da paixão do compositor pela canção em seu estado mais puro, demonstrada na exploração intensa das heranças da bossa-nova e dos sambistas “tristes”, como Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho. Então estamos de frente a uma música que, no fundo, é um “grande mais do mesmo”? Muito pelo contrário: a fim de construir um resultado “novo”, Fróes pauta sua carreira na evolução, ou melhor, na desconstrução: a forma esbarrando no disforme, seguindo-se o padrão de não se ter um padrão. No fim das contas, tanto a voz quanto os acordes acústicos se perdem em meio ao “caos controlado” que se instala no disco.

A ambientação que torna “Barulho Feio”, até certo ponto, de difícil degustação ao ouvinte, parte do cenário desconstruído – tanto pelos instrumentos quanto pelos sons de fundo, gravados por Fróes em uma caminhada da Praça da República até a Catedral da Sé: buzinas de carros, gritos, pastores enlouquecidos… Os “barulhos feios” que procuram “encontrar a beleza onde não há”. E isso é de fácil percepção? Não, de jeito nenhum. “Barulho Feio” é um desafio ao modo imediatista e disperso com que a música é tratada nos dias de hoje, revelando a sua beleza apenas à medida em que as audições se sucedem. Não serão poucos os que o interromperão no meio em busca de algo mais pop, ou até que chegarão ao fim sentindo um grande vazio, o considerando “insípido, inodoro e incolor”. Pois Fróes nos obriga a ruminar o disco para que sintamos seu gosto, sua cor e seu cheiro.

Uma tarefa recompensadora. Pois além do cenário desafiador, o álbum nos oferece belas canções. Letras formidáveis, bonitas parcerias com Clima, Nuno Ramos e Alice Coutinho, poemas que são sussurrados por Fróes em grave e bom som… As faixas, na primeira audição, soam dispersas, quase inaudíveis, mas aos poucos vão ganhando uma força que surpreende. É um petardo depois de outro, mantendo o conceito central e ao mesmo tempo se montando como um passeio por várias texturas, demonstrando a habilidade de Fróes como compositor. Quando a dobradinha com Juçara Marçal surge em “Espera”, podemos até jurar que o disco, a partir dali, vai seguir um ritmo mais leve… até surgir a pesadíssima “Ó” para nos encher novamente de incertezas. De passo a passo, de esquina a esquina, de canção a canção, a intenção de Fróes é pegar o ouvinte de calças curtas.

“Barulho Feio” é ótimo. E é chato. No fim, a nossa receptividade à obra acaba sendo igualmente proporcional à paciência com que a tratamos. Talvez por exigir do público uma tarefa cada vez mais árdua em um mundo que clama por imediatismo, o disco será ignorado até por pessoas que veem com bons olhos a carreira de Fróes – tanto em trabalhos solo ou unido a Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral na banda Passo Torto. Logo, não é um trabalho que abre portas, que possa ser oferecido a quem quer ser apresentado à tão falada “nova vanguarda paulistana”. É um álbum muito particular de um artista provocante, que gosta do “difícil” não para ostentar o selo de “underground”, mas por ser sincero ao seu fardo de fazer algo novo desconstruindo o que já existe há tanto tempo.

Quem topa a tarefa, chegando ao interior da Catedral da Sé nos instantes finais de “A Luz Dói” com os ouvidos tão atentos quanto no início da jornada, verá que o tempo gasto pede ainda mais tempo, e que uma grande obra pede passagem para se apresentar. Por isso, pode ser dito que “Barulho Feio” é um disco que cresce continuamente, mas somente a quem lhe dá a oportunidade de crescer.

NOTA: 8,5

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2014: Encarnado – Juçara Marçal

Encarnado

Por: Renan Pereira

Apesar de “Encarnado” significar o início de uma carreira solo, Juçara Marçal passa longe de ser uma estreante. Experiente, há mais de vinte anos trabalhando em prol da música alternativa paulistana, emprestando sua voz para projetos como Vésper, A Barca e o aclamado Metá Metá, a cantora acumula toda essa vivência para construir, no primeiro disco que carrega o seu nome no título, um trabalho mais do que simplesmente convincente. Uma obra-prima, “Encarnado” surge como um capítulo fundamental dos novos rumos da música brasileira.

Se o fato de compreender o primeiro exemplar da discografia solo de uma grande intérprete já não bastasse, “Encarnado” se comporta como a maior obra já produzida por um incansável núcleo criativo que renova, já há algum tempo, a MPB produzida na cidade de São Paulo. Composto por nomes como Kiko Dinucci, Romulo Fróes e Thiago França, por exemplo, esse aglomerado de artistas com ideais partilhados tem se especializado em construir verdadeiros colossos em estúdio nos últimos anos… Os discos “Metal Metal”, do Metá Metá, e “Passo Elétrico”, do Passo Torto, são apenas dois exemplos da extrema competência que envolve essa turma.

Sendo uma integrante desse núcleo, Juçara Marçal utiliza com propriedade um conglomerado de referências da Vanguarda Paulista para costurar seu álbum de estreia. Seja com referências diretas a velhos nomes, como Itamar Assumpção e Tom Zé, ou com a utilização da sonoridade ruidosa que envolve o grupo Passo Torto, Juçara faz de “Encarnado” muito mais uma continuação dos inventos de um movimento do que um simples “início”.

Até porque, se existe um mote que guia o pensamento da cantora neste álbum, esse é “começar pelo fim”. Sim, a morte é o tema central do disco. Mas embora carregue o título de “Encarnado” e tenha uma temática bem definida, o álbum significa, na realidade, muito mais do que música… Ainda que o conceito central seja a morte, seria um erro crasso não degustá-lo como uma grande ode à vida.

Vida que morre para renascer, reencarnar. “Não diga que estamos morrendo, hoje não”, entrega a cantora logo nos primeiros versos do disco, mostrando que apesar da chegada dos últimos suspiros, o que prende a artista à temática é a vontade de sobreviver. Uma vida maleável, frágil, incerta, que é representada com louvor pela colossal instrumentação construída por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rohrer. Aliás, tratar “Encarnado” como um trabalho só de Juçara seria um descompasso.

Mas Juçara Marçal é, obviamente, a grande estrela da obra, fato que é inserido na mente do ouvinte logo nos primeiros instantes de “Velho Amarelo”, a primeira faixa. Trabalhando para alocar a cantora em um palco do qual o espectador não desviará os olhos, a canção, composta por Rodrigo Campos, se comporta como uma apresentação perfeita do conceito da trabalho, delineando os rumos instrumentais e líricos que o embalarão em sua totalidade.

Ancorado em uma atmosfera caótica, mas que nunca se descontrola, o álbum vai entregando ao público formidáveis interpretações de Juçara ao mesmo tempo em que o tema central é encarado de diferentes maneiras por cada faixa. Na agressiva “Damião” o olhar é voltado para a vingança, enquanto em “Queimando em Língua” é uma representação romântica que embala a morte. Tudo encarado sob uma ótica arriscada e inesperada, que, segundo palavras de Romulo Fróes no release do disco, era inimaginável até mesmo para as pessoas que sempre acompanharam de perto a carreira da cantora. Juçara surpreende a todo instante, quebrando com o habitual conforto que normalmente embala a MPB.

Em “Pena Mais Que Perfeita” há a aceitação do destino, derramando lástimas enquanto o momento derradeiro é aguardado com melancolia. Única canção do álbum composta por Juçara, “Odoya” transforma a voz da cantora em um instrumento que vaga em oração, pedindo proteção para encarar o momento mais chocante do disco: uma dança com os aspectos mais violentos da morte. “Ciranda do Aborto” é a faixa central do disco, construindo com contornos épicos um número de força absurda, que assusta, espanta, e faz a artista se desmanchar em uma interpretação magistral. Monumental, a canção se candidata não apenas à melhor música desse ano, mas de muito tempo.

Um dos poucos momentos em que Juçara se agarra ao conceito pronto do Metá Metá mora na “Canção Pra Ninar Oxum”, de Douglas Germano, com suas alusões claras às heranças africanas. Em “E o Quico”, de Itamar Assumpção, a cantora se rende a suas referências da Vanguarda Paulista, brincando com a loucura no cenário de uma abdução. Outro grande artista lembrado por Juçara, Tom Zé empresta para “Encarnado” a canção “Não Tenha Ódio no Verão”, originalmente lançada no disco “Tropicália Lixo Lógico”, de 2012.

“A Velha Capa Preta”, composição de Siba, personifica a morte, tratando-a como um monstro, uma vilã, ao dizer que ela “anda no mundo vestindo mortalha escura
, e procurando a criatura que espera condenação. Quando ela encontra um cristão sem vontade de morrer, e ele implora pra viver, mas ela ordena que não”. A passagem do tempo também é fatal, e “Presente de Casamento”, apesar de se ambientar em um incêndio, é um retrato da espera da morte inevitável enquanto se está na velhice.

Na última faixa, “João Carranca”, Juçara Marçal entorpece-se de malemolência para mostrar mais uma de suas facetas: a de contadora de histórias. Na canção, é contada a saga de um garoto bonito que, após ter o rosto desconfigurado, passou a ser zombado: “E o que era belo, agora espanta, e o seu nome hoje é João Carranca”. Versos de Dinucci para um grande samba, deixando claro, no desfecho do disco, de onde vem as inspirações dos músicos que o bordaram.

A certeza que fica, no fim, é que cantando sobre a morte Juçara nunca esteve tão viva. De forma excepcional, ela passa por cima de todo o seu passado para renascer em uma nova artista, com uma nova carreira… Morrer, afinal, às vezes pode ser bom. E ao morrer em doze canções, para depois reencarnar, Juçara Marçal oferece um veneno letal àqueles que tem decretado a morte da música brasileira… esses sim não tem o direito de viver novamente.

NOTA: 9,2

Track List:

01. Velho Amarelo [04:25]

02. Damião [02:06]

03. Queimando a Língua [05:04]

04. Pena Mais Que Perfeita [04:16]

05. Odoya [02:49]

06. Ciranda do Aborto [05:40]

07. Canção Pra Ninar Oxum [03:25]

08. E o Quico [02:42]

09. Não Tenha Ódio no Verão [02:52]

10. A Velha da Capa Preta [03:47]

11. Presente de Casamento [01:18]

12. João Carranca [02:00]

Entrevista: Romulo Fróes

Por: Renan Pereira

É com um prazer imenso que o RPblogging traz Romulo Fróes como o entrevistado desse mês de março. Integrante da vanguarda paulista, e um dos mais respeitados nomes da MPB, Romulo vem construindo uma carreira consistente desde 2001, quando lançou o seu primeiro EP. Com quatro álbuns em carreira solo, e uma incrível colaboração no seminal coletivo Passo Torto, Fróes cada vez mais se consolida como um dos músicos mais completos da cena paulistana, tendo participado de grandes obras da música – mais recentemente, do já clássico “Encarnado”, de Juçara Marçal.

romulo froes

Quando foi dado o pontapé inicial da sua carreira como músico?

Minha carreira teve início como a de tantos outros músicos, montando bandas na época do colégio. Com uma dessas bandas, o Losango Cáqui, cheguei até a lançar dois discos, que foram mais importantes para me aproximar do universo em torno da música, shows, gravações, do que propriamente para enriquecer a minha obra. Em 2001 lancei um EP com apenas quatro músicas que me serviu de diretriz para o que pretendia fazer dali em diante. Mas minha estreia mesmo acho que foi com o “Calado”, meu primeiro disco solo lançado em 2004, que já trazia minhas composições em parceria com o Clima e o Nuno Ramos, parceria essa que perdura até hoje.

Quais foram os nomes que te inspiraram no início? Estes ainda te inspiram?

Desde sempre, e em meu primeiro disco ainda mais, o samba de vertente mais triste me influenciou mais do que qualquer coisa. O modelo para as minhas primeiras canções eram artistas como Paulinho da Viola, Zé Keti, Batatinha, Cartola e acima de todos, Nelson Cavaquinho. Estes artistas ainda continuam servindo de farol para a minha obra, mas minhas canções já se contaminaram de muitas outras referências, inclusive de artistas contemporâneos a mim, coisa que não acontecia em meu início de carreira.

Já fazem treze anos que você lançou seu primeiro trabalho em estúdio. Muita coisa costuma mudar em tanto tempo… O que mudou em você, como músico e como pessoa?

Puxa vida, essa é difícil. É tanta coisa que muda em sua vida em um ano, em um mês, que dirá em treze anos! Mas se pudesse me ater a um único ponto de vista, acho que o que mais se transformou em mim neste tempo todo, foram minhas expectativas em relação a minha carreira. Estou me referindo ao seu aspecto prático, ao sucesso e a minha reavaliação do que é sucesso e principalmente ao aprendizado de se construir uma obra à margem da indústria fonográfica. O que se mantém intacto em mim nesses treze anos é meu profundo compromisso com o meu trabalho, minha incansável dedicação ao ofício de compor e meu desejo irreversível de contribuir para a canção brasileira. Mas hoje sou muito mais realista com a minha condição de artista independente, já não carrego a ilusão de uma recepção maior ao meu trabalho e nem mesmo espero que a minha obra seja posicionada historicamente na música brasileira. Aprendi a abaixar as expectativas para vencer o ressentimento.

Seu senso composicional é rotulado por alguns como “poesia urbana” – e é realmente perceptível que a cidade sempre te instigou. Muito tempo atrás Adoniran Barbosa já cantava São Paulo, mas como a cidade muda constantemente, quem deseja inserir a cultura paulistana em sua música também deve mudar a todo instante… Como você vê São Paulo no presente, e de que forma ela te inspira a evoluir como letrista?

É curiosa essa associação das minhas canções com São Paulo e penso que isso se deva muito mais a minha participação no Passo Torto, grupo do qual faço parte ao lado do Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos. Procure em meus discos solos alguma canção que faça menção a São Paulo ou a vida das pessoas nessa cidade, você não vai achar. É claro que somos influenciados pela vida que levamos em uma cidade como São Paulo, mas minhas canções e de meus parceiros mais habituais, Clima e Nuno Ramos, não fazem referência direta a essa condição, elas são muito mais abstratas que descritivas. Se referem muito mais a sensações, pensamentos, angústias, questionamentos, sobre a própria música brasileira e sobre a vida de qualquer um, do que propriamente se referem a nós mesmos e ao nosso cotidiano. Minha inspiração vem antes da música popular brasileira de todas as épocas, que da cidade em que nasci e vivo até hoje.

O que você pode nos dizer da sua participação no Passo Torto? Se alguém me pedisse informações sobre a banda, eu começaria dizendo que se trata de um supergrupo da vanguarda paulista… É dessa forma que vocês tratam o projeto?

Sem falsa modéstia, eu pessoalmente chamo de minha pelada semanal. É onde posso relaxar e exercitar minha composição sem a responsabilidade maior que um trabalho pessoal carrega. No Passo Torto, posso, por exemplo, me arriscar mais a escrever letras, coisa que raramente acontece em meu trabalho solo. Posso também me aproximar do trabalho desses artistas que fazem parte do grupo junto comigo e por quem tenho profunda admiração, e trazer para o meu próprio trabalho tudo o que aprendo com eles. Quando digo que me sinto mais relaxado no Passo Torto, não estou dizendo que não levo o projeto a sério, muito pelo contrário. Tenho um orgulho indisfarçado pelo que eu, Kiko, Cabral e Rodrigo estamos construindo e às vezes penso que nosso segundo disco, “Passo Elétrico”, talvez seja a melhor coisa que fiz até hoje!

Para quem está atualizado com a “nova música popular brasileira”, é impossível não citar o seu nome junto a outros, como, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Juçara Marçal, dentro de um movimento de “renovação” da MPB feita em São Paulo. Mas, ao mesmo tempo, essa nova geração é muito auto-suficiente, as coisas vão simplesmente acontecendo, e fica difícil saber qual é o conceito que une esses artistas… Como você pode nos explicar esse “movimento”?

Faltou acrescentar aos artistas lembrados por você, os nomes de Marcelo Cabral e Thiago França. Este Núcleo, do qual tenho a honra de pertencer, desenvolveu meio que sem querer um modo de trabalhar em conjunto que nasceu da vontade irrefreável que todos temos em gravar discos. Um ajuda no trabalho do outro e dessa colaboração ininterrupta ainda acabam surgindo projetos paralelos como o Metá Metá, o Marginals e o Passo Torto. Não há um movimento, no sentido de haver um pensamento único em nossos trabalhos, há sim uma movimentação que como você mesmo disse é difícil de ser acompanhada. Não é comum que um mesmo núcleo criativo produza tantos trabalhos tão diversos entre si quanto o “Bahia Fantástica” do Rodrigo Campos, o “Malagueta, Perus e Bacanaço” do Thiago França e o “Encarnado” da Juçara Marçal, pra citar alguns. Acho que essa é nossa grande contribuição à música brasileira.

No ano passado, você emprestou uma composição para os curitibanos da Banda Mais Bonita da Cidade. Creio que essa interação com outros lugares, e até mesmo com outros gêneros musicais, mostra um artista que deixou de simplesmente ser inspirado por outros para se tornar uma referência. Inspirar outros artistas é sentir um “dever cumprido”?

Fico muito honrado que outros artistas se interessem por minha música, de verdade. Mas no caso da gravação da Banda Mais Bonita da Cidade a canção que eles escolheram não é minha. “Olhos da Cara”, que abre meu último disco “Um Labirinto Em Cada Pé”, interpretada lindamente à capela pela Dona Inah, é uma canção só do Nuno. Não deixa de ser curioso que uma canção de um outro autor e cantada por outra pessoa, seja identificada como uma canção minha. Mostra o quanto minha personalidade artística já se consolidou.

Você participou, através de versos, do primeiro álbum em carreira solo da Juçara Marçal – o qual considero o melhor disco brasileiro de 2014, até agora. Não foram poucos, aliás, os trabalhos de alta qualidade em que você, de alguma forma, participou… Como um defensor ferrenho da nova geração da MPB, o que você diria àquela pessoa que pensa que “a música brasileira morreu”?

Eu diria para ela ficar calada, sob o risco de se passar por tola. Pra ficar apenas no Encarnado, álbum da Juçara Marçal que você citou e do qual tenho a honra de participar com duas canções, ele não é somente um dos maiores discos lançados em 2014, é um dos maiores discos lançados em qualquer tempo! Se ele terá um reconhecimento a altura da Juçara e sua grande música, como mencionei anteriormente, não está ao alcance dela. Mas posso afirmar sem medo de errar na previsão que aquele que, por preguiça ou preconceito, deixar de ouví-lo, perderá um dos acontecimentos mais marcantes em toda a história da música brasileira.

O RPblogging agradece imensamente a participação de Romulo Fróes.

Lista: Os 30 Melhores Álbuns Nacionais de 2013 [10-01]

Os 30 Melhores Álbuns Nacionais de 2013

[30-21] [20-11] [10-01]

Museu de Arte Moderna10. Museu de Arte Moderna – Bonifrate

Gênero: Folk Psicodélico

O psicodelismo sempre encontrou uma boa morada nas mãos de Marcelo Bonifrate. Adepto das viagens coloridas, o líder do Supercordas faz de sua carreira solo uma extensão dos experimentos de sua banda, encarando, em cada passeio sonoro, as mais fantásticas concepções. Em seu mais novo disco, “Museu de Arte Moderna”, Bonifrate continua a vagar pelas vias lisérgicas, mas encarando, em cada canção, um significado de novidade… É como se o músico, sentindo-se com totais condições de evoluir, topasse rumar por novos caminhos.

Ao mesmo tempo em que brinca com velharias, “Museu de Arte Moderna”, como seu próprio título pode transparecer, abraça novas concepções. Indo além do folk psicodélico de outrora, Bonifrate abraça diversas vertentes, brinca de Bob Marley e tromba com os australianos do Tame Impala. Mesmo que a estética Lo-Fi ainda se mostre presente, o músico se mostra aberto a novas concepções, fazendo de seu novo trabalho um claro exercício de superação.

Até mesmo as atmosferas hipnotizantes alcançam novos níveis. Surpreendendo o ouvinte a cada faixa, “Museu de Arte Moderna” faz os cenários campestres em que Bonifrate costumava caminhar se transformarem em centros urbanos. Embora as aventuras do músico continuem chapadas, agora elas se concentram em ruas rodeadas por muros e paredes. Afinal, o folk também pode ser urbano, e a música inspirada no velho cancioneiro não precisa se prender aos pastos e plantações.

Solana09. Veneza – Solana

Gênero: Indie Rock

Um sentimento de dualidade envolve o terceiro álbum da banda Solana. Ainda que represente o ápice artístico do grupo capixaba, “Veneza” marca a saída do vocalista Juliano Gauche, que decidiu investir em sua carreira solo. Saindo do Espírito Santo e estabelecendo-se na capital paulista, Gauche acabou se aproximando de Tatá Aeroplano (que se tornou o seu produtor artístico), Peri Pane e Junior Boca. O processo de gravação de “Veneza” foi complicado, durou cinco anos e alguns até duvidaram que, algum dia, o disco seria lançado… Gauche sentiu que não conseguiu levar a banda até onde gostaria, e a melancolia poderia abater as águas de “Veneza”.

Mas, felizmente, não é isso o que acontece. O clima de despedida de Gauche pode até ser sentido, mas ao abrir espaço para o senso composicional de todos os integrantes, o álbum abre-se a uma fluidez que só pode caracterizar o auge do conjunto. Entrosados, os músicos experimentam novos caminhos, brincam com sua própria essência, aproximam a grande distância que havia entre os dois discos anteriores e enfrentam os novos rumos da música brasileira. Entendem que o conterrâneo Silva está ditando as regras, e que o indie rock se transformou. Ainda que o Solana continue renovando velharias, o que “Veneza” apresenta é um constante sentimento de que tudo gira em torno de novidades. Se o registro demorou cinco anos para ser finalizado, esses últimos anos parecem ter sido convertidos na nova música do Solana.

Cavalo08. Cavalo – Rodrigo Amarante

Gênero: MPB

Depois de marcar época no Los Hermanos, flertar com o samba na Orquestra Imperial e excursionar pelo mundo com o Little Joy, Rodrigo Amarante finalmente nos apresenta o seu primeiro e tão aguardado trabalho solo. Resultado natural do que o músico vem desenvolvendo nos últimos anos, “Cavalo” aconchega onze belas composições em um ambiente especialmente intimista, tímido apesar da grande bagagem musical que o constrói. De olhos atentos ao que acontece lá fora e aqui no Brasil, Amarante sente-se à vontade para explorar os novos rumos da música alternativa, mas sem se esquecer das velharias que vem acompanhando a sua carreira há algum tempo: existem, durante o disco, pequenos toques de samba, bossa-nova e até mesmo do quase esquecido indie rock, mas tudo devidamente alocado em um cenário que acrescenta novidade à carreira do compositor.

Produzido por Noah Georgeson (que já trabalhou com Joanna Newsom, Devandra Banhart e com o próprio Amarante no disco do Little Joy), o álbum é guiado por uma estrutura Lo-Fi especialmente atmosférica, bordando texturas e desenhando paisagens através das singelas composições do músico carioca. São onze canções sensíveis, agradáveis, que a todo momento nos remetem à grande capacidade do músico em construir belos ambientes sonoros. Esqueça-se, porém, dos rumos que a música de Amarante tomava na época do Los Hermanos: “Cavalo” não é um disco de rock, sem trazer aqueles números amargos e/ou intrigantes. Uma ruptura já esperada, já anunciada por Marcelo Camelo em seus dois primeiros discos e seguida, de forma natural, por seu antigo companheiro de banda. Pode-se dizer, com isso, que “Cavalo” é o primeiro álbum solo que de Amarante se esperava.

Até porque, se na década passada o músico participou ativamente na construção dos novos rumos da música brasileira, agora ele deseja apenas contemplar os caminhos que ajudou a construir. Antes apegado aos ruídos, aos riffs de guitarra, agora Amarante demonstra estar agarrado em concepções serenas, sutis, amparadas por pequenas seções instrumentais, letras singelas e ambientes suaves. (Leia a resenha completa do disco)

O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui07. O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui – Emicida

Gênero: Hip Hop

Toda a enorme expectativa criada em torno do primeiro álbum “de verdade” de Emicida é atendida com louvor em “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”. Apresentando definitivamente o rapper ao grande público, e servindo como uma representação clara do ótimo momento que o hip hop nacional atravessa, o disco, resultado de toda a maturidade alcançada pelo músico ao longo dos últimos anos, acaba se comportando como um clássico imediato: no fim das contas, o que todos esperavam.

Construído sob o conceito do “milionário do sonho”, “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui” é resultado da união artística de Emicida com a poetisa Eliza Lucinda. Do início ao fim, o disco é a exploração dos sonhos (utópicos ou até mesmo já realizados) de uma pessoa que nasceu na periferia, cresceu órfão de pai e acabou se tornando um dos músicos mais respeitados do Brasil. É o Leandro Roque de Oliveira falando sobre o Emicida, e vice-versa.

De brinde, o rapper expande seu leque de possibilidades. Acompanhando o trabalho de Criolo, Emicida abraça novas vertentes ao flertar com a MPB, com o samba e até com a música pop, esforço que se torna aparente nas participações de Tulipa Ruiz, Quinteto em Preto e Branco e Pitty. Sem medo de experimentar, e alcançando o mesmo teor universal de clássicos contemporâneos como “Nó na Orelha” e “Ainda Bem que Eu Segui as Batidas do Meu Coração”, Emicida se abre a novos públicos mesmo sem abandonar as suas origens… É a necessária faceta aventureira do hip hop atual em uma de suas mais brilhantes concepções. Ninguém pode negar que, nos últimos três anos, o ápice do gênero no Brasil paira sobre nós.

Serviço06. Serviço – Castello Branco

Gênero: MPB

O primeiro disco de Lucas Castello Branco em carreira solo detém um título perfeito: “Serviço”. “Essa foi a palavra que mais ouvi na minha infância”, logo vai entregando o músico no texto que apresenta o álbum em seu site oficial. Criado em um monastério, o compositor mineiro radicado no Rio de Janeiro entrega, agora, a sua nova religião. Não necessariamente um rompimento com o passado, mas uma nova perspectiva sobre as coisas que envolvem o presente. As crenças de Castello Branco são tradicionais, mas ganham um novo significado quando exploradas pelo maior dos dogmas do músico: a sua própria música.

O campo é verde, o céu é azul, as paisagens são puras e nosso personagem ostenta uma barba. Ambientado em um cenário rural, com a estrutura pueril de um velho mosteiro que resiste à passagem do tempo, “Serviço” é, segundo palavras do próprio Castello Branco, a representação mais completa dos sentimentos de quem o compôs. Porém, sem negá-los aos ouvintes, o músico faz de suas ideias um bem universal, palavras oferecidas ao público. Mesmo os sentimentos mais escuros são, no fim, abafados pelo amor, que se torna a palavra-chave para caracterizar as emoções do registro.

Renovando velhos clichês da MPB, passando por Clube da Esquina e Novos Baianos sem soar redundante ou copioso, “Serviço” encontra em aspectos mais clássicos, até certo ponto distantes da “nova música popular brasileira”, a ambientação certeira para seu rumo bucólico, com canções de apelo matinal. Com o auxílio de colaboradores, tudo parece, porém, crescer a certo ponto em que as épocas e seus rótulos não são nada importantes. Para entender o presente, Castello Branco faz do passado o seu futuro, e vice-versa.

Grão05. Grão – Fábrica

Gênero: MPB/Indie Rock

“Grão” é uma espiral de emoções. Sentimentos bem tratados, que refletem em uma sonoridade complexa e atraente, capaz de prender o ouvinte apesar de seu lado introspectivo proeminente. Depois de trilhar um caminho mais coletivo no disco anterior da banda Fábrica, agora, no segundo registro do grupo, Emygdio Costa e seus companheiros decidiram se impregnar nas profundezas da alma do ser humano, transformando mágoas e amarguras em música para nossos ouvidos, e de forma literal. Mergulhado em um conceito experimental, que quebra a barreira dos gêneros ao fundir inúmeras vertentes sonoras, o novo disco do coletivo carioca é um álbum para ser ouvido enquanto se pensa na vida e as lágrimas escorregam no rosto.

De certa forma, ao prender-se a aspectos intimistas, “Grão” apaga todos os erros de seu antecessor. Se afastando da musicalidade óbvia do debut, que se resignava a mesclar samba e rock em um exercício de repetição, o novo álbum busca uma fuga do lugar-comum ao se estabelecer em um cenário genuinamente novo para a chamada “nova MPB”. Utilizando-se de referências pouco lembradas pelos artistas atuais, como Edu Lobo, Dorival Caymmi e Djavan, Emygdio Costa e seu louvável senso composicional partem do onírico rumo a uma dolorida realidade sentimental enquanto mesclam, com louvor, o velho e o novo. Além da forte inspiração em dinossauros da MPB, o grupo carioca não deixa de ser atingido pela música de nomes atuais.

E nessa atualidade, a inspiração mais forte de “Grão” mora em uma adaptação nada copiosa dos mesmos experimentos que vem sendo encabeçados pelos nova-iorquinos do Grizzly Bear… Um jogo atmosférico de sons, condensando camadas enquanto ritmos e melodias são interceptados na procura da mais hipnótica ambientação. Mas se a banda americana construiu sua viagem partindo das raízes folk norte-americanas, a Fábrica não deixou se levar pelas interferências gringas, produzindo um disco que é, acima de tudo, brasileiro. O que é mais tupiniquim, afinal, que o tropical encontro entre as raízes do samba e os acordes praieiros? Mesmo melancólico, e muitas vezes obscuro, “Grão” sabe explorar a natureza e o calor típicos de nosso país… Até porque não é necessário se afundar na neve do hemisfério norte para tratar da tristeza. (Leia a resenha completa do disco)

O Mais Feliz da Vida04. O Mais Feliz da Vida – A Banda Mais Bonita da Cidade

Gênero: Indie Pop

Se A Banda Mais Bonita da Cidade não havia conseguido, em seu primeiro disco, suprir as expectativas do público que havia louvado o famoso vídeo de “Oração”, elevando o grupo a um verdadeiro fenômeno musical, agora, em “O Mais Feliz da Vida”, o resultado parece ser outro. Mais segura em estabelecer-se em um caminho, sem precisar mais atirar para todos os lados, a banda enclausura-se dentro de um cenário calculado, medindo os temas e conceitos a fim de não cair no mesmo pop incerto do primeiro exemplar de sua discografia.

Emprestando o teor “conceitual” de famosas bandas do passado, como King Crimson, The Who e Pink Floyd, os paranaenses alcançam um marcante crescimento instrumental e, principalmente, lírico. Profundas, mas sem abandonar a já atestada sensibilidade, as letras presentes no álbum são capazes de nos deliciar com o seu modo singelo e austero de discutir temas complexos, como a tristeza, a solidão e a velhice. Assunto já demonstrado na capa do disco, a passagem dos anos para A Banda Mais Bonita da Cidade torna-se um ponto aberto de onde podem ser retiradas as mais profundas (ou simples) questões sobre a vida.

Bebendo do Arcade Fire de “Funeral”, influência confessa de Rodrigo Lemos, a banda alcança um resultado gratificante sem esconder suas referências. Pélico empresta aos paranaenses a faixa-título de seu último trabalho, bem como Rômulo Fróes participa da regravação de “Olhos da Cara”, composição de Nuno Ramos que já havia aparecido no disco “Um Labirinto em Cada Pé”. Além disso, o veterano Chico Neves aparece na produção da faixa-título: os toques do produtor mostram-se rápidos, porém essenciais… A canção acaba delineando a continuação do álbum, produzida por Vinícius Nisi. (Leia a resenha completa do disco)

Esses Patifes03. Esses Patifes – Ruspo

Gênero: Lo-Fi

Se as pessoas são atraídas pelas áreas mais visadas, pelos centros ditos “econômicos e culturais”, Ruspo percorre a contramão. O jornalista Ruy Sposati, aproveitando suas viagens ao interiorzão do Brasil, faz de “Esses Patifes” uma leitura inédita de uma faceta do país esquecida por muitos. Íntimo dos confrontos que envolvem a expansão agrícola e a dizimação do povo indígena, o compositor faz brotar em “Esses Patifes” uma união corajosa e informativa das experiências vividas por ele nos fundões do Brasil.

Um álbum de conceito crítico, mas que nem por isso abandona o bom humor, “Esses Patifes” tem, nas palavras de forte personalidade, a base para uma sonoridade que atrai de forma surpreendente. Levando a música Lo-Fi nacional a níveis grandiosos, Ruspo mostra que a programação em computadores caseiros não está propensa a limitações. Cada vez mais difundida, a música caseira e suas infinitas possibilidades ganham, agora, um aspecto clássico, que consegue se aproximar ao mesmo tempo da técnica e do feeling. Seja em um quarto confortável ou em uma tribo indígena onde a energia elétrica é quase inexistente, “Esses Patifes” foi sendo construído em três anos à medida em que as experiências possibilitadas pelo jornalismo atingiam Ruy Sposati.

Não é difícil perceber porque o disco impressiona. Primeiro, porque surfa em uma onda totalmente nova da MPB, que só foi popularizada no ano passado com Silva e seu “Claridão”: embora exista muita gente programando música em seu próprio computador, com instrumentos artificiais, não há como negar a existência de uma surpresa coletiva quanto a um trabalho de música Lo-Fi tupiniquim – chamada por Ruspo de “tropical”. Indo além da grande capacidade do músico em mesclar um turbilhão de sons e referências com maestria, há o encantamento pela temática: com “Esses Patifes”, você será atingido por fatos que talvez nunca haviam se mostrado significativos para outro artista. Se está na moda “lembrar os esquecidos”, Ruspo parece colocar todo mundo no bolso.

Passo Elétrico02. Passo Elétrico – Passo Torto

Gênero: MPB/Indie Rock

As dimensões quase intermináveis da cidade de São Paulo ganham uma representação formidável nas mãos do Passo Torto. Ao substituir os acordes acústicos pelas guitarras, o quarteto formado por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e Marcelo Cabral torna suas dimensões sonoras tão colossais quanto as fronteiras da capital paulista. Em “Passo Elétrico”, os versos urbanos ganham uma companhia inesperada, um paredão colossal de ritmos e ruídos que instiga o ouvinte do início ao fim.

Transformando em música o trânsito pesado, os ares poluídos, as águas sujas e a imensidão cinza de concreto, o Passo Torto faz de seu segundo disco um verdadeiro tratado sobre os sentimentos que envolvem a metrópole. Entre termos de angústia, existencialismo e melancolia, as letras brindam nossos ouvidos com caminhos tortuosos, cujo significado não é reconhecido imediatamente. Prédios com varizes e micoses, que transpiram e escarram? Nas mãos dos paulistanos, isso se torna não somente possível, como natural. Mesmo que a gente saiba identificar a atmosfera que envolve a cidade grande, o Passo Torto nos apresenta novas perspectivas.

Instrumentalmente, “Passo Elétrico” é soberbo. Com arranjos fenomenais, que pregam a desconstrução e, simultaneamente, a arquitetação de ritmos e melodias, o disco faz a guitarra de Kiko Dinucci flutuar por toda a extensão do registro em um claro sentido de inovação. Tratando o samba de uma forma moderna, elétrica e especialmente claustrofóbica, que se conecta perfeitamente com os rumos mecânicos da metrópole, “Passo Elétrico” fomenta a evolução. Ainda que a base seja formada pelos mais clássicos elementos da MPB, passeios pelo rock e pelo jazz tornam a sonoridade do álbum um toque de ampla novidade até mesmo aos ouvidos mais atentos.

Antes que Tu Conte Outra01. Antes que Tu Conte Outra – Apanhador Só

Gênero: Indie Rock

O Apanhador Só de anos atrás não existe mais. Inundada por um caráter de urgência, a banda gaúcha abandonou todos os aspectos sonoros que envolviam sua carreira até então, partindo praticamente da estaca zero para construir a sua completa evolução. Nada do primeiro disco parece ter resistido aos novos pensamentos do conjunto, e “Antes que Tu Conte Outra” surge como uma barreira que a banda topa destruir. No novo disco, o grupo faz de cada faixa um exercício pautado na inovação.

Longe de ter um conceito linear, o disco apresenta as diferentes facetas de um Apanhador Só novo e provocativo. Dentro de suas inúmeras possibilidades, que envolvem diversos temas e cenários, “Antes que Tu Conte Outra” parece querer indefinir a existência de qualquer rótulo. Se antes podíamos dizer que um “Los Hermanos gaúcho” morava dentro das impressões dos ouvintes sobre a banda, Alexandre Kupinski, Felipe Zancanaro, Fernão Angra e André Zinelli tratam de passar a lâmina nas barbas de Camelo e Amarante. As caras são novas. Parafraseando os versos da décima faixa, “Por Trás”, fica difícil identificar qual é, afinal, o peixe que a banda tá vendendo. Talvez “uma peixaria” seja a resposta mais plausível.

Se outrora havia calmaria e consolo nos versos, agora a banda deseja nos surpreender com versos sujos, que abusam de uma ironia que os dias atuais nos oferece, está na frente do nariz de todos, mas pouca gente consegue perceber. Conseguindo unir os aspectos críticos do rock oitentista com o bom humor de bandas noventistas e o “universo indie” do século atual, o Apanhador Só forjou muito mais do que um registro completo; podemos dizer que “Antes que Tu Conte Outra” é necessário. Um álbum que choca, que tem a capacidade de abrir nossos olhos. Um legítimo produto de 2013, que mesmo lançado ainda no primeiro semestre, conseguiu captar os sentimentos do ano como nenhum outro disco.