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2014: Barulho Feio – Romulo Fróes

Barulho Feio

Por: Renan Pereira

Romulo Fróes não é músico, e quem diz isso é ele mesmo. Prefere ser chamado de “compositor”, devido ao seu grande apego à canção. Não conhece as notas que toca no violão, mas é requisitado por onze entre dez bons nomes da “nova” geração que precisam de um conselho sonoro ou estilístico. Um novo… Nelson Motta? Não, ele mesmo ri da comparação. Fróes é um cara simples, que gosta de ficar com seus amigos, de ajudar e de ser ajudado. A cara da “nova cena paulistana”, que de nova realmente já tem muito pouco, e que não pode mais ser restringida apenas à capital paulista.

Tudo começou na virada do século, com as novas possibilidades que foram apresentadas através dos novos conceitos da música dita independente – que atualmente forma, no fim das contas, a única vertente “a ser lavada à sério” no nosso país. Os novos artistas passaram a lançar seus discos com suas próprias forças, sem o auxílio – e as regras – das gravadoras, em um movimento que, com a popularização da internet, apenas acelerou… e que é, hoje em dia, impossível de ser parado. E, em certa fatia, graças a Fróes e seus companheiros de “vanguarda paulistana”.

Amigos que, no quinto disco solo do compositor, voltam a se fazer presentes. Na sonoridade ruidosa de “Barulho Feio”, Thiago França parece soprar de forma aleatória, e a guitarra de Guilherme Held grita em agonia enquanto Marcelo Cabral faz de seu baixo o construtor de um muro sonoro alto e impiedoso. Em meio a esse cenário caótico, porém quase silencioso, surge Romulo Fróes a percorrer, em voz e violão, os sons da maior metrópole da América Latina. “Não Há, Mas Derruba”, a primeira faixa, é o início de uma jornada que já vai deixando claro o conceito do disco: lento, triste e difícil, o mais complexo capítulo da discografia de Fróes.

É curioso perceber que a complexidade alcançada por Fróes é produto do que há de mais simples e tradicional na MPB: o minimalismo quase silencioso do conceito “voz e violão”. Eis aí uma representação clara da paixão do compositor pela canção em seu estado mais puro, demonstrada na exploração intensa das heranças da bossa-nova e dos sambistas “tristes”, como Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho. Então estamos de frente a uma música que, no fundo, é um “grande mais do mesmo”? Muito pelo contrário: a fim de construir um resultado “novo”, Fróes pauta sua carreira na evolução, ou melhor, na desconstrução: a forma esbarrando no disforme, seguindo-se o padrão de não se ter um padrão. No fim das contas, tanto a voz quanto os acordes acústicos se perdem em meio ao “caos controlado” que se instala no disco.

A ambientação que torna “Barulho Feio”, até certo ponto, de difícil degustação ao ouvinte, parte do cenário desconstruído – tanto pelos instrumentos quanto pelos sons de fundo, gravados por Fróes em uma caminhada da Praça da República até a Catedral da Sé: buzinas de carros, gritos, pastores enlouquecidos… Os “barulhos feios” que procuram “encontrar a beleza onde não há”. E isso é de fácil percepção? Não, de jeito nenhum. “Barulho Feio” é um desafio ao modo imediatista e disperso com que a música é tratada nos dias de hoje, revelando a sua beleza apenas à medida em que as audições se sucedem. Não serão poucos os que o interromperão no meio em busca de algo mais pop, ou até que chegarão ao fim sentindo um grande vazio, o considerando “insípido, inodoro e incolor”. Pois Fróes nos obriga a ruminar o disco para que sintamos seu gosto, sua cor e seu cheiro.

Uma tarefa recompensadora. Pois além do cenário desafiador, o álbum nos oferece belas canções. Letras formidáveis, bonitas parcerias com Clima, Nuno Ramos e Alice Coutinho, poemas que são sussurrados por Fróes em grave e bom som… As faixas, na primeira audição, soam dispersas, quase inaudíveis, mas aos poucos vão ganhando uma força que surpreende. É um petardo depois de outro, mantendo o conceito central e ao mesmo tempo se montando como um passeio por várias texturas, demonstrando a habilidade de Fróes como compositor. Quando a dobradinha com Juçara Marçal surge em “Espera”, podemos até jurar que o disco, a partir dali, vai seguir um ritmo mais leve… até surgir a pesadíssima “Ó” para nos encher novamente de incertezas. De passo a passo, de esquina a esquina, de canção a canção, a intenção de Fróes é pegar o ouvinte de calças curtas.

“Barulho Feio” é ótimo. E é chato. No fim, a nossa receptividade à obra acaba sendo igualmente proporcional à paciência com que a tratamos. Talvez por exigir do público uma tarefa cada vez mais árdua em um mundo que clama por imediatismo, o disco será ignorado até por pessoas que veem com bons olhos a carreira de Fróes – tanto em trabalhos solo ou unido a Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral na banda Passo Torto. Logo, não é um trabalho que abre portas, que possa ser oferecido a quem quer ser apresentado à tão falada “nova vanguarda paulistana”. É um álbum muito particular de um artista provocante, que gosta do “difícil” não para ostentar o selo de “underground”, mas por ser sincero ao seu fardo de fazer algo novo desconstruindo o que já existe há tanto tempo.

Quem topa a tarefa, chegando ao interior da Catedral da Sé nos instantes finais de “A Luz Dói” com os ouvidos tão atentos quanto no início da jornada, verá que o tempo gasto pede ainda mais tempo, e que uma grande obra pede passagem para se apresentar. Por isso, pode ser dito que “Barulho Feio” é um disco que cresce continuamente, mas somente a quem lhe dá a oportunidade de crescer.

NOTA: 8,5

2014: Nação Zumbi – Nação Zumbi

Nação Zumbi

Por: Renan Pereira

Nesse ano de 2014, fazem duas décadas que a banda Nação Zumbi, sob a liderança do visionário Chico Science, estremeceu os alicerces da música brasileira através do clássico álbum “Da Lama ao Caos”. E é bom perceber que, em vinte anos, a banda soube se reinventar e tocar a frente mesmo com a morte de Chico, ocorrida em 1997. Desde o disco “CSNZ”, lançado um ano após o trágico ocorrido, o que mais marcou conceitualmente a banda pernambucana foi a vontade de se superar, de crescer, de aprender através das feridas o que é ser um grupo completo e experiente.

Aos poucos, a lama e os caranguejos foram dando lugar a temas mais complexos, a intensidade dos elementos de percussão foi diminuindo, e a sonoridade envolvente passou a navegar para além dos mangues de Recife. Se “Da Lama ao Caos”, bem como o igualmente clássico “Afrociberdelia”, apontavam para uma direção musical totalmente nova, misturando a música regional de Pernambuco com o funk e diversas vertentes do rock, a Nação Zumbi, em sua nova fase, busca uma maior comunicação com os ouvintes de massa, trabalhando para que nossos ouvidos não sejam pegos com grandes surpresas.

Então aquele teor irrequieto dos primeiros trabalhos não existe mais? É possível dizer que, enquanto o som tornou-se mais polido, as letras conseguiram alcançar novas facetas, distantes da crítica social pregada pela mente insana do antigo líder. O que é totalmente compreensível: se, em seu início, a Nação Zumbi lutava pelo seu lugar ao sol, tentando dar uma nova cara à imutável cena nacional, agora a banda pode se gabar de seu espaço inquestionável. Tudo mudou, e muito… Obviamente, a proposta sonora da banda também deveria se transformar. Se você não quer viver tal mudança, é melhor ir atrás de passagens que te levem de volta para os anos noventa.

É claro que a percussão enlouquecedora faz falta, bem como o olhar crítico de Chico Science. A criatividade que entorna hoje em dia o som do conjunto não é nem sombra daquela de vinte anos atrás, e nas novas canções podem ser encontrados números tranquilos e/ou até mesmo românticos… E qual é o mal disso? Os integrantes do grupo andaram nos últimos tempos envolvidos em outros projetos, coletando novas referências, e o retorno da Nação Zumbi ao estúdio demorou tanto que teve até quem duvidou que ocorreria. Os tempos passam, as opiniões mudam, o passado fica para trás e o que nos resta é seguir em frente. Por mais que as marcas fiquem, o novo deve ser abraçado, como informa metaforicamente a primeira faixa do novo disco, “Cicatriz”.

A guitarra de Lúcio Maia insere a tensão necessária para a temática da segunda faixa, “Bala Perdida”, mas a produção e os versos não ajudam… A percussão pesada não cai bem na lentidão rítmica, e uma nova metaforização acaba soando como uma sobra conceitual d’O Rappa. “O Que Te Faz Rir” é um número curioso, ameno, mas que funciona com primor, ainda que a “testosterona” tradicionalmente imposta pelo vocal de Jorge Du Peixe se faça presente. Em suma, a Nação Zumbi não precisa abandonar sua personalidade para embarcar no trabalho mais sentimental de sua carreira.

A quarta, “Defeito Perfeito”, é uma boa demonstração da excelência da Nação Zumbi em criar seções rítmicas fantásticas, com grooves excitantes: em suma, uma música que agradará os ouvintes mais sedentos por inquietação sonora. Contando com a participação de Marisa Monte nos backing vocals, “A Melhor Hora da Praia” é aquele tipo de canção que, anos atrás, você jamais imaginaria a Nação Zumbi fazendo… Interessante como a evolução sentimental dos versos é capaz de levar a sonoridade a novos cenários, muito mais próximos da MPB do que propriamente ao manguebeat. Sobra até uma leve orquestração na quinta faixa, uma canção que poderia muito bem tocar nas rádios país afora… Assim como a balada “Um Sonho”, que apesar de pouco agregar, mostra uma Nação Zumbi que até então ignorávamos.

A sétima, “Novas Auroras”, parece condensar todo esse sentimento de abertura sonora pregada pelo disco… Afinal, ainda que nos álbuns sem Chico Science (e, principalmente, no clássico “Fome de Tudo”, de 2007), a banda já mostrava a clara intenção de ser um novo grupo, com uma nova toada, nunca esse conceito havia sido tão explorado quanto no presente registro. “Nunca Te Vi” pode ser uma prova de como, cuidadosamente, os marcantes arranjos de percussão da banda podem ser bem alocados dentro dessa sonoridade mais cadenciada e sentimental.

Tudo vai indo relativamente muito bem, mas… É obvio que algo está faltando. Surpreende que, logo em um momento de agitação social inédito para as novas gerações, a Nação Zumbi tenha abandonado o seu lado mais crítico. Não seria esse o momento ideal para o grupo apresentar, mais uma vez, seu olhar ácido sobre os acontecimentos que afligem a população? Talvez Du Peixe e seus companheiros estejam ainda dentro daquela inércia política que abatia o Brasil antes de junho de 2013 – até porque o processo de construção do novo disco havia se iniciado antes dos protestos que se espalharam pelo país. Um erro? Talvez esteja mais para um “menor acerto”.

Para não espantar seus ouvintes das antigas, a última trinca de faixas de “Nação Zumbi”, o disco, massageia os ouvidos daqueles que estavam ansiosos por canções pesadas, tomadas pelas antigas influências do conjunto. Riifs velozes, batidas furiosas e todo aquele sentimento inovador que permeava os primeiros registros do grupo dão o ar da graça em “Foi de Amor”, “Cuidado” e “Pegando Fogo” – mas a lírica, em contrapartida, está totalmente inserida nos conceitos atuais. Em suma, o desfecho do álbum marca o encontro da nova com a antiga Nação Zumbi.

Apesar de se comportar como um ponto de menor destaque dentro da discografia dos pernambucanos, “Nação Zumbi” se comporta como um necessário álbum de aprendizado. A banda não poderia passar toda a sua carreira cantando a lama dos manguezais do Recife, não é verdade? Além de passar por um momento de reflexão sonora, a Nação Zumbi nos convida a pensar sobre a importância das mudanças estéticas para o futuro de uma das mais importantes bandas do país. Assim, mesmo passando longe dos maiores êxitos do manguebeat, o presente registro contém, sem dúvida nenhuma, um válido resultado artístico.

NOTA: 7,0

Entrevista: Leo Cavalcanti

Por: Renan Pereira

Se você ainda não conhece Leo Cavalcanti, é bom prestar atenção à nova entrevista do RPblogging. Um dos novos nomes de destaque da música pop nacional, o músico se destaca através de uma base sonora dançante, inteligente e abrangente.

Filho de Péricles Cavalcanti, Leo já tem muitos anos de experiência com a música, mas lançou seu primeiro disco apenas em 2010. “Religar”, no fim das contas, se comporta apenas como um abre-alas para sua obra maior, o disco “Despertador”, lançado nesse ano e aclamado por diversos setores da imprensa (incluindo o RPblogging).

Aproveitando o recente lançamento do “Despertador” e a evidência que o nome de Leo Cavalcanti pleiteia na música nacional, tivemos o prazer de entrevistá-lo. Na entrevista, Leo nos contou um pouco sobre seu início, suas influências, sobre os conceitos de seus discos e seus planos para o futuro recente.

Você começou a compor ainda muito cedo, acredito que muito por influência caseira de seu pai, o também músico Péricles Cavalcanti. Mas quando você teve a certeza de que trabalhar com música era o que você queria para o seu futuro?

Comecei a compor na minha adolescência. As primeiras canções foram sobre os amores não-correspondidos na época. A certeza de querer trabalhar com música veio antes disso. Desde criança sonhava em ser um cantor, além de astronauta, pintor, arqueólogo, arquiteto… Sempre fui um sonhador desde criança.

Meu pai foi fundamental na minha formação musical, claro. Vi todo o processo criativo dele de pertinho. E ele que meu deu, quando eu tinha 9 anos, meu primeiro violão. Foi aí que tudo começou mesmo. Comecei a perceber que música é uma linguagem natural pra mim.

Com certeza, Péricles Cavalcanti foi a sua primeira influência musical. Porém, outros nomes também devem ter te inspirado em seus primeiros passos na música… Quem são esses artistas?

Meu pai com toda a sua bagagem musical, que não era pouca. Ouvíamos de tudo em casa: de música brasileira dos anos 30 à Michael Jackson. De Bach a Beatles. De Clementina de Jesus a Ella Fitgzerald. Além disso, como nasci dentro do meio musical, sempre fui a muitos shows desde pequeninho. As primeiras coisas que me pegaram mesmo foi o flamenco de Paco de Lucia, Michael Jackson, Beatles e Jackson do Pandeiro.

O seu primeiro disco, “Religar”, exibiu uma constante exploração dos elementos do tropicalismo. É muito interessante perceber que um movimento que emergiu lá nos distantes anos sessenta continua inspirando tantos e tantos novos artistas. É possível mensurar a importância de nomes como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil para a música brasileira?

Não considero que foram explorados em especial elementos tropicalistas neste disco – pelo menos não diretamente ou intencionalmente. É claro, ninguém que faça música no Brasil passou incólume pelo tropicalismo. É algo que influenciou a todos.

Mas vejo que “Religar” vai para outros lados. É um disco totalmente da era digital, feito de samples e batidas eletrônicas. Em termos de arranjos, creio que se direciona mais para o pop eletrônico do que pra chamada MPB. A música brasileira está mais presente na estrutura da composição – e é claro, no meu violão.

E é claro: imensurável a importância desses deuses da nossa música. Ela ainda está a se expandir, inclusive.

E como é ser elogiado por artistas do nível de Caetano, Arnaldo Antunes e Fernanda Takai? Seu ego fica massageado?

Eu fico muito feliz e honrado. São artistas que admiro profundamente. Mas não tenho vontade nenhuma e nem teria sentido ficar me gabando disso. Se “ego massageado” aqui significa algo que me estimula a continuar meu trabalho – e não “ego inflado” – então, sim. É um grande estímulo para continuar, ver meu trabalho sendo admirado por eles e principalmente pelo público.

Falando em massagem, você também já se embrenhou pelo yoga e pela massoterapia. Como essas atividades interferiram no seu modo de fazer música?

Interferiram profundamente. Musica é para mim um instrumento terapêutico. Um campo onde me conecto com o sagrado em mim. Esses estudos me abriram janelas. Sou apaixonado pela fonte de sabedoria que é o Yoga. Assim como massoterapia é um terreno de ferramentas poderosíssimas. Tenho grande curiosidade e admiração por ciências que visam a integração do ser humano em todos os seus níveis (físico, energético, emocional, intelectual e espiritual). O contato com esses estudos foram marcantes e firmou minha motivação com o fazer música.

Seu último disco, de lançamento ainda recente, é denominado “Despertador”, e traz o seu “despertar” para a música pop. Qual o motivo dessa mudança de direção, abraçando nuances sonoras mais modernas?

Não vejo exatamente como uma mudança de direção, mas sim como uma evolução natural. Meu trabalho, desde “Religar”, tem direcionamento dentro do universo da música Pop. Vejo que em “Despertador”, essa direção se consolida ainda mais – principalmente por esse disco ter uma unidade conceitual e sonora mais acentuada.

No “Religar”, foi o uso dos samples, do recurso de edição digital, que norteou o disco. No “Despertador”, o uso de sintetizadores. Nos últimos tempos, tenho ficado apaixonado pelas mil e uma possibilidades do sintetizador, e o poder delas. De possibilitar arranjos com pressão, ótimos para a pista (com os baixos synth) e também transcendentais, com um certo teor “espacial”.

Minha viagem para a Alemanha, antes de gravar o disco alimentou isso também. Ouvi música eletrônica nas rádios de lá. E adoro música pop em geral que utiliza sintetizadores, de Justin Timberlake a MGMT.

Tenho vontade de explorar muitas nuances sonoras e artísticas em geral, no meu caminho. É inevitável que cada trabalho traga algo particular do momento em que estou vivendo. Quero sempre me permitir mudar e transformar a sonoridade do meu trabalho.

“Despertador” é um disco bem comunicativo, a ponto de sua música ser denominada como “pop intergalático”. Como você define, afinal, esse pop que viaja além das fronteiras do nosso planeta?

Criei esse termo inicialmente como uma brincadeira, para quem perguntasse qual o gênero de música que faço (pergunta essa que fico sempre encabulado de responder): qual o tipo de música que vc faz? Como sei que nenhuma resposta convencional vai dar a informação, resolvi brincar com isso.

É música pop que aponta para mergulhos internos, para além dos fatos da vida cotidiana concretos. São exercícios filosóficos. Quando compus essas músicas, elas serviram para isso. Elas atuam num outro plano.

A sonoridade dos sintetizadores trazem um certo teor psicodélico e transcendental que resolvi identificar como “intergaláctico”.

Mas a música pop, além de se comunicar com o grande público, precisa fugir da redundância para ser artisticamente válida. Felizmente, a sua música se comporta muito bem quanto a inovações, com semelhanças à obra recente de nomes como Silva e St. Vincent. Esses dois artistas citados realmente foram fontes de inspiração de “Despertador”? Existem outros nomes da atualidade que te levam a tentar inovar?

Não, nenhum dos dois foram fonte de inspiração pro “Despertador”. Recentemente tenho escutado muito St. Vincent e estou absolutamente fã. Mas descobri recentemente, depois de gravar o disco “Despertador”. Silva, o mesmo, venho conhecendo melhor recentemente. A produção musical do trabalho dele é incrível.

Para mim, fazer música é um desafio onde sempre gosto de buscar o desconhecido. Traçar um caminho que não seja óbvio pra mim. Tudo o que ouço acaba fazendo parte disso. De música hindu tradicional ao R&B norte-americano.

Durante a gravação de “Despertador”, os meninos da banda estavam ouvindo muito Tame Impala. E eu fui apresentado durante a gravação e “abduzido” pelo som deles. Posso dizer que, se houve alguma banda que nos inspirou durante a gravação, foi essa.

No clipe de “Get a Heart”, você mostrou que sabe dançar e atuar. Mas o papel do artista, principalmente nos dias de hoje, em que a informação é rápida, fácil, e muito próxima do público, não pode se restringir apenas à arte… “Consciência política”, por exemplo, é um conceito com o qual você se importa?

Consciência política é algo imprescindível se você quer realmente lidar com a realidade de sua época. Não dá pra ignorar as estruturas decadentes e desequilibradas que norteiam nossa sociedade se você quer fazer um trabalho artístico realmente consistente.

Cada vez mais percebo que o que se chama de “arte” é algo tão amplo e potente, que fica difícil de limitar suas fronteiras. Percebo que inevitavelmente, quem faz arte, acaba se posicionando em outras áreas também, nem que seja de forma subjetiva, nem que não se pretenda fazer isso. Sua reverberação pode ser altamente transformadora, mudando todo o cenário a nossa volta. A arte atua no campo subjetivo, o que é fundamental para qualquer mudança objetiva que quisermos realizar.

Todos nós artistas somos, no fundo, ativistas. E é importante que, nesses tempos, possamos nos utilizar dessa virtude, cada vez mais.

Procuro me posicionar em tudo aquilo onde sinto propriedade em fazê-lo. Questões relativas a direitos humanos básicos e meio ambiente são assuntos que me envolvem e considero fundamentais. Mas ainda sinto que posso ir muito mais longe, no que tange esse assunto. Quero cada vez mais somar minha força a movimentos que considero ser realmente construtivos para a transformação dos velhos padrões limitantes que estão regendo ainda nossa sociedade.

Agora, depois de tanto trabalho para lançar o seu segundo disco, é hora de promovê-lo. “Despertador” terá a sua turnê pelo país? Reproduzir ao-vivo a salada sonora do álbum, com direito a muitos efeitos eletrônicos, é um desafio?

Estamos nesse desafio de criar oportunidades para o “Despertador” rodar o país o máximo possível. É o meu desejo tocar o máximo que der.

O show é o disco ampliado. Como o disco foi gravado quase todo ao vivo, não foi tão difícil trazer este resultado pro palco. Alguns arranjos mudaram e cresceram, ficou muito bom. Esse show é visualmente muito forte também. As projeções de imagens são protagonistas. Tem coreografia de dança no show, eu me expresso fortemente pela dança – e a ideia é cada vez mais trazer a dança pro meu trabalho. Eu diria que o show tem o aspecto intergaláctico do disco ainda mais acentuado. É uma experiência forte assisti-lo, isso eu posso afirmar.

Agradecemos imensamente a participação de Leo Cavalcanti. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “Despertador”, o novo álbum do músico.

Experimente: O sabor da Carne Doce

Por: Renan Pereira

Goiânia tem nos reservado, nos últimos tempos, gratas surpresas musicais… Não, caro leitor, este blog não se vendeu, pois não estamos falando de música sertaneja. Estamos citando, na verdade, projetos da maior qualidade musical. Afinal, até que enfim, o público começa a olhar para a música feita na capital do estado de Goiás com menos preconceito.

Pois bem, eis que, em um cenário repleto de grupos emergentes como Cambriana, Banda Uó, Boogarins e Black Drawing Chalk, surgem Macloys Aquino e Salma Jô com uma das bandas mais saborosas da atualidade: a Carne Doce. Surgido em 2012, o projeto traz na vida íntima do casal seu grande diferencial, portando-se como uma colaboração musical que vai além do “horário comercial”. Macloys e Salma dormem e acordam juntos, o que acaba tornando a Carne Doce um dos projetos mais sinceros do cenário atual.

Repleta de sonoridades setentistas, a banda lançou o seu primeiro EP, intitulado “Dos Namorados”, em abril de 2013. É tida atualmente, pela mídia especializada, como uma das grandes apostas musicais para esse ano, bem como planeja seu primeiro disco de longa duração, agora com a companhia de João Victor e Ricardo Machado. Enquanto aguardamos o primeiro disco da Carne Doce, conferimos a entrevista que a banda concedeu ao RPblogging. As repostas são da vocalista Salma Jô.

Quando surgiu a ideia de transformar o casal Macloys Aquino e Salma Jô em um projeto musical?

No final de 2012, quando ficamos sem bandas. Já éramos um casal há três anos, o Mac tocava na Mersault e a Máquina de Escrever e eu cantava numa banda setentista, a The Galo Power. A banda dele acabou e eu saí da minha. Não me recordo se quando mostrei a primeira letra já tínhamos em mente publicar esse projeto, mas em poucos meses a gente já tinha as canções do EP e outras.

Por que o nome “Carne Doce”?

Nós pensamos em vários nomes, vários mesmo. Um dia chegamos nessa combinação dessas duas palavras e gostamos demais. Não tem um sentido especial, mas gostamos. O contraste entre carne e doce lembra os contrastes que a gente busca, entre ser atrevido e cúmplice, pesado e suave, entre fazer um som mais pop e ao mesmo tempo estranho. Gostamos também dos sentidos que as pessoas acham pro nome. Já perguntaram se carne doce era carne de mulher, ou de gente, se tinha alguma relação com a nossa alimentação. Intrigar é uma coisa que nos agrada.

No primeiro EP da banda, denominado “Dos Namorados”, observa-se uma constante inspiração no tropicalismo e nas grandes bandas brasileiras dos anos setenta – uma toada que dá novamente as caras na última música lançada por vocês, “Sertão Urbano”. Esse é um ambiente sonoro que permeará o primeiro disco de longa duração da Carne Doce?

Chico, Caetano e Gil são referências mais fortes pra mim que Mutantes, Novos Baianos, Secos e Molhados. Numa entrevista recente, Andre Midani disse sobre como esse coquetel (Chico, Caetano e Gil) é um engodo, “um engodo feliz, mas um engodo”, e eu tenho ciência e estou trabalhando nisso (risos). Já o Mac tem uma pegada rock oitentista. O João Victor e o Ricardo tem referências muito ecléticas, embora pontuais na música brasileira… Mas não temos o tropicalismo como referência, apesar de gostarmos de ritmos brasileiros misturados com rock.

Quais foram os motivos que levaram às recentes entradas de João Victor e Ricardo Machado ao grupo?

Entre as últimas semanas de dezembro e as primeiras de janeiro deste ano, nos aproximamos do Benke e do Raphael, que são guitarrista e baixista da Boogarins e também da Luziluzia, uma das bandas mais interessantes da cidade. João Victor e Ricardo Machado são da Luziluzia e então nos encontramos, nos identificamos como banda e como amigos. Os ensaios fluíram demais, as músicas foram rearranjadas, realçadas, ganharam mais dinâmica, mais ritmo e tudo favoreceu a composição de músicas novas, que estarão em nosso primeiro álbum.

Goiânia tem evoluído musicalmente nos últimos anos – ao ponto da cidade deixar de ser apenas conhecida como um reduto de duplas sertanejas. Os Boogarins já estão fazendo shows lá fora, tiveram seu disco resenhado pela Pitchfork, a Black Drawing Chalks já é uma banda respeitadíssima no cenário musical, a Cambriana é uma das grandes promessas da música alternativa… A que vocês creditam essa crescente altamente positiva?

Tenho receio de dizer que isso é resultado de uma evolução musical e faltar o respeito com o talento das outras gerações e das limitações que enfrentaram.

Boogarins, Black Drawing Chalks, Cambriana, Hellbenders e mesmo Banda Uó, bandas que “estão na mídia” e fazendo sucesso, trabalharam para isso, capricharam nos seus produtos, fizeram bons trabalhos de assessoria e marketing, e tiraram proveito das ferramentas que temos hoje mais à mão, de softwares de gravação às redes sociais. Os Boogarins, por exemplo, já eram grandes quando a imprensa nacional acordou para isso, e eles tem a favor deles o interesse dos estrangeiros na psicodelia e na canção brasileira, mas foi preciso a competência e a ousadia em gravar e distribuir sua música.

Falando em Boogarins, vocês têm feito alguns sons com eles nos últimos meses… Como é trabalhar com esses caras, que cresceram de uma forma tão meteórica, e hoje formam uma das bandas mais hypadas do Brasil?

A gente até gostaria de dizer que fizemos uns sons com o Boogarins, que trabalhamos juntos, mas a verdade é que só colaboramos em “Benzin”, uma canção do Dinho, que eles publicaram recentemente através do “Is Your Clam in a Jam?”.

No final do ano passado e começo deste 2014, ficamos muito próximos do Benke e do Dinho (guitarrista e vocalista do Boogarins). Passamos algumas tardes juntos conversando sobre os nossos planos, improvisando, mostrando o que tanto nós como eles estavam fazendo, experimentando músicas do Carne Doce e essa “Benzin”, aprendendo muito, e de brincadeira, entre laricas e banhos de piscina.

Aí nos aproximamos do Raphael (baixista), e nos apaixonamos por ele também. Benke, Dinho, Raphael e Hans, eles estão hypados, mas são, antes disso, muito tranquilos, humildes, amigos, generosos, divertidos, boa gente mesmo.

Não sei se vamos trabalhar juntos ainda, não sabemos quão grandes serão os Boogarins, se a agenda deles vai deixar, mas adoraríamos. Nossa rápida experiência com eles já nos fez muito bem.

Momento invasão de privacidade: mas afinal, quem manda na banda: o Macloys ou a Salma? E em casa?

A casa se confunde com a banda, porque estamos sempre pensando nas músicas, shows ou produções na hora de comer, de deitar. E também porque ensaiamos em casa, os meninos estão sempre aqui… Mas “mandar” me parece uma palavra injusta, porque a gente decide em conjunto, na banda e em casa.

Há já alguma definição de data de lançamento do primeiro disco do projeto?

Ainda não. Mas vamos começar a gravar em julho.

Como vocês definem o seu som?

Não definimos e já estamos tranquilos com não saber definir, queremos saber é como você define nosso som. Mas, se insistir, a gente pode responder como a Trupe Chá de Boldo: “o som é só uma onda… curta”, hehehe.

2014: Vista Pro Mar – Silva

Vista Pro Mar

Por: Renan Pereira

Embora venha sendo encarado, pela maioria da crítica especializada, como um “álbum de crescimento”, “Vista Pro Mar”, o segundo disco do capixaba Silva, deve ser encarado através de outra ótica. Até porque são muitas as diferenças entre o presente registro e  o álbum de estreia do músico, “Claridão”. Que Silva cresceu, evoluiu, isso é mais do que óbvio – e é, na verdade, um processo totalmente natural para um jovem que, logo em seu primeiro disco, foi rotulado como um dos grandes nomes da nova safra de artistas brasileiros. Seu público aumentou muito, e de um desconhecido promissor, ele acabou se tornando o grande queridinho dos hipsters: se faltava algo para atestar o crescimento de sua popularidade, a participação do músico na última edição do festival Lollapalooza serviu para mostrar que, hoje em dia, Lúcio Silva Souza é um nome respeitado dentro do cenário pop tupiniquim.

As mudanças, porém, não se concentram apenas na forma com que o público (e até mesmo a crítica) olha para Silva. Enquanto “Claridão” se comportava como uma grande novidade dentro da música brasileira, trazendo para nossas paisagens um estilo de música pop que há um bom tempo já estava sendo feita no exterior, “Vista Pro Mar” é um ponto de continuação. Tentando se desfazer do precipitado rótulo de “experimental” que recebera em seu primeiro trabalho, Silva agora parece querer brincar com as maiores tradições da música destinada às massas sem que o ouvinte possa ser pego de surpresa. Em suma, não há desafios. O que anos atrás era inédito e pulsante agora é convertido em cenários bucólicos, em paisagens sonoras que são bordadas voltando-se à contemplação.

O título do álbum já entrega sobre qual atmosfera Silva está investindo: um registro veranil, “Vista Pro Mar” é resultado de um sereno olhar para o oceano, trazendo à tona todos os sentimentos que a brisa litorânea é capaz de amplificar. Em meio às batidas das ondas e ao som das gaivotas, o músico divaga sobre o amor com a mesma sinceridade que, em 2012, ele parecia musicar aquele ano em que muita gente jurava que o mundo acabaria.

Portanto, se você deseja embarcar em “Vista Pro Mar”, se prepare para encarar em um trabalho confortante, de fácil audição, e que certamente te fará relaxar. Entre batidas modernas e uma melodia cantarolável surge a primeira faixa, iniciando os trabalhos de maneira competente: bastam os primeiros segundos para sentir o clima que embalará todo o registro. Silva é um ótimo cantor e, principalmente, um exímio produtor, manejando os sintetizadores de maneira inteligente, sabendo prender a atenção do ouvinte. Há quem reclame de suas letras simples – e em “Vista Pro Mar” elas estão, de fato, ainda mais simples. Mas quem disse que o simples não pode ser sofisticado? A poesia de Silva pode até não ser tão rebuscada, mas funciona perfeitamente como uma “acompanhante” para seus atraentes rumos sonoros.

Conhecendo a atmosfera do trabalho, o ouvinte se encontra pronto para percorrer um registro marcado por uma sonoridade tranquila, de fácil audição até para quem está musicalmente desatualizado. Não é surpreendente que haja, dessa forma, um constante sentimento de nostalgia: Silva faz uso de referências não tão novas para construir um som que é, inegavelmente novo. “Atual” é um adjetivo correto, mesmo quando canções como “É Preciso Dizer” se embebedam de referências oitentistas. Um single de potencial, a segunda faixa trabalha como uma boa canalizadora de emoções para a dança leve de “Janeiro” e seu positivismo harmônico.

Em um trabalho tão bonito, construído para ser uma adorável audição em um clima litorâneo, não poderia faltar aquele sentimento único de observar o mar durante o pôr-do-sol do último dia de férias: mais do que um tratado sobre a saudade de um momento que ainda não acabou, “Entardecer” dá ênfase à bela contemplação que foi presenciada. Com a companhia da doce voz de Fernanda Takai, Silva faz da quinta faixa, “Okinawa”, a canção mais linear do disco: uma simples música de amor, com palavras simplórias, mas que funciona com primor – principalmente devido ao casamento perfeito entre as vozes dos cantores.

É importante dizer que um dos maiores êxitos do disco está na forma com que Silva utiliza seu recolhimento como um bem público, fazendo de seus mais íntimos momentos matérias-primas de um catálogo de canções oferecidas aos ouvintes; mesmo se isolando em uma praia, o músico sabe como nos atingir. Vide a canção “Disco Novo”, com uma analogia que mostra como geralmente a pressão por um novo lançamento atinge os iniciantes que se dão bem em seu álbum de estreia… Se Silva estava sendo “pressionado” para lançar algo ao nível de “Claridão”, ele encontra na naturalidade o ponto a ser explorado: “Vamos, vem ouvir”, ele convida, encarando um novo disco como uma abertura para novos sentimentos. Todo esse teor de novidade, porém, acaba encontrando maior significado em “Universo”, quiçá a melhor faixa do álbum: um número altamente dinâmico, rico em detalhes, que nos dá a certeza sobre a evolução de Silva como produtor.

Outro turbilhão sonoro abraça o ouvinte em “Volta”, com mais uma certificação da habilidade do músico nos sintetizadores, perfazendo mais uma canção levemente dançante… Conceito que é abandonado brevemente quando surge a nona faixa, “Ainda”, composta por arranjos acústicos, e ambientada na máxima introspecção do disco – que, de certa forma, se comporta como um ponto fora da curva. Mas o respiro dura pouco, e em “Capuba”, a “eletrônica praieira” de “Vista Pro Mar” retorna com tudo, em mais uma ótima concepção de arranjos.

Interessante perceber que, embora seja mantido sempre na mesma temática, nas mesmas ambientações, “Vista Pro Mar” chega ao seu desfecho, com a canção “Maré”, sem enjoar o ouvinte. Na verdade, não seria de nada ruim se houvesse ainda mais duas faixas a explorar o conceito central: prova de que as fichas apostadas por Silva deram um bom resultado. Mesmo construindo um disco que não instiga, não surpreende, o músico parece ter acertado em todas as suas escolhas, querendo deixar claro que nem só de inventos pode viver um grande trabalho.

Até por isso, o presente registro não se comporta como um clássico – algo que “Claridão” só é devido ao contexto da época em que fora lançado. Mas Silva não quis fazer de “Vista Pro Mar” um grande clássico da música. Segundo o próprio, este disco foi criado em um momento diferente, sob circunstâncias distintas e, obviamente, com outras intenções. Portanto, para entender o álbum, é necessário vê-lo como um inofensivo produto da nova música pop brasileira, um álbum tranquilo que oferece ao público, a todo instante, melodias cativantes e palavras bonitas, diminuindo as pretensões a fim de alcançar uma fácil afinidade com o ouvinte. Se você esperava que Silva fosse te surpreender, acabará abismado justamente por ele não ter surpreendido.

Sim, o caminho tomado pelo músico é reto, límpido, fácil de seguir. Aí vem a pergunta: um grande artista precisa se arriscar? Nem sempre. O público de massa prefere músicas que possam ser facilmente digeridas, e quem pensa que a complexidade é um ponto-chave para construir um grande trabalho deve começar a aprender o que é a música pop. Para nossa sorte, disso Silva parece saber muito bem.

NOTA: 8,3

2014: Encarnado – Juçara Marçal

Encarnado

Por: Renan Pereira

Apesar de “Encarnado” significar o início de uma carreira solo, Juçara Marçal passa longe de ser uma estreante. Experiente, há mais de vinte anos trabalhando em prol da música alternativa paulistana, emprestando sua voz para projetos como Vésper, A Barca e o aclamado Metá Metá, a cantora acumula toda essa vivência para construir, no primeiro disco que carrega o seu nome no título, um trabalho mais do que simplesmente convincente. Uma obra-prima, “Encarnado” surge como um capítulo fundamental dos novos rumos da música brasileira.

Se o fato de compreender o primeiro exemplar da discografia solo de uma grande intérprete já não bastasse, “Encarnado” se comporta como a maior obra já produzida por um incansável núcleo criativo que renova, já há algum tempo, a MPB produzida na cidade de São Paulo. Composto por nomes como Kiko Dinucci, Romulo Fróes e Thiago França, por exemplo, esse aglomerado de artistas com ideais partilhados tem se especializado em construir verdadeiros colossos em estúdio nos últimos anos… Os discos “Metal Metal”, do Metá Metá, e “Passo Elétrico”, do Passo Torto, são apenas dois exemplos da extrema competência que envolve essa turma.

Sendo uma integrante desse núcleo, Juçara Marçal utiliza com propriedade um conglomerado de referências da Vanguarda Paulista para costurar seu álbum de estreia. Seja com referências diretas a velhos nomes, como Itamar Assumpção e Tom Zé, ou com a utilização da sonoridade ruidosa que envolve o grupo Passo Torto, Juçara faz de “Encarnado” muito mais uma continuação dos inventos de um movimento do que um simples “início”.

Até porque, se existe um mote que guia o pensamento da cantora neste álbum, esse é “começar pelo fim”. Sim, a morte é o tema central do disco. Mas embora carregue o título de “Encarnado” e tenha uma temática bem definida, o álbum significa, na realidade, muito mais do que música… Ainda que o conceito central seja a morte, seria um erro crasso não degustá-lo como uma grande ode à vida.

Vida que morre para renascer, reencarnar. “Não diga que estamos morrendo, hoje não”, entrega a cantora logo nos primeiros versos do disco, mostrando que apesar da chegada dos últimos suspiros, o que prende a artista à temática é a vontade de sobreviver. Uma vida maleável, frágil, incerta, que é representada com louvor pela colossal instrumentação construída por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thomas Rohrer. Aliás, tratar “Encarnado” como um trabalho só de Juçara seria um descompasso.

Mas Juçara Marçal é, obviamente, a grande estrela da obra, fato que é inserido na mente do ouvinte logo nos primeiros instantes de “Velho Amarelo”, a primeira faixa. Trabalhando para alocar a cantora em um palco do qual o espectador não desviará os olhos, a canção, composta por Rodrigo Campos, se comporta como uma apresentação perfeita do conceito da trabalho, delineando os rumos instrumentais e líricos que o embalarão em sua totalidade.

Ancorado em uma atmosfera caótica, mas que nunca se descontrola, o álbum vai entregando ao público formidáveis interpretações de Juçara ao mesmo tempo em que o tema central é encarado de diferentes maneiras por cada faixa. Na agressiva “Damião” o olhar é voltado para a vingança, enquanto em “Queimando em Língua” é uma representação romântica que embala a morte. Tudo encarado sob uma ótica arriscada e inesperada, que, segundo palavras de Romulo Fróes no release do disco, era inimaginável até mesmo para as pessoas que sempre acompanharam de perto a carreira da cantora. Juçara surpreende a todo instante, quebrando com o habitual conforto que normalmente embala a MPB.

Em “Pena Mais Que Perfeita” há a aceitação do destino, derramando lástimas enquanto o momento derradeiro é aguardado com melancolia. Única canção do álbum composta por Juçara, “Odoya” transforma a voz da cantora em um instrumento que vaga em oração, pedindo proteção para encarar o momento mais chocante do disco: uma dança com os aspectos mais violentos da morte. “Ciranda do Aborto” é a faixa central do disco, construindo com contornos épicos um número de força absurda, que assusta, espanta, e faz a artista se desmanchar em uma interpretação magistral. Monumental, a canção se candidata não apenas à melhor música desse ano, mas de muito tempo.

Um dos poucos momentos em que Juçara se agarra ao conceito pronto do Metá Metá mora na “Canção Pra Ninar Oxum”, de Douglas Germano, com suas alusões claras às heranças africanas. Em “E o Quico”, de Itamar Assumpção, a cantora se rende a suas referências da Vanguarda Paulista, brincando com a loucura no cenário de uma abdução. Outro grande artista lembrado por Juçara, Tom Zé empresta para “Encarnado” a canção “Não Tenha Ódio no Verão”, originalmente lançada no disco “Tropicália Lixo Lógico”, de 2012.

“A Velha Capa Preta”, composição de Siba, personifica a morte, tratando-a como um monstro, uma vilã, ao dizer que ela “anda no mundo vestindo mortalha escura
, e procurando a criatura que espera condenação. Quando ela encontra um cristão sem vontade de morrer, e ele implora pra viver, mas ela ordena que não”. A passagem do tempo também é fatal, e “Presente de Casamento”, apesar de se ambientar em um incêndio, é um retrato da espera da morte inevitável enquanto se está na velhice.

Na última faixa, “João Carranca”, Juçara Marçal entorpece-se de malemolência para mostrar mais uma de suas facetas: a de contadora de histórias. Na canção, é contada a saga de um garoto bonito que, após ter o rosto desconfigurado, passou a ser zombado: “E o que era belo, agora espanta, e o seu nome hoje é João Carranca”. Versos de Dinucci para um grande samba, deixando claro, no desfecho do disco, de onde vem as inspirações dos músicos que o bordaram.

A certeza que fica, no fim, é que cantando sobre a morte Juçara nunca esteve tão viva. De forma excepcional, ela passa por cima de todo o seu passado para renascer em uma nova artista, com uma nova carreira… Morrer, afinal, às vezes pode ser bom. E ao morrer em doze canções, para depois reencarnar, Juçara Marçal oferece um veneno letal àqueles que tem decretado a morte da música brasileira… esses sim não tem o direito de viver novamente.

NOTA: 9,2

Track List:

01. Velho Amarelo [04:25]

02. Damião [02:06]

03. Queimando a Língua [05:04]

04. Pena Mais Que Perfeita [04:16]

05. Odoya [02:49]

06. Ciranda do Aborto [05:40]

07. Canção Pra Ninar Oxum [03:25]

08. E o Quico [02:42]

09. Não Tenha Ódio no Verão [02:52]

10. A Velha da Capa Preta [03:47]

11. Presente de Casamento [01:18]

12. João Carranca [02:00]

Entrevista: Romulo Fróes

Por: Renan Pereira

É com um prazer imenso que o RPblogging traz Romulo Fróes como o entrevistado desse mês de março. Integrante da vanguarda paulista, e um dos mais respeitados nomes da MPB, Romulo vem construindo uma carreira consistente desde 2001, quando lançou o seu primeiro EP. Com quatro álbuns em carreira solo, e uma incrível colaboração no seminal coletivo Passo Torto, Fróes cada vez mais se consolida como um dos músicos mais completos da cena paulistana, tendo participado de grandes obras da música – mais recentemente, do já clássico “Encarnado”, de Juçara Marçal.

romulo froes

Quando foi dado o pontapé inicial da sua carreira como músico?

Minha carreira teve início como a de tantos outros músicos, montando bandas na época do colégio. Com uma dessas bandas, o Losango Cáqui, cheguei até a lançar dois discos, que foram mais importantes para me aproximar do universo em torno da música, shows, gravações, do que propriamente para enriquecer a minha obra. Em 2001 lancei um EP com apenas quatro músicas que me serviu de diretriz para o que pretendia fazer dali em diante. Mas minha estreia mesmo acho que foi com o “Calado”, meu primeiro disco solo lançado em 2004, que já trazia minhas composições em parceria com o Clima e o Nuno Ramos, parceria essa que perdura até hoje.

Quais foram os nomes que te inspiraram no início? Estes ainda te inspiram?

Desde sempre, e em meu primeiro disco ainda mais, o samba de vertente mais triste me influenciou mais do que qualquer coisa. O modelo para as minhas primeiras canções eram artistas como Paulinho da Viola, Zé Keti, Batatinha, Cartola e acima de todos, Nelson Cavaquinho. Estes artistas ainda continuam servindo de farol para a minha obra, mas minhas canções já se contaminaram de muitas outras referências, inclusive de artistas contemporâneos a mim, coisa que não acontecia em meu início de carreira.

Já fazem treze anos que você lançou seu primeiro trabalho em estúdio. Muita coisa costuma mudar em tanto tempo… O que mudou em você, como músico e como pessoa?

Puxa vida, essa é difícil. É tanta coisa que muda em sua vida em um ano, em um mês, que dirá em treze anos! Mas se pudesse me ater a um único ponto de vista, acho que o que mais se transformou em mim neste tempo todo, foram minhas expectativas em relação a minha carreira. Estou me referindo ao seu aspecto prático, ao sucesso e a minha reavaliação do que é sucesso e principalmente ao aprendizado de se construir uma obra à margem da indústria fonográfica. O que se mantém intacto em mim nesses treze anos é meu profundo compromisso com o meu trabalho, minha incansável dedicação ao ofício de compor e meu desejo irreversível de contribuir para a canção brasileira. Mas hoje sou muito mais realista com a minha condição de artista independente, já não carrego a ilusão de uma recepção maior ao meu trabalho e nem mesmo espero que a minha obra seja posicionada historicamente na música brasileira. Aprendi a abaixar as expectativas para vencer o ressentimento.

Seu senso composicional é rotulado por alguns como “poesia urbana” – e é realmente perceptível que a cidade sempre te instigou. Muito tempo atrás Adoniran Barbosa já cantava São Paulo, mas como a cidade muda constantemente, quem deseja inserir a cultura paulistana em sua música também deve mudar a todo instante… Como você vê São Paulo no presente, e de que forma ela te inspira a evoluir como letrista?

É curiosa essa associação das minhas canções com São Paulo e penso que isso se deva muito mais a minha participação no Passo Torto, grupo do qual faço parte ao lado do Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Campos. Procure em meus discos solos alguma canção que faça menção a São Paulo ou a vida das pessoas nessa cidade, você não vai achar. É claro que somos influenciados pela vida que levamos em uma cidade como São Paulo, mas minhas canções e de meus parceiros mais habituais, Clima e Nuno Ramos, não fazem referência direta a essa condição, elas são muito mais abstratas que descritivas. Se referem muito mais a sensações, pensamentos, angústias, questionamentos, sobre a própria música brasileira e sobre a vida de qualquer um, do que propriamente se referem a nós mesmos e ao nosso cotidiano. Minha inspiração vem antes da música popular brasileira de todas as épocas, que da cidade em que nasci e vivo até hoje.

O que você pode nos dizer da sua participação no Passo Torto? Se alguém me pedisse informações sobre a banda, eu começaria dizendo que se trata de um supergrupo da vanguarda paulista… É dessa forma que vocês tratam o projeto?

Sem falsa modéstia, eu pessoalmente chamo de minha pelada semanal. É onde posso relaxar e exercitar minha composição sem a responsabilidade maior que um trabalho pessoal carrega. No Passo Torto, posso, por exemplo, me arriscar mais a escrever letras, coisa que raramente acontece em meu trabalho solo. Posso também me aproximar do trabalho desses artistas que fazem parte do grupo junto comigo e por quem tenho profunda admiração, e trazer para o meu próprio trabalho tudo o que aprendo com eles. Quando digo que me sinto mais relaxado no Passo Torto, não estou dizendo que não levo o projeto a sério, muito pelo contrário. Tenho um orgulho indisfarçado pelo que eu, Kiko, Cabral e Rodrigo estamos construindo e às vezes penso que nosso segundo disco, “Passo Elétrico”, talvez seja a melhor coisa que fiz até hoje!

Para quem está atualizado com a “nova música popular brasileira”, é impossível não citar o seu nome junto a outros, como, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Juçara Marçal, dentro de um movimento de “renovação” da MPB feita em São Paulo. Mas, ao mesmo tempo, essa nova geração é muito auto-suficiente, as coisas vão simplesmente acontecendo, e fica difícil saber qual é o conceito que une esses artistas… Como você pode nos explicar esse “movimento”?

Faltou acrescentar aos artistas lembrados por você, os nomes de Marcelo Cabral e Thiago França. Este Núcleo, do qual tenho a honra de pertencer, desenvolveu meio que sem querer um modo de trabalhar em conjunto que nasceu da vontade irrefreável que todos temos em gravar discos. Um ajuda no trabalho do outro e dessa colaboração ininterrupta ainda acabam surgindo projetos paralelos como o Metá Metá, o Marginals e o Passo Torto. Não há um movimento, no sentido de haver um pensamento único em nossos trabalhos, há sim uma movimentação que como você mesmo disse é difícil de ser acompanhada. Não é comum que um mesmo núcleo criativo produza tantos trabalhos tão diversos entre si quanto o “Bahia Fantástica” do Rodrigo Campos, o “Malagueta, Perus e Bacanaço” do Thiago França e o “Encarnado” da Juçara Marçal, pra citar alguns. Acho que essa é nossa grande contribuição à música brasileira.

No ano passado, você emprestou uma composição para os curitibanos da Banda Mais Bonita da Cidade. Creio que essa interação com outros lugares, e até mesmo com outros gêneros musicais, mostra um artista que deixou de simplesmente ser inspirado por outros para se tornar uma referência. Inspirar outros artistas é sentir um “dever cumprido”?

Fico muito honrado que outros artistas se interessem por minha música, de verdade. Mas no caso da gravação da Banda Mais Bonita da Cidade a canção que eles escolheram não é minha. “Olhos da Cara”, que abre meu último disco “Um Labirinto Em Cada Pé”, interpretada lindamente à capela pela Dona Inah, é uma canção só do Nuno. Não deixa de ser curioso que uma canção de um outro autor e cantada por outra pessoa, seja identificada como uma canção minha. Mostra o quanto minha personalidade artística já se consolidou.

Você participou, através de versos, do primeiro álbum em carreira solo da Juçara Marçal – o qual considero o melhor disco brasileiro de 2014, até agora. Não foram poucos, aliás, os trabalhos de alta qualidade em que você, de alguma forma, participou… Como um defensor ferrenho da nova geração da MPB, o que você diria àquela pessoa que pensa que “a música brasileira morreu”?

Eu diria para ela ficar calada, sob o risco de se passar por tola. Pra ficar apenas no Encarnado, álbum da Juçara Marçal que você citou e do qual tenho a honra de participar com duas canções, ele não é somente um dos maiores discos lançados em 2014, é um dos maiores discos lançados em qualquer tempo! Se ele terá um reconhecimento a altura da Juçara e sua grande música, como mencionei anteriormente, não está ao alcance dela. Mas posso afirmar sem medo de errar na previsão que aquele que, por preguiça ou preconceito, deixar de ouví-lo, perderá um dos acontecimentos mais marcantes em toda a história da música brasileira.

O RPblogging agradece imensamente a participação de Romulo Fróes.

2014: Despertador – Leo Cavalcanti

Despertador

“Despertador” parece ser um daqueles discos cuja capa logo vai entregando o conceito pelo qual o trabalho é guiado. Lá está Leo Cavalcanti imerso em um cenário intergalático, fazendo-se parte integrante dessa imensidão que é o universo. Entre cores e símbolos, o músico ostenta sua barba profética, fazendo com que todo esse exoterismo faça com que o ouvinte lembre, mesmo que vagamente, dos conceitos plantados pela música pop lá nos anos sessenta e setenta…

Porém, pouco ou quase nada do presente registro soa como uma mera “revitalização” de uma base musical antiga. Mais do que o segundo exemplar da discografia de Cavalcanti, “Despertador” é a concretização de um talento que já havia sido demonstrado no álbum “Religar”, de 2010. Há agora uma maior linearidade, a exploração de um som que o músico tornou sua própria identidade, e embora a complexidade e os heterogeneidade tenham sido diminuídos em nome de uma maior aproximação com o público de massa, Cavalcanti faz do novo trabalho praticamente uma assinatura musical.

Mas para alcançar esse madurecimento como artista, não bastou ao músico a utilização dos conceitos que haviam costurado com acerto o seu primeiro disco. Ciente de que algo a mais seria necessário para quebrar a barreira da “promessa” para se tornar, enfim, uma “realidade”, Cavalcanti topou fazer de seu novo trabalho uma grande exploração de sons sintéticos. Esbarrando nos rumos eletrônicos de Silva, ou até mesmo no pop tortuoso proposto por St. Vincent, o compositor paulistano faz de uma sonoridade repleta de frescor a nova morada de seus versos cativantes.

“Despertador” abre com sua faixa-título, em que ótimas harmonias vocais constroem a ponte perfeita para ligar o conceito sonoro à lírica sutil – que engloba, aliás, todo o trabalho. Seja pela base energética, composta por batidas dançantes, ou pelo seu andamento pop, que parece se comunicar com algum hit perdido do pop-rock oitentista, a primeira faixa já parece deixar claro o acerto proeminente no qual o disco será guiado. Ainda que algumas faixas, como a segunda, “Só Digo Sim”, demonstrem uma aproximação até mesmo exagerada a uma estética simplória, são os versos sempre bem pensados de Cavalcanti que acabam ficando na mente do ouvinte… Como bem demonstra a inteligente e psicodélica “Sonho Parasita”.

A quarta, “Leve”, brinca com texturas da MPB para construir um número que mescla a todo instante o velho e o novo, como se uma canção setentista de Caetano Veloso passasse por uma remixagem. Interação que ainda fica mais clara na faixa seguinte, “Inversão do Mal”, mostrando que mesmo atento aos aspectos modernos da música, Cavalcanti nunca deixou de ser um grande admirador do tropicalismo; é aqui, afinal, que o exoterismo do disco acaba encontrando seu ponto máximo.

Se a quinta faixa fala que “a alquimia é real quando se aprende a escutar à si”, o instante de maior intimismo do álbum acaba ficando para “O Momento”, uma canção mais calma, que se encontra naturalmente envolvida em uma estrutura sentimental. Um teor melancólico que é bruscamente interrompido pelas texturas tortuosas de “Get a Heart”, única composição do álbum com letra em inglês, e que parece soar como uma colaboração de Leo Cavalcanti com Annie Clark… Mais um ponto positivo para a competente produção de Fabio Pinczowski, sempre procurando fugir do óbvio mesmo quando o assunto é música pop.

“Tudo Tem Seu Lugar” é uma  belíssima marcha de dimensões épicas, envolta por cítaras em uma ambientação etérea, retratando as idas e vindas da nossa existência: é o momento em que o músico expõe seus mais íntimos pensamentos para mostrar a naturalidade com a qual os altos e baixos da vida devem ser tratados. Ainda que “Sua Decisão (Ser Feliz e Contente)” não consiga alcançar a mesma qualidade das melhores faixas do disco, e que soe como uma espécie de auto-ajuda, seria ignorância em demasia não citar “Despertador” como um trabalho guiado pela positividade… Ainda que hajam obstáculos, dores, pedras, a mensagem passada por Leo Cavalcanti é sempre otimista.

“Amoral” encerra o disco condensando todo o conceito lírico e sonoro utilizado por Cavalcanti nas nove faixas que a antecedem… Uma contemplação final do “pop intergalático” proposto pelo artista, que assume: “É bonito constatar que este ser-disco já não me pertence, pois tem vida própria”. Leo Cavalcanti se oferece ao cosmos, mergulha no universo para fazer de seu novo trabalho um novo filho, oferecido ao público de todas as galáxias e dimensões. Ainda que seja resultado de um pop simples, confesso e de fácil degustação, é um registro que se propõe a viajar além do lugar-comum. E põe além nisso.

NOTA: 8,0

Entrevista: Ana Larousse

Por: Renan Pereira

Depois de termos iniciado a nossa seção de entrevistas no último mês de dezembro, o bom resultado nos levou a transformá-la em uma publicação mensal. Para o mês de janeiro, convidamos a curitibana Ana Larousse para ser nossa nova entrevistada. Mostrando grande disponibilidade, a cantora prontamente atendeu o pedido, e graças à rede social de Mark Zuckerberg tivemos o prazer de bater um papo com a compositora.

Durante alguns dias de mensagens trocadas, conversamos não apenas sobre a carreira da musicista. Debatendo as diferenças entre Paris e Curitiba, o estado do mercado da música ou até mesmo a importância das amizades, Ana Larousse demonstrou, com muita espontaneidade, que aquela garota sensível e de forte personalidade de “Tudo Começou Aqui” se faz sempre presente em sua vida… Afinal de contas, é ela mesma.

Tendo lançado seu primeiro disco no ano passado, e prestes a dar a luz a um projeto colaborativo com Vinícius Nisi (A Banda mais Bonita da Cidade), Ana Larousse se destaca pela forma com que transforma o seu íntimo em um bem universal, partilhando com o público suas alegrias e aflições. Sentimentos que são explorados inclusive nesta entrevista.

Ana+Larousse

Seu primeiro disco, “Tudo Começou Aqui”, é claramente o resultado de muitas experiências… Você parece ter trabalhado com imenso cuidado para que cada faixa pudesse representar um fase da sua vida: há relatos da infância, da adolescência e da Ana de hoje em dia. Foi difícil reviver as emoções do passado para gravar o disco? Na primeira música, “Vai, Menina”, dá para imaginar uma garota de 18 anos cantando, e dessa etapa da vida você já passou…

Sim. É um relato de várias fases da minha vida porque escolhi canções que foram compostas em diferentes momentos ao longo de quatro anos. Tenho muitas outras canções. Mas escolhi as que representavam fases mais importantes pra mim. Daquelas que a gente sente que mudaram algo grande dentro da gente.

Não foi difícil reviver não. Muito pelo contrário. Foi uma delícia refrescar essas memórias e trazer elas de volta pra mim. Como se fosse uma interferência minha no tempo. Colocando algo da fase que vivia quando gravei o disco em cima de outros pedaços da minha vida. Foi um encontro gostoso desses tempos. E também é gostoso cantar A Paz do Fim, por exemplo, e lembrar do quanto estava sofrendo quando escrevi e ver que superei lindamente aquela dor. Cantar uma dor superada é quase um gozo. E ao mesmo tempo é lindo ver a música e a dor se reinventando. Já tive shows em que cantei A Paz do Fim me emocionando, não pensando na pessoa pra quem eu a fiz originalmente, mas em outra. É como se a música já não fosse mais minha (visto que o momento pela qual passei ao escreve-la já passou) e eu me emocionasse com a letra como faz o público. Me sinto meio que espectadora das minhas próprias canções. Isso me dá força e tesão de continuar cantando elas. Vai, Menina eu escrevi com 22 anos. Foi meio que quando eu me dei conta MESMO de que eu passaria o resto da vida tento que cuidar de mim sozinha. Que seria eu a enfrentar o mundo todo e mais ninguém por mim. Quando eu estava em Paris, doente e tinha que eu mesma, com 39 graus de febre, descer comprar remédios, fazer meu chá e minha sopa e ainda ir trabalhar senão não tinha dinheiro no final do mês e essas coisas todas. Cansava e me assustava o fato de que seria assim pra sempre. Ainda me assusta. rs Mas a sensação de cantar ela tomou outro lugar. Assim como todas as outras. A gente vai mudando sempre e as nossas obras vão mudando junto. Pelo menos pra mim é assim. E graças a deus! (Não precisa corrigir a minúscula em deus. É intencional).

Falando em Paris… Não podemos negar que a cidade-luz é um local especial para sofrer. Existe sempre uma expectativa muito grande, que pode não ser correspondida. Há, hoje em dia, até mesmo uma “doença” a qual os especialistas dizem ser causada pelas expectativas que não se cumprem para quem visita, ou passa a morar na cidade… Você é uma pessoa simpática, comunicativa, e embarcou ainda muito jovem em uma cidade sisuda, em que o povo é mais fechado do que em Curitiba. Essa “síndrome de Paris” foi uma das grandes responsáveis para que seu lado melancólico desabrochasse?

Vários fatores em Paris foram essenciais pra construção da minha identidade artística. A melancolia que paira sobre a cidade; aquela sensção de estar num livro, num filme e não na vida real; aquela quantidade incansável de cafés, livrarias, cinemas e intelectuais. Também fala-se muito de arte e cultura e história e geografia em Paris. Isso é uma das coisas das quais mais sinto falta. Aqui, em bares, sinto que, muitas vezes, o assunto se resume a paqueras e astrologia. Isso me frustra. Sinto falta daquelas masturbações intelectuais sobre tudo. As pessoas leem muito lá e a vida de quase todo mundo meio que gira em torno da cultura e da história. Isso é lindo, empolgante e absurdamente inspirador. É como se não houvesse nada para fazer além de criar e questionar tudo o tempo todo. Continuo praticando isso aqui, mas sinto falta desse ar tomando conta da cidade. Não houve frustração nenhuma. Muito pelo contrário. Paris ganhou meu coração pra vida. É, como toda cidade, um lugar ambivalente. Às vezes encantador e às vezes cruel e hostil. Mas o que Paris tinha de hostil ela limpava lindamente com belezas infindáveis e eternas novidades. Tinha a sensação de desbravar um mundo novo todo dia. De conhecer sentimentos novos todo dia. Por quase cinco anos, diariamente, eu me renovava. Aqui me sinto mais acomodada, menos bagunçada e menos remexida.O que torna a vida mais leve, porém menos intensa e apaixonante. E eu nunca me frustro com expectativas. A partir do momento em que a gente escolhe estar sempre atento às novidades e se propõe a renovar o olhar a cada dia, a gente se adapta a qualquer situação e faz de qualquer coisa virar algo bonito e positivo. A cada dia Paris me ganhava. E a cada, hoje em dia, eu sinto falta de Paris. Quero voltar a morar lá em breve.

E não acho que as pessoas sejam mais fechadas do que em Curitiba. É diferente. É menos falso, digamos assim. Quando você cria uma relação um pouco mais íntima com alguém, é meio que pra vida, sabe? Não é empolgação de boteco e festa. E existem coisas aqui que são muito rudes como, por exemplo, você cruzar com um vizinho, dar bom dia e não ouvir nada em retorno. Ou cumprimentar alguém num elevador e receber um resmungo em troca. Lá as pessoas são bastante cordiais e prestativas. Não é festa-todo-mundo-se-amando-na-rua, mas você pode confiar quando um parisiense te diz que vai passar na tua casa na semana que vem ao meio dia. Enfim, várias coisas. É diferente. Aqui, muitas vezes, me sinto muito mais maltratada do que lá. As pessoas se respeitam menos aqui. Então é relativo. E fiz amigos pra vida por lá. Amigos irmãos que levarei pra sempre comigo. Aqui a gente tem bastante conhecido pra ir em festas, mas é mais difícil se comprometer e se engajar numa amizade mais profunda e estável. Enfim. Poderia passar anos aqui divagando sobre meu olhar sobre Paris ou Curitiba. Mas acho que já falei demais até! rs

Só sei que sou sempre a primeira a defender Paris quando surgem comentários sobre o estereótipo de que francês é mal-educado. Acho, em geral, os brasileiros muito piores nesse aspecto.

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Ainda sobre as expectativas, creio que fazer um disco com financiamento coletivo traz um sentimento diferente quanto à aceitação do público… Afinal, as pessoas que pagaram para o disco ser produzido não poderiam ser frustradas com o resultado final. Mas, no fim das contas, a receptividade do “Tudo Começou Aqui” acabou se mostrando um sucesso, e certamente as pessoas que ajudaram financeiramente na produção sentiram que aquele foi um bom investimento. Porém, há quem diga que o fato do público pagar por um produto que ele ainda não sabe do que se trata é uma inversão de valores… Como enfrentar tanta responsabilidade, e como defender o financiamento coletivo? É provável que, sem ajuda financeira de terceiros, muitos discos maravilhosos (incluindo o seu) não veriam a luz do dia…

Olha. Eu vejo um tiquinho diferente, só em um aspecto. As pessoas ajudaram, claro. Mas não foi doação de dinheiro. Tiveram alguns casos de pessoas que contribuíram sem ter escolhido recompensa alguma. Mas a maior parte das pessoas pagou por uma recompensa, ou seja, um produto. Seja um disco, dois discos, um pocket show ou um passeio na casa de “Oração”. Mas a intenção das pessoas, com certeza, era a vontade e ansiedade de ter esse disco nas mãos. De ouvir esse trabalho concretizado. Mas eu também me senti muito confiante mesmo. Porque não foi tão às escuras assim. Eu já disponibilizava várias canções que entraram no meu disco no meu Soundcloud e tinham inúmeros vídeos no Youtube aonde eu estou, em algum show, cantando essas canções. Então acho que posso dizer que boa parte do publico conhecia varias canções minhas. Eu já tinha um publico formado. Pequeno, mas um publico fiel já. E eu senti que eu não iria decepcioná-los. Porque tudo foi feito com muito cuidado mesmo. Não só por eles, mas por mim mesmo. E foi muito gostoso trabalhar num projeto com uma torcida junto. É uma sensação de impulso, como se tivesse bastante gente te carregando pra você dar conta e dar o teu melhor. Nunca vi isso como pressão ou algo assim, mas como incentivo.

O financiamento coletivo é uma das poucas maneiras que temos, hoje, nós músicos independentes, de concretizar um trabalho. Pro próximo disco, minha ideia é simplesmente fazer um caixa com dinheiro dos shows pra juntar dinheiro pra poder lançá-lo. Usei financiamento coletivo uma vez, foi uma linda experiência, mas também é bastante exaustivo e cuidar disso paralelamente a gravar um disco foi bastante puxado. Tenho visto muita gente usando isso e às vezes questiono. Porque sinto que alguns trabalhos não são tão bem construídos ou articulados. E muitos são muito pouco convidativos, com recompensas pouco interessantes. E daí acaba não dando certo pra muita gente e até banalizando o uso dessa ferramenta. Sinto que se fizesse um hoje não seria tão “fácil” arrecadar os 25.000 que arrecadamos pelo Catarse. Já não é mais novidade, já cansou. E o público se cansa muito rápido. Ainda não tenho resposta pra tua pergunta. Não sei nem se devo incentivar isso e nem se devo “desincentivar”. Confesso ainda estar tentando buscar em mim algumas respostas pra atual situação do mercado fonográfico e das possíveis maneiras de viabilizar os projetos. O momento é difícil demais em milhares de aspectos. Ainda estamos caminhando pra alguma coisa. Não tenho ideia de onde isso vai chegar. Mas vamos seguindo.

Eu quebro muito a cabeça com alguns amigos discutindo maneiras de continuar trabalhando e conseguir ganhar dinheiro. Mas é difícil. Porque a gente disponibiliza o disco pra download gratuito, então o jeito de ganhar dinheiro é vendendo discos físicos e em shows. Mas isso ainda é muito pouco. Os cachês não são altos e a venda de discos é insuficiente pra bancar os custos todos. Então o negócio é torcer pra eu vender alguma música pra algo que pague bem (risos). Ou sabe deus o quê. Vamos ver.

Ana+Larousse+Ana

Mas ganhar dinheiro com música alternativa principalmente no Brasil é algo muito difícil. Geralmente, um artista independente começa a ter uma maior visibilidade quando tem uma música tocada em uma propaganda, como aconteceu com a Mallu Magalhães e o Silva, por exemplo. Claro que quem faz música alternativa não tem como almejar “enriquecer”, quem quer ficar rico hoje em dia dentro da música parte para o sertanejo universitário. Isso acaba minguando o mercado para a música de qualidade, pois o empresário visa lucro, e seu investimento acabará sendo direcionado para propostas que vendam fácil – como duplas sertanejas, por exemplo. Ao mesmo tempo, o público massivo acaba sendo domado pelas regras impostas pelas gravadoras, e mesmo aquele artista que não coloca o dinheiro como prioridade acaba encontrando barreiras para crescer artisticamente. A maior das louvações vem do público, e quando o público está alienado o alcance de sua música acaba ficando pequeno. Como é viver pela arte, procurando fazer música de qualidade, em um sistema que vive essa situação?

Vish. Aí você me pegou. Primeiro que acho que qualquer pessoa que faz qualquer coisa visando lucro exclusivamente acaba não sendo muito feliz. Mas talvez seja romantismo meu. Eu nunca fiz nada por causa de dinheiro. As vezes que tentei eu acabei fazendo mal feito. Sou movida a paixão. Se estou apaixonada pelo trabalho eu o faço com tesão e bem feito. Se houver dinheiro nisso, aí é alegria na certa! Mas é óbvio que não sou romântica a ponto de dizer que quero viver fazendo arte sem ganhar dinheiro. Jamais! É um trabalho como qualquer outro e eu, como qualquer pessoa, tenho mil contas a pagar e vontades que exigem algum dinheiro para serem realizadas. E até para trabalhar é preciso de dinheiro. Aliás, isso é um ciclo cruel pelo qual vejo muitos artistas passando. A gente precisa de dinheiro pra gerar dinheiro pra trabalhar pra gerar dinheiro pra trabalhar e quando a gente vê, está preso num lugar onde o foco do dinheiro não está mais para viver, mas para poder trabalhar. E isso é cruel. Estou longe de encontrar em mim e no mundo uma solução pra isso. Mas eu, nessa hora, abraço meu romantismo novamente e acredito que continuando fazendo o que faço com dedicação, paixão, cuidado com o público e um bom planejamento estratégico, eu vou conseguir viver de música. Por enquanto eu vivo pela música. Mas espero logo poder aumentar o volume disso. Eu não quero também me atrever a falar pelas bandas independentes em geral. Quem sou eu pra fazer isso? Mas eu, bem especificamente, acredito que, de alguma forma vou conseguir viver pela arte e de arte. Como e quando eu não sei. Mas se eu deixar de acreditar nisso, eu entro em desespero (risos).

Mas respondendo tua pergunta: é difícil pra caralho e maravilhosamente apaixonante. Acho que pra gostar de viver assim tem que ser meio doido. Amor, paixão e perigo. Dá até nome de filme ruim.

Já que você falou em filme, eu não poderia deixar de citar nessa entrevista o belíssimo clipe de “Vai, Menina”. Como foi o processo de criação do vídeo?

Eu sonhei com esse clipe. Uma noite, eu tinha chorado bastante e quando dormi, acabei me vendo no sonho escrevendo inúmeras frases minhas (as mais tristes) e depois ficando angustiada com aquilo tudo grudado e preso em mim. Depois eu me revirava pra arrancar aquilo e, quando as frases tinham sumido, eu dançava, me jogava, me debatia num chão todo cheio de terra. E, no sonho, a música que tocava era “Vai, Menina”. Acordando, liguei pro amigo Bernardo Rocha, muito empolgada com a ideia e saímos na hora pra tomar uma cerveja e falar desse possível clipe. Ele curtiu demais a ideia e topou dirigir. Juntos, a gente adaptou algumas coisas do sonho pra elaborar o roteiro e chamamos o Rosano Mauro e o Vini Nisi pra pilotarem também as câmeras e cuidarem da direção de foto e da edição, respectivamente. Pouca coisa mudou do sonho pro resultado final. E eu fico muito feliz. Dez dias depois dessa tarde de cerveja, a gente estava em Rio Negro filmando o vídeo. Foi muito libertador viver esse sonho e, de fato, passar por aquela sensação de angústia de ver tanta coisa triste escrita no meu corpo e depois me mover sem pensar em nada, com o corpo já limpo. Pra mim, esse clipe tem tanto significado e força que eu poderia passar horas falando disso. Mas isso também estragaria a percepção de quem assiste. E eu preciso terminar dizendo que seria impossível eu ficar mais satisfeita do que estou com o resultado desse trabalho. Os meninos foram delicados e muito profissionais. Eu tenho é muita sorte de ter amigos assim.

Você credita a essa amizade o crescimento da música paranaense? Tempos atrás, até haviam bons projetos, mas que não conseguiam ir além das fronteiras do estado. Algo que agora mudou, com você, o Leo Fressato, a galera da Banda mais Bonita da Cidade, ou seja, um pessoal que se ajuda não só profissionalmente, mas que também mantém uma verdadeira amizade na vida pessoal…

Eu credito as boas amizades a toda coisa bonita que surge por aí. Nunca consegui separar o pessoal do profissional. Eu sou uma pessoa e trabalho com outras pessoas. Como é que isso poderia ser impessoal? Só pode ser impessoal uma relação onde não existe comunicação orgânica entre os envolvidos. E pouco me interessa uma “relação” assim. Trabalho com quem me comunico e com quem se comunica comigo. De forma natural e espontânea. Os interesses e paixões são divididos, compartilhados, questionados, contestados, repensados. E o envolvimento pessoal nesse ambiente profissional deixa tudo mais fluido e honesto. As pessoas com quem trabalhei ou eram meus amigos ou se tornaram amigos depois. Os encontros que não funcionaram no pessoal, digamos assim, tampouco funcionaram no profissional.

Quanto ao crescimento da música paranaense… Acho que eu e meus amigos somos apenas uma partezinha disso. Todas as cidades se comunicam muito também, então é um puxando o outro. Ninguém levantou sozinho. Ninguém está levantando sozinho. Não consigo separar muito por cidades as coisas. São encontros que vão além da geografia. E esse crescimento da música curitibana acontece porque outras cidades se abriram e se envolveram com as coisas que acontecem em Curitiba e porque Curitiba se envolveu e se abriu a outras cidades. Então é difícil dizer quem cresceu o quê, onde e porquê. As coisas estão simplesmente se movendo juntas. Seja pelo impulso, pelo empurrão ou pela rasteira.

Só sei que sem esses meus amigos eu não seria absolutamente nada profissionalmente. E acho que ninguém seria nada profissionalmente sem bons amigos trabalhando junto. Digo isso por empirismo e não por romantismo.

E quanto ao seu futuro? Pretende lançar nos próximos meses um novo trabalho, ou alguma colaboração?

Sim. Em março/abril vou lançar um EP. Eu e o Vinícius Nisi estamos trabalhando nele. É um trabalho nosso. Estamos gravando tudo sozinhos. Vai ser uma puta trabalho lindo e conceitual e com uma sonoridade bem distinta do meu primeiro disco. O público pode esperar por algo bem bonito!

Se for tão bonito quanto “Tudo Começou Aqui”, certamente vamos adorar… Seu trabalho encanta, e com a parceria de um cara como o Vinícius Nisi vamos ter, certamente, mais um “colírio para nossos ouvidos”. O RPblogging agradece imensamente a sua disponibilidade para essa que é a segunda entrevista do site. Gostaria de deixar um recado final para os leitores?

Só tenho uma coisa a dizer: LIVRO. Logo vocês vão entender.

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Créditos:

Perguntas: Renan Pereira.

Respostas: Ana Larousse.

2013: Grão – Fábrica

Grão

Por: Renan Pereira

“Grão” é uma espiral de emoções. Sentimentos bem tratados, que refletem em uma sonoridade complexa e atraente, capaz de prender o ouvinte apesar de seu lado introspectivo proeminente. Depois de trilhar um caminho mais coletivo no disco anterior da banda Fábrica, agora, no segundo registro do grupo, Emygdio Costa e seus companheiros decidiram se impregnar nas profundezas da alma do ser humano, transformando mágoas e amarguras em música para nossos ouvidos, e de forma literal. Mergulhado em um conceito experimental, que quebra a barreira dos gêneros ao fundir inúmeras vertentes sonoras, o novo disco do coletivo carioca é um álbum para ser ouvido enquanto se pensa na vida e as lágrimas escorregam no rosto.

De certa forma, ao prender-se a aspectos intimistas, “Grão” apaga todos os erros de seu antecessor. Se afastando da musicalidade óbvia do debut, que se resignava a mesclar samba e rock em um exercício de repetição, o novo álbum busca uma fuga do lugar-comum ao se estabelecer em um cenário genuinamente novo para a chamada “nova MPB”. Utilizando-se de referências pouco lembradas pelos artistas atuais, como Edu Lobo, Dorival Caymmi e Djavan, Emygdio Costa e seu louvável senso composicional partem do onírico rumo a uma dolorida realidade sentimental enquanto mesclam, com louvor, o velho e o novo. Além da forte inspiração em dinossauros da MPB, o grupo carioca não deixa de ser atingido pela música de nomes atuais.

E nessa atualidade, a inspiração mais forte de “Grão” mora em uma adaptação nada copiosa dos mesmos experimentos que vem sendo encabeçados pelos nova-iorquinos do Grizzly Bear… Um jogo atmosférico de sons, condensando camadas enquanto ritmos e melodias são interceptados na procura da mais hipnótica ambientação. Mas se a banda americana construiu sua viagem partindo das raízes folk norte-americanas, a Fábrica não deixou se levar pelas interferências gringas, produzindo um disco que é, acima de tudo, brasileiro. O que é mais tupiniquim, afinal, que o tropical encontro entre as raízes do samba e os acordes praieiros? Mesmo melancólico, e muitas vezes obscuro, “Grão” sabe explorar a natureza e o calor típicos de nosso país… Até porque não é necessário se afundar na neve do hemisfério norte para tratar da tristeza.

E a jornada do disco parte, literalmente, do “Ermo”. Já transferindo o ouvinte para a atmosfera do disco, a primeira faixa funciona como uma primeira contemplação dos cenários musicais propostos pela banda: em meio a acordes emotivos e vocalizações etéreas, a melancólica paisagem litorânea de “Grão” começa a se desenvolver. Entre concepções acústicas dançantes, extremamente brasileiras, a agradabilidade do disco é trazida à tona em “Viração”, a segunda faixa, um número “quase instrumental” que encontra nos vocais ritmados uma ponte para o público de massa. É inegável que, mesmo tratando do íntimo, o grupo sabe como dialogar com os ouvintes.

Violão e guitarra casam-se em “Mais Um” para construir magníficos arranjos, que cercam os primeiros versos do álbum… As letras, quando existem, são permeadas por versos tortuosos, especialmente herméticos, e de difícil interpretação. Como o próprio Costa já expôs, “Grão” é um disco construído inteiramente a partir de seu íntimo, refletindo seus ideais e sentimentos. É claro que quem participa do disco, como os tradicionais parceiros Cadu Tenório, Alexander Zhemchuzhnikov, Alexandre Goulart, Gabriel Feitosa e Ricardo Gameiro, agrega valor ao resultado final do registro… Mas toda a base, no fundo, parte de Emydgio Costa.

Seria “Grão”, então, um álbum solo de Costa levando apenas o nome da banda Fábrica? É possível que não, pois se o conceito é inteiramente criado pelo compositor, os detalhes ficam nas mãos de terceiros. Como ignorar Sávio de Queiroz e sua assertiva produção, por exemplo? Se as vozes e os instrumentos não fossem tratados com tanto cuidado, “Grão” não seria o ótimo disco que é. E não à toa, ele vai se caracterizando como uma das melhores produções do ano, encontrando em faixas como “Infante” (que conta com participação de Momo) e “Reposta” fantásticas interações entre acordes e ruídos.

“Partida”, a sexta faixa, borda o cenário de crianças brincando em meio a árvores, em um dia ensolarado, através de um certeiro jogo de guitarras, capaz de atestar a grande força instrumental do registro. Afinal, com poucos versos, os instrumentos têm que fazer a sua parte, não? Para tanto, os rumos estéticos do Sobre a Máquina, projeto de Emydgio Costa com Cadu Tenório e Alexander Zhemchuzhnikov, são transferidos de maneira correta para os conceitos atmosféricos de “Grão”.

Outro ponto interessante do disco é a sua capacidade de brincar com as nossas percepções. De uma hora para a outra, o que era tímido acaba se tornando grandioso, bem como o que era real, poucos segundos depois, acaba se tornando em sonho. Vagando de forma letárgica por sentimentos descontrolados, mas colhidos de modo que a música não se perca em nenhum instante, o disco vai brincando com nossas ideias de tempo e espaço. No fim das contas, tudo é muito incerto, maleável… Como são nossos sentimentos, realmente. Do início ao fim, as sonorizações arquitetam paisagens que hipnotizam o ouvinte, e faixas como “Matilha” e “Ferrugem” não deixariam de se amarrar a este conceito.

Trabalhos íntimos sempre estiveram mais ligados ao inverno; lembre-se de artistas como Nick Drake e Joni Mitchell, e perceberá que entre folhas caídas levadas por um vento gelado é que os grandes discos intimistas se ambientaram. Finalmente disposto a fazer da Fábrica um projeto ineditista, Emydgio Costa pensa diferente: o verão também pode ser triste. A nona faixa, “Verão”, demonstra claramente essa ideia, trazendo para 2013 os conceitos plantados por Dorival Caymmi lá nos primeiros suspiros da MPB. Sim, “Grão” é um disco bem atual, só que amarrado a velharias… Onde está a novidade então? No uso de conceitos que poucos artistas ousaram utilizar, como é o caso dos vocais ruidosos criados por Djavan, que voltam a aparecer com força na décima faixa do disco, a naturalística “Córrego”.

Finamente produzida, a faixa-título, que encerra o álbum, brinca com instrumentos e vozes desencontradas através de um jogo intensamente lisérgico, mostrando o turbilhão sobre o qual se encontram as nossas emoções. O descontrole é, de certa forma, natural a todos os seres humanos, e apesar de conciso, harmonizado pelo ótimo trabalho de Sávio de Queiroz como produtor, “Grão” sabe demonstrar como funciona o íntimo sentimental. No fim das contas, depois de decepcionar no ano passado, Emydgio Costa pagou todas suas dívidas ao mergulhar fundo em seu interior, transformando-o em praia para todos se banharem. Cada grão forma uma imensidão arenosa, onde podemos deitar tranquilamente para depois sermos levados por uma tempestade impiedosa.

NOTA: 8,5

Track List: (todas as faixas creditas apenas a Emydgio Costa, exceto a nona)

01. Ermo [00:48]

02. Viração [04:19]

03. Mais Um [04:28]

04. Infante [03:51]

05. Resposta [01:55]

06. Partida [03:26]

07. Matilha [02:26]

08. Ferrugem [02:15]

09. Verão (Emydgio Costa/Renata Arruda) [04:27]

10. Córrego [04:05]

11. Grão [03:06]

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