Arquivo da tag: indie rock

Entrevista: Fernando Temporão

Por: Renan Pereira

Fernando Temporão é um dos mais talentosos compositores da nova geração da música brasileira. Radicado nas tradicionais rodas de samba do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, o músico apresentou, em seu primeiro disco em carreira solo, uma sonoridade que vai muito além do samba que o lapidou.

“De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” foi eleito pelo RPblogging como uns dos 30 melhores discos nacionais de 2013 devido à abrangência deliciosamente pop com a qual o músico expôs traços de sua intimidade, quebrando com naturalidade aquele muro que sempre é construído contra o ouvinte quando o artista decide abordar seu próprio interior. Temporão fala simples, mas de coração.

Um nome emergente da música brasileira, Temporão volta a abrir a gaveta da sua alma nessa entrevista ao RPblogging. Nela, o artista nos conta um pouco mais sobre a sua carreira, partilhando também suas opiniões um pouco sobre os rumos da música alternativa feita principalmente no Rio de Janeiro.

Fernando Temporão

Como e quando você começou na música? Desde o princípio, você tinha certeza de que gostaria de seguir carreira como músico?

Tudo começou com um violão velho do meu pai que ficava lá em casa, encostado no canto. Acho que ter aquele instrumento ali, à mão, foi determinante pra tudo o que veio depois. Além do violão, meu pai sempre comprou muitos discos, ouvia música o tempo todo – em alto volume – e eu acompanhava de perto todo esse universo da chegada dos cd’s, os Lp’s, a coleção de discos antigos, os amplificadores, caixas de som, vitrolas… ainda lembro quando ele comprou nos Estados Unidos um cd-player de cartucho, onde cabiam 5 cd’s, foi uma revolução! A música era, portanto, onipresente. Em 1994, quando fiz 11 anos, pedi aos meus pais que pagassem um professor de violão, e essas aulas só aprofundaram minha curiosidade pela música. Meu professor era o Nelson Cerqueira, irmão do DJ Edinho, um cara que tocava numa banda de Ska muito bacana chamada Kongo e conhecia tudo de reggae. Eu, aos 11 anos, tinha nessas aulas, frequentemente, momentos de bate papo sobre música, política, futebol… tinha um lado bacana de tirar as músicas que eu queria saber tocar e um lado mais sério também, de estudo. O Nelson era um instrumentista exigente e lembro dele passar umas coisas do Bach, Villa-Lobos e até mesmo do João Pernambuco pra estudar. Acho que ainda sei tocar “Sons de Carrilhões”.

Então esse ambiente musical em casa foi fundamental, e ter aprendido a tocar violão com 11 anos foi bacana também porque a partir daí eu passei a ter alguma autonomia com o instrumento, passei a tirar músicas de ouvido e virar as tardes e noites todas tocando. Anos depois, na faculdade de Ciências Sociais, quando bateu uma crise e eu passei a questionar se era aquilo mesmo que queria pra mim, concluí que o que me dava mais prazer era fazer justamente o que eu já fazia todo santo dia: tocar violão, compor e cantar. Essa simples constatação afetiva me ajudou a sustentar essa opção pela música profissionalmente.

Você não vem de uma família de músicos, e por mais que haja sempre um apoio incondicional dos pais, viver de arte é algo muito complicado. Houve algum momento em que seus pais tentaram te convencer a investir em outra profissão e deixar a música pra lá?

Vir de uma família tradicional, no sentido das escolhas profissionais dos meus pais, tios e avós, é sempre mais complicado, porque todo protagonismo é traumático por natureza. Eu sou o primeiro e, por enquanto, único membro da família inteira a trabalhar e viver de arte. Tenho um irmão mais novo, Gabriel, que está estudando música e, quem sabe, siga o mesmo trilho. Mas embora o contexto familiar seja esse de um núcleo mais tradicional, sempre tive apoio dos meus pais pra seguir na música. Em nenhum momento eles sugeriram algo ou fizeram qualquer tipo de pressão pra que eu investisse em outro caminho. Na realidade, a pressão que sinto e sempre senti, no sentido de sustentar essa escolha, é minha mesmo, é uma cobrança que me faço o tempo todo.  Pode ser que essa paixão evidente pelo ofício que escolhi, tenha convencido eles desde cedo de que não haveria mesmo outra estrada pra mim e, além disso, meus pais sempre nutriram muita simpatia pelas artes, pela música… na realidade minha escolha parece ser muito mais um motivo de satisfação do que frustração pra eles. Isso me ajuda e me atrapalha. De qualquer forma, acho que normalmente as pessoas tendem a procurar um ofício que proporcione um equilíbrio entre a satisfação pessoal, o prazer, e o retorno financeiro. Só que os artistas costumam estar tão afetados por um amor e pela inevitabilidade de se fazer o que se faz, que esses cálculos pragmáticos ficam em segundo plano.

Como foi adentrar no mundo da música e perceber que, aos poucos, você estava tocando com gente importante e, mais do que isso: se tornando um artista importante?

Acho que esse tipo de percepção acontece naturalmente, com o tempo, com os acidentes e acertos da vida. Mais do que chegar em algum lugar ou atingir objetivos ou se tornar algo, o grande lance da vida é ter prazer com o que se faz, dia após dia, sem muita preocupação com as consequências disso. Em algum momento eu certamente vou fazer um apanhado de tudo o que fiz, mas por enquanto a sensação que tenho diariamente é a de que as coisas ainda estão começando e tenho tudo por fazer. Se no meio dessa caminhada toda alguém considerar minha música importante e relevante, acho que posso pensar que estou indo pro lugar certo. Eu me vejo, ainda hoje, subindo um degrauzinho a cada dia, conhecendo pessoas maravilhosas a cada dia, crescendo um pouco mais a cada erro e acerto e, principalmente, aprendendo a sobreviver entre os desafios que me são impostos por esse universo profissional da música. Mas é, de fato, muito bacana quando a gente pode trocar experiências com pessoas que admiramos e que são importantes pra nossa evolução.

Você tem uma raiz artística muito ligada ao samba. Trabalhou com o grupo Sereno da Madrugada e lançou um trabalho em parceria com o João Callado. Por que, no primeiro trabalho solo, você decidiu seguir outra trilha musical?

Essa é uma pergunta que tem sido feita com frequência e que, inclusive, deu a tônica para algumas críticas do disco. Senti algum grau de frustração em jornalistas que esperavam um disco de samba. Acho importante explicar:

Minha relação com o samba e com o universo do samba se estabeleceu inicialmente na Lapa, no comecinho dos anos 2000, quando entrei para a faculdade. Naquele momento, havia um clima muito forte de revalorização dos antigos compositores de samba e choro na mesma medida em que ocorria uma revitalização da Lapa enquanto espaço urbano, como se uma coisa alimentasse a outra. Novos espaços estavam surgindo, o circo voador estava sendo reconstruído, brotavam novas casas noturnas, a Lapa passou a ser um lugar minimamente seguro para ser frequentado à noite, os músicos estavam tendo novos espaços para trabalhar e muita gente nova (que era o meu caso) chegou junto para ver aquilo acontecer e fazer parte. Acho que havia um clima de novidade e uma sede de se conhecer os compositores antigos, os discos, as histórias, uma coisa da identidade carioca que sempre esteve no ar mas que naquele momento se cristalizou artisticamente. Nesse momento, nós que estávamos num nicho artístico mais tradicional – no caso a Lapa e a faculdade de Ciências Sociais – criamos o Sereno da Madrugada e começamos a tocar por ali, no centro da cidade, mas essa sede de música brasileira, de revalorização do baile, da gafieira, estava por todo lado, inclusive pela zona Sul, onde o pessoal da Orquestra Imperial, de um nicho artístico mais contemporâneo, também passou a fazer seus bailes de samba semanais. Eu estudava no centro, vivia tocando e vendo shows na Lapa, mas morava na Zona Sul, ia aos bailes da Orquestra Imperial, e acompanhava as carreiras do Kassin, do Domenico, do Rodrigo Amarante e cia. Ainda trabalhava na gravadora Biscoito Fino e convivi com Francis Hime, Áurea Martins, Herminio Bello de Carvalho (de quem me tornei parceiro), Luiz Melodia e uma turma da MPB. Então posso dizer que foram anos intensos de pesquisa musical, de ouvir, a cada semana, 2 ou 3 novos discos, estudar violão de 7 cordas, fazer shows com o Sereno e, em paralelo, ir aos shows do Los Hermanos, do Monarco, da Adriana Calcanhoto e do Élton Medeiros.

Então essa curiosidade pelo antigo (que não deixava de ser novidade para mim) convivia tranquilamente com o amor ao contemporâneo porque, de fato, essas coisas não competem, né? Eu compunha muito, mas poucas músicas eram sambas… e eu tentei bastante! A maioria das músicas tinha uma pegada mais pop, já naquela época. E segui assim, fazendo minhas parcerias com o pessoal da Lapa (Moyseis Marques, João Callado, Alfredo Del-Penho, Roberta Nistra, João Martins e etc…), fazendo os shows e gravando.

Agora, o disco que fiz com o Sereno se chamou “Modificado” e já apontava uma vontade importante de trazer ao samba da Lapa, sempre tão reverente, uma linguagem mais contemporânea… gravamos inclusive o ‘Samba a Dois’ do Camelo como uma forma de indicar isso. O samba título do disco, de autoria do Padeirinho da Mangueira, dizia “Vejo o samba tão modificado, que também fui obrigado a fazer modificação (…)” e isso era uma espécie de manifesto pra nós do Sereno. Acho que meu desejo de trabalhar com o novo está muito presente desde essa época e  posso afirmar que minha busca, com o Sereno, já era fazer mais ou menos o que fiz agora no disco solo… E, depois, com o fim do grupo, teve o disco com o João Callado que, embora seja um trabalho mais tradicional, com participação de muita gente bacana, não pode ser visto como um definidor de identidade, até porque as músicas são quase todas do João, e eu entrei mais como letrista para a estética daquele repertório bonito. Foram dois trabalhos compartilhados.

Quando resolvi fazer um meu, um disco solo que refletisse, portanto, quem eu sou musical e artisticamente, as músicas que estavam guardadas no baú eram essas que estão no disco, já estava tudo pronto, definido há muito tempo do ponto de vista da linguagem que eu utilizaria. Acho importante dissecar bastante os fatos nessa questão para que fique claro o quão natural foi fazer o “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”. Embora haja realmente uma diferença estética importante quando se comparam os trabalhos, não acredito em nenhum tipo de rupturas ou mudanças de trilha do ponto de vista pessoal e afetivo. A trilha desse disco é a trilha que já estava dentro de mim.

Além de trazer uma grande qualidade lírica e melódica, o disco “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” é um primor em produção. Quão grande foi a participação do time de produtores e colaboradores na sonoridade final do trabalho?

O Kassin e o Alberto Continentino foram importantíssimos nesse processo de construção da ‘cara’ do disco. Eu levei muitas idéias prontas, muitas coisas que eu queria que fossem feitas de uma forma específica, mas lá no estúdio nasceram tantas outras fundamentais sobre a forma, instrumentação, arranjo e etc. Acho que o diálogo com os produtores foi muito bacana, fluido, tranquilo, e o disco ficou da forma que eu gostaria que ficasse. E eu acredito muito nessa maneira de trabalhar, coletivamente, de ir criando enquanto se grava, sem muita responsabilidade ou necessidade de ter que estar com tudo pronto antes de chegar no estúdio. E tem a contribuição dos parceiros, do Domenico, que fez música e tocou no disco, do Mauro Aguiar, um verdadeiro gênio, um dos grandes letristas da música brasileira, do Verocai, que escreveu lindos arranjos de cordas… de um monte de gente.

Está satisfeito com a recepção do disco, tanto pela crítica quanto pelos ouvintes?

Olha, eu me sinto muito feliz. Embora eu saiba que a crítica é relativa e não define muita coisa, foi bacana a ter tido uma resposta tão positiva, em sites, revistas, blogs e etc. E o público surpreende sempre. A quantidade de pessoas que escrevem é muito grande. Hoje mesmo recebi um recado de um rapaz que queria a cifra de “O que é Bonito” para gravar um vídeo de aniversário pra noiva dele… é bacana quando as pessoas querem tocar as músicas. Eu sou muito crítico, comigo e com os outros… acho que mesmo com toda a satisfação, eu tendo a buscar outras coisas pro próximo disco. Mas tudo funcionou pra um primeiro projeto feito de maneira independente, temos quase 10 mil downloads de pessoas que foram ali, espontaneamente procurar meu som… a música tem circulado sem máquina nenhuma pra empurrar. A preocupação tem sido cada vez maior com um lado mais burocrático, esse lance de produção, e de profissionalizar a coisa toda, fazer grana pra bancar as próximas empreitadas.

No mês passado, você participou do ótimo “Cultura Livre”, da Roberta Martinelli. O ponto que talvez mais tenha surpreendido quem assistiu ao programa foi a sua indignação com a forma que a música independente vem sido tratada pelo pessoal do Rio de Janeiro. A gente percebe que a imprensa carioca está muito concentrada dentro de um único grupo de mídia, e esse grupo de mídia não parece muito interessado em abraçar o que está sendo feito atualmente dentro da MPB, exceto raríssimos casos. O apoio do poder público do Rio também é pequeno, infelizmente. O pior de tudo é que, acompanhando o cenário alternativo atual, se vê uma produção muito maior ligada a São Paulo, embora existam muitos artistas de qualidade no Rio de Janeiro – talvez até em igual proporção com a capital paulista. Como sobreviver a isso?

São vários problemas que todo artista independente precisa superar. Os governos do Rio de Janeiro, nas esferas municipal e estadual, até têm grana pra sustentar durante todo o ano, centenas de shows para artistas independentes, com remuneração digna e estrutura. Mas falta quem pense, quem elabore, quem conheça a cena e tenha tesão de fazer acontecer. A própria rede de SESC’s existe no Rio, mas não existe alguém lá dentro que consiga fazer um centésimo do que é feito em SP. Não sei se conseguiríamos fazer igual, porque a dimensão é menor, mas poderíamos fazer muito mais. Acho que o Rio sempre teve um protagonismo artístico e cultural no Brasil, por uma série de motivos, mas não basta ter uma cena brilhante, como temos hoje, se não há vontade dos jornalistas, por exemplo, de vestir a camisa. É preciso algum grau de bairrismo pra que as coisas aconteçam. Os poucos projetos que acontecem aqui na cidade, com estrutura e cachê, feitos por curadores cariocas, tem pouquíssimos artistas cariocas. Os espaços oferecidos, quando existem, são no esquema “dê o seu jeito”. Tudo contribui para que o artista desista de tocar e vá abrir uma cafeteria. Eu sempre disse que uma cena só se constrói com vontade política, porque isso é um ato politico de identidade local, e quando, ao lado dos músicos, existem jornalistas, empresários, produtores. Acho que em São Paulo houve mais vontade de fazer acontecer, além de todos os outros fatores que ajudam, como o tamanho da cidade, a quantidade de espaços e etc. Mas o último ano foi sensacional pro Rio. Espero que continue melhorando.

Creio que você seja um defensor do samba. Falando sobre o gênero, talvez no Brasil o mais culturalmente marcante de todos, ele anda mais sumido do que deveria, não é verdade? Embora ele se encontre muito fundido a outras vertentes, aquele samba mais clássico e puro parece engavetado nas estantes dos grandes compositores do passado. Por que, afinal, há essa impressão?

Acho que essa é uma questão de mídia e mercado. Existem diversos artistas talentosos que fazem samba tradicional e que, assim como a maioria dos compositores contemporâneos dessa “nova MPB”, não têm espaço pra mostrar o trabalho. Talvez a combalida Lapa seja o reduto único. Quando a gente fala de música no Brasil, acho que raramente padecemos de falta de qualidade. Se as pessoas não conseguem ouvir samba é porque as rádios não tocam, a tevê não toca e por aí vai. Existe um filtro de mercado muito perverso que privilegia, normalmente, o que é banal, popularesco, comercial. A Regina Casé está lá na tevê, todo fim de semana, com Péricles, Thiaguinho, Arlindo Cruz e Xande de Pilares. Esse é o único samba que as pessoas podem ouvir. Artistas como Marcos Sacramento e Moyseis Marques, dois dos maiores cantores de samba do Brasil, não estão no “Esquenta”. Não acho que o samba esteja sumido… quem procurar vai achar com facilidade no beco do rato, no semente, no samba do ouvidor, no renascença. O problema é que as pessoas procuram cada vez menos as coisas. E, como todo produto, é importante que as coisas cheguem até as pessoas. Só que não vai tocar no radio se não pagar jabá… na tevê idem. Dilemas que a internet não conseguirá dissolver em curto prazo, embora haja avanços.

Penso que, embora todo artista tenha aquela vontade de sair Brasil afora fazendo shows, não existam tantas oportunidades. Você planeja sair com a sua banda, levando sua música para os quatros cantos do país?

Com certeza o desejo é enorme. É muito frustrante não poder estar fisicamente em todos os espaços onde sei que a minha música é tocada. A internet é muito importante no sentido de fazer as pessoas conhecerem o som, mas elas querem mais, querem ver o show, o artista. Um exemplo: parte grande do meu público é de jovens do norte/nordeste que perguntam, dia sim dia não, quando estarei na Bahia, Recife, Manaus ou João Pessoa. Então é realmente muito frustrante saber que todo risco financeiro para levar a banda para fora do estado é meu. Por isso, repito, é fundamental que o artista consiga essa estrutura básica de produção para que possa circular. Mas nem sempre isso é possível. Os planos próximos, infelizmente, se restringem a Rio e São Paulo. E a esperança, tá viva, sempre.

Agradecemos imensamente a participação de Fernando Temporão. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”, o primeiro álbum solo do músico.

Anúncios

2014: Ghost Stories – Coldplay

Ghost Stories

Por: Renan Pereira

O que é o Coldplay? Alguns podem dizer que se trata de uma famosa banda britânica de rock alternativo, outros lembrarão os grandes hits do conjunto, e algumas pessoas, certamente, soltarão que se trata “da banda de Chris Martin”. Por mais que pareça inútil interrogar sobre o que é, na realidade, um dos projetos musicais mais famosos da atualidade, tal questionamento acaba tornando-se necessário a partir dos rumos conceituais que vem envolvendo uma das marcas mais fortes da música mundial. “Obsessão” talvez seja a palavra que melhor representa as ideias da banda nos últimos anos… Obsessão em crescer? Aquele velho preceito de fazer cada vez mais e melhor? O perfeccionismo tão característico dos grandes nomes da arte? É triste ver que, nas mãos de Chris Martin, esses pontos acabam tornando-se triviais.

O que move o Coldplay, hoje em dia, é uma obsessão pobre, que já derrubou tantos artistas que, em outros tempos, obtinham respeito pela música que faziam… Quando o topo das paradas e o verde dos dólares passam a ser a grande referência de um trabalho, este deixa de representar um resultado artístico para se comportar como um mero caça-níquel, um comércio qualquer como uma metalúrgica ou uma padaria. Isso significa que a arte não pode vender? Não, de jeito nenhum: ela não só pode, como deve vender. Mas, antes de tudo, ela precisa ser, primordialmente, arte. O que o Coldplay atual, refletido em seu mais novo disco, “Ghost Stories”, não consegue ser.

Se houve uma época em que o Coldplay fazia música com sinceridade, este já passou há um bom tempo. Preocupada em fabricar produtos para as estantes das grandes lojas de departamentos, ou até mesmo para alavancar as vendas das emergentes lojas on-line, a banda deixa para lá todos os êxitos que alcançara principalmente em seus dois primeiros registros para fazer com que os lamentos de seu vocalista rendam financeiramente. Se Chris Martin encerrou, de forma pouco amigável, seu relacionamento com a atriz Gwyneth Paltrow, por que não tirar algum cascalho em torno desse acontecimento? Se tabloides sensacionalistas fazem tanto sucesso hoje em dia, por que não tornar ridícula sua própria música em nome de um sucesso comercial nas terras do Tio Sam, outrora tão pouco receptivas com a banda?

O fato é que, quando o dinheiro fala mais alto que todas as outras facetas que envolvem um disco, o resultado tende a ser desastroso. E assim é no fatídico “Ghost Stories”. Basta seu início em “Always in My Head” para perceber que a banda sequer trabalhou duro, deixando o conceito dos rumos sonoros nas mãos do renomado Paul Epworth, o produtor “da moda”. Curioso perceber como os arranjos eletrônicos estrelados não conseguem acompanhar a personalidade da banda (se é que ela ainda existe), perfazendo um cenário tão luxuoso e inútil quanto o apresentado no igualmente falho “Mylo Xyloto”. Enquanto isso, Chris Martin chora, mas não com tanta propriedade quanto em anos atrás… Incrível como tudo o que ele canta hoje em dia, em contrapartida ao teor extremamente íntimo de suas composições, soa artificial, um resultado programado através de equações de maximização de lucro. Nada, porém, soa tão falso quanto a segunda faixa, o single “Magic”, com seu pensamento de reconquistar o público indie através de uma cópia descarada da proposta sonora de Justin Vernon no projeto Bon Iver.

É o queridinho dos hipsters, aliás, que é novamente “sampleado” em “Ink” e “True Love”, faixas que voltam a apresentar a inércia poética inserida em uma sonoridade carente de personalidade. A quinta, “Midnights”, que conta com a participação do ótimo Jon Hopkins (considerado o herdeiro de Brian Eno), se agarra em uma concepção eletrônica ainda mais clara, demonstrando o fim da brincadeira da banda com seus instrumentos – o que sempre havia funcionado bem. Mas nem Hopkins, bem como Brian Eno em “Mylo Xyloto”, consegue inserir toda sua capacidade nos rumos comerciais do Coldplay atual.

Até porque milagre poucos conseguem fazer. Além de ser um mero produto, “Ghost Stories” é um produto mal-nascido, aqueles bens que as empresas lançam, não dão bons resultados, e precisam ser remodelados com urgência para evitar um rápido descarte. Para a sorte da conta bancária da gravadora Universal, o disco contém os famosos “singles de novela”, canções que parecem ter sido feitas sob medida para a trilha-sonora de algum folhetim insosso. Nessa ótica, nenhuma canção se encaixa tão bem quanto a nona faixa, “A Sky Full of Stars”, que chega a contar até com a participação do “estourado” Avicii para amplificar seu apelo comercial.

Se “Another’s Arms” é a falha tentativa de alocar a voz de Martin em uma concepção mais próxima da música ambient, “Oceans” traz um arranjo semi-acústico para tentar captar a atenção daquele fã das antigas. Inútil. É provável que aquele ouvinte que foi apresentado ao grupo através dos ótimos “Parachutes” e “A Rush of Blood to the Head” tenha desistido de “Ghost Stories” antes mesmo de seu fim. O que é ruim, visto que a última faixa, “O”, é não apenas a mais longa, mas a melhor canção do disco. Dentro deste conceito, é o melhor que o Coldplay poderia fazer.

Mas, afinal de contas, qual é a resposta para aquele questionamento um tanto quanto tolo que foi proferido no início deste texto? “A resposta está flutuando com o vento”, diria Bob Dylan. E ele teria razão. Como poderíamos responder alguma coisa? O Coldplay atual ora é uma tentativa falha de ser Bon Iver, ora é um projeto eletrônico altamente comercial, ora se resigna apenas aos versos chorosos de Chris Martin. Uma banda indecifrável, sem personalidade artística e com um futuro duvidoso – e inclusive, para muitos, um grupo que está morrendo por aqui.

NOTA: 2,5

Track List:

01. Always in My Head [03:36]

02. Magic [04:45]

03. Ink [03:48]

04. True Love [04:05]

05. Midnight [04:54]

06. Another’s Arms [03:54]

07. Oceans [05:21]

08. A Sky Full of Stars [04:28]

09. O [07:46]

2014: Nação Zumbi – Nação Zumbi

Nação Zumbi

Por: Renan Pereira

Nesse ano de 2014, fazem duas décadas que a banda Nação Zumbi, sob a liderança do visionário Chico Science, estremeceu os alicerces da música brasileira através do clássico álbum “Da Lama ao Caos”. E é bom perceber que, em vinte anos, a banda soube se reinventar e tocar a frente mesmo com a morte de Chico, ocorrida em 1997. Desde o disco “CSNZ”, lançado um ano após o trágico ocorrido, o que mais marcou conceitualmente a banda pernambucana foi a vontade de se superar, de crescer, de aprender através das feridas o que é ser um grupo completo e experiente.

Aos poucos, a lama e os caranguejos foram dando lugar a temas mais complexos, a intensidade dos elementos de percussão foi diminuindo, e a sonoridade envolvente passou a navegar para além dos mangues de Recife. Se “Da Lama ao Caos”, bem como o igualmente clássico “Afrociberdelia”, apontavam para uma direção musical totalmente nova, misturando a música regional de Pernambuco com o funk e diversas vertentes do rock, a Nação Zumbi, em sua nova fase, busca uma maior comunicação com os ouvintes de massa, trabalhando para que nossos ouvidos não sejam pegos com grandes surpresas.

Então aquele teor irrequieto dos primeiros trabalhos não existe mais? É possível dizer que, enquanto o som tornou-se mais polido, as letras conseguiram alcançar novas facetas, distantes da crítica social pregada pela mente insana do antigo líder. O que é totalmente compreensível: se, em seu início, a Nação Zumbi lutava pelo seu lugar ao sol, tentando dar uma nova cara à imutável cena nacional, agora a banda pode se gabar de seu espaço inquestionável. Tudo mudou, e muito… Obviamente, a proposta sonora da banda também deveria se transformar. Se você não quer viver tal mudança, é melhor ir atrás de passagens que te levem de volta para os anos noventa.

É claro que a percussão enlouquecedora faz falta, bem como o olhar crítico de Chico Science. A criatividade que entorna hoje em dia o som do conjunto não é nem sombra daquela de vinte anos atrás, e nas novas canções podem ser encontrados números tranquilos e/ou até mesmo românticos… E qual é o mal disso? Os integrantes do grupo andaram nos últimos tempos envolvidos em outros projetos, coletando novas referências, e o retorno da Nação Zumbi ao estúdio demorou tanto que teve até quem duvidou que ocorreria. Os tempos passam, as opiniões mudam, o passado fica para trás e o que nos resta é seguir em frente. Por mais que as marcas fiquem, o novo deve ser abraçado, como informa metaforicamente a primeira faixa do novo disco, “Cicatriz”.

A guitarra de Lúcio Maia insere a tensão necessária para a temática da segunda faixa, “Bala Perdida”, mas a produção e os versos não ajudam… A percussão pesada não cai bem na lentidão rítmica, e uma nova metaforização acaba soando como uma sobra conceitual d’O Rappa. “O Que Te Faz Rir” é um número curioso, ameno, mas que funciona com primor, ainda que a “testosterona” tradicionalmente imposta pelo vocal de Jorge Du Peixe se faça presente. Em suma, a Nação Zumbi não precisa abandonar sua personalidade para embarcar no trabalho mais sentimental de sua carreira.

A quarta, “Defeito Perfeito”, é uma boa demonstração da excelência da Nação Zumbi em criar seções rítmicas fantásticas, com grooves excitantes: em suma, uma música que agradará os ouvintes mais sedentos por inquietação sonora. Contando com a participação de Marisa Monte nos backing vocals, “A Melhor Hora da Praia” é aquele tipo de canção que, anos atrás, você jamais imaginaria a Nação Zumbi fazendo… Interessante como a evolução sentimental dos versos é capaz de levar a sonoridade a novos cenários, muito mais próximos da MPB do que propriamente ao manguebeat. Sobra até uma leve orquestração na quinta faixa, uma canção que poderia muito bem tocar nas rádios país afora… Assim como a balada “Um Sonho”, que apesar de pouco agregar, mostra uma Nação Zumbi que até então ignorávamos.

A sétima, “Novas Auroras”, parece condensar todo esse sentimento de abertura sonora pregada pelo disco… Afinal, ainda que nos álbuns sem Chico Science (e, principalmente, no clássico “Fome de Tudo”, de 2007), a banda já mostrava a clara intenção de ser um novo grupo, com uma nova toada, nunca esse conceito havia sido tão explorado quanto no presente registro. “Nunca Te Vi” pode ser uma prova de como, cuidadosamente, os marcantes arranjos de percussão da banda podem ser bem alocados dentro dessa sonoridade mais cadenciada e sentimental.

Tudo vai indo relativamente muito bem, mas… É obvio que algo está faltando. Surpreende que, logo em um momento de agitação social inédito para as novas gerações, a Nação Zumbi tenha abandonado o seu lado mais crítico. Não seria esse o momento ideal para o grupo apresentar, mais uma vez, seu olhar ácido sobre os acontecimentos que afligem a população? Talvez Du Peixe e seus companheiros estejam ainda dentro daquela inércia política que abatia o Brasil antes de junho de 2013 – até porque o processo de construção do novo disco havia se iniciado antes dos protestos que se espalharam pelo país. Um erro? Talvez esteja mais para um “menor acerto”.

Para não espantar seus ouvintes das antigas, a última trinca de faixas de “Nação Zumbi”, o disco, massageia os ouvidos daqueles que estavam ansiosos por canções pesadas, tomadas pelas antigas influências do conjunto. Riifs velozes, batidas furiosas e todo aquele sentimento inovador que permeava os primeiros registros do grupo dão o ar da graça em “Foi de Amor”, “Cuidado” e “Pegando Fogo” – mas a lírica, em contrapartida, está totalmente inserida nos conceitos atuais. Em suma, o desfecho do álbum marca o encontro da nova com a antiga Nação Zumbi.

Apesar de se comportar como um ponto de menor destaque dentro da discografia dos pernambucanos, “Nação Zumbi” se comporta como um necessário álbum de aprendizado. A banda não poderia passar toda a sua carreira cantando a lama dos manguezais do Recife, não é verdade? Além de passar por um momento de reflexão sonora, a Nação Zumbi nos convida a pensar sobre a importância das mudanças estéticas para o futuro de uma das mais importantes bandas do país. Assim, mesmo passando longe dos maiores êxitos do manguebeat, o presente registro contém, sem dúvida nenhuma, um válido resultado artístico.

NOTA: 7,0

Experimente: O sabor da Carne Doce

Por: Renan Pereira

Goiânia tem nos reservado, nos últimos tempos, gratas surpresas musicais… Não, caro leitor, este blog não se vendeu, pois não estamos falando de música sertaneja. Estamos citando, na verdade, projetos da maior qualidade musical. Afinal, até que enfim, o público começa a olhar para a música feita na capital do estado de Goiás com menos preconceito.

Pois bem, eis que, em um cenário repleto de grupos emergentes como Cambriana, Banda Uó, Boogarins e Black Drawing Chalk, surgem Macloys Aquino e Salma Jô com uma das bandas mais saborosas da atualidade: a Carne Doce. Surgido em 2012, o projeto traz na vida íntima do casal seu grande diferencial, portando-se como uma colaboração musical que vai além do “horário comercial”. Macloys e Salma dormem e acordam juntos, o que acaba tornando a Carne Doce um dos projetos mais sinceros do cenário atual.

Repleta de sonoridades setentistas, a banda lançou o seu primeiro EP, intitulado “Dos Namorados”, em abril de 2013. É tida atualmente, pela mídia especializada, como uma das grandes apostas musicais para esse ano, bem como planeja seu primeiro disco de longa duração, agora com a companhia de João Victor e Ricardo Machado. Enquanto aguardamos o primeiro disco da Carne Doce, conferimos a entrevista que a banda concedeu ao RPblogging. As repostas são da vocalista Salma Jô.

Quando surgiu a ideia de transformar o casal Macloys Aquino e Salma Jô em um projeto musical?

No final de 2012, quando ficamos sem bandas. Já éramos um casal há três anos, o Mac tocava na Mersault e a Máquina de Escrever e eu cantava numa banda setentista, a The Galo Power. A banda dele acabou e eu saí da minha. Não me recordo se quando mostrei a primeira letra já tínhamos em mente publicar esse projeto, mas em poucos meses a gente já tinha as canções do EP e outras.

Por que o nome “Carne Doce”?

Nós pensamos em vários nomes, vários mesmo. Um dia chegamos nessa combinação dessas duas palavras e gostamos demais. Não tem um sentido especial, mas gostamos. O contraste entre carne e doce lembra os contrastes que a gente busca, entre ser atrevido e cúmplice, pesado e suave, entre fazer um som mais pop e ao mesmo tempo estranho. Gostamos também dos sentidos que as pessoas acham pro nome. Já perguntaram se carne doce era carne de mulher, ou de gente, se tinha alguma relação com a nossa alimentação. Intrigar é uma coisa que nos agrada.

No primeiro EP da banda, denominado “Dos Namorados”, observa-se uma constante inspiração no tropicalismo e nas grandes bandas brasileiras dos anos setenta – uma toada que dá novamente as caras na última música lançada por vocês, “Sertão Urbano”. Esse é um ambiente sonoro que permeará o primeiro disco de longa duração da Carne Doce?

Chico, Caetano e Gil são referências mais fortes pra mim que Mutantes, Novos Baianos, Secos e Molhados. Numa entrevista recente, Andre Midani disse sobre como esse coquetel (Chico, Caetano e Gil) é um engodo, “um engodo feliz, mas um engodo”, e eu tenho ciência e estou trabalhando nisso (risos). Já o Mac tem uma pegada rock oitentista. O João Victor e o Ricardo tem referências muito ecléticas, embora pontuais na música brasileira… Mas não temos o tropicalismo como referência, apesar de gostarmos de ritmos brasileiros misturados com rock.

Quais foram os motivos que levaram às recentes entradas de João Victor e Ricardo Machado ao grupo?

Entre as últimas semanas de dezembro e as primeiras de janeiro deste ano, nos aproximamos do Benke e do Raphael, que são guitarrista e baixista da Boogarins e também da Luziluzia, uma das bandas mais interessantes da cidade. João Victor e Ricardo Machado são da Luziluzia e então nos encontramos, nos identificamos como banda e como amigos. Os ensaios fluíram demais, as músicas foram rearranjadas, realçadas, ganharam mais dinâmica, mais ritmo e tudo favoreceu a composição de músicas novas, que estarão em nosso primeiro álbum.

Goiânia tem evoluído musicalmente nos últimos anos – ao ponto da cidade deixar de ser apenas conhecida como um reduto de duplas sertanejas. Os Boogarins já estão fazendo shows lá fora, tiveram seu disco resenhado pela Pitchfork, a Black Drawing Chalks já é uma banda respeitadíssima no cenário musical, a Cambriana é uma das grandes promessas da música alternativa… A que vocês creditam essa crescente altamente positiva?

Tenho receio de dizer que isso é resultado de uma evolução musical e faltar o respeito com o talento das outras gerações e das limitações que enfrentaram.

Boogarins, Black Drawing Chalks, Cambriana, Hellbenders e mesmo Banda Uó, bandas que “estão na mídia” e fazendo sucesso, trabalharam para isso, capricharam nos seus produtos, fizeram bons trabalhos de assessoria e marketing, e tiraram proveito das ferramentas que temos hoje mais à mão, de softwares de gravação às redes sociais. Os Boogarins, por exemplo, já eram grandes quando a imprensa nacional acordou para isso, e eles tem a favor deles o interesse dos estrangeiros na psicodelia e na canção brasileira, mas foi preciso a competência e a ousadia em gravar e distribuir sua música.

Falando em Boogarins, vocês têm feito alguns sons com eles nos últimos meses… Como é trabalhar com esses caras, que cresceram de uma forma tão meteórica, e hoje formam uma das bandas mais hypadas do Brasil?

A gente até gostaria de dizer que fizemos uns sons com o Boogarins, que trabalhamos juntos, mas a verdade é que só colaboramos em “Benzin”, uma canção do Dinho, que eles publicaram recentemente através do “Is Your Clam in a Jam?”.

No final do ano passado e começo deste 2014, ficamos muito próximos do Benke e do Dinho (guitarrista e vocalista do Boogarins). Passamos algumas tardes juntos conversando sobre os nossos planos, improvisando, mostrando o que tanto nós como eles estavam fazendo, experimentando músicas do Carne Doce e essa “Benzin”, aprendendo muito, e de brincadeira, entre laricas e banhos de piscina.

Aí nos aproximamos do Raphael (baixista), e nos apaixonamos por ele também. Benke, Dinho, Raphael e Hans, eles estão hypados, mas são, antes disso, muito tranquilos, humildes, amigos, generosos, divertidos, boa gente mesmo.

Não sei se vamos trabalhar juntos ainda, não sabemos quão grandes serão os Boogarins, se a agenda deles vai deixar, mas adoraríamos. Nossa rápida experiência com eles já nos fez muito bem.

Momento invasão de privacidade: mas afinal, quem manda na banda: o Macloys ou a Salma? E em casa?

A casa se confunde com a banda, porque estamos sempre pensando nas músicas, shows ou produções na hora de comer, de deitar. E também porque ensaiamos em casa, os meninos estão sempre aqui… Mas “mandar” me parece uma palavra injusta, porque a gente decide em conjunto, na banda e em casa.

Há já alguma definição de data de lançamento do primeiro disco do projeto?

Ainda não. Mas vamos começar a gravar em julho.

Como vocês definem o seu som?

Não definimos e já estamos tranquilos com não saber definir, queremos saber é como você define nosso som. Mas, se insistir, a gente pode responder como a Trupe Chá de Boldo: “o som é só uma onda… curta”, hehehe.

2014: Indie Cindy – Pixies

Indie Cindy

Por: Renan Pereira

O quinto disco dos Pixies: um lançamento que, anos atrás, parecia tão improvável quanto um novo álbum do Johnny Cash. Mas o mundo da música, felizmente, costuma pregar surpresas naqueles ouvintes que insistem em sepultar artistas que envelheceram… David Bowie sendo aclamado por um novo trabalho? Leonard Cohen produzindo um dos discos mais coesos de sua carreira? Michael Gira alcançando seu ápice artístico aos sessenta anos? Se tudo isso vem acontecendo, o ouvinte esperto jamais duvidará das capacidades de um veterano.

E quando as inúmeras décadas vividas englobam Black Francis, David Lovering e Joey Santiago? O resultado tende a ser, no mínimo, bem curioso. É estranho acompanhar os Pixies dando à luz a seu quinto trabalho vinte e três anos depois de seu antecessor, o disco “Trompe le Monde”, ainda mais sem a marcante presença de Kim Deal, que abandonou a banda para investir em sua carreira solo. Mais estranho ainda é perceber que, “Indie Cindy”, tido como um disco novo, é, na verdade, nada mais do que a compilação dos três últimos EP’s do grupo, lançados ao longo dos últimos nove meses… É como se o novo trabalho necessitasse de um tempo de gestação para nascer com forças suficientes para sobreviver. Pois, no fim das contas, “Indie Cindy” tem a capacidade de viver, mesmo que seja na incubadora, com o auxílio de aparelhos…

Podemos dizer que esses “aparelhos” tem como fonte de energia o passado glorioso que os Pixies carregam. Autores de uma das mais influentes discografias da história da música, o quarteto de Boston se elevou à glória não apenas pela altíssima qualidade de suas canções, mas devido à sua intensa e recorrente preocupação em inovar. Lá em 1987, Kim Deal experimentava seu vocal em diversos cômodos do estúdio (procurando alcançar o perfeito eco natural), enquanto Black Francis investia em todos os tipos possíveis de distorção, e Joey Santiago disparava sujeira para todos os lados… Bastam poucos fatos para que não seja nada difícil perceber porque os Pixies foram rotulados de “salvadores do rock”, em uma época em que os excessos do hard rock e do new wave ditavam os rumos da música comercial.

Já hoje, em 2014, mesmo com o seu prestígio inalterado, o grupo não consegue trazer a um novo público a mesma aura atraente de vinte e tantos anos atrás. Isso é compreensível? É claro, pois o tempo é um adversário que, no fim das contas, ninguém consegue derrotar. Eles envelheceram, estão agora em uma época totalmente diferente, e os desejos do público não são mais os mesmos. Obviamente, ninguém espera ver dinossauros do rock reinventando a roda mais de duas décadas depois de viver o seu ápice artístico, ainda mais se lavarmos em consideração um conjunto que ficou tanto tempo sem trabalhar em estúdio… Mas músicas de alta qualidade é um desejo geral que nunca deixaremos de ter – e, para nossa infelicidade, é aí que “Indie Cindy” derrapa.

Entretanto, existem algumas faixas divertidas. Se você der o play na primeira faixa, “What Goes Boom”, se sentirá de volta ao fim dos anos oitenta, com uma canção que poderia muito bem ter feito parte do set list dos velhos discos dos Pixies: um turbilhão de guitarras, uma boa melodia e um teor energético formam uma base que parece acariciar os ouvidos dos fãs das antigas. Pule para a quarta faixa e você poderá matar a saudade de Francis, Lovering e Santiago pautando seus lançamentos na busca de novos elementos, mesmo que isso possa resultar em uma estrutura sonora pra lá de estranha… A sétima, “Blue Eyed Hexe”, não chega a ser um primor, mas consegue provar que esses tiozinhos de 50 anos ainda tem energia pra colocar na fogueira.

Há, além disso, bons momentos de pura nostalgia: “Another Toe in the Ocean” parece ser uma ode ao rock do início dos anos noventa, fazendo com que o ouvinte chegue até mesmo a sentir o cheiro que envolvia aqueles anos; “Jamie Bravo”, a faixa final, tem um riff inicial fantástico, soando clássica, e fazendo-nos recordar dos momentos mais inspirados da banda… Canções que mostram que, mesmo em um mundo tão distante do oitentista, os veteranos Pixies ainda podem ser relevantes.

Então, onde estão as derrapadas? Basicamente, em todas as músicas ainda não citadas. Quando brinca com estruturas semi-acústicas, por exemplo, a banda transparece sinais de cansaço ao errar no que a grande maioria das bandas ditas “alternativas” pautam suas bases sonoras: canções inofensivas, que soam como trilha-sonora para elevadores… Esses são os casos de “Greens and Blues” e “Ring the Bell”, baladas sem-graça que poderiam ter sido compostas por um grupo chato, como o Travis, e não por uma das maiores bandas da história. Há ainda aqueles momentos em que as canções parecem não ter rumo, como é marcante na décima faixa, “Andro Queen”.

“Magdalena 318”, “Silver Snail”, “Snakes” e a faixa-título são canções que não conseguem dizer porque se fazem presentes no registro… Números pouco atraentes, monótonos e óbvios que podem fazer com que a atenção do ouvinte se disperse, e o tão esperado retorno dos Pixies acabe se tornando um fato muito aquém das expectativas.

Sim, “Indie Cindy” não é um grande álbum de retorno. Somando-se os prós e os contras, o que se vê é um trabalho banal, com poucas faixas que lembram a qualidade extrema que os Pixies alcançaram lá na virada das décadas de oitenta e noventa. Visivelmente, o disco acaba soando deslocado, tanto cronologicamente quanto conceitualmente, e deixa dúvidas quanto à qualidade dos futuros trabalhos da banda, se é que eles existirão. Mas há um porém que deve ser destacado: é óbvio que eles não desaprenderam. Muitos agora vão abandonar os Pixies, rotulando-os de artisticamente aposentados, e é aí que a surpresa pode morar: o novo registro da banda pode até ter poucas faixas atraentes, mas nestas o grupo mostra que ainda sabe como compor ótimas canções. Esperemos, portanto, um trabalho à altura dos Pixies nos próximos anos.

NOTA: 5,9

Track List:

01. What Goes Boom [03:32]

02. Greens and Blues [03:46]

03. Indie Cindy [04:41]

04. Bagboy [04:52]

05. Magdalena 318 [03:26]

06. Silver Snail [03:29]

07. Blue Eyed Hexe [03:11]

08. Ring the Bell [03:34]

09. Another Toe in the Ocean [03:46]

10. Andro Queen [03:23]

11. Snakes [03:45]

12. Jaime Bravo [04:24]

2014: De Lá Não Ando Só – Transmissor

De Lá Não Ando Só

Por: Renan Pereira

Se evoluir é um exercício pelo qual devemos pautar nossa existência, os mineiros do Transmissor têm muito o que ensinar. Fazendo de seu terceiro disco, “De Lá Não Ando Só”, um grande e nítido acumulado de vivências e novas experiências, a banda extrapola toda e qualquer expectativa, independente de sua extensão, para construir uma obra pautada na evolução. É como se o já maduro “Nacional”, de 2012, se comportasse apenas como um ensaio para o disco que agora temos em mãos.

Embora siga uma linha sonora explícita, “De Lá Não Ando Só” é um grande agregador de novas nuances à musicalidade do Transmissor. Ainda que a mistura do pop rock dos anos 2000 com as heranças setentistas do Clube da Esquina continue formando a base sonora do grupo, Pedro Hamdan, Daniel Debarry, Henrique Matheus, Jennifer Souza, Thiago Corrêa e Leonardo Marques encaram novos caminhos de uma velha paisagem. Todo o teor poético não está somente mantido, como se mostra melhor resolvido, encontrando na interação com uma forte base instrumental o seu maior exercício de expansão ao ouvinte. As belas melodias também se fazem presentes mais uma vez, porém acompanhadas por arranjos mais ricos em detalhes e complexidades. Não, o Transmissor não deixou de falar simples… Apenas aumentou o seu tom, que agora pode ser ouvido com maior nitidez.

Desejando não fazer do novo álbum um simples “mais do mesmo”, a banda mostra acerto ao flertar com “novos” aspectos do rock. Há um acumulado muito maior de referências em comparação aos trabalhos anteriores: se antes o grupo se mostrava satisfeito em refletir a sonoridade que fez o conjunto nascer e crescer como unidade, agora eles parecem querer superar a si próprios, absorvendo uma nova gama de texturas, características dos anos oitenta e noventa… Isso, claramente, torna a estrutura sonora mais poderosa e comunicativa.

O início do disco, porém, parece ser muito mais uma extensão do que já havia sido apresentado no álbum anterior: “Queima o Sol”, a faixa de abertura, parte dos conceitos de “Nacional” para soar agradável e classuda, um pop rock melódico com a leveza característica da música mineira. Já na segunda faixa, “Só Um”, o ouvinte é apresentado aos arranjos nitidamente evoluídos, que aumentam a comunicação das guitarras com o ouvinte… Afinal, ainda que os teclados atraiam, e as performances do baterista Pedro Hamdan se mostrem colossais, são as linhas de guitarra que dão ao trabalho o seu grande diferencial.

É claro que os vocais também formam um destaque positivo: doces, massageando nossos ouvidos, se comportam com perfeição durante todo o registro, ainda que dividido entre Jennifer, Leonardo e Thiago. É a moça que lindamente canta a terceira faixa, a simples, porém bela, “25 Horas por Dia”. “Todos Vocês” brinca com uma estrutura repleta de grooves inteligentes, mas é a primorosa letra que se destaca: “A verdade nunca foi à sua casa, pra bater à porta, pedindo pra entrar. Nesse tempo as coisas são tão diferentes, e o frio que há na gente, já pede pra ficar“. Profundo e bonito.

“Mais Quente do que Quis” é uma daquelas faixas que tem tudo para ser um grande hit, mas que, infelizmente, provavelmente será deixada de lado por nossas rádios tão preocupadas em banalidades. Tudo vai soando muito bem, não? O ápice, contudo, é atingido na bonita melancolia de “Nessas Horas”, que comprova todo o crescimento da banda: embebida em arranjos elegantes, que se comunicam com o rock progressivo, a faixa parece ser a mostra perfeita dos novos rumos sonoros do sexteto, que agora abraça texturas obscuras, de maior complexidade. A próxima, “Nada pra Te Devolver”, trata de seguir a mesma linha, com o grupo acertando em cheio no alvo mais uma vez.

“Retiro” contém flertes eletrônicos, que assentam muito bem a letra composta por versos curtos que é amparada pelo bonito vocal de Jennifer Souza. A musicista, aliás, parece encontrar um espaço maior dentro da banda com o novo disco: isso se deve ao teor democrático pelo qual o trabalho foi bordado, em que todos os membros do grupo colaboraram com quase igual importância. A nona faixa, que dá nome ao álbum, é um bom número pop que, pelo clima suave e melancólico, pode ser comparada às canções de Silva.

Na décima faixa, a banda brinca até mesmo com a aceitabilidade do público ao nomeá-la de “O que Você Quer Ouvir” – e não é que a música é, no fim das contas, justamente isso? Em “Canso a Cabeça” somos novamente apresentados a uma nova faceta do grupo, em que guitarras pesadas são o norte da canção… Uma densidade que se repete na apoteótica “Casa Branca”, que atesta o amadurecimento da banda a partir de uma ideia: consistência.

Mesmo pautando seu trabalho na linearidade sonora, em nenhum momento o Transmissor faz de “De Lá Não Ando Só” um registro capaz de enjoar o ouvinte. A toada aqui, na verdade, vai justamente no sentido contrário: as pontuais evoluções são alocadas com tanta inteligência que nos prendemos interessados do início ao fim da obra. Um grande disco, candidatíssimo a um dos melhores do ano, e o mais completo trabalho que o Transmissor já produziu. Será que alguém ainda pretende se embaraçar ao citar Skank, Pato Fu ou Jota Quest? O posto de melhor banda mineira da atualidade já tem dono… e ele é dividido, em partes iguais, entre os seis integrantes do Transmissor.

NOTA: 8,5

Entrevista: Radiolaria

Por: Renan Pereira

Minas Gerais sempre teve um estoque interminável de talentos da música brasileira. Seja com a poesia setentista do Clube da Esquina, com o rock rural de Beto Guedes, com os ensaios progressivos do 14 Bis, ou com a explosão pop-rock dos anos noventa e o surgimento de bandas como Skank e Pato Fu, o estado do pão-de-queijo também se tornou casa de uma reconhecida música de qualidade. Atualmente, ao lado de outros projetos (como o grupo Transmissor), a banda Radiolaria se mostra como uma genuína herdeira de todo esse passado de glória, fazendo com a música que ecoa de Minas (ou da capital Belo Horizonte, mais precisamente) continue relevante frente ao cenário alternativo nacional.

Surgida no fim da década passada, a banda Radiolaria se propõe a encontrar em suas canções, sem muito alarde, o meio-termo perfeito entre o popular e o experimental. Ainda que a tarefa seja árdua, e demonstre até mesmo pretensões que poderiam ser perigosas para um grupo estreante, tudo parece acontecer com naturalidade. Seu primeiro disco, o competente e linear “Vermelho”, dá as provas necessárias para fazer do conjunto um dos projetos mais promissores da nova geração.

Entrevistamos a banda para que pudéssemos conhecê-la melhor, além de suas músicas: pois em adição às bases sonoras, sempre sentimos vontade em conhecer as ideias e as direções artísticas adotadas pelos artistas. Segue, com isso, a nossa nova entrevista, cujas respostas foram discutidas por todos os integrantes da banda e redigidas por Felipe Barros.

radiolaria

Quando a Radiolaria surgiu, e quando o projeto começou a ser levado à sério, de forma profissional?

A banda, já sob a alcunha de Radiolaria (uma vez que já tínhamos outros projetos antes, com outros nomes, e que de certa forma funcionou como embrião da Radiolaria), passou a existir “formalmente” a partir do ano de 2009, logo após termos lançado uma demo com cinco músicas (em 2008). Este talvez tenha sido o ponto de partida referente ao processo de composição, quando percebemos que era o que queríamos fazer musicalmente; compor e criar coisas novas. Neste momento, a banda passou a existir de forma mais séria e consciente, com uma proposta mais definida e um pouco mais madura, ainda que as composições do primeiro disco tenham nascido de uma forma despretensiosa e quase natural, frutos de um processo de amadurecimento e aprendizado musicais de cada um dos integrantes, especialmente dos compositores que passaram a se aventurar com mais frequência na criação de canções. Do ponto de vista da profissionalização, acho que ela veio a reboque desta fase de amadurecimento que mencionei, quase que como uma consequência natural do processo criativo, e da necessidade que sentimos de levar esses resultados ao público.

Quais são os artistas que mais inspiram o grupo?

É difícil determinar aqueles artistas que mais nos inspiraram, tanto conjunta quanto individualmente, apesar de ser possível falar sobre bandas que nos acompanham desde o início do projeto. A banda começou como uma banda de Rock, com repertório que englobava coisas do movimento sessentista britânico, como Beatles, Cream, The Who e Stones, além de coisas nacionais, como Mutantes, Secos e Molhados e Clube da Esquina.

Creio, porém, que como compositores e músicos, nosso trabalho beba em fontes bem mais diversas. Eu (Felipe Barros) e o Felipe Xavier começamos na música lírica ainda muito novos, cantando em corais, e aos poucos, com o passar do tempo, fomos conhecendo mais profundamente o rock e outros estilos, como mpb, samba, pop, música caribenha, música latina, etc. De modo que tudo isso permeia nosso universo musical, que inclusive está sempre em expansão com o contato com coisas novas.

Momento pergunta mais do que óbvia: qual seria aquele disco que a banda levaria para uma ilha deserta?

Não consideramos a pergunta óbvia não, porque se assim fosse teria uma resposta também óbvia, ou fácil (risos).

Na verdade é um exercício muito difícil esse de pegar cinco músicos e fazer com que elejam conjuntamente um disco pra que sirva de símbolo de uma grande influência numa situação hipotética como essa da ilha deserta. Creio que não conseguiríamos eleger um único disco, já que como já mencionamos, nossa caminhada musical bebeu e bebe em muitas fontes, sendo que os ídolos e seus trabalhos (discos) são muitos.

Pra não gerar confusão neste sentido, creio que ninguém iria se opor ao fato de que levaríamos o nosso “Vermelho”, ainda que de lá sentíssemos falta do “Buena Vista Social Club”, do “Revolver” (Beatles), do “Acabou Chorare” (Novos Baianos),  do “Jardim Elétrico” (Os Mutantes), do  “Medle” (Pink Floyd), do “Chega de Saudade” (João Gilberto), e de tantos outros (risos).

Sobre o processo de composição da banda, como que ele ocorre? Vocês sentam e falam “vamos compor” ou deixam as coisas simplesmente acontecerem?

As músicas têm surgido de forma variada e aleatória, quase que despretensiosamente. Na maioria das vezes, começamos pela harmonia no violão, em seguida vem uma melodia de voz, consequentemente outros elementos surgem, e com isso a letra. Temos canções que foram feitas individualmente, bem como canções em conjunto. Às vezes traz um estribilho, um riff, outro vem com um rascunho, uma poesia, ou até palavras soltas, e num segundo momento tudo isso é montado e arranjado. Outros parceiros não integrantes da banda também contribuíram com algumas letras.

radiolaria

Os anos noventa parecem ter sido bem mais receptivos a bandas mineiras, pelo menos no que tange ao sucesso comercial… Mas é claro que a situação do mercado fonográfico atualmente está extrema, tanto que muitas vezes nem as próprias gravadoras sabem qual caminho tomar. Qual é a análise que vocês podem fazer dessa situação, atendo-se ao cenário mineiro?

De fato, o mercado fonográfico sofreu enorme impacto com a questão do compartilhamento de músicas, surgimento do mp3, smartphones, etc, e concordo que o mercado, e mesmo seus mais diversos agentes, inclusive bandas, não sabem bem o caminho que tudo isso irá tomar. Mudança e inovação parecem ser as palavras de ordem e fazer previsões nesse cenário é bastante difícil.

Do ponto de vista do mercado mineiro podemos observar que a despeito da ausência de um sucesso comercial que pudesse gerar dividendos maiores aos artistas locais, e notoriedade nacional, tal qual aconteceu com Skank, Jota Quest, Pato Fu, na década de noventa, a galera da nova geração não deixa de se engajar na criação de projetos, de novas bandas, músicas, festivais, enfim, na proposição de uma ”nova” música mineira, que bebe nas fontes antigas, mas que propõe novos caminhos e tenta criar sua identidade.

Claro que a ausência de um aporte das gravadoras, especialmente no sentido de financiar a distribuição maciça dos trabalhos, além de remunerar os músicos como acontecia nos contratos de outrora, tudo isso dificulta a vida de quem procura viver de seu trabalho musical autoral. Não é nada fácil, mas acaba servindo como um divisor de águas entre aqueles que mesmo assim lutam por uma criação artística autêntica, e aqueles que pensam na grana antes de pensar na música. Não quero dizer que não se deva correr atrás do dinheiro, pois sem ele você não se sustenta enquanto artista, e provavelmente teria de largar tudo e partir pra outras profissões. Mas é interessante ver que aqueles que estão na luta pela construção de uma carreira, de uma identidade e de um espaço, estão com seu foco maior na música mesmo.

Além disso, hoje contamos com outros meios de financiamento da arte e da música no Brasil, como as leis de incentivo, assim como os financiamentos coletivos de projetos, de modo que a turma dá um jeito de se virar pra não deixar de produzir.

Vocês são a favor do financiamento coletivo para a produção de discos? Hoje em dia, até bandas experientes e conhecidas estão apelando para essa plataforma, como foi o caso recente dos Raimundos, por exemplo…

O financiamento coletivo é um meio que achamos válido pra angariar os fundos necessários aos processos envolvidos na criação musical. Muitas vezes pessoas que curtem o trabalho de um artista independente podem ajudar com uma grana e fazer com que aquele trabalho seja possível, cresça e siga adiante.

Mas creio que no universo independente possa acontecer um esgotamento da via de financiamentos coletivos para artistas que não consigam ampliar seu leque de fãs ao divulgar satisfatoriamente seu trabalho. Imagine seus vizinhos e colegas de faculdade tentando bancar todo o seu trabalho. Seria complicado. Portanto acho que quem se socorre do financiamento coletivo, que é extremamente válido, tem também que ver ele como um instrumento de financiamento da produção, mas se preocupando sempre em utilizar aquilo que foi produzido de forma inteligente e planejada, a fim de disseminar seu trabalho; o que no caso das bandas independentes pode ser feito majoritariamente pela internet.

Em um texto presente no site da banda, a seguinte citação chama a atenção: “as canções se equilibram, sem alarde, entre o popular e o experimental”. Creio que essa seja a grande chave para tornar um trabalho artisticamente válido e, ao mesmo tempo, atrativo ao público. Esse meio termo não é muito fácil de ser encontrado, não é verdade? Às vezes, as coisas se desequilibram sem mesmo que você perceba…

De fato é um ponto muito sensível este do equilíbrio popular/experimental. Não creio que tenhamos tido isso como norte no momento da criação das musicas, ou mesmo da produção do disco. Na verdade, acho que quando isso surge, esse equilíbrio, é fruto daquilo que já mencionamos, ou seja, do fato de termos fontes de inspiração muito vastas, que têm muito do popular, assim como do experimental. Creio que seja mais por aí do que por uma busca consciente de fazer algo assim. Não quero dizer com isso que não haja um direcionamento de estética na produção do disco, ou que eventualmente um dos compositores se proponha a fazer uma música mais pop ou mais experimental. Acho que tudo isso aconteceu no disco, mas de uma forma mais natural, sem uma busca rígida por esse equilíbrio.

Falando sobre o disco “Vermelho”: a perceptível linearidade das faixas foi algo pensado desde o início, ou que acabou surgindo naturalmente?

Essa linearidade estética, e de sonoridades, foi muito fruto do processo de produção mesmo, quando já em estúdio, através do ouvido atento dos nossos produtores e colaboradores na busca pelos timbres, arranjos, etc.

O disco conta com músicas que passeiam por universos distintos e mesmo estilos distintos, de forma que a busca por uma unidade estética foi importante para “amarrar” as composições e dar ao conjunto da obra algum ar de linearidade.

Como a banda espera estar daqui uns vinte anos? Com os bolsos cheios da grana e tocando no Faustão, ou com uma discografia respeitada dentro do cenário alternativo?

Na verdade gostaríamos de ambas as situações: a grana (desde que fruto de reconhecimento de um trabalho cuidadoso e muito bem feito); e com uma carreira sólida, de trabalhos artísticos de qualidade e que pudessem tocar as pessoas de forma verdadeira, sem apego a modismos ou tendências meramente comerciais.

Infelizmente parece que essas duas coisas, atualmente, não se encontram. O cenário “mainstream” sofre de uma inanição artística severa, em que o rentável comercialmente parece ser predominantemente superficial e passageiro ou até descartável.

Esperamos que esse cenário possa mudar e que as coisas voltem a se encontrar como no passado, mas, independente disso acontecer, estaremos fazendo a nossa música da forma como acreditamos.

Agradecemos imensamente a participação da banda Radiolaria. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “Vermelho”, o álbum de estreia da banda.

2014: St. Vincent – St. Vincent

St. Vincent

Por: Renan Pereira

Annie Clark é uma daquelas figuras ímpares da música, aqueles seres complexos que às vezes até duvidamos que façam parte do mesmo mundo que a gente. Andrógena e estranha são alguns dos adjetivos com os quais os mais apressados tentam rotulá-la, em uma fracassada tentativa de defini-la.  Talvez nem ela mesma saiba, ao fundo, quem realmente ela é… Certo dia, enquanto revelava a origem de sua alcunha artística, St. Vincent, que remete ao nome do hospital em que o poeta Dylan Thomas falecera, ela disse que “aquele foi o lugar em que a poesia veio a morrer. Essa sou eu”. Indecifrável.

É bem provável que essa ânsia de rotular à primeira vista venha do nosso comportamento quanto a coisas que, de alguma forma, fogem do que consideramos habitual. Embora seja assumidamente pop, St. Vincent não detém os mesmos predicados que formam normalmente o conceito de “diva”. De aparência frágil, voz suave e com uma proeminente via experimental, Annie Clark vai muito além das obviedades que permeiam a música popular. Algo que estranha e faz com que nos surpreendamos positivamente, pois até mesmo o mais pacato dos seres humanos sempre sente uma pontinha de atração pelo exótico. E, sem dúvida, St. Vincent intriga.

Fazendo de seu novo disco uma grande contemplação do universo particular que ela construiu ao longo desses oito anos, Clark borda o seu mais acessível e completo trabalho. Os experimentos e a base “estranha” se mantém, mas tudo que forma a complexa estrutura artística de St. Vincent é moldado a fim de atingir o grande público. A música pop não precisa ser óbvia, e a cantora trata de corrigir uma das mais errôneas ideias quanto ao que se considera “vendável”.

Bastam os primeiros segundos de “Rattlesnake” para que o ouvinte perceba a complexidade que entorna o disco. Envolta em uma sonoridade inventiva e dinâmica, que lembra os momentos mais experimentais de David Bowie e do Talking Heads, Clark dispara um fantástico conjunto de versos, contendo experiências intrigantes que construíram a artista única que ela é… A primeira faixa, por exemplo, é um verdadeiro relato sobre as percepções da musicista enquanto ela andava pelo deserto. “Uma comunhão com a natureza”, ela diz.

Perguntada sobre como o disco soaria, ela não titubeou ao afirmar que seria como “um registro festivo que você poderia tocar em um funeral”. De fato, apesar de mostrar toda a humanidade que pode existir dentro do androginismo, “St. Vincent”, o disco, não renega aos ouvintes uma constante e acertada aproximação com percepções entusiasmantes. Em “Birth in Reverse”, lá está St. Vincent empunhando sua guitarra para construir um número característico seu, tortuoso e complexo – e, ao mesmo tempo, festivo. Ainda está disposto a rotulá-la? Pois saiba que a tarefa fica cada vez mais difícil.

“Prince Johnny”, a terceira faixa, é uma canção extremamente sensorial, na qual St. Vincent brinca com nossas emoções vagando entre a suavidade e o caos. Essa guerra de sentimentos é, em grande parte, possibilitada pela forma inventiva com a qual a artista utiliza a sua guitarra… Não espere dela riffs óbvios, mas sim um conjunto de linhas tortas voltadas a intrigar o ouvinte. A própria forma classuda com que “Huey Newton” se desenvolve mostra com primor a intensa colagem de texturas e sentimentos que Annie Clark não se cansa de fazer. No poderoso single “Digital Witness”, tudo isso se funde em união a um jogo estético que sempre esteve presente na carreira da compositora.

A platônica “I Prefer Your Love” mostra St. Vincent flertando com algo mais próximo ao tradicional, porém com uma altíssima carga sentimental: a canção foi escrita para a mãe da artista, que na época estava doente. Segundo a própria musicista, enquanto “Strange Mercy”, seu álbum anterior, era tratado com um teor mais íntimo, o presente registro é mais expansivo quanto aos sentimentos. Algo que faz com que tudo se aproxime do ouvinte, apesar do dinamismo intensamente inventivo… Vai dizer que “Regret”, apesar de conter arranjos experimentais, não é uma canção acessível?

Haverá aqueles fãs das antigas, que dirão que o novo disco não contém uma sonoridade tão inédita quanto “Strange Mercy”. E isso é verdade. Porém, St. Vincent sempre tratou de fazer de seus registros em estúdio trabalhos únicos, distintos entre si… E apesar de ser menos experimental, “St. Vincent” é mais consistente, acumulando uma extensa bagagem para formar o melhor conjunto de canções já produzido pela musicista… e sem se esquecer, enfim, do público. “Bring Me Your Loves” parece ser, até mesmo, um alento destinado para os mais sedentos por grandes novidades. De certa forma, Annie Clark está disposta a agradar a gregos e a troianos.

A nona, “Psycopath”, esbarra com força na new wave dos anos oitenta, se comportando como um pop-rock com influências de David Byrne, enquanto a décima, “Every Tear Disappears”, utiliza todas as texturas tortuosas de St. Vincent para pregar em nossa mente um conjunto melódico memorável. Como se ainda bastasse algo para causar surpresa (ou até mesmo estranheza), um soft rock essencialmente setentista surge na última faixa, “Severed Crossed Fingers”, na qual St. Vincent explora a capacidade do ser humano em ter esperança mesmo quando ela, na verdade, inexiste. Mais uma sacada inteligente da musicista, que encerra o disco com uma inesperada tranquilidade.

É surpreendente a forma como Annie Clark insiste em nos surpreender a todo instante? Sim e não. No fim, mesmo sabendo que não dá para prever o que a artista irá aprontar, lá estamos nós sendo pegos de surpresa mais uma vez. Às vezes pensamos que St. Vincent ficaria bem em uma camisa-de-força, em outras temos certeza de que um trono seria mais adequado para ela. É justamente por nos confundir, por brincar com nossas percepções, que St. Vincent é uma das figuras mais necessárias da música atual.

NOTA: 8,9

Track List:

01. Rattlesnake [03:34]

02. Birth in Reverse [03:15]

03. Prince Johnny [04:36]

04. Huey Newton [04:37]

05. Digital Witness [03:21]

06. I Prefer Your Love [03:36]

07. Regret [03:21]

08. Bring Me Your Loves [03:15]

09. Psychopath [03:32]

10. Every Tear Disappears [03:15]

11. Severed Crossed Fingers [03:42]

Entrevista: Ana Larousse

Por: Renan Pereira

Depois de termos iniciado a nossa seção de entrevistas no último mês de dezembro, o bom resultado nos levou a transformá-la em uma publicação mensal. Para o mês de janeiro, convidamos a curitibana Ana Larousse para ser nossa nova entrevistada. Mostrando grande disponibilidade, a cantora prontamente atendeu o pedido, e graças à rede social de Mark Zuckerberg tivemos o prazer de bater um papo com a compositora.

Durante alguns dias de mensagens trocadas, conversamos não apenas sobre a carreira da musicista. Debatendo as diferenças entre Paris e Curitiba, o estado do mercado da música ou até mesmo a importância das amizades, Ana Larousse demonstrou, com muita espontaneidade, que aquela garota sensível e de forte personalidade de “Tudo Começou Aqui” se faz sempre presente em sua vida… Afinal de contas, é ela mesma.

Tendo lançado seu primeiro disco no ano passado, e prestes a dar a luz a um projeto colaborativo com Vinícius Nisi (A Banda mais Bonita da Cidade), Ana Larousse se destaca pela forma com que transforma o seu íntimo em um bem universal, partilhando com o público suas alegrias e aflições. Sentimentos que são explorados inclusive nesta entrevista.

Ana+Larousse

Seu primeiro disco, “Tudo Começou Aqui”, é claramente o resultado de muitas experiências… Você parece ter trabalhado com imenso cuidado para que cada faixa pudesse representar um fase da sua vida: há relatos da infância, da adolescência e da Ana de hoje em dia. Foi difícil reviver as emoções do passado para gravar o disco? Na primeira música, “Vai, Menina”, dá para imaginar uma garota de 18 anos cantando, e dessa etapa da vida você já passou…

Sim. É um relato de várias fases da minha vida porque escolhi canções que foram compostas em diferentes momentos ao longo de quatro anos. Tenho muitas outras canções. Mas escolhi as que representavam fases mais importantes pra mim. Daquelas que a gente sente que mudaram algo grande dentro da gente.

Não foi difícil reviver não. Muito pelo contrário. Foi uma delícia refrescar essas memórias e trazer elas de volta pra mim. Como se fosse uma interferência minha no tempo. Colocando algo da fase que vivia quando gravei o disco em cima de outros pedaços da minha vida. Foi um encontro gostoso desses tempos. E também é gostoso cantar A Paz do Fim, por exemplo, e lembrar do quanto estava sofrendo quando escrevi e ver que superei lindamente aquela dor. Cantar uma dor superada é quase um gozo. E ao mesmo tempo é lindo ver a música e a dor se reinventando. Já tive shows em que cantei A Paz do Fim me emocionando, não pensando na pessoa pra quem eu a fiz originalmente, mas em outra. É como se a música já não fosse mais minha (visto que o momento pela qual passei ao escreve-la já passou) e eu me emocionasse com a letra como faz o público. Me sinto meio que espectadora das minhas próprias canções. Isso me dá força e tesão de continuar cantando elas. Vai, Menina eu escrevi com 22 anos. Foi meio que quando eu me dei conta MESMO de que eu passaria o resto da vida tento que cuidar de mim sozinha. Que seria eu a enfrentar o mundo todo e mais ninguém por mim. Quando eu estava em Paris, doente e tinha que eu mesma, com 39 graus de febre, descer comprar remédios, fazer meu chá e minha sopa e ainda ir trabalhar senão não tinha dinheiro no final do mês e essas coisas todas. Cansava e me assustava o fato de que seria assim pra sempre. Ainda me assusta. rs Mas a sensação de cantar ela tomou outro lugar. Assim como todas as outras. A gente vai mudando sempre e as nossas obras vão mudando junto. Pelo menos pra mim é assim. E graças a deus! (Não precisa corrigir a minúscula em deus. É intencional).

Falando em Paris… Não podemos negar que a cidade-luz é um local especial para sofrer. Existe sempre uma expectativa muito grande, que pode não ser correspondida. Há, hoje em dia, até mesmo uma “doença” a qual os especialistas dizem ser causada pelas expectativas que não se cumprem para quem visita, ou passa a morar na cidade… Você é uma pessoa simpática, comunicativa, e embarcou ainda muito jovem em uma cidade sisuda, em que o povo é mais fechado do que em Curitiba. Essa “síndrome de Paris” foi uma das grandes responsáveis para que seu lado melancólico desabrochasse?

Vários fatores em Paris foram essenciais pra construção da minha identidade artística. A melancolia que paira sobre a cidade; aquela sensção de estar num livro, num filme e não na vida real; aquela quantidade incansável de cafés, livrarias, cinemas e intelectuais. Também fala-se muito de arte e cultura e história e geografia em Paris. Isso é uma das coisas das quais mais sinto falta. Aqui, em bares, sinto que, muitas vezes, o assunto se resume a paqueras e astrologia. Isso me frustra. Sinto falta daquelas masturbações intelectuais sobre tudo. As pessoas leem muito lá e a vida de quase todo mundo meio que gira em torno da cultura e da história. Isso é lindo, empolgante e absurdamente inspirador. É como se não houvesse nada para fazer além de criar e questionar tudo o tempo todo. Continuo praticando isso aqui, mas sinto falta desse ar tomando conta da cidade. Não houve frustração nenhuma. Muito pelo contrário. Paris ganhou meu coração pra vida. É, como toda cidade, um lugar ambivalente. Às vezes encantador e às vezes cruel e hostil. Mas o que Paris tinha de hostil ela limpava lindamente com belezas infindáveis e eternas novidades. Tinha a sensação de desbravar um mundo novo todo dia. De conhecer sentimentos novos todo dia. Por quase cinco anos, diariamente, eu me renovava. Aqui me sinto mais acomodada, menos bagunçada e menos remexida.O que torna a vida mais leve, porém menos intensa e apaixonante. E eu nunca me frustro com expectativas. A partir do momento em que a gente escolhe estar sempre atento às novidades e se propõe a renovar o olhar a cada dia, a gente se adapta a qualquer situação e faz de qualquer coisa virar algo bonito e positivo. A cada dia Paris me ganhava. E a cada, hoje em dia, eu sinto falta de Paris. Quero voltar a morar lá em breve.

E não acho que as pessoas sejam mais fechadas do que em Curitiba. É diferente. É menos falso, digamos assim. Quando você cria uma relação um pouco mais íntima com alguém, é meio que pra vida, sabe? Não é empolgação de boteco e festa. E existem coisas aqui que são muito rudes como, por exemplo, você cruzar com um vizinho, dar bom dia e não ouvir nada em retorno. Ou cumprimentar alguém num elevador e receber um resmungo em troca. Lá as pessoas são bastante cordiais e prestativas. Não é festa-todo-mundo-se-amando-na-rua, mas você pode confiar quando um parisiense te diz que vai passar na tua casa na semana que vem ao meio dia. Enfim, várias coisas. É diferente. Aqui, muitas vezes, me sinto muito mais maltratada do que lá. As pessoas se respeitam menos aqui. Então é relativo. E fiz amigos pra vida por lá. Amigos irmãos que levarei pra sempre comigo. Aqui a gente tem bastante conhecido pra ir em festas, mas é mais difícil se comprometer e se engajar numa amizade mais profunda e estável. Enfim. Poderia passar anos aqui divagando sobre meu olhar sobre Paris ou Curitiba. Mas acho que já falei demais até! rs

Só sei que sou sempre a primeira a defender Paris quando surgem comentários sobre o estereótipo de que francês é mal-educado. Acho, em geral, os brasileiros muito piores nesse aspecto.

maxresdefault

Ainda sobre as expectativas, creio que fazer um disco com financiamento coletivo traz um sentimento diferente quanto à aceitação do público… Afinal, as pessoas que pagaram para o disco ser produzido não poderiam ser frustradas com o resultado final. Mas, no fim das contas, a receptividade do “Tudo Começou Aqui” acabou se mostrando um sucesso, e certamente as pessoas que ajudaram financeiramente na produção sentiram que aquele foi um bom investimento. Porém, há quem diga que o fato do público pagar por um produto que ele ainda não sabe do que se trata é uma inversão de valores… Como enfrentar tanta responsabilidade, e como defender o financiamento coletivo? É provável que, sem ajuda financeira de terceiros, muitos discos maravilhosos (incluindo o seu) não veriam a luz do dia…

Olha. Eu vejo um tiquinho diferente, só em um aspecto. As pessoas ajudaram, claro. Mas não foi doação de dinheiro. Tiveram alguns casos de pessoas que contribuíram sem ter escolhido recompensa alguma. Mas a maior parte das pessoas pagou por uma recompensa, ou seja, um produto. Seja um disco, dois discos, um pocket show ou um passeio na casa de “Oração”. Mas a intenção das pessoas, com certeza, era a vontade e ansiedade de ter esse disco nas mãos. De ouvir esse trabalho concretizado. Mas eu também me senti muito confiante mesmo. Porque não foi tão às escuras assim. Eu já disponibilizava várias canções que entraram no meu disco no meu Soundcloud e tinham inúmeros vídeos no Youtube aonde eu estou, em algum show, cantando essas canções. Então acho que posso dizer que boa parte do publico conhecia varias canções minhas. Eu já tinha um publico formado. Pequeno, mas um publico fiel já. E eu senti que eu não iria decepcioná-los. Porque tudo foi feito com muito cuidado mesmo. Não só por eles, mas por mim mesmo. E foi muito gostoso trabalhar num projeto com uma torcida junto. É uma sensação de impulso, como se tivesse bastante gente te carregando pra você dar conta e dar o teu melhor. Nunca vi isso como pressão ou algo assim, mas como incentivo.

O financiamento coletivo é uma das poucas maneiras que temos, hoje, nós músicos independentes, de concretizar um trabalho. Pro próximo disco, minha ideia é simplesmente fazer um caixa com dinheiro dos shows pra juntar dinheiro pra poder lançá-lo. Usei financiamento coletivo uma vez, foi uma linda experiência, mas também é bastante exaustivo e cuidar disso paralelamente a gravar um disco foi bastante puxado. Tenho visto muita gente usando isso e às vezes questiono. Porque sinto que alguns trabalhos não são tão bem construídos ou articulados. E muitos são muito pouco convidativos, com recompensas pouco interessantes. E daí acaba não dando certo pra muita gente e até banalizando o uso dessa ferramenta. Sinto que se fizesse um hoje não seria tão “fácil” arrecadar os 25.000 que arrecadamos pelo Catarse. Já não é mais novidade, já cansou. E o público se cansa muito rápido. Ainda não tenho resposta pra tua pergunta. Não sei nem se devo incentivar isso e nem se devo “desincentivar”. Confesso ainda estar tentando buscar em mim algumas respostas pra atual situação do mercado fonográfico e das possíveis maneiras de viabilizar os projetos. O momento é difícil demais em milhares de aspectos. Ainda estamos caminhando pra alguma coisa. Não tenho ideia de onde isso vai chegar. Mas vamos seguindo.

Eu quebro muito a cabeça com alguns amigos discutindo maneiras de continuar trabalhando e conseguir ganhar dinheiro. Mas é difícil. Porque a gente disponibiliza o disco pra download gratuito, então o jeito de ganhar dinheiro é vendendo discos físicos e em shows. Mas isso ainda é muito pouco. Os cachês não são altos e a venda de discos é insuficiente pra bancar os custos todos. Então o negócio é torcer pra eu vender alguma música pra algo que pague bem (risos). Ou sabe deus o quê. Vamos ver.

Ana+Larousse+Ana

Mas ganhar dinheiro com música alternativa principalmente no Brasil é algo muito difícil. Geralmente, um artista independente começa a ter uma maior visibilidade quando tem uma música tocada em uma propaganda, como aconteceu com a Mallu Magalhães e o Silva, por exemplo. Claro que quem faz música alternativa não tem como almejar “enriquecer”, quem quer ficar rico hoje em dia dentro da música parte para o sertanejo universitário. Isso acaba minguando o mercado para a música de qualidade, pois o empresário visa lucro, e seu investimento acabará sendo direcionado para propostas que vendam fácil – como duplas sertanejas, por exemplo. Ao mesmo tempo, o público massivo acaba sendo domado pelas regras impostas pelas gravadoras, e mesmo aquele artista que não coloca o dinheiro como prioridade acaba encontrando barreiras para crescer artisticamente. A maior das louvações vem do público, e quando o público está alienado o alcance de sua música acaba ficando pequeno. Como é viver pela arte, procurando fazer música de qualidade, em um sistema que vive essa situação?

Vish. Aí você me pegou. Primeiro que acho que qualquer pessoa que faz qualquer coisa visando lucro exclusivamente acaba não sendo muito feliz. Mas talvez seja romantismo meu. Eu nunca fiz nada por causa de dinheiro. As vezes que tentei eu acabei fazendo mal feito. Sou movida a paixão. Se estou apaixonada pelo trabalho eu o faço com tesão e bem feito. Se houver dinheiro nisso, aí é alegria na certa! Mas é óbvio que não sou romântica a ponto de dizer que quero viver fazendo arte sem ganhar dinheiro. Jamais! É um trabalho como qualquer outro e eu, como qualquer pessoa, tenho mil contas a pagar e vontades que exigem algum dinheiro para serem realizadas. E até para trabalhar é preciso de dinheiro. Aliás, isso é um ciclo cruel pelo qual vejo muitos artistas passando. A gente precisa de dinheiro pra gerar dinheiro pra trabalhar pra gerar dinheiro pra trabalhar e quando a gente vê, está preso num lugar onde o foco do dinheiro não está mais para viver, mas para poder trabalhar. E isso é cruel. Estou longe de encontrar em mim e no mundo uma solução pra isso. Mas eu, nessa hora, abraço meu romantismo novamente e acredito que continuando fazendo o que faço com dedicação, paixão, cuidado com o público e um bom planejamento estratégico, eu vou conseguir viver de música. Por enquanto eu vivo pela música. Mas espero logo poder aumentar o volume disso. Eu não quero também me atrever a falar pelas bandas independentes em geral. Quem sou eu pra fazer isso? Mas eu, bem especificamente, acredito que, de alguma forma vou conseguir viver pela arte e de arte. Como e quando eu não sei. Mas se eu deixar de acreditar nisso, eu entro em desespero (risos).

Mas respondendo tua pergunta: é difícil pra caralho e maravilhosamente apaixonante. Acho que pra gostar de viver assim tem que ser meio doido. Amor, paixão e perigo. Dá até nome de filme ruim.

Já que você falou em filme, eu não poderia deixar de citar nessa entrevista o belíssimo clipe de “Vai, Menina”. Como foi o processo de criação do vídeo?

Eu sonhei com esse clipe. Uma noite, eu tinha chorado bastante e quando dormi, acabei me vendo no sonho escrevendo inúmeras frases minhas (as mais tristes) e depois ficando angustiada com aquilo tudo grudado e preso em mim. Depois eu me revirava pra arrancar aquilo e, quando as frases tinham sumido, eu dançava, me jogava, me debatia num chão todo cheio de terra. E, no sonho, a música que tocava era “Vai, Menina”. Acordando, liguei pro amigo Bernardo Rocha, muito empolgada com a ideia e saímos na hora pra tomar uma cerveja e falar desse possível clipe. Ele curtiu demais a ideia e topou dirigir. Juntos, a gente adaptou algumas coisas do sonho pra elaborar o roteiro e chamamos o Rosano Mauro e o Vini Nisi pra pilotarem também as câmeras e cuidarem da direção de foto e da edição, respectivamente. Pouca coisa mudou do sonho pro resultado final. E eu fico muito feliz. Dez dias depois dessa tarde de cerveja, a gente estava em Rio Negro filmando o vídeo. Foi muito libertador viver esse sonho e, de fato, passar por aquela sensação de angústia de ver tanta coisa triste escrita no meu corpo e depois me mover sem pensar em nada, com o corpo já limpo. Pra mim, esse clipe tem tanto significado e força que eu poderia passar horas falando disso. Mas isso também estragaria a percepção de quem assiste. E eu preciso terminar dizendo que seria impossível eu ficar mais satisfeita do que estou com o resultado desse trabalho. Os meninos foram delicados e muito profissionais. Eu tenho é muita sorte de ter amigos assim.

Você credita a essa amizade o crescimento da música paranaense? Tempos atrás, até haviam bons projetos, mas que não conseguiam ir além das fronteiras do estado. Algo que agora mudou, com você, o Leo Fressato, a galera da Banda mais Bonita da Cidade, ou seja, um pessoal que se ajuda não só profissionalmente, mas que também mantém uma verdadeira amizade na vida pessoal…

Eu credito as boas amizades a toda coisa bonita que surge por aí. Nunca consegui separar o pessoal do profissional. Eu sou uma pessoa e trabalho com outras pessoas. Como é que isso poderia ser impessoal? Só pode ser impessoal uma relação onde não existe comunicação orgânica entre os envolvidos. E pouco me interessa uma “relação” assim. Trabalho com quem me comunico e com quem se comunica comigo. De forma natural e espontânea. Os interesses e paixões são divididos, compartilhados, questionados, contestados, repensados. E o envolvimento pessoal nesse ambiente profissional deixa tudo mais fluido e honesto. As pessoas com quem trabalhei ou eram meus amigos ou se tornaram amigos depois. Os encontros que não funcionaram no pessoal, digamos assim, tampouco funcionaram no profissional.

Quanto ao crescimento da música paranaense… Acho que eu e meus amigos somos apenas uma partezinha disso. Todas as cidades se comunicam muito também, então é um puxando o outro. Ninguém levantou sozinho. Ninguém está levantando sozinho. Não consigo separar muito por cidades as coisas. São encontros que vão além da geografia. E esse crescimento da música curitibana acontece porque outras cidades se abriram e se envolveram com as coisas que acontecem em Curitiba e porque Curitiba se envolveu e se abriu a outras cidades. Então é difícil dizer quem cresceu o quê, onde e porquê. As coisas estão simplesmente se movendo juntas. Seja pelo impulso, pelo empurrão ou pela rasteira.

Só sei que sem esses meus amigos eu não seria absolutamente nada profissionalmente. E acho que ninguém seria nada profissionalmente sem bons amigos trabalhando junto. Digo isso por empirismo e não por romantismo.

E quanto ao seu futuro? Pretende lançar nos próximos meses um novo trabalho, ou alguma colaboração?

Sim. Em março/abril vou lançar um EP. Eu e o Vinícius Nisi estamos trabalhando nele. É um trabalho nosso. Estamos gravando tudo sozinhos. Vai ser uma puta trabalho lindo e conceitual e com uma sonoridade bem distinta do meu primeiro disco. O público pode esperar por algo bem bonito!

Se for tão bonito quanto “Tudo Começou Aqui”, certamente vamos adorar… Seu trabalho encanta, e com a parceria de um cara como o Vinícius Nisi vamos ter, certamente, mais um “colírio para nossos ouvidos”. O RPblogging agradece imensamente a sua disponibilidade para essa que é a segunda entrevista do site. Gostaria de deixar um recado final para os leitores?

Só tenho uma coisa a dizer: LIVRO. Logo vocês vão entender.

550867_390255631011139_2142796858_n

Créditos:

Perguntas: Renan Pereira.

Respostas: Ana Larousse.

Experimente: O rock acessível da Sound Bullet

Por: Renan Pereira

Quando alguém fala de indie rock com sotaque carioca, é normal que venha em nossa mente que, se não é o Los Hermanos, é algo muito parecido. Não foram poucas as bandas nos últimos anos que, babando nas barbas de Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, apresentaram um resultado muito copioso do grupo indie já dissolvido, mesclando sem muitas novidades o rock gringo com o samba tupiniquim.

Eis então a Sound Bullet, uma nova banda carioca de indie rock… E junto vem aquela desconfiança: “ah, mais uma bandinha nova tentando imitar o Los Hermanos”. Felizmente, esse não é o caso. Há influências do rock feito no Brasil na década passada? É claro que sim, mas a base sonora do grupo mora, na verdade, no rock britânico dos anos oitenta: um som que é adaptado à realidade brasileira e aos dias atuais, construindo um som acessível que agrada logo na primeira audição, sem nenhuma dificuldade.

foto show 2

Formada em 2009, e integrada por Guilherme (voz e guitarra), Fred (baixo e voz), Ton (guitarra e voz) e Pedro (bateria), a Sound Bullet lançou o seu primeiro EP em novembro do ano passado. Centrado nos relacionamentos que envolvem a banda, “Ninguém Está Sozinho” apresenta, com o vigor necessário, as facetas sonoras propostas pelo quarteto. Adquirindo um ar britânico mesmo em um cenário litorâneo e tropical, o grupo flerta com o post-punk revival e o math rock em um sentido bem claro: atingir os ouvintes. Brincando intensamente com o pop, mas longe de soar descartável, o conjunto parece ter entendido muito bem as regras “impostas” pelos discos bem-sucedidos dos últimos anos… Se Dave Grohl fosse brasileiro, ele construiria um som muito parecido ao da Sound Bullet.

Ainda receoso quanto a “mais um indie rock carioca”? Ouça “Ninguém Está Sozinho” e veja como esta banda é diferente. Uma boa aposta para os próximos anos, e um som muito legal para experimentar.

Facebook

Twitter