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Entrevista: Fernando Temporão

Por: Renan Pereira

Fernando Temporão é um dos mais talentosos compositores da nova geração da música brasileira. Radicado nas tradicionais rodas de samba do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, o músico apresentou, em seu primeiro disco em carreira solo, uma sonoridade que vai muito além do samba que o lapidou.

“De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” foi eleito pelo RPblogging como uns dos 30 melhores discos nacionais de 2013 devido à abrangência deliciosamente pop com a qual o músico expôs traços de sua intimidade, quebrando com naturalidade aquele muro que sempre é construído contra o ouvinte quando o artista decide abordar seu próprio interior. Temporão fala simples, mas de coração.

Um nome emergente da música brasileira, Temporão volta a abrir a gaveta da sua alma nessa entrevista ao RPblogging. Nela, o artista nos conta um pouco mais sobre a sua carreira, partilhando também suas opiniões um pouco sobre os rumos da música alternativa feita principalmente no Rio de Janeiro.

Fernando Temporão

Como e quando você começou na música? Desde o princípio, você tinha certeza de que gostaria de seguir carreira como músico?

Tudo começou com um violão velho do meu pai que ficava lá em casa, encostado no canto. Acho que ter aquele instrumento ali, à mão, foi determinante pra tudo o que veio depois. Além do violão, meu pai sempre comprou muitos discos, ouvia música o tempo todo – em alto volume – e eu acompanhava de perto todo esse universo da chegada dos cd’s, os Lp’s, a coleção de discos antigos, os amplificadores, caixas de som, vitrolas… ainda lembro quando ele comprou nos Estados Unidos um cd-player de cartucho, onde cabiam 5 cd’s, foi uma revolução! A música era, portanto, onipresente. Em 1994, quando fiz 11 anos, pedi aos meus pais que pagassem um professor de violão, e essas aulas só aprofundaram minha curiosidade pela música. Meu professor era o Nelson Cerqueira, irmão do DJ Edinho, um cara que tocava numa banda de Ska muito bacana chamada Kongo e conhecia tudo de reggae. Eu, aos 11 anos, tinha nessas aulas, frequentemente, momentos de bate papo sobre música, política, futebol… tinha um lado bacana de tirar as músicas que eu queria saber tocar e um lado mais sério também, de estudo. O Nelson era um instrumentista exigente e lembro dele passar umas coisas do Bach, Villa-Lobos e até mesmo do João Pernambuco pra estudar. Acho que ainda sei tocar “Sons de Carrilhões”.

Então esse ambiente musical em casa foi fundamental, e ter aprendido a tocar violão com 11 anos foi bacana também porque a partir daí eu passei a ter alguma autonomia com o instrumento, passei a tirar músicas de ouvido e virar as tardes e noites todas tocando. Anos depois, na faculdade de Ciências Sociais, quando bateu uma crise e eu passei a questionar se era aquilo mesmo que queria pra mim, concluí que o que me dava mais prazer era fazer justamente o que eu já fazia todo santo dia: tocar violão, compor e cantar. Essa simples constatação afetiva me ajudou a sustentar essa opção pela música profissionalmente.

Você não vem de uma família de músicos, e por mais que haja sempre um apoio incondicional dos pais, viver de arte é algo muito complicado. Houve algum momento em que seus pais tentaram te convencer a investir em outra profissão e deixar a música pra lá?

Vir de uma família tradicional, no sentido das escolhas profissionais dos meus pais, tios e avós, é sempre mais complicado, porque todo protagonismo é traumático por natureza. Eu sou o primeiro e, por enquanto, único membro da família inteira a trabalhar e viver de arte. Tenho um irmão mais novo, Gabriel, que está estudando música e, quem sabe, siga o mesmo trilho. Mas embora o contexto familiar seja esse de um núcleo mais tradicional, sempre tive apoio dos meus pais pra seguir na música. Em nenhum momento eles sugeriram algo ou fizeram qualquer tipo de pressão pra que eu investisse em outro caminho. Na realidade, a pressão que sinto e sempre senti, no sentido de sustentar essa escolha, é minha mesmo, é uma cobrança que me faço o tempo todo.  Pode ser que essa paixão evidente pelo ofício que escolhi, tenha convencido eles desde cedo de que não haveria mesmo outra estrada pra mim e, além disso, meus pais sempre nutriram muita simpatia pelas artes, pela música… na realidade minha escolha parece ser muito mais um motivo de satisfação do que frustração pra eles. Isso me ajuda e me atrapalha. De qualquer forma, acho que normalmente as pessoas tendem a procurar um ofício que proporcione um equilíbrio entre a satisfação pessoal, o prazer, e o retorno financeiro. Só que os artistas costumam estar tão afetados por um amor e pela inevitabilidade de se fazer o que se faz, que esses cálculos pragmáticos ficam em segundo plano.

Como foi adentrar no mundo da música e perceber que, aos poucos, você estava tocando com gente importante e, mais do que isso: se tornando um artista importante?

Acho que esse tipo de percepção acontece naturalmente, com o tempo, com os acidentes e acertos da vida. Mais do que chegar em algum lugar ou atingir objetivos ou se tornar algo, o grande lance da vida é ter prazer com o que se faz, dia após dia, sem muita preocupação com as consequências disso. Em algum momento eu certamente vou fazer um apanhado de tudo o que fiz, mas por enquanto a sensação que tenho diariamente é a de que as coisas ainda estão começando e tenho tudo por fazer. Se no meio dessa caminhada toda alguém considerar minha música importante e relevante, acho que posso pensar que estou indo pro lugar certo. Eu me vejo, ainda hoje, subindo um degrauzinho a cada dia, conhecendo pessoas maravilhosas a cada dia, crescendo um pouco mais a cada erro e acerto e, principalmente, aprendendo a sobreviver entre os desafios que me são impostos por esse universo profissional da música. Mas é, de fato, muito bacana quando a gente pode trocar experiências com pessoas que admiramos e que são importantes pra nossa evolução.

Você tem uma raiz artística muito ligada ao samba. Trabalhou com o grupo Sereno da Madrugada e lançou um trabalho em parceria com o João Callado. Por que, no primeiro trabalho solo, você decidiu seguir outra trilha musical?

Essa é uma pergunta que tem sido feita com frequência e que, inclusive, deu a tônica para algumas críticas do disco. Senti algum grau de frustração em jornalistas que esperavam um disco de samba. Acho importante explicar:

Minha relação com o samba e com o universo do samba se estabeleceu inicialmente na Lapa, no comecinho dos anos 2000, quando entrei para a faculdade. Naquele momento, havia um clima muito forte de revalorização dos antigos compositores de samba e choro na mesma medida em que ocorria uma revitalização da Lapa enquanto espaço urbano, como se uma coisa alimentasse a outra. Novos espaços estavam surgindo, o circo voador estava sendo reconstruído, brotavam novas casas noturnas, a Lapa passou a ser um lugar minimamente seguro para ser frequentado à noite, os músicos estavam tendo novos espaços para trabalhar e muita gente nova (que era o meu caso) chegou junto para ver aquilo acontecer e fazer parte. Acho que havia um clima de novidade e uma sede de se conhecer os compositores antigos, os discos, as histórias, uma coisa da identidade carioca que sempre esteve no ar mas que naquele momento se cristalizou artisticamente. Nesse momento, nós que estávamos num nicho artístico mais tradicional – no caso a Lapa e a faculdade de Ciências Sociais – criamos o Sereno da Madrugada e começamos a tocar por ali, no centro da cidade, mas essa sede de música brasileira, de revalorização do baile, da gafieira, estava por todo lado, inclusive pela zona Sul, onde o pessoal da Orquestra Imperial, de um nicho artístico mais contemporâneo, também passou a fazer seus bailes de samba semanais. Eu estudava no centro, vivia tocando e vendo shows na Lapa, mas morava na Zona Sul, ia aos bailes da Orquestra Imperial, e acompanhava as carreiras do Kassin, do Domenico, do Rodrigo Amarante e cia. Ainda trabalhava na gravadora Biscoito Fino e convivi com Francis Hime, Áurea Martins, Herminio Bello de Carvalho (de quem me tornei parceiro), Luiz Melodia e uma turma da MPB. Então posso dizer que foram anos intensos de pesquisa musical, de ouvir, a cada semana, 2 ou 3 novos discos, estudar violão de 7 cordas, fazer shows com o Sereno e, em paralelo, ir aos shows do Los Hermanos, do Monarco, da Adriana Calcanhoto e do Élton Medeiros.

Então essa curiosidade pelo antigo (que não deixava de ser novidade para mim) convivia tranquilamente com o amor ao contemporâneo porque, de fato, essas coisas não competem, né? Eu compunha muito, mas poucas músicas eram sambas… e eu tentei bastante! A maioria das músicas tinha uma pegada mais pop, já naquela época. E segui assim, fazendo minhas parcerias com o pessoal da Lapa (Moyseis Marques, João Callado, Alfredo Del-Penho, Roberta Nistra, João Martins e etc…), fazendo os shows e gravando.

Agora, o disco que fiz com o Sereno se chamou “Modificado” e já apontava uma vontade importante de trazer ao samba da Lapa, sempre tão reverente, uma linguagem mais contemporânea… gravamos inclusive o ‘Samba a Dois’ do Camelo como uma forma de indicar isso. O samba título do disco, de autoria do Padeirinho da Mangueira, dizia “Vejo o samba tão modificado, que também fui obrigado a fazer modificação (…)” e isso era uma espécie de manifesto pra nós do Sereno. Acho que meu desejo de trabalhar com o novo está muito presente desde essa época e  posso afirmar que minha busca, com o Sereno, já era fazer mais ou menos o que fiz agora no disco solo… E, depois, com o fim do grupo, teve o disco com o João Callado que, embora seja um trabalho mais tradicional, com participação de muita gente bacana, não pode ser visto como um definidor de identidade, até porque as músicas são quase todas do João, e eu entrei mais como letrista para a estética daquele repertório bonito. Foram dois trabalhos compartilhados.

Quando resolvi fazer um meu, um disco solo que refletisse, portanto, quem eu sou musical e artisticamente, as músicas que estavam guardadas no baú eram essas que estão no disco, já estava tudo pronto, definido há muito tempo do ponto de vista da linguagem que eu utilizaria. Acho importante dissecar bastante os fatos nessa questão para que fique claro o quão natural foi fazer o “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”. Embora haja realmente uma diferença estética importante quando se comparam os trabalhos, não acredito em nenhum tipo de rupturas ou mudanças de trilha do ponto de vista pessoal e afetivo. A trilha desse disco é a trilha que já estava dentro de mim.

Além de trazer uma grande qualidade lírica e melódica, o disco “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” é um primor em produção. Quão grande foi a participação do time de produtores e colaboradores na sonoridade final do trabalho?

O Kassin e o Alberto Continentino foram importantíssimos nesse processo de construção da ‘cara’ do disco. Eu levei muitas idéias prontas, muitas coisas que eu queria que fossem feitas de uma forma específica, mas lá no estúdio nasceram tantas outras fundamentais sobre a forma, instrumentação, arranjo e etc. Acho que o diálogo com os produtores foi muito bacana, fluido, tranquilo, e o disco ficou da forma que eu gostaria que ficasse. E eu acredito muito nessa maneira de trabalhar, coletivamente, de ir criando enquanto se grava, sem muita responsabilidade ou necessidade de ter que estar com tudo pronto antes de chegar no estúdio. E tem a contribuição dos parceiros, do Domenico, que fez música e tocou no disco, do Mauro Aguiar, um verdadeiro gênio, um dos grandes letristas da música brasileira, do Verocai, que escreveu lindos arranjos de cordas… de um monte de gente.

Está satisfeito com a recepção do disco, tanto pela crítica quanto pelos ouvintes?

Olha, eu me sinto muito feliz. Embora eu saiba que a crítica é relativa e não define muita coisa, foi bacana a ter tido uma resposta tão positiva, em sites, revistas, blogs e etc. E o público surpreende sempre. A quantidade de pessoas que escrevem é muito grande. Hoje mesmo recebi um recado de um rapaz que queria a cifra de “O que é Bonito” para gravar um vídeo de aniversário pra noiva dele… é bacana quando as pessoas querem tocar as músicas. Eu sou muito crítico, comigo e com os outros… acho que mesmo com toda a satisfação, eu tendo a buscar outras coisas pro próximo disco. Mas tudo funcionou pra um primeiro projeto feito de maneira independente, temos quase 10 mil downloads de pessoas que foram ali, espontaneamente procurar meu som… a música tem circulado sem máquina nenhuma pra empurrar. A preocupação tem sido cada vez maior com um lado mais burocrático, esse lance de produção, e de profissionalizar a coisa toda, fazer grana pra bancar as próximas empreitadas.

No mês passado, você participou do ótimo “Cultura Livre”, da Roberta Martinelli. O ponto que talvez mais tenha surpreendido quem assistiu ao programa foi a sua indignação com a forma que a música independente vem sido tratada pelo pessoal do Rio de Janeiro. A gente percebe que a imprensa carioca está muito concentrada dentro de um único grupo de mídia, e esse grupo de mídia não parece muito interessado em abraçar o que está sendo feito atualmente dentro da MPB, exceto raríssimos casos. O apoio do poder público do Rio também é pequeno, infelizmente. O pior de tudo é que, acompanhando o cenário alternativo atual, se vê uma produção muito maior ligada a São Paulo, embora existam muitos artistas de qualidade no Rio de Janeiro – talvez até em igual proporção com a capital paulista. Como sobreviver a isso?

São vários problemas que todo artista independente precisa superar. Os governos do Rio de Janeiro, nas esferas municipal e estadual, até têm grana pra sustentar durante todo o ano, centenas de shows para artistas independentes, com remuneração digna e estrutura. Mas falta quem pense, quem elabore, quem conheça a cena e tenha tesão de fazer acontecer. A própria rede de SESC’s existe no Rio, mas não existe alguém lá dentro que consiga fazer um centésimo do que é feito em SP. Não sei se conseguiríamos fazer igual, porque a dimensão é menor, mas poderíamos fazer muito mais. Acho que o Rio sempre teve um protagonismo artístico e cultural no Brasil, por uma série de motivos, mas não basta ter uma cena brilhante, como temos hoje, se não há vontade dos jornalistas, por exemplo, de vestir a camisa. É preciso algum grau de bairrismo pra que as coisas aconteçam. Os poucos projetos que acontecem aqui na cidade, com estrutura e cachê, feitos por curadores cariocas, tem pouquíssimos artistas cariocas. Os espaços oferecidos, quando existem, são no esquema “dê o seu jeito”. Tudo contribui para que o artista desista de tocar e vá abrir uma cafeteria. Eu sempre disse que uma cena só se constrói com vontade política, porque isso é um ato politico de identidade local, e quando, ao lado dos músicos, existem jornalistas, empresários, produtores. Acho que em São Paulo houve mais vontade de fazer acontecer, além de todos os outros fatores que ajudam, como o tamanho da cidade, a quantidade de espaços e etc. Mas o último ano foi sensacional pro Rio. Espero que continue melhorando.

Creio que você seja um defensor do samba. Falando sobre o gênero, talvez no Brasil o mais culturalmente marcante de todos, ele anda mais sumido do que deveria, não é verdade? Embora ele se encontre muito fundido a outras vertentes, aquele samba mais clássico e puro parece engavetado nas estantes dos grandes compositores do passado. Por que, afinal, há essa impressão?

Acho que essa é uma questão de mídia e mercado. Existem diversos artistas talentosos que fazem samba tradicional e que, assim como a maioria dos compositores contemporâneos dessa “nova MPB”, não têm espaço pra mostrar o trabalho. Talvez a combalida Lapa seja o reduto único. Quando a gente fala de música no Brasil, acho que raramente padecemos de falta de qualidade. Se as pessoas não conseguem ouvir samba é porque as rádios não tocam, a tevê não toca e por aí vai. Existe um filtro de mercado muito perverso que privilegia, normalmente, o que é banal, popularesco, comercial. A Regina Casé está lá na tevê, todo fim de semana, com Péricles, Thiaguinho, Arlindo Cruz e Xande de Pilares. Esse é o único samba que as pessoas podem ouvir. Artistas como Marcos Sacramento e Moyseis Marques, dois dos maiores cantores de samba do Brasil, não estão no “Esquenta”. Não acho que o samba esteja sumido… quem procurar vai achar com facilidade no beco do rato, no semente, no samba do ouvidor, no renascença. O problema é que as pessoas procuram cada vez menos as coisas. E, como todo produto, é importante que as coisas cheguem até as pessoas. Só que não vai tocar no radio se não pagar jabá… na tevê idem. Dilemas que a internet não conseguirá dissolver em curto prazo, embora haja avanços.

Penso que, embora todo artista tenha aquela vontade de sair Brasil afora fazendo shows, não existam tantas oportunidades. Você planeja sair com a sua banda, levando sua música para os quatros cantos do país?

Com certeza o desejo é enorme. É muito frustrante não poder estar fisicamente em todos os espaços onde sei que a minha música é tocada. A internet é muito importante no sentido de fazer as pessoas conhecerem o som, mas elas querem mais, querem ver o show, o artista. Um exemplo: parte grande do meu público é de jovens do norte/nordeste que perguntam, dia sim dia não, quando estarei na Bahia, Recife, Manaus ou João Pessoa. Então é realmente muito frustrante saber que todo risco financeiro para levar a banda para fora do estado é meu. Por isso, repito, é fundamental que o artista consiga essa estrutura básica de produção para que possa circular. Mas nem sempre isso é possível. Os planos próximos, infelizmente, se restringem a Rio e São Paulo. E a esperança, tá viva, sempre.

Agradecemos imensamente a participação de Fernando Temporão. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”, o primeiro álbum solo do músico.

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2014: Ghost Stories – Coldplay

Ghost Stories

Por: Renan Pereira

O que é o Coldplay? Alguns podem dizer que se trata de uma famosa banda britânica de rock alternativo, outros lembrarão os grandes hits do conjunto, e algumas pessoas, certamente, soltarão que se trata “da banda de Chris Martin”. Por mais que pareça inútil interrogar sobre o que é, na realidade, um dos projetos musicais mais famosos da atualidade, tal questionamento acaba tornando-se necessário a partir dos rumos conceituais que vem envolvendo uma das marcas mais fortes da música mundial. “Obsessão” talvez seja a palavra que melhor representa as ideias da banda nos últimos anos… Obsessão em crescer? Aquele velho preceito de fazer cada vez mais e melhor? O perfeccionismo tão característico dos grandes nomes da arte? É triste ver que, nas mãos de Chris Martin, esses pontos acabam tornando-se triviais.

O que move o Coldplay, hoje em dia, é uma obsessão pobre, que já derrubou tantos artistas que, em outros tempos, obtinham respeito pela música que faziam… Quando o topo das paradas e o verde dos dólares passam a ser a grande referência de um trabalho, este deixa de representar um resultado artístico para se comportar como um mero caça-níquel, um comércio qualquer como uma metalúrgica ou uma padaria. Isso significa que a arte não pode vender? Não, de jeito nenhum: ela não só pode, como deve vender. Mas, antes de tudo, ela precisa ser, primordialmente, arte. O que o Coldplay atual, refletido em seu mais novo disco, “Ghost Stories”, não consegue ser.

Se houve uma época em que o Coldplay fazia música com sinceridade, este já passou há um bom tempo. Preocupada em fabricar produtos para as estantes das grandes lojas de departamentos, ou até mesmo para alavancar as vendas das emergentes lojas on-line, a banda deixa para lá todos os êxitos que alcançara principalmente em seus dois primeiros registros para fazer com que os lamentos de seu vocalista rendam financeiramente. Se Chris Martin encerrou, de forma pouco amigável, seu relacionamento com a atriz Gwyneth Paltrow, por que não tirar algum cascalho em torno desse acontecimento? Se tabloides sensacionalistas fazem tanto sucesso hoje em dia, por que não tornar ridícula sua própria música em nome de um sucesso comercial nas terras do Tio Sam, outrora tão pouco receptivas com a banda?

O fato é que, quando o dinheiro fala mais alto que todas as outras facetas que envolvem um disco, o resultado tende a ser desastroso. E assim é no fatídico “Ghost Stories”. Basta seu início em “Always in My Head” para perceber que a banda sequer trabalhou duro, deixando o conceito dos rumos sonoros nas mãos do renomado Paul Epworth, o produtor “da moda”. Curioso perceber como os arranjos eletrônicos estrelados não conseguem acompanhar a personalidade da banda (se é que ela ainda existe), perfazendo um cenário tão luxuoso e inútil quanto o apresentado no igualmente falho “Mylo Xyloto”. Enquanto isso, Chris Martin chora, mas não com tanta propriedade quanto em anos atrás… Incrível como tudo o que ele canta hoje em dia, em contrapartida ao teor extremamente íntimo de suas composições, soa artificial, um resultado programado através de equações de maximização de lucro. Nada, porém, soa tão falso quanto a segunda faixa, o single “Magic”, com seu pensamento de reconquistar o público indie através de uma cópia descarada da proposta sonora de Justin Vernon no projeto Bon Iver.

É o queridinho dos hipsters, aliás, que é novamente “sampleado” em “Ink” e “True Love”, faixas que voltam a apresentar a inércia poética inserida em uma sonoridade carente de personalidade. A quinta, “Midnights”, que conta com a participação do ótimo Jon Hopkins (considerado o herdeiro de Brian Eno), se agarra em uma concepção eletrônica ainda mais clara, demonstrando o fim da brincadeira da banda com seus instrumentos – o que sempre havia funcionado bem. Mas nem Hopkins, bem como Brian Eno em “Mylo Xyloto”, consegue inserir toda sua capacidade nos rumos comerciais do Coldplay atual.

Até porque milagre poucos conseguem fazer. Além de ser um mero produto, “Ghost Stories” é um produto mal-nascido, aqueles bens que as empresas lançam, não dão bons resultados, e precisam ser remodelados com urgência para evitar um rápido descarte. Para a sorte da conta bancária da gravadora Universal, o disco contém os famosos “singles de novela”, canções que parecem ter sido feitas sob medida para a trilha-sonora de algum folhetim insosso. Nessa ótica, nenhuma canção se encaixa tão bem quanto a nona faixa, “A Sky Full of Stars”, que chega a contar até com a participação do “estourado” Avicii para amplificar seu apelo comercial.

Se “Another’s Arms” é a falha tentativa de alocar a voz de Martin em uma concepção mais próxima da música ambient, “Oceans” traz um arranjo semi-acústico para tentar captar a atenção daquele fã das antigas. Inútil. É provável que aquele ouvinte que foi apresentado ao grupo através dos ótimos “Parachutes” e “A Rush of Blood to the Head” tenha desistido de “Ghost Stories” antes mesmo de seu fim. O que é ruim, visto que a última faixa, “O”, é não apenas a mais longa, mas a melhor canção do disco. Dentro deste conceito, é o melhor que o Coldplay poderia fazer.

Mas, afinal de contas, qual é a resposta para aquele questionamento um tanto quanto tolo que foi proferido no início deste texto? “A resposta está flutuando com o vento”, diria Bob Dylan. E ele teria razão. Como poderíamos responder alguma coisa? O Coldplay atual ora é uma tentativa falha de ser Bon Iver, ora é um projeto eletrônico altamente comercial, ora se resigna apenas aos versos chorosos de Chris Martin. Uma banda indecifrável, sem personalidade artística e com um futuro duvidoso – e inclusive, para muitos, um grupo que está morrendo por aqui.

NOTA: 2,5

Track List:

01. Always in My Head [03:36]

02. Magic [04:45]

03. Ink [03:48]

04. True Love [04:05]

05. Midnight [04:54]

06. Another’s Arms [03:54]

07. Oceans [05:21]

08. A Sky Full of Stars [04:28]

09. O [07:46]

Entrevista: Leo Cavalcanti

Por: Renan Pereira

Se você ainda não conhece Leo Cavalcanti, é bom prestar atenção à nova entrevista do RPblogging. Um dos novos nomes de destaque da música pop nacional, o músico se destaca através de uma base sonora dançante, inteligente e abrangente.

Filho de Péricles Cavalcanti, Leo já tem muitos anos de experiência com a música, mas lançou seu primeiro disco apenas em 2010. “Religar”, no fim das contas, se comporta apenas como um abre-alas para sua obra maior, o disco “Despertador”, lançado nesse ano e aclamado por diversos setores da imprensa (incluindo o RPblogging).

Aproveitando o recente lançamento do “Despertador” e a evidência que o nome de Leo Cavalcanti pleiteia na música nacional, tivemos o prazer de entrevistá-lo. Na entrevista, Leo nos contou um pouco sobre seu início, suas influências, sobre os conceitos de seus discos e seus planos para o futuro recente.

Você começou a compor ainda muito cedo, acredito que muito por influência caseira de seu pai, o também músico Péricles Cavalcanti. Mas quando você teve a certeza de que trabalhar com música era o que você queria para o seu futuro?

Comecei a compor na minha adolescência. As primeiras canções foram sobre os amores não-correspondidos na época. A certeza de querer trabalhar com música veio antes disso. Desde criança sonhava em ser um cantor, além de astronauta, pintor, arqueólogo, arquiteto… Sempre fui um sonhador desde criança.

Meu pai foi fundamental na minha formação musical, claro. Vi todo o processo criativo dele de pertinho. E ele que meu deu, quando eu tinha 9 anos, meu primeiro violão. Foi aí que tudo começou mesmo. Comecei a perceber que música é uma linguagem natural pra mim.

Com certeza, Péricles Cavalcanti foi a sua primeira influência musical. Porém, outros nomes também devem ter te inspirado em seus primeiros passos na música… Quem são esses artistas?

Meu pai com toda a sua bagagem musical, que não era pouca. Ouvíamos de tudo em casa: de música brasileira dos anos 30 à Michael Jackson. De Bach a Beatles. De Clementina de Jesus a Ella Fitgzerald. Além disso, como nasci dentro do meio musical, sempre fui a muitos shows desde pequeninho. As primeiras coisas que me pegaram mesmo foi o flamenco de Paco de Lucia, Michael Jackson, Beatles e Jackson do Pandeiro.

O seu primeiro disco, “Religar”, exibiu uma constante exploração dos elementos do tropicalismo. É muito interessante perceber que um movimento que emergiu lá nos distantes anos sessenta continua inspirando tantos e tantos novos artistas. É possível mensurar a importância de nomes como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil para a música brasileira?

Não considero que foram explorados em especial elementos tropicalistas neste disco – pelo menos não diretamente ou intencionalmente. É claro, ninguém que faça música no Brasil passou incólume pelo tropicalismo. É algo que influenciou a todos.

Mas vejo que “Religar” vai para outros lados. É um disco totalmente da era digital, feito de samples e batidas eletrônicas. Em termos de arranjos, creio que se direciona mais para o pop eletrônico do que pra chamada MPB. A música brasileira está mais presente na estrutura da composição – e é claro, no meu violão.

E é claro: imensurável a importância desses deuses da nossa música. Ela ainda está a se expandir, inclusive.

E como é ser elogiado por artistas do nível de Caetano, Arnaldo Antunes e Fernanda Takai? Seu ego fica massageado?

Eu fico muito feliz e honrado. São artistas que admiro profundamente. Mas não tenho vontade nenhuma e nem teria sentido ficar me gabando disso. Se “ego massageado” aqui significa algo que me estimula a continuar meu trabalho – e não “ego inflado” – então, sim. É um grande estímulo para continuar, ver meu trabalho sendo admirado por eles e principalmente pelo público.

Falando em massagem, você também já se embrenhou pelo yoga e pela massoterapia. Como essas atividades interferiram no seu modo de fazer música?

Interferiram profundamente. Musica é para mim um instrumento terapêutico. Um campo onde me conecto com o sagrado em mim. Esses estudos me abriram janelas. Sou apaixonado pela fonte de sabedoria que é o Yoga. Assim como massoterapia é um terreno de ferramentas poderosíssimas. Tenho grande curiosidade e admiração por ciências que visam a integração do ser humano em todos os seus níveis (físico, energético, emocional, intelectual e espiritual). O contato com esses estudos foram marcantes e firmou minha motivação com o fazer música.

Seu último disco, de lançamento ainda recente, é denominado “Despertador”, e traz o seu “despertar” para a música pop. Qual o motivo dessa mudança de direção, abraçando nuances sonoras mais modernas?

Não vejo exatamente como uma mudança de direção, mas sim como uma evolução natural. Meu trabalho, desde “Religar”, tem direcionamento dentro do universo da música Pop. Vejo que em “Despertador”, essa direção se consolida ainda mais – principalmente por esse disco ter uma unidade conceitual e sonora mais acentuada.

No “Religar”, foi o uso dos samples, do recurso de edição digital, que norteou o disco. No “Despertador”, o uso de sintetizadores. Nos últimos tempos, tenho ficado apaixonado pelas mil e uma possibilidades do sintetizador, e o poder delas. De possibilitar arranjos com pressão, ótimos para a pista (com os baixos synth) e também transcendentais, com um certo teor “espacial”.

Minha viagem para a Alemanha, antes de gravar o disco alimentou isso também. Ouvi música eletrônica nas rádios de lá. E adoro música pop em geral que utiliza sintetizadores, de Justin Timberlake a MGMT.

Tenho vontade de explorar muitas nuances sonoras e artísticas em geral, no meu caminho. É inevitável que cada trabalho traga algo particular do momento em que estou vivendo. Quero sempre me permitir mudar e transformar a sonoridade do meu trabalho.

“Despertador” é um disco bem comunicativo, a ponto de sua música ser denominada como “pop intergalático”. Como você define, afinal, esse pop que viaja além das fronteiras do nosso planeta?

Criei esse termo inicialmente como uma brincadeira, para quem perguntasse qual o gênero de música que faço (pergunta essa que fico sempre encabulado de responder): qual o tipo de música que vc faz? Como sei que nenhuma resposta convencional vai dar a informação, resolvi brincar com isso.

É música pop que aponta para mergulhos internos, para além dos fatos da vida cotidiana concretos. São exercícios filosóficos. Quando compus essas músicas, elas serviram para isso. Elas atuam num outro plano.

A sonoridade dos sintetizadores trazem um certo teor psicodélico e transcendental que resolvi identificar como “intergaláctico”.

Mas a música pop, além de se comunicar com o grande público, precisa fugir da redundância para ser artisticamente válida. Felizmente, a sua música se comporta muito bem quanto a inovações, com semelhanças à obra recente de nomes como Silva e St. Vincent. Esses dois artistas citados realmente foram fontes de inspiração de “Despertador”? Existem outros nomes da atualidade que te levam a tentar inovar?

Não, nenhum dos dois foram fonte de inspiração pro “Despertador”. Recentemente tenho escutado muito St. Vincent e estou absolutamente fã. Mas descobri recentemente, depois de gravar o disco “Despertador”. Silva, o mesmo, venho conhecendo melhor recentemente. A produção musical do trabalho dele é incrível.

Para mim, fazer música é um desafio onde sempre gosto de buscar o desconhecido. Traçar um caminho que não seja óbvio pra mim. Tudo o que ouço acaba fazendo parte disso. De música hindu tradicional ao R&B norte-americano.

Durante a gravação de “Despertador”, os meninos da banda estavam ouvindo muito Tame Impala. E eu fui apresentado durante a gravação e “abduzido” pelo som deles. Posso dizer que, se houve alguma banda que nos inspirou durante a gravação, foi essa.

No clipe de “Get a Heart”, você mostrou que sabe dançar e atuar. Mas o papel do artista, principalmente nos dias de hoje, em que a informação é rápida, fácil, e muito próxima do público, não pode se restringir apenas à arte… “Consciência política”, por exemplo, é um conceito com o qual você se importa?

Consciência política é algo imprescindível se você quer realmente lidar com a realidade de sua época. Não dá pra ignorar as estruturas decadentes e desequilibradas que norteiam nossa sociedade se você quer fazer um trabalho artístico realmente consistente.

Cada vez mais percebo que o que se chama de “arte” é algo tão amplo e potente, que fica difícil de limitar suas fronteiras. Percebo que inevitavelmente, quem faz arte, acaba se posicionando em outras áreas também, nem que seja de forma subjetiva, nem que não se pretenda fazer isso. Sua reverberação pode ser altamente transformadora, mudando todo o cenário a nossa volta. A arte atua no campo subjetivo, o que é fundamental para qualquer mudança objetiva que quisermos realizar.

Todos nós artistas somos, no fundo, ativistas. E é importante que, nesses tempos, possamos nos utilizar dessa virtude, cada vez mais.

Procuro me posicionar em tudo aquilo onde sinto propriedade em fazê-lo. Questões relativas a direitos humanos básicos e meio ambiente são assuntos que me envolvem e considero fundamentais. Mas ainda sinto que posso ir muito mais longe, no que tange esse assunto. Quero cada vez mais somar minha força a movimentos que considero ser realmente construtivos para a transformação dos velhos padrões limitantes que estão regendo ainda nossa sociedade.

Agora, depois de tanto trabalho para lançar o seu segundo disco, é hora de promovê-lo. “Despertador” terá a sua turnê pelo país? Reproduzir ao-vivo a salada sonora do álbum, com direito a muitos efeitos eletrônicos, é um desafio?

Estamos nesse desafio de criar oportunidades para o “Despertador” rodar o país o máximo possível. É o meu desejo tocar o máximo que der.

O show é o disco ampliado. Como o disco foi gravado quase todo ao vivo, não foi tão difícil trazer este resultado pro palco. Alguns arranjos mudaram e cresceram, ficou muito bom. Esse show é visualmente muito forte também. As projeções de imagens são protagonistas. Tem coreografia de dança no show, eu me expresso fortemente pela dança – e a ideia é cada vez mais trazer a dança pro meu trabalho. Eu diria que o show tem o aspecto intergaláctico do disco ainda mais acentuado. É uma experiência forte assisti-lo, isso eu posso afirmar.

Agradecemos imensamente a participação de Leo Cavalcanti. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “Despertador”, o novo álbum do músico.

2014: De Lá Não Ando Só – Transmissor

De Lá Não Ando Só

Por: Renan Pereira

Se evoluir é um exercício pelo qual devemos pautar nossa existência, os mineiros do Transmissor têm muito o que ensinar. Fazendo de seu terceiro disco, “De Lá Não Ando Só”, um grande e nítido acumulado de vivências e novas experiências, a banda extrapola toda e qualquer expectativa, independente de sua extensão, para construir uma obra pautada na evolução. É como se o já maduro “Nacional”, de 2012, se comportasse apenas como um ensaio para o disco que agora temos em mãos.

Embora siga uma linha sonora explícita, “De Lá Não Ando Só” é um grande agregador de novas nuances à musicalidade do Transmissor. Ainda que a mistura do pop rock dos anos 2000 com as heranças setentistas do Clube da Esquina continue formando a base sonora do grupo, Pedro Hamdan, Daniel Debarry, Henrique Matheus, Jennifer Souza, Thiago Corrêa e Leonardo Marques encaram novos caminhos de uma velha paisagem. Todo o teor poético não está somente mantido, como se mostra melhor resolvido, encontrando na interação com uma forte base instrumental o seu maior exercício de expansão ao ouvinte. As belas melodias também se fazem presentes mais uma vez, porém acompanhadas por arranjos mais ricos em detalhes e complexidades. Não, o Transmissor não deixou de falar simples… Apenas aumentou o seu tom, que agora pode ser ouvido com maior nitidez.

Desejando não fazer do novo álbum um simples “mais do mesmo”, a banda mostra acerto ao flertar com “novos” aspectos do rock. Há um acumulado muito maior de referências em comparação aos trabalhos anteriores: se antes o grupo se mostrava satisfeito em refletir a sonoridade que fez o conjunto nascer e crescer como unidade, agora eles parecem querer superar a si próprios, absorvendo uma nova gama de texturas, características dos anos oitenta e noventa… Isso, claramente, torna a estrutura sonora mais poderosa e comunicativa.

O início do disco, porém, parece ser muito mais uma extensão do que já havia sido apresentado no álbum anterior: “Queima o Sol”, a faixa de abertura, parte dos conceitos de “Nacional” para soar agradável e classuda, um pop rock melódico com a leveza característica da música mineira. Já na segunda faixa, “Só Um”, o ouvinte é apresentado aos arranjos nitidamente evoluídos, que aumentam a comunicação das guitarras com o ouvinte… Afinal, ainda que os teclados atraiam, e as performances do baterista Pedro Hamdan se mostrem colossais, são as linhas de guitarra que dão ao trabalho o seu grande diferencial.

É claro que os vocais também formam um destaque positivo: doces, massageando nossos ouvidos, se comportam com perfeição durante todo o registro, ainda que dividido entre Jennifer, Leonardo e Thiago. É a moça que lindamente canta a terceira faixa, a simples, porém bela, “25 Horas por Dia”. “Todos Vocês” brinca com uma estrutura repleta de grooves inteligentes, mas é a primorosa letra que se destaca: “A verdade nunca foi à sua casa, pra bater à porta, pedindo pra entrar. Nesse tempo as coisas são tão diferentes, e o frio que há na gente, já pede pra ficar“. Profundo e bonito.

“Mais Quente do que Quis” é uma daquelas faixas que tem tudo para ser um grande hit, mas que, infelizmente, provavelmente será deixada de lado por nossas rádios tão preocupadas em banalidades. Tudo vai soando muito bem, não? O ápice, contudo, é atingido na bonita melancolia de “Nessas Horas”, que comprova todo o crescimento da banda: embebida em arranjos elegantes, que se comunicam com o rock progressivo, a faixa parece ser a mostra perfeita dos novos rumos sonoros do sexteto, que agora abraça texturas obscuras, de maior complexidade. A próxima, “Nada pra Te Devolver”, trata de seguir a mesma linha, com o grupo acertando em cheio no alvo mais uma vez.

“Retiro” contém flertes eletrônicos, que assentam muito bem a letra composta por versos curtos que é amparada pelo bonito vocal de Jennifer Souza. A musicista, aliás, parece encontrar um espaço maior dentro da banda com o novo disco: isso se deve ao teor democrático pelo qual o trabalho foi bordado, em que todos os membros do grupo colaboraram com quase igual importância. A nona faixa, que dá nome ao álbum, é um bom número pop que, pelo clima suave e melancólico, pode ser comparada às canções de Silva.

Na décima faixa, a banda brinca até mesmo com a aceitabilidade do público ao nomeá-la de “O que Você Quer Ouvir” – e não é que a música é, no fim das contas, justamente isso? Em “Canso a Cabeça” somos novamente apresentados a uma nova faceta do grupo, em que guitarras pesadas são o norte da canção… Uma densidade que se repete na apoteótica “Casa Branca”, que atesta o amadurecimento da banda a partir de uma ideia: consistência.

Mesmo pautando seu trabalho na linearidade sonora, em nenhum momento o Transmissor faz de “De Lá Não Ando Só” um registro capaz de enjoar o ouvinte. A toada aqui, na verdade, vai justamente no sentido contrário: as pontuais evoluções são alocadas com tanta inteligência que nos prendemos interessados do início ao fim da obra. Um grande disco, candidatíssimo a um dos melhores do ano, e o mais completo trabalho que o Transmissor já produziu. Será que alguém ainda pretende se embaraçar ao citar Skank, Pato Fu ou Jota Quest? O posto de melhor banda mineira da atualidade já tem dono… e ele é dividido, em partes iguais, entre os seis integrantes do Transmissor.

NOTA: 8,5

2014: Supermodel – Foster the People

Supermodel

Por: Renan Pereira

Nunca bastou a nenhum projeto musical um simples conjunto de hits para que se candidatasse a uma quase unanimidade. Até por isso, o Foster the People ainda não obtém, sequer entre o público indie, uma louvação geral: há quem adore, há quem odeie e há quem o considera apenas um projeto legal. Mas afinal de contas, o que é o Foster the People? Um segundo álbum sempre tenta preencher as prováveis lacunas da estreia, e “Supermodel” se apresenta como o meio mais plausível para que certas dúvidas sejam respondidas.

Da força de “Torches”, o primeiro disco do conjunto, ninguém duvida. É provável também que ninguém levante alguma questão sobre a inteligência musical que permeia o cerne do conjunto, visto que seu líder, Mark Foster, não é apenas um músico, mas um sujeito graduado em música. Da mesma forma, ninguém discorda que, desde os primeiros segundos do primeiro disco, já estava clara a grande capacidade da banda em brincar de forma convincente com inúmeras facetas da música pop a fim de criar hits cativantes. O que dizer, afinal, de canções tão pegajosas e empolgantes como “Pumped Up Kids” e “Call It What You Want”? “Torches” convenceu com sua salada musical regada a números grudentos, mas ainda assim não foi capaz de dizer, em plenitude, o que o Foster the People é.

Seria a banda, enfim, uma grande hitmaker? Se o primeiro disco havia flertado com esse rótulo, seu sucessor deveria trazer a concretização de uma ideia sonora. Aguardado com ansiedade, “Supermodel” chega para tentar acrescentar mais alguns êxitos comerciais na sala de troféus do conjunto, enquanto tenta provar, até mesmo com certo ar de urgência, que Mark Foster e seus pupilos continuaram evoluindo nesses três últimos anos.

Assim como havia acontecido no registro anterior, “Supermodel” trata de saciar a sede do público por canções pegajosas logo em seu início. Fazendo seu dever de casa com primor, a primeira faixa, “Are You What You Want to Be?”, se comporta como um grande hino pop, partindo de onde “Torches” havia parado para conquistar o ouvinte sem nenhum dificuldade: uma letra interessante, arranjos certeiros e rumos melódicos pra lá de potentes servem como um perfeito abre-alas para o que promete ser um grande disco. A explosão sonora continua em “Ask Yourself”, que consegue emular um conjunto de clichês da música pop em uma estrutura atraente, satisfazendo os sempre ferrenhos planos comerciais da gravadora ao mesmo tempo em que consegue demonstrar a força artística do grupo.

Mas as estruturas óbvias do pop não conseguem se distanciar do descarte na terceira, “Coming of Age”, que apesar de se comportar como um número agradável para uma audição descompromissada, mais parece um rascunho do conceito “purpurinado” do último (e pior) disco do The Killers, “Battle Born”.  Ainda bem que gratas surpresas começam a surgir em “Nevermind”, uma assertiva canção de viés tropical que, para nosso espanto, bebe na fonte da chamada “nova MPB”, e mostra que, realmente, o Foster the People não deixou de crescer nesses três anos que separam “Torches” deste presente registro.

Toda essa evolução está ainda melhor condensada na dinâmica e moderadamente experimental “Pesudologia Fantastica”, em que a banda mostra pequenas fugas do habitual em uma estrutura rica e colorida, e deixando claro que o Foster the People está, mais do que nunca, disposto a flertar com o psicodelismo. Mais provas? Na curta “The Angelic Welcome of Mr. Jones” a banda incorpora os Beach Boys de “Pet Sounds” e “Smile” para criar uma vinheta de perfeita harmonia, condizendo bem com as pretensões do conjunto de fazer um “álbum perfeito de música pop”. Embora seja guiado por esse teor megalomaníaco, “Supermodel” nunca nega a seus ouvintes melodias de fácil acesso, visto “Best Friend” com suas guitarras rítmicas óbvias, uma pulsante linha de baixo e um clima todo animado. 

Mas a partir da oitava faixa, a banda parece deixar de atender suas próprias ideias a fim de satisfazer o dinheiro gasto com a luxuosa produção do disco, deixando as decisões conceituais e os rumos sonoros nas mãos do requisitado produtor Paul Epworth. Não há como negar a presença incisiva (e até mesmo exagerada) de Epworth na duvidosa “A Beginner’s Guide to Destroying the Moon”, que se enche de ecos de um pouco genuíno rock dos anos noventa para supostamente escancarar uma “evolução”. Porém, Epworth, Mark Foster e todas as pessoas que se envolveram com a produção de “Supermodel” deveriam saber que o Foster the People não alcança seus maiores méritos tentando imitar o Radiohead.

Mais um encontro com sons noventistas marca “Goasts in Tress”, um número pop que, de tão sem-graça e sonolento, poderia muito bem fazer parte de algum álbum do Travis. “The Truth” embarca em uma estrutura eletrônica tortuosa, e apesar de seu bom refrão, não diz nada quanto às qualidades do Foster the People; alguns até dirão que é a prova de que a banda sabe brincar com aspectos modernos da música eletrônica, mas a canção se trata, basicamente, de um ensaio do produtor Paul Epworth em que os integrantes do conjunto não são nada além do que meras marionetes. O fim do disco, realmente, não condiz com seu início arrasador: a faixa derradeira, “Fire Scape”, soa tão imatura que mais parece uma demo… Algo que seria até compreensível se o disco tivesse sido bordado com pressa, mas que não pode ser aceito quando se tem a notícia de que “Supermodel” foi construído ao longo dos três últimos anos.

Mas apesar de pouco assertivas, as últimas faixas não chegam a destruir o registro. Ainda que passe longe da ideia de “um perfeito disco de música pop”, o disco cumpre o seu papel de acrescentar novos hits à carreira da banda. Isso é muito pouco? Sim, se levarmos em consideração que o Foster the People é capaz de êxitos muito maiores… Não, se pensarmos que é essa é a grande intenção de qualquer projeto de música pop. É claro que as pretensões grandiosas não são cumpridas, mas negar ao disco o grande poder de suas primeiras faixas seria como assinar um atestado de surdez.

Se as faixas iniciais são convincentes, e as finais não atraem, não seria mais plausível, portanto, o lançamento de um EP? Talvez, mas é a urgência que claramente move o conjunto. Pressionado pelo público, pela crítica e pela gravadora a acertar em todas suas apostas, o Foster the People mostra, definitivamente, que grupo ele é: um trio ainda incomodado com os holofotes, ainda não completamente amadurecido e que não consegue caminhar por um disco de grande duração sem cometer alguns equívocos. Mas, ao mesmo tempo, é uma banda que merece nossa atenção e nossa torcida, pois se há algo que não lhe falta é capacidade: afinal, acaba ficando claro que, algum dia, eles farão um trabalho de dimensões grandiosas. “Supermodel” passa longe de ser um disco perfeito, mas mas ao comprimirmos apenas seus êxitos, veremos que se trata apenas de um ensaio para algo que ainda está por vir.

NOTA: 6,0

Track List:

01. Are You What You Want to Be? [04:30]

02. Ask Yourself [04:23]

03. Coming of Age [04:40]

04. Nevermind [05:17]

05. Pseudologia Fantastica [05:31]

06. The Angelic Welcome of Mr. Jones [00:33]

07. Best Friend [04:28]

08. A Beginner’s Guide to Destroying the Moon [04:39]

09. Goats in Trees [05:09]

10. The Truth [04:29]

11. Fire Escape [04:22]

2014: Vista Pro Mar – Silva

Vista Pro Mar

Por: Renan Pereira

Embora venha sendo encarado, pela maioria da crítica especializada, como um “álbum de crescimento”, “Vista Pro Mar”, o segundo disco do capixaba Silva, deve ser encarado através de outra ótica. Até porque são muitas as diferenças entre o presente registro e  o álbum de estreia do músico, “Claridão”. Que Silva cresceu, evoluiu, isso é mais do que óbvio – e é, na verdade, um processo totalmente natural para um jovem que, logo em seu primeiro disco, foi rotulado como um dos grandes nomes da nova safra de artistas brasileiros. Seu público aumentou muito, e de um desconhecido promissor, ele acabou se tornando o grande queridinho dos hipsters: se faltava algo para atestar o crescimento de sua popularidade, a participação do músico na última edição do festival Lollapalooza serviu para mostrar que, hoje em dia, Lúcio Silva Souza é um nome respeitado dentro do cenário pop tupiniquim.

As mudanças, porém, não se concentram apenas na forma com que o público (e até mesmo a crítica) olha para Silva. Enquanto “Claridão” se comportava como uma grande novidade dentro da música brasileira, trazendo para nossas paisagens um estilo de música pop que há um bom tempo já estava sendo feita no exterior, “Vista Pro Mar” é um ponto de continuação. Tentando se desfazer do precipitado rótulo de “experimental” que recebera em seu primeiro trabalho, Silva agora parece querer brincar com as maiores tradições da música destinada às massas sem que o ouvinte possa ser pego de surpresa. Em suma, não há desafios. O que anos atrás era inédito e pulsante agora é convertido em cenários bucólicos, em paisagens sonoras que são bordadas voltando-se à contemplação.

O título do álbum já entrega sobre qual atmosfera Silva está investindo: um registro veranil, “Vista Pro Mar” é resultado de um sereno olhar para o oceano, trazendo à tona todos os sentimentos que a brisa litorânea é capaz de amplificar. Em meio às batidas das ondas e ao som das gaivotas, o músico divaga sobre o amor com a mesma sinceridade que, em 2012, ele parecia musicar aquele ano em que muita gente jurava que o mundo acabaria.

Portanto, se você deseja embarcar em “Vista Pro Mar”, se prepare para encarar em um trabalho confortante, de fácil audição, e que certamente te fará relaxar. Entre batidas modernas e uma melodia cantarolável surge a primeira faixa, iniciando os trabalhos de maneira competente: bastam os primeiros segundos para sentir o clima que embalará todo o registro. Silva é um ótimo cantor e, principalmente, um exímio produtor, manejando os sintetizadores de maneira inteligente, sabendo prender a atenção do ouvinte. Há quem reclame de suas letras simples – e em “Vista Pro Mar” elas estão, de fato, ainda mais simples. Mas quem disse que o simples não pode ser sofisticado? A poesia de Silva pode até não ser tão rebuscada, mas funciona perfeitamente como uma “acompanhante” para seus atraentes rumos sonoros.

Conhecendo a atmosfera do trabalho, o ouvinte se encontra pronto para percorrer um registro marcado por uma sonoridade tranquila, de fácil audição até para quem está musicalmente desatualizado. Não é surpreendente que haja, dessa forma, um constante sentimento de nostalgia: Silva faz uso de referências não tão novas para construir um som que é, inegavelmente novo. “Atual” é um adjetivo correto, mesmo quando canções como “É Preciso Dizer” se embebedam de referências oitentistas. Um single de potencial, a segunda faixa trabalha como uma boa canalizadora de emoções para a dança leve de “Janeiro” e seu positivismo harmônico.

Em um trabalho tão bonito, construído para ser uma adorável audição em um clima litorâneo, não poderia faltar aquele sentimento único de observar o mar durante o pôr-do-sol do último dia de férias: mais do que um tratado sobre a saudade de um momento que ainda não acabou, “Entardecer” dá ênfase à bela contemplação que foi presenciada. Com a companhia da doce voz de Fernanda Takai, Silva faz da quinta faixa, “Okinawa”, a canção mais linear do disco: uma simples música de amor, com palavras simplórias, mas que funciona com primor – principalmente devido ao casamento perfeito entre as vozes dos cantores.

É importante dizer que um dos maiores êxitos do disco está na forma com que Silva utiliza seu recolhimento como um bem público, fazendo de seus mais íntimos momentos matérias-primas de um catálogo de canções oferecidas aos ouvintes; mesmo se isolando em uma praia, o músico sabe como nos atingir. Vide a canção “Disco Novo”, com uma analogia que mostra como geralmente a pressão por um novo lançamento atinge os iniciantes que se dão bem em seu álbum de estreia… Se Silva estava sendo “pressionado” para lançar algo ao nível de “Claridão”, ele encontra na naturalidade o ponto a ser explorado: “Vamos, vem ouvir”, ele convida, encarando um novo disco como uma abertura para novos sentimentos. Todo esse teor de novidade, porém, acaba encontrando maior significado em “Universo”, quiçá a melhor faixa do álbum: um número altamente dinâmico, rico em detalhes, que nos dá a certeza sobre a evolução de Silva como produtor.

Outro turbilhão sonoro abraça o ouvinte em “Volta”, com mais uma certificação da habilidade do músico nos sintetizadores, perfazendo mais uma canção levemente dançante… Conceito que é abandonado brevemente quando surge a nona faixa, “Ainda”, composta por arranjos acústicos, e ambientada na máxima introspecção do disco – que, de certa forma, se comporta como um ponto fora da curva. Mas o respiro dura pouco, e em “Capuba”, a “eletrônica praieira” de “Vista Pro Mar” retorna com tudo, em mais uma ótima concepção de arranjos.

Interessante perceber que, embora seja mantido sempre na mesma temática, nas mesmas ambientações, “Vista Pro Mar” chega ao seu desfecho, com a canção “Maré”, sem enjoar o ouvinte. Na verdade, não seria de nada ruim se houvesse ainda mais duas faixas a explorar o conceito central: prova de que as fichas apostadas por Silva deram um bom resultado. Mesmo construindo um disco que não instiga, não surpreende, o músico parece ter acertado em todas as suas escolhas, querendo deixar claro que nem só de inventos pode viver um grande trabalho.

Até por isso, o presente registro não se comporta como um clássico – algo que “Claridão” só é devido ao contexto da época em que fora lançado. Mas Silva não quis fazer de “Vista Pro Mar” um grande clássico da música. Segundo o próprio, este disco foi criado em um momento diferente, sob circunstâncias distintas e, obviamente, com outras intenções. Portanto, para entender o álbum, é necessário vê-lo como um inofensivo produto da nova música pop brasileira, um álbum tranquilo que oferece ao público, a todo instante, melodias cativantes e palavras bonitas, diminuindo as pretensões a fim de alcançar uma fácil afinidade com o ouvinte. Se você esperava que Silva fosse te surpreender, acabará abismado justamente por ele não ter surpreendido.

Sim, o caminho tomado pelo músico é reto, límpido, fácil de seguir. Aí vem a pergunta: um grande artista precisa se arriscar? Nem sempre. O público de massa prefere músicas que possam ser facilmente digeridas, e quem pensa que a complexidade é um ponto-chave para construir um grande trabalho deve começar a aprender o que é a música pop. Para nossa sorte, disso Silva parece saber muito bem.

NOTA: 8,3

2014: Despertador – Leo Cavalcanti

Despertador

“Despertador” parece ser um daqueles discos cuja capa logo vai entregando o conceito pelo qual o trabalho é guiado. Lá está Leo Cavalcanti imerso em um cenário intergalático, fazendo-se parte integrante dessa imensidão que é o universo. Entre cores e símbolos, o músico ostenta sua barba profética, fazendo com que todo esse exoterismo faça com que o ouvinte lembre, mesmo que vagamente, dos conceitos plantados pela música pop lá nos anos sessenta e setenta…

Porém, pouco ou quase nada do presente registro soa como uma mera “revitalização” de uma base musical antiga. Mais do que o segundo exemplar da discografia de Cavalcanti, “Despertador” é a concretização de um talento que já havia sido demonstrado no álbum “Religar”, de 2010. Há agora uma maior linearidade, a exploração de um som que o músico tornou sua própria identidade, e embora a complexidade e os heterogeneidade tenham sido diminuídos em nome de uma maior aproximação com o público de massa, Cavalcanti faz do novo trabalho praticamente uma assinatura musical.

Mas para alcançar esse madurecimento como artista, não bastou ao músico a utilização dos conceitos que haviam costurado com acerto o seu primeiro disco. Ciente de que algo a mais seria necessário para quebrar a barreira da “promessa” para se tornar, enfim, uma “realidade”, Cavalcanti topou fazer de seu novo trabalho uma grande exploração de sons sintéticos. Esbarrando nos rumos eletrônicos de Silva, ou até mesmo no pop tortuoso proposto por St. Vincent, o compositor paulistano faz de uma sonoridade repleta de frescor a nova morada de seus versos cativantes.

“Despertador” abre com sua faixa-título, em que ótimas harmonias vocais constroem a ponte perfeita para ligar o conceito sonoro à lírica sutil – que engloba, aliás, todo o trabalho. Seja pela base energética, composta por batidas dançantes, ou pelo seu andamento pop, que parece se comunicar com algum hit perdido do pop-rock oitentista, a primeira faixa já parece deixar claro o acerto proeminente no qual o disco será guiado. Ainda que algumas faixas, como a segunda, “Só Digo Sim”, demonstrem uma aproximação até mesmo exagerada a uma estética simplória, são os versos sempre bem pensados de Cavalcanti que acabam ficando na mente do ouvinte… Como bem demonstra a inteligente e psicodélica “Sonho Parasita”.

A quarta, “Leve”, brinca com texturas da MPB para construir um número que mescla a todo instante o velho e o novo, como se uma canção setentista de Caetano Veloso passasse por uma remixagem. Interação que ainda fica mais clara na faixa seguinte, “Inversão do Mal”, mostrando que mesmo atento aos aspectos modernos da música, Cavalcanti nunca deixou de ser um grande admirador do tropicalismo; é aqui, afinal, que o exoterismo do disco acaba encontrando seu ponto máximo.

Se a quinta faixa fala que “a alquimia é real quando se aprende a escutar à si”, o instante de maior intimismo do álbum acaba ficando para “O Momento”, uma canção mais calma, que se encontra naturalmente envolvida em uma estrutura sentimental. Um teor melancólico que é bruscamente interrompido pelas texturas tortuosas de “Get a Heart”, única composição do álbum com letra em inglês, e que parece soar como uma colaboração de Leo Cavalcanti com Annie Clark… Mais um ponto positivo para a competente produção de Fabio Pinczowski, sempre procurando fugir do óbvio mesmo quando o assunto é música pop.

“Tudo Tem Seu Lugar” é uma  belíssima marcha de dimensões épicas, envolta por cítaras em uma ambientação etérea, retratando as idas e vindas da nossa existência: é o momento em que o músico expõe seus mais íntimos pensamentos para mostrar a naturalidade com a qual os altos e baixos da vida devem ser tratados. Ainda que “Sua Decisão (Ser Feliz e Contente)” não consiga alcançar a mesma qualidade das melhores faixas do disco, e que soe como uma espécie de auto-ajuda, seria ignorância em demasia não citar “Despertador” como um trabalho guiado pela positividade… Ainda que hajam obstáculos, dores, pedras, a mensagem passada por Leo Cavalcanti é sempre otimista.

“Amoral” encerra o disco condensando todo o conceito lírico e sonoro utilizado por Cavalcanti nas nove faixas que a antecedem… Uma contemplação final do “pop intergalático” proposto pelo artista, que assume: “É bonito constatar que este ser-disco já não me pertence, pois tem vida própria”. Leo Cavalcanti se oferece ao cosmos, mergulha no universo para fazer de seu novo trabalho um novo filho, oferecido ao público de todas as galáxias e dimensões. Ainda que seja resultado de um pop simples, confesso e de fácil degustação, é um registro que se propõe a viajar além do lugar-comum. E põe além nisso.

NOTA: 8,0

2014: St. Vincent – St. Vincent

St. Vincent

Por: Renan Pereira

Annie Clark é uma daquelas figuras ímpares da música, aqueles seres complexos que às vezes até duvidamos que façam parte do mesmo mundo que a gente. Andrógena e estranha são alguns dos adjetivos com os quais os mais apressados tentam rotulá-la, em uma fracassada tentativa de defini-la.  Talvez nem ela mesma saiba, ao fundo, quem realmente ela é… Certo dia, enquanto revelava a origem de sua alcunha artística, St. Vincent, que remete ao nome do hospital em que o poeta Dylan Thomas falecera, ela disse que “aquele foi o lugar em que a poesia veio a morrer. Essa sou eu”. Indecifrável.

É bem provável que essa ânsia de rotular à primeira vista venha do nosso comportamento quanto a coisas que, de alguma forma, fogem do que consideramos habitual. Embora seja assumidamente pop, St. Vincent não detém os mesmos predicados que formam normalmente o conceito de “diva”. De aparência frágil, voz suave e com uma proeminente via experimental, Annie Clark vai muito além das obviedades que permeiam a música popular. Algo que estranha e faz com que nos surpreendamos positivamente, pois até mesmo o mais pacato dos seres humanos sempre sente uma pontinha de atração pelo exótico. E, sem dúvida, St. Vincent intriga.

Fazendo de seu novo disco uma grande contemplação do universo particular que ela construiu ao longo desses oito anos, Clark borda o seu mais acessível e completo trabalho. Os experimentos e a base “estranha” se mantém, mas tudo que forma a complexa estrutura artística de St. Vincent é moldado a fim de atingir o grande público. A música pop não precisa ser óbvia, e a cantora trata de corrigir uma das mais errôneas ideias quanto ao que se considera “vendável”.

Bastam os primeiros segundos de “Rattlesnake” para que o ouvinte perceba a complexidade que entorna o disco. Envolta em uma sonoridade inventiva e dinâmica, que lembra os momentos mais experimentais de David Bowie e do Talking Heads, Clark dispara um fantástico conjunto de versos, contendo experiências intrigantes que construíram a artista única que ela é… A primeira faixa, por exemplo, é um verdadeiro relato sobre as percepções da musicista enquanto ela andava pelo deserto. “Uma comunhão com a natureza”, ela diz.

Perguntada sobre como o disco soaria, ela não titubeou ao afirmar que seria como “um registro festivo que você poderia tocar em um funeral”. De fato, apesar de mostrar toda a humanidade que pode existir dentro do androginismo, “St. Vincent”, o disco, não renega aos ouvintes uma constante e acertada aproximação com percepções entusiasmantes. Em “Birth in Reverse”, lá está St. Vincent empunhando sua guitarra para construir um número característico seu, tortuoso e complexo – e, ao mesmo tempo, festivo. Ainda está disposto a rotulá-la? Pois saiba que a tarefa fica cada vez mais difícil.

“Prince Johnny”, a terceira faixa, é uma canção extremamente sensorial, na qual St. Vincent brinca com nossas emoções vagando entre a suavidade e o caos. Essa guerra de sentimentos é, em grande parte, possibilitada pela forma inventiva com a qual a artista utiliza a sua guitarra… Não espere dela riffs óbvios, mas sim um conjunto de linhas tortas voltadas a intrigar o ouvinte. A própria forma classuda com que “Huey Newton” se desenvolve mostra com primor a intensa colagem de texturas e sentimentos que Annie Clark não se cansa de fazer. No poderoso single “Digital Witness”, tudo isso se funde em união a um jogo estético que sempre esteve presente na carreira da compositora.

A platônica “I Prefer Your Love” mostra St. Vincent flertando com algo mais próximo ao tradicional, porém com uma altíssima carga sentimental: a canção foi escrita para a mãe da artista, que na época estava doente. Segundo a própria musicista, enquanto “Strange Mercy”, seu álbum anterior, era tratado com um teor mais íntimo, o presente registro é mais expansivo quanto aos sentimentos. Algo que faz com que tudo se aproxime do ouvinte, apesar do dinamismo intensamente inventivo… Vai dizer que “Regret”, apesar de conter arranjos experimentais, não é uma canção acessível?

Haverá aqueles fãs das antigas, que dirão que o novo disco não contém uma sonoridade tão inédita quanto “Strange Mercy”. E isso é verdade. Porém, St. Vincent sempre tratou de fazer de seus registros em estúdio trabalhos únicos, distintos entre si… E apesar de ser menos experimental, “St. Vincent” é mais consistente, acumulando uma extensa bagagem para formar o melhor conjunto de canções já produzido pela musicista… e sem se esquecer, enfim, do público. “Bring Me Your Loves” parece ser, até mesmo, um alento destinado para os mais sedentos por grandes novidades. De certa forma, Annie Clark está disposta a agradar a gregos e a troianos.

A nona, “Psycopath”, esbarra com força na new wave dos anos oitenta, se comportando como um pop-rock com influências de David Byrne, enquanto a décima, “Every Tear Disappears”, utiliza todas as texturas tortuosas de St. Vincent para pregar em nossa mente um conjunto melódico memorável. Como se ainda bastasse algo para causar surpresa (ou até mesmo estranheza), um soft rock essencialmente setentista surge na última faixa, “Severed Crossed Fingers”, na qual St. Vincent explora a capacidade do ser humano em ter esperança mesmo quando ela, na verdade, inexiste. Mais uma sacada inteligente da musicista, que encerra o disco com uma inesperada tranquilidade.

É surpreendente a forma como Annie Clark insiste em nos surpreender a todo instante? Sim e não. No fim, mesmo sabendo que não dá para prever o que a artista irá aprontar, lá estamos nós sendo pegos de surpresa mais uma vez. Às vezes pensamos que St. Vincent ficaria bem em uma camisa-de-força, em outras temos certeza de que um trono seria mais adequado para ela. É justamente por nos confundir, por brincar com nossas percepções, que St. Vincent é uma das figuras mais necessárias da música atual.

NOTA: 8,9

Track List:

01. Rattlesnake [03:34]

02. Birth in Reverse [03:15]

03. Prince Johnny [04:36]

04. Huey Newton [04:37]

05. Digital Witness [03:21]

06. I Prefer Your Love [03:36]

07. Regret [03:21]

08. Bring Me Your Loves [03:15]

09. Psychopath [03:32]

10. Every Tear Disappears [03:15]

11. Severed Crossed Fingers [03:42]

Entrevista: Bianca

Por: Renan Pereira

Não à toa, a jovem Bianca Fraga tem se tornado, ao longo dos últimos meses, uma das grandes apostas da música brasileira. Natural do Rio de Janeiro, Bianca ainda está apenas começando, mas já se destaca pelo belo senso composicional e pela doce voz. Ao som da balada “Chained”, e através das imagens do belíssimo clipe da canção, Bianca foi apresentada ao Brasil, já conquistando vários ouvidos e corações.

Ao aceitar o convite do RPblogging para ser a entrevistada desse mês de fevereiro, Bianca participa de nossa terceira entrevista, contando um pouco sobre a sua carreira, seus pensamentos sobre aspectos da música e seus planos para o futuro:

Quando o clipe de “Chained” foi lançado, a música brasileira fez da jovem Bianca Fraga uma de suas maiores promessas… Sua vida mudou muito desde o lançamento do vídeo? Você esperava, no fundo, tanta repercussão positiva?

Antes de lançar o clipe de “Chained”, eu não sabia como iria ser… É mais desafiador e complicado do que eu imaginava. Apesar do clipe e da música terem sido produzidas pela Gomus, sou uma artista independente e tenho que correr atrás de maneiras alternativas de produzir um trabalho de qualidade e com um orçamento limitado. A resposta positiva me deu um incentivo para correr mais atrás do que eu quero.

Mas é claro que se o vídeo não fosse tão bem filmado, provavelmente a repercussão não seria tão grande. A música atual, mundo afora, dá uma importância cada vez maior ao conceito “imagem”, e o artista que deseja se destacar tem que se adaptar a essa nova “regra”. Para você, qual é a importância da imagem dentro de uma carreira musical?

No meio musical, a sua “imagem” é construída não só através dos elementos característicos da música de cada artista, mas a forma como você se veste, fala e se comporta. É inevitável ter uma “imagem”. Até mesmo artistas que não querem mostrar o rosto e que não acreditam em se fazer de bonitinho pra aparecer acabam querendo ou não construindo uma imagem. Eu espero passar a minha imagem da forma que eu sou. Com muita verdade.

Alguns sites de música apontaram você como uma das grandes apostas para esse ano de 2014. Como é encarar essa responsabilidade?

É maravilhoso, mas é uma grande pressão. Quero aproveitar ao máximo esse ano.

Muitos viram nas suas composições uma grande semelhança aos primeiros trabalhos de Mallu Magalhães… Afinal, é o mesmo caso de uma menina jovem que surge cantando em inglês e com uma doce voz. Você teme esse tipo de estereótipo? Afinal, se trata da Bianca, e não da Mallu; cada artista tem a sua própria personalidade.

Não me importo muito com comparações, mas acredito que apesar de termos essa semelhança, nossos trabalhos são bastante diferentes.

Você coloca The xx e The Knife como algumas de suas principais referências musicais… Pretende, algum dia, construir algum trabalho que flerta com a música eletrônica?

Estou só começando. Claro. Quero estudar mais esse lado.

Podemos esperar, nos próximos meses, mais composições inéditas reveladas em vídeo ao exemplo de “What If”? E sobre o primeiro disco, já existe alguma previsão?

Vem material novo por aí na semana que vem. Depois disso, podem aguardar muita música. Estamos no processo de pós produção de um novo trabalho.

Se alguma grande gravadora se interessar pelo seu trabalho, você topa seguir algumas regras impostas pela indústria fonográfica? Pergunto isso porque não são poucos os novos artistas que, na ânsia de crescer, acabam atendendo cegamente as ordens de produtores…

Não gosto de fazer nada que vá contra o que eu acredito e quem eu sou. É difícil pra mim até forçar um sorriso… Imagina forçar uma música ou uma imagem com que eu não me identifique!

O RPblogging agrade imensamente a sua participação nessa entrevista. Gostaria de deixar um recado final para os leitores?

Agradeço ao RPblogging pela oportunidade de dar essa entrevista. Fico muito feliz de saber que estão acompanhando o trabalho. Vem muita música por aí ainda no primeiro semestre desse ano! É só acompanharem: www.facebook.com/musicbianca
Instagram: @musicbianca

Muito obrigada!

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Entrevista: Ana Larousse

Por: Renan Pereira

Depois de termos iniciado a nossa seção de entrevistas no último mês de dezembro, o bom resultado nos levou a transformá-la em uma publicação mensal. Para o mês de janeiro, convidamos a curitibana Ana Larousse para ser nossa nova entrevistada. Mostrando grande disponibilidade, a cantora prontamente atendeu o pedido, e graças à rede social de Mark Zuckerberg tivemos o prazer de bater um papo com a compositora.

Durante alguns dias de mensagens trocadas, conversamos não apenas sobre a carreira da musicista. Debatendo as diferenças entre Paris e Curitiba, o estado do mercado da música ou até mesmo a importância das amizades, Ana Larousse demonstrou, com muita espontaneidade, que aquela garota sensível e de forte personalidade de “Tudo Começou Aqui” se faz sempre presente em sua vida… Afinal de contas, é ela mesma.

Tendo lançado seu primeiro disco no ano passado, e prestes a dar a luz a um projeto colaborativo com Vinícius Nisi (A Banda mais Bonita da Cidade), Ana Larousse se destaca pela forma com que transforma o seu íntimo em um bem universal, partilhando com o público suas alegrias e aflições. Sentimentos que são explorados inclusive nesta entrevista.

Ana+Larousse

Seu primeiro disco, “Tudo Começou Aqui”, é claramente o resultado de muitas experiências… Você parece ter trabalhado com imenso cuidado para que cada faixa pudesse representar um fase da sua vida: há relatos da infância, da adolescência e da Ana de hoje em dia. Foi difícil reviver as emoções do passado para gravar o disco? Na primeira música, “Vai, Menina”, dá para imaginar uma garota de 18 anos cantando, e dessa etapa da vida você já passou…

Sim. É um relato de várias fases da minha vida porque escolhi canções que foram compostas em diferentes momentos ao longo de quatro anos. Tenho muitas outras canções. Mas escolhi as que representavam fases mais importantes pra mim. Daquelas que a gente sente que mudaram algo grande dentro da gente.

Não foi difícil reviver não. Muito pelo contrário. Foi uma delícia refrescar essas memórias e trazer elas de volta pra mim. Como se fosse uma interferência minha no tempo. Colocando algo da fase que vivia quando gravei o disco em cima de outros pedaços da minha vida. Foi um encontro gostoso desses tempos. E também é gostoso cantar A Paz do Fim, por exemplo, e lembrar do quanto estava sofrendo quando escrevi e ver que superei lindamente aquela dor. Cantar uma dor superada é quase um gozo. E ao mesmo tempo é lindo ver a música e a dor se reinventando. Já tive shows em que cantei A Paz do Fim me emocionando, não pensando na pessoa pra quem eu a fiz originalmente, mas em outra. É como se a música já não fosse mais minha (visto que o momento pela qual passei ao escreve-la já passou) e eu me emocionasse com a letra como faz o público. Me sinto meio que espectadora das minhas próprias canções. Isso me dá força e tesão de continuar cantando elas. Vai, Menina eu escrevi com 22 anos. Foi meio que quando eu me dei conta MESMO de que eu passaria o resto da vida tento que cuidar de mim sozinha. Que seria eu a enfrentar o mundo todo e mais ninguém por mim. Quando eu estava em Paris, doente e tinha que eu mesma, com 39 graus de febre, descer comprar remédios, fazer meu chá e minha sopa e ainda ir trabalhar senão não tinha dinheiro no final do mês e essas coisas todas. Cansava e me assustava o fato de que seria assim pra sempre. Ainda me assusta. rs Mas a sensação de cantar ela tomou outro lugar. Assim como todas as outras. A gente vai mudando sempre e as nossas obras vão mudando junto. Pelo menos pra mim é assim. E graças a deus! (Não precisa corrigir a minúscula em deus. É intencional).

Falando em Paris… Não podemos negar que a cidade-luz é um local especial para sofrer. Existe sempre uma expectativa muito grande, que pode não ser correspondida. Há, hoje em dia, até mesmo uma “doença” a qual os especialistas dizem ser causada pelas expectativas que não se cumprem para quem visita, ou passa a morar na cidade… Você é uma pessoa simpática, comunicativa, e embarcou ainda muito jovem em uma cidade sisuda, em que o povo é mais fechado do que em Curitiba. Essa “síndrome de Paris” foi uma das grandes responsáveis para que seu lado melancólico desabrochasse?

Vários fatores em Paris foram essenciais pra construção da minha identidade artística. A melancolia que paira sobre a cidade; aquela sensção de estar num livro, num filme e não na vida real; aquela quantidade incansável de cafés, livrarias, cinemas e intelectuais. Também fala-se muito de arte e cultura e história e geografia em Paris. Isso é uma das coisas das quais mais sinto falta. Aqui, em bares, sinto que, muitas vezes, o assunto se resume a paqueras e astrologia. Isso me frustra. Sinto falta daquelas masturbações intelectuais sobre tudo. As pessoas leem muito lá e a vida de quase todo mundo meio que gira em torno da cultura e da história. Isso é lindo, empolgante e absurdamente inspirador. É como se não houvesse nada para fazer além de criar e questionar tudo o tempo todo. Continuo praticando isso aqui, mas sinto falta desse ar tomando conta da cidade. Não houve frustração nenhuma. Muito pelo contrário. Paris ganhou meu coração pra vida. É, como toda cidade, um lugar ambivalente. Às vezes encantador e às vezes cruel e hostil. Mas o que Paris tinha de hostil ela limpava lindamente com belezas infindáveis e eternas novidades. Tinha a sensação de desbravar um mundo novo todo dia. De conhecer sentimentos novos todo dia. Por quase cinco anos, diariamente, eu me renovava. Aqui me sinto mais acomodada, menos bagunçada e menos remexida.O que torna a vida mais leve, porém menos intensa e apaixonante. E eu nunca me frustro com expectativas. A partir do momento em que a gente escolhe estar sempre atento às novidades e se propõe a renovar o olhar a cada dia, a gente se adapta a qualquer situação e faz de qualquer coisa virar algo bonito e positivo. A cada dia Paris me ganhava. E a cada, hoje em dia, eu sinto falta de Paris. Quero voltar a morar lá em breve.

E não acho que as pessoas sejam mais fechadas do que em Curitiba. É diferente. É menos falso, digamos assim. Quando você cria uma relação um pouco mais íntima com alguém, é meio que pra vida, sabe? Não é empolgação de boteco e festa. E existem coisas aqui que são muito rudes como, por exemplo, você cruzar com um vizinho, dar bom dia e não ouvir nada em retorno. Ou cumprimentar alguém num elevador e receber um resmungo em troca. Lá as pessoas são bastante cordiais e prestativas. Não é festa-todo-mundo-se-amando-na-rua, mas você pode confiar quando um parisiense te diz que vai passar na tua casa na semana que vem ao meio dia. Enfim, várias coisas. É diferente. Aqui, muitas vezes, me sinto muito mais maltratada do que lá. As pessoas se respeitam menos aqui. Então é relativo. E fiz amigos pra vida por lá. Amigos irmãos que levarei pra sempre comigo. Aqui a gente tem bastante conhecido pra ir em festas, mas é mais difícil se comprometer e se engajar numa amizade mais profunda e estável. Enfim. Poderia passar anos aqui divagando sobre meu olhar sobre Paris ou Curitiba. Mas acho que já falei demais até! rs

Só sei que sou sempre a primeira a defender Paris quando surgem comentários sobre o estereótipo de que francês é mal-educado. Acho, em geral, os brasileiros muito piores nesse aspecto.

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Ainda sobre as expectativas, creio que fazer um disco com financiamento coletivo traz um sentimento diferente quanto à aceitação do público… Afinal, as pessoas que pagaram para o disco ser produzido não poderiam ser frustradas com o resultado final. Mas, no fim das contas, a receptividade do “Tudo Começou Aqui” acabou se mostrando um sucesso, e certamente as pessoas que ajudaram financeiramente na produção sentiram que aquele foi um bom investimento. Porém, há quem diga que o fato do público pagar por um produto que ele ainda não sabe do que se trata é uma inversão de valores… Como enfrentar tanta responsabilidade, e como defender o financiamento coletivo? É provável que, sem ajuda financeira de terceiros, muitos discos maravilhosos (incluindo o seu) não veriam a luz do dia…

Olha. Eu vejo um tiquinho diferente, só em um aspecto. As pessoas ajudaram, claro. Mas não foi doação de dinheiro. Tiveram alguns casos de pessoas que contribuíram sem ter escolhido recompensa alguma. Mas a maior parte das pessoas pagou por uma recompensa, ou seja, um produto. Seja um disco, dois discos, um pocket show ou um passeio na casa de “Oração”. Mas a intenção das pessoas, com certeza, era a vontade e ansiedade de ter esse disco nas mãos. De ouvir esse trabalho concretizado. Mas eu também me senti muito confiante mesmo. Porque não foi tão às escuras assim. Eu já disponibilizava várias canções que entraram no meu disco no meu Soundcloud e tinham inúmeros vídeos no Youtube aonde eu estou, em algum show, cantando essas canções. Então acho que posso dizer que boa parte do publico conhecia varias canções minhas. Eu já tinha um publico formado. Pequeno, mas um publico fiel já. E eu senti que eu não iria decepcioná-los. Porque tudo foi feito com muito cuidado mesmo. Não só por eles, mas por mim mesmo. E foi muito gostoso trabalhar num projeto com uma torcida junto. É uma sensação de impulso, como se tivesse bastante gente te carregando pra você dar conta e dar o teu melhor. Nunca vi isso como pressão ou algo assim, mas como incentivo.

O financiamento coletivo é uma das poucas maneiras que temos, hoje, nós músicos independentes, de concretizar um trabalho. Pro próximo disco, minha ideia é simplesmente fazer um caixa com dinheiro dos shows pra juntar dinheiro pra poder lançá-lo. Usei financiamento coletivo uma vez, foi uma linda experiência, mas também é bastante exaustivo e cuidar disso paralelamente a gravar um disco foi bastante puxado. Tenho visto muita gente usando isso e às vezes questiono. Porque sinto que alguns trabalhos não são tão bem construídos ou articulados. E muitos são muito pouco convidativos, com recompensas pouco interessantes. E daí acaba não dando certo pra muita gente e até banalizando o uso dessa ferramenta. Sinto que se fizesse um hoje não seria tão “fácil” arrecadar os 25.000 que arrecadamos pelo Catarse. Já não é mais novidade, já cansou. E o público se cansa muito rápido. Ainda não tenho resposta pra tua pergunta. Não sei nem se devo incentivar isso e nem se devo “desincentivar”. Confesso ainda estar tentando buscar em mim algumas respostas pra atual situação do mercado fonográfico e das possíveis maneiras de viabilizar os projetos. O momento é difícil demais em milhares de aspectos. Ainda estamos caminhando pra alguma coisa. Não tenho ideia de onde isso vai chegar. Mas vamos seguindo.

Eu quebro muito a cabeça com alguns amigos discutindo maneiras de continuar trabalhando e conseguir ganhar dinheiro. Mas é difícil. Porque a gente disponibiliza o disco pra download gratuito, então o jeito de ganhar dinheiro é vendendo discos físicos e em shows. Mas isso ainda é muito pouco. Os cachês não são altos e a venda de discos é insuficiente pra bancar os custos todos. Então o negócio é torcer pra eu vender alguma música pra algo que pague bem (risos). Ou sabe deus o quê. Vamos ver.

Ana+Larousse+Ana

Mas ganhar dinheiro com música alternativa principalmente no Brasil é algo muito difícil. Geralmente, um artista independente começa a ter uma maior visibilidade quando tem uma música tocada em uma propaganda, como aconteceu com a Mallu Magalhães e o Silva, por exemplo. Claro que quem faz música alternativa não tem como almejar “enriquecer”, quem quer ficar rico hoje em dia dentro da música parte para o sertanejo universitário. Isso acaba minguando o mercado para a música de qualidade, pois o empresário visa lucro, e seu investimento acabará sendo direcionado para propostas que vendam fácil – como duplas sertanejas, por exemplo. Ao mesmo tempo, o público massivo acaba sendo domado pelas regras impostas pelas gravadoras, e mesmo aquele artista que não coloca o dinheiro como prioridade acaba encontrando barreiras para crescer artisticamente. A maior das louvações vem do público, e quando o público está alienado o alcance de sua música acaba ficando pequeno. Como é viver pela arte, procurando fazer música de qualidade, em um sistema que vive essa situação?

Vish. Aí você me pegou. Primeiro que acho que qualquer pessoa que faz qualquer coisa visando lucro exclusivamente acaba não sendo muito feliz. Mas talvez seja romantismo meu. Eu nunca fiz nada por causa de dinheiro. As vezes que tentei eu acabei fazendo mal feito. Sou movida a paixão. Se estou apaixonada pelo trabalho eu o faço com tesão e bem feito. Se houver dinheiro nisso, aí é alegria na certa! Mas é óbvio que não sou romântica a ponto de dizer que quero viver fazendo arte sem ganhar dinheiro. Jamais! É um trabalho como qualquer outro e eu, como qualquer pessoa, tenho mil contas a pagar e vontades que exigem algum dinheiro para serem realizadas. E até para trabalhar é preciso de dinheiro. Aliás, isso é um ciclo cruel pelo qual vejo muitos artistas passando. A gente precisa de dinheiro pra gerar dinheiro pra trabalhar pra gerar dinheiro pra trabalhar e quando a gente vê, está preso num lugar onde o foco do dinheiro não está mais para viver, mas para poder trabalhar. E isso é cruel. Estou longe de encontrar em mim e no mundo uma solução pra isso. Mas eu, nessa hora, abraço meu romantismo novamente e acredito que continuando fazendo o que faço com dedicação, paixão, cuidado com o público e um bom planejamento estratégico, eu vou conseguir viver de música. Por enquanto eu vivo pela música. Mas espero logo poder aumentar o volume disso. Eu não quero também me atrever a falar pelas bandas independentes em geral. Quem sou eu pra fazer isso? Mas eu, bem especificamente, acredito que, de alguma forma vou conseguir viver pela arte e de arte. Como e quando eu não sei. Mas se eu deixar de acreditar nisso, eu entro em desespero (risos).

Mas respondendo tua pergunta: é difícil pra caralho e maravilhosamente apaixonante. Acho que pra gostar de viver assim tem que ser meio doido. Amor, paixão e perigo. Dá até nome de filme ruim.

Já que você falou em filme, eu não poderia deixar de citar nessa entrevista o belíssimo clipe de “Vai, Menina”. Como foi o processo de criação do vídeo?

Eu sonhei com esse clipe. Uma noite, eu tinha chorado bastante e quando dormi, acabei me vendo no sonho escrevendo inúmeras frases minhas (as mais tristes) e depois ficando angustiada com aquilo tudo grudado e preso em mim. Depois eu me revirava pra arrancar aquilo e, quando as frases tinham sumido, eu dançava, me jogava, me debatia num chão todo cheio de terra. E, no sonho, a música que tocava era “Vai, Menina”. Acordando, liguei pro amigo Bernardo Rocha, muito empolgada com a ideia e saímos na hora pra tomar uma cerveja e falar desse possível clipe. Ele curtiu demais a ideia e topou dirigir. Juntos, a gente adaptou algumas coisas do sonho pra elaborar o roteiro e chamamos o Rosano Mauro e o Vini Nisi pra pilotarem também as câmeras e cuidarem da direção de foto e da edição, respectivamente. Pouca coisa mudou do sonho pro resultado final. E eu fico muito feliz. Dez dias depois dessa tarde de cerveja, a gente estava em Rio Negro filmando o vídeo. Foi muito libertador viver esse sonho e, de fato, passar por aquela sensação de angústia de ver tanta coisa triste escrita no meu corpo e depois me mover sem pensar em nada, com o corpo já limpo. Pra mim, esse clipe tem tanto significado e força que eu poderia passar horas falando disso. Mas isso também estragaria a percepção de quem assiste. E eu preciso terminar dizendo que seria impossível eu ficar mais satisfeita do que estou com o resultado desse trabalho. Os meninos foram delicados e muito profissionais. Eu tenho é muita sorte de ter amigos assim.

Você credita a essa amizade o crescimento da música paranaense? Tempos atrás, até haviam bons projetos, mas que não conseguiam ir além das fronteiras do estado. Algo que agora mudou, com você, o Leo Fressato, a galera da Banda mais Bonita da Cidade, ou seja, um pessoal que se ajuda não só profissionalmente, mas que também mantém uma verdadeira amizade na vida pessoal…

Eu credito as boas amizades a toda coisa bonita que surge por aí. Nunca consegui separar o pessoal do profissional. Eu sou uma pessoa e trabalho com outras pessoas. Como é que isso poderia ser impessoal? Só pode ser impessoal uma relação onde não existe comunicação orgânica entre os envolvidos. E pouco me interessa uma “relação” assim. Trabalho com quem me comunico e com quem se comunica comigo. De forma natural e espontânea. Os interesses e paixões são divididos, compartilhados, questionados, contestados, repensados. E o envolvimento pessoal nesse ambiente profissional deixa tudo mais fluido e honesto. As pessoas com quem trabalhei ou eram meus amigos ou se tornaram amigos depois. Os encontros que não funcionaram no pessoal, digamos assim, tampouco funcionaram no profissional.

Quanto ao crescimento da música paranaense… Acho que eu e meus amigos somos apenas uma partezinha disso. Todas as cidades se comunicam muito também, então é um puxando o outro. Ninguém levantou sozinho. Ninguém está levantando sozinho. Não consigo separar muito por cidades as coisas. São encontros que vão além da geografia. E esse crescimento da música curitibana acontece porque outras cidades se abriram e se envolveram com as coisas que acontecem em Curitiba e porque Curitiba se envolveu e se abriu a outras cidades. Então é difícil dizer quem cresceu o quê, onde e porquê. As coisas estão simplesmente se movendo juntas. Seja pelo impulso, pelo empurrão ou pela rasteira.

Só sei que sem esses meus amigos eu não seria absolutamente nada profissionalmente. E acho que ninguém seria nada profissionalmente sem bons amigos trabalhando junto. Digo isso por empirismo e não por romantismo.

E quanto ao seu futuro? Pretende lançar nos próximos meses um novo trabalho, ou alguma colaboração?

Sim. Em março/abril vou lançar um EP. Eu e o Vinícius Nisi estamos trabalhando nele. É um trabalho nosso. Estamos gravando tudo sozinhos. Vai ser uma puta trabalho lindo e conceitual e com uma sonoridade bem distinta do meu primeiro disco. O público pode esperar por algo bem bonito!

Se for tão bonito quanto “Tudo Começou Aqui”, certamente vamos adorar… Seu trabalho encanta, e com a parceria de um cara como o Vinícius Nisi vamos ter, certamente, mais um “colírio para nossos ouvidos”. O RPblogging agradece imensamente a sua disponibilidade para essa que é a segunda entrevista do site. Gostaria de deixar um recado final para os leitores?

Só tenho uma coisa a dizer: LIVRO. Logo vocês vão entender.

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Créditos:

Perguntas: Renan Pereira.

Respostas: Ana Larousse.