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2014: Ghost Stories – Coldplay

Ghost Stories

Por: Renan Pereira

O que é o Coldplay? Alguns podem dizer que se trata de uma famosa banda britânica de rock alternativo, outros lembrarão os grandes hits do conjunto, e algumas pessoas, certamente, soltarão que se trata “da banda de Chris Martin”. Por mais que pareça inútil interrogar sobre o que é, na realidade, um dos projetos musicais mais famosos da atualidade, tal questionamento acaba tornando-se necessário a partir dos rumos conceituais que vem envolvendo uma das marcas mais fortes da música mundial. “Obsessão” talvez seja a palavra que melhor representa as ideias da banda nos últimos anos… Obsessão em crescer? Aquele velho preceito de fazer cada vez mais e melhor? O perfeccionismo tão característico dos grandes nomes da arte? É triste ver que, nas mãos de Chris Martin, esses pontos acabam tornando-se triviais.

O que move o Coldplay, hoje em dia, é uma obsessão pobre, que já derrubou tantos artistas que, em outros tempos, obtinham respeito pela música que faziam… Quando o topo das paradas e o verde dos dólares passam a ser a grande referência de um trabalho, este deixa de representar um resultado artístico para se comportar como um mero caça-níquel, um comércio qualquer como uma metalúrgica ou uma padaria. Isso significa que a arte não pode vender? Não, de jeito nenhum: ela não só pode, como deve vender. Mas, antes de tudo, ela precisa ser, primordialmente, arte. O que o Coldplay atual, refletido em seu mais novo disco, “Ghost Stories”, não consegue ser.

Se houve uma época em que o Coldplay fazia música com sinceridade, este já passou há um bom tempo. Preocupada em fabricar produtos para as estantes das grandes lojas de departamentos, ou até mesmo para alavancar as vendas das emergentes lojas on-line, a banda deixa para lá todos os êxitos que alcançara principalmente em seus dois primeiros registros para fazer com que os lamentos de seu vocalista rendam financeiramente. Se Chris Martin encerrou, de forma pouco amigável, seu relacionamento com a atriz Gwyneth Paltrow, por que não tirar algum cascalho em torno desse acontecimento? Se tabloides sensacionalistas fazem tanto sucesso hoje em dia, por que não tornar ridícula sua própria música em nome de um sucesso comercial nas terras do Tio Sam, outrora tão pouco receptivas com a banda?

O fato é que, quando o dinheiro fala mais alto que todas as outras facetas que envolvem um disco, o resultado tende a ser desastroso. E assim é no fatídico “Ghost Stories”. Basta seu início em “Always in My Head” para perceber que a banda sequer trabalhou duro, deixando o conceito dos rumos sonoros nas mãos do renomado Paul Epworth, o produtor “da moda”. Curioso perceber como os arranjos eletrônicos estrelados não conseguem acompanhar a personalidade da banda (se é que ela ainda existe), perfazendo um cenário tão luxuoso e inútil quanto o apresentado no igualmente falho “Mylo Xyloto”. Enquanto isso, Chris Martin chora, mas não com tanta propriedade quanto em anos atrás… Incrível como tudo o que ele canta hoje em dia, em contrapartida ao teor extremamente íntimo de suas composições, soa artificial, um resultado programado através de equações de maximização de lucro. Nada, porém, soa tão falso quanto a segunda faixa, o single “Magic”, com seu pensamento de reconquistar o público indie através de uma cópia descarada da proposta sonora de Justin Vernon no projeto Bon Iver.

É o queridinho dos hipsters, aliás, que é novamente “sampleado” em “Ink” e “True Love”, faixas que voltam a apresentar a inércia poética inserida em uma sonoridade carente de personalidade. A quinta, “Midnights”, que conta com a participação do ótimo Jon Hopkins (considerado o herdeiro de Brian Eno), se agarra em uma concepção eletrônica ainda mais clara, demonstrando o fim da brincadeira da banda com seus instrumentos – o que sempre havia funcionado bem. Mas nem Hopkins, bem como Brian Eno em “Mylo Xyloto”, consegue inserir toda sua capacidade nos rumos comerciais do Coldplay atual.

Até porque milagre poucos conseguem fazer. Além de ser um mero produto, “Ghost Stories” é um produto mal-nascido, aqueles bens que as empresas lançam, não dão bons resultados, e precisam ser remodelados com urgência para evitar um rápido descarte. Para a sorte da conta bancária da gravadora Universal, o disco contém os famosos “singles de novela”, canções que parecem ter sido feitas sob medida para a trilha-sonora de algum folhetim insosso. Nessa ótica, nenhuma canção se encaixa tão bem quanto a nona faixa, “A Sky Full of Stars”, que chega a contar até com a participação do “estourado” Avicii para amplificar seu apelo comercial.

Se “Another’s Arms” é a falha tentativa de alocar a voz de Martin em uma concepção mais próxima da música ambient, “Oceans” traz um arranjo semi-acústico para tentar captar a atenção daquele fã das antigas. Inútil. É provável que aquele ouvinte que foi apresentado ao grupo através dos ótimos “Parachutes” e “A Rush of Blood to the Head” tenha desistido de “Ghost Stories” antes mesmo de seu fim. O que é ruim, visto que a última faixa, “O”, é não apenas a mais longa, mas a melhor canção do disco. Dentro deste conceito, é o melhor que o Coldplay poderia fazer.

Mas, afinal de contas, qual é a resposta para aquele questionamento um tanto quanto tolo que foi proferido no início deste texto? “A resposta está flutuando com o vento”, diria Bob Dylan. E ele teria razão. Como poderíamos responder alguma coisa? O Coldplay atual ora é uma tentativa falha de ser Bon Iver, ora é um projeto eletrônico altamente comercial, ora se resigna apenas aos versos chorosos de Chris Martin. Uma banda indecifrável, sem personalidade artística e com um futuro duvidoso – e inclusive, para muitos, um grupo que está morrendo por aqui.

NOTA: 2,5

Track List:

01. Always in My Head [03:36]

02. Magic [04:45]

03. Ink [03:48]

04. True Love [04:05]

05. Midnight [04:54]

06. Another’s Arms [03:54]

07. Oceans [05:21]

08. A Sky Full of Stars [04:28]

09. O [07:46]

2014: Blank Project – Neneh Cherry

Blank Project

Por: Renan Pereira

A sueca Neneh Cherry andava esquecida. Afinal, sem lançar um disco há 17 anos, a cantora parecia fadada a continuar presa eternamente aos anos noventa. Pouco conhecida pela geração atual, Cherry marcou aquela década ao se apresentar como um dos pilares europeus da renovação do R&B que então ocorria. Para se ter uma ideia, a cantora foi uma das primeiras artistas a investir, com vigor, na mistura da música pop com o hip-hop que imergia com força no cenário mundial: seu primeiro disco, lançado ainda em 1989, já trazia como colaborador o produtor britânico Robert Del Naja (o 3D do Massive Attack), que apenas alguns anos depois seria reconhecido mundialmente como um dos cardeais do trip hop. Sim, senhoras e senhores, Neneh Cherry foi, desde o início de sua carreira, uma figura importantíssima. Em seus discos seguintes, “Homebrew”, de 1992, e “Man”, de 1996, a musicista tratou de incorporar ainda com maior intensidade um conjunto de elementos modernos da música pop, fazendo de sua carreira uma genuína representante das grandes mudanças ocorridas no modo de se produzir música naqueles tempos.

Se Cherry foi inovadora lá nos já longínquos anos noventa, o que então poderíamos esperar dela em seu tardio retorno? Estaria a cantora voltando à ativa apenas para relembrar suas glórias do passado? Para nossa sorte, os 50 anos de Cherry não significam nenhum sinal de preguiça. Surpreendendo a todos, a sueca está não apenas de volta, mas se mostra disposta a inovar mais uma vez. Contando com a produção do renomado Four Tet, “Blank Project” se caracteriza como um registro inegavelmente atual de uma veterana que utiliza toda a sua experiência para, mais uma vez, brincar com as nuances mais modernas da música.

A faixa inaugural, “Across the Water”, já escancara o conceito pelo qual o disco é guiado: minimalista e refinada ao mesmo tempo, a canção exala fortes sentimentos do início ao fim, enquanto batidas cruas deixam a cantora brilhar livremente. Talvez o maior acerto de Four Tet esteja, justamente, na ideia de fazer de “Blank Project” um registro que destaque, a todo instante, o poder performático de Cherry. Portanto, assim também não poderia deixar de ser a faixa-título: o produtor marca sua presença com um trabalho pra lá de caprichado no tratamento dos rumos sonoros, mas é Cherry que brilha em meio a uma estrutura eletrônica extremamente moderna. A seguinte, “Naked”, mantém o conceito: batidas fortes e penetrantes, e arranjos crus praticamente ausentes de maiores detalhes, fazem com que a emoção emanada pelo vocal da cantora se torne novamente o ponto central da audição.

A linha é mantida em todo o registro, mas se engana quem pensa que, devido a isso, o poder de surpreender constantemente se distancia de seu andamento: mesmo em uma sucessão de faixas muito parecidas, idênticas em conceito, Neneh Cherry trata de abrir nossas bocas ao apresentar sempre um “algo a mais”. Na seminal “Spit Three Times”, por exemplo, a cantora se derrama em confissões, admitindo suas próprias fraquezas em uma faixa poderosa, um hit em potencial que contém um belo acerto melódico, apesar de se caracterizar como a inesperada união do eletrônico com o gótico. A quinta, “Weightless”, é, apesar desse título, uma das canções mais pesadas do disco: contando com uma estrutura ruidosa, a faixa derrama novas facetas do introspectivo de Cherry enquanto revela ao ouvinte os primeiros dos poucos instantes “pista de dança” do registro.

“Cynical” é uma daquelas canções que arranham nossas percepções, fazendo com que o ouvinte viaje sem moderação na atmosfera instável proposta por Cherry e seu produtor: novamente, uma rede incerta de batidas e pequenos efeitos é costurada com total e absoluta combatividade, fazendo com que as emoções até mesmo briguem entre si. Já “422” é uma canção diferente, que se preocupa mais em construir uma ambientação para o íntimo sombrio de Cherry do que em fazer com que ele exploda em uma espiral: uma calmaria que funciona como um respiro em meio a uma sucessão de faixas tão agressivas.

Se dançar é o que você quer, nada melhor que o poderoso single “Out of the Black”, em que Cherry brinca com as nuances do pop eletrônico na companhia de uma das maiores representantes do gênero: sua compatriota Robyn. Continuando no mesmo clima, a seguinte, “Dossier”, até ensaia um cenário mais leve, mas somente para nos enganar: apesar de dançante, a canção se comporta como um número hipnótico, em que o vocal da musicista dança em meio a batidas enlouquecedoras, inserindo-se em um ambiente regado a muitas drogas sintéticas.

A décima e derradeira canção é “Everything”, condensando toda a forte temática emotiva do álbum em mais uma estrutura convidativa à dança, mostrando, de certa forma, o viés ascendente que envolve o conceito do álbum… Enquanto, no início, Cherry se utiliza de uma atmosfera dolorida para confessar ao público seus segredos, no fim ela apenas quer dançar; uma prova de que, mesmo em meio a tanta dor, o preceito que rege a mente da cantora é a ideia da superação. Nada mais plausível, afinal, a própria Neneh Cherry revelou o fato que motivou suas novas canções: ela as compôs, na companhia do seu marido, Cameron McVey, impulsionada pela perda de sua mãe (a artista plástica Monica Karlssom), ocorrida em 2009. Surpreso? Como, enfim, a cantora pode utilizar desse triste acontecido para, na parte final do disco, cair na dança?

Tudo é complexo e muito instável, e mesmo que seja muito difícil descrever as intenções de Cherry, há um ponto que é indiscutível: ela está mais do que certa. Ao voltar depois de tanto tempo, ela nos ajuda a perceber que nunca devemos duvidar dos velhos nomes, por mais esquecidos que eles estejam… Eles geralmente não perdem a capacidade, e grande seres que são, são capazes de se adaptar sem maiores problemas aos dias atuais. Afinal, Neneh Cherry mostra que é possível ser uma musicista com cinquenta anos de vivência e ter o mesmo pique de uma garota de vinte anos: apesar de ser veterana, sua obra continua carregada de frescor.

NOTA: 8,5

Track List:

01. Acroos the Water [03:28]

02. Blank Project [04:05]

03. Naked [03:57]

04. Spit Three Times [04:18]

05. Weightless [05:46]

06. Cynical [04:10]

07. 422 [05:21]

08. Out of the Black [05:15]

09. Dossier [05:12]

10. Everything [07:20]

1990: Violator – Depeche Mode

Violator

Por: Renan Pereira

Donos de um dos mais bem-sucedidos projetos de synthpop de todos os tempos, os britânicos de Depeche Mode passaram todos os anos oitenta bordando texturas que ajudaram o gênero a se tornar uma das marcas daquela década. Desde o fim dos anos setenta, quando o grupo surgiu, até o fim daquela década de oitenta, haviam sido lançados seis álbuns de estúdio e alguns singles de sucesso, auxiliando a música eletrônica inglesa a se tornar, cada vez mais, um sucesso mundial.

O fato é que, durante sua caminhada oitentista, o Depeche Mode evoluía a cada disco lançado. O obscuro “Black Celebration”, de 1986, havia colocado o grupo no supra-sumo de seu gênero, enquanto “Music for the Masses”, lançado um ano depois, definiria o andamento seguinte do conjunto ao praticar um assertivo refinamento das ideias, relacionando cada momento sonoro com a literal preocupação de agradar o público.

O engraçado é perceber que o ápice do Depeche Mode acabou chegando ao mesmo tempo em que o nível de tensão interna do grupo crescia a passos largos: batalhas de egos e discordância de ideias marcavam a convivência de Andy Fletcher, Martin Gore, Alan Wilder e Dave Gahan. Uma pausa na sucessiva sequência de discos mostrou-se necessária, e a partir do lançamento de “Music of the Masses”, e de sua grandiosa turnê, a banda passaria três anos sem entregar nenhum novo trabalho ao público – o que era, até então, um tempo recorde. Houve quem achou que o projeto estava fadado ao seu fim, que o sucesso que havia sido alcançado não estava sendo bem aproveitado… Suposições que acabariam caindo por água abaixo com o aguardado lançamento de “Violator”, em março de 1990.

Ao contrário do que alguns desinformados andavam pensando, a banda utilizou de maneira exemplar o intervalo de tempo entre os lançamentos de “Music for the Masses” e “Violator”. Ninguém estava disposto a abandonar o conjunto, muito pelo contrário: tal “hiato” ocorreu a partir de uma mudança drástica no pensamento de como os projetos deveriam ser concebidos. Se outrora o coletivo trabalhava de forma incessante, lançando um disco a cada ano, agora o planejamento tomava um rumo totalmente diferente, investindo forte na pré-produção e, consequentemente, na maturação natural das ideias. A ordem era fazer as coisas da maneira certa e no tempo certo, abandonando a ânsia pelo imediatismo para atingir a construção de algo mais abrangente. A intenção do grupo, segundo palavras do próprio Martin Gore, era fazer de seu primeiro álbum noventista um trabalho diferente dos demais.

E o resultado, como pode ser facilmente percebido, mostrou-se absolutamente positivo. Quando o Depeche Mode lançou “Violator”, ficava claro que ali estava presente o melhor trabalho do grupo, que rapidamente arrebatou os olhares da crítica e do público. Envolvido em um cenário soturno, o disco conseguiu fazer de suas canções pessimistas um prato cheio para os ouvintes, encantados com o jogo de sons perfeitamente encaixado pela produção. Não à toa, algumas faixas do álbum se tornariam clássicos eternos da música pop, presos não somente na memória dos ouvintes que viveram aquela época, mas de qualquer um que se interesse pela boa música. Afinal, mesmo que você tenha menos de vinte e cinco anos, é provável que “Enjoy the Silence” e demais números do álbum já tenham feito parte de algum momento da sua vida.

Através das batidas excitantes de “World in My Eyes” é que “Violator” se inicia, pregando boas peças aos ouvintes com a combinação de um ritmo dançante e um sentimento pessimista, perfeitamente escancarado pelo vocal de Dave Gahan; uma inundação de sintetizadores acaba construindo um clima épico, criando a atmosfera certeira para os lirismos tristes da canção atingirem de forma consistente a alma dos ouvintes.

A segunda faixa, “Sweetest Perfection”, é marca da complexidade e do dinamismo alcançados pelo Depeche Mode no ápice criativo de sua carreira. No início, a canção brinca com uma sequência nada usual de batidas, enquanto o vocal de Martin Gore vai estabelecendo as vias sentimentais, deliciosamente melodramáticas. Aos poucos, ares grandiosos vão envolvendo a faixa: uma orquestração majestosa, seguida por uma fantástica sequência de riffs distorcidos e uma explosão pop-rock vão construindo o que é, indubitavelmente, uma das melhores canções já lançadas pelo coletivo.

É uma impressionante qualidade rítmica que dá as caras em “Personal Jesus”, mais uma faixa fundamental deste álbum, que através de seus quase cinco minutos de duração vai construindo uma concepção dançante, construída para as pistas, próxima do público mesmo sem abandonar os experimentos. Apesar de se relacionar a todo momento com o rock e o pop, o Depeche Mode estava a fim de se aventurar por terrenos ineditistas, fazendo seu som alcançar níveis que em outros momentos pareciam ser simplesmente inimagináveis.

A quarta, “Halo”, ancora mais uma assertiva produção, recheada de ruídos e melodias sintetizadas, que de forma curiosa constrói a atmosfera perfeita para o brilho de uma das mais fantásticas letras já compostas para uma música eletrônica; versos inteligentes, mas ao mesmo tempo grudentos, extremamente próximos dos gostos do público de massa. De caráter progressivo, “Wainting for the Night” representa um respiro, e embora se encontre climatizada dentro do mesmo aspecto soturno que se espalha durante todo o disco, acaba caracterizando-se pelo aspecto calmo, abandonando as concepções energéticas de batidas para focar na letra e na melodia.

“Enjoy the Silence” é o maior hit da banda, uma das músicas mais tocadas nas rádios de todo o mundo durante o ano de 1990. Bordando texturas totalmente modernas para a música daquela época, a canção mostra-se como mais um número melódico em que a produção aloca com perfeição sua enxurrada de ruídos; também é notável o trabalho de Martin Gore na guitarra, bordando riffs atmosféricos que buscam (e conseguem) prender o ouvinte através do encantamento. Há ainda, no desfecho da faixa, o interlúdio “Crucified”, uma fantástica orquestração eletrônica que parece completar o desejo de “curtir o silêncio” que a canção havia plantado.

Embora “Policy of Truth” não seja tão densa, e se assemelhe mais às passadas concepções do synthpop, seu ritmo é sensacional, bem como seus vocais, que vão acariciando os ouvidos; não está entre as melhores músicas do disco, mais foi um single certeiro, sucesso em várias partes do globo. “Blue Dress” é a canção mais exótica do álbum, construindo um caminho lisérgico através de uma base eletrônica que, para a época, não era lá muito comum: ao mesmo tempo em que parece alcançar o futuro, brinca com um antigo aspecto melódico, versos que poderiam muito bem ter sido cantados por Elvis Presley na segunda metade dos anos cinquenta. O desfecho da oitava faixa se encontra com o início da nona (e última) canção do disco, a misteriosa “Clean”, em que Dave Gahan proclama o que parece ser uma grande mudança de sentimentos, através de uma estrutura incerta, que se altera a todo instante e encerra-se sem necessariamente se resolver.

Marcado pela coerência, pelo acerto constante, “Violator” era o ato que faltava para o Depeche Mode marcar de vez o seu espaço na história da música. Tido por muitos como o melhor álbum de 1990 e, por consequência, um dos mais importantes registros daquela década que se iniciava, acabou servindo de base não apenas para mais uma turnê, mas para grande parte do posterior trabalho do conjunto. Porém, nenhum lançamento seguinte do Depeche Mode mostrou-se tão competente quanto este, um disco que, além de sentimentalmente forte, foi marcado pela evolução.

Evolução não só da sonoridade da banda, mas da própria música eletrônica, que através de “Violator” preparou-se para alcançar voos maiores, cada vez mais próximos do público. Se a música eletrônica tem a grande importância verificada nos dias atuais, deve-se a todos aqueles artistas que, a partir dos anos setenta, difundiram e evoluíram o uso de sintetizadores. E “Violator”, que praticamente marca o fim dos inventos do Depeche Mode, caracteriza-se, certamente, como um dos discos mais influentes das últimas três décadas.

NOTA: 9,2

Track List: (todas as faixas compostas por Martin L. Gore)

01. World in My Eyes [04:26]

02. Sweetest Perfection [04:43]

03. Personal Jesus [04:53]

04. Halo [04:30]

05. Waiting for the Night [06:07]

06. Enjoy the Silence [06:12]

07. Policy of Truth [04:55]

08. Blue Dress [05:41]

09. Clean [05:28]

2013: Random Access Memories – Daft Punk

Random Access Memories

Por: Renan Pereira

Os robôs mais famosos da música mundial voltaram, mas mais humanos do que nunca. Se o último álbum de estúdio deles, “Human After All”, de 2005, discutia o processo de humanização das máquinas, relembrando as ideias de inteligência artificial plantadas por Isaac Asimov, parece que agora, oito anos depois, este processo acabou atingindo, enfim, Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo.

“Random Access Memories”, com isso, acaba sendo um álbum surpreendente. Não por reinventar a roda, ou por ser superior a tudo o que o duo francês já realizou… Na verdade, nem um, nem o outro. Apesar das vozes robóticas continuarem, aqui ou acolá, permeando a música do Daft Punk, para que o ouvinte entenda o disco, é necessário, primeiramente, desprender-se do som que havia construído até agora a carreira dos caras. Não que a música eletrônica tenha sido abandonada, ou que o Daft Punk tenha se vendido ou se alterado de forma irresponsável – nunca espere isso de Bangalter e Homem-Christo, músicos extremamente profissionais e que aceitam viver o papel de cardeais da música eletrônica atual. O Daft Punk continua a ser o Daft Punk, só que agora mais sutil e intimista.

Os fãs que queriam um novo “Discovery” têm olhado torto para o novo álbum, o que é, na verdade, mais do que normal: afinal, “Random Access Memories” não é nada do que eles esperavam. De forma surpreendente, Bangalter e Homem-Christo voltaram seus olhares metálicos para o passado, encontrando na música de trinta, quarenta anos atrás, o cenário perfeito para a humanização do projeto. Isso, em um primeiro momento, com a mais errônea das visões, pode até soar copioso e aproveitador, até porque eles sempre foram responsáveis pela evolução da música eletrônica, e não pela volta ao passado…

Mas quem disse que visitar ideias passadas significa, necessariamente, ser retrógrado? De jeito nenhum! Embora alguns projetos – mais recentemente o The Strokes – tenham alocado seus trabalhos em ideias antigas e finjam fazer parte daquela época (criando registros datados que pouco combinam com os dias de hoje), a utilização das ideias passadas, quando bem pensadas, acabam se mostrando altamente satisfatórias; e assim é, felizmente, com “Random Access Memories”. Apesar de estarem recordando as antigas glórias da dance music, Bangalter e Homem-Christo utilizam essa base empoeirada para trazer um toque mais sensível à música eletrônica atual.

Provas disso já estão presentes na primeira faixa do registro, “Give Life Back to Music”, que pelo título já procura defender o retorno da música disco para humanizar os rumos atuais das pistas de dança: uma pitada de “política” à música do Daft Punk. Mas questões filosóficas a parte, o álbum não poderia começar melhor, com uma faixa dançante, competente tanto na melodia quanto no ritmo, repleta de grooves inteligentes… Sim, ainda são vozes robóticas, mas cantando música de ser humano.

E o que dizer de “The Game of Love”? Canção romântica, algo que ninguém imaginava que o Daft Punk seria capaz de fazer algum dia. Mas se fosse apenas uma canção de amor não surpreenderia tanto assim; o fato que mais causa espanto é que, no fim das contas, se caracteriza por ser uma canção carregada de puro sentimento, nada robótica: uma baladona arrebatadora, uma daquelas músicas de fim de baile de cortar o coração. Definitivamente, os rumos do projeto são outros.

A terceira, “Giorgio by Moroder”, é uma faixa crucial, uma das mais importantes do álbum e de toda a ideia por ele plantada. Se trata, afinal, de uma grande ode à dance music, homenageando e ao mesmo tempo contando com a colaboração (e com um discurso) de Giorgio Moroder, produtor italiano que é considerado um dos principais nomes da história da música de pista… Em uma fala que faz pensar, e inclusive dá uma espécie de lição a muitos produtores de hoje em dia, Giorgio diz: “assim que você liberta sua mente sobre o conceito de harmonia e da música estar correta, você pode fazer o que quiser. Então, ninguém me disse o que fazer, e não havia nenhum preconceito sobre o que fazer”. Musicalmente, a canção lida basicamente com a evolução da dance music, iniciando-se simples, brincando com o funk, crescendo aos poucos para chegar, finalmente, a uma grandiosa atmosfera de sintetizadores, permeada por energéticas linhas de baixo e bateria.

Depois de um início fantástico, “Random Access Memories” acaba experimentando concepções que não estão no mesmo nível das melhores faixas do registro, e por isso soam deslocadas, distantes da proposta central… Assim são a melancólica “Within”, que soa legal mas sem empolgar, e a oitentista “Instant Crush”, que além de contar com a colaboração de Julian Casablancas, poderia muito bem ter sido lançada em “Comedown Machine”.

No momento setentista mais claro do álbum, “Lose Yourself to Dance” se caracteriza, como seu próprio título transparece, com um número pensado exclusivamente para a dança; bebendo da disco music, e se amarrando a conceitos pop através da presença de Pharrell Williams, soa como uma deliciosa e divertida audição. A seguinte, “Touch”, é uma canção sensível, agradável, que traz na colaboração do veterano Paul Williams um ponto altamente positivo.

A altamente pop “Get Lucky” é o grande single do álbum, trazendo Pharrell Williams no vocais e um espetáculo de Nile Rodgers na guitarra. “Beyond” tem um início surpreendente, magnífico, com uma verdadeira explosão de sintetizadores a brincar com a música erudita; mas o que temos, no fim, é mais uma canção rodeada pela música setentista, repleta de grooves e até de certa calmaria… Esqueça as apostas frenéticas que não deixam o ouvinte sequer respirar, porque agora o sentimento e a melodia parecem ter muito mais valor ao Daft Punk.

“Motherboard” é uma aposta que busca um caminho mais lisérgico, e que acaba se caracterizando por ser uma canção mal resolvida, ficando muito abaixo das melhores de “Random Access Memories” – mas, como o processo de humanização parece ter atingido com tudo Bangalter e Homem-Christo, cabe dizer que “errar é humano”. Contando com a co-autoria do produtor norte-americano Todd Edwards, “Fragments of Love” é mais um daqueles números extremamente agradáveis apresentados pelo álbum, uma música deliciosa para dançar, relaxar, ouvir no carro, na caminhada… enfim, um deleite para caixas de som e fones de ouvido.

Das parcerias realizadas pelo Daft Punk em “Random Access Memories”, nenhuma soa tão curiosa e interessante quanto a realizada com Noah Lennox (Panda Bear), líder do Animal Collective, na décima-segunda faixa do registro, “Doin’ It Right”, uma memorável canção que faz com que as velharias do álbum alcancem, sem foçar a barra, as concepções mais atuais da música eletrônica – em um verdadeiro misto de sentimento e modernidade, sem descambar para ideias impessoais.

Mas o mais impressionante acaba ficando para o fim… “Contact” já pode ser considerada um clássico da música eletrônica. Mesclando as memórias setentistas e oitentistas de Bangelter e Homem-Christo com o fundo robótico de “Discovery”, a faixa final é um turbilhão avassalador, energético e emocional, que parte do passado para construir o futuro e elevar a mente dos ouvintes a uma outra dimensão. Sem dúvida, uma perfeita canção de encerramento, que acaba deixando o ouvinte com a melhor das impressões.

No livro “I, Robot”, de 1950, Isaac Asimov apresentou as chamadas Três Leis da Robótica. A primeira dessas leis diz que “um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal”… Ora, ora, mas o que são canções como “The Game of Love” e “Within”, senão grandes exploradoras das mazelas da alma humana? Já a Segunda Lei da Robótica fala que “um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei”. Pois bem, enquanto muitos fãs ortodoxos do Daft Punk esperavam um novo “Discovery”, o que Bangalter e Homem-Christo fizeram? Sim, não ligaram a potenciais “ordens”, e simplesmente fizeram o que queriam fazer.

“Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis”, diz a Terceira Lei. O que “Random Access Memories” deixa claro, por outro lado, é o desejo do Daft Punk de se libertar do passado robótico, abandonar sua existência como máquina… Uma experiência que, no fim das contas, acaba dando muito certo, resultando na convincente humanização de um dos melhores projetos musicais dos últimos tempos.

NOTA: 8,2

Track List:

01. Give Life Back to Music (Bangalter/Homem-Christo/Jackson Jr./Rodgers) [04:34]

02. The Game of Love (Bangalter/Homem-Christo) [05:21]

03. Giorgio by Moroder (Bangalter/Homem-Christo/Moroder) [09:04]

04. Within (Bangalter/Homem-Christo/Gonzales) [03:48]

05. Instant Crush (Bangalter/Homem-Christo/Casablancas) [05:37]

06. Lose Yourself to Dance (Bangalter/Homem-Christo/Rodgers/Pharrell Williams) [04:34]

07. Touch (Bangalter/Homem-Christo/Caswell/Paul Williams) [08:18]

08. Get Lucky (Bangalter/Homem-Christo/Rodgers/Pharrell Williams) [06:07]

09. Beyond (Bangalter/Homem-Christo/Caswell/Paul Williams) [04:50]

10. Motherboard (Bangalter/Homem-Christo) [05:41]

11. Fragments of Time (Bangalter/Homem-Christo/Todd Imperatrice) [04:39]

12. Doin’ It Right (Bangalter/Homem-Christo/Lennox) [04:11]

13. Contact (Bangalter/Homem-Christo/Quême/Porter/Mitchell/Braithwaite) [06:21]

2013: Amok – Atoms for Peace

Por: Renan Pereira

Ao se analisar a obra criada pelo irrequieto Thom Yorke, o tempo passa a ser uma variável essencial. Afinal, não foram poucas as vezes em que o líder do Radiohead exigiu de seus seguidores um exercício quase bovino de ruminação: seguidas e seguidas audições em um bom intervalo de tempo sempre foram, desde o início da década passada, necessárias para entender os anseios do músico inglês. Ainda bem que, com a sucessão de “mastigadas”, podemos contemplar com totalidade as ideias inventivas do produtor, um dos nomes mais importantes e mais cultuados da música nas duas últimas décadas.

Se até “Kid A”, considerado o clássico dos clássicos da “fase eletrônica” do Radiohead, foi mal interpretado por alguns setores da crítica na época de seu lançamento, por que “Amok”, primeiro álbum do Atoms for Peace, deveria ser unânime? Há quem diga que Thom Yorke estacionou, que seu projeto paralelo não mostra a mesma faceta inventiva dos últimos trabalhos do Radiohead, e que tudo soa muito parecido ao que foi desenvolvido em “The Eraser”, primeiro álbum solo de Yorke, e “The King of Limbs”, último álbum lançado pelo Radiohead, em fevereiro do ano retrasado. Porém, muitos esquecem do bendito tempo, a variável que estabelece que a aceitação às criações de Yorke são diretamente proporcionais ao movimento dos ponteiros do relógio.

Criado no ano de 2009 para uma série de espetáculos ao-vivo, o Atoms for Peace parece ser mais do que simplesmente um projeto paralelo; relativamente preso, obrigado a levar em consideração as ideias de seus companheiros no Radiohead, Yorke precisava de um espaço novo, onde, na companhia de grandes músicos subordinados a suas “ordens”, pudesse botar sua cachola para funcionar e fazer tudo o que desejasse, sem se preocupar com terceiros. Talvez seus novos companheiros de banda – o baixista Flea (Red Hot Chili Peppers), o baterista Joey Waronker (Beck, R.E.M.) e o percussionista brasileiro Mauro Refosco – não sejam simples “empregados”, e até tenham certa parcela de criação na obra; mas o que fica bem claro em “Amok” é a interação constante dos ideais mais íntimos de Yorke com a produção sempre caprichada do velho conhecido Nigel Godrich.

Navegando por belas texturas, o disco soa intenso, cuidadoso, e nem parece ter saído de poucas jams realizadas entre Yorke e seus colegas. Harmonicamente bonito, “Amok” marcha durante quase quarenta e cinco minutos por um cenário sereno, pacífico, com suas nove faixas formando o que parece ser o mais silencioso conjunto de canções de Yorke. As composições são certeiras, em poucas oportunidades mostrando-se realmente redundantes, e embora não formem um trabalho tão inventivo quanto “In Rainbows”, constroem um registro competente, mirando a contemplação. Não há, é verdade, muita novidade para impressionar os ouvintes, que encontrarão camadas sonoras profundamente inspiradas no que foi produzido nos últimos anos, não significando, porém, um suposto “mais do mesmo”. Thom Yorke é um artista íntegro, inquieto, cada vez menos interessado em grandes resultados comerciais; lembremo-nos de sua veia experimental, que nunca procurou simplesmente agradar seus seguidores para alcançar fácil aclamação.

A primeira faixa é a belíssima “Before Your Very Eyes…”, um início arrebatador, mergulhado em texturas eletrônicas que hipnotizam, contendo uma admirável e confortante performance vocal. A voz de Yorke, aliás, é especialmente trabalhada pela produção, soando às vezes fantasmagórica, assustadoramente robótica, inserida nas canções a fim de não se destacar aos demais instrumentos – procurando soar como apenas mais uma camada de um rico cenário sonoro. As aproximações ao krautrock sempre foram constantes nas produções de Godrich, e como “Amok” é uma daquelas obras características do produtor, tais elementos inspirados na música experimental alemã da década de setenta se fazem presentes; isso é vastamente observado na segunda faixa, a ótima “Default”, em que não apenas os sintetizadores e a camada vocal, mas principalmente o trabalho de percussão, formam uma grande performance, tratando com muito capricho uma suave melodia. “Ingenue” é uma música complexa, com uma construção eletrônica impecável, mas que em uma primeira contemplação pode soar desencontrada; no entanto, a tal “ruminação” ajuda a tornar a faixa uma das mais atraentes do álbum, ganhando aceitabilidade à medida em que o tempo passa e as audições se sucedem.

Sendo ritmicamente constante, sem grandes quebras, e contendo uma construção energética de batidas, “Dropped” acaba se caracterizando por ser um dos números de aceitação mais fácil dentro do disco, soando agradável desde a primeira audição. “Unless” se inicia parecida à terceira faixa, mas acaba experimentando um crescimento rítmico assustador, embebida por ótimas batidas eletrônicas minimalistas; não se pode deixar de ser dado um grande destaque, porém, a mais uma fantástica atuação do percussionista Mauro Refosco, elevando constantemente o nível hipnótico da canção.

Para quem admira as linhas de baixo de Flea, talvez esteja na sexta faixa, a pulsante “Stuck Together Pieces”, o melhor momento para contemplar a participação do músico no projeto; mesclando o rock e o eletrônico, colando sons de camadas em camadas de forma progressiva, a canção marcha por cinco minutos e meio que parecem até durar mais, devido ao baixo dinamismo apresentado tanto pela melodia quanto pelo ritmo. As vocalizações assombrosas de Thom Yorke em “Judge, Jury and Executioner” pregam uma boa peça nos ouvintes, que ao invés de uma faixa tensa, experimentarão o momento mais dançante do álbum, com o vocalista claramente se inspirando no R&B contemporâneo de Justin Timberlake. Refosco injeta, através de sua percussão, um pouco de ritmo genuinamente brasileiro na penúltima faixa, “Reverse Running”, que mescla sentimentos de tranquilidade (através dos riffs de guitarra) a uma rara concepção de tensão, criada por Godrich através de ruídos esquizofrênicos.

Com “Amok” chegando ao seu fim, atestando-se a boa qualidade de seu conjunto de canções, torna-se cada vez mais aproveitador ou raivoso subjugar a qualidade do disco. Tudo bem, o Atoms for Peace não é o projeto mais experimental do mundo, mas esperar que Thom Yorke reinvente a roda a cada novo lançamento é querer demais de um cara que já fez muito. Ele mesmo já andou dizendo que “Amok” não foi concebido para soar como um álbum de banda, mas sim como uma colaboração momentânea dele com alguns amigos; e a verdade acaba sendo que, sob este âmbito “colaborativo”, com status de supergrupo, poucos projetos conseguiram alcançar um resultado tão interessante quanto este em questão.

A faixa-título, que encerra o álbum, acaba nos reservando a construção eletrônica mais “colorida” de todo o disco; apesar de não compreender o número mais constante do registro, “Amok” acaba fazendo com que o álbum homônimo se encerre de maneira tão convincente quanto havia se iniciado. Eis, indubitavelmente, um grande trabalho, que apesar de cometer alguns equívocos, com algumas pequenas falhas de produção (basicamente, um instrumento ou um ruído mal alocado aqui ou acolá), cumpre muito bem o seu papel. Pode até ser, em alguns momentos, gélido em demasia, desprovido de grandes sentimentos, e sua sonoridade pode até não ser das mais geniais, tratando-se de Thom Yorke; mas “Amok” marca, sem dúvida, a carreira de todos os artistas que ajudaram a construí-lo, caracterizando-se como um grande ato: um ótimo encontro de grandes músicos.

É provável que o Atoms for Peace nem vá mais para frente, e que este acabe sendo o único lançamento do supergrupo. Também é provável que mesmo com o passar dos anos “Amok” não se torne uma unanimidade, muito menos um clássico. Mas é certo que, daqui algum tempo, muitos dos que hoje criticam o trabalho passarão a olhá-lo de forma mais pacífica e carinhosa… Afinal, Thom Yorke parece constantemente acertar em suas previsões, sabendo sempre o que agradará seu público no futuro, manuseando a tão falada “passagem do tempo” com maestria.

NOTA: 8,0

Track List:

01. Before Your Very Eyes… [05:47]

02. Default [05:15]

03. Ingenue [04:30]

04. Dropped [04:57]

05. Unless [04:40]

06. Stuck Together Pieces [05:28]

07. Judge, Jury and Executioner [03:28]

08. Reverse Running [05:06]

09. Amok [05:24]

2013: Welcome Oblivion – How to Destroy Angels

Depois de se tornar um dos músicos mais influentes da duas últimas décadas, Trent Reznor decidiu encerrar as atividades de seu premiado grupo Nine Inch Nails para adentrar na década atual com um novo projeto. Tendo como colaboradores sua esposa, a cantora Mariqueen Maandig, o diretor artístico Rob Sheridan e o produtor Atticus Ross (que juntamente com Reznor havia faturado uma estatueta do Oscar pela trilha sonora do filme “A Rede Social”), o pai do rock industrial se mostra totalmente à vontade para continuar sua carreira inventiva, agora partindo com tudo para a música eletrônica. Não espere o ouvinte, no How to Destroy Angels, a mesma sonoridade que levou Trent Reznor a ser aclamado por diversos setores da indústria musical; o novo projeto é, claramente, a tentativa do músico em ir além, em continuar com suas experimentações ao mesmo tempo em que se desfaz dos laços do passado. “Welcome Obvilion”, primeiro registro de longa duração do novo projeto, é a contestação definitiva de que as texturas construídas pelo Nine Inch Nails ficaram para trás.

Aparentemente mais cooperativo do que fora o Nine Inch Nails, o How to Destroy Angels é detentor de uma musicalidade etérea, envolvida constantemente pelos vocais sussurrados de Maandig. A proposta do grupo, tão ou até mais sombria que a atmosfera criada por Reznor em mais de vinte anos a frente do NIN, praticamente desconsidera o ritmo, procurando desenvolver, ao longo das treze faixas de “Welcome Oblivion”, uma sonoridade centrada na climatização. Este é um disco, porém, que passa longe das ideias atmosféricas plantadas pelo dream pop, pois tenta desenvolver, a todo momento, uma sonoridade que se afasta do óbvio – tanto das antigas ideias do NIN, quanto do mainstream atual.

Experimentando como nunca, Trent Reznor nos apresenta um registro que, por incrível que pareça, parece constantemente querer afugentar os ouvintes. Se há muita gente que considerava as propostas do Nine Inch Nails no mínimo estranhas, até mesmo os seguidores do antigo projeto de Reznor considerarão “Welcome Oblivion” um trabalho andrógeno. Não restam dúvidas quanto à coragem de Reznor, que se desapega de um passado glorioso a fim de continuar a experimentar livremente, sem cabrestos impostos por público ou crítica. O que não se sabe, porém, é se alguém realmente estará disposto a seguir a carreira do novo grupo do produtor, que através de sua aceitabilidade difícil, se mostra de comerciabilidade ínfima até mesmo para os acostumados com as “estranhezas” de Reznor.

“Welcome Oblivion” se incia com “The Wake-Up”, que embora tenha uma construção eletrônica interessante, passa sem dar motivos para sua existência. A segunda, “Keep It Together”, é uma canção claramente melhor resolvida que a primeira, desenvolvendo uma aposta em que o ritmo distante, o vocal marcante e a melodia macabra trabalham com primor para construir uma atmosfera tensa e obscura. Tomada pelas quebras de ritmo que acompanharam o NIN em toda sua carreira, “And the Sky Began to Scream” soa como uma concepção moderna (e acertada) das antigas ideias de Reznor; além disso, a faixa é notável por mostrar o quanto o vocal de Mariqueen Maandig pode ser competente, embora ela apenas sussurre os versos.

Apesar de ser notavelmente bem produzida, a faixa título peca quanto à falta de dinamismo, ficando na mesma durante toda sua duração. A quinta, “Ice Age”, tem no seu início o que parecia anunciar a melhor faixa do disco, mas também erra feio ao parar na mesma aposta melódica e rítmica, sendo, basicamente, um remoer dos mesmos elementos em sua totalidade; por mais que seja um dos músicos mais inquietos de sua geração, Trent Reznor dá sinais de que sua criatividade vem se minguando, ao se entregar a certas mesmices preguiçosas que pouco acrescentarão a sua carreira. Mas, felizmente, ele ainda é capaz de criar alguns números atraentes, como bem mostra a canção “On the Wing”.

Faixa mais encantadora do disco, a andrógena “Too Late, All Gone” representa com maestria o poder dos cenários pesados construídos pelo grupo, que embora tensos, são constantemente alentados por belas e competentes melodias. Únicas faixas do álbum que se aproximam de algo que possa ser dito “pop”, “How Long?” e “Strings and Attractors” se mostram muito boas, convencendo do início ao fim através de uma produção primorosa, recheada pela voz sensualizada de Maandig. Já a décima, “We Fade Away”, é uma canção que tenta soar grandiosa, épica até em demasia, mas se perde em seu andamento rítmico pouco atraente.

O último bloco de canções do disco é iniciado pela insuportável “Recursive Self-Improvement”, que não faz nada mais do que encher linguiça por longos seis minutos e meio. Sim, “Welcome Oblivion” comete erros, tem algumas faixas claramente mal trabalhadas, mas nem por isso é um registro que pode ser desconsiderado; embora Trent Reznor não seja mais o mesmo músico dos velhos tempos, ele ainda se mantem como um dos nomes mais importantes da cena mundial, um produtor que a música necessita para continuar a evoluir através das experimentações. Apesar de não ser uma das melhores composições de Reznor, muito longe disso, “The Loop Closes” pode ser a prova que faltava para o ouvinte perceber que ainda há um futuro promissor para a carreira do criador do Nine Inch Nails. A enjoativa “Hallowed Ground” pode até não encerrar o álbum muito bem, mas sua produção é claramente caprichada.

No fim, o que se percebe é que o registro, mesmo constantemente tentando fugir das obviedades, acaba caindo naquela situação comum e corriqueira dos álbuns de música; afinal de contas, não são poucos os discos que, assim como “Welcome Oblivion”, são capazes de cometer erros e acertos dentro de um mesmo cenário e de uma mesma ideia central. O grande álbum de estreia do How to Destroy Angels é até conciso, não se perde em seus conceitos, conseguindo passar com firmeza os ideais propostos pelo projeto; mas não é, em contraponto, um trabalho muito consistente, dando algumas escorregadas consideráveis, outrora até imagináveis para um músico do porte de Trent Reznor.

Experimental como nunca e musicalmente polêmico como sempre, o cara da música industrial está de volta. O ouvinte pode amá-lo ou odiá-lo, só não pode negar a importância deste retorno; Trent Reznor pode até errar, pode até não ter a mesma capacidade criativa de outrora, mas continua a ser um dos músicos mais irrequietos do globo. Coragem ele tem de sobra, capacidade também, e mesmo que agrade a poucos, inclusive correndo um grande risco de ser mal recebido pelos antigos seguidores do NIN, Reznor faz no primeiro álbum do How to Destroy Angels sua abertura definitiva para o século XXI. Afinal, inteligentemente, ele parece fazer de tudo para se desapegar das texturas noventistas, abraçando o futuro a fim de se manter como um artista atual.

NOTA: 6,8

Track List:

01. The Wake-Up [01:42]

02. Keep it Together [04:27]

03. And the Sky Began to Scream [03:57]

04. Ice Age [06:52]

05. Welcome Oblivion [03:57]

06. On the Wing [04:52]

07. Too Late, All Gone [06:15]

08. How Long? [03:53]

09. Strings and Attractors [04:28]

10. We Fade Away [06:41]

11. Recursive Self-Improvement [06:28]

12. The Loop Closes [04:50]

13. Hallowed Ground  [07:19]

2012: Overexposed – Maroon 5

Por: Renan Pereira

Dez anos separam o primeiro trabalho de estúdio do Maroon 5, o competente “Songs About Jane”, do quarto álbum da banda, “Overexposed”. E, definitivamente, muita coisa mudou. Com “Hands All Over” e, principalmente, com o hit “Moves Like Jagger”, o grupo viu se abrir um novo caminho para sua música, se entregando, mais do que nunca, a um pop chiclete e de aceitação fácil, repleto de refrões grudentos e batidinhas dançantes. Aquela banda divertida que flertava com rock, funk, e até mesmo jazz, não existe mais; o que temos hoje é um projeto pop do vocalista Adam Levine contando com músicos de apoio.

Em “Overexposed” tudo é muito artificial, meticulosamente calculado para ser bem aceito em rádios e lojas, sejam físicas ou virtuais. E isso é um grande problema, pois a grande graça do Maroon 5, que na realidade nunca chegou a ser uma banda espetacular, era justamente ser um grupo autêntico, fazendo música sincera e com naturalidade. Agora, apelando para um batalhão de produtores, o que se procura é enfiar Adam Levine no grande buraco onde se encontram muitas das celebridades contemporâneas da música.

Comercialmente o álbum até pode ser competente, e se essa foi a grande intenção, Adam Levine e seus produtores merecem aplausos. Afinal, utilizando suas táticas de venda, conseguiram transformar algo medíocre em grande, aos olhos da clientela. Mas, apesar das vendas fazerem parte do mundo da música, servindo para engordar os cofres das queridas gravadoras, não devemos levá-las muito à sério. Se observarmos, então, o aspecto artístico, temos um álbum que passa longe de ser merecedor de ovações.

Pois bem, “Overexposed” começa sua caminhada com a canção “One More Night”, um pop de estilo bem atual, com alguma coisinha de reggae; sem agradar, a música soa como alguma de Rihanna na voz de Levine. A segunda faixa, o single “Payphone”, que conta com a participação do rapper Wiz Khalifa, é uma canção de qualidade até surpreendente, uma pepita de ouro em meio ao terreno lamacento e escorregadio de “Overexposed”; se caracterizando por ser uma bem composta e bem produzida canção pop, está até mesmo no mesmo nível melódico de “She Will Be Loved”, contendo uma boa interpretação vocal por parte de Levine, um rapping bem alocado e arranjos competentes.

A terceira, “Daylight”, apesar de não empolgar, não chega a ser necessariamente uma música ruim; até tem qualidades, e estas seriam um ponto positivo, se não pertencessem, na verdade, a outra banda – a canção é, afinal, uma cópia descarada da musicalidade do Foster the People. O comecinho de “Lucky Strike” engana bem, pois, através dos riffs iniciais, ensaia uma faixa mais roqueira; mas o passar dos segundos acaba por decepcionar o ouvinte, que se depara com um pop descartável, dançante mas sem ser dinâmico, com uma repetitividade que pode até irritar. “The Man Who Never Lied” é outra canção decepcionante, enjoativa, que apesar da produção luxuosa, que muito promete, acaba não saindo do lugar-comum.

“Love Somebody” também tem seus barulhinhos e batidinhas luxuosamente produzidos, mas que somente existem, na realidade, para tentar maquiar a pobreza da canção; extremamente óbvia, é de uma banalidade surpreendente, e mesmo que você a esteja ouvindo pela primeira vez, pode jurar já ter a escutado em algum lugar por aí. A preguiçosa “Ladykiller” até pode agradar algumas fãs da banda, pois parece ter sido feita para Levine rebolar em cima de um palco, em mais uma de suas duvidosas performances ao-vivo; mas como a canção não é grande coisa, e o rebolado de Levine não agrada todo mundo, esta é mais uma faixa incapaz de ter algum êxito positivo dentro do álbum.

É inegável que “Overexposed” não tem um bom andamento, explorando muito pouco da banda, que é capaz de fazer boas coisas; é um trabalho que desvaloriza os instrumentos, deixando Mickey Madden, Jesse Carmichael, James Valentine e Matt Flynn em segundo plano, abafados pela sonoridade eletrônica e comercial do álbum. Álbum este que procura destacar somente Adam Levine, elevando-o a um patamar superior aos demais membros, e praticamente transformando o seu nome em sinônimo de Maroon 5.

Muitas carreiras-solo começaram quando o nome do vocalista se encontrava excessivamente grande, maior até que o nome da banda. Mas, neste caso, por mais que Levine seja o nome mais famoso do conjunto, a transição soa meio forçada; utilizar o nome já consagrado da banda para dar ênfase somente ao vocalista parece ser uma estratégia oportunista. Assim, o futuro da carreira de Levine só teria realmente um valor artístico se uma de duas opções fossem seguidas: ou ele realmente inicia uma carreira-solo, sem carregar o nome da banda (e, consequentemente, sem desqualificá-la), ou continua sendo mais um em um grupo, como o vocalista do Marron 5, procurando resgatar os sentimentos dos primeiros trabalhos da banda, e, acima de tudo, trabalhando em equipe.

A eletrônica “Fortune Teller” é mais uma faixa banal, altamente comercial, que nem tímidos riffs de guitarra e piano conseguem salvar. De piano, aliás, é feito o instrumental da muito boa “Sad”, uma bonita balada, em que Adam Levine consegue ter um bom destaque; em um álbum com tantas faixas descartáveis, esta chega a surpreender, principalmente por mostrar que não é necessário um zilhão de enfeites eletrônicos para a música do Maroon 5 soar agradável. “Ticket”, das faixas dançantes, é a melhor do álbum, mas mesmo assim não chega a ser uma grande música, soando, no máximo, razoável.

“Doin’ Dirt” é, assim como sua faixa anterior, um número dançante até interessante, mas que passa longe de um grande destaque positivo; pelo menos, não é tão prosaica quanto a maioria das canções do “Overexposed”. Álbum este, que tem um arrastado desfecho com a canção “Beautiful Goodbye”, que de bonita, na verdade, tem pouca coisa; extremamente sem-graça, repetitiva e irritante, encerra o disco da pior maneira possível, e só retificando que, através da banalização da banda, dando um destaque absurdamente grande ao vocalista, com canções medíocres e de apelo apenas comercial, o Marron 5 caminha para um triste e decepcionante final. Se é para virar um projeto pop, que a carreira solo de Adam Levine se inicie de uma vez.

É provável então, que com isso, “Overexposed” acabe se tornando o último álbum do Maroon 5. Porém, pode ser até que a banda continue, mas, se isso ocorrer, devem ser mudados drasticamente os planos, até porque “Overexposed” soa como um álbum solo de Levine sob o nome de Maroon 5. Os rumos atuais que esta banda vem tomando são muito estranhos, e o estranho “Overexposed” talvez queira demonstrar, realmente, o atual momento do grupo. Um momento de incertezas e fragilidades.

Há álbuns que pouco acrescentam, outros que apenas continuam a caminhada de uma banda ou de um músico, e outros que fazem um projeto musical tomar um novo rumo. Apesar de, aparentemente, “Overexposed” ter sido feito para a música do Maroon 5 tomar um novo rumo, o que se vê é um trabalho que não alcança seu objetivo; afinal, o que ele mostra, na verdade, é uma banda perdida, em um momento estranho de sua carreira, totalmente sem rumo.

NOTA: 4,0

01. One More Night (Levine/Shellback/Kotecha/Martin) [03:39]

02. Payphone (Levine/Levin/Malik/Omelio/Shellback/Thomaz) [03:51]

03. Daylight (Levine/Martin/Levy/S. Martin) [03:45]

04. Lucky Strike (Levine/Tedder/Zancanella) [03:05]

05. The Man Who Never Lied (Levine/West/Moga) [03:25]

06. Love Somebody (Levine/Tedder/Zancanella/Motte) [03:49]

07. Ladykiller (Valentine/Madden/Lavine) [02:44]

08. Fortune Teller (Valentine/Madden/Lavine) [03:23]

09. Sad (Levine/Valentine) [03:14]

10. Tickets (Valentine/Madden/Lavine) [03:29]

11. Doin’ Dirt (Levine/Shellback) [03:31]

12. Beautiful Goodbye (Levine/Levin/Malik) [04:15]

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1984: Forever Young – Alphaville

Por: Renan Pereira

Pense na década de oitenta, e imagine-se na Alemanha Ocidental, em pleno ano de 1984. Se trata de uma época relativamente obscura, é verdade, na qual o país dos germânicos continuava na sua arrastada e infeliz era de divisão entre o triunfante capitalismo e o auto-derrotado comunismo. Mas deixemos as questões políticas de lado, e levemos nossos pensamentos apenas para a música.

Naquela época, o new wave pregava de mocinho, principalmente no continente europeu, onde as grandes bandas de rock clássico começavam a desaparecer. Depois da era punk, o mundo vivia mais uma era de total dominância de um estilo. Eis que então, em meio a todo esse processo de mudança, começa a se destacar uma vertente que, em um primeiro momento, chocou os ouvintes mais puristas, por abolir totalmente a utilização daquela instrumentação mais tradicional, de bateria, baixo e guitarra. O negócio do synthpop era a utilização, total e sem limites, dos sintetizadores, que tanto haviam evoluído na década anterior.

Porém, o synthpop não era algo novo. Sua origem data dos primeiros suspiros da década de setenta, totalmente influenciado pelo krautrock, outra vertente experimentalista bastante importante e, que por coincidência ou não, também teve origens na Alemanha. A intenção deste movimento era de se fazer um constante divórcio com as ideias clássicas, procurando sempre optar por meios alternativos. Para isso, a evolução do tratamento com os sons sintéticos foi um passo fundamental, pois, se a ideia era fazer diferente, nada melhor que desfazer aquele senso-comum de que sintetizador demais significava falta de talento instrumental.

Mas a abolição total dos instrumentos tradicionais foi coisa do também grupo alemão Kraftwerk, que fazia música totalmente eletrônica desde o início dos anos setenta, e que se caracteriza não só como um dos pioneiros do synthpop, mas de todo o uso de sons sintéticos em geral. Mas o fato é que, como todo bom pioneiro de música alternativa, o Kraftwerk jamais conseguiu ser uma figura marcante no mainstream, e coube ao synthpop popularizar a música eletrônica.

Voltemos então, finalmente, a 1984. Você está lá na Alemanha, saboreando o seu chucrute e a sua cerveja, naquele universo de new wave e Muro de Berlim, e eis que surge nas ondas do rádio tudo o que você estava querendo ouvir naquele momento; não era new wave, mas também não era o experimentalismo do krautrock. Era, afinal, um rock eletrônico ou um Kraftwerk pop? Nem um, nem outro… Era o synthpop do Alphaville, mudando a percepção de todos sobre sintetizadores.

Para isso, não bastava algo comum, e o disco “Forever Young” tratou de ter um belo diferencial: ser brilhantemente produzido. Isto porque não é, composicionalmente, nada de muito genial, tendo boas canções com boas melodias, e nada mais que isso. As letras, também, não são nada magníficas, porém acabam não tendo um grande peso, visto que o principal de tudo está em como a sonoridade foi conduzida. E chega até a ser assustador ver um grupo, logo no seu trabalho de estreia, tão seguro do que fazer; dominando perfeitamente a técnica e os aparelhos, o Alphaville anseia, em todo o álbum, surpreender seus ouvintes com a sua música moderna. A boa “A Victory of Love”, faixa de abertura do álbum, já é um belo cartão de visitas; com uma produção caprichadíssima, e sendo progressiva na medida certa, mostra toda a qualidade e a criatividade do grupo, fazendo do som sintético uma exploração incessante de detalhes e sentimentos.

Mas, mesmo quando se explora música proveniente de instrumentação eletrônica, nada deve soar artificial. E o Alphaville tratou de deixar, felizmente, a sua sonoridade bem natural, com melodias agradáveis e bem construídas, onde nada soa forçado, o que só auxiliou na boa alocação dos sintetizadores. Outro ponto bastante humano do grupo é a boa voz de Marian Gold, como pode ser conferido em “Summer in Berlin”, uma boa e muito bem construída balada. “Big in Japan”, primeiro single do álbum, é uma daquelas músicas que foram fundamentais para a difusão do estilo, melodicamente competente, com boas pitadas de rock, e produzida com um capricho incontestável, contendo elementos (que na época eram novidade) que até hoje continuam a fazer parte de muitas músicas tidas como contemporâneas. “To Germany With Love” se inicia misteriosa, mas acaba por se tornar uma faixa extremamente dançante, praticamente um funk norte-americano eletrônico, em que a atuação do instrumental se mostra perfeita.

“Fallen Angel” não deve nada às faixas anteriores, sendo mais uma canção melodicamente agradável e perfeitamente produzida. Eis que então, na sexta faixa, surge a clássica faixa-título, um single fortíssimo, que ainda hoje é muito bem conhecido pelo público; a comovente canção, que tem toda uma temática triste, é uma pausa drástica na agitação, mostrando que não só de alegria e dança a música eletrônica pode ser feita. “In the Mood” não é um dos destaques do álbum, apesar de ser uma boa música; lembrando bastante a música disco, não apresenta algo tão novo quanto as demais faixas, apesar de ser, também, muito bem produzida.

“Sounds Like a Melody” é uma canção que se afasta do normal da música pop, que é de músicas de complexidade limitada e de audição fácil, por conta de letras pegajosas; a canção, que pode ser comparada ao rock progressivo, contém estruturas vocais alternantes e, em sua parte final, uma longa atuação somente instrumental (que, por sinal, é um espetáculo). A penúltima é “Lies”, uma canção não tão boa quanto as demais, mas que é, também, tecnicamente incontestável. Já, “The Jet Set”, é um divertido número final, apresentando nada de muito diferente do que já foi ouvido, mas nem por isso deixando de afirmar a consistência do álbum.

A letra do single “Forever Young” questiona o desejo de ser eternamente jovem e de viver para sempre. Voltando para a segunda década do século XXI, se vê um álbum que um dia foi uma grande novidade, mas que agora é muito mais uma audição nostálgica, na verdade. O Alphaville não conseguiu ser eternamente jovem, e talvez esta nunca tenha sido, realmente, a intenção… Porém a vida eterna é algo possível. O disco “Forever Young” deve ser lembrado para sempre como um trabalho que, além de ter a perfeição técnica, popularizou e humanizou experimentalismos, com muita criatividade, conhecimento e consciência musical.

NOTA: 8,8

Track List: (todas as canções compostas por Alphaville)

01. A Victory of Love [04:14]

02. Summer in Berlin [04:42]

03. Big in Japan [04:43]

04. To Germany With Love [04:15]

05. Fallen Angel [03:55]

06. Forever Young [03:45]

07. In the Mood [04:29]

08. Sounds Like a Melody [04:42]

09. Lies [03:32]

10. The Jet Set [04:52]

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2012: MDNA – Madonna

Por: Renan Pereira

Por mais que ela seja a rainha do pop, a carreira de Madonna não tem sido, nos últimos anos, daquelas muito constantes. A entrada da cantora na década passada ocorreu com o competente álbum “Music”, de 2000, e tudo parecia que continuaria como nas décadas de oitenta e noventa; não teria pra ninguém, e Madonna dominaria a cena pop mundial. Mas depois, em 2003, veio o muito criticado “American Life”, e as coisas pareciam que desandariam de uma vez… Até vir à luz o consistente “Confessions on the Dancefloor”, de 2005, e mostrar que a rainha do pop continuava forte como nunca.

Porém “Confessions” foi o último álbum digno do título monárquico que Madonna tem. “Hard Candy”, de 2008, foi um álbum fraco, aproximando Madonna do restante da cena pop atual – o que é um desperdício, visto que ela sempre foi uma mestra para as cantoras. Eis que Madonna então adentra na década atual com uma nova casa e novas ideias; “MDNA” é o primeiro álbum da cantora, desde o início da sua carreira, que não tem a Warner como gravadora. Agora na Interscope, a cantora parece ter procurado se infiltrar ainda mais nos elementos pop atuais.

É como se tudo o que você já tenha ouvido de Madonna tenha sido revisto. Os refrões poderosos sumiram, a sonoridade simples e dançante deu lugar a uma viagem pelo que há de mais moderno na música eletrônica atual, e o que antes era puro sangue e carne parece ter se tornado frio e robótico. O fraco single “Give Me All Your Luvin'” já alertava para um álbum pouco empolgante, repleto de  modinhas e superficialidades, inclusive contando com as participações de duvidosa qualidade de M.I.A. e Nicki Minaj. Mas, felizmente, houve alguma surpresa positiva, e o álbum, apesar de ser um dos mais fracos da carreira de Madonna, não se mostrou tão entristecedor quanto o seu primeiro single.

Mesmo em um dos momentos menos brilhantes de sua carreira, Madonna ainda é capaz de dar verdadeiras lições sobre a música pop. Em “MDNA”, a grande lição é: “independente de quando ou onde você está, tenha personalidade”. Por mais que ele não empolgue, não se pode negar que Madonna acreditou muito no projeto, e lhe dedicou todas as suas forças; apesar de o tempo continuar passando, e de Madonna não ser mais aquela musa sex symbol de tempos atrás, sua música continua atraente, provocante… e nisso (pelo menos nisso) nada se mostra tão mudado. A personalidade dela está lá, apesar de meio maquiada por tantas firulas, e Madonna, mesmo não construindo um grande disco, continua a ser um dos fortes nomes da música.

“MDNA” abre com a razoável “Girl Gone Wild”, bem escolhida para single; apesar de não ser uma grande canção, ficando muito longe dos maiores clássicos da cantora, é uma música pulsante, radiofônica e de fácil recepção (ou seja, uma faixa válida para um álbum pop). Já a segunda faixa, “Gang Bang”, é bastante ruim, maltratando os ouvidos dos que se acostumaram a ouvir a cantora em grandes performances; a música é irritante, não tem nenhum dinamismo, e sua linha vocal é pífia, talvez a mais preguiçosa que Madonna já tenha cantado. A musicalidade eletrônica e minimalista de grande parte das canções, inclusive da terceira, “I’m Addicted”, deve causar estranheza aos ouvintes, que não esperavam ver Madonna fazendo algo próximo a um dubstep. O álbum soa muito diferente, estranho, e o ouvinte que queira se acostumar com ele deverá gastar um bom tempo para isso.

“Turn Up The Radio” é legal e vale a pena ser ouvida, pois, sem dúvida nenhuma, é uma das melhores canções do álbum; nela, o vocal de Madonna está como nos velhos tempos, bem como a melodia – se não é algo extremamente incrível, traz uma produção menos errônea, que conseguiu utilizar de forma bem mais convincente as firulas eletrônicas. A quinta é o tal primeiro single, “Give Me All Your Luvin'”, uma música inspirada em cheerleaders, e que conta as estranhas e já citadas participações especiais; é inegável que não se trata de uma grande canção, algo muito pequeno para uma cantora chamada de “rainha do pop”, e que mergulha profundamente nos elementos das músicas da moda – mas o pior de tudo ainda são os rappings. Infelizmente, “MDNA” pouco acrescenta à música pop atual, pois, simplesmente, acaba seguindo o mesmo caminho.

“Some Girls” também é ruim, melodicamente muito pobre, e com uma atuação vocal muito fraca, até mesmo por ficar escondida por trás de tantos sonzinhos irritantes. Tudo bem que Madonna tem condições, e por isso pode, com todo o direito, fazer um álbum super-produzido… mas exagerar nos modismos nunca havia sido uma marca dela. Em “Superstar”, pelo menos, a produção faz um trabalho competente, trabalhando bem uma boa melodia e dando o espaço necessário para a voz  de Madonna (mas, apesar disso, ouve-se mais uma atuação vocal decepcionante). “I Don’t Give A” é estranhíssima, soa como uma tentativa (mal-sucedida) de misturar o hip-hop de hoje com o som clássico de Madonna, resultando em uma faixa que só acrescenta ao álbum pontos negativos; em suma, é uma música sem-rumo, que vaga por muitas bizarrices e acaba por não chegar a lugar nenhum. “I’m a Sinner” é mais consciente, contendo um certo dinamismo que foi esquecido na maior parte das faixas do “MDNA”; no álbum, é uma das mais fortes, apesar de não estar no mesmo nível das melhores canções já gravadas por Madonna.

Aqui o álbum começa, felizmente, a caminhar por um terreno mais firme, onde certas estranhezas e experimentalismos desnecessários são deixados para trás. “Love Spent” é uma ótima música, que traz um pouco do bem conhecido e tradicional dance de Madonna, e que contém uma letra intrigante, parecendo trazer de volta, de tempos atrás, aquela compositora de letras afiadas. A seguinte, a romântica e orquestrada “Masterpice”, é uma das mais belas canções já escritas por Madonna, contendo uma letra poética, e que acaba por acrescentar mais um belo número ao catálogo de canções românticas da rainha do pop. É “Falling Free” que dá números finais ao “MDNA”, e, felizmente, com mais uma belíssima faixa desta surpreendente parte final; se o álbum não é nenhuma maravilha, ele pelo menos fecha com conceito máximo, com uma última faixa perfeita, melódica, orquestrada, e lindamente interpretada. Inegavelmente, Madonna pode, mesmo em seus momentos menos inspirados, realizar grandes feitos.

“MDNA” tem músicas péssimas, ruins, razoáveis, boas e ótimas, assim como os álbuns mais recentes de cantoras como Britney Spears, Katy Perry e Lady Gaga; é por isso, justamente, que acaba ficando uma maior crítica. Madonna sempre foi conhecida por ser bastante visionária, conseguindo prever sempre o que faria sucesso nos próximos anos, e, trabalhando nisso, acabava por ser uma das artistas mais influentes do mundo. Mas, agora, o que se vê é uma Madonna não influenciando, e sim sendo influenciada.

É claro que ninguém quer mais um “First Album” ou um “Like a Prayer”, afinal os tempos são outros, e pedem outras coisas. Mas desconfigurar um estilo tão marcante é um erro; Madonna é uma artista de um estilo consagrado, já conhecido por todo mundo, e se entregar com tudo às atualidades, que algumas vezes soam tão infundadas, parece não ser a ideia mais bem pensada. Uma rainha que se preze sempre ouve o que o povo lhe diz, mas a sua autoridade é maior. No pop, Madonna sempre deu as ordens, mas agora parece estar com mais vontade de recebê-las; infelizmente, essa cantora que apenas segue o que se tem feito pouco se parece com a Madonna dos áureos tempos.

Com isso, apesar de não ser um trabalho de todo ruim, com algumas belas canções, o “MDNA”, infelizmente, e talvez por ironia, distorceu o que se conhecia da genética musical de Madonna. Às vezes exigimos demais, até mesmo de artistas já há muito consagrados, mas porque é justamente destes que esperamos trabalhos marcantes. E assim não é com o “MDNA”, que se caracteriza por ser apenas mais um.

NOTA: 6,0

Track List:

01. Girl Gone Wild (Madonna/Vaughan/A. Benassi/B. Benassi) [03:43]

02. Gang Bang (Madonna/Orbit/Hamilton/Harris/Jean-Baptiste/Mika/Casanova/Kozmeniuk) [05:26]

03. I’m Addicted (Madonna/A. Benassi/B. Benassi) [04:33]

04. Turn Up the Radio (Madonna/Solveig/Tordjman/Williams) [03:46]

05. Give Me All Your Luvin’ (Madonna/Solveig/Minaj/Arulpragasam/Tordjman) [03:22]

06. Some Girls (Madonna/Orbit/Åhlund) [03:53]

07. Superstar (Madonna/Indiigo/Malih) [03:55]

08. I Don’t Give A (Madonna/Solveig/Minaj/Jabre) [04:19]

09. I’m a Sinner (Madonna/Orbit/Jean-Baptiste) [04:52]

10. Love Spent (Madonna/Orbit/Jean-Baptiste/Hamilton/Whyte/Buendia/McHenry) [03:46]

11. Masterpiece (Madonna/Frost/Harry) [03:59]

12. Falling Free (Madonna/Mayer/Orbit/Henry) [05:13]

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