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Entrevista: Leo Cavalcanti

Por: Renan Pereira

Se você ainda não conhece Leo Cavalcanti, é bom prestar atenção à nova entrevista do RPblogging. Um dos novos nomes de destaque da música pop nacional, o músico se destaca através de uma base sonora dançante, inteligente e abrangente.

Filho de Péricles Cavalcanti, Leo já tem muitos anos de experiência com a música, mas lançou seu primeiro disco apenas em 2010. “Religar”, no fim das contas, se comporta apenas como um abre-alas para sua obra maior, o disco “Despertador”, lançado nesse ano e aclamado por diversos setores da imprensa (incluindo o RPblogging).

Aproveitando o recente lançamento do “Despertador” e a evidência que o nome de Leo Cavalcanti pleiteia na música nacional, tivemos o prazer de entrevistá-lo. Na entrevista, Leo nos contou um pouco sobre seu início, suas influências, sobre os conceitos de seus discos e seus planos para o futuro recente.

Você começou a compor ainda muito cedo, acredito que muito por influência caseira de seu pai, o também músico Péricles Cavalcanti. Mas quando você teve a certeza de que trabalhar com música era o que você queria para o seu futuro?

Comecei a compor na minha adolescência. As primeiras canções foram sobre os amores não-correspondidos na época. A certeza de querer trabalhar com música veio antes disso. Desde criança sonhava em ser um cantor, além de astronauta, pintor, arqueólogo, arquiteto… Sempre fui um sonhador desde criança.

Meu pai foi fundamental na minha formação musical, claro. Vi todo o processo criativo dele de pertinho. E ele que meu deu, quando eu tinha 9 anos, meu primeiro violão. Foi aí que tudo começou mesmo. Comecei a perceber que música é uma linguagem natural pra mim.

Com certeza, Péricles Cavalcanti foi a sua primeira influência musical. Porém, outros nomes também devem ter te inspirado em seus primeiros passos na música… Quem são esses artistas?

Meu pai com toda a sua bagagem musical, que não era pouca. Ouvíamos de tudo em casa: de música brasileira dos anos 30 à Michael Jackson. De Bach a Beatles. De Clementina de Jesus a Ella Fitgzerald. Além disso, como nasci dentro do meio musical, sempre fui a muitos shows desde pequeninho. As primeiras coisas que me pegaram mesmo foi o flamenco de Paco de Lucia, Michael Jackson, Beatles e Jackson do Pandeiro.

O seu primeiro disco, “Religar”, exibiu uma constante exploração dos elementos do tropicalismo. É muito interessante perceber que um movimento que emergiu lá nos distantes anos sessenta continua inspirando tantos e tantos novos artistas. É possível mensurar a importância de nomes como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil para a música brasileira?

Não considero que foram explorados em especial elementos tropicalistas neste disco – pelo menos não diretamente ou intencionalmente. É claro, ninguém que faça música no Brasil passou incólume pelo tropicalismo. É algo que influenciou a todos.

Mas vejo que “Religar” vai para outros lados. É um disco totalmente da era digital, feito de samples e batidas eletrônicas. Em termos de arranjos, creio que se direciona mais para o pop eletrônico do que pra chamada MPB. A música brasileira está mais presente na estrutura da composição – e é claro, no meu violão.

E é claro: imensurável a importância desses deuses da nossa música. Ela ainda está a se expandir, inclusive.

E como é ser elogiado por artistas do nível de Caetano, Arnaldo Antunes e Fernanda Takai? Seu ego fica massageado?

Eu fico muito feliz e honrado. São artistas que admiro profundamente. Mas não tenho vontade nenhuma e nem teria sentido ficar me gabando disso. Se “ego massageado” aqui significa algo que me estimula a continuar meu trabalho – e não “ego inflado” – então, sim. É um grande estímulo para continuar, ver meu trabalho sendo admirado por eles e principalmente pelo público.

Falando em massagem, você também já se embrenhou pelo yoga e pela massoterapia. Como essas atividades interferiram no seu modo de fazer música?

Interferiram profundamente. Musica é para mim um instrumento terapêutico. Um campo onde me conecto com o sagrado em mim. Esses estudos me abriram janelas. Sou apaixonado pela fonte de sabedoria que é o Yoga. Assim como massoterapia é um terreno de ferramentas poderosíssimas. Tenho grande curiosidade e admiração por ciências que visam a integração do ser humano em todos os seus níveis (físico, energético, emocional, intelectual e espiritual). O contato com esses estudos foram marcantes e firmou minha motivação com o fazer música.

Seu último disco, de lançamento ainda recente, é denominado “Despertador”, e traz o seu “despertar” para a música pop. Qual o motivo dessa mudança de direção, abraçando nuances sonoras mais modernas?

Não vejo exatamente como uma mudança de direção, mas sim como uma evolução natural. Meu trabalho, desde “Religar”, tem direcionamento dentro do universo da música Pop. Vejo que em “Despertador”, essa direção se consolida ainda mais – principalmente por esse disco ter uma unidade conceitual e sonora mais acentuada.

No “Religar”, foi o uso dos samples, do recurso de edição digital, que norteou o disco. No “Despertador”, o uso de sintetizadores. Nos últimos tempos, tenho ficado apaixonado pelas mil e uma possibilidades do sintetizador, e o poder delas. De possibilitar arranjos com pressão, ótimos para a pista (com os baixos synth) e também transcendentais, com um certo teor “espacial”.

Minha viagem para a Alemanha, antes de gravar o disco alimentou isso também. Ouvi música eletrônica nas rádios de lá. E adoro música pop em geral que utiliza sintetizadores, de Justin Timberlake a MGMT.

Tenho vontade de explorar muitas nuances sonoras e artísticas em geral, no meu caminho. É inevitável que cada trabalho traga algo particular do momento em que estou vivendo. Quero sempre me permitir mudar e transformar a sonoridade do meu trabalho.

“Despertador” é um disco bem comunicativo, a ponto de sua música ser denominada como “pop intergalático”. Como você define, afinal, esse pop que viaja além das fronteiras do nosso planeta?

Criei esse termo inicialmente como uma brincadeira, para quem perguntasse qual o gênero de música que faço (pergunta essa que fico sempre encabulado de responder): qual o tipo de música que vc faz? Como sei que nenhuma resposta convencional vai dar a informação, resolvi brincar com isso.

É música pop que aponta para mergulhos internos, para além dos fatos da vida cotidiana concretos. São exercícios filosóficos. Quando compus essas músicas, elas serviram para isso. Elas atuam num outro plano.

A sonoridade dos sintetizadores trazem um certo teor psicodélico e transcendental que resolvi identificar como “intergaláctico”.

Mas a música pop, além de se comunicar com o grande público, precisa fugir da redundância para ser artisticamente válida. Felizmente, a sua música se comporta muito bem quanto a inovações, com semelhanças à obra recente de nomes como Silva e St. Vincent. Esses dois artistas citados realmente foram fontes de inspiração de “Despertador”? Existem outros nomes da atualidade que te levam a tentar inovar?

Não, nenhum dos dois foram fonte de inspiração pro “Despertador”. Recentemente tenho escutado muito St. Vincent e estou absolutamente fã. Mas descobri recentemente, depois de gravar o disco “Despertador”. Silva, o mesmo, venho conhecendo melhor recentemente. A produção musical do trabalho dele é incrível.

Para mim, fazer música é um desafio onde sempre gosto de buscar o desconhecido. Traçar um caminho que não seja óbvio pra mim. Tudo o que ouço acaba fazendo parte disso. De música hindu tradicional ao R&B norte-americano.

Durante a gravação de “Despertador”, os meninos da banda estavam ouvindo muito Tame Impala. E eu fui apresentado durante a gravação e “abduzido” pelo som deles. Posso dizer que, se houve alguma banda que nos inspirou durante a gravação, foi essa.

No clipe de “Get a Heart”, você mostrou que sabe dançar e atuar. Mas o papel do artista, principalmente nos dias de hoje, em que a informação é rápida, fácil, e muito próxima do público, não pode se restringir apenas à arte… “Consciência política”, por exemplo, é um conceito com o qual você se importa?

Consciência política é algo imprescindível se você quer realmente lidar com a realidade de sua época. Não dá pra ignorar as estruturas decadentes e desequilibradas que norteiam nossa sociedade se você quer fazer um trabalho artístico realmente consistente.

Cada vez mais percebo que o que se chama de “arte” é algo tão amplo e potente, que fica difícil de limitar suas fronteiras. Percebo que inevitavelmente, quem faz arte, acaba se posicionando em outras áreas também, nem que seja de forma subjetiva, nem que não se pretenda fazer isso. Sua reverberação pode ser altamente transformadora, mudando todo o cenário a nossa volta. A arte atua no campo subjetivo, o que é fundamental para qualquer mudança objetiva que quisermos realizar.

Todos nós artistas somos, no fundo, ativistas. E é importante que, nesses tempos, possamos nos utilizar dessa virtude, cada vez mais.

Procuro me posicionar em tudo aquilo onde sinto propriedade em fazê-lo. Questões relativas a direitos humanos básicos e meio ambiente são assuntos que me envolvem e considero fundamentais. Mas ainda sinto que posso ir muito mais longe, no que tange esse assunto. Quero cada vez mais somar minha força a movimentos que considero ser realmente construtivos para a transformação dos velhos padrões limitantes que estão regendo ainda nossa sociedade.

Agora, depois de tanto trabalho para lançar o seu segundo disco, é hora de promovê-lo. “Despertador” terá a sua turnê pelo país? Reproduzir ao-vivo a salada sonora do álbum, com direito a muitos efeitos eletrônicos, é um desafio?

Estamos nesse desafio de criar oportunidades para o “Despertador” rodar o país o máximo possível. É o meu desejo tocar o máximo que der.

O show é o disco ampliado. Como o disco foi gravado quase todo ao vivo, não foi tão difícil trazer este resultado pro palco. Alguns arranjos mudaram e cresceram, ficou muito bom. Esse show é visualmente muito forte também. As projeções de imagens são protagonistas. Tem coreografia de dança no show, eu me expresso fortemente pela dança – e a ideia é cada vez mais trazer a dança pro meu trabalho. Eu diria que o show tem o aspecto intergaláctico do disco ainda mais acentuado. É uma experiência forte assisti-lo, isso eu posso afirmar.

Agradecemos imensamente a participação de Leo Cavalcanti. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “Despertador”, o novo álbum do músico.

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2014: Despertador – Leo Cavalcanti

Despertador

“Despertador” parece ser um daqueles discos cuja capa logo vai entregando o conceito pelo qual o trabalho é guiado. Lá está Leo Cavalcanti imerso em um cenário intergalático, fazendo-se parte integrante dessa imensidão que é o universo. Entre cores e símbolos, o músico ostenta sua barba profética, fazendo com que todo esse exoterismo faça com que o ouvinte lembre, mesmo que vagamente, dos conceitos plantados pela música pop lá nos anos sessenta e setenta…

Porém, pouco ou quase nada do presente registro soa como uma mera “revitalização” de uma base musical antiga. Mais do que o segundo exemplar da discografia de Cavalcanti, “Despertador” é a concretização de um talento que já havia sido demonstrado no álbum “Religar”, de 2010. Há agora uma maior linearidade, a exploração de um som que o músico tornou sua própria identidade, e embora a complexidade e os heterogeneidade tenham sido diminuídos em nome de uma maior aproximação com o público de massa, Cavalcanti faz do novo trabalho praticamente uma assinatura musical.

Mas para alcançar esse madurecimento como artista, não bastou ao músico a utilização dos conceitos que haviam costurado com acerto o seu primeiro disco. Ciente de que algo a mais seria necessário para quebrar a barreira da “promessa” para se tornar, enfim, uma “realidade”, Cavalcanti topou fazer de seu novo trabalho uma grande exploração de sons sintéticos. Esbarrando nos rumos eletrônicos de Silva, ou até mesmo no pop tortuoso proposto por St. Vincent, o compositor paulistano faz de uma sonoridade repleta de frescor a nova morada de seus versos cativantes.

“Despertador” abre com sua faixa-título, em que ótimas harmonias vocais constroem a ponte perfeita para ligar o conceito sonoro à lírica sutil – que engloba, aliás, todo o trabalho. Seja pela base energética, composta por batidas dançantes, ou pelo seu andamento pop, que parece se comunicar com algum hit perdido do pop-rock oitentista, a primeira faixa já parece deixar claro o acerto proeminente no qual o disco será guiado. Ainda que algumas faixas, como a segunda, “Só Digo Sim”, demonstrem uma aproximação até mesmo exagerada a uma estética simplória, são os versos sempre bem pensados de Cavalcanti que acabam ficando na mente do ouvinte… Como bem demonstra a inteligente e psicodélica “Sonho Parasita”.

A quarta, “Leve”, brinca com texturas da MPB para construir um número que mescla a todo instante o velho e o novo, como se uma canção setentista de Caetano Veloso passasse por uma remixagem. Interação que ainda fica mais clara na faixa seguinte, “Inversão do Mal”, mostrando que mesmo atento aos aspectos modernos da música, Cavalcanti nunca deixou de ser um grande admirador do tropicalismo; é aqui, afinal, que o exoterismo do disco acaba encontrando seu ponto máximo.

Se a quinta faixa fala que “a alquimia é real quando se aprende a escutar à si”, o instante de maior intimismo do álbum acaba ficando para “O Momento”, uma canção mais calma, que se encontra naturalmente envolvida em uma estrutura sentimental. Um teor melancólico que é bruscamente interrompido pelas texturas tortuosas de “Get a Heart”, única composição do álbum com letra em inglês, e que parece soar como uma colaboração de Leo Cavalcanti com Annie Clark… Mais um ponto positivo para a competente produção de Fabio Pinczowski, sempre procurando fugir do óbvio mesmo quando o assunto é música pop.

“Tudo Tem Seu Lugar” é uma  belíssima marcha de dimensões épicas, envolta por cítaras em uma ambientação etérea, retratando as idas e vindas da nossa existência: é o momento em que o músico expõe seus mais íntimos pensamentos para mostrar a naturalidade com a qual os altos e baixos da vida devem ser tratados. Ainda que “Sua Decisão (Ser Feliz e Contente)” não consiga alcançar a mesma qualidade das melhores faixas do disco, e que soe como uma espécie de auto-ajuda, seria ignorância em demasia não citar “Despertador” como um trabalho guiado pela positividade… Ainda que hajam obstáculos, dores, pedras, a mensagem passada por Leo Cavalcanti é sempre otimista.

“Amoral” encerra o disco condensando todo o conceito lírico e sonoro utilizado por Cavalcanti nas nove faixas que a antecedem… Uma contemplação final do “pop intergalático” proposto pelo artista, que assume: “É bonito constatar que este ser-disco já não me pertence, pois tem vida própria”. Leo Cavalcanti se oferece ao cosmos, mergulha no universo para fazer de seu novo trabalho um novo filho, oferecido ao público de todas as galáxias e dimensões. Ainda que seja resultado de um pop simples, confesso e de fácil degustação, é um registro que se propõe a viajar além do lugar-comum. E põe além nisso.

NOTA: 8,0