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Entrevista: Fernando Temporão

Por: Renan Pereira

Fernando Temporão é um dos mais talentosos compositores da nova geração da música brasileira. Radicado nas tradicionais rodas de samba do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, o músico apresentou, em seu primeiro disco em carreira solo, uma sonoridade que vai muito além do samba que o lapidou.

“De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” foi eleito pelo RPblogging como uns dos 30 melhores discos nacionais de 2013 devido à abrangência deliciosamente pop com a qual o músico expôs traços de sua intimidade, quebrando com naturalidade aquele muro que sempre é construído contra o ouvinte quando o artista decide abordar seu próprio interior. Temporão fala simples, mas de coração.

Um nome emergente da música brasileira, Temporão volta a abrir a gaveta da sua alma nessa entrevista ao RPblogging. Nela, o artista nos conta um pouco mais sobre a sua carreira, partilhando também suas opiniões um pouco sobre os rumos da música alternativa feita principalmente no Rio de Janeiro.

Fernando Temporão

Como e quando você começou na música? Desde o princípio, você tinha certeza de que gostaria de seguir carreira como músico?

Tudo começou com um violão velho do meu pai que ficava lá em casa, encostado no canto. Acho que ter aquele instrumento ali, à mão, foi determinante pra tudo o que veio depois. Além do violão, meu pai sempre comprou muitos discos, ouvia música o tempo todo – em alto volume – e eu acompanhava de perto todo esse universo da chegada dos cd’s, os Lp’s, a coleção de discos antigos, os amplificadores, caixas de som, vitrolas… ainda lembro quando ele comprou nos Estados Unidos um cd-player de cartucho, onde cabiam 5 cd’s, foi uma revolução! A música era, portanto, onipresente. Em 1994, quando fiz 11 anos, pedi aos meus pais que pagassem um professor de violão, e essas aulas só aprofundaram minha curiosidade pela música. Meu professor era o Nelson Cerqueira, irmão do DJ Edinho, um cara que tocava numa banda de Ska muito bacana chamada Kongo e conhecia tudo de reggae. Eu, aos 11 anos, tinha nessas aulas, frequentemente, momentos de bate papo sobre música, política, futebol… tinha um lado bacana de tirar as músicas que eu queria saber tocar e um lado mais sério também, de estudo. O Nelson era um instrumentista exigente e lembro dele passar umas coisas do Bach, Villa-Lobos e até mesmo do João Pernambuco pra estudar. Acho que ainda sei tocar “Sons de Carrilhões”.

Então esse ambiente musical em casa foi fundamental, e ter aprendido a tocar violão com 11 anos foi bacana também porque a partir daí eu passei a ter alguma autonomia com o instrumento, passei a tirar músicas de ouvido e virar as tardes e noites todas tocando. Anos depois, na faculdade de Ciências Sociais, quando bateu uma crise e eu passei a questionar se era aquilo mesmo que queria pra mim, concluí que o que me dava mais prazer era fazer justamente o que eu já fazia todo santo dia: tocar violão, compor e cantar. Essa simples constatação afetiva me ajudou a sustentar essa opção pela música profissionalmente.

Você não vem de uma família de músicos, e por mais que haja sempre um apoio incondicional dos pais, viver de arte é algo muito complicado. Houve algum momento em que seus pais tentaram te convencer a investir em outra profissão e deixar a música pra lá?

Vir de uma família tradicional, no sentido das escolhas profissionais dos meus pais, tios e avós, é sempre mais complicado, porque todo protagonismo é traumático por natureza. Eu sou o primeiro e, por enquanto, único membro da família inteira a trabalhar e viver de arte. Tenho um irmão mais novo, Gabriel, que está estudando música e, quem sabe, siga o mesmo trilho. Mas embora o contexto familiar seja esse de um núcleo mais tradicional, sempre tive apoio dos meus pais pra seguir na música. Em nenhum momento eles sugeriram algo ou fizeram qualquer tipo de pressão pra que eu investisse em outro caminho. Na realidade, a pressão que sinto e sempre senti, no sentido de sustentar essa escolha, é minha mesmo, é uma cobrança que me faço o tempo todo.  Pode ser que essa paixão evidente pelo ofício que escolhi, tenha convencido eles desde cedo de que não haveria mesmo outra estrada pra mim e, além disso, meus pais sempre nutriram muita simpatia pelas artes, pela música… na realidade minha escolha parece ser muito mais um motivo de satisfação do que frustração pra eles. Isso me ajuda e me atrapalha. De qualquer forma, acho que normalmente as pessoas tendem a procurar um ofício que proporcione um equilíbrio entre a satisfação pessoal, o prazer, e o retorno financeiro. Só que os artistas costumam estar tão afetados por um amor e pela inevitabilidade de se fazer o que se faz, que esses cálculos pragmáticos ficam em segundo plano.

Como foi adentrar no mundo da música e perceber que, aos poucos, você estava tocando com gente importante e, mais do que isso: se tornando um artista importante?

Acho que esse tipo de percepção acontece naturalmente, com o tempo, com os acidentes e acertos da vida. Mais do que chegar em algum lugar ou atingir objetivos ou se tornar algo, o grande lance da vida é ter prazer com o que se faz, dia após dia, sem muita preocupação com as consequências disso. Em algum momento eu certamente vou fazer um apanhado de tudo o que fiz, mas por enquanto a sensação que tenho diariamente é a de que as coisas ainda estão começando e tenho tudo por fazer. Se no meio dessa caminhada toda alguém considerar minha música importante e relevante, acho que posso pensar que estou indo pro lugar certo. Eu me vejo, ainda hoje, subindo um degrauzinho a cada dia, conhecendo pessoas maravilhosas a cada dia, crescendo um pouco mais a cada erro e acerto e, principalmente, aprendendo a sobreviver entre os desafios que me são impostos por esse universo profissional da música. Mas é, de fato, muito bacana quando a gente pode trocar experiências com pessoas que admiramos e que são importantes pra nossa evolução.

Você tem uma raiz artística muito ligada ao samba. Trabalhou com o grupo Sereno da Madrugada e lançou um trabalho em parceria com o João Callado. Por que, no primeiro trabalho solo, você decidiu seguir outra trilha musical?

Essa é uma pergunta que tem sido feita com frequência e que, inclusive, deu a tônica para algumas críticas do disco. Senti algum grau de frustração em jornalistas que esperavam um disco de samba. Acho importante explicar:

Minha relação com o samba e com o universo do samba se estabeleceu inicialmente na Lapa, no comecinho dos anos 2000, quando entrei para a faculdade. Naquele momento, havia um clima muito forte de revalorização dos antigos compositores de samba e choro na mesma medida em que ocorria uma revitalização da Lapa enquanto espaço urbano, como se uma coisa alimentasse a outra. Novos espaços estavam surgindo, o circo voador estava sendo reconstruído, brotavam novas casas noturnas, a Lapa passou a ser um lugar minimamente seguro para ser frequentado à noite, os músicos estavam tendo novos espaços para trabalhar e muita gente nova (que era o meu caso) chegou junto para ver aquilo acontecer e fazer parte. Acho que havia um clima de novidade e uma sede de se conhecer os compositores antigos, os discos, as histórias, uma coisa da identidade carioca que sempre esteve no ar mas que naquele momento se cristalizou artisticamente. Nesse momento, nós que estávamos num nicho artístico mais tradicional – no caso a Lapa e a faculdade de Ciências Sociais – criamos o Sereno da Madrugada e começamos a tocar por ali, no centro da cidade, mas essa sede de música brasileira, de revalorização do baile, da gafieira, estava por todo lado, inclusive pela zona Sul, onde o pessoal da Orquestra Imperial, de um nicho artístico mais contemporâneo, também passou a fazer seus bailes de samba semanais. Eu estudava no centro, vivia tocando e vendo shows na Lapa, mas morava na Zona Sul, ia aos bailes da Orquestra Imperial, e acompanhava as carreiras do Kassin, do Domenico, do Rodrigo Amarante e cia. Ainda trabalhava na gravadora Biscoito Fino e convivi com Francis Hime, Áurea Martins, Herminio Bello de Carvalho (de quem me tornei parceiro), Luiz Melodia e uma turma da MPB. Então posso dizer que foram anos intensos de pesquisa musical, de ouvir, a cada semana, 2 ou 3 novos discos, estudar violão de 7 cordas, fazer shows com o Sereno e, em paralelo, ir aos shows do Los Hermanos, do Monarco, da Adriana Calcanhoto e do Élton Medeiros.

Então essa curiosidade pelo antigo (que não deixava de ser novidade para mim) convivia tranquilamente com o amor ao contemporâneo porque, de fato, essas coisas não competem, né? Eu compunha muito, mas poucas músicas eram sambas… e eu tentei bastante! A maioria das músicas tinha uma pegada mais pop, já naquela época. E segui assim, fazendo minhas parcerias com o pessoal da Lapa (Moyseis Marques, João Callado, Alfredo Del-Penho, Roberta Nistra, João Martins e etc…), fazendo os shows e gravando.

Agora, o disco que fiz com o Sereno se chamou “Modificado” e já apontava uma vontade importante de trazer ao samba da Lapa, sempre tão reverente, uma linguagem mais contemporânea… gravamos inclusive o ‘Samba a Dois’ do Camelo como uma forma de indicar isso. O samba título do disco, de autoria do Padeirinho da Mangueira, dizia “Vejo o samba tão modificado, que também fui obrigado a fazer modificação (…)” e isso era uma espécie de manifesto pra nós do Sereno. Acho que meu desejo de trabalhar com o novo está muito presente desde essa época e  posso afirmar que minha busca, com o Sereno, já era fazer mais ou menos o que fiz agora no disco solo… E, depois, com o fim do grupo, teve o disco com o João Callado que, embora seja um trabalho mais tradicional, com participação de muita gente bacana, não pode ser visto como um definidor de identidade, até porque as músicas são quase todas do João, e eu entrei mais como letrista para a estética daquele repertório bonito. Foram dois trabalhos compartilhados.

Quando resolvi fazer um meu, um disco solo que refletisse, portanto, quem eu sou musical e artisticamente, as músicas que estavam guardadas no baú eram essas que estão no disco, já estava tudo pronto, definido há muito tempo do ponto de vista da linguagem que eu utilizaria. Acho importante dissecar bastante os fatos nessa questão para que fique claro o quão natural foi fazer o “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”. Embora haja realmente uma diferença estética importante quando se comparam os trabalhos, não acredito em nenhum tipo de rupturas ou mudanças de trilha do ponto de vista pessoal e afetivo. A trilha desse disco é a trilha que já estava dentro de mim.

Além de trazer uma grande qualidade lírica e melódica, o disco “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” é um primor em produção. Quão grande foi a participação do time de produtores e colaboradores na sonoridade final do trabalho?

O Kassin e o Alberto Continentino foram importantíssimos nesse processo de construção da ‘cara’ do disco. Eu levei muitas idéias prontas, muitas coisas que eu queria que fossem feitas de uma forma específica, mas lá no estúdio nasceram tantas outras fundamentais sobre a forma, instrumentação, arranjo e etc. Acho que o diálogo com os produtores foi muito bacana, fluido, tranquilo, e o disco ficou da forma que eu gostaria que ficasse. E eu acredito muito nessa maneira de trabalhar, coletivamente, de ir criando enquanto se grava, sem muita responsabilidade ou necessidade de ter que estar com tudo pronto antes de chegar no estúdio. E tem a contribuição dos parceiros, do Domenico, que fez música e tocou no disco, do Mauro Aguiar, um verdadeiro gênio, um dos grandes letristas da música brasileira, do Verocai, que escreveu lindos arranjos de cordas… de um monte de gente.

Está satisfeito com a recepção do disco, tanto pela crítica quanto pelos ouvintes?

Olha, eu me sinto muito feliz. Embora eu saiba que a crítica é relativa e não define muita coisa, foi bacana a ter tido uma resposta tão positiva, em sites, revistas, blogs e etc. E o público surpreende sempre. A quantidade de pessoas que escrevem é muito grande. Hoje mesmo recebi um recado de um rapaz que queria a cifra de “O que é Bonito” para gravar um vídeo de aniversário pra noiva dele… é bacana quando as pessoas querem tocar as músicas. Eu sou muito crítico, comigo e com os outros… acho que mesmo com toda a satisfação, eu tendo a buscar outras coisas pro próximo disco. Mas tudo funcionou pra um primeiro projeto feito de maneira independente, temos quase 10 mil downloads de pessoas que foram ali, espontaneamente procurar meu som… a música tem circulado sem máquina nenhuma pra empurrar. A preocupação tem sido cada vez maior com um lado mais burocrático, esse lance de produção, e de profissionalizar a coisa toda, fazer grana pra bancar as próximas empreitadas.

No mês passado, você participou do ótimo “Cultura Livre”, da Roberta Martinelli. O ponto que talvez mais tenha surpreendido quem assistiu ao programa foi a sua indignação com a forma que a música independente vem sido tratada pelo pessoal do Rio de Janeiro. A gente percebe que a imprensa carioca está muito concentrada dentro de um único grupo de mídia, e esse grupo de mídia não parece muito interessado em abraçar o que está sendo feito atualmente dentro da MPB, exceto raríssimos casos. O apoio do poder público do Rio também é pequeno, infelizmente. O pior de tudo é que, acompanhando o cenário alternativo atual, se vê uma produção muito maior ligada a São Paulo, embora existam muitos artistas de qualidade no Rio de Janeiro – talvez até em igual proporção com a capital paulista. Como sobreviver a isso?

São vários problemas que todo artista independente precisa superar. Os governos do Rio de Janeiro, nas esferas municipal e estadual, até têm grana pra sustentar durante todo o ano, centenas de shows para artistas independentes, com remuneração digna e estrutura. Mas falta quem pense, quem elabore, quem conheça a cena e tenha tesão de fazer acontecer. A própria rede de SESC’s existe no Rio, mas não existe alguém lá dentro que consiga fazer um centésimo do que é feito em SP. Não sei se conseguiríamos fazer igual, porque a dimensão é menor, mas poderíamos fazer muito mais. Acho que o Rio sempre teve um protagonismo artístico e cultural no Brasil, por uma série de motivos, mas não basta ter uma cena brilhante, como temos hoje, se não há vontade dos jornalistas, por exemplo, de vestir a camisa. É preciso algum grau de bairrismo pra que as coisas aconteçam. Os poucos projetos que acontecem aqui na cidade, com estrutura e cachê, feitos por curadores cariocas, tem pouquíssimos artistas cariocas. Os espaços oferecidos, quando existem, são no esquema “dê o seu jeito”. Tudo contribui para que o artista desista de tocar e vá abrir uma cafeteria. Eu sempre disse que uma cena só se constrói com vontade política, porque isso é um ato politico de identidade local, e quando, ao lado dos músicos, existem jornalistas, empresários, produtores. Acho que em São Paulo houve mais vontade de fazer acontecer, além de todos os outros fatores que ajudam, como o tamanho da cidade, a quantidade de espaços e etc. Mas o último ano foi sensacional pro Rio. Espero que continue melhorando.

Creio que você seja um defensor do samba. Falando sobre o gênero, talvez no Brasil o mais culturalmente marcante de todos, ele anda mais sumido do que deveria, não é verdade? Embora ele se encontre muito fundido a outras vertentes, aquele samba mais clássico e puro parece engavetado nas estantes dos grandes compositores do passado. Por que, afinal, há essa impressão?

Acho que essa é uma questão de mídia e mercado. Existem diversos artistas talentosos que fazem samba tradicional e que, assim como a maioria dos compositores contemporâneos dessa “nova MPB”, não têm espaço pra mostrar o trabalho. Talvez a combalida Lapa seja o reduto único. Quando a gente fala de música no Brasil, acho que raramente padecemos de falta de qualidade. Se as pessoas não conseguem ouvir samba é porque as rádios não tocam, a tevê não toca e por aí vai. Existe um filtro de mercado muito perverso que privilegia, normalmente, o que é banal, popularesco, comercial. A Regina Casé está lá na tevê, todo fim de semana, com Péricles, Thiaguinho, Arlindo Cruz e Xande de Pilares. Esse é o único samba que as pessoas podem ouvir. Artistas como Marcos Sacramento e Moyseis Marques, dois dos maiores cantores de samba do Brasil, não estão no “Esquenta”. Não acho que o samba esteja sumido… quem procurar vai achar com facilidade no beco do rato, no semente, no samba do ouvidor, no renascença. O problema é que as pessoas procuram cada vez menos as coisas. E, como todo produto, é importante que as coisas cheguem até as pessoas. Só que não vai tocar no radio se não pagar jabá… na tevê idem. Dilemas que a internet não conseguirá dissolver em curto prazo, embora haja avanços.

Penso que, embora todo artista tenha aquela vontade de sair Brasil afora fazendo shows, não existam tantas oportunidades. Você planeja sair com a sua banda, levando sua música para os quatros cantos do país?

Com certeza o desejo é enorme. É muito frustrante não poder estar fisicamente em todos os espaços onde sei que a minha música é tocada. A internet é muito importante no sentido de fazer as pessoas conhecerem o som, mas elas querem mais, querem ver o show, o artista. Um exemplo: parte grande do meu público é de jovens do norte/nordeste que perguntam, dia sim dia não, quando estarei na Bahia, Recife, Manaus ou João Pessoa. Então é realmente muito frustrante saber que todo risco financeiro para levar a banda para fora do estado é meu. Por isso, repito, é fundamental que o artista consiga essa estrutura básica de produção para que possa circular. Mas nem sempre isso é possível. Os planos próximos, infelizmente, se restringem a Rio e São Paulo. E a esperança, tá viva, sempre.

Agradecemos imensamente a participação de Fernando Temporão. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”, o primeiro álbum solo do músico.

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Lista: Os 30 Melhores Álbuns Nacionais de 2013 [20-11]

Os 30 Melhores Álbuns Nacionais de 2013

[30-21] [20-11] [10-01]

De Dentro da Gaveta da Alma da Gente20. De Dentro da Gaveta da Alma da Gente – Fernando Temporão

Gênero: MPB

Fernando Temporão não é o único músico brasileiro que abre a gaveta de sua alma para arquitetar sua carreira, mas ao explorar um conjunto que se afasta das mesmices da música introspectiva, o artista carioca faz de seu primeiro disco um convite a uma dança alegre e suave, distante das agonias e do cenário negro que muitas vezes se instalam na música autoral. Tristezas sempre existem, é verdade, mas por que não explorar os aspectos da vida de uma maneira mais positiva? Com um delicioso jogo instrumental, que passeia por diferentes gêneros da música e mantém, ao mesmo tempo, a unidade do disco, Temporão nos convida com “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente” a folhar aquelas fotografias que retratam a beleza muitas vezes escondida do nosso dia-a-dia.

Com letras que se comportam como verdadeiros retratos, recortes do cotidiano do compositor, a base lírica é adornada em total comunhão com os rumos sonoros. Aproveitando a produção de Kassin, Temporão borda um minucioso conjunto de bases instrumentais sólidas, que vagam do moderno ao pueril em um sentido de total naturalidade… Em poucos segundos, há mudanças de gênero e direção, mas sempre mantendo um caminho a ser seguido. A música tropical, com o calor característico do Brasil, é aproveitada pelo compositor como a delineadora total de uma musicalidade rica, repleta de elementos. Do jazz ao brega, Temporão consegue fazer de seu primeiro álbum uma concisa viagem sonora.

Ao mesmo tempo (e talvez aí está a grande interferência de Kassin), o disco sabe soar pop. Seja com números serenos ou com acompanhamentos eletrônicos, Temporão, acompanhado de seu ótimo senso lírico e de seu vocal acolhedor, torna os objetos da gaveta de sua alma um bem comum, oferecido para as mãos dos ouvintes. Afinal, não é preciso falar difícil, com extremo simbolismo, para expor ao público os mais íntimos sentimentos.

Impossível Breve19. Impossível Breve – Jennifer Souza

Gênero: MPB/Folk

Como é bom acompanhar, agora com mais evidência, a bela voz de Jennifer Souza. Ainda que se destaque na banda Transmissor, elogiado grupo mineiro do qual ela faz parte, só um trabalho solo seria capaz de demonstrar, em totalidade, todo o talento detido pela jovem. Seja com suas letras inteligentes ou com seu vocal sensível, Jennifer encontra o complemento natural e necessário de sua carreira ao encarar “Impossível Breve”, seu primeiro disco totalmente seu. Refletindo seus próprios anseios e suas emoções mais íntimas, a musicista borda um disco inegavelmente bonito, que passeia livremente por um cenário agridoce em um exercício certeiro de encantamento.

A voz e as letras pertencem a Jennifer Souza, os temas líricos são intimistas, mas ela faz certo ao não negar os elementos que vêm construindo sua carreira junto ao Transmissor. Pequenos nós musicais provenientes da banda ajudam Jennifer a amarrar suas inspirações, tecendo uma teia dinâmica e envolvente. Adornando os vocais, que formam, no fim das contas, o elemento mais destacável de “Impossível Breve”, a base sonora caminha sem tropeções ou escorregadas por um musicalidade fina, pomposa, que às vezes é capaz até de nos fazer lembrar dos mais refinados ensaios da bossa-nova. Sobram toques de jazz, o indie rock do Transmissor serve como um ponto de partida, e o folk soturno mostra-se um chão… Mas e os clássicos da música mineira? Encontram-se representados, é claro, naquela velha e boa readaptação dos elementos plantados por Milton Nascimento e Lô Borges lá nos anos setenta.

A própria participação de seus companheiros de Transmissor auxilia Jennifer ao produzir a sucessão de acertos do seu primeiro disco. Sim, a voz dela é encantadora, mas o que seria dela sem o acompanhamento de belíssimos arranjos? Talvez acompanhando o processo construtivo do disco, as temáticas também parecem partir do pessoal rumo ao coletivo. Embora representem passagens íntimas da cantora, as bases líricas vão aos poucos tornando-se retratos familiares, para que, no fim, todo ouvinte possa ser atingido pelas nuances pregadas pela compositora.

Quebra Azul18. Quebra Azul – Baleia

Gênero: MPB/Post-Rock

Ao passear pelo oceano musical do primeiro disco da banda carioca Baleia, uma pergunta torna-se inevitável: como isso tudo é possível? Muito mais do que uma alegria, é uma bênção existir um novo grupo brasileiro disposto a encarar arranjos primorosos. Desde o cover refinado de “What Goes Around… Comes Around”, que apresentou o coletivo aos quatro cantos do Brasil, o que adorna a Baleia é a grande expectativa de haver, dentro daquele sexteto, um dos melhores projetos musicais desta década.

O processo lento que envolveu a produção de “Quebra Azul” pode até ter decepcionado alguns, ainda mais nesses tempos em que a regra parece ser “consumir com rapidez”. Mas os mais pacientes foram recompensados. A lentidão, aliás, se tornou uma grande aliada do conjunto, que pôde conhecer melhor a si mesmo à medida em que os dias passavam. Em dois anos, eles foram se distanciando dos toques jazzísticos para experimentar um conjunto bem mais amplo de referências, em um sentido mais do que correto de expansão. Com tanta sensibilidade em mãos, os músicos souberam como se apresentar a novos cenários, possibilitando novas possibilidades e uma riqueza cada vez maior de detalhes à sua base musical.

Ouvir “Quebra Azul” é ser, enfim, envolvido pelos detalhes. Em meio a uma fluidez tão dinâmica, que cria paredões de sons instáveis, que se transformam em poucos segundos, fica até difícil saborear tudo em apenas uma oportunidade. A cada nova audição, um novo conjunto de detalhes se revela, tornando o disco cada vez melhor. De fato, a salada musical de “Quebra Azul”, com suas variações entre o simples e o complexo, passeando por diversas vertentes, cria uma atmosfera sedutora de infinitas nuances. Impossível não se sentir provocado por tudo que o álbum proporciona.

Beija Flors Velho e Sujo17. Beija Flors Velho e Sujo – São Paulo Underground

Gênero: Avant-Garde Jazz

Como é difícil explicar o som do São Paulo Underground, deixemos que o próprio Rob Mazurek cumpra este papel: segundo ele, “o som precisa ser dividido, quebrado, batido, acariciado, beijado, afundado, enterrado e catapultado para novas dimensões de modo que inicie um diálogo entre universos”. Eita… Como diziam naquele antigo programa, senta que lá vem história!

Para início de conversa, é preciso que se deixe bem claro o conceito de “Beija Flors Velho e Sujo”: em contraponto ao passado do projeto, o novo disco é bordado para ser “acessível”. Para se ter uma ideia, existe até uma clara homenagem a Ivete Sangalo na quinta faixa do álbum, “Evetch”. Mas como pode um registro de jazz experimental soar de fácil acesso ao público em geral? Aí mora o “diálogo entre universos” citado por Mazurek. Todo o disco é formado por um conjunto fantástico de arranjos que amarram, a todo instante, o Brasil de Maurício Takara e Guilherme Granado com os Estados Unidos de Rob Mazurek. Pois é pegando carona nos elementos do tropicalismo, brincando com os ritmos quentes e as cores vivas do nosso país, e até flertando com melodias carnavalescas, que o São Paulo Underground faz com que os mundos do pop e do experimental, tão distantes, possam conversar entre si.

De resto, os mesmos êxitos instrumentais que já haviam sido apresentados em outras oportunidades se fazem presentes, não abandonando, porém, o teor de inovação que sempre caracterizou o projeto. A corneta de Mazurek voa pelo disco, costurando coloridas vestimentas sonoras do início ao fim do registro, enquanto Takara e Granado trabalham como operários, pedreiros, assentando os tijolos sobre os quais seu companheiro norte-americano se aventurará. Das programações eletrônicas brilhantemente construídas, das percussões que dão ao disco a cara da música brasileira, provém toda a base capaz de fazer o São Paulo Underground encarar, mais uma vez, a louvação. Seja aqui no Brasil ou nas terras do Tio Sam, o que não falta é gente elogiando toda a invenção proposta pelo trio.

Vamos pro Quarto16. Vamos pro Quarto – Cérebro Eletrônico

Gênero: Rock Psicodélico

A banda paulistana Cérebro Eletrônico nunca foi de esconder o jogo, e em “Vamos pro Quarto”, seu quarto álbum, o conceito fica claramente exposto logo na capa. Representando a pintura “O Jardim das Delícias Terrenas”, fabricada em 1504 pelo artista holandês Hieronymus Bosch, a imagem representa um erotismo místico que chocou o público da época. Para a Cérebro Eletrônico, em 2013 a orgia pode ser representada em forma de música, e “Vamos pro Quarto” parece se comportar como um verdadeiro tratado dos prazeres mundanos. Segundo os paulistanos, a ida ao céu ou ao inferno é apenas um detalhe irrelevante, e os aspectos nada inocentes da vida devem ser aproveitados ao máximo.

Concordando ou não com os caras, é inevitável sentir-se atraído pelas bases que compõem o presente registro. Ao propor uma viagem lisérgica pelos cenários mais errôneos da cidade de São Paulo, a banda cheira os perfumes das prostitutas da Rua Augusta e compartilha garrafas de pinga com mendigos debaixo de um viaduto… Nojento, não? Que nada! Como se, de uma hora para a outra, todo o aspecto cinzento da metrópole se transformasse em um bonito conjunto de cores, a Cérebro Eletrônico consegue levar beleza aos cenários mais inimagináveis.

Um disco improvável, instigante e deliciosamente inventivo, “Vamos pro Quarto” aproveita do leque infinito de possibilidades do rock psicodélico para brincar com o desconhecido. Porém, já experiente, a banda sabe como mesclar essa base totalmente lisérgica com a música pop para torná-la de percepção próxima dos ouvintes. Verso após verso, faixa após faixa, tudo no disco parece ser minuciosamente pensado não apenas para agradar, mas para surpreender quem topa o ousado passeio proposto pela Cérebro Eletrônico.

Dorgas15. Dorgas – Dorgas

Gênero: Chillwave

Renovação é a palavra-chave do primeiro registro de longa duração do Dorgas. Ainda que as bases dos EP’s anteriores se façam presentes, “Dorgas”, o álbum, é levado em consideração pelo quarteto como uma grande experiência de descoberta. Cada vez mais distantes do jazz chapado das primeiras músicas, ou até mesmo do rock, Cassius Augusto, Eduardo Verdeja, Gabriel Guerra e Lucas Freire abraçam os rumos atuais da música eletrônica estrangeira para construir uma obra feita para dançar. Recheado por vertentes como chillwave, dream pop, madchester, Miami bass e new wave, o disco pode até soar como um registro feito por hipsters para hipsters, mas mesmo assim se caracteriza como um dos registros mais inventivos dos últimos tempos da música brasileira.

Como se aproveitasse o cenário Lo-Fi popularizado por Silva no disco “Claridão”, o Dorgas não deixa de apresentar elementos novos à música tupiniquim. As bases chapadas do Primal Scream no clássico “Screamadelica” parecem ganhar contornos verde-amarelos, dando um significado tropical aos sintetizadores do hemisfério norte. No fim das contas, o álbum de estreia do Dorgas é uma trilha sonora perfeita para as festas mais intensas do litoral brasileiro nos dias quentes de verão… Um disco regado a muita energia, diversão, descontração e, é claro, drogas sintéticas… Ou você achava que o grupo tinha esse nome devido à numerologia?

Pois saiba que do título à capa, todo o conceito do disco é perfeitamente representado. Com sua sonoridade quente e envolvente, o quarteto carioca vai construindo um trabalho digno de entorpecer qualquer ouvido. Melodias hipnóticas, efeitos psicodélicos e vocais distantes – que funcionam como mais um elemento em meio à salada instrumental – fazem com que a ingestão de alucinógenos nem seja necessária para a perfeita contemplação do registro. Sim, o Dorgas quer te entorpecer, e se eu fosse você, deixaria ser levado por essa agradável experiência.

Vazio Tropical14. Vazio Tropical – Wado

Gênero: MPB

Uma figura ímpar da nossa música, o catarinense-alagoano Wado nunca se contentou em permanecer no mesmo lugar (e olha que tal afirmação nem leva em consideração aspectos geográficos, visto que ele é um sulista radicado no nordeste). As mais importantes mudanças de direção estão, definitivamente, nos rumos de sua carreira; afinal, o artista sempre tentou fazer de seus registros trabalhos únicos, diferentes um dos outros tanto em estilo quanto em conceito. Desde sua parceria com a banda O Realismo Fantástico até os toques sintéticos que permearam o aclamado álbum “Samba 808″, a carreira de Wado se comporta como uma das mais inventivas e produtivas da cena alternativa nacional.

“Vazio Tropical”, o sétimo disco de sua carreira, pode até ser considerado como o menos surpreendente exemplar de sua discografia, mas apresenta mais um ponto de desgarramento. Novamente, Wado convida o ouvinte para um exercício quase hipnótico de esquecimento do passado, deixando de lado os conceitos que haviam construído seus álbuns anteriores: nada do suingue de “Terceiro Mundo Festivo”, tampouco a herança africana de “Atlântico Negro” e muito menos o rumo eletrônico de “Samba 808″. Pra variar, Wado faz de seu novo álbum um conjunto de novas abordagens, ao costurá-lo com texturas muito mais calmas e intimistas.

Ao investir em uma sonoridade basicamente acústica, Wado renuncia a utilização da base dançante que havia construído grande parte de sua carreira até agora. Afinal, “Vazio Tropical” é uma obra serena, tocada pela sutileza, buscando na MPB da década de setenta muitos dos conceitos que a constroem. Mas estaria o músico, ao investir em antigas ideias, abandonando a veia experimental que tanto tem caracterizado sua carreira? Talvez a grande surpresa de “Vazio Tropical” esteja justamente no fato de sua sonoridade não surpreender: enquanto todos esperavam mais uma obra inventiva, Wado utiliza-se do encontro da atual com a velha MPB para construir mais um cenário de evolução da sua carreira. (Leia a resenha completa do disco)

Bixiga 7013. Bixiga 70 – Bixiga 70

Gênero: Jazz/Afrobeat

O segundo álbum do Bixiga 70 é colossal. Procurando representar em estúdio as apresentações incendiárias do conjunto, o registro passeia por uma infinidade de referência do jazz e do afrobeat em um sentido de completa expansão. Ainda que mais ameno que o álbum anterior, o presente registro propõe uma viagem pelo Brasil, pela África e pelo hemisfério norte a fim de encontrar o crescimento definitivo do conjunto.

Naturalmente tropical, o álbum encontra em uma musicalidade quente, que não decai em nenhum momento, um ponto de rápida afirmação. Envolventes, as canções nos prendem de forma com que nos sintamos parte integrante do projeto, espectadores de uma apresentação ao-vivo. Acertando em cheio no conceito e alcançando sem nenhuma dificuldade o resultado desejado, o segundo disco do Bixiga 70 se comporta como um dos grandes clássicos jazz nacional, implementando uma sonoridade extremamente pulsante em nossos ouvidos.

Indo de Miles Davis ao carimbó, dos cenários arenosos da África à paisagem cinza da capital paulista, o Bixiga 70 parece não querer se prender a rótulos. Percorrendo várias vertentes da música experimental e avançando a largos passos além das fronteiras de São Paulo, a big band cumpre com louvor o papel de construir uma obra universal, pra lá das noites do Baile do Bixiga.

Pearl12. Pearl – Rubel

Gênero: MPB/Folk

Desgarrar-se das raízes é sempre uma boa oportunidade para encontrar melhor o que há no interior. O carioca Rubel, enquanto estudava cinema na cidade de Austin, no Texas, viu seu íntimo se aflorar na composição de “Pearl”, seu primeiro disco. Uma união da MPB carioca com o folk texano, o álbum se comporta não apenas como um toque de novidade na tradicional música tupiniquim, mas, principalmente, como uma genuína explosão sentimental.

Provavelmente o músico mais brasileiro mais próximo da musicalidade confessional de Nick Drake, Rubel aborda, com um formidável conjunto de acordes, a sua genuína base sentimental. Tratando da profundidade de seus sentimentos, mas conseguindo tocar a alma dos ouvintes, o jovem arquiteta uma imensidão sonora capaz de ser apresentada em apenas sete faixas, em pouco mais de trinta minutos.

“Pearl” não é um álbum inovador. Tem como base apenas a voz e violão de Rubel, e reflete, basicamente, a união das tradições brasileiras e norte-americanas… Mas mesmo assim está entre os trabalhos mais assertivos dos últimos anos da MPB. Por quê? Convenhamos que, para a nossa música, um pouco de sensibilidade é sempre bem-vinda. Por mais que se busque o inédito, a evolução, é sempre o coração que dá as ordens. E em seu disco, o jovem Rubel parece tratar, com muita experiência, o rumos dos sentimentos. Cada acorde é um alento, cada verso é um tratado. Não pouca, mas muita sensibilidade.

Cadafalso11. Cadafalso – Momo

Gênero: MPB

Segundo palavras de Wado, presentes no release de “Cadafalso”, o novo capítulo da carreira de Momo, o disco mostra a “coragem para mirar o abismo”. Sem grande técnica de gravação, sem encarar os modernos efeitos sonoros possibilitados pelos estúdios, o músico carioca apresenta e refina o conceito de voz e violão.

Ainda utilizando as palavras de Wado, “o disco é vivo e orgânico, resultado de uma produção que optou por usar o mínimo de ferramentas e recursos de estúdio para deixar voz e violão atuando como protagonistas. O que se ouve é uma sonoridade crua. Voz e violão sem overdubs. Funciona bonito. É quase uma massa de modelar no sentido de ser uma coisa só: o canto juntinho do violão”.

“Momo encontrou uma forma de execução rara”, continua Wado, “de se encontrar na cena atual e sua poesia – e nisso estou envolvido – encontra caminhos novos e inusitados, vezes evitando rimas e noutras nos jogando imagens bonitas, porém desconcertantes”. Se Wado sabe tudo de música brasileira, e se Momo é um dos mais respeitados artistas da safra atual, nada mais justo do que avaliar estas bonitas palavras dando uma oportunidade ao quarto álbum do carioca: sem dúvidas, é um disco que vai te encantar.