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Lista: As 50 Melhores Músicas de 2014 [50-41]

50. Nessas Horas – Transmissor

A visível evolução da banda mineira Transmissor ficou evidente em “De Lá Não Ando Só”, o grande lançamento do pop-rock nacional em 2014. E a sexta faixa do disco, “Nessas Horas”, certamente é a canção que melhor agrega as novas possibilidades sonoras do grupo: mergulhada em uma melodia insuperável, a música se insere de corpo e alma em um terreno melancólico (e extremamente belo), em que a alta qualidade dos versos acaba esbarrando em harmonia com impecáveis arranjos… Lenta, “Nessas Horas” é obscura, lamentosa, além de especialmente combativa, inserindo ruídos de guitarra em uma estrutura confortável.

49. Fruta Elétrica – Carne Doce

Impossível passar imune pelo arrebatador “rock com pequi” do grupo goiano Carne Doce, uma das grandes revelações desse ano. Dentro de psicodélico e extremamente brasileiro debut da banda, “Fruta Elétrica” é aquela explosão de ritmo, uma verdadeira ode à face alegre e dançante da música tupiniquim. Tanto as linhas de baixo e bateria quanto os riffs de guitarra escancaram o lado mais “manguebeat” da banda, com a vocalista Salma Jô cantando sobre uma fruta deliciosa e perigosa, mas que todos acabam ficando com desejo de provar.

48. Tinashe feat. Devonté Hynes – Bet

Se não bastasse FKA Twigs para provar que o R&B está vivendo uma de suas maiores (e melhores) transformações em sua história, Tinashe surge para esquentar ainda mais o clima de “renovação”. Camadas sobre inúmeras camadas, climatizações explodindo em nossos ouvidos e moderníssimos efeitos eletrônicos formam a base de “Bet”, que ainda apresenta formidável melodia, uma performance vocal respeitável e um ótimo solo de guitarra criado por Dev Hynes, músico responsável pelo projeto Blood Orange. Não é à toa que a canção, faixa do disco “Aquarius”, dá as caras nessa lista.

47. David Bowie – ‘Tis a Pity She Was a Whore

“‘Tis a Pity She Was a Whore” é simplesmente a melhor música do Camaleão nos últimos anos. Sim, senhores: por melhor que tenha sido “The Next Day”, nenhuma faixa do aclamado disco chega aos pés desta que é apresentada no player abaixo. Nela, o veterano canta versos tristes no fundo de um sampler caseiro e futurístico, amplificando sua faceta mais experimental. Incrível como Bowie consegue expandir cada vez mais suas possibilidades.

46. White Lung – Drown With the Monster

Intensidade. Essa é a palavra-chave de “Drown With the Monster”. Nessa canção, a banda canadense faz das suas, aumentando tanto volume quanto velocidade ao máximo para plantar um número que, além de instrumentalmente picante, é liricamente crítico. E tudo isso, no fim das contas, sem que saibamos se o que toca é punk, metal ou indie. Na verdade, o chute mais próximo é de que se trata de uma grande mistura desses três rótulos. Um número diferente e impecável, que se reproduz em outras canções no ótimo disco “Deep Fantasy”.

45. Parquet Courts – Sunbathing Animal

“Sunbathing Animal” é nada mais do que uma grande explosão de energia de uma das mais insanas bandas da atualidade. Uma canção de absurda velocidade, em que instrumentos e vocal trabalham para um único fim: a criação de um número curto e grosso, que em seus primeiros segundos já é capaz de passar o recado ao ouvinte: não são necessários muitos acordes para se construir uma verdadeira muralha sonora.

44. Taylor Swift – Out of the Woods

Quando saiu a notícia de que Taylor Swift abraçaria de uma vez por todas a música pop, dando adeus àquela tímida garotinha country, certamente muitos torceram o nariz. Por mais que esse processo tenha se iniciado em 2012, com o lançamento do disco “Red”, foi nesse ano que Swift se tornou, finalmente, a musa pop que vinha ensaiando ser. Pois o resultado surpreendeu: não tanto pelas vendas, pois ninguém esperava que “1989” patinaria nas prateleiras. O que realmente surpreendeu foi a qualidade sonora, claramente acima da média para o pop atual.  E isso “Out of the Woods” mostra muito bem: moderna, incrivelmente bem produzida, a canção traz em uma estonteante linha de bateria a base necessária para Swift mostrar que aquela menininha de outrora hoje é uma artista completa.

43. Sun Kil Moon – Carissa

“Carissa” é a primeira faixa do “disco-livro-filme” chamado “Benji”, a maior obra até hoje de Mark Kozelek como contador de histórias. Mais do que um simples conjunto de faixas, “Benji” faz com que o ouvinte se descole daquela ideia inicial de “ouvir música” para se impregnar nos interessantes, tristes e sensíveis causos do músico. Em “Carissa”, o compositor nos conta sobre uma tragédia que ocorrera na família, trilhando um número incrivelmente humano e sincero sobre chegadas e partidas.

42. St. Vincent – Prince Johnny

Embora Annie Clark seja conhecida pela forma única com que faz sua guitarra produzir sons inimagináveis, em “Prince Johnny”, uma das melhores músicas de sua carreira, o cenário é basicamente atmosférico, sem aquelas tradicionais mudanças bruscas. A base da canção é dura como rocha, mas nada impede que, nela, St. Vincent demonstre toda sua fraqueza como personagem em um grande conflito de sentimentos… Um número direto, sem excentricidades, que acaba escancarando o lado mais humano da musicista.

41. Swans – Oxygen

Arrastada, tortuosa, intrigante, “Oxygen” é o ápice energético de “To Be Kind”, o fantástico disco que o Swans lançou em 2014. Composta por Michael Gira logo após uma grave crise de asma, essa incrível canção “revela” a importância de estar respirando, de poder sentir seu coração batendo… É raro pararmos para pensar na importância disso, mas os gritos do vocalista a clamar por oxigênio fazem com que a gente imagine a angústia de uma pessoa que está com dificuldades de respirar. Mas, no fim, o que acaba marcando não é o conceito angustiante da faixa, mas sim a louca viagem sonora que ela nos oferece.

Clipes & Singles: Semana 46/2014

Clipes & Singles

Mark Ronson – Uptown Funk

Mark Ronson, um dos produtores mais renomados da atualidade, está prestes a lançar seu quarto disco, intitulado “Uptown Special”. Na primeira faixa revelada do registro, o músico recebe o também renomado Bruno Mars para uma divertida viagem ao som do ritmo quente do funk norte-americano, um dos terrenos preferidos do cantor havaiano.

Stromae – Meltdown

Outro produtor “da moda”, Stromae, lançou uma nova canção de sua autoria… E para uma trilha-sonora “da moda”, no caso, referente ao novo filme da franquia “Jogos Vorazes”, que levará às telas a primeira parte do livro “A Esperança”. Na faixa, há ainda a participação de outros nomes de peso, como Haim, Pusha T, Q-Tip e a própria curadora da trilha-sonora, Lorde.

Charli XCX – Kingdom

Outra faixa de “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte I” é “Kingdom”, de Charli XCX. Sem sair do clima acinzentado proposto pela película – a mais melancólica da franquia até agora – a jovem cantora solta a voz em uma faixa em que ainda aparecem Simon Le Bon (Duran Duran) e Rostam Batmanglij (Vampire Weekend).

Tereza – Calçada da Batalha

A banda Tereza lançou seu último disco em 2012, mas se o verão está chegando, é hora de voltar com um novo clipe. Afinal, a música da banda é feita para as férias no litoral brasileiro. No vídeo para “Calçada da Batalha”, os membros da banda, no futuro, vão em busca de garotas usando um artifício chamado de “galada glass”. Bizarro? Sem dúvida. Assim é a banda Tereza, afinal: garantia de diversão.

Kindness – Who Do You Love

O produtor Kindness, que está com um novo álbum, intitulado “Otherness”, convidou a sueca Robyn para soltar a voz em uma de suas novas canções. No vídeo de “Who Do You Love”, construído a partir de fotografias em preto-e-branco de familiares e amigos do músico, o conceito da faixa, segundo o próprio Adam Bainbridge, é seguido a risca: uma reflexão sobre como você se identifica através daqueles que você ama.

David Bowie – ‘Tis a Pity She Was a Whore

“‘Tis a Pity She Was a Whore” é simplesmente a melhor música do Camaleão nos últimos anos. Sim, senhores: por melhor que tenha sido “The Next Day”, nenhuma faixa do aclamado disco chega aos pés desta que é apresentada no player abaixo. Nela, o veterano canta versos tristes no fundo de um sampler caseiro e futurístico, amplificando sua faceta mais experimental.

Deerhoof – Exit Only

O autor Michael Shannon duplicado, e reagindo, cada um de maneira diferente, à canção que toca? Foi essa a ideia maluca da banda Deerhoof para seu novo clipe, relativo à canção “Exit Only”. O resultado você vê no vídeo abaixo, ao som da explosão punk característica da banda.

Noel Gallagher’s High Flying Birds – Do the Damage

“Do the Damage” não estará no disco “Chasing Yesterday”, sendo apenas o lado B do single “In the Heart of the Moment”. Mas não é que o lado B é melhor que o lado A? Bem, agora é esperar o que vem por aí no novo álbum do segundo irmão preferido de Liam Gallagher, a ser lançado no segundo de dia do próximo mês de março.

Big Noble – Peg

Daniel Kessler, guitarrista da banda Interpol, decidiu se impregnar em um projeto paralelo, ao lado do produtor Joseph Fraioli, intitulado Big Noble. A ser lançado em 3 de fevereiro, o álbum “First Light” tende a apresentar uma nova faceta do músico, visto o conceito contemplativo da faixa “Peg”, a primeira do disco a ser revelada.

Azealia Banks – Chasing Time

Demorou, mas “Broke with Expensive Taste”, o primeiro álbum “de verdade” de Azealia Banks, finalmente foi lançado. Para comemorar o feito, a musicista lançou o clipe de “Chasing Time”, uma das faixas do disco, em que podemos conferir apenas um dos conceitos sonoros propagados pela habilidosa artista.

 

Lista: Os 30 Melhores Álbuns Internacionais de 2013 [10-01]

Os 30 Melhores Álbuns Internacionais de 2013

[30-21] [20-11] [10-01]


Old10. Old – Danny Brown

Gênero: Hip Hop

Louco ou genial? Com “Old”, as perguntas que cercaram Danny Brown em 2011, por conta do sucesso do álbum “XXX”, voltaram a todo vapor. É realmente difícil entender o que se passa pela cabeça do rapper, assim como se torna impossível não se sentir atraído pela insanidade que está relacionada a sua obra. Naturalmente lisérgicas, as composições de Brown são dominadas pela esquizofrenia que engloba a figura do polêmico músico, que sempre procura aparentar despreocupação, e até certo ponto, um pouco de relaxamento… Mas não se deixe enganar pelas aparências: em seu trabalho, Danny Brown não deixa de caprichar.

É impressionante como o aspecto tortuoso pela qual a carreira de Brown é guiada acaba transformando suas obras em registros fundamentais. Mais um capítulo de uma consistente discografia, ou até mesmo o melhor até aqui, “Old” traz a imagem do rapper como uma figura velha, experiente… Uma representação que acaba, no fim, caracterizando o andamento do disco. Mesmo aprofundando-se nos mesmos temas e nas mesmas estruturas chapadas que construíram sua carreira até aqui, Brown fundamenta “Old” em um conjunto altamente consistente de rimas, construídas com cuidado apesar da atmosfera maluca e aparentemente despreocupada do registro.

Batidas velozes, versos “cuspidos”, uma ambientação obscura e a tradicional linguagem crua de Brown vão jorrando pela totalidade do álbum, construindo um resultado que, com a mais preconceituosa das visões, poderia representar um total desastre, mas que, nas mãos do talentoso Danny Brown, torna-se apenas sinônimo de criatividade.

MCII09. MCII – Mikal Cronin

Gênero: Garage Rock

“MCII”, o segundo álbum em carreira solo de Mikal Cronin, é praticamente um tratado de melodias. Construído a partir de uma nova abordagem, que se afasta do conceito que Cronin explorara em seu primeiro disco, o presente registro não é apenas um trabalho capaz de destacar o músico na cena estadunidense, mas representa com louvor as novas possibilidades do garage rock. São as mesmas guitarras, as mesmas entonações e as mesmas temáticas líricas de outrora, só que agora abraçando conjuntos colossais de melodias quentes. Se antes Cronin pautava seu trabalho na exploração de riffs ruidosos, hoje são os rumos melódicos que marcam o tom.

Apoiado em instrumentações elegantes, que esbarram nas festividades do power pop e encontram na música alternativa da primeira metade dos anos noventa uma grande inspiração, “MCII” trabalha, música após música, para prender o ouvinte de forma natural. A acessibilidade é fácil, é verdade, mas Cronin consegue atingir uma sonoridade capaz de agradar o público de massa sem rumar o disco sob esta ótica. Tudo em “MCII” parece ser um preenchimento natural de todos os elementos que envolvem o artista e sua música.

Isso porque, no fim das contas, o intenso (e assertivo) trabalho de melodias oferece a nossos ouvidos uma audição inegavelmente agradável. Os ruídos são medidos, são tratados com cautela; os tradicionais elementos do garage rock são polidos para alcançar uma dimensão cativante, tão sensível quanto o rock colorido da década de sessenta. De fato, nomes como The Beach Boys, The Zombies e The Beatles parecem aparecer em pequenos detalhes do disco, amparando as inspirações naturais em nomes com Ty Segall, Dinosaur Jr. e Teenage Funclub.

The Next Day08. The Next Day – David Bowie

Gênero: Art Rock

Embora não precise provar mais nada pra ninguém desde os anos setenta, quando construiu alguns dos melhores trabalhos da história do rock, David Bowie necessitava voltar a ativa – afinal, o mundo ainda precisa do Camaleão. Além disso, é muito estranho ver um dos nomes mais irrequietos da música mundial entocado durante tanto tempo, como se fosse um urso em pleno inverno: desde 2003 Bowie não nos presenteava com um novo exemplar de estúdio.

Mas o fato é que a hora chegou, e enfim podemos nos deliciar com um novo álbum de Bowie, independente de quanto tempo ele tenha demorado. “The Next Day” é um ótimo trabalho de retorno, conciso e consistente, que mostra que o veterano músico inglês ainda tem muita lenha para queimar.

Aliás, do nosso ilustre time de veteranos não temos nada do que reclamar. Nos últimos tempos, os velhos nomes da música parecem ter recuperado a ânsia em construir grandes trabalhos, deixando claro o que é de conhecimento geral, mas muito jovens insistem em ignorar: na música, como em diversas outras áreas, idade não é documento. E é muito bom ver o grande Bowie acompanhando essa maré, criando um grande álbum e seguindo, quanto à qualidade, outros velhos nomes que têm voltado a se destacar nos últimos anos, como Paul Simon, Leonard Cohen, Bruce Springsteen e Bob Dylan.

Até porque, em “The Next Day”, Bowie recupera muitas das características fundamentais de sua música, fazendo-a soar dinâmica e camaleônica como no ápice de sua carreira. Não, “The Next Day” não está no mesmo patamar dos históricos registros de Bowie lançados lá na década de setenta, mas volta a apresentar suas diferentes facetas com uma consistência não observada nos últimos discos do músico. (Leia a resenha completa do disco)

The Electric Lady07. The Electric Lady – Janelle Monéa

Gênero: Pop/R&B

Embora artistas como Beyoncé, Justin Timberlake, Frank Ocean e The Weeknd tenham trabalhado para resgatar o velho R&B e transformá-lo em novidade, ninguém no cenário atual parece se agarrar tão bem às velharias da música negra norte-americana quanto Janelle Monéa. Indo dos clássicos da Motown às cores do OutKast, passando por nomes como Stevie Wonder, Michael Jackson e Prince, a cantora vem construindo uma carreira brilhante, que alcançou o ápice no clássico “The ArchAndroid”, de 2010, e agora vê em “The Electric Lady” uma sequência mais do que assertiva. Novamente inserida no cenário do filme “Metropolis”, de 1927, Monéa revitaliza a música do passado interpretando a androide Cindi Mayweather, em uma constante batalha entre o velho e o novo, a máquina e o humano.

Mesmo em um ambiente futurístico dominado por robôs, a artista consegue discutir temas extremamente humanos, fazendo com que Cindi Mayweather seja inclusive atingida pelo amor. Com lirismos impecáveis, que transitam entre temas tradicionais da música pop, mas que encontram uma novidade constante com sua ambientação em um cenário de ficção científica, o álbum transita entre o melhor do pop atual e a soul music de décadas atrás com invejável fluência. Monéa, indubitavelmente, sabe utilizar das melhores influências e ao mesmo tempo imprimir sua personalidade, com um andamento sonoro em que tudo soa certeiro e natural. Em poucos segundos, ela vai dos anos sessenta até o futuro sem que sequer percebamos tal amplitude.

É entre canções certeiras e participações mais do que pontuais que “The Electric Lady” vai se desenvolvendo. Nomes como Prince, Erykah Badu, Solange, Miguel e Esperanza Spalding ajudam a tornar o disco um verdadeiro quebra-cabeça de estilos, épocas e vertentes, vagando em proporções épicas por gêneros como hip hop, soul, rock, gospel, jazz e funk.

M B V06. M B V – My Bloody Valentine

Gênero: Shoegaze

É até surpreendente, de alguma forma, falar sobre o álbum em questão. Afinal, ao longo de duas décadas, o terceiro álbum do My Bloody Valentine passou de uma quase certeza a uma das maiores lendas da música contemporânea. Pode parecer incrível, uma ficção pós-apocalíptica, mas aqui finalmente ele está, mais de vinte anos após o lançamento do memorável “Loveless”. Eis aqui, enfim, o terceiro e tão aguardado álbum do quarteto liderado por Kevin Shields.

Mais do que as distorções sonoras que formam a identidade musical do grupo, a carreira do My Bloody Valentine parece ser, constantemente, atingida por distorções temporais. Tanto que nem “Loveless”, ápice artístico do grupo, deixou de ser relativamente atrasado: o registro precisou de mais de três anos de produção para ser finalizado, além de ter exigido um investimento tão alto que quase levou a Creation Records a falência. Agora (ou melhor, durante os últimos vinte anos), desgarrados de qualquer gravadora, Kevin Shields e seus pupilos entregam ao ouvinte um trabalho independente, lançado via web, mostrando tudo o que o grupo pensara, prepara e gravara durante todos esses anos que passaram.

Embora muita coisa tenha mudado do lançamento de “Loveless” para cá, é indiscutível que a força do My Bloody Valentine continua inalterada. Mesmo sem abandonar a sonoridade tradicional da banda, arquitetada em seus dois primeiros álbuns, o grupo irlandês, ciente da grande passagem de tempo, faz de “M B V” um registro que vai além de uma simples continuação de “Isn’t Anything” e “Loveless”. Kevin Shields, felizmente, não deixou de experimentar, de voltar o seu olhar para o futuro, enquanto tenta construir, com sua guitarra atmosférica, a perfeição dentro do shoegaze; por mais que diversas bandas novas, influenciadas pelo que o My Bloody Valentine fizera antigamente, tenham atingido um ineditismo maior dentro do gênero, não há como negar a grande novidade incluída dentro de “M B V”. Além de um conciso conjunto de nove canções, o novo álbum insiste em querer acrescentar, a cada instante de sua duração, algo a mais para a já consagrada sonoridade da banda, seja com novos experimentos ou com uma fantástica intensidade sentimental. (Leia a resenha completa do disco)

Shaking the Habitual05. Shaking the Habitual – The Knife

Gênero: Synthpop

Álbuns de música, quando bem intitulados, conseguem passar através de seu nome muito de seu conceito. O que dizer, portanto, de um álbum intitulado “Shaking the Habitual”? De fato, o que os irmãos Karin e Olof Dreijer desejam com o novo do álbum do The Knife é mexer com o que é considerado habitual. Fugindo de todas as obviedades possíveis, os suecos entregam a seus ouvintes não apenas um resultado positivo para toda a expectativa instalada em torno do lançamento, mas mais um clássico da música eletrônica. Conseguindo alcançar até mesmo o nível épico de “Silent Shout”, o duo surpreende o público mais uma vez.

Tematicamente mais coletivo que os demais álbuns do The Knife, “Shaking the Habitual” abandona o íntimo de seus criadores para ser construído acima da proposta que aborda “o fim da riqueza extrema”. Discutindo os rumos econômicos do mundo, bem como as crises que assolam vários países pelo globo, Karin e Olof Dreijer discutem a desigualdade tão bem quanto qualquer artista da música folk ou do hip hop. O disco realmente implementa novas possibilidades às gastas bases do synthpop, manuseando a música eletrônica de uma forma completamente inventiva, procurando fabricar, acima de tudo, uma musicalidade regada à novidade.

Desconstruindo sons, capturando vozes obscuras e passeando por inúmeras vertentes da música mundial, seja eletrônica ou não, o que o The Knife acaba alcançando, em “Shaking the Habitual”, uma atmosfera densa, complexa e deliciosamente ineditista. Nada soa repetitivo, programado, e até as inspirações são difíceis de ser captadas. É como se os suecos almejassem um espaço próprio dentro da música mundial, trabalhassem duro para se tornar intocáveis e conseguissem o resultado esperado sem nenhuma dificuldade. Mais do que buscando a evolução de seu som, o duo procura a louvação do público… E trabalhando de forma magistral, como seria possível não encontrá-la? Se você já era fã do The Knife, sinta-se homenageado pelo duo; se você ainda não é, então não perca tempo e aprenda logo a ser.

Loud City Song04. Loud City Song – Julia Holter

Gênero: Art Pop

Até as mais agitadas cidades encontram na madrugada um cenário silencioso de recolhimento. A intensidade do dia, com seus sons permeados pelos raios do sol, dá lugar à madrugada e sua total escuridão. Pessoas apressadas e automóveis em um vai-e-vem constante acabam se recolhendo em seus aposentos, e poucos se encorajam a enfrentar as ruas tomadas pelas trevas enevoadas expelidas pela atmosfera noturna. Enfrentando esse cenário obscuro e misterioso, Julia Holter arquiteta o que é não apenas o seu terceiro disco, mas o que parece ser, até hoje, sua maior obra. “Loud City Song” é um tratado sobre o silêncio e as sombras trazidas pela noite.

Se o que se pede, portanto, é um teor atmosférico, saiba que Julia Holter demonstra dominar como poucos artistas as texturas possibilitadas pelos sons sintéticos. Domando com primor os sintetizadores (ela inclusive tem feito shows com um equipamento gigantesco), a musicista encontra em uma perfeita ambientação musical uma adaptação certeira dos inventos setentistas de Brian Eno. As inspirações, porém, encontram no formidável manuseio de Holter um verdadeiro sentido de novidade, amplificado pelo modo enevoado em que as canções são trabalhadas.

Outro grande êxito de Holter é saber tornar “Loud City Song” um registro acessível. E o impressionante é perceber que isso acontece logo no trabalho mais obscuro da artista: apesar de mais “coloridos”, tanto “Tragedy”, de 2011, quanto “Ekstasis”, de 2012, não conseguiram alcançar de forma tão certeira os sentimentos do público quanto o presente registro.

Yeezus03. Yeezus – Kanye West

Gênero: Hip Hop

Dono de uma das mais competentes e inventivas discografias dos últimos tempos, Kanye West cada vez mais se destaca como uma das mentes mais privilegiadas da música atual, produzindo discos com maestria e se postando como um dos melhores rappers da história. Embora sua música se agarre a exageros, sendo o músico excêntrico e polemizador, não há como negar a qualidade criativa da carreira em estúdio que ele vem construindo desde 2004: álbuns como “The College Dropout”, “Late Registration”, e “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” se comportam como verdadeiros clássicos modernos, e não apenas do hip-hop, mas da música mundial em geral.

“Yeezus”, o sexto álbum solo do artista, pode não ser o melhor, mas é o mais surpreendente exemplar de seu catálogo até agora. Algo que poderia ser até considerado normal para um músico que trata de construir um universo único em cada álbum, explorando suas ideias efervescentes ao costurar com capricho uma colcha de referências retalhadas, sendo influenciado e influenciando diversos artistas. Mas, ao conferir os primeiros segundos do novo álbum, percebe-se nitidamente que o cara tratou de se superar como nunca; “Yeezus” tenta reconstruir a imagem de West ao desconstruir tudo o que ele havia feito até agora, fazendo com que ele renasça quando alguns esperavam, erroneamente, uma continuação do que havia sido apresentado em ”My Beautiful Dark Twisted Fantasy”.

As batidas sintéticas da primeira faixa, ”On Sight”, já procuram dar o tom da sonoridade do disco, um legítimo álbum futurista e experimental, utilizando (e criando) o que há de mais atual na cena atual do hip-hop. Embora, em um primeiro momento, o cenário possa ser relacionado ao que se desenvolvera em 2007, no álbum “Graduation”, aos poucos o ouvinte vai sendo levado a uma atmosfera ineditista, se afastando da “pessoa Kanye West” para ser envolvido pelo universo que rodeia o compositor. Algo curioso, ao percebemos que “Yeezus” se trata de um disco mais “solitário”, com menos participações… Talvez Kanye West esteja vivendo um processo de mudanças, tanto pessoais quanto artísticas, e anseie desgarrar-se (mas não por completo) da imagem egocêntrica que construiu. (Leia a resenha completa do disco)

Reflektor02. Reflektor – Arcade Fire

Gênero: Indie Rock

Um dos maiores méritos do Arcade Fire é a sua incrível capacidade de se reinventar. Além de ser uma das pouquíssimas bandas que contém apenas ótimos exemplares em sua discografia, o grupo pode gabar-se de nunca ter estacionado no lugar-comum. Quem esperava, em 2007, que eles utilizassem as aclamadas bases de “Funeral” para construir a continuação de sua carreira, acabou se esbarrando em “Neon Bible”, um disco que parecia já deixar muito claros os conceitos pregados pelo coletivo canadense. O Arcade Fire não teme em percorrer novos caminhos, mesmo que isso signifique o abandono de fórmulas que deram, no passado, um ótimo resultado. E agora, depois de ganhar o Grammy de melhor álbum do ano de 2010 com “The Suburbs”, a banda investe mais uma vez na mutação ao percorrer uma epopeia dançante em “Reflektor”, o quarto disco de sua carreira.

O conceito do disco começou a ser construído, primeiramente, a partir de uma viagem realizada por Win Butler e Régine Chassagne ao Haiti, terra-natal da família da musicista. Considera por Butler como uma experiência que mudou a sua vida, a permanência do casal no país mais pobre das Américas abriu-lhes as mentes a uma visão de mundo que jamais haviam experimentado. Mergulhando sem temores na cultura daquele povo tão sofrido, tanto Butler quanto Chassagne encontraram, mesmo em meio a tantas dificuldades, uma tradição musical pautada na dança e na alegria. Se em seu trabalho anterior a banda havia ficado presa aos subúrbios onde seus membros cresceram, agora, com “Reflektor”, há o desgarramento das raízes para a conquista de uma percepção mais universal. Não faltam, portanto, toques tropicais e de descendência africana às bases do registro.

Mas como Win Butler já avisava tempos antes do lançamento do disco, “Reflektor” não é uma mostra do Arcade Fire tocando música haitiana. Há uma constante incorporação de elementos caribenhos, é verdade, mas estes flertes formam apenas uma parte do generoso quebra-cabeça de inspirações que fomenta o trabalho. Presença mais do que atuante durante os processos de gravação, o produtor James Murphy, do LCD Soundsystem, coligou de forma absolutamente assertiva seus rumos eletrônicos com a sonoridade característica da banda canadense. Ansiosos por elevar ao épico os toques sintéticos que permearam ”Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, a penúltima faixa de “The Suburbs”, os membros da banda não pouparam interesse no casamento do Arcade Fire com as pistas de dança. (Leia a resenha completa do disco)

Modern Vampires of the City01. Modern Vampires of the City – Vampire Weekend

Gênero: Indie Pop

É curioso como a melancolia do nosso cotidiano pode se apresentar atraente: tudo depende do ponto de vista. Os cenários urbanos, repletos de ruído e concreto, podem se tornar poéticos se imprimirmos um olhar diferente ao mundo que nos cerca. Esquinas podem se tornar versos, rimando as ruas que se encontram. Muros se tornam melodias, e os congestionamentos uma grande sinfonia. Para tanto, porém, um olhar extremamente sutil torna-se necessário… Só com uma enorme sensibilidade névoas de poluição conseguem ser transformadas em nuvens de aroma suave.

Com “Modern Vampires of the City”, o Vampire Weekend faz do mundo atual o cenário para uma obra de arte. Encontrando nas paisagens urbanas de Nova York o limiar de uma sonoridade afetuosa, Ezra Koenig e sua banda conseguiram transformar um álbum vanguardista, recheado de experimentalismos, em um dos registros mais cativantes dos últimos anos. Através de passeios por praças, ruas e avenidas, entre multidões de pessoas e filas de automóveis, aspectos da vida moderna são tratados com imensa assertividade pela banda, mesclando letras, melodias, coros de vozes e seções de percussão com brilhantismo para construir um registro que a todo instante parece tender ao épico. Dos primeiros segundos de “Obvious Bicycle” ao silêncio final de “Young Lion”, tudo parece ser tomado por uma áurea que transcende entre o pueril e o grandioso.

“Modern Vampires of the City” não é só mais um álbum surpreendente… É um disco mágico, que excita através de seu inteligentíssimo jogo de detalhes. Seja em seções tomadas pelos elementos da música pop, ou em canções que parecem ter saído dos ares mais coloridos da música sessentista, pequenos detalhes instrumentais e vocais rumam o trabalho rumo a seu magnífico resultado. No fim, um conjunto seminal se apresenta, saindo de proporções tímidas para alcançar uma verdadeira explosão musical.

Clipes & Singles: Semana 49/2013

Clipes & Singles

A primeira semana de dezembro é a prova de que 2013 ainda nos reserva gratas surpresas. Ano passado criticávamos Lana Del Rey, e agora nos vemos obrigados a elogiá-la… E o que falar de Julian Casablancas e seus flertes com os anos oitenta, que construíram o decepcionante “Comedown Machine”, e agora se transformam em acerto em sua parceria com o Daft Punk? Se dizem que as festas de fim de ano valem para uma renovação, aproveite os clipes e singles abaixo para renovar as suas opiniões.

David Bowie – I’d Rather Be High

O ano pode até estar acabando, mas o último disco de David Bowie, “The Next Day”, lançado ainda no primeiro semestre, continua repercutindo. Nova faixa do ótimo álbum a receber uma versão audiovisual, “I’d Rather Be High” é uma daquelas canções que se caracterizam como um single óbvio e certeiro. Melódica, reforçando a faceta naturalmente pop de Bowie, a canção encontra em imagens da Primeira Guerra Mundial um cenário melancólico para seu desenvolvimento em vídeo.

Primal Scream – Goodbye Johnny

Psicodelismo é com o Primal Scream. Musicando aspectos lisérgicos desde 1991 com o clássico “Screamadelica”, a banda de Bobby Gillespie acabou se tornando um nome claramente ligado ao mundo das drogas sintéticas. No último disco do grupo, “More Light”, a essência não é abandonada: muitas cores, drogas e melodia. Faixa que faz parte do registro, “Goodbye Johnny” recebe um vídeo repleto de referências à Andy Warhol – embarcando, inclusive, no universo das drag queens… Alguém ainda duvida da loucura que paira sobre a mente de Gillespie?

Devendra Banhart – Taurobolium

Quack! Sim, caros leitores, lá vem o pato… Ou melhor, dois patos, que vivem uma crônica pra lá de psicodélica no novo clipe do competente Devendra Banhart, lançado para a canção “Taurobolium” – última faixa do disco “Mala”. Estrelado pelos patos Mondo-T (dublado por Rose McGowan) e Gale (dublado por Banhart), o criativo vídeo se caracteriza como uma aposta interessantíssima, mesclando reflexão e entretenimento, atestando a qualidade dos clipes feitos pelo artista.

The Killers ft. Dawes – Christmas in L.A.

O natal está chegando e, com ele, chegam também as sempre tradicionais (e chatas) musicas natalinas. Nem tudo precisa ser relacionado ao Papai Noel e ao tal do “Dingobel”, não é? Cientes disso, Brandon Flowers e sua banda resolveram lançar mais um clipe, só que dessa vez com temáticas natalinas. “Christmas in L.A.”, que conta com a participação da banda folk Dawes, musica com muita sensibilidade e melodia o melancólico natal do personagem interpretado pelo ator Owen Wilson no vídeo da canção.

Lorde – Team

Talvez nenhum artista do mundo tenha tido um 2013 tão recompensador quanto a neozelandesa Lorde. Com apenas 17 anos, a musicista saiu de um completo anonimato para se tornar uma das cantoras mais famosas do mundo. Muito se deve ao single “Royals”, é verdade, mas ignorar o poder de “Pure Heroin”, o primeiro disco da cantora, seria perder a essência da proposta musical da artista. Cada vez mais aventureira e convicta da comerciabilidade de sua base musical, a artista não perde tempo, e lança, agora, mais um vídeo promocional de um single relativo ao seu álbum de estreia; trata-se de “Team”, em que ela interpreta uma poderosa rainha de um universo paralelo. Seja em um mundo fictício ou no universo pop atual, é Lorde quem dá as ordens.

Mogwai – The Lord Is Out of Control

Pelo menos musicalmente, o ano de 2014 já está sendo desenhado. Alguns álbum que serão lançados no próximo ano já começam a chamar a atenção, e um desses casos é “Rave Tapes”, oitavo disco da banda Mogwai. Estacionando na música de vanguarda dos anos setenta, mas sem deixar de soar atual, o grupo parece estar pronto para lançar um dos discos mais complexos dos últimos tempos… Afinal, entre arranjos belíssimos, vocais robóticos e uma ambientação certeira surge a ótima “The Lord Is Out Control”, mesclando guitarras e sintetizadores na medida certa enquanto, no clipe, personagens são explorados para complementar a temática da canção.

Jon Hopkins – Collider

Considerado o herdeiro de Brian Eno, o inglês Jon Hopkins sabe como explorar comercialmente os rumos não muito acessíveis da ambient music. Influenciado de forma óbvia pelas heranças setentistas de Eno, mas sabendo flertar com aspectos dançantes para fazer com que a sua música atinja o grande público, o músico fez de “Immunity” um meio termo entre o conceitual e o acessível. Quarta faixa do disco, a esquizofrênica “Collider” encontra em um assertivo vídeo o complemento natural de seus aspectos, tratando do cotidiano exagerado de uma personagem para trazer imagens à sua base musical.

Tulipa Ruiz – Like This

Com “Tudo Tanto”, Tulipa Ruiz mudou… Fugindo da “fofura colorida” de “Efêmera” ao abraçar os cenários em preto e branco, a artista construiu a afirmação de sua carreira, passando, enfim, no tão famoso “teste do segundo álbum”. Faixa mais exagerada do último disco da cantora, “Like This” ganha um registro audiovisual que inaugura o perfil oficial de Tulipa na plataforma VEVO. Estrelado pela atriz Layla Ruiz, prima da musicista, o vídeo, porém, parece destruir todos os méritos que haviam sido alcançados pela canção, que demonstra claramente a evolução lírica de Tulipa. Quel ver uma mulher dançando com uma alface? Dê play no vídeo abaixo e perca quatro minutos e meio da sua vida.

Daft Punk ft. Julian Casablancas – Instant Crush

Há algum tempo que Julian Casablancas abandonou o século XXI para viver os anos oitenta. Seja em carreira solo ou no The Strokes, o músico parece estar convicto de que o melhor caminho para sua evolução é se embrenhar na imensidão de sons sintetizados que ajudaram a construir a década mais brega da era moderna. E isso é ruim? Pelo menos “Instant Crush”, parceria de Casablancas com os agora “humanizados” robôs do Daft Punk, mostra uma boa quantidade de acertos nessa viagem ao passado. Faixa do ótimo “Random Access Memories”, um dos melhores discos do ano, a música ganha um vídeo em que a estrela é o próprio Casablancas. Transformado em uma estátua, o cantor busca permanecer ao lado da amada, uma outra estátua que “vive” no mesmo museu.

Lana Del Rey – Tropico

Enquanto Lana Del Rey lançava seu primeiro disco, “Born to Die”, e o mundo da música alternativa encontrava nela sua maior musa, perguntávamos se Lana Del Rey nasceu para brilhar ou somente para morrer na praia. Moldada em função de referências do mundo pop, a artista se mostrava como um belo produto de marketing da indústria da música, moldada para encantar os “indies”. Porém, a versão estendida do disco já havia mostrado novas facetas que fizeram com que conhecêssemos melhor a artista que estava depontando… Lana Del Rey está crescendo, e com o lançamento do aguardado curta-metragem “Tropico” isso acaba ficando muito claro. Brincando com as referências que a constroem, a artista transforma em película a sua base musical, contando com as “participações especiais” de Marilyn Monroe, John Wayne, Elvis Presley e até de Jesus Cristo. Brincando com as raízes do pecado e do amor, o vídeo faz com que a gente descubra de uma melhor forma, ainda que subjetiva, quem é Lana Del Rey.

2013: Reflektor – Arcade Fire

Reflektor

Por: Renan Pereira

Um dos maiores méritos do Arcade Fire é a sua incrível capacidade de se reinventar. Além de ser uma das pouquíssimas bandas que contém apenas ótimos exemplares em sua discografia, o grupo pode gabar-se de nunca ter estacionado no lugar-comum. Quem esperava, em 2007, que eles utilizassem as aclamadas bases de “Funeral” para construir a continuação de sua carreira, acabou se esbarrando em “Neon Bible”, um disco que parecia já deixar muito claros os conceitos pregados pelo coletivo canadense. O Arcade Fire não teme em percorrer novos caminhos, mesmo que isso signifique o abandono de fórmulas que deram, no passado, um ótimo resultado. E agora, depois de ganhar o Grammy de melhor álbum do ano de 2010 com “The Suburbs”, a banda investe mais uma vez na mutação ao percorrer uma epopeia dançante em “Reflektor”, o quarto disco de sua carreira.

O conceito do disco começou a ser construído, primeiramente, a partir de uma viagem realizada por Win Butler e Régine Chassagne ao Haiti, terra-natal da família da musicista. Considera por Butler como uma experiência que mudou a sua vida, a permanência do casal no país mais pobre das Américas abriu-lhes as mentes a uma visão de mundo que jamais haviam experimentado. Mergulhando sem temores na cultura daquele povo tão sofrido, tanto Butler quanto Chassagne encontraram, mesmo em meio a tantas dificuldades, uma tradição musical pautada na dança e na alegria. Se em seu trabalho anterior a banda havia ficado presa aos subúrbios onde seus membros cresceram, agora, com “Reflektor”, há o desgarramento das raízes para a conquista de uma percepção mais universal. Não faltam, portanto, toques tropicais e de descendência africana às bases do registro.

Mas como Win Butler já avisava tempos antes do lançamento do disco, “Reflektor” não é uma mostra do Arcade Fire tocando música haitiana. Há uma constante incorporação de elementos caribenhos, é verdade, mas estes flertes formam apenas uma parte do generoso quebra-cabeça de inspirações que fomenta o trabalho. Presença mais do que atuante durante os processos de gravação, o produtor James Murphy, do LCD Soundsystem, coligou de forma absolutamente assertiva seus rumos eletrônicos com a sonoridade característica da banda canadense. Ansiosos por elevar ao épico os toques sintéticos que permearam “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, a penúltima faixa de “The Suburbs”, os membros da banda não pouparam interesse no casamento do Arcade Fire com as pistas de dança.

Há também, no Arcade Fire atual, um imenso interesse no rock experimental da virada das décadas de setenta e oitenta. Não tem como não citar David Byrne e seu trabalho junto ao Talking Heads como uma grande influência à sonoridade de “Reflektor”, bem como o que David Bowie desenvolvera, junto a Brian Eno e Tony Visconti, na chamada “Berlin Trilogy”. A própria presença do Camaleão na faixa-título, que abre os caminhos do álbum, não deixa dúvidas quanto às inspirações: é como se o Arcade Fire quisesse reviver, da sua maneira, os rumos sonoros de discos como “Let’s Dance”, “Scary Monsters (and Super Creeps)” e seus antecessores. Liberada como primeiro single de “Reflektor”, a canção serviu não apenas para nos apresentar ao novo Arcade Fire, mas também para criar um incrível hype acerca do álbum. A grandiosa campanha de marketing preparada pelos agentes da banda, certamente, também muito contribuiu para que o disco chegasse a ser considerado como o lançamento mais aguardado de 2013.

Com seus rumos épico-dançantes definidos, o grupo sente-se à vontade para mergulhar nas pistas ao aproveitar ao máximo os toques de James Murphy. É admirável, por exemplo, como a atmosfera tradicional das músicas do Arcade Fire, repleta de indie rock, ganha um corpo mais proeminente ao alcançar as ideias da disco music em “We Exist”, a segunda faixa. É ao mesmo tempo estranha e normal a percepção de que, mesmo sendo uma banda constantemente mutável, o Arcade Fire continua a ter certas bases composicionais que o acompanham desde “Funeral”, seu disco de estreia: no caso, podemos citar as reflexões existencialistas, que sempre foram um prato cheio para os lirismos da banda, e agora voltam a aparecer. As letras, de certa forma, não conseguem alcançar o mesmo teor inédito da sonoridade, mas é fato que os “antigos” conceitos continuam a agradar.

Mesmo nas canções em que Murphy não surge como produtor, há uma completa inserção do Arcade Fire em sons que, até agora, não haviam sido explorados pela banda; caso de “Flashbulb Eyes”, que surge entre ruídos para depois se desenvolver em um sensível aspecto dançante, encontrando os costumes caribenhos em meio a batidas exóticas e uma concepção singela de teclados e riffs de guitarra. Dividido entre duas partes (ou duas “noites”), “Reflektor” vê em sua primeira metade um espírito mais alegre, agitado e coletivo, perfeitamente representado pela quarta faixa, “Here Comes the Night Time”. Uma verdadeira orquestra de percussão dá o ritmo da canção mais quente do disco, uma epopeia dançante cujos aspectos rítmicos e melódicos cativam naturalmente o ouvinte… É aqui, afinal, que “Reflektor” explode em uma extraordinária celebração.

Um sentimento mais “roqueiro”, com ares de arena, surge em “Normal Person”, que discute quem pode ser considerado dentro das convenções sociais da normalidade; para a construção da sonoridade da canção, uma guitarra pesada acaba se encontrando com as percussões quentes e os instrumentos de sopro que se derramam pelo disco, perfazendo, dessa forma, a perfeita união do novo com o velho Arcade Fire. A dança, porém, volta a ser o principal elemento da faixa seguinte, “We Already Know”, que parte em busca dos elementos setentistas da música disco sem se esquecer, porém, da atmosfera épica que sempre envolveu os caminhos sonoros da banda: a presença do velho colaborador Markus Dravs na co-produção do álbum traz, de forma natural, as orquestrações de “The Suburbs” às bases de “Reflektor”. Mas se anteriormente os rumos eruditos eram os que davam as ordens, agora eles são apenas mais um tempero de uma grande salada, perdido entre os grooves. É com o sentimento à flor da pele e a fantástica linha de baixo de “Joan of Arc” que a primeira parte do trabalho se encerra, representando um arriscado amor platônico que procura emendar-se, de propósito, à lenda grega de Orfeu e Eurídice; sobra espaço, ainda, para que Régine Chassagne dispare alguns versos em francês.

Falando em Orfeu e Eurídice, a segunda parte do disco é mais centrada no mito que inspirou o filme brasileiro “Orfeu Negro”, de 1959. Citado por Win Butler como uma de suas películas preferidas, o longa dirigido pelo francês Marcel Camus influenciou as letras de “Reflektor” principalmente no que tange a seus sentimentos de isolamento e morte. O cenário hermético de “Joan of Arc” já parecia ter dado a ordem, e a primeira faixa do segundo disco, “Here Comes the Night Time II”, esclarece que não só a noite mudou, como os sentimentos também… O coletivo acaba condensando-se no indivíduo, e a felicidade dá lugar a um clima obscuro. Como bem mostra “Awful Sound (Oh Eurydice)”, é nas sombras que agora se encontra a percussão tropical, envolvida nas orquestrações típicas de Makus Dravs que parecem realocar a banda nos cenários de seus dois álbuns anteriores: ou seja, a tristeza explanada em formidáveis rumos melódicos.

Segundo o filme de Marcel Camus (que, por sua vez, foi adaptado de uma peça de Vinícius de Moraes), Eurídice chega ao Rio de Janeiro fugida do sertão nordestino. Na cidade maravilhosa, onde vai morar em uma favela com a prima Serafina, a moça conhece o carnaval e o sambista Orfeu, com o qual acaba se apaixonando. Mas ele já é noivo da bela e sedutora Mira, que parte contra Eurídice em ataques de ciúme… Enquanto o amor proibido vai se desenvolvendo, um homem começa a perseguir a sertaneja. No último dia de carnaval, ao fugir de seu perseguidor, a jovem acaba entrando em um galpão velho e escuro. Ela tenta se esconder, mas quando o homem a acha, ela pula desesperada de um tablado e se segura em um fio de alta tensão. Nisso, Orfeu chega para tentar salvá-la… mas acaba ligando a tensão, e Eurídice morre eletrocutada. É o som terrível da morte acabando com um romance puro e inocente, como procura demonstrar a segunda faixa da segunda metade de “Reflektor”.

Após brigar com o perseguidor, o sambista fica inconsciente, dando-se conta do ocorrido apenas depois de acordar; só lhe resta o choro e a desolação na quarta-feira de cinzas. Guitarras climáticas e inspirações do R&B mostram, em “It’s Never Over (Hey Orpheus)”, o chamado desesperado de Eurídice, que implora ao seu amado para ir buscá-la. Nesse teor conceitual, o Arcade Fire vai alcançando outras temáticas líricas que, em outros discos, já haviam sido exploradas: é possível encontrar a tensão e a dissonância de “Neon Blible”, a magia e o mistério de “The Suburbs” e até a morte de “Funeral” – só que com tudo envolto em uma nova concepção… É o Arcade Fire conseguindo ser mutável ao mesmo em que é a mesma banda de sempre. A eletrônica e hermética “Porno” parece, de fato, enriquecer ainda mais essa dualidade.

Desesperado, Orfeu parte em busca de Eurídice nas terras do além: “Afterlife” é uma faixa chave, que constrói, com seus elementos emprestados da new wave oitentista, uma alternativa para a trágica história de amor. E o desfecho acaba ocorrendo quando, ao encontrar o corpo de Eurídice, Orfeu decide sequestrá-lo e levá-lo à favela. No fim, após uma briga com Mira, o sambista acaba caindo de uma ribanceira, caindo morto ao lado do corpo de Eurídice… “Supersymmetry”, a última faixa da epopeia, abraça a morte simultaneamente à celebração da pureza do amor. É como se os rumos sintéticos de “Reflektor” servissem para colher uma ideia que havia sido plantada no já longínquo ano de 2004, com a primeira canção de “Funeral”. Mesmo mudando tanto, aventurando-se entre tantas nuances e influências, a banda consegue manter intocável o seu ideal.

Surge ainda, no final do disco, um “resumo” de todo o turbilhão sonoro que envolvera o registro… Talvez para deixar ainda mais escancarados os méritos do Arcade Fire em misturar tantos elementos de uma forma capaz de construir um novo conceito. Mesclando disco music, David Bowie, Talking Heads, new wave, música e cultura haitiana, mitologia grega e cinema brasileiro aos seus próprios ideais, o Arcade Fire não conclui apenas o quarto álbum de sua discografia, mas mais um capítulo de sua constante transformação. Quem eles são, para onde eles vão? Se nem uma epopeia reflexiva pôde responder a esses questionamentos, talvez nem o tempo consiga. Mas quem realmente importa? Daqui três anos, todo mundo estará, novamente, ansioso para descobrir um novo disco de um novo Arcade Fire.

NOTA: 9,2

Track List:

CD 1:

01. Reflektor [07:34]

02. We Exist [05:44]

03. Flashbulb Eyes [02:42]

04. Here Comes the Night Time [06:31]

05. Normal Person [04:22]

06. You Already Know [03:59]

07. Joan of Arc [05:27]

CD 2:

01. Here Comes the Night Time II [02:52]

02. Awful Sound (Oh Eurydice) [06:14]

03. It’s Never Over (Hey Orpheus) [06:43]

04. Porno [06:03]

05. Afterlife [05:53]

06. Supersymmetry [11:17]

2013: The Next Day – David Bowie

Por: Renan Pereira

Embora não precise provar mais nada pra ninguém desde os anos setenta, quando construiu alguns dos melhores trabalhos da história do rock, David Bowie necessitava voltar a ativa – afinal, o mundo ainda precisa do Camaleão. Além disso, é muito estranho ver um dos nomes mais irrequietos da música mundial entocado durante tanto tempo, como se fosse um urso em pleno inverno: desde 2003 Bowie não nos presenteava com um novo exemplar de estúdio.

Mas o fato é que a hora chegou, e enfim podemos nos deliciar com um novo álbum de Bowie, independente de quanto tempo ele tenha demorado. “The Next Day” é um ótimo trabalho de retorno, conciso e consistente, que mostra que o veterano músico inglês ainda tem muita lenha para queimar.

Aliás, do nosso ilustre time de veteranos não temos nada do que reclamar. Nos últimos tempos, os velhos nomes da música parecem ter recuperado a ânsia em construir grandes trabalhos, deixando claro o que é de conhecimento geral, mas muito jovens insistem em ignorar: na música, como em diversas outras áreas, idade não é documento. E é muito bom ver o grande Bowie acompanhando essa maré, criando um grande álbum e seguindo, quanto à qualidade, outros velhos nomes que têm voltado a se destacar nos últimos anos, como Paul Simon, Leonard Cohen, Bruce Springsteen e Bob Dylan.

Até porque, em “The Next Day”, Bowie recupera muitas das características fundamentais de sua música, fazendo-a soar dinâmica e camaleônica como no ápice de sua carreira. Não, “The Next Day” não está no mesmo patamar dos históricos registros de Bowie lançados lá na década de setenta, mas volta a apresentar suas diferentes facetas com uma consistência não observada nos últimos discos do músico. Em “The Next Day”, afinal, a música de Bowie volta a soar grandiosa, impregnante, tornando o álbum o melhor registro de estúdio do inglês desde o famigerado “Let’s Dance”, de 1983.

O engraçado, porém, é ver o disco se iniciar de maneira bastante tímida, parecendo preparar o ouvinte para mais um trabalho ao nível de “Heaten” e “Reality” – o que, de jeito nenhum, significa má qualidade, mas também não mostra nada de tão grandioso. A primeira faixa, que também dá título ao álbum, até é um pop-rock legal, agradável, mas também se mostra comum demais; ironicamente, é a canção mais fraca do disco. Já a segunda, “Dirty Boys”, mostra que, finalmente, Bowie está de volta aos seus melhores dias; a canção, embebida por ótimos arranjos de metais, apresenta um androgenismo característico dos trabalhos setentistas do inglês, soando complexa e fugindo do óbvio.

Embora o disco, como um tudo, contenha um conjunto de ótimas canções, “(The Stars) Are Out Tonight” é, indubitavelmente, um grande destaque sobre as demais músicas; afinal de contas, a terceira faixa (e segundo single do álbum) é magistral, vívida, pulsante e certeiramente sentimental, com uma qualidade envolvente capaz de reviver as maiores glórias da carreira de Bowie. “Love Is Lost” também é impecável, um rock com roupagem séria (e até mesmo tensa), envolvido por riffs impregnantes e detendo uma inteligente letra. O primeiro single do disco, “Where Are We Now?”, está mais para reflexiva, e por isso é tão serena e nostálgica; seus quatro minutos de duração perfazem, provavelmente, o instante mais íntimo do álbum, em que Bowie relembra, com uma saudade evidente, o tempo em que morou em Berlim.

O sentimento inserido em “Valentine’s Day” é, por coincidência ou não, apaixonante; sua letra é deliciosa, sua melodia é confortante, e  seu instrumental contém os mais emotivos (e bonitos) riffs de guitarra de todo o álbum, em um momento de “puro feeling”. Em uma sucessão que reitera quão camaleônico Bowie é capaz de ser, o músico sai do romantismo absoluto para o androgenismo experimental de “If You Can See Me”, uma música perfeitamente produzida que remete aos trabalhos mais complexos do veterano; se trata, afinal, de uma canção altamente dinâmica, com os vocais constantemente a se desencontrar e se encontrar novamente com o ritmo enérgico. Outra ótima faixa, “I’d Rather Be High” tem um uma melodia que, apesar de calma, prende o ouvinte a todo instante; sua capacidade lírica também é elogiável, bem como seu refrão grudento e os backing-vocals que o envolvem.

Única faixa do álbum que traz flertes com a música eletrônica, “Boss of Me” é um pop rock com a cara dos anos noventa, talvez recordando um pouco do que Bowie fez naquela década; se trata, pra variar, de mais uma música de alta qualidade, atestando o êxito do disco não somente em mostrar um David Bowie de volta à velha forma, mas principalmente quanto à grande consistência de seu conjunto de canções. “Dancing Out in Space” é, como seu título pode deixar transparecer, uma canção animada, amparada por mais uma deliciosa construção melódica, mantendo o instrumental praticamente constante ao mesmo tempo em que dinamiza o vocal.

Também é ótimo ver como “The Next Day” consegue surpreender. Embora apresente pouca novidade, acrescentando quase nada de novo à carreira de Bowie, o registro é uma sucessão incrível de acertos – algo que, no fundo, poucos esperavam. Em suma, “The Next Day” é um disco que surpreende pela alta qualidade de suas faixas, mostrando um David Bowie afiado como há muito tempo não se via. “How Does the Grass Grow?”, a canção mais dinâmica do disco, é capaz de deixar os ouvintes boquiabertos com tamanha complexidade; com um ritmo enlouquecedor e sensacionais arranjos vocais, poderia, muito bem, se encontrar entre as mais empolgantes composições de Bowie em todos os tempos. Já “(You Will) Set the World on Fire” parece ter saído dos anos oitenta, trazendo para 2013 o rock dançante de “Let’s Dance”.

A penúltima, “You Feel So Lonely You Could Die”, é uma balada melodramática, uma faixa que, apesar de não estar no mesmo nível dos melhores momentos do disco, mostra-se altamente válida. Fechando o álbum com mais um pouquinho de “Berlin Trilogy”, a forte “Heat” volta a relembrar a estadia de Bowie na capital alemã durante o finalzinho dos anos setenta, onde ele construiu, com a ajuda do produtor Brian Eno, sua sequência mais complexa de álbuns; a capa de “The Next Day”, aliás, revive a imagem do segundo destes discos, o clássico “Heroes”.

Revirando sua carreira e revivendo suas glórias, Bowie acabou voltando com um álbum que está a altura do artista que o criou. Em “The Next Day”, afinal, David Bowie é simplesmente David Bowie, o velho e bom camaleão do rock – o que, no fim das contas, já basta para se atestar a grande qualidade do disco.

NOTA: 8,7

Track List: (todas as faixas compostas apenas por David Bowie, exceto a 9 e a 11)

01. The Next Day [03:27]

02. Dirty Boys [02:58]

03. The Stars (Are Out Tonight) [03:56]

04. Love Is Lost [03:57]

05. Where Are We Now? [04:08]

06. Valentine’s Day [03:01]

07. If You Can See Me [03:15]

08. I’d Rather Be High [03:53]

09. Boss of Me (Bowie/Leonard) [04:09]

10. Dancing Out in Space [03:24]

11. How Does the Grass Grow? (Bowie/Lordan) [04:33]

12. (You Will) Set the World on Fire [03:30]

13. You Feel So Lonely You Could Die [04:41]

14. Heat [04:25]