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Lista: As 50 Melhores Músicas de 2014 [30-21]

30. Vince Staples – Blue Suede

Você pode até dizer que “Blue Suede” é apenas mais uma ótima produção, que suas batidas são incríveis e que a música se resume basicamente a isso… Tudo isso, é claro, se as rimas de Vince Staples não forem levadas em consideração. Se a produção é ótima (digna de Madlib), a performance do rapper é ainda melhor. Suas rimas são cruas, e verdadeiras: nelas, Staples trata da mortalidade da forma como ela é, sem grandes firulas. O ser humano é frágil, e nasce para um dia morrer: e, geralmente, nunca da forma desejada. É nada mais do que a realidade… “Jovens sepulturas obtém os buquês”, brada o rapper.

29. Nação Zumbi – Cicatriz

Uma filosofia relativamente barata diz que um grande guerreiro é reconhecido pela quantidade de cicatrizes que tem no corpo… E é exatamente essa mensagem que a Nação Zumbi quer passar em “Cicatriz”, canção que facilmente se insere entre as melhores do experiente grupo. Segundo Du Peixe e sua trupe, as marcas de guerra não precisam ser escondidas, e sim expostas: troféus de batalhas vencidas. A fraqueza humana se transformando em poder.

28. Ty Segall – The Singer

Para Ty Segall, 2014 será sempre considerado o ano de sua evolução definitiva. Íntimo das mais diversas nuances do rock, o músico, em “The Singer”, se vê à vontade para percorrer os dogmas do estilo em vias de reinvenção. Para isso, utiliza o psicodelismo para passear nos anos setenta, jogando um pouco de purpurina na guitarra através de uma breve brincadeira com o glam, e trazendo tudo para os tempos atuais – criando um número que, ao mesmo tempo, é clássico e atual. “The Singer”, assim como o rock clássico, é simples e direta, além de forte e arrebatadora. Uma canção com aquele espírito que muitos desinformados pensam que já morreu.

27. How to Dress Well – Words I Don’t Remember

Através de seu projeto How to Dress Well, Tom Krell reinventa a música pop com uma grande condensação de gêneros e referências. Provas? Apesar do disco “What Is this Heart?” ser imperdível, uma de suas faixas, “Words I Don’t Remember”, já é capaz de oferecer aos ouvintes uma ótima amostra dos poderes do músico. Sensível, atraente e naturalmente progressista, a canção se espalha em pouco mais de seis minutos de puro brilhantismo sonoro e lírico.

26. ruído/mm – Requiem for a Western Manga

A banda curitibana ruído/mm tem o dom de contas histórias mesmo sem utilizar nenhuma palavra… E isso acabou fazendo do fantástico “Rasura” um dos melhores discos de 2014. Terras distantes, heróis destemidos, discos voadores e grandes batalhas se espalham por números instrumentais primorosos, dos quais “Requiem for a Western Manga” é um destaque. Uma verdadeira epopeia, a canção faz com que o ouvinte experimente dez minutos de uma grande aventura, digna de uma superprodução de Hollywood, com Clint Eastwood no elenco e tudo mais.

25. Romulo Fróes e Juçara Marçal – Espera

A poesia de Romulo Fróes é reconhecidamente torta, “difícil” para os ouvidos acostumados com a música que se toca nas rádios… Mas em “Espera”, parceria do músico com Juçara Marçal, Fróes se abre para um novo público. Apesar de liricamente complexa, mantendo os tradicionais flertes do músico com versos curtos e de aparência desconexa, a canção se mostra extremamente fluida, deliciosa e descomplicada – mesmo fazendo parte do pesado “Barulho Feio”, o último e mais profundo lançamento do compositor. Na música, tudo se casa perfeitamente: as vozes de Romulo e Juçara se fundem em total harmonia com o ritmo acústico que, por sua vez, une-se com os ruídos da cidade de São Paulo de forma até mesmo natural. Um grande conjunto de nuances, alocadas em menos de dois minutos de impecável canção.

24. Ghostface Killah & BadBadNotGood ft. Danny Brown – Six Degrees

Além de reunir Ghostface Killah e Danny Brown, dois dos grandes rappers da atualidade, a canção “Six Degrees” traz na produção os canadenses do BadBadNotGood, verdadeiros monstros do hip-hop com suas passagens pelo jazz e pelo fusion. O resultado? Só poderia ser fantástico… Uma das melhores músicas do ano, uma mostra perfeita de que as mais diferentes vertentes nunca haviam se fundido em tamanha proporção quanto no ano que se finda. Ilimitada, cheirando a novidade, “Six Degrees” parece trazer consigo o conceito a ser seguido pelas grandes obras do hip-hop nos próximos anos.

23. Perfume Genius – Fool

Ah, as emoções… Volta e meia elas têm permeado essa lista, nos mostrando que, mesmo no mundo pós-moderno, a música continua a serviço dos mais puros e honestos anseios do ser humano. Em 2014, poucos artistas conseguiram escancarar sentimentos de forma tão certeira quanto Mike Hadreas em seu projeto autoral Perfume Genius. “Fool”, além de nos presentear com um conjunto harmônico complexo, nos surpreendendo com suas variações inesperadas, apresenta uma gigantesca amplitude de emoções, permeados pela performance vocal teatral de Hadreas.

22. Run the Jewels ft. Zack De La Rocha – Close Your Eyes (And Count to Fuck)

O novo dueto entre os rappers El-P e Killer Mike, apresentado no segundo disco do Run the Jewels mostra, nada mais nada menos, do que o colosso do hip-hop em 2014. Resultado obtido através de rimas incendiárias e uma produção arrebatadora, o registro marca uma das melhores colaborações da história do rap, que pode ser resumida através da intensidade de “Close Your Eyes (And Count to Fuck)”.

21. Juçara Marçal – Velho Amarelo

“Velho Amarelo”, a primeira faixa de “Encarnado”, trabalha para alocar Juçara Marçal em um palco do qual o espectador não desviará os olhos. A canção, composta por Rodrigo Campos, se comporta como uma apresentação perfeita do conceito da trabalho, delineando os rumos instrumentais e líricos que o embalarão em sua totalidade… Se é certo que vamos morrer, por que não podemos escolher onde e como?

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Clipes & Singles: Semana 22/2014

Clipes & Singles

Pixies – Silver Snail

Recheado de vídeos, o novo disco da banda Pixies, “Indie Cindy”, está se tornando o trabalho mais promovido que o grupo já fez… O que é compreensível visto a baixa qualidade do registro em relação aos antigos clássicos da banda. No clipe gravado para “Silver Snail”, a esquisitice dos vídeos recentes do grupo surge novamente, demonstrando um conceito totalmente abstrato. Seria o vídeo para pensar ou não ele significaria, na realidade, absolutamente nada?

Foster the People – Best Friend

O último disco do Foster the People pode ter falhado, mas nada que não possa ser “consertado” com alguns vídeos interessantes. Esse é o caso do clipe de “Best Friend”, em que a banda sugue o cotidiano insano de uma supermodel, amarrando-se ao título do álbum e criticando de forma criativa os padrões pré-fabricados de beleza e sucesso.

Fernando Temporão – De Dentro da Gaveta da Alma da Gente

Autor de um dos melhores discos brasileiros do ano passado, o músico Fernando Temporão agora surge com o clipe da faixa-título do trabalho que o apresentou para todo o país. Nas imagens do vídeo de “De Dentro da Gaveta da Alma da Gente”, um teor retrógrado é explicado para dar ainda mais ênfase às memórias do compositor, que são retratadas na bela e orquestrada canção.

Disclosure ft. Fiend Within – The Mechanism

A ótima “The Mechanism”, faixa que reúne o Disclosure e o Friend Within, acaba de ganhar um clipe animado, que se comporta como uma continuação da proposta apresentada no capa do single. Os ingleses continuam mostrando que, depois de lançar um dos melhores álbuns do ano passado, sua ânsia em surpreender os ouvintes parece ter aumentado ainda mais.

The Baggios – Sem Condições

Com seu tradicional turbilhão de guitarras, o duo nordestino The Baggios, que lançou um dos melhores álbuns nacionais de 2013, surge agora em um clipe minimalista dirigido por Derick Borba. Considerado por muitos como uma espécie de “Black Keys brasileiro”, o duo continua mostrando, com grande competência, porque é considerado, pela crítica especializada, como um dos grandes projetos musicais da atualidade.

Lana Del Rey – Shades of Cool

“Ultraviolence” está chegando para dar ainda mais ênfase ao universo blasé da estrela Lana Del Rey. “Shades of Cool”, uma das faixas do disco, amplifica os vocais charmosos da cantora através de belos arranjos, que, apesar de simples, conseguem construir com primor um teor atmosférico.

Miguel – Simplethings

Se “Simplethings” já era uma ótima canção, agora, ao receber uma produção audiovisual, seu conceito torna-se ainda mais claro: uma ode às coisas simples (e realmente importantes) da vida. Contando com a participação da modelo Gigi Hadid e de Vento Cinzento, lobo de Robb Stark no seriado Game of Thrones, o vídeo se mostra como uma assertiva promoção para o single, que deverá fazer parte do terceiro álbum do californiano Miguel.

Ariana Grande ft. Iggy Azalea – Problem

Ariana Grande é um daqueles produtos óbvios da música pop dos Estados Unidos: depois de estrelar um seriado teen, parte para um trabalho fonográfico pop e altamente radiofônico, contando com o apoio de uma grande gravadora, com produtores renomados e muito dinheiro a ser investido. Surpreende, porém, que mesmo em meio a tantas obviedades, a jovem consegue ser um ponto fora dessa curva em que estão estacionadas cantoras como Selena Gomez e Miley Cyrus. Ariana faz diferente; sua música é grudenta, tocará muito nas rádios ao redor do mundo, mas não deixa de flertar com elementos ricos… Em “Problem”, canção que conta com a participação da rapper Iggy Azalea, o apelo pop se encontra com um fantástico loop de saxofone, dando um brilho a mais aos vocais plásticos e às excitantes batidas sintéticas. Enfim, um primor em produção.

Audac – Espirit

Falando em produções caprichadas, os paranaenses da Audac, que foram apadrinhados por Gordon Raphael em seu primeiro disco, estão agora lançando uma produção audiovisual de uma de suas canções. Com ótimas sequências e sobreposições de imagens, o clipe de “Espirit” consegue representar muito bem as várias camadas sonoras sobre as quais os arranjos são pautados, bem como o conceito etéreo da canção.

Ghostface Killah & BadBadNotGood ft. Danny Brown – Six Degrees

Além de reunir Ghostface Killah e Danny Brown, dois dos grandes rappers da atualidade, a canção “Six Degrees” traz na produção os canadenses do BadBadNotGood, verdadeiros monstros do hip-hop com suas passagens pelo jazz e pelo fusion. O resultado? Só poderia ser fantástico… Uma das melhores músicas do ano.

Lista: Os 30 Melhores Álbuns Internacionais de 2013 [10-01]

Os 30 Melhores Álbuns Internacionais de 2013

[30-21] [20-11] [10-01]


Old10. Old – Danny Brown

Gênero: Hip Hop

Louco ou genial? Com “Old”, as perguntas que cercaram Danny Brown em 2011, por conta do sucesso do álbum “XXX”, voltaram a todo vapor. É realmente difícil entender o que se passa pela cabeça do rapper, assim como se torna impossível não se sentir atraído pela insanidade que está relacionada a sua obra. Naturalmente lisérgicas, as composições de Brown são dominadas pela esquizofrenia que engloba a figura do polêmico músico, que sempre procura aparentar despreocupação, e até certo ponto, um pouco de relaxamento… Mas não se deixe enganar pelas aparências: em seu trabalho, Danny Brown não deixa de caprichar.

É impressionante como o aspecto tortuoso pela qual a carreira de Brown é guiada acaba transformando suas obras em registros fundamentais. Mais um capítulo de uma consistente discografia, ou até mesmo o melhor até aqui, “Old” traz a imagem do rapper como uma figura velha, experiente… Uma representação que acaba, no fim, caracterizando o andamento do disco. Mesmo aprofundando-se nos mesmos temas e nas mesmas estruturas chapadas que construíram sua carreira até aqui, Brown fundamenta “Old” em um conjunto altamente consistente de rimas, construídas com cuidado apesar da atmosfera maluca e aparentemente despreocupada do registro.

Batidas velozes, versos “cuspidos”, uma ambientação obscura e a tradicional linguagem crua de Brown vão jorrando pela totalidade do álbum, construindo um resultado que, com a mais preconceituosa das visões, poderia representar um total desastre, mas que, nas mãos do talentoso Danny Brown, torna-se apenas sinônimo de criatividade.

MCII09. MCII – Mikal Cronin

Gênero: Garage Rock

“MCII”, o segundo álbum em carreira solo de Mikal Cronin, é praticamente um tratado de melodias. Construído a partir de uma nova abordagem, que se afasta do conceito que Cronin explorara em seu primeiro disco, o presente registro não é apenas um trabalho capaz de destacar o músico na cena estadunidense, mas representa com louvor as novas possibilidades do garage rock. São as mesmas guitarras, as mesmas entonações e as mesmas temáticas líricas de outrora, só que agora abraçando conjuntos colossais de melodias quentes. Se antes Cronin pautava seu trabalho na exploração de riffs ruidosos, hoje são os rumos melódicos que marcam o tom.

Apoiado em instrumentações elegantes, que esbarram nas festividades do power pop e encontram na música alternativa da primeira metade dos anos noventa uma grande inspiração, “MCII” trabalha, música após música, para prender o ouvinte de forma natural. A acessibilidade é fácil, é verdade, mas Cronin consegue atingir uma sonoridade capaz de agradar o público de massa sem rumar o disco sob esta ótica. Tudo em “MCII” parece ser um preenchimento natural de todos os elementos que envolvem o artista e sua música.

Isso porque, no fim das contas, o intenso (e assertivo) trabalho de melodias oferece a nossos ouvidos uma audição inegavelmente agradável. Os ruídos são medidos, são tratados com cautela; os tradicionais elementos do garage rock são polidos para alcançar uma dimensão cativante, tão sensível quanto o rock colorido da década de sessenta. De fato, nomes como The Beach Boys, The Zombies e The Beatles parecem aparecer em pequenos detalhes do disco, amparando as inspirações naturais em nomes com Ty Segall, Dinosaur Jr. e Teenage Funclub.

The Next Day08. The Next Day – David Bowie

Gênero: Art Rock

Embora não precise provar mais nada pra ninguém desde os anos setenta, quando construiu alguns dos melhores trabalhos da história do rock, David Bowie necessitava voltar a ativa – afinal, o mundo ainda precisa do Camaleão. Além disso, é muito estranho ver um dos nomes mais irrequietos da música mundial entocado durante tanto tempo, como se fosse um urso em pleno inverno: desde 2003 Bowie não nos presenteava com um novo exemplar de estúdio.

Mas o fato é que a hora chegou, e enfim podemos nos deliciar com um novo álbum de Bowie, independente de quanto tempo ele tenha demorado. “The Next Day” é um ótimo trabalho de retorno, conciso e consistente, que mostra que o veterano músico inglês ainda tem muita lenha para queimar.

Aliás, do nosso ilustre time de veteranos não temos nada do que reclamar. Nos últimos tempos, os velhos nomes da música parecem ter recuperado a ânsia em construir grandes trabalhos, deixando claro o que é de conhecimento geral, mas muito jovens insistem em ignorar: na música, como em diversas outras áreas, idade não é documento. E é muito bom ver o grande Bowie acompanhando essa maré, criando um grande álbum e seguindo, quanto à qualidade, outros velhos nomes que têm voltado a se destacar nos últimos anos, como Paul Simon, Leonard Cohen, Bruce Springsteen e Bob Dylan.

Até porque, em “The Next Day”, Bowie recupera muitas das características fundamentais de sua música, fazendo-a soar dinâmica e camaleônica como no ápice de sua carreira. Não, “The Next Day” não está no mesmo patamar dos históricos registros de Bowie lançados lá na década de setenta, mas volta a apresentar suas diferentes facetas com uma consistência não observada nos últimos discos do músico. (Leia a resenha completa do disco)

The Electric Lady07. The Electric Lady – Janelle Monéa

Gênero: Pop/R&B

Embora artistas como Beyoncé, Justin Timberlake, Frank Ocean e The Weeknd tenham trabalhado para resgatar o velho R&B e transformá-lo em novidade, ninguém no cenário atual parece se agarrar tão bem às velharias da música negra norte-americana quanto Janelle Monéa. Indo dos clássicos da Motown às cores do OutKast, passando por nomes como Stevie Wonder, Michael Jackson e Prince, a cantora vem construindo uma carreira brilhante, que alcançou o ápice no clássico “The ArchAndroid”, de 2010, e agora vê em “The Electric Lady” uma sequência mais do que assertiva. Novamente inserida no cenário do filme “Metropolis”, de 1927, Monéa revitaliza a música do passado interpretando a androide Cindi Mayweather, em uma constante batalha entre o velho e o novo, a máquina e o humano.

Mesmo em um ambiente futurístico dominado por robôs, a artista consegue discutir temas extremamente humanos, fazendo com que Cindi Mayweather seja inclusive atingida pelo amor. Com lirismos impecáveis, que transitam entre temas tradicionais da música pop, mas que encontram uma novidade constante com sua ambientação em um cenário de ficção científica, o álbum transita entre o melhor do pop atual e a soul music de décadas atrás com invejável fluência. Monéa, indubitavelmente, sabe utilizar das melhores influências e ao mesmo tempo imprimir sua personalidade, com um andamento sonoro em que tudo soa certeiro e natural. Em poucos segundos, ela vai dos anos sessenta até o futuro sem que sequer percebamos tal amplitude.

É entre canções certeiras e participações mais do que pontuais que “The Electric Lady” vai se desenvolvendo. Nomes como Prince, Erykah Badu, Solange, Miguel e Esperanza Spalding ajudam a tornar o disco um verdadeiro quebra-cabeça de estilos, épocas e vertentes, vagando em proporções épicas por gêneros como hip hop, soul, rock, gospel, jazz e funk.

M B V06. M B V – My Bloody Valentine

Gênero: Shoegaze

É até surpreendente, de alguma forma, falar sobre o álbum em questão. Afinal, ao longo de duas décadas, o terceiro álbum do My Bloody Valentine passou de uma quase certeza a uma das maiores lendas da música contemporânea. Pode parecer incrível, uma ficção pós-apocalíptica, mas aqui finalmente ele está, mais de vinte anos após o lançamento do memorável “Loveless”. Eis aqui, enfim, o terceiro e tão aguardado álbum do quarteto liderado por Kevin Shields.

Mais do que as distorções sonoras que formam a identidade musical do grupo, a carreira do My Bloody Valentine parece ser, constantemente, atingida por distorções temporais. Tanto que nem “Loveless”, ápice artístico do grupo, deixou de ser relativamente atrasado: o registro precisou de mais de três anos de produção para ser finalizado, além de ter exigido um investimento tão alto que quase levou a Creation Records a falência. Agora (ou melhor, durante os últimos vinte anos), desgarrados de qualquer gravadora, Kevin Shields e seus pupilos entregam ao ouvinte um trabalho independente, lançado via web, mostrando tudo o que o grupo pensara, prepara e gravara durante todos esses anos que passaram.

Embora muita coisa tenha mudado do lançamento de “Loveless” para cá, é indiscutível que a força do My Bloody Valentine continua inalterada. Mesmo sem abandonar a sonoridade tradicional da banda, arquitetada em seus dois primeiros álbuns, o grupo irlandês, ciente da grande passagem de tempo, faz de “M B V” um registro que vai além de uma simples continuação de “Isn’t Anything” e “Loveless”. Kevin Shields, felizmente, não deixou de experimentar, de voltar o seu olhar para o futuro, enquanto tenta construir, com sua guitarra atmosférica, a perfeição dentro do shoegaze; por mais que diversas bandas novas, influenciadas pelo que o My Bloody Valentine fizera antigamente, tenham atingido um ineditismo maior dentro do gênero, não há como negar a grande novidade incluída dentro de “M B V”. Além de um conciso conjunto de nove canções, o novo álbum insiste em querer acrescentar, a cada instante de sua duração, algo a mais para a já consagrada sonoridade da banda, seja com novos experimentos ou com uma fantástica intensidade sentimental. (Leia a resenha completa do disco)

Shaking the Habitual05. Shaking the Habitual – The Knife

Gênero: Synthpop

Álbuns de música, quando bem intitulados, conseguem passar através de seu nome muito de seu conceito. O que dizer, portanto, de um álbum intitulado “Shaking the Habitual”? De fato, o que os irmãos Karin e Olof Dreijer desejam com o novo do álbum do The Knife é mexer com o que é considerado habitual. Fugindo de todas as obviedades possíveis, os suecos entregam a seus ouvintes não apenas um resultado positivo para toda a expectativa instalada em torno do lançamento, mas mais um clássico da música eletrônica. Conseguindo alcançar até mesmo o nível épico de “Silent Shout”, o duo surpreende o público mais uma vez.

Tematicamente mais coletivo que os demais álbuns do The Knife, “Shaking the Habitual” abandona o íntimo de seus criadores para ser construído acima da proposta que aborda “o fim da riqueza extrema”. Discutindo os rumos econômicos do mundo, bem como as crises que assolam vários países pelo globo, Karin e Olof Dreijer discutem a desigualdade tão bem quanto qualquer artista da música folk ou do hip hop. O disco realmente implementa novas possibilidades às gastas bases do synthpop, manuseando a música eletrônica de uma forma completamente inventiva, procurando fabricar, acima de tudo, uma musicalidade regada à novidade.

Desconstruindo sons, capturando vozes obscuras e passeando por inúmeras vertentes da música mundial, seja eletrônica ou não, o que o The Knife acaba alcançando, em “Shaking the Habitual”, uma atmosfera densa, complexa e deliciosamente ineditista. Nada soa repetitivo, programado, e até as inspirações são difíceis de ser captadas. É como se os suecos almejassem um espaço próprio dentro da música mundial, trabalhassem duro para se tornar intocáveis e conseguissem o resultado esperado sem nenhuma dificuldade. Mais do que buscando a evolução de seu som, o duo procura a louvação do público… E trabalhando de forma magistral, como seria possível não encontrá-la? Se você já era fã do The Knife, sinta-se homenageado pelo duo; se você ainda não é, então não perca tempo e aprenda logo a ser.

Loud City Song04. Loud City Song – Julia Holter

Gênero: Art Pop

Até as mais agitadas cidades encontram na madrugada um cenário silencioso de recolhimento. A intensidade do dia, com seus sons permeados pelos raios do sol, dá lugar à madrugada e sua total escuridão. Pessoas apressadas e automóveis em um vai-e-vem constante acabam se recolhendo em seus aposentos, e poucos se encorajam a enfrentar as ruas tomadas pelas trevas enevoadas expelidas pela atmosfera noturna. Enfrentando esse cenário obscuro e misterioso, Julia Holter arquiteta o que é não apenas o seu terceiro disco, mas o que parece ser, até hoje, sua maior obra. “Loud City Song” é um tratado sobre o silêncio e as sombras trazidas pela noite.

Se o que se pede, portanto, é um teor atmosférico, saiba que Julia Holter demonstra dominar como poucos artistas as texturas possibilitadas pelos sons sintéticos. Domando com primor os sintetizadores (ela inclusive tem feito shows com um equipamento gigantesco), a musicista encontra em uma perfeita ambientação musical uma adaptação certeira dos inventos setentistas de Brian Eno. As inspirações, porém, encontram no formidável manuseio de Holter um verdadeiro sentido de novidade, amplificado pelo modo enevoado em que as canções são trabalhadas.

Outro grande êxito de Holter é saber tornar “Loud City Song” um registro acessível. E o impressionante é perceber que isso acontece logo no trabalho mais obscuro da artista: apesar de mais “coloridos”, tanto “Tragedy”, de 2011, quanto “Ekstasis”, de 2012, não conseguiram alcançar de forma tão certeira os sentimentos do público quanto o presente registro.

Yeezus03. Yeezus – Kanye West

Gênero: Hip Hop

Dono de uma das mais competentes e inventivas discografias dos últimos tempos, Kanye West cada vez mais se destaca como uma das mentes mais privilegiadas da música atual, produzindo discos com maestria e se postando como um dos melhores rappers da história. Embora sua música se agarre a exageros, sendo o músico excêntrico e polemizador, não há como negar a qualidade criativa da carreira em estúdio que ele vem construindo desde 2004: álbuns como “The College Dropout”, “Late Registration”, e “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” se comportam como verdadeiros clássicos modernos, e não apenas do hip-hop, mas da música mundial em geral.

“Yeezus”, o sexto álbum solo do artista, pode não ser o melhor, mas é o mais surpreendente exemplar de seu catálogo até agora. Algo que poderia ser até considerado normal para um músico que trata de construir um universo único em cada álbum, explorando suas ideias efervescentes ao costurar com capricho uma colcha de referências retalhadas, sendo influenciado e influenciando diversos artistas. Mas, ao conferir os primeiros segundos do novo álbum, percebe-se nitidamente que o cara tratou de se superar como nunca; “Yeezus” tenta reconstruir a imagem de West ao desconstruir tudo o que ele havia feito até agora, fazendo com que ele renasça quando alguns esperavam, erroneamente, uma continuação do que havia sido apresentado em ”My Beautiful Dark Twisted Fantasy”.

As batidas sintéticas da primeira faixa, ”On Sight”, já procuram dar o tom da sonoridade do disco, um legítimo álbum futurista e experimental, utilizando (e criando) o que há de mais atual na cena atual do hip-hop. Embora, em um primeiro momento, o cenário possa ser relacionado ao que se desenvolvera em 2007, no álbum “Graduation”, aos poucos o ouvinte vai sendo levado a uma atmosfera ineditista, se afastando da “pessoa Kanye West” para ser envolvido pelo universo que rodeia o compositor. Algo curioso, ao percebemos que “Yeezus” se trata de um disco mais “solitário”, com menos participações… Talvez Kanye West esteja vivendo um processo de mudanças, tanto pessoais quanto artísticas, e anseie desgarrar-se (mas não por completo) da imagem egocêntrica que construiu. (Leia a resenha completa do disco)

Reflektor02. Reflektor – Arcade Fire

Gênero: Indie Rock

Um dos maiores méritos do Arcade Fire é a sua incrível capacidade de se reinventar. Além de ser uma das pouquíssimas bandas que contém apenas ótimos exemplares em sua discografia, o grupo pode gabar-se de nunca ter estacionado no lugar-comum. Quem esperava, em 2007, que eles utilizassem as aclamadas bases de “Funeral” para construir a continuação de sua carreira, acabou se esbarrando em “Neon Bible”, um disco que parecia já deixar muito claros os conceitos pregados pelo coletivo canadense. O Arcade Fire não teme em percorrer novos caminhos, mesmo que isso signifique o abandono de fórmulas que deram, no passado, um ótimo resultado. E agora, depois de ganhar o Grammy de melhor álbum do ano de 2010 com “The Suburbs”, a banda investe mais uma vez na mutação ao percorrer uma epopeia dançante em “Reflektor”, o quarto disco de sua carreira.

O conceito do disco começou a ser construído, primeiramente, a partir de uma viagem realizada por Win Butler e Régine Chassagne ao Haiti, terra-natal da família da musicista. Considera por Butler como uma experiência que mudou a sua vida, a permanência do casal no país mais pobre das Américas abriu-lhes as mentes a uma visão de mundo que jamais haviam experimentado. Mergulhando sem temores na cultura daquele povo tão sofrido, tanto Butler quanto Chassagne encontraram, mesmo em meio a tantas dificuldades, uma tradição musical pautada na dança e na alegria. Se em seu trabalho anterior a banda havia ficado presa aos subúrbios onde seus membros cresceram, agora, com “Reflektor”, há o desgarramento das raízes para a conquista de uma percepção mais universal. Não faltam, portanto, toques tropicais e de descendência africana às bases do registro.

Mas como Win Butler já avisava tempos antes do lançamento do disco, “Reflektor” não é uma mostra do Arcade Fire tocando música haitiana. Há uma constante incorporação de elementos caribenhos, é verdade, mas estes flertes formam apenas uma parte do generoso quebra-cabeça de inspirações que fomenta o trabalho. Presença mais do que atuante durante os processos de gravação, o produtor James Murphy, do LCD Soundsystem, coligou de forma absolutamente assertiva seus rumos eletrônicos com a sonoridade característica da banda canadense. Ansiosos por elevar ao épico os toques sintéticos que permearam ”Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, a penúltima faixa de “The Suburbs”, os membros da banda não pouparam interesse no casamento do Arcade Fire com as pistas de dança. (Leia a resenha completa do disco)

Modern Vampires of the City01. Modern Vampires of the City – Vampire Weekend

Gênero: Indie Pop

É curioso como a melancolia do nosso cotidiano pode se apresentar atraente: tudo depende do ponto de vista. Os cenários urbanos, repletos de ruído e concreto, podem se tornar poéticos se imprimirmos um olhar diferente ao mundo que nos cerca. Esquinas podem se tornar versos, rimando as ruas que se encontram. Muros se tornam melodias, e os congestionamentos uma grande sinfonia. Para tanto, porém, um olhar extremamente sutil torna-se necessário… Só com uma enorme sensibilidade névoas de poluição conseguem ser transformadas em nuvens de aroma suave.

Com “Modern Vampires of the City”, o Vampire Weekend faz do mundo atual o cenário para uma obra de arte. Encontrando nas paisagens urbanas de Nova York o limiar de uma sonoridade afetuosa, Ezra Koenig e sua banda conseguiram transformar um álbum vanguardista, recheado de experimentalismos, em um dos registros mais cativantes dos últimos anos. Através de passeios por praças, ruas e avenidas, entre multidões de pessoas e filas de automóveis, aspectos da vida moderna são tratados com imensa assertividade pela banda, mesclando letras, melodias, coros de vozes e seções de percussão com brilhantismo para construir um registro que a todo instante parece tender ao épico. Dos primeiros segundos de “Obvious Bicycle” ao silêncio final de “Young Lion”, tudo parece ser tomado por uma áurea que transcende entre o pueril e o grandioso.

“Modern Vampires of the City” não é só mais um álbum surpreendente… É um disco mágico, que excita através de seu inteligentíssimo jogo de detalhes. Seja em seções tomadas pelos elementos da música pop, ou em canções que parecem ter saído dos ares mais coloridos da música sessentista, pequenos detalhes instrumentais e vocais rumam o trabalho rumo a seu magnífico resultado. No fim, um conjunto seminal se apresenta, saindo de proporções tímidas para alcançar uma verdadeira explosão musical.