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1979: Rita Lee – Rita Lee

Rita Lee (1979)

Por: Renan Pereira

No final dos anos setenta, Rita Lee já era uma pop star, embora até mesmo o conceito de “música pop” ainda fosse um pouco incerto. Se postando desde os últimos anos da década de sessenta como uma das principais vozes femininas da música brasileira, quando fez parte do revolucionário movimento tropicalista enquanto integrante do lendário grupo Os Mutantes, a paulistana sempre foi uma estrela de brilho inegável, uma figura intrigante, revolucionária e inteligente. Portanto, nunca foi surpreendente vê-la a frente de seu tempo.

Como todos sabem, assim foi enquanto ela teve a companhia de Sérgio Dias, do produtor Liminha e de seu antigo marido, Arnaldo Baptista, na banda mais revolucionária do rock tupiniquim. Mas a relação extremamente conturbada com o companheiro, que detinha uma conhecida personalidade auto-destrutiva, foi criando, de forma clara, um prazo de validade quanto à presença de Rita no conjunto. A própria incapacidade dos Mutantes em fazer de “Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida” um registro assinado pelo conjunto serviu para que o público visualizasse que, uma hora ou hora, Rita Lee seria chutada da banda. O fato é que, em 1972, a banda encontrava-se ansiosa para gravar um novo disco, aproveitando a chegada no Brasil da mesa de gravação de 16 canais; mas, por contrato, o grupo não poderia lançar mais nenhum disco naquele ano. O jeito foi lançar o disco creditando-a a Rita Lee, que era uma moça bonita e, por isso, a figura mais “vendável” da banda… No fim, a fama de Rita se elevou a um ponto que não cabia mais no conjunto.

Naquele mesmo ano, de forma controversa, Rita saía do grupo, ao mesmo tempo em que se divorciava de Arnaldo Baptista. Seu primeiro esforço verdadeiramente fora dos Mutantes ocorreria em 1973, em parceria com Lucia Thurnbull no duo As Calibrinas do Éden – que acabou se tornando, na realidade, no embrião do que viria a ser o grupo Tutti Frutti. Nele, Rita pôde finalmente ditar todas as rédeas da carreira, flertando intensamente com a música radiofônica… Se Sérgio Dias e seus novos mutantes passaram a investir em um rock virtuoso e chato, Rita Lee soube utilizar de forma magistral o seu carisma para se tornar um sucesso ainda maior entre o público de massa.

Em 1975, com o lançamento de “Fruto Proibido”, o segundo disco do Tutti Frutti, Rita Lee alcançava sua consagração como artista. As grandes conquistas pessoais, porém, viriam nos dois anos seguintes, quando casou-se com o músico Roberto de Carvalho e deu a luz a seu primeiro filho, respectivamente. Em contrapartida, a presença incisiva de seu novo marido como “guru” do Tutti Frutti acabaria partindo a banda em dois pedaços em 1978: como o nome da banda pertencia a Luis Sérgio Carlini, Rita Lee foi forçada a uma nova mudança.

Mas, dessa vez, tudo parecia ocorrer de uma maneira muito natural. Já experiente, e tendo o apoio total de Roberto de Carvalho, Rita pôde traçar essa nova empreitada com mais tranquilidade, buscando comprovar sua hibridez. Com isso, em 79, lança-se o disco “Rita Lee”, o primeiro trabalho genuinamente solo da artista. Nele, a cantora tratou de se reinventar mais uma vez: surpreendentemente, as bases sonoras do Tutti Frutti, que tanto haviam sido louvadas, acabaram sendo deixadas de lado em nome de um novo estilo, com fortes influências na música que era feita naquela época lá nas terras do Tio Sam.

Como a primeira faixa, a convidativa “Chega Mais”, já anunciava, a levada era diferente: dançante, leve e nitidamente próxima dos anseios do público da época. Se os brasileiros queriam uma extensão genuína das evoluções da música disco, Rita Lee estava entregando, logo na primeira faixa, o maior dos presentes: um grande convite à festa, envolto por uma bateria swingada e uma forte presença de teclados. Deixar passar em branco a performance de Roberto de Carvalho na guitarra também seria um pecado, pois sua qualidade rítmica poderia fazer inveja a qualquer Nile Rodgers.

A segunda, “Papai me Empresta o Carro”, apesar de conter arranjos mais próximos do que Rita e Roberto faziam no Tutti Frutti, com um andamento mais próximo do rock, é uma grande antecipação do conceito bem-humorado que envolveria o gênero nos primeiros anos, assim como o hit “Meu Doce Vampiro”, com seu viés romântico e seus flertes com o R&B, parecia servir como norte para o trabalho que artistas como Biafra, Dalto, Gal Costa e Marina Lima desenvolveriam algum tempo depois. Assim, embora estivesse ruminando sons característicos do fim dos anos setenta, Rita Lee estava inaugurando a década de oitenta para a música brasileira.

Com uma letra crítica quanto à rotina, a quarta, “Corre-Corre” posta-se como um primor rítmico, uma faixa deliciosamente dançante que poderia muito bem se encaixar na extensão do último disco do Daft Punk, “Random Access Memories”, tido hoje em dia como um “álbum moderno”. Era a faceta inovadora de Rita Lee agindo novamente, algo que o grande sucesso alcançado pela faixa “Mania de Você” consegue comprovar com nitidez.

A base sonora de “Elvira Pagã”, a seguinte, não acompanha o nível das demais faixas do disco, mas os versos sarcásticos de Rita Lee acabam compensando a falta de qualidade do instrumental. Falando da capacidade lírica de Rita, a sétima, “Maria Mole”, escrita em parceria com o produtor Guto Graça Melo, é mais um divertido número que comprova o bom-humor insuperável da cantora: propositalmente suave até mesmo nos arranjos, a canção se comporta como um verdadeiro tratado sobre a extrema preguiça.

É bem provável que a nova geração, que hoje vê em Rita Lee uma velhinha maluca e bipolar, não tenha conhecimento do ativismo da cantora em prol da renovação da sempre tendenciosa MPB – que, no término dos anos setenta, vivia tempos nebulosos. Motivada por sua polêmica prisão por porte de maconha (tida na época como um dos atos mais truculentos da ditadura militar), a musicista compôs em parceria com Paulo Coelho, em 1976, a crítica “Arrombou a Festa”, que claramente ironizava os rumos da música popular brasileira. Em 79, motivada por um cenário envolto por nomes horrendos como Sidney Magal, Rita compôs uma “segunda parte” para o single, que acabou fechando o seu verdadeiro primeiro álbum em carreira solo de forma magistral.

Nos dois anos seguintes, seriam lançados os dois últimos grandes álbuns de Rita, que viria a cair em um declínio abissal, resultando na artista praticamente insignificante que ela é hoje em dia. Porém, como nunca podemos nos prender apenas ao presente, deixar de louvar a contribuição de Rita para a música brasileira seria de uma ignorância incrível, negando que é o passado que nos construiu. A década de oitenta foi sim muito importante, e, no Brasil, foi Rita Lee quem a iniciou.

NOTA: 8,4


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2014: Blank Project – Neneh Cherry

Blank Project

Por: Renan Pereira

A sueca Neneh Cherry andava esquecida. Afinal, sem lançar um disco há 17 anos, a cantora parecia fadada a continuar presa eternamente aos anos noventa. Pouco conhecida pela geração atual, Cherry marcou aquela década ao se apresentar como um dos pilares europeus da renovação do R&B que então ocorria. Para se ter uma ideia, a cantora foi uma das primeiras artistas a investir, com vigor, na mistura da música pop com o hip-hop que imergia com força no cenário mundial: seu primeiro disco, lançado ainda em 1989, já trazia como colaborador o produtor britânico Robert Del Naja (o 3D do Massive Attack), que apenas alguns anos depois seria reconhecido mundialmente como um dos cardeais do trip hop. Sim, senhoras e senhores, Neneh Cherry foi, desde o início de sua carreira, uma figura importantíssima. Em seus discos seguintes, “Homebrew”, de 1992, e “Man”, de 1996, a musicista tratou de incorporar ainda com maior intensidade um conjunto de elementos modernos da música pop, fazendo de sua carreira uma genuína representante das grandes mudanças ocorridas no modo de se produzir música naqueles tempos.

Se Cherry foi inovadora lá nos já longínquos anos noventa, o que então poderíamos esperar dela em seu tardio retorno? Estaria a cantora voltando à ativa apenas para relembrar suas glórias do passado? Para nossa sorte, os 50 anos de Cherry não significam nenhum sinal de preguiça. Surpreendendo a todos, a sueca está não apenas de volta, mas se mostra disposta a inovar mais uma vez. Contando com a produção do renomado Four Tet, “Blank Project” se caracteriza como um registro inegavelmente atual de uma veterana que utiliza toda a sua experiência para, mais uma vez, brincar com as nuances mais modernas da música.

A faixa inaugural, “Across the Water”, já escancara o conceito pelo qual o disco é guiado: minimalista e refinada ao mesmo tempo, a canção exala fortes sentimentos do início ao fim, enquanto batidas cruas deixam a cantora brilhar livremente. Talvez o maior acerto de Four Tet esteja, justamente, na ideia de fazer de “Blank Project” um registro que destaque, a todo instante, o poder performático de Cherry. Portanto, assim também não poderia deixar de ser a faixa-título: o produtor marca sua presença com um trabalho pra lá de caprichado no tratamento dos rumos sonoros, mas é Cherry que brilha em meio a uma estrutura eletrônica extremamente moderna. A seguinte, “Naked”, mantém o conceito: batidas fortes e penetrantes, e arranjos crus praticamente ausentes de maiores detalhes, fazem com que a emoção emanada pelo vocal da cantora se torne novamente o ponto central da audição.

A linha é mantida em todo o registro, mas se engana quem pensa que, devido a isso, o poder de surpreender constantemente se distancia de seu andamento: mesmo em uma sucessão de faixas muito parecidas, idênticas em conceito, Neneh Cherry trata de abrir nossas bocas ao apresentar sempre um “algo a mais”. Na seminal “Spit Three Times”, por exemplo, a cantora se derrama em confissões, admitindo suas próprias fraquezas em uma faixa poderosa, um hit em potencial que contém um belo acerto melódico, apesar de se caracterizar como a inesperada união do eletrônico com o gótico. A quinta, “Weightless”, é, apesar desse título, uma das canções mais pesadas do disco: contando com uma estrutura ruidosa, a faixa derrama novas facetas do introspectivo de Cherry enquanto revela ao ouvinte os primeiros dos poucos instantes “pista de dança” do registro.

“Cynical” é uma daquelas canções que arranham nossas percepções, fazendo com que o ouvinte viaje sem moderação na atmosfera instável proposta por Cherry e seu produtor: novamente, uma rede incerta de batidas e pequenos efeitos é costurada com total e absoluta combatividade, fazendo com que as emoções até mesmo briguem entre si. Já “422” é uma canção diferente, que se preocupa mais em construir uma ambientação para o íntimo sombrio de Cherry do que em fazer com que ele exploda em uma espiral: uma calmaria que funciona como um respiro em meio a uma sucessão de faixas tão agressivas.

Se dançar é o que você quer, nada melhor que o poderoso single “Out of the Black”, em que Cherry brinca com as nuances do pop eletrônico na companhia de uma das maiores representantes do gênero: sua compatriota Robyn. Continuando no mesmo clima, a seguinte, “Dossier”, até ensaia um cenário mais leve, mas somente para nos enganar: apesar de dançante, a canção se comporta como um número hipnótico, em que o vocal da musicista dança em meio a batidas enlouquecedoras, inserindo-se em um ambiente regado a muitas drogas sintéticas.

A décima e derradeira canção é “Everything”, condensando toda a forte temática emotiva do álbum em mais uma estrutura convidativa à dança, mostrando, de certa forma, o viés ascendente que envolve o conceito do álbum… Enquanto, no início, Cherry se utiliza de uma atmosfera dolorida para confessar ao público seus segredos, no fim ela apenas quer dançar; uma prova de que, mesmo em meio a tanta dor, o preceito que rege a mente da cantora é a ideia da superação. Nada mais plausível, afinal, a própria Neneh Cherry revelou o fato que motivou suas novas canções: ela as compôs, na companhia do seu marido, Cameron McVey, impulsionada pela perda de sua mãe (a artista plástica Monica Karlssom), ocorrida em 2009. Surpreso? Como, enfim, a cantora pode utilizar desse triste acontecido para, na parte final do disco, cair na dança?

Tudo é complexo e muito instável, e mesmo que seja muito difícil descrever as intenções de Cherry, há um ponto que é indiscutível: ela está mais do que certa. Ao voltar depois de tanto tempo, ela nos ajuda a perceber que nunca devemos duvidar dos velhos nomes, por mais esquecidos que eles estejam… Eles geralmente não perdem a capacidade, e grande seres que são, são capazes de se adaptar sem maiores problemas aos dias atuais. Afinal, Neneh Cherry mostra que é possível ser uma musicista com cinquenta anos de vivência e ter o mesmo pique de uma garota de vinte anos: apesar de ser veterana, sua obra continua carregada de frescor.

NOTA: 8,5

Track List:

01. Acroos the Water [03:28]

02. Blank Project [04:05]

03. Naked [03:57]

04. Spit Three Times [04:18]

05. Weightless [05:46]

06. Cynical [04:10]

07. 422 [05:21]

08. Out of the Black [05:15]

09. Dossier [05:12]

10. Everything [07:20]

2014: Vista Pro Mar – Silva

Vista Pro Mar

Por: Renan Pereira

Embora venha sendo encarado, pela maioria da crítica especializada, como um “álbum de crescimento”, “Vista Pro Mar”, o segundo disco do capixaba Silva, deve ser encarado através de outra ótica. Até porque são muitas as diferenças entre o presente registro e  o álbum de estreia do músico, “Claridão”. Que Silva cresceu, evoluiu, isso é mais do que óbvio – e é, na verdade, um processo totalmente natural para um jovem que, logo em seu primeiro disco, foi rotulado como um dos grandes nomes da nova safra de artistas brasileiros. Seu público aumentou muito, e de um desconhecido promissor, ele acabou se tornando o grande queridinho dos hipsters: se faltava algo para atestar o crescimento de sua popularidade, a participação do músico na última edição do festival Lollapalooza serviu para mostrar que, hoje em dia, Lúcio Silva Souza é um nome respeitado dentro do cenário pop tupiniquim.

As mudanças, porém, não se concentram apenas na forma com que o público (e até mesmo a crítica) olha para Silva. Enquanto “Claridão” se comportava como uma grande novidade dentro da música brasileira, trazendo para nossas paisagens um estilo de música pop que há um bom tempo já estava sendo feita no exterior, “Vista Pro Mar” é um ponto de continuação. Tentando se desfazer do precipitado rótulo de “experimental” que recebera em seu primeiro trabalho, Silva agora parece querer brincar com as maiores tradições da música destinada às massas sem que o ouvinte possa ser pego de surpresa. Em suma, não há desafios. O que anos atrás era inédito e pulsante agora é convertido em cenários bucólicos, em paisagens sonoras que são bordadas voltando-se à contemplação.

O título do álbum já entrega sobre qual atmosfera Silva está investindo: um registro veranil, “Vista Pro Mar” é resultado de um sereno olhar para o oceano, trazendo à tona todos os sentimentos que a brisa litorânea é capaz de amplificar. Em meio às batidas das ondas e ao som das gaivotas, o músico divaga sobre o amor com a mesma sinceridade que, em 2012, ele parecia musicar aquele ano em que muita gente jurava que o mundo acabaria.

Portanto, se você deseja embarcar em “Vista Pro Mar”, se prepare para encarar em um trabalho confortante, de fácil audição, e que certamente te fará relaxar. Entre batidas modernas e uma melodia cantarolável surge a primeira faixa, iniciando os trabalhos de maneira competente: bastam os primeiros segundos para sentir o clima que embalará todo o registro. Silva é um ótimo cantor e, principalmente, um exímio produtor, manejando os sintetizadores de maneira inteligente, sabendo prender a atenção do ouvinte. Há quem reclame de suas letras simples – e em “Vista Pro Mar” elas estão, de fato, ainda mais simples. Mas quem disse que o simples não pode ser sofisticado? A poesia de Silva pode até não ser tão rebuscada, mas funciona perfeitamente como uma “acompanhante” para seus atraentes rumos sonoros.

Conhecendo a atmosfera do trabalho, o ouvinte se encontra pronto para percorrer um registro marcado por uma sonoridade tranquila, de fácil audição até para quem está musicalmente desatualizado. Não é surpreendente que haja, dessa forma, um constante sentimento de nostalgia: Silva faz uso de referências não tão novas para construir um som que é, inegavelmente novo. “Atual” é um adjetivo correto, mesmo quando canções como “É Preciso Dizer” se embebedam de referências oitentistas. Um single de potencial, a segunda faixa trabalha como uma boa canalizadora de emoções para a dança leve de “Janeiro” e seu positivismo harmônico.

Em um trabalho tão bonito, construído para ser uma adorável audição em um clima litorâneo, não poderia faltar aquele sentimento único de observar o mar durante o pôr-do-sol do último dia de férias: mais do que um tratado sobre a saudade de um momento que ainda não acabou, “Entardecer” dá ênfase à bela contemplação que foi presenciada. Com a companhia da doce voz de Fernanda Takai, Silva faz da quinta faixa, “Okinawa”, a canção mais linear do disco: uma simples música de amor, com palavras simplórias, mas que funciona com primor – principalmente devido ao casamento perfeito entre as vozes dos cantores.

É importante dizer que um dos maiores êxitos do disco está na forma com que Silva utiliza seu recolhimento como um bem público, fazendo de seus mais íntimos momentos matérias-primas de um catálogo de canções oferecidas aos ouvintes; mesmo se isolando em uma praia, o músico sabe como nos atingir. Vide a canção “Disco Novo”, com uma analogia que mostra como geralmente a pressão por um novo lançamento atinge os iniciantes que se dão bem em seu álbum de estreia… Se Silva estava sendo “pressionado” para lançar algo ao nível de “Claridão”, ele encontra na naturalidade o ponto a ser explorado: “Vamos, vem ouvir”, ele convida, encarando um novo disco como uma abertura para novos sentimentos. Todo esse teor de novidade, porém, acaba encontrando maior significado em “Universo”, quiçá a melhor faixa do álbum: um número altamente dinâmico, rico em detalhes, que nos dá a certeza sobre a evolução de Silva como produtor.

Outro turbilhão sonoro abraça o ouvinte em “Volta”, com mais uma certificação da habilidade do músico nos sintetizadores, perfazendo mais uma canção levemente dançante… Conceito que é abandonado brevemente quando surge a nona faixa, “Ainda”, composta por arranjos acústicos, e ambientada na máxima introspecção do disco – que, de certa forma, se comporta como um ponto fora da curva. Mas o respiro dura pouco, e em “Capuba”, a “eletrônica praieira” de “Vista Pro Mar” retorna com tudo, em mais uma ótima concepção de arranjos.

Interessante perceber que, embora seja mantido sempre na mesma temática, nas mesmas ambientações, “Vista Pro Mar” chega ao seu desfecho, com a canção “Maré”, sem enjoar o ouvinte. Na verdade, não seria de nada ruim se houvesse ainda mais duas faixas a explorar o conceito central: prova de que as fichas apostadas por Silva deram um bom resultado. Mesmo construindo um disco que não instiga, não surpreende, o músico parece ter acertado em todas as suas escolhas, querendo deixar claro que nem só de inventos pode viver um grande trabalho.

Até por isso, o presente registro não se comporta como um clássico – algo que “Claridão” só é devido ao contexto da época em que fora lançado. Mas Silva não quis fazer de “Vista Pro Mar” um grande clássico da música. Segundo o próprio, este disco foi criado em um momento diferente, sob circunstâncias distintas e, obviamente, com outras intenções. Portanto, para entender o álbum, é necessário vê-lo como um inofensivo produto da nova música pop brasileira, um álbum tranquilo que oferece ao público, a todo instante, melodias cativantes e palavras bonitas, diminuindo as pretensões a fim de alcançar uma fácil afinidade com o ouvinte. Se você esperava que Silva fosse te surpreender, acabará abismado justamente por ele não ter surpreendido.

Sim, o caminho tomado pelo músico é reto, límpido, fácil de seguir. Aí vem a pergunta: um grande artista precisa se arriscar? Nem sempre. O público de massa prefere músicas que possam ser facilmente digeridas, e quem pensa que a complexidade é um ponto-chave para construir um grande trabalho deve começar a aprender o que é a música pop. Para nossa sorte, disso Silva parece saber muito bem.

NOTA: 8,3

Experimente: O indie-pop de Sky Ferreira

Sky Ferreira

Por: Renan Pereira

O blog está entrando em uma nova fase, com a inclusão de novas seções. Uma destas é a seção “Experimente”, que levará ao leitor uma breve apresentação de novos nomes de destaque da música (nacional ou internacional). Para começar, nada melhor do que falar sobre uma das novas artistas mais comentadas dos últimos três anos: Sky Ferreira.

Nascida em 8 de julho de 1992, Sky Tonia Ferreira tem se tornado um dos nomes mais promissores do cenário indie/pop. Detentora de descendências brasileiras, portuguesas e indígenas norte-americanas, a cantora foi alocada no mundo da música ainda quando criança: criada pela avó, acabou morando próxima de Michael Jackson. “Nós ficamos amigas dele”, contou Ferreira, em entrevista à BBC Radio 1. “Quando eu nasci, fui criada em torno dele, e eu sempre o vi. Tive férias com ele e coisas assim”.

Aos treze anos, a fim de refinar a sua voz, Sky Ferreira começou a fazer aulas de ópera. Este fato, em especial, mostra-se de fundamental importância para entender seus rumos vocais, que frequentemente emprestam do canto lírico as suas bases. Pouco tempo depois, com um perfil no Myspace, ela começou a chamar a atenção de produtores através de suas primeiras demos, inspiradas na música de grandes expoentes da música pop… Bebendo dos conceitos de artistas aclamados pela crítica (como Prince, Madonna e Alice Cooper) ou pelo público (como Britney Spears, Gwen Stefani e Nanci Sinatra), Ferreira foi, aos poucos, se tornando um dos destaques da nova geração da música pop.

Após ter assinado com a Parlophone em 2009, ela apareceu no vídeo de “Pop the Glock”, da cantora Uffie, e estrelou, subsequentemente, o filme independente “Putty Hill”. Uma artista completa, Sky Ferreira sempre trabalhou para construir uma figura de impacto: emprestando das divas do mundo pop a necessidade de valorizar a imagem, ela acabou ficando naturalmente apta a trabalhos de modelo e atriz. Em 2010, lançou seus primeiros singles: “17”, “One” e “Obsession”.

Seu primeiro EP, “As If!”, foi lançado em março de 2011 e, a partir daí, o hype criado em cima de sua imagem só aumentou: sua aparição em campanhas publicitárias e capas de revistas elevaram a sua fama, ajudando a criar, enfim, a sex-symbol teen que se propunha. Para alimentar ainda mais esta personalidade, a canção “Sex Rules” foi lançada como single.

Em meio a especulações sobre a data do lançamento de seu primeiro álbum de longa duração, um novo EP acabou sendo apresentado ao público: em outubro de 2012, “Ghost” veio à tona, incrementando elementos à sonoridade cada vez mais rica de Sky Ferreira. Em conjunto, os singles “Red Lips” e “Everything Is Embarrassing” foram lançados.

Porém, finalmente, o primeiro álbum da cantora tem data para ser lançado; esperado para o fim do mês de outubro, “Night Time, My Time” deve seguir a sonoridade dos EP’s, mas aproximando cada vez mais Sky Ferreira do grande público… Está nascendo uma nova grande estrela da música pop? Com o lançamento de seu último single, “You’re Not the Only One”, já é perceptível a fácil acessibilidade que o disco apresentará. Se o melhor modo de alcançar a aclamação é trabalhar aos olhos do grande público, a jovem parece saber muito bem disso.

1980: Dirty Mind – Prince

Dirty Mind

Por: Renan Pereira

Se fosse possível citar apenas um disco que bordou os rumos do pop oitentista, este seria “Dirty Mind”. Por mais que “Off the Wall” tivesse criado o mito Michael Jackson, e a música disco já começasse a rumar seus grooves por outros caminhos, foi Prince que, na realidade, divorciou a música pop dos sentimentos setentistas. Algo que o artista de Minneapolis, Minnesota, já vinha ensaiando desde 1978: tanto “For You”, seu debut, quanto seu auto-intitulado segundo álbum, já emanavam algum cheiro de novidade, embora ainda prendendo-se aos anos setenta em função das intenções comerciais. Contudo, mesmo que ainda timidamente, os elementos que fariam de Prince um dos mais completos músicos de sua geração já estavam se delineando.

O fato é que “Dirty Mind”, seu terceiro registro em estúdio, foi a explosão que faltava para Prince se elevar ao supra-sumo da música norte-americana. Uma gravação completa, consistente e ineditista, que se comporta como uma verdadeira ode à dança, impregnando o ritmo na mente de qualquer ouvinte e fazendo até o mais enferrujado dos esqueletos balançar. Misturando de forma excitante várias vertentes, como rock, funk, soul, disco e R&B, o álbum consegue prender naturalmente do início ao fim, através de sua musicalidade surpreendentemente rica… Prince tinha apenas 22 anos quando o disco foi lançado, mas já se mostrava um mestre nas artes de estúdio: sua produção conseguiu criar o cenário perfeito para aconchegar suas melodias, seus grooves e suas letras especialmente corajosas. Vale a pena lembrar que Prince foi um dos primeiros artistas a falar abertamente sobre sexo dentro da música pop.

E sua música é extremamente sensual. “Dirty Mind”, como seu próprio título pode deixar escapar, não é um disco feito para crianças ou vovozinhas: Prince revela seus mais picantes desejos, seduz suas ouvintes femininas e doutrina o público masculino por caminhos nada pudicos. De fato, se hoje existe uma infinidade de artistas pop que usam e abusam da sensualidade para construir tanto sua imagem quanto sua base musical, tenha a certeza de que todos citam (ou pelo menos deveriam citar) Prince como uma grande influência.

O álbum, porém, não consegue soar atual trinta e três anos depois de seu lançamento. O que não chega a ser um demérito, pois não são poucos os clássicos oitentistas – “Thriller” que o diga – que amarelaram devido à poeira. Os sintetizadores soam datados, e qualquer produção barata de hoje em dia conseguiria dar mais fluência e destaque ao som dos instrumentos. Por isso, exige-se do ouvinte um exercício que em um primeiro momento não parece lá muito fácil, mas que, no fim, mostra-se altamente recompensador: transferir-se para o início dos anos oitenta. Em meio a tanta desconfiança, ao pessimismo dos mais puristas (que viam a primeira decadência do rock clássico, em detrimento ao crescimento dos trabalhos comerciais), Prince mostrou que as propostas oitentistas mereciam uma chance… Ele compunha para as massas, almejando sucesso, mas sem abandonar o anseio por evolução.

É impossível não sentir-se contagiado pela sonoridade pulsante da faixa-título, que inicia o disco de forma satisfatória: permeada por uma qualidade rítmica invejável, a canção “Dirty Mind” é praticamente um convite (cheio de terceiras intenções) para cair na dança. E enquanto prende a atenção dos ouvintes com sua proposta sonora energética, Prince vai deixando escapar toques nada tímidos de sua perversão. Ele quer seduzir, e não pretende esconder seus desejos.

Em “When You Were Mine” o músico abraça os elementos da New Wave através de uma concepção deliciosamente melódica; é importante notar que a música seria, três anos depois, regravada por Cyndi Lauper no igualmente clássico álbum “She’s So Unusual”. Se a segunda faixa mostrou quão boas poderiam ser as interferências das “atualidades” na música de Prince, a terceira, “Do It All Night”, é um refino dos ideais da disco music, retirados lá da metade da então década passada. Se o assunto é música pop, o que há de mais assertivo do que os festejos, a celebração da juventude? Prince, um show-man, sabia como poucos a arte de vender o seu peixe… Parecia captar com maestria os anseios do público, trabalhá-los dentro de suas próprias convicções para depois entregar trabalhos certeiros, que vendiam bem e agradavam os sempre desconfiados olhares da crítica.

A quarta, “Gotta Broken Heart Again”, é uma balada agradável, em que Prince novamente se agarra nas “novidades” da interação entre o pop e o rock do movimento New Wave: uma das faixas mais convencionais deste disco que, de convencional, pouca coisa tem. Prince escancara sentimentos utópicos em “Uptown”, imaginando um lugar livre de ódios e racismo; se faltava algo para constatar a qualidade temática de suas letras, eis uma canção de cunho político, defendendo os homossexuais e postando-se totalmente a favor da liberdade de expressão… Hoje em dia, quase um lugar-comum entre os astros da música pop, mas um ato de coragem no mundo ainda machista do começo da década de oitenta.

Falando sobre os instrumentos, algo te impressiona? Certamente sim… Afinal, tudo é executado com maestria, encaixando-se perfeitamente às bases e aos conceitos do disco. E se você ficar sabendo que todo o instrumental é executado apenas por uma pessoa, e que essa pessoa é o próprio Prince? Incrível, não? Pois é… Além de ser um grande letrista, um produtor perfeccionista e um astro pop, Prince Rogers Nelson mostrava uma notável habilidade com os mais variados instrumentos: apesar de ser, hoje em dia, mais reconhecido pelo trabalho na guitarra, o cara sempre conseguiu mandar igualmente bem na bateria, no baixo, nos teclados e em mais meia-dúzia de instrumentos. Praticamente um Paul McCartney do pop norte-americano, e sem superestimar.

Para deixar o disco ainda mais quente, todo o ritmo e a sensualidade natural da música funk são explorados sem nenhuma moderação na controversa “Head”, a mais polêmica e corajosa faixa de “Dirty Mind”: cantando explicitamente sobre sexo oral, Prince acabou, obviamente, dividindo opiniões… O fato é que, independente dos “porquês”, se trata de uma ótima canção, que não faz rodeios para esclarecer a sua proposta. Além disso, é muito provável que “Head” seja a grande precursora das músicas pop com letras explícitas, que exigem dos órgãos reguladores aquele famoso selo “parental advisory”.

“Sister” é um mergulho no rock n’ roll, enquanto a última, “Partyup” é um número realmente pensado para as festas. É, de fato, impressionante como um jovem Prince conseguiu reunir com tanto primor inúmeros gêneros em apenas um álbum, e sem que nada soasse deslocado. Apesar de aventureira, a sonoridade de “Dirty Mind” consegue se manter heterogênea do início ao fim, arquitetando os rumos da música urbana dos primeiros anos da década de oitenta através de concepções minimistas, dançantes e altamente acessíveis.

Se Prince é um dos magos da música pop, eis aqui o seu primeiro grande ato: “Dirty Mind” não somente elevou o artista ao topo, mas construiu uma nova forma de sentir e pensar a música pop. Se, de lá para cá, artistas como Madonna, Cyndi Lauper, Justin Timberlake e Janelle Monáe estabeleceram sua música em um encontro dançante e sensual entre o pop e o rock, é porque Prince, neste disco, arquitetou tal moradia.

NOTA: 8,5

Track List: (todas as faixas compostas apenas por Prince, exceto onde indicado)

01. Dirty Mind (Prince/Dr. Frink) [04:14]

02. When You Were Mine [03:47]

03. Do It All Night [03:42]

04. Gotta Broken Heart Again [02:16]

05. Uptown (Prince/Cymone) [05:32]

06. Head [04:44]

07. Sister [01:31]

08. Partyup (Prince/Day) [04:24]

1976: Arrival – ABBA

Por: Renan Pereira

Por mais que o grupo sueco ABBA, maior fenômeno pop dos anos 70, seja mais reconhecido por seus hits poderosos, que se impregnaram na cultura popular, não há como negar que bons álbuns foram lançados. Nenhum tão espetacular, é verdade, mas quase todos mantendo uma boa consistência, com um som característico de melodias potentes e cativantes, em que os efeitos de teclado de Benny Andersson e os belos vocais femininos de Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad são um chamativo em especial.

Em 1976, quando lançou “Arrival”, o ABBA era um sucesso visivelmente emergente. No ano anterior, canções como “I Do, I Do, I Do, I Do, I Do”, “SOS” e, principalmente, “Mamma Mia”, já haviam tocado imensamente em rádios por todo o mundo. Mas foi com o mega hit “Fernando”, lançado em março de 1976, que o grupo começou a se tornar uma lenda; a música, lançada como single, vendeu sozinha mais de seis milhões de cópias.

E “Arrival” veio para, de uma vez por todas, tornar o ABBA um grupo de sucesso indiscutível. Considerado por muitos como o melhor álbum de estúdio dos suecos, ele é formado por aquela sonoridade já conhecida da banda, misturando disco, dance e pop rock, só que com o diferencial de ser consciente do início ao fim – é como se a qualidade de “Mamma Mia” fosse estendida para um álbum inteiro, e a banda se mostrasse competente e segura como nunca. Tanto que, apesar de conter uma das músicas mais famosas do seu catálogo, “Arrival” não se tornou tímido, sem ficar escondido atrás de seu maior single, a luxuosa “Dancing Queen”.

Talvez nunca as composições da dupla Andersson-Ulvaeus estiveram tão diversificadas e surpreendentemente dinâmicas quanto neste disco. Tanto que a primeira faixa, a divertida “When I Kissed the Teacher”, permeada pelos riffs acústicos de Björn Ulvaeus, cujo instrumental não foge muito da simples combinação de guitarra, baixo, bateria e teclados, é que abre alas para “Danicing Queen”, praticamente a magnificência em forma de música.

Talvez o sucesso da segunda faixa, único single do ABBA que alcançou o topo da parada da Billboard, tenha até superado as expectativas – mas não dá pra dizer que não foi merecido. Dentre os grandes hits do grupo, “Dancing Queen” é o que teve a construção mais complexa, tanto que, no ano que antecedeu o lançamento de “Arrival”, não passava de uma aposta sonora em busca de palavras para formar uma letra; após várias versões, inúmeros takes, a música como hoje conhecemos veio à tona, brilhantemente construída, repleta de sensualidade e de uma tímida luxúria, cuja sensacional melodia é perfeitamente trabalhada pelo instrumental. Apesar de ser uma canção pop, e o gênero ser, na maioria das vezes, sinônimo de simplicidade, “Dancing Queen” pareceu fugir do rótulo, muito também em razão do fantástico casamento entre as belas harmonias vocais e os luxuosos efeitos sintéticos.

A romântica “My Love, My Life” é uma linda balada, de onde podem ser ouvidos, através de mais um grande trabalho de sintetizador, alguns elementos eruditos; se trata de uma canção simples, pop rock, com uma sonoridade mais para segura do que aventureira. Se há alguns momentos em que o álbum decai de sua alta qualidade, estes estão presentes nos dois minutos e cinquenta segundos de “Dum Dum Diddle”, que não é uma música das melhores, mas, mesmo assim, não deixa de ser uma válida e divertida audição. Já a quinta das dez faixas do “Arrival” é uma das mais belas composições do disco; se trata de “Knowing Me, Knowing You”, um número melodramático, um single que escapa um pouco do que o grupo fazia naquela época, fugindo dos momentos alegres e adocicados para se aventurar em tristezas e amarguras.

Os grandes destaques da obscura “Money, Money, Money” ficam para os próprios compositores da faixa; o trabalho de teclado de Benny Andersson é altamente criativo, e os riffs da guitarra de Björn Ulvaeus alocam a canção em um cenário hipnotizante. A dançante e altamente melódica “That’s Me” é mais um luxuoso e bonito momento do álbum, enquanto “Why Did It Have to Be Me?” é o mais roqueiro, devido ao maior destaque dado à guitarra de Ulvaeus.

A penúltima faixa, “Tiger”, é uma perfeita mostra que não só de seus singles vivia a pungente sonoridade do ABBA; a canção é uma das mais complexas e mais trabalhadas do grupo, com uma estrutura bastante dinâmica, repleta de quebras e variações de ritmo, em que a força dos riffs de guitarra está especialmente elevada. Para fechar, temos a faixa-título, um magnífico número para o encerramento; considerada uma obra-prima de Benny Andersson, é uma canção construída praticamente toda em sintetizadores (perfeitamente executados, por sinal), fazendo menção a um som mais folclórico, de raiz.

Apesar de ter apenas dez faixas, “Arrival” acaba se caracterizando como um álbum grandioso, um lançamento imponente de um ABBA que estava se tornando um fenômeno musical. Há gente que torce o olho para grandes sucessos, autores de grandes hits, mas mesmo a estas pessoas o grupo sueco deve ser uma unanimidade; afinal, dentro da música pop, foi um dos poucos projetos que conseguiu aliar, em um mesmo instante, o sucesso de público e a qualidade musical. E bem assim é o “Arrival”, capaz de vender horrores e de agradar os mais críticos ouvidos.

O ABBA se tornou um dos maiores e mais bem-sucedidos grupos da história não somente pelo sucesso de suas canções; se tornou um fenômeno porque era um grupo autêntico e adorável, em que a consciência musical e a ânsia de gravar boas canções estavam aliadas ao desejo de se ter sucesso. O ABBA foi a febre que foi porque, além de ser um grande grupo, cativava as pessoas… E essa cativação elevava seu som a uma das mais agradáveis e mágicas audições de sua época.

NOTA: 8,7

Track List:

01. When I Kissed the Teacher (Andersson/Ulvaeus) [03:00]

02. Dancing Queen (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [03:50]

03. My Love, My Life (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [03:52]

04. Dum Dum Diddle (Andersson/Ulvaeus) [02:50]

05. Knowing Me, Knowing You (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [04:02]

06. Money, Money, Money (Andersson/Ulvaeus) [03:05]

07. That’s Me (Andersson/Anderson/Ulvaeus) [03:15]

08. Why Did It Have to Be Me? (Andersson/Ulvaeus) [03:20]

09. Tiger (Andersson/Ulvaeus) [02:55]

10. Arrival (Andersson/Ulvaeus) [03:00]

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2012: Overexposed – Maroon 5

Por: Renan Pereira

Dez anos separam o primeiro trabalho de estúdio do Maroon 5, o competente “Songs About Jane”, do quarto álbum da banda, “Overexposed”. E, definitivamente, muita coisa mudou. Com “Hands All Over” e, principalmente, com o hit “Moves Like Jagger”, o grupo viu se abrir um novo caminho para sua música, se entregando, mais do que nunca, a um pop chiclete e de aceitação fácil, repleto de refrões grudentos e batidinhas dançantes. Aquela banda divertida que flertava com rock, funk, e até mesmo jazz, não existe mais; o que temos hoje é um projeto pop do vocalista Adam Levine contando com músicos de apoio.

Em “Overexposed” tudo é muito artificial, meticulosamente calculado para ser bem aceito em rádios e lojas, sejam físicas ou virtuais. E isso é um grande problema, pois a grande graça do Maroon 5, que na realidade nunca chegou a ser uma banda espetacular, era justamente ser um grupo autêntico, fazendo música sincera e com naturalidade. Agora, apelando para um batalhão de produtores, o que se procura é enfiar Adam Levine no grande buraco onde se encontram muitas das celebridades contemporâneas da música.

Comercialmente o álbum até pode ser competente, e se essa foi a grande intenção, Adam Levine e seus produtores merecem aplausos. Afinal, utilizando suas táticas de venda, conseguiram transformar algo medíocre em grande, aos olhos da clientela. Mas, apesar das vendas fazerem parte do mundo da música, servindo para engordar os cofres das queridas gravadoras, não devemos levá-las muito à sério. Se observarmos, então, o aspecto artístico, temos um álbum que passa longe de ser merecedor de ovações.

Pois bem, “Overexposed” começa sua caminhada com a canção “One More Night”, um pop de estilo bem atual, com alguma coisinha de reggae; sem agradar, a música soa como alguma de Rihanna na voz de Levine. A segunda faixa, o single “Payphone”, que conta com a participação do rapper Wiz Khalifa, é uma canção de qualidade até surpreendente, uma pepita de ouro em meio ao terreno lamacento e escorregadio de “Overexposed”; se caracterizando por ser uma bem composta e bem produzida canção pop, está até mesmo no mesmo nível melódico de “She Will Be Loved”, contendo uma boa interpretação vocal por parte de Levine, um rapping bem alocado e arranjos competentes.

A terceira, “Daylight”, apesar de não empolgar, não chega a ser necessariamente uma música ruim; até tem qualidades, e estas seriam um ponto positivo, se não pertencessem, na verdade, a outra banda – a canção é, afinal, uma cópia descarada da musicalidade do Foster the People. O comecinho de “Lucky Strike” engana bem, pois, através dos riffs iniciais, ensaia uma faixa mais roqueira; mas o passar dos segundos acaba por decepcionar o ouvinte, que se depara com um pop descartável, dançante mas sem ser dinâmico, com uma repetitividade que pode até irritar. “The Man Who Never Lied” é outra canção decepcionante, enjoativa, que apesar da produção luxuosa, que muito promete, acaba não saindo do lugar-comum.

“Love Somebody” também tem seus barulhinhos e batidinhas luxuosamente produzidos, mas que somente existem, na realidade, para tentar maquiar a pobreza da canção; extremamente óbvia, é de uma banalidade surpreendente, e mesmo que você a esteja ouvindo pela primeira vez, pode jurar já ter a escutado em algum lugar por aí. A preguiçosa “Ladykiller” até pode agradar algumas fãs da banda, pois parece ter sido feita para Levine rebolar em cima de um palco, em mais uma de suas duvidosas performances ao-vivo; mas como a canção não é grande coisa, e o rebolado de Levine não agrada todo mundo, esta é mais uma faixa incapaz de ter algum êxito positivo dentro do álbum.

É inegável que “Overexposed” não tem um bom andamento, explorando muito pouco da banda, que é capaz de fazer boas coisas; é um trabalho que desvaloriza os instrumentos, deixando Mickey Madden, Jesse Carmichael, James Valentine e Matt Flynn em segundo plano, abafados pela sonoridade eletrônica e comercial do álbum. Álbum este que procura destacar somente Adam Levine, elevando-o a um patamar superior aos demais membros, e praticamente transformando o seu nome em sinônimo de Maroon 5.

Muitas carreiras-solo começaram quando o nome do vocalista se encontrava excessivamente grande, maior até que o nome da banda. Mas, neste caso, por mais que Levine seja o nome mais famoso do conjunto, a transição soa meio forçada; utilizar o nome já consagrado da banda para dar ênfase somente ao vocalista parece ser uma estratégia oportunista. Assim, o futuro da carreira de Levine só teria realmente um valor artístico se uma de duas opções fossem seguidas: ou ele realmente inicia uma carreira-solo, sem carregar o nome da banda (e, consequentemente, sem desqualificá-la), ou continua sendo mais um em um grupo, como o vocalista do Marron 5, procurando resgatar os sentimentos dos primeiros trabalhos da banda, e, acima de tudo, trabalhando em equipe.

A eletrônica “Fortune Teller” é mais uma faixa banal, altamente comercial, que nem tímidos riffs de guitarra e piano conseguem salvar. De piano, aliás, é feito o instrumental da muito boa “Sad”, uma bonita balada, em que Adam Levine consegue ter um bom destaque; em um álbum com tantas faixas descartáveis, esta chega a surpreender, principalmente por mostrar que não é necessário um zilhão de enfeites eletrônicos para a música do Maroon 5 soar agradável. “Ticket”, das faixas dançantes, é a melhor do álbum, mas mesmo assim não chega a ser uma grande música, soando, no máximo, razoável.

“Doin’ Dirt” é, assim como sua faixa anterior, um número dançante até interessante, mas que passa longe de um grande destaque positivo; pelo menos, não é tão prosaica quanto a maioria das canções do “Overexposed”. Álbum este, que tem um arrastado desfecho com a canção “Beautiful Goodbye”, que de bonita, na verdade, tem pouca coisa; extremamente sem-graça, repetitiva e irritante, encerra o disco da pior maneira possível, e só retificando que, através da banalização da banda, dando um destaque absurdamente grande ao vocalista, com canções medíocres e de apelo apenas comercial, o Marron 5 caminha para um triste e decepcionante final. Se é para virar um projeto pop, que a carreira solo de Adam Levine se inicie de uma vez.

É provável então, que com isso, “Overexposed” acabe se tornando o último álbum do Maroon 5. Porém, pode ser até que a banda continue, mas, se isso ocorrer, devem ser mudados drasticamente os planos, até porque “Overexposed” soa como um álbum solo de Levine sob o nome de Maroon 5. Os rumos atuais que esta banda vem tomando são muito estranhos, e o estranho “Overexposed” talvez queira demonstrar, realmente, o atual momento do grupo. Um momento de incertezas e fragilidades.

Há álbuns que pouco acrescentam, outros que apenas continuam a caminhada de uma banda ou de um músico, e outros que fazem um projeto musical tomar um novo rumo. Apesar de, aparentemente, “Overexposed” ter sido feito para a música do Maroon 5 tomar um novo rumo, o que se vê é um trabalho que não alcança seu objetivo; afinal, o que ele mostra, na verdade, é uma banda perdida, em um momento estranho de sua carreira, totalmente sem rumo.

NOTA: 4,0

01. One More Night (Levine/Shellback/Kotecha/Martin) [03:39]

02. Payphone (Levine/Levin/Malik/Omelio/Shellback/Thomaz) [03:51]

03. Daylight (Levine/Martin/Levy/S. Martin) [03:45]

04. Lucky Strike (Levine/Tedder/Zancanella) [03:05]

05. The Man Who Never Lied (Levine/West/Moga) [03:25]

06. Love Somebody (Levine/Tedder/Zancanella/Motte) [03:49]

07. Ladykiller (Valentine/Madden/Lavine) [02:44]

08. Fortune Teller (Valentine/Madden/Lavine) [03:23]

09. Sad (Levine/Valentine) [03:14]

10. Tickets (Valentine/Madden/Lavine) [03:29]

11. Doin’ Dirt (Levine/Shellback) [03:31]

12. Beautiful Goodbye (Levine/Levin/Malik) [04:15]

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1984: Forever Young – Alphaville

Por: Renan Pereira

Pense na década de oitenta, e imagine-se na Alemanha Ocidental, em pleno ano de 1984. Se trata de uma época relativamente obscura, é verdade, na qual o país dos germânicos continuava na sua arrastada e infeliz era de divisão entre o triunfante capitalismo e o auto-derrotado comunismo. Mas deixemos as questões políticas de lado, e levemos nossos pensamentos apenas para a música.

Naquela época, o new wave pregava de mocinho, principalmente no continente europeu, onde as grandes bandas de rock clássico começavam a desaparecer. Depois da era punk, o mundo vivia mais uma era de total dominância de um estilo. Eis que então, em meio a todo esse processo de mudança, começa a se destacar uma vertente que, em um primeiro momento, chocou os ouvintes mais puristas, por abolir totalmente a utilização daquela instrumentação mais tradicional, de bateria, baixo e guitarra. O negócio do synthpop era a utilização, total e sem limites, dos sintetizadores, que tanto haviam evoluído na década anterior.

Porém, o synthpop não era algo novo. Sua origem data dos primeiros suspiros da década de setenta, totalmente influenciado pelo krautrock, outra vertente experimentalista bastante importante e, que por coincidência ou não, também teve origens na Alemanha. A intenção deste movimento era de se fazer um constante divórcio com as ideias clássicas, procurando sempre optar por meios alternativos. Para isso, a evolução do tratamento com os sons sintéticos foi um passo fundamental, pois, se a ideia era fazer diferente, nada melhor que desfazer aquele senso-comum de que sintetizador demais significava falta de talento instrumental.

Mas a abolição total dos instrumentos tradicionais foi coisa do também grupo alemão Kraftwerk, que fazia música totalmente eletrônica desde o início dos anos setenta, e que se caracteriza não só como um dos pioneiros do synthpop, mas de todo o uso de sons sintéticos em geral. Mas o fato é que, como todo bom pioneiro de música alternativa, o Kraftwerk jamais conseguiu ser uma figura marcante no mainstream, e coube ao synthpop popularizar a música eletrônica.

Voltemos então, finalmente, a 1984. Você está lá na Alemanha, saboreando o seu chucrute e a sua cerveja, naquele universo de new wave e Muro de Berlim, e eis que surge nas ondas do rádio tudo o que você estava querendo ouvir naquele momento; não era new wave, mas também não era o experimentalismo do krautrock. Era, afinal, um rock eletrônico ou um Kraftwerk pop? Nem um, nem outro… Era o synthpop do Alphaville, mudando a percepção de todos sobre sintetizadores.

Para isso, não bastava algo comum, e o disco “Forever Young” tratou de ter um belo diferencial: ser brilhantemente produzido. Isto porque não é, composicionalmente, nada de muito genial, tendo boas canções com boas melodias, e nada mais que isso. As letras, também, não são nada magníficas, porém acabam não tendo um grande peso, visto que o principal de tudo está em como a sonoridade foi conduzida. E chega até a ser assustador ver um grupo, logo no seu trabalho de estreia, tão seguro do que fazer; dominando perfeitamente a técnica e os aparelhos, o Alphaville anseia, em todo o álbum, surpreender seus ouvintes com a sua música moderna. A boa “A Victory of Love”, faixa de abertura do álbum, já é um belo cartão de visitas; com uma produção caprichadíssima, e sendo progressiva na medida certa, mostra toda a qualidade e a criatividade do grupo, fazendo do som sintético uma exploração incessante de detalhes e sentimentos.

Mas, mesmo quando se explora música proveniente de instrumentação eletrônica, nada deve soar artificial. E o Alphaville tratou de deixar, felizmente, a sua sonoridade bem natural, com melodias agradáveis e bem construídas, onde nada soa forçado, o que só auxiliou na boa alocação dos sintetizadores. Outro ponto bastante humano do grupo é a boa voz de Marian Gold, como pode ser conferido em “Summer in Berlin”, uma boa e muito bem construída balada. “Big in Japan”, primeiro single do álbum, é uma daquelas músicas que foram fundamentais para a difusão do estilo, melodicamente competente, com boas pitadas de rock, e produzida com um capricho incontestável, contendo elementos (que na época eram novidade) que até hoje continuam a fazer parte de muitas músicas tidas como contemporâneas. “To Germany With Love” se inicia misteriosa, mas acaba por se tornar uma faixa extremamente dançante, praticamente um funk norte-americano eletrônico, em que a atuação do instrumental se mostra perfeita.

“Fallen Angel” não deve nada às faixas anteriores, sendo mais uma canção melodicamente agradável e perfeitamente produzida. Eis que então, na sexta faixa, surge a clássica faixa-título, um single fortíssimo, que ainda hoje é muito bem conhecido pelo público; a comovente canção, que tem toda uma temática triste, é uma pausa drástica na agitação, mostrando que não só de alegria e dança a música eletrônica pode ser feita. “In the Mood” não é um dos destaques do álbum, apesar de ser uma boa música; lembrando bastante a música disco, não apresenta algo tão novo quanto as demais faixas, apesar de ser, também, muito bem produzida.

“Sounds Like a Melody” é uma canção que se afasta do normal da música pop, que é de músicas de complexidade limitada e de audição fácil, por conta de letras pegajosas; a canção, que pode ser comparada ao rock progressivo, contém estruturas vocais alternantes e, em sua parte final, uma longa atuação somente instrumental (que, por sinal, é um espetáculo). A penúltima é “Lies”, uma canção não tão boa quanto as demais, mas que é, também, tecnicamente incontestável. Já, “The Jet Set”, é um divertido número final, apresentando nada de muito diferente do que já foi ouvido, mas nem por isso deixando de afirmar a consistência do álbum.

A letra do single “Forever Young” questiona o desejo de ser eternamente jovem e de viver para sempre. Voltando para a segunda década do século XXI, se vê um álbum que um dia foi uma grande novidade, mas que agora é muito mais uma audição nostálgica, na verdade. O Alphaville não conseguiu ser eternamente jovem, e talvez esta nunca tenha sido, realmente, a intenção… Porém a vida eterna é algo possível. O disco “Forever Young” deve ser lembrado para sempre como um trabalho que, além de ter a perfeição técnica, popularizou e humanizou experimentalismos, com muita criatividade, conhecimento e consciência musical.

NOTA: 8,8

Track List: (todas as canções compostas por Alphaville)

01. A Victory of Love [04:14]

02. Summer in Berlin [04:42]

03. Big in Japan [04:43]

04. To Germany With Love [04:15]

05. Fallen Angel [03:55]

06. Forever Young [03:45]

07. In the Mood [04:29]

08. Sounds Like a Melody [04:42]

09. Lies [03:32]

10. The Jet Set [04:52]

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2012: Reza – Rita Lee

Por: Renan Pereira

É muito bom ter novamente, depois de um longo tempo, um novo álbum de Rita Lee. O último álbum da nossa rainha do rock, antes de “Reza”, havia sido o bom “Balacobaco”, de 2003, e, com isso, nota-se um intervalo de nove anos entre estes lançamentos. Só que o tempo na música é algo relativo: como muita coisa pode mudar em pouco tempo, longos anos também podem passar sem nenhuma grande mudança. E Rita não muda, continua sendo a mesma artista fantástica desde a época dos Mutantes, e a idade que hoje a torna idosa não modifica a mulher que sempre conhecemos (ou tentamos conhecer). Em “Reza”, Rita é Rita.

De diferente, temos alguns enfeites desnecessários ali ou acolá, umas letras mal trabalhadas, ou até mesmo alguns exageros eletrônicos, que podem tornar certos pontos da sonoridade do disco estranhos para os ouvintes mais conservadores. Mas Rita Lee nunca foi uma daquelas artistas de aceitar convenções ou seguir movimentos – ela é quem é, dane-se os que os outros pensam, e ela faz o que quer fazer. “Reza” não é muito coeso, atira para todos os lados, mas representa bem o que é a personalidade desta artista tão ímpar e importante da nossa cultura.

Por isso, se o ouvinte deseja ouvir coisas certinhas, onde tudo soa no seu devido lugar, “Reza” não é uma das melhores audições. O álbum caminha por um terreno relativamente tortuoso, às vezes lembrando Mutantes, com um som mais psicodélico, passando pelo hard rock dos trabalhos de Rita com a banda Tutti-Frutti, e chegando até mesmo a um som mais chiclete, que pode nos lembrar de certas coisas feitas por Madonna nos anos noventa. As ligações entre vertentes tão distintas são, em “Reza”, esporádicas demais, ou melhor, quase inexistentes, tornando o disco como uma colcha de retalhos ainda sequer costurada. Mas, mesmo que sejam retalhos, algumas canções chamam atenção por pontos positivos… Coragem é coisa que Rita sempre teve, ainda que às vezes lhe falte juízo, e com isso ela é capaz de reviver, em 2012, certos psicodelismos capazes de fazer os mais rabugentos esbugalharem os olhos.

O maior ponto positivo de “Reza” é justamente ser um álbum de Rita Lee – mas se engana quem pensa que ela fez tudo sozinha. Roberto de Carvalho, o maridão dela, é uma constante e forte presença nos álbuns de Rita, e neste último não poderia ser diferente. O cara, além de ter que aguentar a personalidade nada fraca de Rita, é um músico muito competente, mais conhecido como compositor e guitarrista, mas também atuando de maneira concisa na produção. Por isso, nada neste álbum (ou em muitos de Rita) deve ser creditado apenas à cantora.

Para começar, a primeira faixa, “Pistis Sophia”, vai procurando ambientar o ouvinte no suposto tema do álbum; basicamente, uma oração em meio a outras orações. A segunda faixa é a boa faixa-título, continuando no mesmo tema e se interligando bem à primeira música; com estas duas canções, o álbum se inicia surpreendentemente bem, contendo uma interessante introdução para um rock de óbvia qualidade. Alguns pontinhos de rock psicodélico também agradam, mostrando que Rita foi longe no seu passado para construir “Reza”. Já “Tô um Lixo” é um pop-rock até moderninho, mas não deixa, por causa disso, de ser uma faixa válida.

É a partir de “Divagando” que o álbum começa a ficar totalmente desconexo; a canção é um pop ao melhor estilo Lulu Santos, e não se trata de uma música ruim, mas claramente mal alocada e sem nenhuma interligação (sonora ou temática) com as três faixas anteriores. “Vidinha” também é desconexa, se tratando de um hard-rock não muito empolgante, onde as guitarras se limitam ao óbvio e a letra não passa de “tudo o que você pode imaginar que uma pessoa sem muita criatividade e descontente fale de sua vida”. A sexta faixa, “Loucas”, até pode lembrar mais o grande trabalho feito por Rita com a banda Tutti-Frutti, mas na verdade só por causa de alguns elementos do instrumental – a letra não vai nada muito além daqueles “clássicos modernos” do sertanejo universitário.

Infelizmente, tudo de bom que tentou ser construído, em um animador início, vai sendo rapidamente destruído. “Bixo Grilo” pode ser considerada uma das piores músicas já gravadas por Rita; é uma canção altamente artificial, tentando ser “cool”, cheia de enfeites eletrônicos, uma atmosfera alucinógena e um tema contemporâneo – em que mais uma letra ruim pode ser ouvida, mas não muito compreendida. “Paradise Brasil” até tem uma letra mais legalzinha, com uma pequena crítica, apesar de não ser também nada de incrível; agora, o que peca é o instrumental, que além de ser um pop dançante (Rita é ou não a rainha do rock, afinal?) é um pop preguiçoso, daqueles chiclete, sem dinamismo nenhum.

“Rapaz” é, finalmente, uma canção ao nível de Rita Lee; com elementos psicodélicos, e com um tema promíscuo (o que Rita sempre gostou) bem trabalhado, se trata de uma faixa bem válida, apesar de não estar nem perto das melhores canções já gravadas pela roqueira. E não é que o álbum continua teimando em fazer algumas mudanças drásticas e incompreensíveis? Depois de rezar, de se drogar, de dançar em uma boate e de transar, na décima faixa “Reza” vai direto para o Iraque, mais precisamente em “Bagdá” – convenhamos, a música é até engraçadinha, simpática, mas é capaz de irritar ao ser ouvida por várias vezes; apesar de o instrumental ser bem feito, a letra é bastante fraca.

Agora, em que estamos pra lá de “Bagdá”, temos a música “Tutti-Fruditti”, mais uma com ares psicodélicos, mas que não passa do medíocre. Porém bons momentos são ouvidos novamente na consistente “Gororoba”, um rock bem nutritivo, e na totalmente psicodélica “Bamboogiewoogie”, a melhor música de “Reza”, que poderia muito bem ter feito parte de algum álbum dos Mutantes. Mas “Pow” trata de encerrar o álbum de forma ridícula, não passando de barulhos sem nexo e de experimentalismos incompreensíveis, nos fazendo pensar se Rita realmente tem algum rumo na atual fase de sua carreira.

Meses atrás, ela descobriu ser bipolar (só agora?), e se, em “Reza”, era esse o traço de personalidade que ela e seu marido gostariam de explorar, talvez o álbum tenha sido competente. É como se Rita virasse um disco, e cada fase do seu humor fosse uma faixa, em que as mudanças se mostrassem drásticas e sem propósito. Mas o mais grave é que ela parou de fazer shows, e este é seu primeiro álbum em nove anos; será que ela mesma ainda se leva à sério, será que ela ainda quer algo a mais ou agora é só viver do passado? Apesar de seu talento não ter a abandonado, o que é provado em algumas boas faixas do “Reza”, Rita precisa decidir se ainda quer continuar a utilizá-lo.

NOTA: 3,8

Track List:

01. Pistis Sophia (Rita Lee) [01:50]

02. Reza (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [02:26]

03. Tô um Lixo (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:22]

04. Divagando (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [04:08]

05. Vidinha (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [05:33]

06. As Loucas (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:12]

07. Bixo Grilo (Rita Lee) [04:37]

08. Paradise Brasil (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [04:20]

09. Rapaz (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:39]

10. Bagdá (Rita Lee) [03:04]

11. Tutti-Fuditti (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:31]

12. Gororoba (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [02:55]

13. Bamboogiewoogie (Rita Lee) [07:35]

14. Pow (Rita Lee/Roberto de Carvalho) [03:43]

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2012: MDNA – Madonna

Por: Renan Pereira

Por mais que ela seja a rainha do pop, a carreira de Madonna não tem sido, nos últimos anos, daquelas muito constantes. A entrada da cantora na década passada ocorreu com o competente álbum “Music”, de 2000, e tudo parecia que continuaria como nas décadas de oitenta e noventa; não teria pra ninguém, e Madonna dominaria a cena pop mundial. Mas depois, em 2003, veio o muito criticado “American Life”, e as coisas pareciam que desandariam de uma vez… Até vir à luz o consistente “Confessions on the Dancefloor”, de 2005, e mostrar que a rainha do pop continuava forte como nunca.

Porém “Confessions” foi o último álbum digno do título monárquico que Madonna tem. “Hard Candy”, de 2008, foi um álbum fraco, aproximando Madonna do restante da cena pop atual – o que é um desperdício, visto que ela sempre foi uma mestra para as cantoras. Eis que Madonna então adentra na década atual com uma nova casa e novas ideias; “MDNA” é o primeiro álbum da cantora, desde o início da sua carreira, que não tem a Warner como gravadora. Agora na Interscope, a cantora parece ter procurado se infiltrar ainda mais nos elementos pop atuais.

É como se tudo o que você já tenha ouvido de Madonna tenha sido revisto. Os refrões poderosos sumiram, a sonoridade simples e dançante deu lugar a uma viagem pelo que há de mais moderno na música eletrônica atual, e o que antes era puro sangue e carne parece ter se tornado frio e robótico. O fraco single “Give Me All Your Luvin'” já alertava para um álbum pouco empolgante, repleto de  modinhas e superficialidades, inclusive contando com as participações de duvidosa qualidade de M.I.A. e Nicki Minaj. Mas, felizmente, houve alguma surpresa positiva, e o álbum, apesar de ser um dos mais fracos da carreira de Madonna, não se mostrou tão entristecedor quanto o seu primeiro single.

Mesmo em um dos momentos menos brilhantes de sua carreira, Madonna ainda é capaz de dar verdadeiras lições sobre a música pop. Em “MDNA”, a grande lição é: “independente de quando ou onde você está, tenha personalidade”. Por mais que ele não empolgue, não se pode negar que Madonna acreditou muito no projeto, e lhe dedicou todas as suas forças; apesar de o tempo continuar passando, e de Madonna não ser mais aquela musa sex symbol de tempos atrás, sua música continua atraente, provocante… e nisso (pelo menos nisso) nada se mostra tão mudado. A personalidade dela está lá, apesar de meio maquiada por tantas firulas, e Madonna, mesmo não construindo um grande disco, continua a ser um dos fortes nomes da música.

“MDNA” abre com a razoável “Girl Gone Wild”, bem escolhida para single; apesar de não ser uma grande canção, ficando muito longe dos maiores clássicos da cantora, é uma música pulsante, radiofônica e de fácil recepção (ou seja, uma faixa válida para um álbum pop). Já a segunda faixa, “Gang Bang”, é bastante ruim, maltratando os ouvidos dos que se acostumaram a ouvir a cantora em grandes performances; a música é irritante, não tem nenhum dinamismo, e sua linha vocal é pífia, talvez a mais preguiçosa que Madonna já tenha cantado. A musicalidade eletrônica e minimalista de grande parte das canções, inclusive da terceira, “I’m Addicted”, deve causar estranheza aos ouvintes, que não esperavam ver Madonna fazendo algo próximo a um dubstep. O álbum soa muito diferente, estranho, e o ouvinte que queira se acostumar com ele deverá gastar um bom tempo para isso.

“Turn Up The Radio” é legal e vale a pena ser ouvida, pois, sem dúvida nenhuma, é uma das melhores canções do álbum; nela, o vocal de Madonna está como nos velhos tempos, bem como a melodia – se não é algo extremamente incrível, traz uma produção menos errônea, que conseguiu utilizar de forma bem mais convincente as firulas eletrônicas. A quinta é o tal primeiro single, “Give Me All Your Luvin'”, uma música inspirada em cheerleaders, e que conta as estranhas e já citadas participações especiais; é inegável que não se trata de uma grande canção, algo muito pequeno para uma cantora chamada de “rainha do pop”, e que mergulha profundamente nos elementos das músicas da moda – mas o pior de tudo ainda são os rappings. Infelizmente, “MDNA” pouco acrescenta à música pop atual, pois, simplesmente, acaba seguindo o mesmo caminho.

“Some Girls” também é ruim, melodicamente muito pobre, e com uma atuação vocal muito fraca, até mesmo por ficar escondida por trás de tantos sonzinhos irritantes. Tudo bem que Madonna tem condições, e por isso pode, com todo o direito, fazer um álbum super-produzido… mas exagerar nos modismos nunca havia sido uma marca dela. Em “Superstar”, pelo menos, a produção faz um trabalho competente, trabalhando bem uma boa melodia e dando o espaço necessário para a voz  de Madonna (mas, apesar disso, ouve-se mais uma atuação vocal decepcionante). “I Don’t Give A” é estranhíssima, soa como uma tentativa (mal-sucedida) de misturar o hip-hop de hoje com o som clássico de Madonna, resultando em uma faixa que só acrescenta ao álbum pontos negativos; em suma, é uma música sem-rumo, que vaga por muitas bizarrices e acaba por não chegar a lugar nenhum. “I’m a Sinner” é mais consciente, contendo um certo dinamismo que foi esquecido na maior parte das faixas do “MDNA”; no álbum, é uma das mais fortes, apesar de não estar no mesmo nível das melhores canções já gravadas por Madonna.

Aqui o álbum começa, felizmente, a caminhar por um terreno mais firme, onde certas estranhezas e experimentalismos desnecessários são deixados para trás. “Love Spent” é uma ótima música, que traz um pouco do bem conhecido e tradicional dance de Madonna, e que contém uma letra intrigante, parecendo trazer de volta, de tempos atrás, aquela compositora de letras afiadas. A seguinte, a romântica e orquestrada “Masterpice”, é uma das mais belas canções já escritas por Madonna, contendo uma letra poética, e que acaba por acrescentar mais um belo número ao catálogo de canções românticas da rainha do pop. É “Falling Free” que dá números finais ao “MDNA”, e, felizmente, com mais uma belíssima faixa desta surpreendente parte final; se o álbum não é nenhuma maravilha, ele pelo menos fecha com conceito máximo, com uma última faixa perfeita, melódica, orquestrada, e lindamente interpretada. Inegavelmente, Madonna pode, mesmo em seus momentos menos inspirados, realizar grandes feitos.

“MDNA” tem músicas péssimas, ruins, razoáveis, boas e ótimas, assim como os álbuns mais recentes de cantoras como Britney Spears, Katy Perry e Lady Gaga; é por isso, justamente, que acaba ficando uma maior crítica. Madonna sempre foi conhecida por ser bastante visionária, conseguindo prever sempre o que faria sucesso nos próximos anos, e, trabalhando nisso, acabava por ser uma das artistas mais influentes do mundo. Mas, agora, o que se vê é uma Madonna não influenciando, e sim sendo influenciada.

É claro que ninguém quer mais um “First Album” ou um “Like a Prayer”, afinal os tempos são outros, e pedem outras coisas. Mas desconfigurar um estilo tão marcante é um erro; Madonna é uma artista de um estilo consagrado, já conhecido por todo mundo, e se entregar com tudo às atualidades, que algumas vezes soam tão infundadas, parece não ser a ideia mais bem pensada. Uma rainha que se preze sempre ouve o que o povo lhe diz, mas a sua autoridade é maior. No pop, Madonna sempre deu as ordens, mas agora parece estar com mais vontade de recebê-las; infelizmente, essa cantora que apenas segue o que se tem feito pouco se parece com a Madonna dos áureos tempos.

Com isso, apesar de não ser um trabalho de todo ruim, com algumas belas canções, o “MDNA”, infelizmente, e talvez por ironia, distorceu o que se conhecia da genética musical de Madonna. Às vezes exigimos demais, até mesmo de artistas já há muito consagrados, mas porque é justamente destes que esperamos trabalhos marcantes. E assim não é com o “MDNA”, que se caracteriza por ser apenas mais um.

NOTA: 6,0

Track List:

01. Girl Gone Wild (Madonna/Vaughan/A. Benassi/B. Benassi) [03:43]

02. Gang Bang (Madonna/Orbit/Hamilton/Harris/Jean-Baptiste/Mika/Casanova/Kozmeniuk) [05:26]

03. I’m Addicted (Madonna/A. Benassi/B. Benassi) [04:33]

04. Turn Up the Radio (Madonna/Solveig/Tordjman/Williams) [03:46]

05. Give Me All Your Luvin’ (Madonna/Solveig/Minaj/Arulpragasam/Tordjman) [03:22]

06. Some Girls (Madonna/Orbit/Åhlund) [03:53]

07. Superstar (Madonna/Indiigo/Malih) [03:55]

08. I Don’t Give A (Madonna/Solveig/Minaj/Jabre) [04:19]

09. I’m a Sinner (Madonna/Orbit/Jean-Baptiste) [04:52]

10. Love Spent (Madonna/Orbit/Jean-Baptiste/Hamilton/Whyte/Buendia/McHenry) [03:46]

11. Masterpiece (Madonna/Frost/Harry) [03:59]

12. Falling Free (Madonna/Mayer/Orbit/Henry) [05:13]

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