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2013: What About Now – Bon Jovi

What About Now

Por: Renan Pereira

O Bon Jovi é uma banda que, visivelmente, envelheceu. O que não é ruim, pois a idade e a experiência não dizem nada de negativo quando o assunto é música; apesar de geralmente o ápice criativo dos músicos se encontrar lá pelos vinte, trinta anos, não são raros os casos de artistas que construíram, na sua meia-idade, obras cuja qualidade não fica devendo em nada ao que haviam concebido na juventude. Mas, para envelhecer bem, é necessário, primeiramente, admitir que está envelhecendo, e usar isso a seu favor. E aí está o grande erro do Bon Jovi: tentando artificialmente continuar jovem, a banda não consegue soar atraente, e despeja aos ouvintes o que parece ser o pior álbum do conjunto em toda sua carreira. Mais do que um disco pouco proveitoso, “What About Now” apresenta um resultado que constrange, principalmente ao levarmos em consideração que se trata de algo vindo de uma banda gigantesca.

Embora já tenho feito a sua história, tendo se apresentado, lá nos anos oitenta, como a líder do chamado “rock de arena”, a banda Bon Jovi está precisando provar algumas coisas. Primeiro, porque a qualidade de seus lançamentos tem ruído constantemente, e já faz um bom tempo que o grupo não apresenta ao seu público um trabalho à altura de clássicos como “Slippery When Wet” e “New Jersey”. Sendo mais exato, o sucessor destes, “Keep the Faith”, de 1992, foi o último grande álbum do grupo; a partir de “These Days”, o que houve foi uma grande perda de vivacidade, com a banda envolvendo-se de forma exagerada em suas obsessões comerciais.

Amarrado a isso, podemos indagar se a continuação da carreira da banda é ainda algo positivo. Apesar de seus shows continuarem excitantes, em estúdio o Bon Jovi não vem dando sinais positivos de sua existência; é até bom pensar que a criatividade de seus integrantes se minguou, pois se não for este o problema, eles estariam rebaixando de propósito a qualidade de seu som para simplesmente ganhar dinheiro. Deve ser até deprimente, para os fãs das antigas, conferir um trabalho como “What About Now”, e convenhamos que, se é para manchar a carreira gloriosa que já foi construída, é bom que o grupo termine de vez.

Apresentando constantemente um resultado que em nada lembra a melhor fase do Bon Jovi, “What About Now” é um conjunto errôneo de canções banais. Nada soa realmente sincero, com a banda rebaixando-se ao que de mais comercial existe na música atual. Para começar esta jornada de escorregadas, a politizada e visivelmente pró-Obama “Because We Can” não é nada além do que a banda vem desenvolvendo nos últimos discos… Ou seja, ainda persiste a dúvida se a banda quer manter-se como o Bon Jovi ou se deseja se tornar uma versão americanizada do U2. Porém, mesmo assim, a primeira faixa ainda consegue ser a melhor canção do álbum: parece-se muito com as músicas do “The Circle”, mas a base de “What About Now” está ainda bem abaixo de seu já criticado antecessor.

A falta de criatividade da banda é tamanha que copiaram o que já havia sido copiado: a introdução da segunda faixa, a chata “I’m With You”, é quase exatamente a mesma de “Boulevard of Broken Dreams”, que, por sua vez, é quase a mesma de “Wonderwall”. É incrível como tudo no disco soa artificial, como se ele tivesse sido programado em um computador e só tivessem chamado a banda para interpretar as canções; do vocal repleto de auto-tune aos riffs surpreendentemente pobres, o que temos é, infelizmente, algo constrangedor. A faixa-título só pode existir para provar que Jon Bon Jovi, Richie Sambora, Hugh McDonald, Tico Torres e David Bryan não têm mais a capacidade de construir canções decentes.

Quando o Bon Jovi tenta, enfim, fazer da música de “What About Now” algo grandioso, acaba se perdendo em megalomanias pop que rebaixam a banda ao nicho mais comercial de artistas da atualidade; brincando até mesmo com o pop eletrônico (sim, você não leu errado), o grupo de Nova Jersey parece fazer de seu novo disco uma parceria com artistas do nível de Katy Perry, Justin Bieber, Lady Gaga e Miley Cyrus. As músicas vão seguindo, e o constrangimento de quem tem a santa paciência de continuar ouvindo o disco só aumenta. “Pictures of You” é uma baladinha com uma base tão pobre que chega a soar caricata, “Amen” é uma cópia descarada do rock country de “Lost Highway”, e “That’s What the Water Made Me” parece ser o trágico encontro do rock alternativo britânico com o pop mais comercial dos Estados Unidos, se tornando o que seria uma cômica colaboração do U2 com a Selena Gomez.

Nem dá pra saber se isso é bom ou ruim, mas o Bon Jovi tenta mascarar as obsessões proveitosamente comerciais do disco. A voz de Jon Bon Jovi procura passar ao ouvinte um “estou comportadinho, mas ainda sou roqueiro”, e a guitarra do técnico Richie Sambora tenta captar os fãs mais despreparados, que iludidos com a simples presença dos integrantes da banda a executar as canções, poderão considerar “What About Now” como um produto genuíno da banda de Nova Jersey. Mas tem de ser muito bobo pra cair nessa (e aqui desculpas sejam dadas a quem gostou do disco). Pior do que querer enganar seus seguidores, é nem nisso a banda conseguir ser competente; afinal de contas, a voz de Jon Bon Jovi soa programada, robótica, enquanto Richie Sambora parece ter ligado sua guitarra no piloto-automático e sentado em um sofá, tomando um cafezinho enquanto via sua banda produzir um dos piores álbuns de rock dos últimos tempos.

A sétima faixa, porém, nem é tão ruim assim: “What’s Left of Me” assemelha-se um pouco ao pop-rock que a banda fez na década de noventa, e se não consegue elevar a qualidade do presente registro, pelo menos não envergonha os seguidores do grupo. Entre todas as supostas referências pop do álbum, estava sentindo a falta de alguém? One Direction, que tal? Pois bem, “Army of One” parece ser a junção da tradicional música das boy-bands com um discurso político… E assim o disco vai seguindo, e com as igualmente fracas “Thick as Thieves” e “Beautiful World” o Bon Jovi continua se afundando no poço.

Por mais que as duas últimas faixas do disco, a pop-rock “Room at the End of the World” e a country-pop “The Fighter”, sejam até audíveis, o resultado desastroso de “What About Now” já estava consumado. O disco é, enfim, um daqueles registros cujo motivo da gravação passa a ser inexistente; nem que a gravadora estivesse pressionando para novo um álbum ser lançado e a banda não estivesse muito disposta a isto, o conjunto de erros de “What About Now” seria perdoável. O que o Bon Jovi merecia, enfim, com o lançamento deste trabalho, é a mesma recepção que os fãs do Metallica tiveram com o igualmente trágico “St. Anger”, dez anos atrás.

Mas não é o baixíssimo nível do novo álbum que vai diminuir o nome “Bon Jovi”. O que o grupo fez no passado ainda lhe dá crédito, e apesar do resultado vergonhoso de “What About Now”,  a banda continuará entre as maiores do mundo. Mas, para que eles tenham a consciência limpa, e não mais se rebaixem ao que de mais aproveitador existe na música atual, é urgentemente necessária uma mudança de rumo… Se não há mais criatividade, que a banda faça o mesmo som de antigamente; estaria, assim, pelo menos copiando algo bom, que agrada aos fãs e que tem qualidade. Se é para continuar a seguir modinhas do pop, que a banda encerre suas atividades de uma vez.

NOTA: 1,3

Track List:

01. Because We Can (Jon Bon Jovi/Sambora/Falcon) [04:00]

02. I’m With You (Jon Bon Jovi/Shanks) [03:44]

03. What About Now (Jon Bon Jovi/Shanks) [03:44]

04. Pictures of You (Jon Bon Jovi/Sambora/Shanks) [03:58]

05. Amen (Jon Bon Jovi/Falcon) [04:12]

06. That’s What the Water Made Me (Jon Bon Jovi/Falcon) [04:25]

07. What’s Left of Me (Jon Bon Jovi/Sambora/Falcon) [04:35]

08. Army of One (Jon Bon Jovi/Sambora/Desmond Child) [04:34]

09. Thick as Thieves (Jon Bon Jovi/Sambora/Shanks) [04:57]

10. Beautiful World (Jon Bon Jovi/Falcon) [03:48]

11. Room at the End of the World (Jon Bon Jovi/Shanks) [05:02]

12. The Fighter (Jon Bon Jovi) [04:37]

2012: Red – Taylor Swift

Por: Renan Pereira

Dar uma conferida em “Red”, quarto álbum de estúdio da queridinha do pop-country Taylor Swift, é como experimentar sentimentos opostos e ao mesmo tempo próximos, como a espera pelo lado da moeda em um jogo de cara-ou-coroa. “Red” é capaz de sempre transmitir uma dualidade de percepções, mesmo que esteja sempre tratando da mesma aposta da mesma artista. Ao mesmo tempo em que o álbum faz Swift se aventurar por outros caminhos, sacramentando sua evolução, é transmitida a impressão de que nunca Swift havia deixado tantas dúvidas sobre o que sua carreira é ou virá a ser.

De ponto positivo, temos, logo de cara, a grande capacidade comercial do álbum, que vem realmente vendendo horrores; levando em consideração as vendas na primeira semana, ultrapassou os números até de artistas puramente comerciais e no auge da fama, como Lady Gaga e Justin Bieber, sendo, afinal, o álbum mais vendido nos primeiros dias desde “The Eminem Show”, de 2002. Não restam mais dúvidas de como Taylor Swift é famosa e bem-sucedida, deixando de ser a jovenzinha que surpreendeu os Estados Unidos em “Fearless” para se tornar uma das maiores estrelas da música mundial.

Mas, mesmo dentro dos pontos positivos, “Red” é capaz de nos transmitir coisas nem tão positivas assim; o potencial comercial do disco é extremamente forte devido a sua capacidade de atirar para todos os lados, em busca dos mais diferentes públicos. Além da musicalidade tradicional de Swift, temos flertes com um pop mais chiclete, ao melhor estilo Katy Perry, algum pop-rock comparável ao de Sheryl Crow e fugidinhas ao rock alternativo, brindadas pela participação de Gary Lightbody, do Snow Patrol. Ou seja, “Red” é um daqueles álbuns em que qualquer ouvinte, com certeza, vai apreciar alguns momentos, mas nunca o todo da obra.

“State of Grace” é que dá os primeiros acordes, e se caracteriza por ser uma certeira faixa de abertura, tão poderosa quanto a Taylor Swift atual, mas mostrando que as suas performances podem ainda ser tão adoráveis quanto as de outrora; de novidade, há o oferecimento de um maior peso ao instrumental, com um olhar sempre voltado para as tendências atuais da música pop. “Red”, a faixa-título, é outra canção fortemente orientada ao pop, mostrando a mesma Swift de “Fearless”, cantando com as mesmas vocalizações e sobre os mesmo temas, só que com um instrumental mais roqueiro e com uma letra mais grudenta. Como se quisesse gritar para todos, escancarando tudo logo de cara, o início de “Red” tem a clara e bem-sucedida impressão de mostrar que Swift cresceu, é hoje uma mulher feita, uma artista experiente e pronta para encarar o auge do seu sucesso.

“Treacherous” é bem bonita, uma balada tristonha, muito bem construída; aqui cabe uma parabenização aos produtores, que fizeram um trabalho praticamente perfeito de mixagem, dando ao resultado final do disco uma maravilhosa sonorização, com instrumentos vívidos, onde tudo está direitinho e no seu devido lugar (com o volume ideal, na frequência ideal, etc.). A quarta faixa, “I Knew You Were the Trouble” é, porém, o primeiro momento estranho do álbum; com uma estrutura simples demais, fraquinha mesmo, exagera nos flertes com o pop atual, sendo nada a mais do que algum single dessas pop-stars atuais com a voz de Swift – algo que, definitivamente, não combina e não agrada. Mas “All Too Well” trabalha muito bem para reparar os estragos causados pela faixa anterior, nos trazendo Taylor Swift em um momento genuíno; pode não ser uma aventura em nada, sendo basicamente o que ela fez nos últimos tempos, mas é a grande artista em um momento consistente.

Terrivelmente comercial, “22” soa como um teen-pop, com uma linha vocal preguiçosa, muito aquém da capacidade de Swift, e com uma letra pobre e grudenta, que a caracterizam como uma forte candidata ao prêmio de pior música de toda a carreira da cantora. Engraçado, porque logo depois “Red” nos brinda com a belíssima “I Almost Do”, um pop-rock impecável, com uma instrumentação semi-acústica fantástica, em uma grande celebração do grande potencial de Swift, tanto como cantora quanto como compositora. Provavelmente os grandes culpados pelos maiores erros, pelos momentos trágicos do álbum (isentando Swift de uma maior culpa), sejam os suecos Max Martin e Shellback, que co-assinam as faixas 4, 6 e 8 de “Red” – justamente, as piores do disco. Estes indivíduos, que vêm trabalhando com os artistas mais comerciais do mundo (Britney Spears, Adam Lambert, Ke$ha, Christina Aguilera e até a boy-band One Direction), cismaram de querer levar Taylor Swift para o caminho dos fartos dólares, mas da obviedade pop – a fraca “We Are Never Ever Getting Back Together” dá mais provas do quão desastrosa foi a participação destes produtores na carreira da cantora.

Como já em outras oportunidades, se ouve uma grande canção logo após uma tragédia; “Stay Stay Stay” é o que se espera de Swift, uma canção adorável contando com uma adorável performance, sem fugir muito do tradicional pop-country – o ritmo em que, indubitavelmente, ela se sai melhor. Talvez, até por isso, se aventurar demais não seja a melhor ideia para a carreira de Swift, tanto que “Red” nos mostra que, quando ela abandona suas origens, não é a mesma artista segura de outros momentos. “The Last Time”, com participação de Gary Lightbody, é uma música muito boa, bem produzida, melódica, mas que não surpreende em nada; soa como se Swift tivesse aberto um espaço de seu disco para uma canção do Snow Patrol.

“Holy Ground” não está entre as melhores canções já gravadas por Swift, mas é uma faixa válida, uma música que vai crescendo no seu decorrer. Já, “Sad Beautiful Tragic”, é uma das canções que mais positivamente surpreendem no álbum; é uma canção triste, tocante e belíssima, com uma performance vocal que arrebata por sua segurança e sutileza. Outra canção que agrada é “The Lucky One”, um pop-rock calmo e envolvido por um cativante instrumental semi-acústico, em que os discretos riifs de guitarra, mais ao fundo, formam um delicioso tempero.

Outra participação especial em “Red” é a do músico folk inglês Ed Sheeran, ocorrida em “Everything Has Changed”; situada na forte segunda metade do álbum, esta é mais uma canção agradável e certeira, que se caracteriza por ser um dos mais bonitos duetos dos últimos anos. A penúltima, “Starlight”, apesar de ser mais orientada ao pop, não chega a ser tão enjoativa quanto as piores faixas do álbum; não é uma grande canção, mas é uma aposta válida, próxima a algumas coisas já feitas por outras artistas do gênero country-pop. A última canção, “Begin Again”, como se estivesse pedindo para que o ouvinte voltasse a ouvir o disco novamente desde o início,  trabalha perfeitamente para encerrar o álbum de maneira competente, mostrando a Taylor Swift crescida e experiente que todo o disco teve a intenção de mostrar.

As piores canções de “Red” são realmente fracas, comerciais demais, aproveitadoras, mas não chegam a afetar tanto o resultado final do álbum. Até porque, se “Red” fosse um disco daqueles antigos, de vinil, poderia ser dito que contém um Lado A inconsistente, de qualidade duvidosa, mas um praticamente impecável Lado B. Apesar de cometer alguns erros primários, como o de, em alguns momentos arrancar Swift de seu nicho, “Red” é um trabalho que cumpre o seu principal papel: o de mostrar a cantora adentrando definitivamente em seu amadurecimento musical.

Há do que se reclamar, mas é inegável que “Red”, apesar dos pesares, é um bom trabalho. Pode não ser o mais consistente e o mais brilhante da carreira de Swift, mas tem tudo para ser um importantíssimo divisor de águas. Crescendo musicalmente, ela caminha para ser um dos maiores nomes da história dentro do seu gênero, deixando de ser uma princesinha para se tornar uma mulher feita.

Dentro das dualidades de “Red”, o que fica, no fim, é o ponto positivo do crescimento musical de Taylor Swift, e as dúvidas negativas deixadas pelos seus flertes com um pop mais chiclete. Mas o que se espera é que ela não abandone suas origens, pois, grande artista que é, não precisa se rebaixar ao desespero comercial para ser uma estrela.

NOTA: 6,9

Track List:

01. State of Grace (Swift) [04:55]

02. Red (Swift) [03:43]

03. Treacherous (Swift/Wilson) [04:02]

04. I Knew You Were Trouble (Swift/Martin/Shellback) [03:39]

05. All Too Well (Swift/Rose) [05:29]

06. 22 (Swift/Martin/Shellback) [03:52]

07. I Almost Do (Swift) [04:04]

08. We Are Never Ever Getting Back Together (Swift/Martin/Shellback) [03:13]

09. Stay Stay Stay (Swift) [03:55]

10. The Last Time (Swift/Lightbody/Lee) [04:59]

11. Holy Ground (Swift) [03:22]

12. Sad Beautiful Tragic (Swift) [04:44]

13. The Lucky One (Swift) [04:00]

14. Everything Has Changed (Swift/Sheeran) [04:05]

15. Starlight (Swift) [03:40]

16. Begin Again (Swift) [03:57]

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1996: Sheryl Crow – Sheryl Crow

Por: Renan Pereira

Quando pensamos nas melhores artistas femininas da música dos anos noventa, é impossível não se recordar do nome de Sheryl Crow. Ela, que por já ter nascido experiente, lançando seu primeiro álbum quando já tinha trinta e um anos, depois de uma longa carreira como backing-vocal de artistas como Don Herley, Eric Clapton e Michael Jackson, já exalava segurança em suas primeiras canções. “Tuesday Night Music Club”, lançado em 1993, foi muito bem-recebido, tendo inclusive ganhado do Rock and Roll Hall of Fame uma honrosa posição 139 em sua lista de “200 álbuns definitivos”. Talvez uma escolha um pouco exagerada, pois seu álbum sucessor, que nem na lista está, é certamente o melhor trabalho já lançado por Crow.

E este é o seu álbum auto-denominado, de 1996. Não que as composições de Sheryl estivessem aqui em um nível superior, pois sua qualidade lírica aborda as mesmas temáticas e com o mesmo espírito de seu primeiro registro; não temos aqui também nenhum hit à altura de “All I Wanna Do”, apesar da musicalidade não ter se alterado. O que temos por aqui é, afinal, um disco mais ousado, mais completo, onde certos upgrades sonoros chegam a ser um contraponto às letras politicamente corretas de Crow; é bem perceptível a utilização de alguns elementos eletrônicos, com uma ligeira aproximação com o rock industrial, mostrando, assim, um produto bem característico de sua época. Sheryl Crow, enfim, adentrou na segunda metade da década de noventa seguindo amplamente as tendências.

Mas, como já dito, não foi por causa das tendências que ela se tornou uma artista diferente. Ela, basicamente, sempre foi uma tradicionalista, mesclando pop, rock, folk e country em um som bem seguro, sem grandes inovações (o que, de jeito algum, pode significar demérito). A grande graça ao ouvir as canções de Crow é perceber uma artista que, dentro de um cenário pop-rock noventista, tratou de utilizar seu talento para construir uma estrutura musical simples, mas bastante agradável. Se alguém espera por coisas novas ou genialidades, talvez Crow não seja, enfim, a melhor pedida. É simplesmente boa música, e não muito além disso.

Entretanto, uma boa quantidade de ruídos estranhos, percussões incomuns e demais elementos novos deu a Crow ares de artista moderna, antenada,  tanto que não é difícil encontrar, dentro do pop-rock atual, elementos que Crow utilizou há mais de quinze anos –  como se percebe na primeira faixa, “Maybe Angels”. “A Change Would Do You Good” é um dos máximos encontros da música tradicional, folk, com a música moderna, com seus efeitos eletrônicos e batidas de hip-hop; mostra com primor que, para se fazer música tradicional, não é preciso criar um amontoado de novas músicas antigas, e que o clássico nem sempre precisa cheirar a mofo. A terceira é a belíssima “Home”, uma balada tocante, guiada por um instrumental tímido, porém certeiro, arquitetado por ótimos riffs country.

Em “Sweet Rosalyn” temos uma sonoridade que, para aquela época, era pra lá de atual: uma combinação de riffs rápidos, porém não muito pesados, com batidinhas e efeitos modernos ao fundo; nada de muito incrível, mas capaz de construir mais uma ótima canção, talvez uma das melhores do disco, contendo um dinamismo interessante. “If It Makes You Happy” foi um grande sucesso na época, e é, certamente, uma das melhores canções já lançadas por Crow; construída sobre uma base sólida, com uma bela cadência rítmica, pode ser considerada como um grande retrato do rock de sua época: após a morte de Kurt Cobain, e dentro de uma onda cujo mandamento era diminuir o peso das guitarras (Bon Jovi que o diga), procurava-se aproveitar elementos da recém-finalizada “era grunge” e misturá-los em um pop-rock cuja ambição era diminuta. É claro que na música, como em quase tudo, um pouco de ambição é sempre bem-vinda, mas é necessário entender que, na época, o mundo estava cansado de rebeldias – em suma, Bill Clinton chegou e mandou todo mundo ficar no sofá. Sem maiores críticas históricas, o que se pode dizer de “Redemption Day” é que se trata, claramente, de mais um bom encontro de tradições e modernismos, mais uma forte canção de um forte registro.

“Hard to Make a Stand” causou polêmica na época, por tratar de aborto; mas é, acima de tudo, mais uma ótima música, semeada por um instrumental perfeitamente produzido. A oitava, “Everyday Is a Winding Road”, é rodeada por percussões tropicais, e se trata de um dos números mais pop apresentados por Crow em seu segundo álbum (tanto que, três anos depois, viria a receber uma regravação de Prince). Com mais alguns sons diferentes, “Love Is a Good Thing” continua a mostrar uma Sheryl Crow perfeitamente alocada em sua época, mesclando rock e country com música pop. Aliás, como alguns artistas acabam marcando alguma época, podemos dizer que Crow está para os anos noventa assim como os anos noventa estão para ela, guardando, é claro, certas proporções necessárias.

A décima faixa é “Oh Marie”, canção de bela melodia, com um instrumental semi-acústico bastante agradável (um dos melhores do disco) e uma letra interessante. A seguinte, “Superstar”, é igualmente boa, mas bem diferente; após um número calmo, ela trata de nos apresentar uma verdadeira obsessão à cultura pop – e aí está a artista completa em seu grande momento. Por mais que as canções de Crow tenham uma personalidade própria, e de bem fácil identificação, se engana quem pensa que as composições são todas iguais; por mesclar o antigo e o novo, ela sempre foi capaz de falar em diferentes tons de diferentes coisas, levando um pouco da tradição para os dias então atuais. Com excelência, a fantástica “The Book” e a apoteótica “Ordinary Morning” seguem a mesma ideia e fecham o álbum, surpreendendo o ouvinte que não esperava muito mais de Crow; elas são, afinal, duas grandes obras-primas desta grande artista, perfazendo um desfecho sensacional para seu melhor álbum.

Como produtos em uma prateleira de uma loja de departamentos, Sheryl Crow e seu álbum auto-intitulado tentam buscar a atenção dos clientes a todo momento, seja por belas ou modernas instrumentações. E o disco “Sheryl Crow” surge como um produto renovado, evoluído, que deixou “Tuesday Night Music Club” com ares de ultrapassado e abraçou sem parcimônia o presente e o futuro. Este é, enfim, um dos melhores trabalhos da década de noventa, um clássico do pop-rock, recheado por belas canções e uma produção impecável, nada menos do que perfeita. Podem até falar que, durante sua carreira, Crow mostrou-se inconstante, musicalmente escorregadia, e isso até pode ser verdade… Mas nada de maiores críticas ao seu segundo álbum, pois é um registro altamente consistente, fortíssimo do início ao fim, um produto de grife que, mesmo com o passar dos anos, continua altamente valorizado.

Por ser um retrato dos anos noventa, não pode mais ser dito que “Sheryl Crow” é um disco atual, mas talvez nem o mais exigente dos clientes está levando isso em consideração. É um caprichado trabalho de uma artista talentosa, repleto de boas canções, e isso já basta para ser uma recompensadora audição.

NOTA: 9,0

Track List:

01. Maybe Angels (Crow/Bottrell) [04:26]

02. A Change Would Do You Good (Crow/MacLeod/Trott) [03:50]

03. Home (Crow) [04:51]

04. Sweet Rosalyn (Crow/Trott) [03:58]

05. If It Makes You Happy (Crow/Trott) [05:23]

06. Redemption Day (Crow) [04:27]

07. Hard to Make a Stand (Bottrell/Bryan/Crow/Wolfe) [03:07]

08. Everyday Is a Winding Road (Crow/MacLeod/Trott) [04:16]

09. Love Is a Good Thing (Crow/Wadhams) [04:43]

10. Oh Marie (Bottrell/Crow/Trott) [03:30]

11. Superstar (Crow/Trott) [04:58]

12. The Book (Crow/Trott) [04:34]

13. Ordinary Morning (Crow) [03:55]

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