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2014: Ghost Stories – Coldplay

Ghost Stories

Por: Renan Pereira

O que é o Coldplay? Alguns podem dizer que se trata de uma famosa banda britânica de rock alternativo, outros lembrarão os grandes hits do conjunto, e algumas pessoas, certamente, soltarão que se trata “da banda de Chris Martin”. Por mais que pareça inútil interrogar sobre o que é, na realidade, um dos projetos musicais mais famosos da atualidade, tal questionamento acaba tornando-se necessário a partir dos rumos conceituais que vem envolvendo uma das marcas mais fortes da música mundial. “Obsessão” talvez seja a palavra que melhor representa as ideias da banda nos últimos anos… Obsessão em crescer? Aquele velho preceito de fazer cada vez mais e melhor? O perfeccionismo tão característico dos grandes nomes da arte? É triste ver que, nas mãos de Chris Martin, esses pontos acabam tornando-se triviais.

O que move o Coldplay, hoje em dia, é uma obsessão pobre, que já derrubou tantos artistas que, em outros tempos, obtinham respeito pela música que faziam… Quando o topo das paradas e o verde dos dólares passam a ser a grande referência de um trabalho, este deixa de representar um resultado artístico para se comportar como um mero caça-níquel, um comércio qualquer como uma metalúrgica ou uma padaria. Isso significa que a arte não pode vender? Não, de jeito nenhum: ela não só pode, como deve vender. Mas, antes de tudo, ela precisa ser, primordialmente, arte. O que o Coldplay atual, refletido em seu mais novo disco, “Ghost Stories”, não consegue ser.

Se houve uma época em que o Coldplay fazia música com sinceridade, este já passou há um bom tempo. Preocupada em fabricar produtos para as estantes das grandes lojas de departamentos, ou até mesmo para alavancar as vendas das emergentes lojas on-line, a banda deixa para lá todos os êxitos que alcançara principalmente em seus dois primeiros registros para fazer com que os lamentos de seu vocalista rendam financeiramente. Se Chris Martin encerrou, de forma pouco amigável, seu relacionamento com a atriz Gwyneth Paltrow, por que não tirar algum cascalho em torno desse acontecimento? Se tabloides sensacionalistas fazem tanto sucesso hoje em dia, por que não tornar ridícula sua própria música em nome de um sucesso comercial nas terras do Tio Sam, outrora tão pouco receptivas com a banda?

O fato é que, quando o dinheiro fala mais alto que todas as outras facetas que envolvem um disco, o resultado tende a ser desastroso. E assim é no fatídico “Ghost Stories”. Basta seu início em “Always in My Head” para perceber que a banda sequer trabalhou duro, deixando o conceito dos rumos sonoros nas mãos do renomado Paul Epworth, o produtor “da moda”. Curioso perceber como os arranjos eletrônicos estrelados não conseguem acompanhar a personalidade da banda (se é que ela ainda existe), perfazendo um cenário tão luxuoso e inútil quanto o apresentado no igualmente falho “Mylo Xyloto”. Enquanto isso, Chris Martin chora, mas não com tanta propriedade quanto em anos atrás… Incrível como tudo o que ele canta hoje em dia, em contrapartida ao teor extremamente íntimo de suas composições, soa artificial, um resultado programado através de equações de maximização de lucro. Nada, porém, soa tão falso quanto a segunda faixa, o single “Magic”, com seu pensamento de reconquistar o público indie através de uma cópia descarada da proposta sonora de Justin Vernon no projeto Bon Iver.

É o queridinho dos hipsters, aliás, que é novamente “sampleado” em “Ink” e “True Love”, faixas que voltam a apresentar a inércia poética inserida em uma sonoridade carente de personalidade. A quinta, “Midnights”, que conta com a participação do ótimo Jon Hopkins (considerado o herdeiro de Brian Eno), se agarra em uma concepção eletrônica ainda mais clara, demonstrando o fim da brincadeira da banda com seus instrumentos – o que sempre havia funcionado bem. Mas nem Hopkins, bem como Brian Eno em “Mylo Xyloto”, consegue inserir toda sua capacidade nos rumos comerciais do Coldplay atual.

Até porque milagre poucos conseguem fazer. Além de ser um mero produto, “Ghost Stories” é um produto mal-nascido, aqueles bens que as empresas lançam, não dão bons resultados, e precisam ser remodelados com urgência para evitar um rápido descarte. Para a sorte da conta bancária da gravadora Universal, o disco contém os famosos “singles de novela”, canções que parecem ter sido feitas sob medida para a trilha-sonora de algum folhetim insosso. Nessa ótica, nenhuma canção se encaixa tão bem quanto a nona faixa, “A Sky Full of Stars”, que chega a contar até com a participação do “estourado” Avicii para amplificar seu apelo comercial.

Se “Another’s Arms” é a falha tentativa de alocar a voz de Martin em uma concepção mais próxima da música ambient, “Oceans” traz um arranjo semi-acústico para tentar captar a atenção daquele fã das antigas. Inútil. É provável que aquele ouvinte que foi apresentado ao grupo através dos ótimos “Parachutes” e “A Rush of Blood to the Head” tenha desistido de “Ghost Stories” antes mesmo de seu fim. O que é ruim, visto que a última faixa, “O”, é não apenas a mais longa, mas a melhor canção do disco. Dentro deste conceito, é o melhor que o Coldplay poderia fazer.

Mas, afinal de contas, qual é a resposta para aquele questionamento um tanto quanto tolo que foi proferido no início deste texto? “A resposta está flutuando com o vento”, diria Bob Dylan. E ele teria razão. Como poderíamos responder alguma coisa? O Coldplay atual ora é uma tentativa falha de ser Bon Iver, ora é um projeto eletrônico altamente comercial, ora se resigna apenas aos versos chorosos de Chris Martin. Uma banda indecifrável, sem personalidade artística e com um futuro duvidoso – e inclusive, para muitos, um grupo que está morrendo por aqui.

NOTA: 2,5

Track List:

01. Always in My Head [03:36]

02. Magic [04:45]

03. Ink [03:48]

04. True Love [04:05]

05. Midnight [04:54]

06. Another’s Arms [03:54]

07. Oceans [05:21]

08. A Sky Full of Stars [04:28]

09. O [07:46]

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2000: Parachutes – Coldplay

Por: Renan Pereira

O Coldplay, uma das bandas inglesas mais cultuadas da década passada, teve seus primeiros passos ainda em 1996, quando Chris Martin e Jonny Buckland, então colegas na University College London, decidiram fundar uma banda denominada Pectoralz, após passarem todo o ano letivo discutindo a ideia de juntos montarem um grupo. No ano seguinte, com a chegada de Guy Berryman, também colega de Martin e Buckland na faculdade, a banda foi renomeada para Starfish, passando a fazer algumas apresentações noturnas em pequenos clubes de Londres; Phil Harvey, antigo amigo de escola de Martin, que naquele tempo estudava na Universidade de Oxford, foi recrutado a fim de gerenciar a banda.

Mas foi a entrada de Will Champion ao grupo o provável momento de maior importância para a formação do Coldplay como hoje conhecemos. Tendo sido encarregado, primeiramente, para assumir as funções de percussão, Champion, que crescera tocando piano, guitarra, baixo e flauta, rapidamente se adequou à bateria, ainda que não tivesse nenhuma experiência com o instrumento. Mais do que simplesmente um percussionista, Champion acabou acrescentando à banda um conhecimento musical elevado, se tornando o principal alicerce para a criação dos instrumentais. Talvez até mesmo por ser, na época, o membro com maior experiência na música, muitos dos caminhos tomados pelo grupo em seus primeiros anos partiram das bases pensadas pelo multi-instrumentista.

Foi também em 1997 que banda finalmente se estabeleceu como Coldplay, a partir da sugestão de Tim Crompton, um estudante local que anteriormente utilizara o mesmo título para sua banda. Ainda no mesmo ano, quase o Coldplay acabou se tornando um quinteto: Chris Martin convidou Tim Rice-Oxley para se juntar à banda, após se impressionar com o talento do músico nos teclados; mas o mesmo acabou recusando, por já ter uma banda ativa – no caso, o Keane. No fim das contas, o quarteto formado por Martin, Buckland, Breeyman e Champion acabou sendo consolidado, com Martin nos vocais, Berryman no baixo, Buckland na guitarra e Champion nas baquetas.

Em 1998, foram lançadas quinhentas cópias do EP “Safety”, sendo que a grande maioria destas foram destinadas a amigos e gravadoras (somente quinhentos compactos permaneceram para venda ao público). Em dezembro do mesmo ano, acabaram assinando com a gravadora independente Fierce Panda, e em fevereiro de 1999, em apenas quatro dias, gravaram seu segundo EP, intitulado “Brothers and Sisters”, detentor de apenas três faixas. Nisso, acabaram chamando a atenção de uma grande gravadora (Parlophone), gerando um grande contrato para lançamento de cinco álbuns com o selo; em abril, a fim de avaliar melhor a aceitação do público à banda, mais um EP foi gravado: contendo cinco faixas, entre elas “Bigger Stronger” e “Don’t Panic”, “The Blue Room” foi a sacada definitiva para o Coldplay chegar ao seu primeiro álbum.

“Parachutes” começou a ganhar vida a partir dos trabalhos do Coldplay com o produtor Chris Allison, que havia sido recrutado pela gravadora para dar uma direção sonora mais sábia à banda, procurando mesclar o rock alternativo característico do grupo, inspiradíssimo em Travis, com algumas ideias mais clássicas. Porém, no álbum, apenas a oitava faixa, “High Speed”, tem na produção a assinatura de Allison: as demais tiveram Ken Nelson como produtor. Inicialmente planejado para ser gravado durante um intervalo de duas semanas, “Parachutes” acabou exigindo uma produção bem mais demorada, devido aos compromissos da banda com shows e turnês. Quando pronto, o disco foi dedicado à mãe de Will Champion, Sara Champion, que pouco tempo antes havia morrido em virtude de um câncer.

Musicalmente inspirado em Radiohead, U2, Travis e Oasis, “Parachutes” é detentor de uma sonoridade serena, composta basicamente por melodias atmosféricas em que os sentimentos e humores são as bases edificantes. Segundo o próprio Will Champion, as composições do álbum trazem lembranças da canção setentista “Perfect Day”, de Lou Reed: “as letras são lindas e muito felizes, mas a música é triste, muito triste”.

É com as inspirações claras de indie rock da primeira faixa, “Don’t Panic”, que o álbum se inicia, já demonstrando a grande capacidade do Coldplay em construir belos arranjos; com um instrumental construído à base de riffs semi-acústicos, remetendo à sonoridade do Radiohead nos tempos do “The Bends”, a banda abre os caminhos de sua discografia em um número de belíssima melodia, em que tudo parece se completar: os riffs de piano, a moderna linha de bateria e o agradável vocal de Chris Martin dão à canção uma atmosfera acolhedora, rumando calmamente para um bonito desfecho. A impressionante “Shiver” contém maravilhosos riffs de guitarra, alocados em um instrumental que, a todo momento, bebe intensamente das ideias plantadas pelo rock alternativo na década de noventa; com inspirações diretas de Jeff Buckley e de seu álbum “Grace”, é um dos momentos mais brilhantes de Chris Martin como vocalista, enquanto Jonny Buckland vive sua mais fantástica atuação na guitarra.

“Spies” passa dos cinco minutos de duração, e embora seja menos atraente que as faixas anteriores, se trata, indubitavelmente, de uma bela música, detentora de uma letra inteligente e de arranjos que flutuam através de uma rica atmosfera sonora. Ouvir “Parachutes” é contemplar uma sonoridade serena, sentimental, que trata de acolher o ouvinte a todo momento; assim é a quarta faixa, “Sparks”, uma calma canção que se desenvolve através de mais um bonito arranjo semi-acústico. O single de maior sucesso do álbum, a clássica “Yellow”, que praticamente viria a se firmar como sinônimo de rock inglês no início da década passada, ajudou o Coldplay a se tornar um sucesso em todo o globo, e teve em sua construção, segundo os próprios integrantes da banda, fortes inspirações no rock setentista de Neil Young – principalmente quando tratamos da linha vocal de Martin; em suma, se trata de uma fantástica canção de amor, com um fortíssimo instrumental, se destacando como um dos momentos de maior destaque em “Parachutes”: ao mesmo tempo em que lida com uma estrutura dinâmica, que novamente nos remete diretamente ao rock alternativo da década de noventa, sabe soar comercial, de aceitação imediata, reunindo todas as obsessões pop da banda.

Por ser um registro que exala sentimentos do início ao fim, é possível encontrar, em alguns momentos de “Parachutes”, certas divagações sobre o próprio íntimo da banda. Segundo Chris Martin, “Trouble”, sexta faixa do álbum, que também foi um single de sucesso, foi escrita levando em consideração o seu próprio comportamento: “havia algumas coisas ruins acontecendo na nossa banda”, diz ele, e “a música é sobre ter um comportamento ruim para com alguém que você realmente ama… e eu certamente estava fazendo isso com alguns membros da banda”. Já, a faixa-título, é um número rápido, com menos de um minuto de duração, servindo basicamente para fazer sala para a oitava faixa, “High Speed”, canção gravada pela banda com o produtor Chris Allison, ainda antes da chegada de Ken Nelson e do início propriamente dito das sessões de gravação do disco; esta é uma faixa melancólica, pouco dinâmica, que por não conter a mesma riqueza sonora das demais faixas, se caracteriza como um raro momento mal resolvido dentro do álbum.

A penúltima é a belíssima “We Never Change”, calma e atmosférica, em que os riffs de Jonny Buckland acabam por levar o ouvinte a uma dimensão própria, onde é possível contemplar perfeitamente os sentimentos inseridos na canção. É com um arranjo construído basicamente através dos acordes de piano que a admirável “Everything’s Not Lost” marcha durante cinco minutos e meio, se portando como uma balada majestosa, um turbilhão de emoções, um número perfeito para contabilizar toda a carga sentimental que “Parachutes” apresentou durante sua sucessão de faixas. Há ainda a faixa escondida “Life Is for Living”, que brinca com elementos folk enquanto arrebata a audição com mais um arranjo brilhante, dando ao ouvinte um último recado e uma última percepção. Pois “Parachutes” é um álbum não somente para ser ouvido, enquanto se admira letras e instrumentais; para apreciá-lo com perfeição, em uma audição completa, é preciso se deixar levar pelo som, viajando à atmosfera sentimental criada por Chris Martin e sua trupe.

Um ótimo disco de estreia, a admiração à “Parachutes” acabou se minguando durante o tempo, principalmente quando “A Rush of Blood to the Head”, a grande obra do Coldplay, foi lançada em 2002, elevando o nome da banda a um patamar muito mais elevado. Mas não é muito sábio se prender apenas ao melhor momento do grupo e deixar seu grande debut em segundo plano, afinal, sem “Parachutes”, o público não teria a oportunidade de conhecer a banda mais bem sucedida da Inglaterra durante a primeira década do segundo milênio. É verdade que, hoje em dia, a sonoridade do Coldplay acabou se tornando redundante, embarcando em aventuras que pouco acrescentam qualitativamente ao catálogo da banda… mas “Parachutes” é do tempo em que o grupo conseguia fazer de sua música algo pulsante, atraente, um trabalho feito, acima de tudo, com sinceridade. É um registro consistente e sereno, uma estreia atraente que fez do quarteto inglês um sucesso desde a sua estreia.

NOTA: 8,5

Track List: (todas as faixas compostas por Berryman/Buckland/Champion/Martin)

01. Don’t Panic [02:17]

02. Shiver [04:59]

03. Spies [05:18]

04. Sparks [03:47]

05. Yellow [04:29]

06. Trouble [04:30]

07. Parachutes [00:46]

08. High Speed [04:14]

09. We Never Change [04:09]

10. Everything’s Not Lost [07:15]

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