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2014: Nheengatu – Titãs

Nheengatu

Por: Renan Pereira

Os protestos ocorridos no Brasil em 2013, enquanto era realizada a Copa das Confederações, não serviram apenas para colocar um fim na inércia crítica que parecia abalar a população brasileira há muitos anos: também foram responsáveis por “acordar alguns gigantes que estavam dormindo”. Os Titãs pareciam curtir um sono eterno, e muita gente até duvidava que a banda voltaria a fazer, algum dia, um novo projeto relevante. Ainda que o barco titânico tivesse começado a afundar nos anos noventa, com o lançamento dos péssimos “Volume Dois” e “As Dez Mais”, foi na década passada que a banda passou a ser nada além do que um fantasma a perambular pelos anais do rock nacional, comportando-se como uma entidade morta que nada mais tinha a acrescentar. A morte de Marcelo Fromer e a saída de Nando Reis foram verdadeiros golpes de pá na carreira dos Titãs, embora tenha sido a posterior saída de Charles Gavin que pareceu enterrar a banda de uma vez. O lançamento de “Sacos Plásticos”, então, soou como um atestado de óbito… Mas veio a agitação política de 2013, e a banda milagrosamente renasceu.

Mesmo sem apresentar nenhuma novidade sonora, os Titãs fazem de seu novo lançamento, “Nheengatu”, uma especie de “renascimento tardio” do conjunto. Aproveitando o clima politicamente crítico que se estabeleceu no país com os protestos, bem como o constante aparecimento dos integrantes na mídia, o grupo finalmente resolveu aplicar o seu talento em “cravar a unha na ferida” para produzir um disco artisticamente válido. Mostrando uma habilidade crítica até mesmo surpreendente para uma banda envelhecida, os Titãs fazem de seu novo trabalho uma obra que seu público estava querendo ouvir há muito tempo.

Para isso, eles não titubearam em emprestar quase todas as bases de dois de seus álbuns mais cultuados: “Cabeça Dinossauro”, de 1986, e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, do ano seguinte. Isso é ruim? Digamos que seja apenas em partes… Embora fique claro que a banda não tem mais condições de acrescentar novos elementos ao seu legado (um fato que já era explorado por Nando Reis há mais de uma década), temos músicos talentosos pisando em um terreno que conhecem muito bem. Se nos últimos anos o público teve aguentar a banda tentando flertar com o pop-rock atual com pouquíssimos êxitos, agora podemos acompanhar Branco Mello, Paulo Miklos, Sérgio Brito e Tony Bellotto de volta a seu habitat natural.

A primeira faixa de “Nheengatu”, “Fardado”, já deixa claro o rumo pelo qual o disco é guiado: procurando ser instrumentalmente feroz e liricamente crítico – mas, em contrapartida, esbarramos logo no início em conceitos já batidos, apresentados há muitos anos na famigerada “Polícia”. A segunda, “Mensageiro da Desgraça”, é um recado claro a candidatos a “salvadores de pátria”, um oferecimento especial a nossos “queridos” políticos, assim como “Vossa Excelência” havia sido em 2005. Nosso cotidiano tão deprimente, com nossos pensamentos tão dispersos, é bem explorado em “República dos Bananas”, que traz um conceito sonoro totalmente embebido no ska, amplificando a “volta às origens” que o disco busca promover.

“Fala, Renata” trata daquelas pessoas que, aproveitando-se dos fatos, falam muito, mas, no fim das contas, não dizem nada de relevante – ou de suportável. Tony Bellotto se destaca em “Cadáver Sobre Cadáver”, uma melódica canção sobre violência que parece fazer uma interação entre a fase mais suja e os anos mais “pop” dos Titãs. Outro destaque positivo acaba ficando para a produção de Rafael Lemos, que acerta ao fazer o “feijão com arroz”, deixando os integrantes da banda totalmente à vontade… Algo muito diferente do que Rick Bonadio tentara quatro anos atrás no fatídico “Sacos Plásticos”, em que o produtor tomara as rédeas para si tentando transformar os Titãs em uma espécie de Jota Quest para tiozinhos.

Apesar de conter guitarras interessantes, “Canalha” é uma canção mais fraca, em meio a tantas porradas… E a maior dessas porradas é, sem dúvida nenhuma, a sétima faixa, a pesadíssima “Pedofilia” – tanto na temática quanto na instrumentação. Um disco de altos e baixos, “Nheengatu” é capaz de fazer o ouvinte se sentir instigado em alguns instantes para logo depois se ver estacionado em redundâncias, como é o caso da oitava faixa, “Chegada ao Brasil (Terra à Vista)”. Mas convenhamos que um lançamento dos Titãs com altos e baixos já consegue ser superior a tudo o que a banda havia feito na última década – o que acaba gerando, obviamente, um resultado muito mais positivo do que negativo.

“Eu Me Sinto Bem” traz um bem-vindo instante de novidade, em que os Titãs mesclam sua identidade punk com um clima totalmente tropical, flertando inclusive com melodias da música nordestina. A seguinte, “Flores Pra Ela”, traz novamente guitarras encorpadas, mas por ficar conceitualmente isolada no disco, acaba passando quase despercebida, e será certamente mais um número esquecido do vasto catálogo de canções do grupo. “Não Pode” até traz de volta à tona aquele espírito anárquico de “Cabeça Dinossauro”, mas dentre os discursos do disco, é aquele que menos cola: podia até funcionar 30 anos atrás, mas ver cinquentões explorando uma ideia “contra as regras” não deixa de aparentar uma forçação de barra.

“Senhor” busca inspirações em “Igreja”, outra faixa do álbum “Cabeça Dinossauro”, para fazer críticas às instituições religiosas oportunistas – este em particular um discurso que ainda cai como uma luva, veja bem! Sim, pouco evoluímos. Já fazem quase trinta anos que o disco mais reverenciado da discografia dos Titãs foi lançado e, mesmo assim, muitas de suas críticas continuam valendo para os dias de hoje. Tanto que, mesmo repetindo conceitos, a banda consegue construir um trabalho cronologicamente relevante, atento aos problemas da sociedade atual. Se pararmos para pensar, é impressionante: as mazelas da sociedade que seus pais enfrentavam enquanto jovens são as mesmas que você enfrenta hoje em dia.

“Baião de Dois”, como seu próprio título pode deixar transparecer, se assemelha à “Eu Me Sinto Bem” quanto às intervenções estilísticas da música nordestina – talvez o único aspecto realmente novo para a sonoridade dos Titãs que “Nheengatu” apresenta. Mas melhor do que nada, não? Ainda há a última faixa, a igualmente boa “Quem São os Animais?”, que lembra os grandes hits da história dos Titãs: um pop-rock de primeira, com melodia convidativa e cheio de personalidade.

Bem, é inevitável que finalmente os Titãs voltaram pra valer. Mas o melhor de tudo, ainda, é vê-los com vontade de produzir. Todos estão muito bem, com projetos paralelos bem-sucedidos, mas a música continua sendo para os caras um aspecto relevante – algo que, anos atrás, muita gente já andava duvidando. Se os Titãs precisavam provar que ainda estavam vivos, provaram. “Nheengatu” pode até ser um reaproveitamento de velhas ideias, mas é um disco que utiliza-se, acima de tudo, de boas ideias.

NOTA: 6,5

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1984: Titãs – Titãs

Por: Renan Pereira

É inegável que os Titãs construíram, a partir de uma história de mais de trinta anos, uma das maiores e melhores bandas de rock que o Brasil já viu. Dinâmica, a sonoridade da banda esteve sempre em constante mutação, abrangendo diversas texturas sonoras nos mais diferentes instantes da sua carreira; ora mais cru, ora mais pop, e às vezes até soando cru e pop ao mesmo tempo. Alguns de seus trabalhos vieram, pela qualidade artística e crítica que os cercam, a se tornar verdadeiros clássicos da música, marcas inapagáveis da época em que foram inseridos, e instantes necessários para a formação política e sociológica de uma grande leva de jovens.

Só que a história da banda, apesar de rica, brilhante, sempre esteve envolvida em polêmicas. Uso de drogas, prisões, críticas ferrenhas a nichos “intocáveis” da sociedade, fugas do óbvio seguidas de aproximações, e demais confusões constantes, fizeram do grupo o mais intrigante de sua época.

E os Titãs já começaram sua história com ousadia, carregando o incomum título de Titãs do Iê-Iê e combinando estilos esquisitos, tanto no que diz respeito à música quanto à área comportamental; mesclavam as mais diversas vertentes sonoras que, naquele tempo, começavam a ter destaque no cenário internacional, mas que ainda não tinham grande apelação em terras tupiniquins, e se apresentavam com um visual extravagante, que incluía maquiagem, penteados engraçados e ternos coloridos com gravatas de bolinhas.

No início, o grupo era praticamente um “batalhão”, uma rara banda de nove integrantes, que se uniu através da dissolução de outros projetos. Da banda Performática vieram Arnaldo Antunes e Paulo Miklos, enquanto Nando Reis era percussionista do Sossega Leão, e Branco Mello, Marcelo Fromer e Tony Bellotto formavam o Trio Mamão e as Mamonetes. Sérgio Britto e Marcelo Fromer até chegaram a se apresentar no Chacrinha, sendo “gongados” enquanto cantavam a música “Eu Também Quero Beijar”, de Pepeu Gomes.

Em 1984, pouco antes de assinarem com a gravadora WEA, os Titãs experimentaram pela primeira vez uma alteração em seu line-up. Por motivos estéticos, Ciro Pessoa decidiu sair do grupo, deixando então a banda com os oito membros que compõe a foto da capa do primeiro disco: Arnaldo Antunes, Branco Mello, Marcelo Fromer, Nando Reis, Paulo Miklos, Sérgio Britto, André Jung e Tony Bellotto. Este primeiro álbum, lançado naquele mesmo ano, no mês de agosto, procurou apresentar toda a peculiaridade do conjunto (agora denominado apenas “Titãs”, para evitar associações com a jovem guarda), tentando extrair o máximo de sua personalidade para a criação de um registro único, inovador para o rock nacional.

Só que a produção errou, e a culpa maior talvez nem esteja nos próprios produtores. A WEA, animada com a oportunidade de gravar o primeiro disco de uma banda promissora, deu a oportunidade aos Titãs de fazer uso da mais avançada tecnologia de gravação existente no Brasil, que consistia em um áudio com 24 canais. O grupo era iniciante, sem experiência, ninguém no país ainda sabia muito bem como fazer o melhor uso da tecnologia disponível… Enfim, tudo era novidade, e o resultado disso foi um som bastante fraco em relação às apresentações ao-vivo da banda.

Mas, mesmo assim, o disco passa longe de soar ruim. Temos nele uma sucessão de faixas interessantes, algumas que viriam a se encontrar entre as mais famosas da banda, como “Sonífera Ilha”, “Marvin”, “Go Back” e “Querem Meu Sangue”. E é com a tropical “Sonífera Ilha”, cantada por Paulo Miklos, que o álbum começa, o maior sucesso da banda em seus primeiros anos e, segundo algumas fontes, a música mais tocada nas rádios de todo o país em 1984; a canção, construída sob um terreno litorâneo, aparentemente relaxante, é na verdade um misto entre os sentimentos reais de tensão e imaginários de paz do personagem, que, ao “colar seu ouvindo no radinho de pilha”, viaja para uma nova dimensão, idealizada. Nando Reis foi quem fez “Marvin”, versão para “Patches”, de Dunbar e Johnson, interpretada originalmente pela banda de soul music Chairmen of the Board, em 1970; a música, que tem uma letra belíssima, crítica, é uma primeira e pequena evidenciação do talento lírico de Nando Reis, apesar dele apenas ter lapidado algo que já estava criado.

“Babi Índio” é muito interessante, até mesmo por demonstrar um espírito mais “selvagem”, que a banda exploraria de forma bem mais intensa em 1986, no disco “Cabeça Dinossauro”; se trata, afinal, de uma música mais crua, com uma instrumentação mais puxada para o punk, se caracterizando um dos números mais pesados do primeiro álbum. A sonoridade do disco reflete, aliás, muito a época em que foi gravado, quando o ska e o new wave eram ritmos em constante crescimento ao redor do mundo; há alguns toques mais diretos, de um punk rock mais tradicional, é verdade, e até alguns flertes com a música negra norte-americana, mas basicamente o que se ouve é o seguimento das tendências mundiais da época (se bem que, no Brasil, estas texturas tinham uma imagem muito maior de novidade).

A quarta, “Go Back”, é mais um dos clássicos da banda, mas que, assim como “Marvin”, teve maior êxito em regravações futuras, devido à errônea produção dos instrumentais ocorrida no debut; composta por Sérgio Britto, é uma canção positiva, na qual o tecladista teve inspirações diretas de um poema de Torquato Neto. “Pule” é dançante, contagiante, onde novamente certos sentimentos “tropicais” dão o ar de sua graça; com uma letra bem característica dos primeiros anos da banda, refletindo toda a peculiaridade do conjunto, tem um contraponto novamente no instrumental, uma aposta fácil que muito lembra a sonoridade de Tim Maia.

A ótima “Querem Meu Sangue”, cantada por Nando Reis, uma das mais competentes faixas do disco, é versão de “The Harder They Come”, de Jimmy Cliff, e também viu alcançar maiores êxitos em versões ao-vivo e em lançamentos posteriores. “Mulher Robot” parece refletir melhor o que os Titãs eram na época, saindo, para a sorte dos ouvintes, inabalada pelos erros de produção; se trata de uma faixa de forte personalidade, com uma instrumentação mais pesada, com riffs obscuros, sujos, e uma letra curta e direta. A oitava é a bonita balada “Demais”, que contém, em seu início, a mesma introdução de cítara de “Love You To”, música de George Harrison presente no álbum “Revolver”, dos Beatles. “Toda Cor”, por ter sido lançada no mesmo compacto de “Sonífera Ilha” (disco este que, na época, acabou vendendo mais que o próprio LP em que as músicas estão inseridas), teve também uma boa execução nas rádios, ajudando os Titãs a crescerem em popularidade, se concretizando como um dos grupos mais promissores do rock nacional; se trata de uma música interessante, com uma letra competente e uma instrumentação bem puxada para o punk rock.

“Balada Para John e Yoko” é a versão em português da música em inglês de John Lennon, com uma letra praticamente idêntica, a não ser por alguns toques titânicos “nonsense”. A última faixa é “Seu Interesse”, que não é uma música com muita fama, mas é um dos melhores números do disco, refletindo de forma impecável aquela situação vivida pelas pessoas quando atingem a fama, quando são geralmente rodeadas por interesseiros.

No fim, o que o disco prometia não acabou sendo cumprido. Afinal, os Titãs do primeiro álbum pouco se pareciam com os Titãs dos shows. A força instrumental, um dos pilares da banda, acabou por ser totalmente perdida pela produção, que não conseguiu inserir no disco toda a forte personalidade da banda. Um erro grave, sem dúvida, pois o álbum poderia ser um clássico, ser realmente o registro inovador que a gravadora esperava, e até tentou captar o espírito da banda, mas infelizmente não conseguiu. Mostrar o que realmente um projeto musical é, provavelmente seja o principal ponto de um debut – e quando isso não é alcançado, temos trabalhos com méritos apenas relativos. E assim é, realmente, o primeiro disco dos Titãs.

Liricamente forte, mas instrumentalmente fraco, o álbum não é de se jogar fora, mas claramente deixou a desejar. Os Titãs, desde o seu início, formaram uma grande banda, uma das mais interessantes do Brasil, mas que não apareceu em seu primeiro registro de estúdio. Felizmente, ficaram algumas grandes canções, que entraram para história, e que, em algum momento posterior, com seu real espírito, conseguiram mostrar sua verdadeira e alta qualidade.

NOTA: 6,4

Track List:

01. Sonífera Ilha (Mello/Barmack/Pessoa/Fromer/Bellotto) [02:54]

02. Marvin (Johnson/Dunbar/Reis) [04:11]

03. Babi Índio (Mello/Pessoa) [03:38]

04. Go Back (Britto/Torquato Neto) [03:40]

05. Pule (Antunes/Miklos) [02:20]

06. Querem Meu Sangue (Jimmy Cliff) [03:08]

07. Mulher Robot (Bellotto) [02:22]

08. Demais (Antunes) [02:48]

09. Toda Cor (Barmack/Pessoa/Fromer) [03:21]

10. Balada Para John e Yoko (Lennon/McCartney) [02:40]

11. Seu Interesse (Antunes/Miklos) [03:10]

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