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2014: Barulho Feio – Romulo Fróes

Barulho Feio

Por: Renan Pereira

Romulo Fróes não é músico, e quem diz isso é ele mesmo. Prefere ser chamado de “compositor”, devido ao seu grande apego à canção. Não conhece as notas que toca no violão, mas é requisitado por onze entre dez bons nomes da “nova” geração que precisam de um conselho sonoro ou estilístico. Um novo… Nelson Motta? Não, ele mesmo ri da comparação. Fróes é um cara simples, que gosta de ficar com seus amigos, de ajudar e de ser ajudado. A cara da “nova cena paulistana”, que de nova realmente já tem muito pouco, e que não pode mais ser restringida apenas à capital paulista.

Tudo começou na virada do século, com as novas possibilidades que foram apresentadas através dos novos conceitos da música dita independente – que atualmente forma, no fim das contas, a única vertente “a ser lavada à sério” no nosso país. Os novos artistas passaram a lançar seus discos com suas próprias forças, sem o auxílio – e as regras – das gravadoras, em um movimento que, com a popularização da internet, apenas acelerou… e que é, hoje em dia, impossível de ser parado. E, em certa fatia, graças a Fróes e seus companheiros de “vanguarda paulistana”.

Amigos que, no quinto disco solo do compositor, voltam a se fazer presentes. Na sonoridade ruidosa de “Barulho Feio”, Thiago França parece soprar de forma aleatória, e a guitarra de Guilherme Held grita em agonia enquanto Marcelo Cabral faz de seu baixo o construtor de um muro sonoro alto e impiedoso. Em meio a esse cenário caótico, porém quase silencioso, surge Romulo Fróes a percorrer, em voz e violão, os sons da maior metrópole da América Latina. “Não Há, Mas Derruba”, a primeira faixa, é o início de uma jornada que já vai deixando claro o conceito do disco: lento, triste e difícil, o mais complexo capítulo da discografia de Fróes.

É curioso perceber que a complexidade alcançada por Fróes é produto do que há de mais simples e tradicional na MPB: o minimalismo quase silencioso do conceito “voz e violão”. Eis aí uma representação clara da paixão do compositor pela canção em seu estado mais puro, demonstrada na exploração intensa das heranças da bossa-nova e dos sambistas “tristes”, como Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho. Então estamos de frente a uma música que, no fundo, é um “grande mais do mesmo”? Muito pelo contrário: a fim de construir um resultado “novo”, Fróes pauta sua carreira na evolução, ou melhor, na desconstrução: a forma esbarrando no disforme, seguindo-se o padrão de não se ter um padrão. No fim das contas, tanto a voz quanto os acordes acústicos se perdem em meio ao “caos controlado” que se instala no disco.

A ambientação que torna “Barulho Feio”, até certo ponto, de difícil degustação ao ouvinte, parte do cenário desconstruído – tanto pelos instrumentos quanto pelos sons de fundo, gravados por Fróes em uma caminhada da Praça da República até a Catedral da Sé: buzinas de carros, gritos, pastores enlouquecidos… Os “barulhos feios” que procuram “encontrar a beleza onde não há”. E isso é de fácil percepção? Não, de jeito nenhum. “Barulho Feio” é um desafio ao modo imediatista e disperso com que a música é tratada nos dias de hoje, revelando a sua beleza apenas à medida em que as audições se sucedem. Não serão poucos os que o interromperão no meio em busca de algo mais pop, ou até que chegarão ao fim sentindo um grande vazio, o considerando “insípido, inodoro e incolor”. Pois Fróes nos obriga a ruminar o disco para que sintamos seu gosto, sua cor e seu cheiro.

Uma tarefa recompensadora. Pois além do cenário desafiador, o álbum nos oferece belas canções. Letras formidáveis, bonitas parcerias com Clima, Nuno Ramos e Alice Coutinho, poemas que são sussurrados por Fróes em grave e bom som… As faixas, na primeira audição, soam dispersas, quase inaudíveis, mas aos poucos vão ganhando uma força que surpreende. É um petardo depois de outro, mantendo o conceito central e ao mesmo tempo se montando como um passeio por várias texturas, demonstrando a habilidade de Fróes como compositor. Quando a dobradinha com Juçara Marçal surge em “Espera”, podemos até jurar que o disco, a partir dali, vai seguir um ritmo mais leve… até surgir a pesadíssima “Ó” para nos encher novamente de incertezas. De passo a passo, de esquina a esquina, de canção a canção, a intenção de Fróes é pegar o ouvinte de calças curtas.

“Barulho Feio” é ótimo. E é chato. No fim, a nossa receptividade à obra acaba sendo igualmente proporcional à paciência com que a tratamos. Talvez por exigir do público uma tarefa cada vez mais árdua em um mundo que clama por imediatismo, o disco será ignorado até por pessoas que veem com bons olhos a carreira de Fróes – tanto em trabalhos solo ou unido a Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral na banda Passo Torto. Logo, não é um trabalho que abre portas, que possa ser oferecido a quem quer ser apresentado à tão falada “nova vanguarda paulistana”. É um álbum muito particular de um artista provocante, que gosta do “difícil” não para ostentar o selo de “underground”, mas por ser sincero ao seu fardo de fazer algo novo desconstruindo o que já existe há tanto tempo.

Quem topa a tarefa, chegando ao interior da Catedral da Sé nos instantes finais de “A Luz Dói” com os ouvidos tão atentos quanto no início da jornada, verá que o tempo gasto pede ainda mais tempo, e que uma grande obra pede passagem para se apresentar. Por isso, pode ser dito que “Barulho Feio” é um disco que cresce continuamente, mas somente a quem lhe dá a oportunidade de crescer.

NOTA: 8,5

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2009: Sem Nostalgia – Lucas Santtana

Sem Nostalgia

Por: Renan Pereira

Sempre quando se fala de bossa-nova, é comum crescer em nossa mente a imagem de João Gilberto sentado em seu banquinho, em um exercício puro de voz e violão… No mundo das ideias prontas, é como se Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, e toda aquela turma do movimento tropicalista, tivessem fechado as portas para o gênero que formou a MPB, em nome de uma nova abordagem da música tupiniquim. Mas o fato é que, na verdade, isso nunca aconteceu: os próprios Gil e Caetano foram, indubitavelmente, reformadores da bossa-nova, e não demolidores. O que seria do tropicalismo sem os elementos plantados por nomes como Tom Jobim, João Gilberto, Baden Powell e Vinícius de Moraes?

O empoeiramento da imagem do artista sentado no banquinho com seu violão não foi, portanto, culpa dos tropicalistas. Talvez pela grande simplicidade de seu conceito, a bossa-nova mais pura tenha perdido espaço a partir dos anos em que as novas possibilidades de estúdio começaram a ser experimentadas em solo brasileiro. Afinal, com tantas reverberações, multi-tracks e softwares de gravação, qual produtor ansioso por novidade investiria no velho conceito de “banquinho e violão”? A resposta é simples e imediata: Lucas Santtana. Em 2009, o músico não apenas revisitou o universo criado pela bossa-nova, como mostrou que do simples dedilhado podem surgir as mais modernas atmosferas sonoras.

Após flertar com conceitos experimentais e flutuar pela essência do dub, gênero jamaicano que faz forte uso de baixo e bateria em um constante exercício de sobreposição de sons, Lucas Santtana se mostrava pronto para criar algo ainda maior. O músico baiano, que já havia colaborado com grandes nomes da música brasileira e lançado três discos de qualidade indiscutível, acabou obtendo um salto gigantesco em sua carreira a partir do lançamento de “Sem Nostalgia”, um dos discos fundamentais da chamada “nova MPB”. Para isso, Santtana procurou reviver as antigas ideias, mas alcançando, a todo instante, as mais futurísticas concepções.

Para tentar entender melhor o que Lucas Santtana fez, tente pensar como seriam aqueles antigos e inocentes joguinhos do Atari sendo relançados em um console moderno, como o PlayStation 4. Inimaginável? Pois é… A comparação pode até ser um pouco boba, mas consegue representar os êxitos de “Sem Nostalgia”: transformar velharias em uma constante novidade. O músico utilizou-se apenas do violão como instrumento musical, mas a partir da presença de um numeroso e competente conjunto de produtores, brincou com variadas concepções de modernos e assertivos efeitos sonoros. A primeira faixa, “Super Violão Mashup”, apresenta recortes de antigas canções de grandes nomes da MPB revitalizados a partir de um verdadeiro turbilhão sonoro… E, acredite se quiser, tudo no álbum é, no fundo, apenas voz e violão. Todos os efeitos têm origem somente no dedilhado de Santtana.

Dedilhado este que se mostra absolutamente impecável em “Who Can Say Which Way”, produzida por Chico Neves e gravada em parceria com a banda carioca Do Amor, e que transforma, não por acaso, a solidão em coletividade; se um dos preceitos da nova MPB é usar e abusar das colaborações, Santtana parece ter entendido que, na música, aquele batido conceito que diz que “a união faz a força” tem grande validade. Números mais pueris também se fazem presentes, como mostra muito bem a terceira faixa, “Night Time in the Backyard”, que utiliza a trinca formada por voz, violão e efeitos para construir um número singelo, que parece alcançar a crueza sonora de Momo e os arranjos vocais de Caetano Veloso. Curumin também aparece entre os colaboradores que auxiliaram Lucas Santtana para a criação do disco, e a quarta faixa, a deliciosa “Cira, Regina e Nana”, traz o músico paulistano nos arranjos de percussão.

Poucas vezes a utilização do violão na MPB mostrou-se tão inventiva quanto em “Sem Nostalgia”, percorrendo em um caminho inédito e distante de qualquer ideia mastigada todas as atmosferas possibilitadas pelo tão utilizado instrumento. É até mesmo difícil rotular o trabalho como “acústico”, pois através do dedilhado criam-se nuances totalmente afastadas de qualquer concepção simplista; observe como os sons são delineados em “Recado para Pio Lobato”, e perceba quão monumental é a “revitalização” proposta por Lucas Santtana… Um jogo imparável de atraentes texturas modernas, capaz de fazer alguns momentos de menor invenção, como “Hold Me In”, soarem como uma novidade absoluta para o ouvinte. De fato, onde não há a riqueza de efeitos trabalhada pela produção, existem pequenos números de inquietação lírica e sentimental, como é o caso da sexta faixa.

Há mais uma aproximação forte a Caetano Veloso em “Amor em Jacumã”, canção que flerta com maestria com o samba, e traz novamente Curumin como colaborador. Na oitava, “I Can’t Live Far From My Music”, é notável o trabalho do produtor Kabo Duca, transformando de forma incrível o violão de 12 cordas tocado por Régis Damasceno (do Cidadão Instigado) em um instrumento de percussão. “Sem Nostalgia” realmente não cansa de nos surpreender, e a partir de sua oitava faixa continua a agregar arranjos cada vez mais ricos (e de uma singela complexidade) ao seu conceito. Conceito este que é, aliás, mantido do início ao fim, transformando o conjunto de canções em uma unidade forte e rica, em que todas as faixas, de alguma forma, se entrelaçam entre si.

São magníficos os arranjos vocais e instrumentais de “Cá pra Nós”, construindo um número de forte apelo sentimental, capaz de jorrar sensibilidade a todo momento. Na décima, “O Violão de Mario Bros”, Lucas Santtana arquiteta, com a ajuda do produtor João Brasil, mais uma colagem de clássicos da MPB, convertendo-os em uma salada musical temperada com os mais modernos condimentos. Já “Ripple of the Water” abandona os estúdios modernos para saborear a mais pura natureza: a faixa foi gravada no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, contando com a real participação de várias espécies de pássaros. O meio ambiente parece ser realmente o elemento que brinda a finalização do disco, visto a orquestração selvagem de “Naureza nº1 e Mi Maior”, última faixa do registro.

Em “Sem Nostalgia”, Lucas Santtana não apenas tirou a poeira da imagem que simbolizava a bossa-nova… O baiano desceu do banquinho, o desmontou e utilizou as madeiras como apoio para percorrer novos terrenos. Um mundo moderno, repleto de novas possibilidades, capaz de retirar do violão todos os efeitos possíveis e desejáveis. Uma viagem atraente, que descobre o novo a todo momento, para então terminar com calmaria, na companhia da natureza, talvez querendo mostrar que não há nada tão natural quanto a evolução. E, de fato, “Sem Nostalgia” foi a evolução que faltava para que a bossa-nova alcançasse, de uma vez por todas, os elementos naturais da modernidade.

NOTA: 9,0

Track List:

01. Super Violão Mashup (Lucas Santtana/Lucas Martins/Gustavo Lenza) [02:42]

02. Who Can Say Which Way (Lucas Santtana) [02:41]

03. Night Time in the Backyard (Lucas Santtana/Arto Lindsay) [03:17]

04. Cira, Regina e Nana (Lucas Santtana) [04:22]

05. Recado para Pio Lobato (Lucas Santtana/Régis Damasceno) [03:16]

06. Hold Me In (Lucas Santtana/Arto Lindsay) [05:02]

07. Amor em Jacumã (Dom Romão/Luiz Ramalho) [03:34]

08. I Can’t Live Far From My Music (Lucas Santtana/Arto Lindsay) [03:39]

09. Cá pra Nós (Lucas Santtana/Ronei Jorge) [02:35]

10. O Violão de Mario Bros (Lucas Santtana/João Brasil) [01:38]

11. Ripple of the Water (Lucas Santtana) [03:54]

12. Natureza nº1 em Mi Maior (Lucas Santtana) [02:26]

2013: Cavalo – Rodrigo Amarante

Cavalo

Por: Renan Pereira

Depois de marcar época no Los Hermanos, flertar com o samba na Orquestra Imperial e excursionar pelo mundo com o Little Joy, Rodrigo Amarante finalmente nos apresenta o seu primeiro e tão aguardado trabalho solo. Resultado natural do que o músico vem desenvolvendo nos últimos anos, “Cavalo” aconchega onze belas composições em um ambiente especialmente intimista, tímido apesar da grande bagagem musical que o constrói. De olhos atentos ao que acontece lá fora e aqui no Brasil, Amarante sente-se à vontade para explorar os novos rumos da música alternativa, mas sem se esquecer das velharias que vem acompanhando a sua carreira há algum tempo: existem, durante o disco, pequenos toques de samba, bossa-nova e até mesmo do quase esquecido indie rock, mas tudo devidamente alocado em um cenário que acrescenta novidade à carreira do compositor.

Produzido por Noah Georgeson (que já trabalhou com Joanna Newsom, Devandra Banhart e com o próprio Amarante no disco do Little Joy), o álbum é guiado por uma estrutura Lo-Fi especialmente atmosférica, bordando texturas e desenhando paisagens através das singelas composições do músico carioca. São onze canções sensíveis, agradáveis, que a todo momento nos remetem à grande capacidade do músico em construir belos ambientes sonoros. Esqueça-se, porém, dos rumos que a música de Amarante tomava na época do Los Hermanos: “Cavalo” não é um disco de rock, sem trazer aqueles números amargos e/ou intrigantes. Uma ruptura já esperada, já anunciada por Marcelo Camelo em seus dois primeiros discos e seguida, de forma natural, por seu antigo companheiro de banda. Pode-se dizer, com isso, que “Cavalo” é o primeiro álbum solo que de Amarante se esperava.

Até porque, se na década passada o músico participou ativamente na construção dos novos rumos da música brasileira, agora ele deseja apenas contemplar os caminhos que ajudou a construir. Antes apegado aos ruídos, aos riffs de guitarra, agora Amarante demonstra estar agarrado em concepções serenas, sutis, amparadas por pequenas seções instrumentais, letras singelas e ambientes suaves. A bonita primeira faixa, “Nada em Vão”, já dá o tom do álbum ao ser construída em uma estrutura introvertida, procurando recriar a bucólica atmosfera de uma manhã litorânea através da colheita dos elementos da bossa-nova.

Se há alguma canção do álbum que pode ser rotulada de “rock”, esta é a segunda, “Hourglass”, que até inicia-se desencontrada, mas que vai aos poucos rumando para um número ritmicamente competente, de natureza sombria, trazendo nas guitarras oitentistas uma grande aproximação a “Comedown Machine”, último disco dos Strokes. Com uma belíssima melodia e versos em francês, “Mon Nom” acrescenta ainda mais sensibilidade ao disco com sua proposta simples, mas capaz de criar um turbilhão emotivo através de seus riquíssimos arranjos, que casam vocal e efeitos sonoros com maestria.

Na quarta faixa, “Irene”, Amarante mostra-se mais próximo do que nunca à bossa-nova: ele parece incorporar João Gilberto nos arranjos tanto instrumentais quanto vocais, em uma estrutura que vai diretamente ao encontro da MPB sessentista. “Maná” é um samba-rock impecável, que se agarra tanto nas antigas concepções de Jorge Ben quanto nas atuais da Orquestra Imperial, fluindo brasilidade a todo instante… Sim, Rodrigo Amarante até utiliza as ideias estrangeiras, mas é um genuíno arquiteto da música tupiniquim.

Rompendo com a proposta descompromissada da faixa anterior, “Fall Asleep” flui através de caminhos soturnos, amplificados pela produção atmosférica de Noah Georgeson; mas mesmo em suas concepções mais melancólicas, “Cavalo” não deixa de ser um álbum sensível, e a aparência “de ninar” da sexta faixa pode até dar provas desta ideia. De acabamento luxuoso, permeada por um pequeno coro de vozes, “The Ribbon” parece nos encaminhar cada vez mais ao íntimo de Amarante através de sua competente colagem de texturas, propondo aos nossos ouvidos uma viagem etérea, próxima até mesmo das produções do dream pop.

Com uma poesia singela e uma instrumentação acústica, “O Cometa” parece dar ainda mais crédito a aquela velha máxima, que diz que na simplicidade é que mora a sofisticação. E Amarante, de fato, soube como trabalhar as ideias simples de seu primeiro disco para criar um resultado grandioso: há quem não simpatize com sua barba, mas torna-se inegável a qualidade de sua obra. Ironicamente, o fim do Los Hermanos mostra-se cada vez mais um acontecimento positivo; que bom que, do fim da mais importante banda brasileira da década passada, tenham surgido duas grandes carreiras solo.

A faixa-título, nona música do disco, é uma colagem de sons que recria, com assertividade, a imagem de um equino trotando suavemente por um campo verdejante, em um dia de primavera; não à toa, é a canção mais atmosférica do registro. Na melancólica “I’m Ready”, Amarante volta a contar com o apoio de um pequeno coral para a construção de mais um cenário simplório e acolhedor, através do belo jogo de acordes e de incríveis lirismos, contando com pequenas interações entre o inglês e a língua pátria. Talvez não seja essa a intenção, mas a última faixa, “Tardei”, parece ser uma auto-confissão pela demora de Amarante em lançar seu primeiro trabalho solo… Mas finalmente ele está aqui, e apesar de datado, acabou saindo melhor que a encomenda.

Talvez o tempo tenha sido, aliás, o fator decisivo para o amadurecimento das concepções que fazem de “Cavalo” uma bela obra. Ciente de seu importante papel no cenário atual, Rodrigo Amarante tratou de traçar com cuidado seus primeiros passos em carreira solitária, arquitetando com visível capricho as ideias que construirão seus rumos sonoros daqui em diante. Conceitualmente distante do Los Hermanos, mas ainda obtendo uma louvação quase fanática de seu trabalho na antiga banda, o músico consegue romper com os velhos ideais sem que nada soe forçado; “Cavalo” é um trabalho de essência natural, perfeitamente compreendido, que manterá os antigos seguidores e ainda poderá agregar novos admiradores ao compositor carioca.

É, de fato, inevitável não continuar louvando os trabalhos dos mais famosos barbudos da música brasileira atual. Se Marcelo Camelo já havia mostrado em seus dois primeiros discos que havia vida após o fim do Los Hermanos, Rodrigo Amarante parece querer ir ainda mais além, mostrando que há agora uma nova vida. Ao construir um álbum tão bonito, não dá para negá-lo os méritos, nem que isso signifique babar nas barbas de alguém.

NOTA: 8,4

Track List:

01. Nada em Vão [03:05]

02. Hourglass [03:32]

03. Mon Nom [04:08]

04. Irene [03:17]

05. Maná [02:39]

06. Fall Asleep [03:19]

07. The Ribbon [04:49]

08. O Cometa [02:52]

09. Cavalo [02:36]

10. I’m Ready [03:49]

11. Tardei [03:33]

1967: Domingo – Caetano Veloso e Gal Costa

Como o leitor sente o domingo? O ápice do fim de semana, prolongando do sábado aqueles sentimentos de alegria, preguiça, descomprometimento e descanso? Ou como o dia anterior à segunda-feira, já te lembrando dos compromissos e da realidade dura do dia seguinte? Os baianos Caetano Veloso e Gal Costa o pensam como um dia destinado ao lirismo e à boa música, criando em cima do “dia em que não se trabalha”, o dia santo, um abençoado trabalho da MPB.

“Domingo” é o álbum de estreia tanto de Caetano quanto de Gal, lançado em 1967, produzido por Dori Caymmi (filho de Dorival) e apadrinhado por Maria Bethânia (irmã de Caetano), que na época já era bastante conhecida pelo público devido ao espetáculo “Opinião”. O álbum traz uma sonoridade totalmente inserida na bossa-nova, tanto em letras e arranjos como no jeito de cantar.

Apesar de apresentar pouca inovação e de ainda não estar inserido completamente no movimento tropicalista, o primeiro álbum de Caetano e Gal é um registro histórico da música popular brasileira, se destacando por ser um trabalho elegante e especialmente sensível – musicalmente e no próprio sentido do verbo. As letras de Caetano já se apresentam incríveis, de um espantoso talento, com um inteligente lirismo que já tinha sido experimentado quando da gravação, por Maria Bethânia, em 1965, de “Sol Negro” (composição de Caetano e primeira aparição em estúdio de Gal, em dueto com Bethânia, presente no álbum de estreia da irmã de Caetano). A produção de “Domingo” também deve ser elogiada, cabendo a Dori Caymmi a competência pelos belos arranjos do disco.

A amizade de Caetano e Gal é coisa de longa data, e mesmo em 1967 ela já era sólida e relativamente antiga. Ambos contracenaram (juntos com Gilberto Gil, Tom Zé, entre outros), na juventude, espetáculos semi-amadores como “Nós, por exemplo” e “Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova”, no teatro Vila Velha, em 1964. Pode estar aí, inclusive, a grande base para a criação do movimento musical tropicalista.

O álbum abre com “Coração Vagabundo”, primeira composição de Caetano Veloso a ter êxito comercial; assim como em todo o álbum, há a utilização total dos elementos da bossa-nova, mas já trazendo algo a mais – mesmo bem discretas, características conhecidas da obra de Caetano, como a releitura e a reinvenção, já estavam presentes. “Onde eu Nasci Passa um Rio” é belíssima, assim como a faixa anterior; liricamente rica, trazendo uma certeira sensibilidade tanto na letra quanto na melodia, já é mostra de que Caetano seria capaz de fazer muito pela música brasileira. Com arranjos extravagantes e luxuosos, “Avarandado” deixa Gal Costa brilhar, com sua bela voz e sua bela interpretação, apoiada por mais uma bem-vinda composição de Caetano.

Em “Um Dia”, podem se dar provas que, além de um fantástico compositor, Caetano também é um ótimo cantor; na canção, sua voz é de um doce lirismo, acompanhando perfeitamente os sentimentos da letra. A quinta é a faixa-título, trazendo o misto de sentimentos quanto à tarde de domingo.

“Nenhuma Dor”, composta por Caetano e Gilberto Gil, é outra ótima canção, que na belíssima interpretação de Gal se mostra extremamente sensível e aconchegante. Deve ser dito que, se Caetano foi o guru deste álbum, onde a maioria das faixas são de sua autoria, Gal é a flor desabrochada, interpretando belamente, dando cores vivas ao chão criado por Caetano. “Candeias” é mais uma prova disso, onde Gal é o destaque total desta faixa composta por Edu Lobo.

A oitava canção do álbum é “Remelexo”, cantada por Caetano, e é uma ótima representação de uma pura paixão para a encantadora menina da roda de samba, contendo mais uma letra inteligente e afetuosa. “Minha Senhora”, cantada por Gal, é mais uma faixa fascinante, com outra interpretação linda e aconchegante para os ouvidos. A consistência de “Domingo” chega a ser gritante; o álbum é inteiramente feito por grandes canções, donde se pode ouvir toda a beleza que a música brasileira é capaz de oferecer. São músicas agradáveis, acolhedoras e aconchegantes, donde nenhum defeito pode ser arrancado, e alguma crítica negativa poderia ser considerada sandice.

“Quem Me Dera” é fruto de uma das cooperações de Gilberto Gil com o poeta Torquato Neto, e se mostra como uma ode à Bahia, alternando-se entre momentos tranquilos, como se Caetano estivesse sozinho com seu violão no pôr-do-sol de uma praia, com momentos mais agitados, onde há o acompanhamento de um grupo de samba. “Maria Joana” é a incrível união da bela voz de Gal com uma rica melodia, perfazendo mais uma canção inteligente e agradável.

Os acordes finais deste clássico álbum ficam por conta de “Zabelê”, outra canção liricamente rica e interpretada com maestria por Caetano e Gal. Tal maestria poderia assustar, pois construir um trabalho tão impecável, logo na estreia em estúdio, é coisa para poucos, muito poucos…

Há os que crescem, e estes devem ser elogiados, pois vão se destacando à medida que aprendem a brincar com o jogo. Há os que amadurecem, e a estes também cabem elogios, pois aprendem com o tempo. Então, o que deve ser dito a quem já nasce grande? Elogios para quem encanta desde sempre? Não, isso é muito pouco… Caetano e Gal já nasceram grandes, e desde o começo destacaram-se como alicerces da música brasileira. Mais do que se elogiar, deve-se glorificar, pois são dois nomes fundamentais da música do nosso país.

NOTA: 9,0

Track List: 

01. Coração Vagabundo (Caetano Veloso) [02:25]

02. Onde eu Nasci Passa um Rio (Caetano Veloso) [01:59]

03. Avarandado (Caetano Veloso) [02:45]

04. Um Dia (Caetano Veloso) [03:31]

05. Domingo (Caetano Veloso) [01:25]

06. Nenhuma Dor (Caetano Veloso/Gilberto Gil) [01:33]

07. Candeias (Edu Lobo) [03:11]

08. Remelexo (Caetano Veloso) [01:54]

09. Minha Senhora (Gilberto Gil/Torquato Neto) [04:14]

10. Quem Me Dera (Caetano Veloso) [03:24]

11. Maria Joana (Sidney Miller) [01:42]

12. Zabelê (Gilberto Gil/Torquato Neto) [02:49]

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