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Discografando: The Velvet Underground

Discografando

Eis a primeira postagem da mais nova seção do blog, a qual decidimos chamar de Discografando. Sobre o que ela se trata? Basicamente, fazer uma breve análise da discografia completa de uma banda ou artista, sem necessariamente apontar qual álbum é o pior ou o melhor. A intenção dessa seção, portanto, não é ranquear os exemplares de uma discografia, mas dar uma passada pela carreira de um nome importante da música, contando a sua história através de seus lançamentos de estúdio.

E nada melhor do que começar esta nova seção com uma das bandas mais influentes de todos os tempos, não? No caso, escolhemos o The Velvet Underground, banda norte-americana forma em 1964, na cidade de Nova York, por Lou Reed e John Cale.

The Velvet Underground & Nico1967: The Velvet Underground & Nico

Classificação: 5 estrelas

Frequentemente apontado como um dos mais importantes álbuns da história da música, “The Velvet Underground & Nico” iniciou a discografia da banda da melhor forma possível. Até aquele ano de 1967, quando as cores do movimento psicodélico e o movimento hippie tomava conta da cultura jovem de vários países do mundo, nada havia soado como o Velvet Underground. Nada. Em um tempo em que o tratamento suave das melodias dava as ordens na música popular, e o sentimento de “paz e amor” era geral, a banda nova-iorquina chegou para estremecer as bases do que era culturalmente aceitável.

Com “The Velvet Underground & Nico” e sua emblemática “capa da banana”, a estética do rock foi modificada para sempre. As melodias cuidadosas deram lugar a ruídos, sujeira e agressividade. A maconha e o LSD foram substituídos pela heroína, e o submundo foi abraçado: com letras que tratavam de sexo, prostituição, homossexualidade, caos e drogas, o Velvet Underground, de uma hora pra outra, inverteu os valores do rock… O que era anteriormente considerado de mal gosto se tornou poesia, e as pessoas começaram a olhar com mais carinho para os cenários menos coloridos da música. As sombras começaram a ter o seu valor.

Somando a um conceito lírico totalmente inédito, a presença da húngara Nico, com seu sotaque europeu, elevou o disco a uma áurea ainda mais andrógena. Os instrumentais elaborados por John Cale, acompanhando as guitarras sujas e raivosas de Reed, mostraram novas possibilidades para o uso dos instrumentos, criando novos conceitos de arranjos e gerando o embrião do que se tornaria, anos depois, o movimento punk. Em suma, “The Velvet Underground & Nico” não é só um dos melhores álbuns de todos os tempos; é o nascimento do rock alternativo.

White Light - White Heat

1968: White Light/White Heat

Classificação: 5 estrelas

As vendas de “The Velvet Underground & Nico” haviam sido um fracasso, e o produtor da banda, Andy Warhol, totalmente decepcionado, decidiu abandonar o grupo. O mundo só queria saber de “Sgt. Peppers’s Lonely Hearts Club Band”, e nem a aclamação recebida pela crítica conseguiu transformar o Velvet Underground em um sucesso.

Depois de quase se tornar a nova sensação do rock, a banda se viu de novo na estaca zero. Poucos conheciam e poucos estavam dispostos a ouvir o Velvet Underground; o psicodelismo estava em seu auge, dando pouco espaço para diferentes abordagens do rock. De certa forma indignada com o que estava acontecendo, o grupo nova-iorquino resolveu gravar um disco ainda mais experimental e barulhento.

Só que, para isso, a banda também não contaria com Nico, que estava vislumbrando uma carreira solo. Mesmo rachado, o grupo continuou com a intenção de gravar um novo álbum, que veio à tona em 1968, intitulado “White Light/White Heat”. Ainda mais desafiador que o álbum anterior, o disco foi marcado pela fantástica união da poesia andrógena de Reed com os instrumentais tortuosos de Cale, em um exercício insano de experimentação. No fim das contas, “White Light/White Heat” é um álbum que mesmo hoje, quase cinquenta anos depois de seu lançamento, mostra-se capaz de chocar o ouvinte.

The Velvet Underground1969: The Velvet Underground

Classificação: 5 estrelas

O clima dentro do Velvet Underground não estava dos melhores. Diferenças ideológicas e batalhas de egos permeavam o convívio dos dois fundadores da banda. No fim das contas, John Cale acabou sendo demitido, entrando para o seu lugar o também multi-instrumentista Doug Yule.

Sem a presença de Cale, a liderança se concentrou nas mãos de Lou Reed. Não por acaso, o terceiro álbum do Velvet Underground, auto-intitulado, é mais centrado nas letras do “poeta do underground”. São parcos os momentos de uma verdadeira experimentação, fazendo com que o disco, instrumentalmente, desse mais valor às melodias. “The Velvet Underground” é, portanto, o primeiro álbum tranquilo da banda.

Cada vez mais tomado pelas influências lisérgicas, Reed fez do disco um registro intimista, conceitualmente confessional, como bem representa a faixa “Pale Blue Eyes”, uma das mais conhecidas composições do músico. Liricamente impecável, o trabalho encontra na sensibilidade melódica uma completa oposição a tudo o que o grupo já havia feito, representando, com isso, o início de uma nova fase da carreira de Lou Reed. De acabamento sombrio, o registro encontra nas palavras e nos arranjos um produto extremamente relacionado ao íntimo de Reed, mas mesmo assim capaz de alcançar os sentimentos do público.

Loaded1970: Loaded

Classificação: 4,5 estrelas

Ainda mais distante dos ruídos experimentados em “White Light/White Heat”, “Loaded” parte do mesmo princípio sonoro de seu álbum antecessor para aconchegar os lirismos de Lou Reed em um ambiente tranquilo, permeado por abordagens serenas. As concepções sonoras mais silenciosas fazem a base, porém, para uma grande inquietação lírica: já abraçando elementos que seriam mais abordados em sua futura carreira solo, Lou Reed tratou de impressionar mais uma vez com um impecável conjunto de versos.

O compositor se viu a vontade para explorar Nova York de uma forma peculiar. Seja com o manuseio de personagens, como em “Lonesome Cowboy Bill” e “Sweet Jane”, ou em fantásticas incorporações intimistas, Reed arquitetou um disco que, como seu anterior, encontra nas palavras sua grande riqueza. São versos que se amarram, se completam, e mesmo assim surpreendem a todo instante. Eis aqui, indubitavelmente, a consolidação do “poeta do underground”.

A grande novidade de “Loaded” está, no fim das contas, no pensamento comercial que construiu o seu conceito. Sem barulhos, experimentos e canções longas, o disco foi planejado para alcançar as mãos do público, que sempre haviam se mostrado pouco generosas com a banda. Se isso foi um erro? É claro que não… Sem “Loaded”, a redescoberta da banda, que aconteceria anos mais tarde, com a explosão do punk, talvez não aconteceria. O álbum é um bom aquecimento para os momentos mais experimentais do grupo, embora esteja cronologicamente à frente.

Squeeze1973: Squeeze  

Classificação: 2 estrelas

Velvet Underground sem John Cale e Lou Reed? Sim, isso existiu, pelo menos oficialmente. “Squeeze”, último disco atribuído à banda é, na verdade, um projeto solo de Doug Yule sob o nome do antigo grupo: uma clara estratégia da gravadora para faturar algum dinheiro. Como resultado, um dos álbuns mais decepcionantes da história.

Pouca coisa de “Squeeze” remete à grandiosidade atingida pelo Velvet Underfround nos trabalhos anteriores. Sem Lou Reed as letras ficaram vazias, gritantemente medíocres… Se ainda houvesse John Cale para reger os instrumentais teríamos um produto interessante, mas, sem seus dois membros fundadores, o que era o Velvet Underground além de uma caricatura do passado? Tanto “Berlin”, de Reed, quanto “Paris 1919”, de Cale, lançados naquele mesmo ano, conseguiram mostrar mais do Velvet Underground do que o disco que carregou o nome do grupo.

Mas a estratégia da gravadora, no fim das contas, se mostrou totalmente equivocada: além de recolher inúmeras críticas da imprensa especializada, o disco não conseguiu vender bem. Infelizmente, um término decepcionante e melancólico para uma das mais brilhantes discografias da história da música.

1966: Fresh Cream – Cream

Fresh Cream

Por: Renan Pereira

Na segunda metade dos anos sessenta, as guitarras pegaram fogo. O formidável Eric Clapton, que pouco tempo antes havia recebido louvação em sua participação na banda de John Mayall, decidiu unir-se ao baterista Ginger Baker e ao baixista Jack Bruce para formar o primeiro supergrupo da história do rock: a banda Cream. Tratava-se de uma evolução natural para a carreira de Clapton, até porque, naquelas alturas, o guitarrista já era tido como a maior referência do blues da Inglaterra; ele necessitava de um lugar onde suas ideias pudessem ser exploradas com mais liberdade, e formar uma nova banda mostrou-se o caminho mais palpável para que sua carreira pudesse crescer.

Mas o Cream, é claro, não era só Eric Clapton. Um power trio formidável, encontrou sempre na divisão das responsabilidades o melhor caminho para arquitetar uma das mais influentes carreiras da história do rock: base para tudo o que posteriormente seria definido como “hard rock” ou “heavy metal”, os elementos sonoros da banda abrilhantaram os rumos do rock com uma concepção altamente clássica, mas que nem por isso deixava de se aventurar por novos caminhos. Flertando com o acid rock e abraçando o movimento psicodélico, o Cream acabou se tornando não apenas mais um atraente conjunto de blues, mas um dos pioneiros de um estilo que é explorado intensamente até os dias de hoje.

Em outubro de 1966, a banda, ainda em seus primeiros passos, teve a oportunidade de tocar com Jimi Hendrix, que era um admirador confesso da música de Clapton. Em seus primeiros shows, porém, o Cream resignava-se a performar antigos clássicos do blues, devido à falta de um material inédito… O primeiro conjunto de canções da banda seria lançado apenas no final daquele ano. Para tanto, foram mescladas composições de Baker e Bruce com alguns números antigos rearranjados, deixando em um patamar mínimo a participação composicional de Eric Clapton. Era visível a intenção de dividir a atenção do público entre os três integrantes, embora, mesmo distante da criação de versos, Clapton não deixasse de se destacar. No fundo, tudo girava em torno de sua guitarra.

Como o guitarrista considerava-se muito tímido para cantar, coube a Jack Bruce a responsabilidade pelo vocal da banda. Embora não fosse um vocalista de formação, o baixista acabou surpreendendo positivamente, se tornando um vocalista de visível habilidade. E a primeira faixa de “Fresh Cream”, “N.S.U.”, é uma música de sua autoria; extremamente poderosa, a canção faz com que o álbum inicie a sua jornada já com rotação máxima: uma linha de bateria absurdamente energética, um baixo deliciosamente grooveado e um jogo excitante de riffs velozes vão transferindo o ouvinte para o turbilhão sonoro proposto pelo trio. Propositalmente mais calma, e integrando seções sonoras ligadas à uma concepção mais clássica de blues, “Sleepy Time Time” mostra-se como a canção perfeita para a guitarra de Clapton chorar… Alguém é capaz de duvidar do sentimento que o guitarrista transferia para o seu instrumento?

A terceira, “Dreaming”, flerta sem parcimônia com os elementos do rock psicodélico, apresentando uma proposta atmosférica especialmente hermética, permeada por um fantástica concepção de harmonias vocais. Apesar de ser, notavelmente, um álbum de grandes instrumentações, não são poucas as vezes em que “Fresh Cream” mostra-se apto a surpreender através de belíssimas sobreposições de vozes; caso de “Sweet Wine”, cujo andamento tanto melódico quanto rítmico parece ir de encontro à obscura vertente do freakbeat… Entretanto, seria uma crueldade não citar o fantástico solo construído por Clapton para essa canção, transformando a sua guitarra em um meio de transporte capaz de levar o ouvinte a novas dimensões.

Em “Spoonfull” há mais uma impecável instrumentação, que constrói uma adaptação colossal de um grande clássico do blues… As regravações presentes no track list, apesar de diminuírem a força “inédita” imposta pelas canções compostas pelo Cream, ligam de forma perfeita a banda inglesa às raízes do blues, enterradas lá no outro lado do Atlântico; por mais que a banda se aventurasse pelos “novos” elementos do rock, ela nunca deixou de apresentar nas antigas texturas norte-americanas a base de seus conceitos sonoros. “Cat’s Squirrel” e “For Until Late”, a sexta e a sétima faixa, respectivamente, são mais duas dessas assertivas regravações – encontrando, porém, ares de novidade através de uma nova concepção de arranjos implementada pelo Cream. “For Until Late” foi, além disso, a única música do álbum a contar com Eric Clapton como vocalista principal.

Mas é na fantástica versão da banda para “Rollin’ and Tumblin'” em que todos os êxitos em regravar antigos clássicos do blues são condensados. A guitarra de Eric Clapton, em parceria com uma gaita tocada por Jack Bruce, alcançam uma concepção absurdamente energética, bem como surpreendentemente suja… É só ouvir Ginger Baker espancando sua bateria para perceber como o Cream conseguiu fazer desta regravação um número especialmente seu: a sua concepção poderosa de riffs jamais será igualada por qualquer versão desta canção.

Enquanto “I’m So Glad” converte seus acertos em uma abordagem inegavelmente pop, a última faixa, “Toad”, dá provas finais da genialidade presente no trio formado por Clapton, Bruce e Baker: um espetáculo instrumental inigualável, é capaz de destacar toda a criatividade dos três músicos em uma só canção. Há os excitantes riffs de Clapton, uma pulsante linha de baixo de Bruce e uma magnífica performance de percussão de Baker. Inovador, o baterista criou, na última faixa de “Fresh Cream”, o primeiro solo de bateria da história do rock, uma seção instrumental que influenciou praticamente todos os bateristas daquela época e das décadas posteriores.

Mas a última faixa é apenas uma das inúmeras demonstrações da influência do power trio. Servindo de base para todo o andamento do rock dito “pesado” nos anos seguintes, “Fresh Cream” não moldou apenas os conceitos sonoros do Cream… Sem o lançamento do disco, é provável que bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath sequer existiriam. Um marco fundamental, e um dos registro mais energéticos de todos os tempos, o disco ainda não demonstra o ápice criativo do Cream, mas se caracteriza como um dos principais capítulos da história da música popular. Sem “Fresh Cream”, os anos setenta como conhecemos jamais teria visto a luz do dia.

NOTA: 9,3

Track List:

01. N.S.U. (Bruce) [02:43]

02. Sleepy Time Time (Bruce/Godfrey) [04:20]

03. Dreaming (Bruce) [01:58]

04. Sweet Wine (Baker/Godfrey) [03:17]

05. Spoonful (Dixon) [06:30]

06. Cat’s Squirrel (traditional) [03:03]

07. For Until Late (Johnson) [02:07]

08. Rollin’ and Tumblin’ (traditional) [04:42]

09. I’m So Glad (James) [03:57]

10. Toad (Baker) [05:11]

1968: Creedence Clearwater Revival – Creedence Clearwater Revival

Por: Renan Pereira

Quando o Creedence lançou o seu primeiro álbum, em julho de 1968, já era uma banda experiente, com quase dez anos de história. Em 1959, John Fogerty (guitarra), Stu Cook (piano) e Doug Clifford (bateria) haviam fundado o trio instrumental The Blue Velvets, que em 1960, após a entrada de Tom Fogerty (irmão mais velho de John) para assumir os vocais, acabou por se tornar Tommy Fogerty & The Blue Velvets. O grupo lançara três compactos durante 1961 e 1962 pelo selo Oakland’s Orchestra Records, sendo que nenhum obteve um grande sucesso de vendas.

As coisas começaram a clarear para a banda quando em 1964 gravaram duas canções para o selo local Fantasy Records, que no ano anterior havia lançado um hit nacional com o pianista Vince Guaraldi. Quando lançados os compactos, um dos co-proprietários da gavadora decidiu renomear a banda para The Golliwogs, apesar do contragosto dos integrantes. A partir daí, o grupo experimentaria um grande sucesso local, se firmando como uma das bandas mais promissoras da Califórnia.

Mas, até a gravação do primeiro álbum de estúdio, algumas coisas haviam mudado na estrutura do grupo. Stu Cook acabou saindo do piano para tocar baixo, e Tom Fogerty rumou para a guitarra-base, enquanto John Fogerty viria a se tornar o vocalista, o principal guitarrista e o principal compositor da banda. Em 1967, enfim, o grupo mudou o seu nome para Creedence Clearwater Revival. A palavra “Creedence” foi inspirada no nome de Credence Newball, amigo de Tom Fogerty; “Clearwater” veio a partir de uma propaganda de cerveja, e “Revival” representou a renovação do compromisso dos quatro membros para com a banda. Em 1968, todos os integrantes largaram seus empregos, passando a despender todo seu tempo com o projeto, e desta forma profissionalizando-se como músicos.

O primeiro registro de estúdio do Creedence Clearwater Revival, muito mais do que uma estreia, acabou se caracterizando, com o passar do tempo, como o exemplar mais exótico da discografia da banda. Por ainda respirar os ares de 1967, elementos psicodélicos podem ser encontrados em muitos momentos do álbum, ao começar pela capa; há, ainda, uma aproximação muito grande ao blues (principalmente em “Susie Q”, cover de Dale Hawkins e primeiro hit nacional do grupo) e certos flertes com o acid rock, que acabaram por tornar o disco um registro que, em quase todos os momentos, se diferencia de tudo o que o Creedence viria a realizar nos próximos anos. Curioso, musicalmente dinâmico, e muitas vezes ignorado, o primeiro álbum do Creedence pode não estar no mesmo nível dos grandes clássicos da banda, mas é, além de um registro competente, um produto óbvio da banda naquela época: um misto das obsessões tradicionalistas de John Fogerty com as vertentes do rock que faziam massivo sucesso na época.

A primeira faixa é um cover: “I Put a Spell on You”, composição de 1956 do músico Screamin’ Jay Hawkins, foi regravada pelo Creedence com toques psicodélicos, mas sem abandonar o espírito predominantemente soul e blues da versão original; se trata, sem dúvida, de uma grande faixa de abertura, caracterizada por uma grande seção instrumental, em que se destacam, largamente, os belíssimos riffs de guitarra. “The Working Man” também é uma ótima música, construída acima de uma estrutura segura e inteligente, e novamente rodeada por ótimos riffs; o fato é que, nas duas primeiras canções do registro, já fica evidenciada a grande capacidade instrumental do grupo.

Talvez o maior êxito do Creedence em seu primeiro disco tenha sido transformar “Susie Q”, uma antiga canção e já regravada anteriormente por diversos artistas (incluindo Gene Vincent, Johnny Rivers e os Rolling Stones), em um single de grande sucesso – o único grande hit da banda não composto por John Fogerty; além disso, a versão do Creedence é notável pelas longas jams instrumentais com flertes psicodélicos, dando à faixa mais de seis minutos a mais de duração em comparação à versão original. “Ninety-Nine and a Half” é uma música deliciosa, com uma melodia agradável e mais um instrumental certeiro, mais um número consistente dentro do disco.

“Get Down Woman” é o maior encontro do Creedence com o blues-rock, com John Forgety vivendo seu momento de Eric Clapton, enquanto “Porterville”, a sexta faixa, é uma composição tradicional da banda, uma canção de estilo mais próximo às que seriam lançadas no próximo álbum do grupo, “Bayou Contry”. Aqui acaba ficando claro que, além de uma apresentação, o primeiro disco do Creedence serviu como um encaminhamento, capaz de reunir tudo o que a banda fizera desde quando se chamava The Golliwogs e, ao mesmo tempo, movendo seu olhar para o futuro a fim de fundamentar um som próprio e inconfundível. É verdade que o álbum “Creedence Clearwater Revival” não conseguiu criar tal sonoridade, mas seu encaminhamento para “Bayou Contry” foi fundamental.

A psicodélica “Gloomy” é uma boa canção, mas não está entre as melhores faixas do disco; apesar da boa qualidade instrumental e de um bem-vindo dinamismo, mostra que, acima de tudo, psicodelismo não era uma das vertentes em que o Creedence Clearwater Revival estava apto a lidar muito bem, e não por falta de competência – simplesmente, era algo que não casava, não combinava. A última é a bonita “Walk on the Water”, misteriosa e certeira, com um criativo instrumental.

No fim das contas, a estreia do Creedence mostra uma banda competente, e não muito além disso. Mas, apesar da sonoridade tradicional da banda ainda não estar fundamentada, o que se ouve é um álbum consistente, que em raros momentos deixa a desejar… Afinal, estrear com competência já é um grande ponto positivo. São apenas oito canções, que se sucedem em pouco mais de meia hora, mas que já dão provas da alta qualidade da banda; indubitavelmente, ficava claro que, em um próximo registro, o Creedence Clearwater Revival seria capaz de criar uma sonoridade incrível, com grandes feitos.

Conveniente e de grande valor histórico, o primeiro álbum do Creedence é uma audição muito interessante; consegue soar como um registro único apesar da música temporal, fortemente influenciada pelas vertentes de êxito daquela época. Mesclando sentimentos, principalmente as ideias tradicionalistas de John Fogerty com o psicodelismo, é um registro instigante; na época podia até não espantar, mas hoje é capaz de surpreender todos os ouvintes que, inteligentemente, forem atrás da discografia do Creedence Clearwater Revival – uma das mais brilhantes bandas de sua época.

NOTA: 7,9

Track List:

01. I Put a Spell on You (Screamin’ Jay Hawkins) [04:33]

02. The Working Man (John Fogerty) [03:04]

03. Susie Q (Eleanor Broadwater/Dale Hawkins/Stanley Lewis) [08:37]

04. Ninety-Nine and a Half (Won’t Do) (Steve Cropper/Eddie Floyd/Wilson Pickett) [03:39]

05. Get Down Woman (John Fogerty) [03:09]

06. Porterville (John Fogerty) [02:24]

07. Gloomy (John Fogerty) [03:51]

08. Walk on the Water (John Fogerty/Tom Fogerty) [04:40]

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1969: Led Zeppelin – Led Zeppelin

Por: Renan Pereira

Quando o público roqueiro inglês lamentou, em agosto de 1968, o fim dos Yardbirds, um dos mais bem-sucedidos grupos daquela década, mal sabia que algo maior ainda estava para vir. Algo que, naquele tempo, era absolutamente duvidável, visto o legado que o The Yardbirds havia deixado; afinal, foi um dos grupos que ajudaram a moldar o rock, contando, durante seus cinco anos de atividade, com o extremo talento de nomes como Eric Clapton, Jeff Beck e, finalmente, Jimmy Page. O último, que acabou com os direitos de nome do grupo dissolvido, ficou também com algumas obrigações contratuais, incluindo uma série de concertos que já haviam sido anteriormente marcados para a Escandinávia.

Chris Dreja, até então baixista dos Yardbirds, havia decidido parar com a música e seguir carreira como fotógrafo, e sem ter uma banda para os tais shows, Page tratou de recrutar para o baixo o multi-instrumentista John Paul Jones, um músico de reconhecido talento, que já havia trabalhado com os Stones (no arranjo de “She’s Like a Rainbow”, faixa do psicodélico “Their Satanic Majesties Request”), com Rod Stewart, Donovan, Cat Stevens, com o ex-Yardbird Jeff Beck e demais outros nomes.

Os outros recrutados faziam parte da Band of Joy: os jovens John Bonham (baterista) e Robert Plant (vocalista), nomes desconhecidos do grande público até então. Estava assim formada a banda The New Yardbirds, que veio a realizar os nove shows previstos contratualmente, na Dinamarca e na Suécia. A banda, segundo Plant, “não ganhou nenhum dinheiro na turnê. Jimmy gastou cada centavo que ele tinha conseguido através dos Yardbirds, o que já não era muito”. Apesar de bem-recebida pelo público, a banda, segundo os próprios integrantes, estava ainda muito verde, pouco entrosada, mas, mesmo assim, encorajou Page a mudar o nome do grupo para “Led Zeppelin” e, em outubro de 1968, entrar em estúdio para a gravação do primeiro álbum do conjunto.

Este, por ser um trabalho auto-financiado, teve que ser gravado e mixado com poucas horas de estúdio, visto o alto custo que isso despendia. Contudo, por ser uma gravação independente, foi garantida a total liberdade artística da banda, que pôde fazer o que realmente queria, sem intervenções de terceiros. O contrato com a Atlantic Records só veio depois de sua reação muito positiva sobre o trabalho, depois de a banda lhe apresentar as fitas gravadas nos Olympic Studios, em Londres.

Produzido por Page e por Glyn Johns (que já havia trabalhado com Beatles, Stones e The Who), o disco é praticamente um álbum ao-vivo, devido ao ínfimo tempo que a banda teve para gravá-lo. Há overdubs, é verdade, que foram adicionados no processo de mixagem, mas todas as músicas foram registradas com todos os instrumentos tocando juntos. Por ser de baixo orçamento, de produção simplória e capturar o real espírito dos concertos, é comparado, por muitos, ao “Please Please Me”, primeiro álbum dos Beatles – se bem que os garotos de Liverpool eram realmente iniciantes, enquanto os integrantes do Led Zeppelin já tinham certa experiência.

Quando se ouve um álbum do Led Zeppelin, principalmente os anteriores ao “Prezence”, o que se espera é nada mais que uma sucessão de clássicos. E no primeiro registro, apesar de ser o primeiro, não poderia ser diferente, levando em consideração a magnitude do grupo em questão. O primeiro dos clássicos já é a primeira faixa, a fantástica “Good Times Bad Times”, caracterizada pelos riffs memoráveis, pelo estupendo solo de Page e pela performance sobre-humana de Bonham nas baquetas. Conhecido por nunca esconder suas referências, já fica claro, na primeira faixa de seu primeiro álbum, que o Led Zeppelin constantemente se inspirou em Cream, principalmente para construir o pesado e distorcido blues-rock de seu debut.

“Babe, I’m Gonna Leave You” é uma canção folk, composta por Anne Bredon no final dos anos cinquenta, e gravada anteriormente por Joan Baez. Revisitada pelo Led Zeppelin (devido ao fanatismo de Page e Plant pela música de Baez), com algumas alterações, acaba se mostrando como um dos momentos mais incríveis do disco, uma grande exposição sentimental. Primeiramente, o triste canto de Plant inserido no fantástico arranjo acústico de Page, fazendo o ouvinte viajar a longas milhas de distância, para depois explodir em um bloco pulsante e pesado, como que se estivesse expelindo para todos os lados os sentimentos inseridos na emotiva linha vocal.

Por ter sempre inspirações bem claras, volta e meia o Led Zeppelin se viu envolvido em pequenas confusões. Uma destas ocorreu em “You Shook Me”, cover de Muddy Waters. O caso é que Jeff Beck, antigo companheiro de Yardbirds e amigo pessoal de Page, já havia regravado a canção meses antes de o Led Zeppelin ter a mesma ideia para preencher a terceira faixa de seu primeiro álbum. Beck acusou Page de ter lhe roubado a ideia, enquanto Page jurou de pés juntos que não tinha conhecimento da versão de Beck. No fim, felizmente, temos duas versões que, apesar de parecidas, não são idênticas, o que pode dar alguns créditos às juras de Page. A música, por ser de um blues bem tradicional, é um dos maiores encontros do Led como este gênero, enfatizando o extremo talento de Page em sentimentais riffs, a sensual linha vocal de Plant e a bela atuação de Jones ao órgão, com claros toques psicodélicos.

E lá vai mais uma: “Dazed and Confused”, música de Jake Holmes, foi creditada apenas a Page no encarte do disco, ignorando totalmente o fato de ela ter sido criada, dois anos antes, por outro músico. O fato é, que apesar de ser uma decisão polêmica por parte do Led Zeppelin, a música teve letra e melodia totalmente alteradas por Page, resultando em uma canção bruscamente modificada, que realmente muito pouco lembra o número composto por Holmes. É famosa pela interação entre a pesada linha de baixo, brilhantemente interpretada por John Paul Jones, e riffs de guitarra espetacularmente construídos, lentos, pesados e misteriosos, que lembram até o que o Black Sabbath faria em seu primeiro disco, meses depois; a partir de sua metade, a faixa amplifica sua velocidade, dando um ritmo mais veloz ao baixo e mais melódico à guitarra, em um bloco altamente hilariante. No desfecho, temos algumas progressões, variações incríveis de velocidade, totalmente inesperadas, que dão notas finais a uma das mais dinâmicas e mais surpreendentes canções já gravadas pelo Led Zeppelin.

“Your Time Is Gonna Come” abre a segunda metade do disco, com uma das letras mais interessantes de todo o registro, falando sobre uma menina infiel que irá pagar o preço de seus descaminhos. Segundo o produtor Rick Rubin, “tem um dos refrões mais otimistas de qualquer música do Led Zeppelin, mas com palavras bastante escuras”. O instrumental, pra variar, é mais uma vez maravilhoso, com Bonham em um ritmo forte, como se estivesse em uma música pesada, enquanto as guitarras tocam suaves riffs folk. Também é destacável mais uma grande atuação de Jones ao órgão, mostrando quão completo como músico ele sempre foi.

As influências orientais também sempre foram uma constante no som do Led Zeppelin, o que já é evidenciado em “Black Mountain Side”, mostrando que, apesar de ser principalmente blues-rock, o primeiro álbum já evidenciava algumas “aventuras sonoras”. A faixa, que trás apenas Page como membro oficial da banda na execução (há a participação do indiano Viram Jasani na percussão), é um número instrumental inspirado em uma canção folclórica irlandesa, e se comporta como um raro momento de calmaria dentro do disco. É uma faixa que não pode passar batida, sendo tão importante quanto as demais, por solidificar os pontos extremamente positivos da criatividade de Page e concretizar a ideia da liderança que era por ele exercida nos primeiros tempos da banda.

“Communication Breakdown”, uma das canções mais conhecidas do grande catálogo do Led, traz uma estrutura mais direta, mais raivosa, contendo um instrumental pesado, amparado por fantásticos riffs de guitarra e uma grandiosa linha de baixo. Pode até mesmo ser considerada como um protopunk, tanto que serviu de inspiração para a construção do estilo de Johnny Ramone, guitarrista dos Ramones.

“I Can’t Quit You Baby” é mais um cover, mas dessa vez sem causar maiores confusões. Se trata de um blues bem tradicional, com uma forma perfeitamente simétrica, mas com uma instrumentação ligeiramente diferente, mais dinâmica em relação à versão original de Otis Rush. Se trata de uma daquelas canções “puro feeling”, evidenciando-se pelo lúbrico vocal de Plant e pela belíssima interpretação de Page na guitarra.

Para finalizar um grande álbum, logo a canção mais longa do registro, com oito minutos e meio de duração. “How Many More Times” foi composta juntando pedaços já anteriormente pensados por Page, enquanto ainda membro dos Yardbirds, e por isso se comporta como uma canção altamente dinâmica; enfim, é como uma longa faixa deve ser, atraindo os ouvintes constantemente, em cada segundo de sua duração, sem deixar espaços para “encheção de linguiça”. A curiosidade é que, no encarte do álbum, a duração da faixa está marcada como sendo de três minutos e trinta segundos; o erro é, na verdade, proposital, pois Page sabia que nenhuma estação de rádio estaria disposta a tocar uma canção com mais de oito minutos, levando então ao “maquiamento” do tempo e, consequentemente, a algumas execuções na mídia.

Por mais que não seja o melhor álbum do Led Zeppelin, o primeiro registro da banda é tão grandioso quanto a própria banda. Os roqueiros ingleses não esperavam, e talvez nem Jimmy Page esperava tamanho sucesso, tamanha aclamação, sendo que tudo veio dos pedaços de uma banda que havia acabado. Por mais que seja inegável a importância dos Yardbirds, é visível que, apenas em seu primeiro álbum, o Led Zeppelin já havia criado um legado muito maior à banda dissolvida. Afinal, o primeiro trabalho de Page, Plant, Bonham e Jones, apesar de conter certos momentos de polêmica (discutidos até os dias de hoje), se mostra como um registro inovador, revolucionário, dono de uma musicalidade firme, competente, com melodias poderosas e ritmo dinâmico, que ajudou a construir as bases para o hard rock e o heavy metal como hoje conhecemos. Se trata basicamente de uma mescla de blues e rock, é fato, mas desta simples mescla, muito inspirada em trabalhos anteriores, surgiu um dos legados sonoros mais entusiasmantes do final da década de sessenta.

O Led Zeppelin é uma das bandas mais dinâmicas de todos os tempos, o que é provado por grandes momentos de sua rica discografia, que inclui flertes com uma incrível variedade de vertentes e estilos. Seu primeiro álbum não é de um dinamismo tão grande assim, percorrendo, em quase todo o tempo, um terreno firme, sem correr maiores riscos. E talvez aí realmente esteja o grande acerto do disco; ele fez o certo no momento certo, sem maiores firulas, apresentando uma banda nova que fazia um som de uma solidez incrível, invejável à maioria dos conjuntos da época. É, enfim, o primeiro momento de brilhantismo de um dos grupos mais brilhantes da história, que nos próximos anos ainda viria a brilhar muito mais.

NOTA: 9,7

Track List:

01. Good Times Bad Times (Bonham/Jones/Page) [02:47]

02. Babe, I’m Gonna Leave You (Bredon/Page/Plant) [06:41]

03. You Shook Me (Dixon/Lenoir) [06:30]

04. Dazed and Confused (Page) [06:27]

05. Your Time Is Gonna Come (Jones/Page) [04:34]

06. Black Mountain Side (Page) [02:13]

07. Communication Breakdown (Bonham/Jones/Page) [02:30]

08. I Can’t Quit You Baby (Dixon) [04:43]

09. How Many More Times (Bonham/Jones/Page) [08:28]

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2012: Tempest – Bob Dylan

Por: Renan Pereira

“Tempest” é, simplesmente, o trigésimo-quinto álbum de Bob Dylan, lançado cinquenta anos após seu álbum de estreia, em que ele, jovenzinho, com apenas 21 anos, fazia versões de lendários hinos da música folk norte-americana. Naquela época ele era apenas um garoto, engatinhando no cenário musical, e ninguém imaginava que tipo de artista ele poderia vir a ser. Hoje, é uma lenda, considerado um dos maiores gênios da história da música, um artista completo, de soberbo talento. Como cinco décadas se passaram, é normal que muita coisa tenha mudado; mas, felizmente, a genialidade de Bob Dylan só se solidificou, tanto que atualmente se torna possível ouvir o seu mais novo trabalho soando tão interessante quanto os seus lançamentos mais primorosos.

O novo álbum de Dylan é um belo trabalho não somente por ser um álbum de Dylan. Por mais que ele seja um gênio, um artista admirado por todas as pessoas de bom senso do mundo, se ele nos oferecesse um trabalho que se mostrasse como apenas mais um de sua carreira, aproveitadores e demais picaretas já diriam que ele está velho para a música, que o século XXI não é lugar para ele, e assim vai… Muitos artistas já sofreram desse mal, inclusive alguns que um dia já foram considerados incríveis. Mas talvez seja justamente isso que, na música, separa os homens dos deuses: enquanto bons músicos lançam bons trabalhos, mas que agregam à sua discografia apenas números, Bob Dylan trata de tornar cada álbum de seu imenso catálogo um registro único, rodeado por diferentes sentimentos. Sempre um novo álbum de Dylan é realmente “novo”.

“Tempest” segue a mesma linha sonora de seus últimos trabalhos inéditos, mesclando folk, blues e rock com maestria, só que com um tempero especial: é sombrio como nenhum álbum de Bob Dylan outrora foi. É como se ele, aos setenta anos, decidisse utilizar toda sua inteligência e a experiência adquirida para surpreender os ouvintes ao falar das mazelas humanas com uma alta dose trágica. Gênio como ele é, com suas letras incríveis, Dylan consegue fazer suas canções soarem altamente dinâmicas o tempo todo; o ouvinte deve estar atento e preparado, pois não são raras certas mudanças de humor dentro de um mesmo verso.

O vídeo da primeira faixa, “Duquesne Whistle”, é um grande exemplo disso; inicia-se divertido, cômico, e parece ir preparando o espectador para uma agradável comédia, quando, de repente, se torna um chocante e triste número dramático. A própria música assim também é, se inciando suave, com um instrumental agradável e dançante até um certo ponto, para ir se tornando uma proposta pesada, uma grande canção atestada pela dolorida letra de Dylan. Sua voz pode até estar prejudicada, demasiadamente rouca, mas ninguém melhor do que ele mesmo para interpretar suas canções, afinal, os mesmos sentimentos líricos estão em seu vocal.

“Soon After Midnight” é uma balada mais simples, que mostra um Bob Dylan mergulhado no blues; é uma música bonita, sem dúvida, um momento para uma agradável admiração, mas não está entre as canções mais fortes do álbum. Já, “Narrow Way” é um rock caprichado, um dos mais potentes de Dylan nos últimos tempos, em que a alta qualidade instrumental tem um bem-aventurado encontro com a já esperada qualidade lírica. Os calmos e belíssimos riffs de “Long and Wasted Years” são um convite à apreciação, fazendo uma ótima base para mais uma letra triste.

Pode-se dizer que “Pay in Blood” é uma das canções mais surpreendentes dos últimos trabalhos de Dylan; raivosa, obscura, com uma letra espetacular, nos mostra um Dylan que, liricamente vestido para matar, nos faz pensar quanto uma vingança pode valer. É fato a desenvoltura que Bob Dylan tem para tratar dos diferentes sentimentos que atingem a sociedade, mas provavelmente ele nunca esteve tão amargo; em “Tempest”, o amor nunca é simples, nunca é feliz, e sempre está acompanhado de algo antagônico – tanto que a morte está presente em várias canções. O instrumental de “Scarlet Town” é uma fórmula pronta, é verdade, mas como não utilizar elementos antigos em música folk? É, de fato, e apesar dos pesares, uma instrumentação sensacional, uma coisa linda de se ouvir, e se qualquer letra já a faria uma grande canção, quando temos aquele Dylan contador de histórias, com sua postura andarilha praticamente profética, o que se ouve é um verdadeiro hino. “Early Roman Kings” é um blues clássico, bonito e sincero, e se não está entre as melhores do disco, não deixa de ser uma boa audição.

Há quem possa considerar as músicas mais longas de “Tempest” ligeiramente arrastadas, mas para quem é um verdadeiro fã de Bob Dylan, elas são um prato cheio; afinal, se temos um grande letrista, como não se encantar com suas mais longas e complexas histórias? Uma desta é a fantástica “Tin Angel”, que pode ser muito bem considerada a obra-prima do disco; complexa, trágica e triste, é uma canção duradoura, com mais de nove minutos, contando a epopeia de um triângulo amoroso de forma magistral.

Mais duradoura ainda é a nona faixa, que empresta seu título ao álbum, tendo quase catorze minutos de duração, na qual Dylan nos conta a já bastante conhecida história do grande navio Titanic e de sua última viagem. O ouvinte pode até esperar um “mais do mesmo”, afinal já há o filme de James Cameron para tal fim, mas mesmo fatos já debulhados se tornam novas histórias nos versos de um grande poeta; a visão de Dylan nos traz novas imagens, e sua letra parece refletir sobre os caminhos da humanidade enquanto os abastados senhores desabam do luxuoso e gigantesco navio em naufrágio.

Para finalizar “Tempest”, Dylan recorda e canta John Lennon, que mais do que um gênio do rock, lhe era um amigo próximo. É, enfim, um final bonito, sincero e emocionante, tudo o que poderia se esperar de um álbum altamente emotivo. “Tempest” pode até desagradar a alguns, com suas canções longas e com seu vocal tecnicamente ruim, mas Bob Dylan está mais do que certo ao mandar para ao inferno quem está criticando negativamente seu trabalho… Ora bolas, é um trabalho de um grande artista, um gênio da nossa música, e a quem, muitas vezes, se deixa de venerar. Por mais que ele esteja velho, que sua voz esteja ruim, ele ainda é capaz de construir canções primorosas, do mais alto nível, demonstrando que ainda permanece no supra-sumo dos compositores. Ele foi, é, e provavelmente sempre será, um dos pilares da música mundial, um nome a ser seguido.

Ouvir Bob Dylan e sua voz rouca a nos contar deliciosas histórias, é como estar, em uma noite chuvosa, e em uma velha casa, à luz de velas, a ouvir antigas histórias do nosso avô. Naquele lugar, e naquela hora, não há sinal de internet, de celular, e os móveis cheiram a mofo, envelhecidos pelo tempo cruel… A voz do ancião também não é mais tão límpida, e suas memórias podem até falhar às vezes, e mesmo assim, nossos ouvidos se atentam e nossos olhos sequer piscam.

NOTA: 8,6

Track List: (todas as faixas compostas apenas por Bob Dylan, exceto a 1)

01. Duquesne Whistle (Bob Dylan/Robert Hunter) [05:43]

02. Soon After Midnight [03:27]

03. Narrow Way [07:28]

04. Long and Wasted Years [03:46]

05. Pay in Blood [05:09]

06. Scarlet Town [07:17]

07. Early Roman Kings [05:16]

08. Tin Angel [09:05]

09. Tempest [13:54]

11. Roll on John [07:25]

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2012: Blunderbuss – Jack White

Blunderbuss

Por: Renan Pereira

Ao iniciar sua carreira solo, Jack White se credencia a ser um dos principais nomes do cenário musical atual. O músico, que teve seus momentos de maior sucesso ao lado de sua ex-esposa, Meg White, no projeto The White Stripes, e já tocou nas bandas The Raconteurs e The Dead Water, é, sem dúvida, um dos mais talentosos de sua geração. Desde o início do White Stripes, lá nos anos noventa, Jack já mostrava capacidade para grandes criações, trazendo, para um som alternativo, bem garageiro, todas as ideias clássicas do blues.

Co-autor, ou até mesmo autor principal de alguns dos melhores trabalhos dos últimos tempos (o talento de sua ex-esposa sempre foi discutido), Jack é uma daquelas figuras necessárias para o rock atual. O White Stripes foi responsável por influenciar uma nova geração inteira de roqueiros, incluindo bandas e músicos que voltaram a ter a percepção de catar, do passado, os elementos necessários para fazer, com brilhantismo, a música do futuro. Se hoje o rock continua a crescer e se reinventar, um dos grandes culpados é Jack White.

Mas, em seu primeiro álbum solo, o cara tratou de nos surpreender novamente. Não por coisas novas, pois “Blunderbuss” apresenta pouco – ou quase nada – de inovações, e seu som é muito parecido com o que seu criador vem fazendo nos últimos tempos. Mas nem sempre as surpresas vem de inovações… Tanto que Jack mostra estar se embebedando cada vez mais em referências clássicas, sejam elas de trinta ou até mesmo sessenta anos atrás. Revisitando muitos elementos que ajudaram a construir a música norte-americana, em todo o século passado, Jack nos apresentou um trabalho capaz de flertar intensamente com blues e country music, mas tudo dentro dos mesmos espírito e cenário alternativo que ele tem vivido desde o início de sua carreira musical.

O que se esperava de “Blunderbuss” foi cumprido. Foram dois anos de trabalho, e pelo jeito todo o tempo gasto valeu a pena. Alojado em seu estúdio, Jack mostrou ter absorvido tudo o que de melhor fez em sua carreira, e experiente como nunca, nos traz um disco que certamente se destaca como um dos mais competentes que ele já fez. Tudo começa com “Missing Pieces”, que de tecladas minimistas cresce para se tornar um blues-rock fortíssimo; não há muito de guitarra, a canção é desenvolvida bastante em cima de teclados, mas quando o solo aparece, os riffs se mostram impregnantes.

Para os mais saudosistas fãs do White Stripes, “Sixteen Saltines” traz toda a energia existente nos trabalhos da extinta dupla; os riffs são sensacionais, com arranjos pesados que nos trazem de volta toda aquela pegada garageira dos primeiros trabalhos do músico. “Freedom at 21” pode até soar estranha no começo, mas acaba se desenvolvendo como um blues-rock moderno e impecável, com guitarras fortes e de criatividade absurda; os vocais também são interessantíssimos, com o timbre característico de White em uma de suas melhores performances. Se muitos ainda consideravam Jack White um músico superestimado, o próprio trata de espantar qualquer pingo de desconfiança logo no início do álbum, que vai demonstrando ser de alta qualidade.

“Love Interruption” é uma canção de amor, triste como só ela pode ser, com uma letra doída que mostra a enorme evolução que White tem vivido como compositor; de belíssima melodia, a canção se credencia a ser uma das melhores do álbum, contando com instrumento de sopro e com uma mágica segunda voz feminina. Talvez o corvo no ombro e a expressão carrancuda de Jack White na capa do álbum queiram demonstrar um homem triste, ainda machucado pela separação com sua segunda esposa, Karen Elson. Se as letras tristes de “Blunderbuss” se referem mesmo ao recém quebrado relacionamento do músico não sabemos dizer, e realmente, aliás, não nos cabe dizer… mas que White está afiado, ah, isso está! Suas melhores letras sempre foram aquelas que se referiam ao sexo feminino, e parece que, desta vez, esta qualidade só aumentou. Se este olhar de White é triste, pêsames para ele – mas bom para os ouvintes, que ganham um material de apreciável beleza.

A faixa título é a quinta, inspiradíssima em country, e lindamente construída em piano e violão. Piano, aliás, é o que não falta na fantástica “Hypocritical Kiss”, que conta com arranjos maravilhosos, e mostra a aproximação cada vez maior de White ao clássico. Belíssimos arranjos também aparecem na sétima faixa, “Weep Themselves to Sleep”, que contém interações piano/guitarra inspiradíssimas, e que ajudam a perfazer uma das canções mais brilhantes deste álbum. Das seguintes, “I’m Shakin'” e “Trash Tongue Talker”, se ouve mais dois fortíssimos blues-rock, que continuam a mostrar todo o especial talento de Jack White. Com isso, “Blunderbuss” vai se desenvolvendo com uma coesão absurda, onde nenhuma faixa se mostra desconexa ou desencontrada; todas acabam se completando.

“Hip (Eponymous) Poor Boy” é uma daquelas músicas que vinte anos atrás você jamais imaginaria (e daria risada de quem imaginasse) que Jack White faria; de influências absolutamente clássicas, com um espírito folclórico, a canção pode aterrissar no folk-rock dos anos sessenta, ou até mesmo em tempos anteriores – e isto é prova do quão maduro e seguro é o Jack White de hoje, capaz de reviver elementos antigos sem deixar que sua música soe estranha ou desconexa com a realidade atual. Assim também é a igualmente ótima “I Guess I Should Go to Sleep”, que arrasa nos arranjos, com um instrumental impecavelmente perfeito.

“On and On and On” seria um bom título para algumas canções de melodia preguiçosa que tem sido lançadas, mas Jack White o trata bem, deixando-o para uma canção pulsante, de bela melodia, com arranjos que novamente merecem um destaque especial. “Take Me with You When You Go”, assim como a faixa anterior, é melodicamente fortíssima, mas com um diferencial: se aventura um pouco mais; apesar de se inciar simples, aos poucos vai pegando o ouvinte de calças curtas, com riffs audaciosos alocados em um alicerce country-rock. Uma ótima faixa final para “Blunderbuss”, visto que o álbum é, realmente, surpreendente. Não reinventa a roda, mas pode ter certeza que a deixa ainda mais perfeitamente redonda.

E “Blunderbuss” é, deste modo, um trabalho que prova que, para surpreender, não é extremamente necessário se construir coisas absurdamente novas. O álbum tem muito de rock clássico, boas pitadas de The Raconteurs e White Stripes, mas, acima de tudo, mostra um músico que, ainda curtindo o ápice de sua criatividade, se encontra numa fase de total confiança. Mas tudo tem uma lógica, visto que, mesmo ainda sendo considerado “da nova geração”, sua carreira já chega aos vinte anos. E, se for pra continuar assim, surpreendendo a cada trabalho, que venham mais vinte, quarenta, que todo mundo agradecerá.

Com seu talento inconfundível e bem-vindo, Jack White construiu um disco de brilhantismo e coesão, sabendo alocar (e reinventar) elementos do passado para o seu mundo e a realidade de sua música, que apesar de ter chegado ao mainstream, sempre teve uma proeminente veia alternativa. “Blunderbuss” é, com isso, um álbum fenomenal, uma consistente coleção de ótimas canções, mas talvez a principal ideia que se tira, ao ouvi-lo, é a certeza de termos um grande nome para ajudar a moldar e a dar um diferencial para o cenário atual. E esse nome é Jack White.

NOTA: 8,6 

Track List: (todas as faixas compostas por Jack White, exceto a 8)

01. Missing Pieces [03:27]

02. Sixteen Saltines [02:37]

03. Freedom at 21 [02:51]

04. Love Interruption [02:38]

05. Blunderbuss [03:06]

06. Hypocritical Kiss [02:50]

07. Weep Themselves to Sleep [04:19]

08. I’m Shakin’ (Rudy Toombs) [03:00]

09. Trash Tongue Talker [03:20]

10. Hip (Eponymous) Poor Boy [03:03]

11. I Guess I Should Go to Sleep [02:37]

12. On and On and On [03:55]

13. Take Me with You When You Go [04:10]

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1966: Aftermath – The Rolling Stones

Falar da importância dos Stones para a música é como chover no molhado. Desde os anos sessenta, eles estão agitando o mundo com seu rock de qualidade indiscutível. Mas os Rolling Stones são muito mais do que simplesmente uma banda antiga que continua na ativa; os caras, se não arquitetaram o rock, e nem ajudaram a enterrar as estacas (coube a Elvis, Little Richard, Gene Vincent, e toda aquela geração dos anos cinquenta fazê-lo), obtiveram muitos feitos como construtores do gênero: ajudaram a obra a subir, e muito mais do que isso, pois tiveram também um grande trabalho nos acabamentos. Mick Jagger, Keith Richards, e companhia limitada, podem muito bem ser parte do sumo desta grande obra que é o rock; são as pedras, ou melhor, as pedras rolantes.

Em 1966 eles já eram gigantes. Pra falar a verdade, desde a estreia da banda, em 1964, eles já eram um sucesso; mas foi com “(I Can’t Get No) Satisfaction”, poderosíssimo single lançado em 1965, que eles começaram a se tornar uma lenda. O sucesso absurdo da banda, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos, levou-os inclusive a rivalizar com os Beatles pelo topo das paradas – o que é um feito monstruoso. E assim como os Fab Four, os Stones começavam a se tornar ícones da cultura, e também igualmente aos Beatles, a fama só os fez ter vontade de crescer cada vez mais. “Aftermath” está aí para provar.

Naquele tempo, apesar de 1967 ser apenas o ano seguinte, o psicodelismo já era uma tendência muito forte – “Revolver” que o diga. E os Stones resolveram também apostar suas fichas nessa vertente. Sim, eles sempre foram muito mais reconhecidos por seu rock mais cru, mais roots, com grandes influências de blues e R&B; mas a fase mais psicodélica do som dos Rolling Stones também é ótima, apesar de mais desconhecida pelo grande público. E o melhor de tudo é que eles conseguiram adentrar no psicodelismo sem perder a identidade de seu som (assim como outras grandes bandas que tiveram êxito naqueles anos, como The Who, The Kinks, The Beach Boys, e é claro, The Beatles). “Aftermath” e “Between the Buttons” formam uma ótima ponte entre o puro rock de “Out of Our Heads” e o experimentalismo alucinógeno de “Their Satanic Majesties Request”.

A cada álbum lançado, o som dos Stones crescia, e assim também foi com “Aftermath”, apresentando ótimas evoluções técnicas quanto ao álbum anterior, “Out of Our Heads”. A mais gritante dessas evoluções foi o tratamento acústico, com uma produção caprichada, muito mais elaborada e com um som muito mais polido em comparação com os trabalhos anteriores, que tinham a simplicidade como principal fachada. Ao ouvir a belíssima versão remasterizada deste álbum, a clareza do instrumental se torna ainda mais evidente, e podemos apreciar quão vivo é o som da banda, mesmo tanto tempo depois.

“Mother’s Little Helper” é a primeira faixa do álbum, trazendo acordes folk, uma atuação impecável de baixo, e muito criativos riffs orientais, se assemelhando ao som de uma cítara; é também uma das primeiras a falar abertamente da utilização indevida e exagerada de medicamentos – olha só, algo bastante atual, não? “Stupid Girl” traz pensamentos desagradáveis acerca das mulheres, uma música que serve como desabafo para homens sexualmente frustrados; com um instrumental cativante, cheio de energia, é uma ótima canção, digna de ser faixa do ótimo “Aftermath”. “Lady Jane” também é uma beleza, contendo um maravilhoso instrumental acústico, composto por belíssimos acordes, que se mostram como uma massagem relaxante aos ouvidos; a atuação de Mick Jagger nos vocais também é digna de aplausos.

A polêmica “Under My Thumb”, segundo o próprio Jagger, é uma brincadeira, mas acabou sendo considerada uma canção anti-feminista, já que compara mulheres a animais de estimação; a música em si é uma boa mostra dos anos psicodélicos dos Stones, com o baixo fuzz de Wyman e os riffs de marimba de Brian Jones, e obviamente, com a marcante performance vocal de Jagger, perfazendo uma canção ótima e especialmente forte. Já a quinta, “Doncha Bother Me”, é uma canção com um instrumental mais denso, amparado pelos ótimos riffs de Richards, e que se mostra bastante competente, contendo uma veia bem puxada ao blues. A longa “Goin’ Home”, com mais de onze minutos de duração (uma das primeiras músicas de rock realmente longas), é que fecha o primeiro lado do LP original, trazendo também todas as influências blues da banda, com uma letra bastante normal, falando de um relacionamento, e se caracterizando por uma grande jam, com atuação descontraída de Richards e um bom destaque para a bateria de Charlie Watts, que cresce à medida em que o poder do instrumental vai aumentando.

“Flight 505” é um grande rock, caracterizado por ser estruturalmente forte, com uma competente linha de bateria, riffs pesados de baixo e a descontraída guitarra de Richards sempre dando um agradável espetáculo. “High and Dry” tem como destaque uma linha de baixo pulsante e simples, com uma ótima linha de bateria e riffs que novamente pendem para o blues. E assim mesmo é Aftermath: o casamento entre as antigas influências dos Rolling Stones e os novos ares do rock psicodélico. E “Out of Time” é especialmente psicodélica, com órgão, piano, marimba, sinos, e tudo a que se tem direito, incluindo uma pomposa linha de baixo de Bill Wyman e um refrão grudento; em suma, mais uma grande canção.

“It’s Not Easy” tem um instrumental mais pesado, com riffs mais velozes e uma estrutura mais bruta, menos sutil, que torna a faixa um ótimo número de hard rock. “I Am Waiting” é provavelmente a canção mais surpreendente dos Stones até então, e causa uma deliciosa diferença em relação à faixa anterior; enquanto a décima tratava de um rock mais puro, mais pesado, a décima-primeira se caracteriza por ser uma música sutilmente trabalhada, contendo arranjos elaboradíssimos.

Porém, a grande agradável surpresa vem mesmo em “Take It or Leave It”, com brilhantes arranjos construídos pelo fantástico Brian Jones, contendo todos os ares e sentimentos do “Summer of Love”; é uma maravilha de música, realmente linda. “Think” também tem destaques nos arranjos, com uma incrível execução de sintetizador, novamente por parte de Brian Jones, que vai tornando um álbum, que se iniciou impecável e consistente, incrível e surpreendente em seu final. “What to Do” é, infelizmente, a última faixa, também transbordando de elementos psicodélicos, dessa vez com um arranjo mais simples, mas nem por isso menos competentes; a canção é um espetáculo instrumental, com uma estrutura forte e dinâmica, encerrando o “Aftermath” da melhor forma possível. Como bônus, ainda há os singles lançados na época, incluindo a fantástica “Paint It Black”.

Este não é o melhor álbum de 1966, nem da era do psicodelismo e sequer dos Rolling Stones; mas é um trabalho incrível. Nos traz um pouco dos anos em que os Stones embarcavam na colorida e maluca viagem de elaborar o seu som, fazendo algo mais sofisticado e com prioridade nos arranjos. É, sem dúvida, um registro histórico, e acima de tudo um grande registro. Consistente do início ao fim, traz toda a qualidade instrumental da banda, numa época em que todos os integrantes tinham a mesma importância, apesar de Jagger e Richards dividirem as composições. Provavelmente, aliás, o grande guru desta evolução musical tenha sido o talentosíssimo Brian Jones, o “mais músico” dentre todos os integrantes, um multi-instrumentista, responsável pelas composições instrumentais mais elaboradas da banda… Enfim, um quase-gênio.

Como é bom ouvir música feita com talento, artisticamente consciente, e como é bom ter uma gravação tão agradável e pulsante como o “Aftermath”… Um álbum que, apesar do passar dos anos, soa tão saboroso e vívido quanto uma cereja molhada pelo orvalho de uma manhã.

NOTA: 9,6

Track List: (todas as faixas compostas por Jagger/Richards)

01. Mother’s Little Helper [02:45]

02. Stupid Girl [02:56]

03. Lady Jane [03:08]

04. Under My Thumb [03:41]

05. Doncha Bother Me [02:41]

06. Goin’ Home [11:13]

07. Flight 505 [03:57]

08. High and Dry [03:08]

09. Out of Time [05:37]

10. It’s Not Easy [02:56]

11. I Am Waiting [03:11]

12. Take It or Leave It [02:47]

13. Think [03:09]

14. What to Do [02:32]

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1969: Tons of Sobs – Free

É muito bom falar de uma das ótimas bandas de blues-rock que surgiram nos anos sessenta, ainda mais quando se trata de Free, uma das pioneiras do hard rock. A banda inglesa, liderada pelo vocalista Paul Rodgers, e com participação marcante de outro Paul, o Kossoff, na guitarra, com Simon Kirke na bateria e Andy Fraser no baixo, marcou época com seu rock de extrema qualidade e repleto de feeling, oriundo de suas fortes influências blues.

O álbum de estréia da banda é o ótimo “Tons of Sobs”, trazendo muita força instrumental e a ótima capacidade vocal de Rodgers. A gravação apresenta, em alguns pontos, uma atmosfera um pouco obscura, sombria, que contribui para criar o clima certo para a execução de um rock muito bem feito.

A primeira faixa é a simples e bonita “Over the Green Hills (Pt. 1)”, que continua numa segunda parte na última faixa do álbum; é construída basicamente por um instrumental simples, uma interação guitarra-baixo, que dá apoio para a bela voz de Rodgers. Ela acaba passando rápido, abrindo as portas, sem interrupção, para a segunda faixa, “Worry”, repleta de riffs admiráveis, que fazem com que a guitarra flutue continuamente em um instrumental especialmente poderoso e empolgante. A terceira faixa, “Walk in My Shadow”, mantém a qualidade das anteriores, cheia de feeling e de riffs envolventes, cheios de vida, que dão um toque todo especial à música da banda.

“Wild Indian Woman”, pelo título, parece se tratar de algo mais psicodélico, mas na verdade engana bem; é ainda mais bluseira que as anteriores, com um instrumental bem tradicional e muito bem feito, com o vocal de Rodgers encaixado à melodia na medida certa. O título de “Going Down Slow”, porém, não engana em nada, deixando claro que a última faixa do Lado A é um daqueles blues-rock mais lentos, cheio de sentimento, com guitarra e voz esbanjando feeling, com extraordinária qualidade. Que o leitor me desculpe o uso exagerado da palavra feeling, mas esse é o ponto central das músicas do álbum, em que o rock parece ser feito com a alma.

“I’m a Mover” abre a segunda parte do álbum, mantendo a qualidade da primeira, mostrando muito do que, alguns anos depois, seria considerado como “hard rock”; pra variar, ótimos riffs e uma bela linha de baixo, aliados ao vocal poderoso. Assim também é “The Hunter”, a faixa 7, ainda mais pioneira do hard, com uma estrutura que seria uma grande influência, mais tarde, para bandas como Deep Purple e Van Halen. “Moonshine” é também um blues muito bem feito, mais calmo, mas parece não manter a extrema qualidade das outras do álbum, com algumas sequências de versos cuja desenvoltura não soa tão perfeita.

A penúltima é “Sweet Tooth” que mantém as mesmas características e qualidades das demais faixas do “Tons of Sobs”, conseguindo aliar muito bem partes mais lentas a outras mais velozes, que soam como um hard rock primário. A última faixa é a segunda parte de “Over the Green Hills”, donde é possível ouvir os mesmos elementos da primeira faixa, mas dessa vez reforçados por um belíssimo coral, que dá mais força à parte vocal da canção, que se desenrola fechando o álbum de forma majestosa.

“Tons of Sobs” é um daqueles álbuns de blues-rock de primeira categoria, trazendo todo aquele clima agradável da música sessentista, aliado a muito sentimento e um pouco de pioneirismo nas músicas. Consistência para essa gravação é o que não falta, com canções impecáveis e que não deixam a qualidade cair. Sem dúvida, esse trabalho é uma das jóias do blues-rock, e mais uma bela obra vinda dos anos sessenta.

No link para download abaixo, você encontra uma versão com várias bonus tracks legais.

NOTA: 9,6

Track List:

01. Over the Green Hills (Pt. 1) (Paul Rodgers) [00:49]

02. Worry (Paul Rodgers) [03:26]

03. Walk in My Shadow (Paul Rodgers) [03:29]

04. Wild Indian Woman (Rodgers/Fraser) [03:39]

05. Goin’ Down Slow (James Burke Oden) [08:20]

06. I’m a Mover (Rodgers/Fraser) [02:56]

07. The Hunter (Jones/Wells/Dunn/Al Jackson/Cropper) [04:13]

08. Moonshine (Rodgers/Kossoff) [05:04]

09. Sweet Tooth (Paul Rodgers) [04:54]

10. Over the Green Hills (Pt. 2) (Paul Rodgers) [01:58]

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