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2014: Ultraviolence – Lana Del Rey

Ultraviolence

Por: Renan Pereira

Lana Del Rey gostaria de estar morta. Sério. Em recente entrevista ao jornal inglês The Guardian, a musa dos hipsters voltou a demonstrar sua obsessão mórbida. “Eu não gostaria de continuar com isso, mas eu sou assim”, disse a cantora. É importante citar, porém, que nessas alturas da entrevista, haviam sido citados ícones do universo pop como Kurt Cobain e Amy Winehouse, não apenas ídolos de Lana, mas também artistas que morreram muito cedo. Se aprofundando no universo particular da tristonha garota, dá para perceber que essa revelação nem é tão peculiar assim… Seus deuses morreram, o mundo em que ela gostaria de viver não existe mais, e o que ela quer, no fim das contas, é continuar vivendo apenas para morrer.

Se seu primeiro disco já se chamava “Born to Die”, o presente álbum apresenta visões da cantora sobre uma vida dita “ultra violenta”. É triste, deprimente, e se arrasta durante quase uma hora buscando nos lamentos de uma jovem “morta-viva” um conceito sonoro único e imutável. Contudo, a produção de Dan Auerbach mostra-se certeira, deixando Lana distante daquele cenário incerto de “Born to Die”, e amplifica o já conhecido universo blasé através de toques de jazz, blues e rock psicodélico. Enfim, como desejava, a cantora conseguiu lançar um disco com a cara dos anos sessenta – uma década em que seu mundo particular ainda poderia ser levado a sério, diga-se de passagem.

Quem conferiu o bom curta “Tropico”, lançado por Lana no último mês de dezembro, conhece bem os pensamentos que envolvem a estranha mente da cantora: mesmo vivendo na segunda década do século XXI, Lana ainda rumina nomes como Elvis Presley e Marilyn Monroe dentro daquela atmosfera típica da juventude americana dos anos cinquenta e sessenta. Não à toa, a musicista cita Bob Dylan, Frank Sinatra e Leonard Cohen como suas principais influências na música, em uma ênfase totalmente centrada nos velhos sonhos (e pesadelos) da cultura da América do Norte.

“Minha vida é um verdadeiro filme de merda”, disse a cantora nessa mesma entrevista ao The Guardian. O engraçado é que é esse filme que a cantora procura explorar, a todo instante, em sua mais nova obra… O que já é percebido na primeira faixa, a longa e chorosa “Cruel World”, na que você, muito provavelmente, já dará graças a Deus por Auerbach ter decido ser o principal produtor do disco. É inegável que o músico, integrante do The Black Keys, insere toda sua bagagem (e qualidade) dentro do universo particular de Lana Del Rey com muita inteligência.

A faixa-título, que vem em seguida, se agarra assertivamente em uma sonoridade barroca, conseguindo tirar todo o sumo de Auerbach, e deixando Lana à vontade em um cenário especialmente construído para seus lamentos sobre vários aspectos da vida. “Shades of Cool” mantem os mesmos elementos, e apostando forte na melodia , faz com que a voz da cantora flutue com uma força que até então não havia sido observada; um poderoso solo de guitarra também ajuda para tornar a terceira faixa uma das melhores do disco. A quarta, “Brooklyn Baby”, cita vários elementos da cultura hipster em um pensamento melódico que é confessamente emprestado dos grupos de garotas dos anos sessenta, como The Ronettes, The Supremes e The Shangri-Las.

O já conhecido single “West Coast” surge preenchendo a quinta faixa, e o ouvinte, nessas alturas, provavelmente se vê surpreendido pela qualidade do disco, distante da plasticidade de “Born to Die”. Tudo vai correndo bem, e até com naturalidade, por incrível que pareça. O porém surge no momento em que percebemos que “Ultraviolence” não faz nada além de insistir em uma única toada, do início ao fim, e boas canções acabam sendo jogadas em um molho insosso, sonolento, e que, naturalmente, entedia. Ainda que os rumos etéreos de “Sad Girl” demonstrem uma boa interação das velharias com o pop atual, é a partir da sexta faixa que o disco, como um conjunto, acaba tornando-se repetitivo em excesso.

Até porque a sétima faixa, bem como as seguintes, estaciona em um nível de melodrama tão alto que chega a ser irritante. Sem conseguir segurar o ímpeto de Lana em forçar a barra, Auerbach acaba deixando que a personalidade superficial da cantora acabe tomando conta dos últimos instantes do disco. Com isso, muita artificialidade constrói os rumos da péssima “Pretty When You Cry”, da etérea “Money Power Glory” e de “Fucked My Way Up to the Top”, canção que conta com uma letra relativamente tosca.

Mesmo mantendo-se no conceito exagerado, “Old Money” apresenta uma boa melodia, mostrando-se superior às antecessoras. Um breve toque de qualidade dentro do deserto criativo da última parte do álbum, que ganha ainda mais descrédito quando Lana incorpora sua “guru” Marilyn Monroe na última faixa, “The Other Woman”. Muito original, não? Pois assim mesmo é Lana Del Rey: uma artista que faz toda questão de ser um mais-do-mesmo da velha cultura americana, repleta de todos os clichês possíveis e imagináveis. Goste ou odeie, ela é assim.

Dá até para imaginá-la retrucando o jornalista do jornal inglês que estranhou o desejo dela de morrer: “Não interessa se é estranho, se é errado… Eu sou assim”. Tão artificial e óbvia que queria ter morrido aos 27 anos, assim como seus ídolos. Ainda faltam alguns dias para a moça fazer seus 28, mas é improvável que ela queira, realmente, bater suas botinhas de grife. O que vem de uma pessoa artificial (em todos os aspectos) não pode ser levado muito a sério – aliás, bem como este álbum em questão. É o melhor trabalho de Lana? Sim… O que, no fim das contas, não quer dizer muita coisa.

NOTA: 5,5

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2014: Everyday Robots – Damon Albarn

Everyday Robots

Por: Renan Pereira

Damon Albarn sempre foi um sujeito inquieto. Depois te ter ajudado a renovar a música britânica através de sua banda Blur, um dos pilares do movimento britpop, o músico se viu à vontade para negar todas as referências de seu passado musical e embarcar em um projeto inovador, criando a primeira banda digital da história: surgia ali o Gorillaz, seu mais audacioso projeto, assim como a certeza de que o músico deixara de tomar diariamente seu chá das quatro para vivenciar novas experiências.

Os anos noventa passaram, assim como a primeira década do novo século, e Albarn se manteve não apenas relevante, mas como um dos artistas mais respeitados da música mundial. Agora, quando a metade da segunda década que vivemos se aproxima, e o músico lança o seu primeiro disco em carreira solo, a pergunta que fica é: conseguirá ele manter o seu prestígio? Ao vê-lo novamente abandonando a zona de conforto, obtemos um sinal positivo.

Afinal, em “Everyday Robots”, podemos ver Albarn rompendo mais uma vez com o seu próprio passado. Ainda que restem pequenos resquícios da sonoridade torta dos Gorillaz e do apelo pop do Blur, em seu novo trabalho, o músico procura brincar com novas texturas. Propositalmente lento e atmosférico, o disco busca em melancólicas passagens a genuína atualização musical de Albarn: bordado, desde o título, como um trabalho que procura refletir os tempos atuais, o presente registro dá ao artista uma nova identidade sonora, distante de tudo o que ele já fez.

Para encarar essa atualidade eletrônica e robótica, Albarn recrutou a ajuda do produtor Richard Russell, dono do selo XL Records, que acabou colaborando em todas as faixas do disco. Um esforço coletivo que floresce também nos encontros de Albarn com o renomado Brian Eno e com a emergente Natasha Kahn, do projeto Bat For Lashes. Sim, apesar de se caracterizar como o início de um projeto individual, “Everyday Robots” não significa que Damon Albarn desistiu de estar bem acompanhado. As pessoas inteligentes sempre recorrem a seus amigos, e com tantas amizades frutíferas, o músico não deixaria de contar com participações de tamanha qualidade em seu primeiro trabalho em viés “solitário”.

A primeira música a demonstrar o novo universo de Albarn é a faixa que dá título ao trabalho: a partir de um andamento lento, com uma estrutura tortuosa e arranjos minimalistas, o músico reflete seu olhar melancólico em uma bonita coleção de detalhes: são eles, afinal, que constroem o encanto que prende o ouvinte do início ao fim do disco. Igualmente atmosférica e contemplativa, a segunda, “Hostiles”, insere de uma vez por todas o ouvinte no conceito confessional proposto pelos versos de Albarn: um cara que ama, sofre e sobrevive, uma pessoa normal, assim como nós… E que, em sua estreia solo, deseja mostrar quem realmente ele é.

Mesmo quando canta em proximidade com temas mais do que óbvios da música pop, como nos singles “Lonely Press Play” e “Mr. Tembo”, Albarn se apresenta inteligente e maduro, fazendo da sequência de faixas do disco um grande questionamento sobre os rumos do ser humano… Será que as tecnologias estão nos tornando, aos poucos, mais robôs do que gente? É na união do sintético com o orgânico que mora não só a sonoridade do álbum, mas também a sua grande mensagem conceitual.

“Parakeet” é apenas uma introdução, uma breve trilha que abre os caminhos para “The Selfish Giant”, uma assertiva colaboração com Natasha Khan e que mostra Damon Albarn novamente à vontade para flertar com novos elementos… Um visionário nato, o músico não economiza nos novos encontros, brincando até mesmo com o jazz, enquanto os rumos eletrônicos vão pavimentando as vias sonoras do disco. A seguinte, “You and Me”, traz na participação de Brian Eno o encontro mais do que claro da música moderna, robótica e fria, com os inventos setentistas assinados pelo famoso produtor – que, de forma irônica (ou não), foi um dos precursores dessa estratégia de se amarrar os sons de forma obscura e atmosférica.

“Hollow Pounds” é uma canção que pode soar distante ao ouvinte, justamente por ser extremamente intimista, incluindo em seus versos passagens e datas importantes da vida de Albarn… praticamente um álbum de fotos que o artista agora libera ao público. É interessante, aliás, ver um músico tão famoso e experiente abrindo o seu coração agora, quando fazem mais de duas décadas que ele se apresentou ao mundo através do Blur… É como se durante vinte anos as pessoas não soubessem, de fato, que tipo de pessoa ele é: um sujeito que, partindo da urgência do Blur e do ambiente fictício dos Gorillaz, quer mais é escancarar suas mágoas em um trabalho tranquilo, e não tão fácil de digerir. É fato que “Everyday Robots” decepcionará quem esperava mais um capítulo inventivo na carreira de Albarn, pois o que fala mais alto no registro é, na verdade, a sensibilidade.

Mas o disco, apesar de muito bonito, comete o erro de chegar a sua parte final se arrastando, clamando por um respiro que, na realidade, só ocorrera na quarta faixa… Uma melancolia marcante volta a ser marca em “Seven High”, uma curta trilha construída por um piano, e na extremamente sentimental “Photographs (You Are Taking Now)”, que busca inspirações na literatura ativista através de Timothy Leary. Igualmente tristonha, a penúltima, “The History of a Cheating Heart”, flerta intensamente com a música folk, tanto que poderia muito bem ter feito parte de algum disco de Nick Drake.

“Heavy Seas of Love” fecha o disco com uma toada mais positiva, e nos responde àquela questão abordada no início deste texto: sim, Damon Albarn continua a ser um músico relevante. E como, no fim das contas, ele conseguiu isso mais uma vez? Fazendo de seu primeiro registro solo um surpreendente tratado de emoções, trazendo à tona, pela primeira vez em sua carreira, seus mais íntimos anseios. Com isso, pode ser dito, sem medo de errar, que “Everyday Robots” é o trabalho mais sincero que o músico já construiu: afinal, o disco fala justamente sobre quem realmente Albarn é… Uma pessoa comum, mas que por conseguir atravessar três décadas em evidência, merece nosso aplauso.

NOTA: 7,5

2014: Blank Project – Neneh Cherry

Blank Project

Por: Renan Pereira

A sueca Neneh Cherry andava esquecida. Afinal, sem lançar um disco há 17 anos, a cantora parecia fadada a continuar presa eternamente aos anos noventa. Pouco conhecida pela geração atual, Cherry marcou aquela década ao se apresentar como um dos pilares europeus da renovação do R&B que então ocorria. Para se ter uma ideia, a cantora foi uma das primeiras artistas a investir, com vigor, na mistura da música pop com o hip-hop que imergia com força no cenário mundial: seu primeiro disco, lançado ainda em 1989, já trazia como colaborador o produtor britânico Robert Del Naja (o 3D do Massive Attack), que apenas alguns anos depois seria reconhecido mundialmente como um dos cardeais do trip hop. Sim, senhoras e senhores, Neneh Cherry foi, desde o início de sua carreira, uma figura importantíssima. Em seus discos seguintes, “Homebrew”, de 1992, e “Man”, de 1996, a musicista tratou de incorporar ainda com maior intensidade um conjunto de elementos modernos da música pop, fazendo de sua carreira uma genuína representante das grandes mudanças ocorridas no modo de se produzir música naqueles tempos.

Se Cherry foi inovadora lá nos já longínquos anos noventa, o que então poderíamos esperar dela em seu tardio retorno? Estaria a cantora voltando à ativa apenas para relembrar suas glórias do passado? Para nossa sorte, os 50 anos de Cherry não significam nenhum sinal de preguiça. Surpreendendo a todos, a sueca está não apenas de volta, mas se mostra disposta a inovar mais uma vez. Contando com a produção do renomado Four Tet, “Blank Project” se caracteriza como um registro inegavelmente atual de uma veterana que utiliza toda a sua experiência para, mais uma vez, brincar com as nuances mais modernas da música.

A faixa inaugural, “Across the Water”, já escancara o conceito pelo qual o disco é guiado: minimalista e refinada ao mesmo tempo, a canção exala fortes sentimentos do início ao fim, enquanto batidas cruas deixam a cantora brilhar livremente. Talvez o maior acerto de Four Tet esteja, justamente, na ideia de fazer de “Blank Project” um registro que destaque, a todo instante, o poder performático de Cherry. Portanto, assim também não poderia deixar de ser a faixa-título: o produtor marca sua presença com um trabalho pra lá de caprichado no tratamento dos rumos sonoros, mas é Cherry que brilha em meio a uma estrutura eletrônica extremamente moderna. A seguinte, “Naked”, mantém o conceito: batidas fortes e penetrantes, e arranjos crus praticamente ausentes de maiores detalhes, fazem com que a emoção emanada pelo vocal da cantora se torne novamente o ponto central da audição.

A linha é mantida em todo o registro, mas se engana quem pensa que, devido a isso, o poder de surpreender constantemente se distancia de seu andamento: mesmo em uma sucessão de faixas muito parecidas, idênticas em conceito, Neneh Cherry trata de abrir nossas bocas ao apresentar sempre um “algo a mais”. Na seminal “Spit Three Times”, por exemplo, a cantora se derrama em confissões, admitindo suas próprias fraquezas em uma faixa poderosa, um hit em potencial que contém um belo acerto melódico, apesar de se caracterizar como a inesperada união do eletrônico com o gótico. A quinta, “Weightless”, é, apesar desse título, uma das canções mais pesadas do disco: contando com uma estrutura ruidosa, a faixa derrama novas facetas do introspectivo de Cherry enquanto revela ao ouvinte os primeiros dos poucos instantes “pista de dança” do registro.

“Cynical” é uma daquelas canções que arranham nossas percepções, fazendo com que o ouvinte viaje sem moderação na atmosfera instável proposta por Cherry e seu produtor: novamente, uma rede incerta de batidas e pequenos efeitos é costurada com total e absoluta combatividade, fazendo com que as emoções até mesmo briguem entre si. Já “422” é uma canção diferente, que se preocupa mais em construir uma ambientação para o íntimo sombrio de Cherry do que em fazer com que ele exploda em uma espiral: uma calmaria que funciona como um respiro em meio a uma sucessão de faixas tão agressivas.

Se dançar é o que você quer, nada melhor que o poderoso single “Out of the Black”, em que Cherry brinca com as nuances do pop eletrônico na companhia de uma das maiores representantes do gênero: sua compatriota Robyn. Continuando no mesmo clima, a seguinte, “Dossier”, até ensaia um cenário mais leve, mas somente para nos enganar: apesar de dançante, a canção se comporta como um número hipnótico, em que o vocal da musicista dança em meio a batidas enlouquecedoras, inserindo-se em um ambiente regado a muitas drogas sintéticas.

A décima e derradeira canção é “Everything”, condensando toda a forte temática emotiva do álbum em mais uma estrutura convidativa à dança, mostrando, de certa forma, o viés ascendente que envolve o conceito do álbum… Enquanto, no início, Cherry se utiliza de uma atmosfera dolorida para confessar ao público seus segredos, no fim ela apenas quer dançar; uma prova de que, mesmo em meio a tanta dor, o preceito que rege a mente da cantora é a ideia da superação. Nada mais plausível, afinal, a própria Neneh Cherry revelou o fato que motivou suas novas canções: ela as compôs, na companhia do seu marido, Cameron McVey, impulsionada pela perda de sua mãe (a artista plástica Monica Karlssom), ocorrida em 2009. Surpreso? Como, enfim, a cantora pode utilizar desse triste acontecido para, na parte final do disco, cair na dança?

Tudo é complexo e muito instável, e mesmo que seja muito difícil descrever as intenções de Cherry, há um ponto que é indiscutível: ela está mais do que certa. Ao voltar depois de tanto tempo, ela nos ajuda a perceber que nunca devemos duvidar dos velhos nomes, por mais esquecidos que eles estejam… Eles geralmente não perdem a capacidade, e grande seres que são, são capazes de se adaptar sem maiores problemas aos dias atuais. Afinal, Neneh Cherry mostra que é possível ser uma musicista com cinquenta anos de vivência e ter o mesmo pique de uma garota de vinte anos: apesar de ser veterana, sua obra continua carregada de frescor.

NOTA: 8,5

Track List:

01. Acroos the Water [03:28]

02. Blank Project [04:05]

03. Naked [03:57]

04. Spit Three Times [04:18]

05. Weightless [05:46]

06. Cynical [04:10]

07. 422 [05:21]

08. Out of the Black [05:15]

09. Dossier [05:12]

10. Everything [07:20]

2014: Despertador – Leo Cavalcanti

Despertador

“Despertador” parece ser um daqueles discos cuja capa logo vai entregando o conceito pelo qual o trabalho é guiado. Lá está Leo Cavalcanti imerso em um cenário intergalático, fazendo-se parte integrante dessa imensidão que é o universo. Entre cores e símbolos, o músico ostenta sua barba profética, fazendo com que todo esse exoterismo faça com que o ouvinte lembre, mesmo que vagamente, dos conceitos plantados pela música pop lá nos anos sessenta e setenta…

Porém, pouco ou quase nada do presente registro soa como uma mera “revitalização” de uma base musical antiga. Mais do que o segundo exemplar da discografia de Cavalcanti, “Despertador” é a concretização de um talento que já havia sido demonstrado no álbum “Religar”, de 2010. Há agora uma maior linearidade, a exploração de um som que o músico tornou sua própria identidade, e embora a complexidade e os heterogeneidade tenham sido diminuídos em nome de uma maior aproximação com o público de massa, Cavalcanti faz do novo trabalho praticamente uma assinatura musical.

Mas para alcançar esse madurecimento como artista, não bastou ao músico a utilização dos conceitos que haviam costurado com acerto o seu primeiro disco. Ciente de que algo a mais seria necessário para quebrar a barreira da “promessa” para se tornar, enfim, uma “realidade”, Cavalcanti topou fazer de seu novo trabalho uma grande exploração de sons sintéticos. Esbarrando nos rumos eletrônicos de Silva, ou até mesmo no pop tortuoso proposto por St. Vincent, o compositor paulistano faz de uma sonoridade repleta de frescor a nova morada de seus versos cativantes.

“Despertador” abre com sua faixa-título, em que ótimas harmonias vocais constroem a ponte perfeita para ligar o conceito sonoro à lírica sutil – que engloba, aliás, todo o trabalho. Seja pela base energética, composta por batidas dançantes, ou pelo seu andamento pop, que parece se comunicar com algum hit perdido do pop-rock oitentista, a primeira faixa já parece deixar claro o acerto proeminente no qual o disco será guiado. Ainda que algumas faixas, como a segunda, “Só Digo Sim”, demonstrem uma aproximação até mesmo exagerada a uma estética simplória, são os versos sempre bem pensados de Cavalcanti que acabam ficando na mente do ouvinte… Como bem demonstra a inteligente e psicodélica “Sonho Parasita”.

A quarta, “Leve”, brinca com texturas da MPB para construir um número que mescla a todo instante o velho e o novo, como se uma canção setentista de Caetano Veloso passasse por uma remixagem. Interação que ainda fica mais clara na faixa seguinte, “Inversão do Mal”, mostrando que mesmo atento aos aspectos modernos da música, Cavalcanti nunca deixou de ser um grande admirador do tropicalismo; é aqui, afinal, que o exoterismo do disco acaba encontrando seu ponto máximo.

Se a quinta faixa fala que “a alquimia é real quando se aprende a escutar à si”, o instante de maior intimismo do álbum acaba ficando para “O Momento”, uma canção mais calma, que se encontra naturalmente envolvida em uma estrutura sentimental. Um teor melancólico que é bruscamente interrompido pelas texturas tortuosas de “Get a Heart”, única composição do álbum com letra em inglês, e que parece soar como uma colaboração de Leo Cavalcanti com Annie Clark… Mais um ponto positivo para a competente produção de Fabio Pinczowski, sempre procurando fugir do óbvio mesmo quando o assunto é música pop.

“Tudo Tem Seu Lugar” é uma  belíssima marcha de dimensões épicas, envolta por cítaras em uma ambientação etérea, retratando as idas e vindas da nossa existência: é o momento em que o músico expõe seus mais íntimos pensamentos para mostrar a naturalidade com a qual os altos e baixos da vida devem ser tratados. Ainda que “Sua Decisão (Ser Feliz e Contente)” não consiga alcançar a mesma qualidade das melhores faixas do disco, e que soe como uma espécie de auto-ajuda, seria ignorância em demasia não citar “Despertador” como um trabalho guiado pela positividade… Ainda que hajam obstáculos, dores, pedras, a mensagem passada por Leo Cavalcanti é sempre otimista.

“Amoral” encerra o disco condensando todo o conceito lírico e sonoro utilizado por Cavalcanti nas nove faixas que a antecedem… Uma contemplação final do “pop intergalático” proposto pelo artista, que assume: “É bonito constatar que este ser-disco já não me pertence, pois tem vida própria”. Leo Cavalcanti se oferece ao cosmos, mergulha no universo para fazer de seu novo trabalho um novo filho, oferecido ao público de todas as galáxias e dimensões. Ainda que seja resultado de um pop simples, confesso e de fácil degustação, é um registro que se propõe a viajar além do lugar-comum. E põe além nisso.

NOTA: 8,0

2014: St. Vincent – St. Vincent

St. Vincent

Por: Renan Pereira

Annie Clark é uma daquelas figuras ímpares da música, aqueles seres complexos que às vezes até duvidamos que façam parte do mesmo mundo que a gente. Andrógena e estranha são alguns dos adjetivos com os quais os mais apressados tentam rotulá-la, em uma fracassada tentativa de defini-la.  Talvez nem ela mesma saiba, ao fundo, quem realmente ela é… Certo dia, enquanto revelava a origem de sua alcunha artística, St. Vincent, que remete ao nome do hospital em que o poeta Dylan Thomas falecera, ela disse que “aquele foi o lugar em que a poesia veio a morrer. Essa sou eu”. Indecifrável.

É bem provável que essa ânsia de rotular à primeira vista venha do nosso comportamento quanto a coisas que, de alguma forma, fogem do que consideramos habitual. Embora seja assumidamente pop, St. Vincent não detém os mesmos predicados que formam normalmente o conceito de “diva”. De aparência frágil, voz suave e com uma proeminente via experimental, Annie Clark vai muito além das obviedades que permeiam a música popular. Algo que estranha e faz com que nos surpreendamos positivamente, pois até mesmo o mais pacato dos seres humanos sempre sente uma pontinha de atração pelo exótico. E, sem dúvida, St. Vincent intriga.

Fazendo de seu novo disco uma grande contemplação do universo particular que ela construiu ao longo desses oito anos, Clark borda o seu mais acessível e completo trabalho. Os experimentos e a base “estranha” se mantém, mas tudo que forma a complexa estrutura artística de St. Vincent é moldado a fim de atingir o grande público. A música pop não precisa ser óbvia, e a cantora trata de corrigir uma das mais errôneas ideias quanto ao que se considera “vendável”.

Bastam os primeiros segundos de “Rattlesnake” para que o ouvinte perceba a complexidade que entorna o disco. Envolta em uma sonoridade inventiva e dinâmica, que lembra os momentos mais experimentais de David Bowie e do Talking Heads, Clark dispara um fantástico conjunto de versos, contendo experiências intrigantes que construíram a artista única que ela é… A primeira faixa, por exemplo, é um verdadeiro relato sobre as percepções da musicista enquanto ela andava pelo deserto. “Uma comunhão com a natureza”, ela diz.

Perguntada sobre como o disco soaria, ela não titubeou ao afirmar que seria como “um registro festivo que você poderia tocar em um funeral”. De fato, apesar de mostrar toda a humanidade que pode existir dentro do androginismo, “St. Vincent”, o disco, não renega aos ouvintes uma constante e acertada aproximação com percepções entusiasmantes. Em “Birth in Reverse”, lá está St. Vincent empunhando sua guitarra para construir um número característico seu, tortuoso e complexo – e, ao mesmo tempo, festivo. Ainda está disposto a rotulá-la? Pois saiba que a tarefa fica cada vez mais difícil.

“Prince Johnny”, a terceira faixa, é uma canção extremamente sensorial, na qual St. Vincent brinca com nossas emoções vagando entre a suavidade e o caos. Essa guerra de sentimentos é, em grande parte, possibilitada pela forma inventiva com a qual a artista utiliza a sua guitarra… Não espere dela riffs óbvios, mas sim um conjunto de linhas tortas voltadas a intrigar o ouvinte. A própria forma classuda com que “Huey Newton” se desenvolve mostra com primor a intensa colagem de texturas e sentimentos que Annie Clark não se cansa de fazer. No poderoso single “Digital Witness”, tudo isso se funde em união a um jogo estético que sempre esteve presente na carreira da compositora.

A platônica “I Prefer Your Love” mostra St. Vincent flertando com algo mais próximo ao tradicional, porém com uma altíssima carga sentimental: a canção foi escrita para a mãe da artista, que na época estava doente. Segundo a própria musicista, enquanto “Strange Mercy”, seu álbum anterior, era tratado com um teor mais íntimo, o presente registro é mais expansivo quanto aos sentimentos. Algo que faz com que tudo se aproxime do ouvinte, apesar do dinamismo intensamente inventivo… Vai dizer que “Regret”, apesar de conter arranjos experimentais, não é uma canção acessível?

Haverá aqueles fãs das antigas, que dirão que o novo disco não contém uma sonoridade tão inédita quanto “Strange Mercy”. E isso é verdade. Porém, St. Vincent sempre tratou de fazer de seus registros em estúdio trabalhos únicos, distintos entre si… E apesar de ser menos experimental, “St. Vincent” é mais consistente, acumulando uma extensa bagagem para formar o melhor conjunto de canções já produzido pela musicista… e sem se esquecer, enfim, do público. “Bring Me Your Loves” parece ser, até mesmo, um alento destinado para os mais sedentos por grandes novidades. De certa forma, Annie Clark está disposta a agradar a gregos e a troianos.

A nona, “Psycopath”, esbarra com força na new wave dos anos oitenta, se comportando como um pop-rock com influências de David Byrne, enquanto a décima, “Every Tear Disappears”, utiliza todas as texturas tortuosas de St. Vincent para pregar em nossa mente um conjunto melódico memorável. Como se ainda bastasse algo para causar surpresa (ou até mesmo estranheza), um soft rock essencialmente setentista surge na última faixa, “Severed Crossed Fingers”, na qual St. Vincent explora a capacidade do ser humano em ter esperança mesmo quando ela, na verdade, inexiste. Mais uma sacada inteligente da musicista, que encerra o disco com uma inesperada tranquilidade.

É surpreendente a forma como Annie Clark insiste em nos surpreender a todo instante? Sim e não. No fim, mesmo sabendo que não dá para prever o que a artista irá aprontar, lá estamos nós sendo pegos de surpresa mais uma vez. Às vezes pensamos que St. Vincent ficaria bem em uma camisa-de-força, em outras temos certeza de que um trono seria mais adequado para ela. É justamente por nos confundir, por brincar com nossas percepções, que St. Vincent é uma das figuras mais necessárias da música atual.

NOTA: 8,9

Track List:

01. Rattlesnake [03:34]

02. Birth in Reverse [03:15]

03. Prince Johnny [04:36]

04. Huey Newton [04:37]

05. Digital Witness [03:21]

06. I Prefer Your Love [03:36]

07. Regret [03:21]

08. Bring Me Your Loves [03:15]

09. Psychopath [03:32]

10. Every Tear Disappears [03:15]

11. Severed Crossed Fingers [03:42]

1982: The Dreaming – Kate Bush

The Dreaming

Por: Renan Pereira

Uma das maiores artistas da música mundial, Kate Bush foi responsável não apenas por quebrar barreiras, mas por criar alguns dos mais marcantes registros do final da década de setenta e da primeira metade dos anos oitenta. Descoberta pelo guitarrista David Gimour ainda quando adolescente, Bush tratou de impressionar todo mundo com um surpreendente talento prodígio: com apenas dezenove anos, lançou o clássico “The Kick Inside”, seu primeiro álbum em estúdio, contendo algumas composições que ela havia escrito quando tinha apenas treze anos de idade. De quebra, acabou se tornando a primeira artista feminina a alcançar o topo da parada britânica de singles com uma música de autoria própria, através de “Whutering Heights”.

Mas tamanha acertabilidade logo em sua estreia não foi possível apenas pelo talento da cantora; a atuação da gravadora EMI foi decisiva para a construção de um debut impactante. Contratada anos antes, Bush teve todo o tempo do mundo para evoluir, produzindo com bastante calma o seu primeiro disco, e contando com a colaboração de veteranos do rock progressivo, como os integrantes do The Alan Parsons Project e, é claro, seu padrinho David Gilmour. Ao contrário da grande maioria dos músicos estreantes, que costumam lançar seus registros de estreia com relativa dificuldade, Kate Bush traçou com tranquilidade os primeiros passos de sua carreira.

Com isso, em 1982, Kate Bush já era uma artista de sucesso. Dois anos antes, com o disco “Never for Ever”, ela finalmente pôde deter total controle sobre sua carreira, se distanciando do vigor corporativo de seus dois primeiros registros; Bush não apenas deteve as rédeas na produção, como também rumou para uma sonoridade cada vez mais afastada do rock, se aproximando a passos largos da música pop. Brincando com elementos que se afloraram a partir da dançante música comercial daquela época, através de nomes como Madonna e Michael Jackson, Kate Bush não só passou a captar mais a atenção do público norte-americano, como pôde passar aos ouvintes aspectos mais íntimos de sua música: apesar de ser uma artista pronta, premiada, ela continuava a evoluir, tornando sua carreira cada vez mais sua.

Todas as provas que poderiam ser necessárias para comprovar tal ideia foram apresentadas em “The Dreaming”, quarto álbum da cantora. Denso e sentimental, o disco tem seu início nas fortes batidas de bateria que permeiam a introdução de “Sat in Your Lap”, deixando a clara mensagem de que não se trata de um registro sereno: é, na realidade, uma grande guerra de sentimentos, mesclando referências de forma especialmente combativa, nada tranquila. Os primeiros aspectos “aventureiros” do disco estão nos toques jazzísticos da primeira faixa, uma canção experimental que foge totalmente do óbvio, inserindo toques claramente comerciais em uma concepção genuinamente artística – art pop, como diriam alguns.

Os temas cantados por Bush em “The Dreaming” procuram demonstrar a visão da compositora sobre o mundo que a cerca. Enquanto na primeira faixa a cantora lança um olhar desconfiado para o desenvolvimento da humanidade, “There Goes a Tenner”, a segunda canção, parece inserir-se na mente de um ladrão amador, que só rouba coisas de pequeno valor e sente-se assustado ao praticar tal ação. Há versos bem-humorados, uma estrutura “alegrinha”, mas que nada que fuja da tensão natural do disco… Os arranjos de piano de caráter antigo e as referências ao cinema da década de trinta são apenas caminhos que Bush utiliza para tratar do mundo moderno, da vida moderna.

É impressionante como Bush mostra sua visão de mundo ao inserir-se na mente de pessoas em estado de tensão. “Pull Out the Pin”, por exemplo, adentra no treinamento de uma guerrilha Vietcongue, onde se explica como atirar granadas é essencial para a defesa pessoal. Nada sessentista ou sequer oitentista, mas mais atual impossível: afinal, quem não vive “atirando granadas” para todos os lados a fim de se salvar nesse mundo perigoso que vivemos? Como não poderia deixar de ser, a faixa emana tensão a todo momento, bem como o instrumental parece amplificar o sentimento de medo inserido nos versos e no estridente vocal de Bush.

Falando sobre as coisas elusivas da vida, “Suspended in Gaffa” é uma canção com lirismos que tendem propositalmente ao bizarro, mostrando a decepção de uma pessoa que queria muito ver alguma coisa (como Deus), a vê, mas depois se sente incapaz de vê-la novamente. Instrumentalmente, a canção ruma ao pop barroco dos lançamentos anteriores de Kate Bush, tentando alcançar o significado “mágico” e impalpável dos versos.

A quinta, “Leave It Open”, embarca nos perigos do egocentrismo, com mais uma letra assertiva e uma produção pra lá de caprichada, trabalhando com brilhantismo uma atmosfera construída por uma poderosa percussão, toques medievais, lembranças do rock progressivo e aproximações com aspectos sonoros do dance-pop oitentista. É impressionante, mas “The Dreaming”, embora forte desde seus primeiros segundos, parece ficar cada vez melhor, entrelaçando com maestria sua força lírica e instrumental através de um turbilhão de sentimentos.

A faixa-título não é das canções de mais fácil audição, mas não deixa de ser ótima por causa disso; muito pelo contrário, suas “esquisitices” só fazem construir um número poderoso, especialmente complexo, tratando da dizimação dos aborígenes australianos. Além de contar com as curiosas participações de Rolf Harris, tocando didgeridoo (um instrumento de sopro dos aborígenes), e do imitador de animais Percy Edwards, fornecendo o som de ovelhas, a canção traz Kate Bush cantando através de um puxado sotaque australiano.

Movendo-se da Oceania para a Europa, Bush trata de um romance controlador em “Night of the Swallow”, uma deliciosa e emotiva canção com temáticas irlandesas. Já a oitava, “All the Love”, é uma faixa triste, dolorida, parecendo refletir o ar gélido do inverno em seus versos através de sentimentos de solidão; não por acaso, é uma canção largamente inspirada em Joni Mitchell, talvez a maior expoente feminina de todos os tempos da música quando se trata de melancolia.

Sinistra, “Houdini” chega para impressionar o cabeça-dura que ainda não havia se impressionado com o álbum. Nesta faixa, Kate Bush personifica-se na esposa de Harry Houdini, famoso ilusionista do início do século passado, que ficou conhecido por escapar das situações mais ferrenhas, fosse preso por cabos, algemas e/ou cadeados. A canção inclusive empresta sua temática à capa do disco, em que Bush, interpretando a mulher de Houdini, tenta o entregar uma chave que está em sua língua.

A última faixa, “Get Out of My House”, foi inspirada no livro “The Shining”, de Stephen King – que em 1980 ganhou uma versão cinematográfica, dirigida por Stanley Kubrick e estrelada por Jack Nicholson. Como o livro (e o filme), a canção ambienta-se em um cenário assustador, exalando terror a todo momento… E é assim que “The Dreaming” se encerra, com a força de um genuíno pesadelo.

Um registro marcante, “The Dreaming” não foi apenas o melhor álbum de Kate Bush até aquele momento, como também um dos melhores discos de 1982. Com ele, Bush consolidou seu poderio artístico, mostrando que os êxitos passados não provinham apenas da colaboração de nomes experientes, mas principalmente de seu talento. Além disso, o disco abriria caminhos sonoros para que, três anos depois, a cantora lançasse “Hounds of Love”, sua verdadeira obra-prima.

Contundo, no fim das contas, não há dúvidas quanto a este disco ser um clássico. Criando uma base que anos depois seria incansavelmente utilizada por artistas do calibre de Björk e Fionna Apple, Kate Bush insistiu em surpreender seus ouvintes, se afugentando totalmente da famigerada “zona de conforto”, procurando ir cada vez mais além. É assim que os artistas de grande talento devem se comportar, e Bush provou saber disso muito bem.

NOTA: 9,3

Track List:

01. Sat in Your Lap [03:29]

02. There Goes a Tenner [03:24]

03. Pull Out the Pin [05:26]

04. Suspended in Gaffa [03:54]

05. Leave It Open [03:20]

06. The Dreaming [04:41]

07. Night of the Swallow [05:22]

08. All the Love [04:29]

09. Houdini [03:48]

10. Get Out of My House [05:25]