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2014: Barulho Feio – Romulo Fróes

Barulho Feio

Por: Renan Pereira

Romulo Fróes não é músico, e quem diz isso é ele mesmo. Prefere ser chamado de “compositor”, devido ao seu grande apego à canção. Não conhece as notas que toca no violão, mas é requisitado por onze entre dez bons nomes da “nova” geração que precisam de um conselho sonoro ou estilístico. Um novo… Nelson Motta? Não, ele mesmo ri da comparação. Fróes é um cara simples, que gosta de ficar com seus amigos, de ajudar e de ser ajudado. A cara da “nova cena paulistana”, que de nova realmente já tem muito pouco, e que não pode mais ser restringida apenas à capital paulista.

Tudo começou na virada do século, com as novas possibilidades que foram apresentadas através dos novos conceitos da música dita independente – que atualmente forma, no fim das contas, a única vertente “a ser lavada à sério” no nosso país. Os novos artistas passaram a lançar seus discos com suas próprias forças, sem o auxílio – e as regras – das gravadoras, em um movimento que, com a popularização da internet, apenas acelerou… e que é, hoje em dia, impossível de ser parado. E, em certa fatia, graças a Fróes e seus companheiros de “vanguarda paulistana”.

Amigos que, no quinto disco solo do compositor, voltam a se fazer presentes. Na sonoridade ruidosa de “Barulho Feio”, Thiago França parece soprar de forma aleatória, e a guitarra de Guilherme Held grita em agonia enquanto Marcelo Cabral faz de seu baixo o construtor de um muro sonoro alto e impiedoso. Em meio a esse cenário caótico, porém quase silencioso, surge Romulo Fróes a percorrer, em voz e violão, os sons da maior metrópole da América Latina. “Não Há, Mas Derruba”, a primeira faixa, é o início de uma jornada que já vai deixando claro o conceito do disco: lento, triste e difícil, o mais complexo capítulo da discografia de Fróes.

É curioso perceber que a complexidade alcançada por Fróes é produto do que há de mais simples e tradicional na MPB: o minimalismo quase silencioso do conceito “voz e violão”. Eis aí uma representação clara da paixão do compositor pela canção em seu estado mais puro, demonstrada na exploração intensa das heranças da bossa-nova e dos sambistas “tristes”, como Paulinho da Viola e Nelson Cavaquinho. Então estamos de frente a uma música que, no fundo, é um “grande mais do mesmo”? Muito pelo contrário: a fim de construir um resultado “novo”, Fróes pauta sua carreira na evolução, ou melhor, na desconstrução: a forma esbarrando no disforme, seguindo-se o padrão de não se ter um padrão. No fim das contas, tanto a voz quanto os acordes acústicos se perdem em meio ao “caos controlado” que se instala no disco.

A ambientação que torna “Barulho Feio”, até certo ponto, de difícil degustação ao ouvinte, parte do cenário desconstruído – tanto pelos instrumentos quanto pelos sons de fundo, gravados por Fróes em uma caminhada da Praça da República até a Catedral da Sé: buzinas de carros, gritos, pastores enlouquecidos… Os “barulhos feios” que procuram “encontrar a beleza onde não há”. E isso é de fácil percepção? Não, de jeito nenhum. “Barulho Feio” é um desafio ao modo imediatista e disperso com que a música é tratada nos dias de hoje, revelando a sua beleza apenas à medida em que as audições se sucedem. Não serão poucos os que o interromperão no meio em busca de algo mais pop, ou até que chegarão ao fim sentindo um grande vazio, o considerando “insípido, inodoro e incolor”. Pois Fróes nos obriga a ruminar o disco para que sintamos seu gosto, sua cor e seu cheiro.

Uma tarefa recompensadora. Pois além do cenário desafiador, o álbum nos oferece belas canções. Letras formidáveis, bonitas parcerias com Clima, Nuno Ramos e Alice Coutinho, poemas que são sussurrados por Fróes em grave e bom som… As faixas, na primeira audição, soam dispersas, quase inaudíveis, mas aos poucos vão ganhando uma força que surpreende. É um petardo depois de outro, mantendo o conceito central e ao mesmo tempo se montando como um passeio por várias texturas, demonstrando a habilidade de Fróes como compositor. Quando a dobradinha com Juçara Marçal surge em “Espera”, podemos até jurar que o disco, a partir dali, vai seguir um ritmo mais leve… até surgir a pesadíssima “Ó” para nos encher novamente de incertezas. De passo a passo, de esquina a esquina, de canção a canção, a intenção de Fróes é pegar o ouvinte de calças curtas.

“Barulho Feio” é ótimo. E é chato. No fim, a nossa receptividade à obra acaba sendo igualmente proporcional à paciência com que a tratamos. Talvez por exigir do público uma tarefa cada vez mais árdua em um mundo que clama por imediatismo, o disco será ignorado até por pessoas que veem com bons olhos a carreira de Fróes – tanto em trabalhos solo ou unido a Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral na banda Passo Torto. Logo, não é um trabalho que abre portas, que possa ser oferecido a quem quer ser apresentado à tão falada “nova vanguarda paulistana”. É um álbum muito particular de um artista provocante, que gosta do “difícil” não para ostentar o selo de “underground”, mas por ser sincero ao seu fardo de fazer algo novo desconstruindo o que já existe há tanto tempo.

Quem topa a tarefa, chegando ao interior da Catedral da Sé nos instantes finais de “A Luz Dói” com os ouvidos tão atentos quanto no início da jornada, verá que o tempo gasto pede ainda mais tempo, e que uma grande obra pede passagem para se apresentar. Por isso, pode ser dito que “Barulho Feio” é um disco que cresce continuamente, mas somente a quem lhe dá a oportunidade de crescer.

NOTA: 8,5

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2014: Nheengatu – Titãs

Nheengatu

Por: Renan Pereira

Os protestos ocorridos no Brasil em 2013, enquanto era realizada a Copa das Confederações, não serviram apenas para colocar um fim na inércia crítica que parecia abalar a população brasileira há muitos anos: também foram responsáveis por “acordar alguns gigantes que estavam dormindo”. Os Titãs pareciam curtir um sono eterno, e muita gente até duvidava que a banda voltaria a fazer, algum dia, um novo projeto relevante. Ainda que o barco titânico tivesse começado a afundar nos anos noventa, com o lançamento dos péssimos “Volume Dois” e “As Dez Mais”, foi na década passada que a banda passou a ser nada além do que um fantasma a perambular pelos anais do rock nacional, comportando-se como uma entidade morta que nada mais tinha a acrescentar. A morte de Marcelo Fromer e a saída de Nando Reis foram verdadeiros golpes de pá na carreira dos Titãs, embora tenha sido a posterior saída de Charles Gavin que pareceu enterrar a banda de uma vez. O lançamento de “Sacos Plásticos”, então, soou como um atestado de óbito… Mas veio a agitação política de 2013, e a banda milagrosamente renasceu.

Mesmo sem apresentar nenhuma novidade sonora, os Titãs fazem de seu novo lançamento, “Nheengatu”, uma especie de “renascimento tardio” do conjunto. Aproveitando o clima politicamente crítico que se estabeleceu no país com os protestos, bem como o constante aparecimento dos integrantes na mídia, o grupo finalmente resolveu aplicar o seu talento em “cravar a unha na ferida” para produzir um disco artisticamente válido. Mostrando uma habilidade crítica até mesmo surpreendente para uma banda envelhecida, os Titãs fazem de seu novo trabalho uma obra que seu público estava querendo ouvir há muito tempo.

Para isso, eles não titubearam em emprestar quase todas as bases de dois de seus álbuns mais cultuados: “Cabeça Dinossauro”, de 1986, e “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, do ano seguinte. Isso é ruim? Digamos que seja apenas em partes… Embora fique claro que a banda não tem mais condições de acrescentar novos elementos ao seu legado (um fato que já era explorado por Nando Reis há mais de uma década), temos músicos talentosos pisando em um terreno que conhecem muito bem. Se nos últimos anos o público teve aguentar a banda tentando flertar com o pop-rock atual com pouquíssimos êxitos, agora podemos acompanhar Branco Mello, Paulo Miklos, Sérgio Brito e Tony Bellotto de volta a seu habitat natural.

A primeira faixa de “Nheengatu”, “Fardado”, já deixa claro o rumo pelo qual o disco é guiado: procurando ser instrumentalmente feroz e liricamente crítico – mas, em contrapartida, esbarramos logo no início em conceitos já batidos, apresentados há muitos anos na famigerada “Polícia”. A segunda, “Mensageiro da Desgraça”, é um recado claro a candidatos a “salvadores de pátria”, um oferecimento especial a nossos “queridos” políticos, assim como “Vossa Excelência” havia sido em 2005. Nosso cotidiano tão deprimente, com nossos pensamentos tão dispersos, é bem explorado em “República dos Bananas”, que traz um conceito sonoro totalmente embebido no ska, amplificando a “volta às origens” que o disco busca promover.

“Fala, Renata” trata daquelas pessoas que, aproveitando-se dos fatos, falam muito, mas, no fim das contas, não dizem nada de relevante – ou de suportável. Tony Bellotto se destaca em “Cadáver Sobre Cadáver”, uma melódica canção sobre violência que parece fazer uma interação entre a fase mais suja e os anos mais “pop” dos Titãs. Outro destaque positivo acaba ficando para a produção de Rafael Lemos, que acerta ao fazer o “feijão com arroz”, deixando os integrantes da banda totalmente à vontade… Algo muito diferente do que Rick Bonadio tentara quatro anos atrás no fatídico “Sacos Plásticos”, em que o produtor tomara as rédeas para si tentando transformar os Titãs em uma espécie de Jota Quest para tiozinhos.

Apesar de conter guitarras interessantes, “Canalha” é uma canção mais fraca, em meio a tantas porradas… E a maior dessas porradas é, sem dúvida nenhuma, a sétima faixa, a pesadíssima “Pedofilia” – tanto na temática quanto na instrumentação. Um disco de altos e baixos, “Nheengatu” é capaz de fazer o ouvinte se sentir instigado em alguns instantes para logo depois se ver estacionado em redundâncias, como é o caso da oitava faixa, “Chegada ao Brasil (Terra à Vista)”. Mas convenhamos que um lançamento dos Titãs com altos e baixos já consegue ser superior a tudo o que a banda havia feito na última década – o que acaba gerando, obviamente, um resultado muito mais positivo do que negativo.

“Eu Me Sinto Bem” traz um bem-vindo instante de novidade, em que os Titãs mesclam sua identidade punk com um clima totalmente tropical, flertando inclusive com melodias da música nordestina. A seguinte, “Flores Pra Ela”, traz novamente guitarras encorpadas, mas por ficar conceitualmente isolada no disco, acaba passando quase despercebida, e será certamente mais um número esquecido do vasto catálogo de canções do grupo. “Não Pode” até traz de volta à tona aquele espírito anárquico de “Cabeça Dinossauro”, mas dentre os discursos do disco, é aquele que menos cola: podia até funcionar 30 anos atrás, mas ver cinquentões explorando uma ideia “contra as regras” não deixa de aparentar uma forçação de barra.

“Senhor” busca inspirações em “Igreja”, outra faixa do álbum “Cabeça Dinossauro”, para fazer críticas às instituições religiosas oportunistas – este em particular um discurso que ainda cai como uma luva, veja bem! Sim, pouco evoluímos. Já fazem quase trinta anos que o disco mais reverenciado da discografia dos Titãs foi lançado e, mesmo assim, muitas de suas críticas continuam valendo para os dias de hoje. Tanto que, mesmo repetindo conceitos, a banda consegue construir um trabalho cronologicamente relevante, atento aos problemas da sociedade atual. Se pararmos para pensar, é impressionante: as mazelas da sociedade que seus pais enfrentavam enquanto jovens são as mesmas que você enfrenta hoje em dia.

“Baião de Dois”, como seu próprio título pode deixar transparecer, se assemelha à “Eu Me Sinto Bem” quanto às intervenções estilísticas da música nordestina – talvez o único aspecto realmente novo para a sonoridade dos Titãs que “Nheengatu” apresenta. Mas melhor do que nada, não? Ainda há a última faixa, a igualmente boa “Quem São os Animais?”, que lembra os grandes hits da história dos Titãs: um pop-rock de primeira, com melodia convidativa e cheio de personalidade.

Bem, é inevitável que finalmente os Titãs voltaram pra valer. Mas o melhor de tudo, ainda, é vê-los com vontade de produzir. Todos estão muito bem, com projetos paralelos bem-sucedidos, mas a música continua sendo para os caras um aspecto relevante – algo que, anos atrás, muita gente já andava duvidando. Se os Titãs precisavam provar que ainda estavam vivos, provaram. “Nheengatu” pode até ser um reaproveitamento de velhas ideias, mas é um disco que utiliza-se, acima de tudo, de boas ideias.

NOTA: 6,5

2014: Ultraviolence – Lana Del Rey

Ultraviolence

Por: Renan Pereira

Lana Del Rey gostaria de estar morta. Sério. Em recente entrevista ao jornal inglês The Guardian, a musa dos hipsters voltou a demonstrar sua obsessão mórbida. “Eu não gostaria de continuar com isso, mas eu sou assim”, disse a cantora. É importante citar, porém, que nessas alturas da entrevista, haviam sido citados ícones do universo pop como Kurt Cobain e Amy Winehouse, não apenas ídolos de Lana, mas também artistas que morreram muito cedo. Se aprofundando no universo particular da tristonha garota, dá para perceber que essa revelação nem é tão peculiar assim… Seus deuses morreram, o mundo em que ela gostaria de viver não existe mais, e o que ela quer, no fim das contas, é continuar vivendo apenas para morrer.

Se seu primeiro disco já se chamava “Born to Die”, o presente álbum apresenta visões da cantora sobre uma vida dita “ultra violenta”. É triste, deprimente, e se arrasta durante quase uma hora buscando nos lamentos de uma jovem “morta-viva” um conceito sonoro único e imutável. Contudo, a produção de Dan Auerbach mostra-se certeira, deixando Lana distante daquele cenário incerto de “Born to Die”, e amplifica o já conhecido universo blasé através de toques de jazz, blues e rock psicodélico. Enfim, como desejava, a cantora conseguiu lançar um disco com a cara dos anos sessenta – uma década em que seu mundo particular ainda poderia ser levado a sério, diga-se de passagem.

Quem conferiu o bom curta “Tropico”, lançado por Lana no último mês de dezembro, conhece bem os pensamentos que envolvem a estranha mente da cantora: mesmo vivendo na segunda década do século XXI, Lana ainda rumina nomes como Elvis Presley e Marilyn Monroe dentro daquela atmosfera típica da juventude americana dos anos cinquenta e sessenta. Não à toa, a musicista cita Bob Dylan, Frank Sinatra e Leonard Cohen como suas principais influências na música, em uma ênfase totalmente centrada nos velhos sonhos (e pesadelos) da cultura da América do Norte.

“Minha vida é um verdadeiro filme de merda”, disse a cantora nessa mesma entrevista ao The Guardian. O engraçado é que é esse filme que a cantora procura explorar, a todo instante, em sua mais nova obra… O que já é percebido na primeira faixa, a longa e chorosa “Cruel World”, na que você, muito provavelmente, já dará graças a Deus por Auerbach ter decido ser o principal produtor do disco. É inegável que o músico, integrante do The Black Keys, insere toda sua bagagem (e qualidade) dentro do universo particular de Lana Del Rey com muita inteligência.

A faixa-título, que vem em seguida, se agarra assertivamente em uma sonoridade barroca, conseguindo tirar todo o sumo de Auerbach, e deixando Lana à vontade em um cenário especialmente construído para seus lamentos sobre vários aspectos da vida. “Shades of Cool” mantem os mesmos elementos, e apostando forte na melodia , faz com que a voz da cantora flutue com uma força que até então não havia sido observada; um poderoso solo de guitarra também ajuda para tornar a terceira faixa uma das melhores do disco. A quarta, “Brooklyn Baby”, cita vários elementos da cultura hipster em um pensamento melódico que é confessamente emprestado dos grupos de garotas dos anos sessenta, como The Ronettes, The Supremes e The Shangri-Las.

O já conhecido single “West Coast” surge preenchendo a quinta faixa, e o ouvinte, nessas alturas, provavelmente se vê surpreendido pela qualidade do disco, distante da plasticidade de “Born to Die”. Tudo vai correndo bem, e até com naturalidade, por incrível que pareça. O porém surge no momento em que percebemos que “Ultraviolence” não faz nada além de insistir em uma única toada, do início ao fim, e boas canções acabam sendo jogadas em um molho insosso, sonolento, e que, naturalmente, entedia. Ainda que os rumos etéreos de “Sad Girl” demonstrem uma boa interação das velharias com o pop atual, é a partir da sexta faixa que o disco, como um conjunto, acaba tornando-se repetitivo em excesso.

Até porque a sétima faixa, bem como as seguintes, estaciona em um nível de melodrama tão alto que chega a ser irritante. Sem conseguir segurar o ímpeto de Lana em forçar a barra, Auerbach acaba deixando que a personalidade superficial da cantora acabe tomando conta dos últimos instantes do disco. Com isso, muita artificialidade constrói os rumos da péssima “Pretty When You Cry”, da etérea “Money Power Glory” e de “Fucked My Way Up to the Top”, canção que conta com uma letra relativamente tosca.

Mesmo mantendo-se no conceito exagerado, “Old Money” apresenta uma boa melodia, mostrando-se superior às antecessoras. Um breve toque de qualidade dentro do deserto criativo da última parte do álbum, que ganha ainda mais descrédito quando Lana incorpora sua “guru” Marilyn Monroe na última faixa, “The Other Woman”. Muito original, não? Pois assim mesmo é Lana Del Rey: uma artista que faz toda questão de ser um mais-do-mesmo da velha cultura americana, repleta de todos os clichês possíveis e imagináveis. Goste ou odeie, ela é assim.

Dá até para imaginá-la retrucando o jornalista do jornal inglês que estranhou o desejo dela de morrer: “Não interessa se é estranho, se é errado… Eu sou assim”. Tão artificial e óbvia que queria ter morrido aos 27 anos, assim como seus ídolos. Ainda faltam alguns dias para a moça fazer seus 28, mas é improvável que ela queira, realmente, bater suas botinhas de grife. O que vem de uma pessoa artificial (em todos os aspectos) não pode ser levado muito a sério – aliás, bem como este álbum em questão. É o melhor trabalho de Lana? Sim… O que, no fim das contas, não quer dizer muita coisa.

NOTA: 5,5

2014: Ghost Stories – Coldplay

Ghost Stories

Por: Renan Pereira

O que é o Coldplay? Alguns podem dizer que se trata de uma famosa banda britânica de rock alternativo, outros lembrarão os grandes hits do conjunto, e algumas pessoas, certamente, soltarão que se trata “da banda de Chris Martin”. Por mais que pareça inútil interrogar sobre o que é, na realidade, um dos projetos musicais mais famosos da atualidade, tal questionamento acaba tornando-se necessário a partir dos rumos conceituais que vem envolvendo uma das marcas mais fortes da música mundial. “Obsessão” talvez seja a palavra que melhor representa as ideias da banda nos últimos anos… Obsessão em crescer? Aquele velho preceito de fazer cada vez mais e melhor? O perfeccionismo tão característico dos grandes nomes da arte? É triste ver que, nas mãos de Chris Martin, esses pontos acabam tornando-se triviais.

O que move o Coldplay, hoje em dia, é uma obsessão pobre, que já derrubou tantos artistas que, em outros tempos, obtinham respeito pela música que faziam… Quando o topo das paradas e o verde dos dólares passam a ser a grande referência de um trabalho, este deixa de representar um resultado artístico para se comportar como um mero caça-níquel, um comércio qualquer como uma metalúrgica ou uma padaria. Isso significa que a arte não pode vender? Não, de jeito nenhum: ela não só pode, como deve vender. Mas, antes de tudo, ela precisa ser, primordialmente, arte. O que o Coldplay atual, refletido em seu mais novo disco, “Ghost Stories”, não consegue ser.

Se houve uma época em que o Coldplay fazia música com sinceridade, este já passou há um bom tempo. Preocupada em fabricar produtos para as estantes das grandes lojas de departamentos, ou até mesmo para alavancar as vendas das emergentes lojas on-line, a banda deixa para lá todos os êxitos que alcançara principalmente em seus dois primeiros registros para fazer com que os lamentos de seu vocalista rendam financeiramente. Se Chris Martin encerrou, de forma pouco amigável, seu relacionamento com a atriz Gwyneth Paltrow, por que não tirar algum cascalho em torno desse acontecimento? Se tabloides sensacionalistas fazem tanto sucesso hoje em dia, por que não tornar ridícula sua própria música em nome de um sucesso comercial nas terras do Tio Sam, outrora tão pouco receptivas com a banda?

O fato é que, quando o dinheiro fala mais alto que todas as outras facetas que envolvem um disco, o resultado tende a ser desastroso. E assim é no fatídico “Ghost Stories”. Basta seu início em “Always in My Head” para perceber que a banda sequer trabalhou duro, deixando o conceito dos rumos sonoros nas mãos do renomado Paul Epworth, o produtor “da moda”. Curioso perceber como os arranjos eletrônicos estrelados não conseguem acompanhar a personalidade da banda (se é que ela ainda existe), perfazendo um cenário tão luxuoso e inútil quanto o apresentado no igualmente falho “Mylo Xyloto”. Enquanto isso, Chris Martin chora, mas não com tanta propriedade quanto em anos atrás… Incrível como tudo o que ele canta hoje em dia, em contrapartida ao teor extremamente íntimo de suas composições, soa artificial, um resultado programado através de equações de maximização de lucro. Nada, porém, soa tão falso quanto a segunda faixa, o single “Magic”, com seu pensamento de reconquistar o público indie através de uma cópia descarada da proposta sonora de Justin Vernon no projeto Bon Iver.

É o queridinho dos hipsters, aliás, que é novamente “sampleado” em “Ink” e “True Love”, faixas que voltam a apresentar a inércia poética inserida em uma sonoridade carente de personalidade. A quinta, “Midnights”, que conta com a participação do ótimo Jon Hopkins (considerado o herdeiro de Brian Eno), se agarra em uma concepção eletrônica ainda mais clara, demonstrando o fim da brincadeira da banda com seus instrumentos – o que sempre havia funcionado bem. Mas nem Hopkins, bem como Brian Eno em “Mylo Xyloto”, consegue inserir toda sua capacidade nos rumos comerciais do Coldplay atual.

Até porque milagre poucos conseguem fazer. Além de ser um mero produto, “Ghost Stories” é um produto mal-nascido, aqueles bens que as empresas lançam, não dão bons resultados, e precisam ser remodelados com urgência para evitar um rápido descarte. Para a sorte da conta bancária da gravadora Universal, o disco contém os famosos “singles de novela”, canções que parecem ter sido feitas sob medida para a trilha-sonora de algum folhetim insosso. Nessa ótica, nenhuma canção se encaixa tão bem quanto a nona faixa, “A Sky Full of Stars”, que chega a contar até com a participação do “estourado” Avicii para amplificar seu apelo comercial.

Se “Another’s Arms” é a falha tentativa de alocar a voz de Martin em uma concepção mais próxima da música ambient, “Oceans” traz um arranjo semi-acústico para tentar captar a atenção daquele fã das antigas. Inútil. É provável que aquele ouvinte que foi apresentado ao grupo através dos ótimos “Parachutes” e “A Rush of Blood to the Head” tenha desistido de “Ghost Stories” antes mesmo de seu fim. O que é ruim, visto que a última faixa, “O”, é não apenas a mais longa, mas a melhor canção do disco. Dentro deste conceito, é o melhor que o Coldplay poderia fazer.

Mas, afinal de contas, qual é a resposta para aquele questionamento um tanto quanto tolo que foi proferido no início deste texto? “A resposta está flutuando com o vento”, diria Bob Dylan. E ele teria razão. Como poderíamos responder alguma coisa? O Coldplay atual ora é uma tentativa falha de ser Bon Iver, ora é um projeto eletrônico altamente comercial, ora se resigna apenas aos versos chorosos de Chris Martin. Uma banda indecifrável, sem personalidade artística e com um futuro duvidoso – e inclusive, para muitos, um grupo que está morrendo por aqui.

NOTA: 2,5

Track List:

01. Always in My Head [03:36]

02. Magic [04:45]

03. Ink [03:48]

04. True Love [04:05]

05. Midnight [04:54]

06. Another’s Arms [03:54]

07. Oceans [05:21]

08. A Sky Full of Stars [04:28]

09. O [07:46]

2014: Nação Zumbi – Nação Zumbi

Nação Zumbi

Por: Renan Pereira

Nesse ano de 2014, fazem duas décadas que a banda Nação Zumbi, sob a liderança do visionário Chico Science, estremeceu os alicerces da música brasileira através do clássico álbum “Da Lama ao Caos”. E é bom perceber que, em vinte anos, a banda soube se reinventar e tocar a frente mesmo com a morte de Chico, ocorrida em 1997. Desde o disco “CSNZ”, lançado um ano após o trágico ocorrido, o que mais marcou conceitualmente a banda pernambucana foi a vontade de se superar, de crescer, de aprender através das feridas o que é ser um grupo completo e experiente.

Aos poucos, a lama e os caranguejos foram dando lugar a temas mais complexos, a intensidade dos elementos de percussão foi diminuindo, e a sonoridade envolvente passou a navegar para além dos mangues de Recife. Se “Da Lama ao Caos”, bem como o igualmente clássico “Afrociberdelia”, apontavam para uma direção musical totalmente nova, misturando a música regional de Pernambuco com o funk e diversas vertentes do rock, a Nação Zumbi, em sua nova fase, busca uma maior comunicação com os ouvintes de massa, trabalhando para que nossos ouvidos não sejam pegos com grandes surpresas.

Então aquele teor irrequieto dos primeiros trabalhos não existe mais? É possível dizer que, enquanto o som tornou-se mais polido, as letras conseguiram alcançar novas facetas, distantes da crítica social pregada pela mente insana do antigo líder. O que é totalmente compreensível: se, em seu início, a Nação Zumbi lutava pelo seu lugar ao sol, tentando dar uma nova cara à imutável cena nacional, agora a banda pode se gabar de seu espaço inquestionável. Tudo mudou, e muito… Obviamente, a proposta sonora da banda também deveria se transformar. Se você não quer viver tal mudança, é melhor ir atrás de passagens que te levem de volta para os anos noventa.

É claro que a percussão enlouquecedora faz falta, bem como o olhar crítico de Chico Science. A criatividade que entorna hoje em dia o som do conjunto não é nem sombra daquela de vinte anos atrás, e nas novas canções podem ser encontrados números tranquilos e/ou até mesmo românticos… E qual é o mal disso? Os integrantes do grupo andaram nos últimos tempos envolvidos em outros projetos, coletando novas referências, e o retorno da Nação Zumbi ao estúdio demorou tanto que teve até quem duvidou que ocorreria. Os tempos passam, as opiniões mudam, o passado fica para trás e o que nos resta é seguir em frente. Por mais que as marcas fiquem, o novo deve ser abraçado, como informa metaforicamente a primeira faixa do novo disco, “Cicatriz”.

A guitarra de Lúcio Maia insere a tensão necessária para a temática da segunda faixa, “Bala Perdida”, mas a produção e os versos não ajudam… A percussão pesada não cai bem na lentidão rítmica, e uma nova metaforização acaba soando como uma sobra conceitual d’O Rappa. “O Que Te Faz Rir” é um número curioso, ameno, mas que funciona com primor, ainda que a “testosterona” tradicionalmente imposta pelo vocal de Jorge Du Peixe se faça presente. Em suma, a Nação Zumbi não precisa abandonar sua personalidade para embarcar no trabalho mais sentimental de sua carreira.

A quarta, “Defeito Perfeito”, é uma boa demonstração da excelência da Nação Zumbi em criar seções rítmicas fantásticas, com grooves excitantes: em suma, uma música que agradará os ouvintes mais sedentos por inquietação sonora. Contando com a participação de Marisa Monte nos backing vocals, “A Melhor Hora da Praia” é aquele tipo de canção que, anos atrás, você jamais imaginaria a Nação Zumbi fazendo… Interessante como a evolução sentimental dos versos é capaz de levar a sonoridade a novos cenários, muito mais próximos da MPB do que propriamente ao manguebeat. Sobra até uma leve orquestração na quinta faixa, uma canção que poderia muito bem tocar nas rádios país afora… Assim como a balada “Um Sonho”, que apesar de pouco agregar, mostra uma Nação Zumbi que até então ignorávamos.

A sétima, “Novas Auroras”, parece condensar todo esse sentimento de abertura sonora pregada pelo disco… Afinal, ainda que nos álbuns sem Chico Science (e, principalmente, no clássico “Fome de Tudo”, de 2007), a banda já mostrava a clara intenção de ser um novo grupo, com uma nova toada, nunca esse conceito havia sido tão explorado quanto no presente registro. “Nunca Te Vi” pode ser uma prova de como, cuidadosamente, os marcantes arranjos de percussão da banda podem ser bem alocados dentro dessa sonoridade mais cadenciada e sentimental.

Tudo vai indo relativamente muito bem, mas… É obvio que algo está faltando. Surpreende que, logo em um momento de agitação social inédito para as novas gerações, a Nação Zumbi tenha abandonado o seu lado mais crítico. Não seria esse o momento ideal para o grupo apresentar, mais uma vez, seu olhar ácido sobre os acontecimentos que afligem a população? Talvez Du Peixe e seus companheiros estejam ainda dentro daquela inércia política que abatia o Brasil antes de junho de 2013 – até porque o processo de construção do novo disco havia se iniciado antes dos protestos que se espalharam pelo país. Um erro? Talvez esteja mais para um “menor acerto”.

Para não espantar seus ouvintes das antigas, a última trinca de faixas de “Nação Zumbi”, o disco, massageia os ouvidos daqueles que estavam ansiosos por canções pesadas, tomadas pelas antigas influências do conjunto. Riifs velozes, batidas furiosas e todo aquele sentimento inovador que permeava os primeiros registros do grupo dão o ar da graça em “Foi de Amor”, “Cuidado” e “Pegando Fogo” – mas a lírica, em contrapartida, está totalmente inserida nos conceitos atuais. Em suma, o desfecho do álbum marca o encontro da nova com a antiga Nação Zumbi.

Apesar de se comportar como um ponto de menor destaque dentro da discografia dos pernambucanos, “Nação Zumbi” se comporta como um necessário álbum de aprendizado. A banda não poderia passar toda a sua carreira cantando a lama dos manguezais do Recife, não é verdade? Além de passar por um momento de reflexão sonora, a Nação Zumbi nos convida a pensar sobre a importância das mudanças estéticas para o futuro de uma das mais importantes bandas do país. Assim, mesmo passando longe dos maiores êxitos do manguebeat, o presente registro contém, sem dúvida nenhuma, um válido resultado artístico.

NOTA: 7,0

2014: To Be Kind – Swans

To Be Kind

Por: Renan Pereira

Artistas de verdade não morrem. Músicos que ao atingir os 60 anos simplesmente sentam sobre suas glórias passadas e negam o poder inovador que a música contém não estão compromissados com a arte como um todo – e, se em algum dia estiveram, a preguiça espontânea faz com que esse dia esteja distante do nosso presente. Não apenas no Brasil, mas no mundo todo, existem inúmeros casos de músicos consagrados que, ao atingir uma idade avançada, ignoram toda a sabedoria adquirida com tantos anos de estrada em nome de uma filosofia chata, oportunista e degradante: deitam em seus berços esplêndidos e lá permanecem, bajulados pela imprensa e pelo público por uma obra importante, é verdade, mas que ficou no passado e não será repetida. Ainda que possam, músicos que morreram para a arte não querem ter uma sobrevida: “Já estou consagrado, sou um grande dinossauro, me chamam até de rei. Por que vou tirar a minha bunda gorda dessa cadeira tão confortável se não existe essa necessidade?”, pensam os gênios mortos.

Michael Gira poderia ser mais um desses casos. Músico consagrado há muito tempo, líder de uma das bandas mais influentes do rock alternativo, o musicista atinge sua sexta década de vida detendo uma glória passada que ninguém negará. Já fez muito pela música, inovou sem precedentes, criou ambientes sonoros que serão aclamados por décadas… E qual é o valor, afinal, disso tudo? Um prêmio de loteria, para quem vive o passado. Para Michael Gira, é um patrimônio a ser destruído.

Não por acaso, “To Be Kind” mostra um compositor inquieto, que não se contenta em ter troféus empoeirados na estante. Mais do que isso, o décimo-terceiro disco de estúdio do Swans é um combate contra o marasmo do passado, desconstruindo tudo o que já havia sido feito a fim de manter intacta uma excelência experimental. Raivoso e extremamente energético, o registro não precisa de um chão para pisar: derruba estruturas, quebra conceitos e se atira em um universo paralelo, distante desse nosso mundo guiado pela arrogância e pela preguiça intelectual.

Assim, o trabalho é guiado por épicos socos no estômago. Apenas uma das faixas tem menos do que sete minutos de duração, em um exercício claro da banda de transformar cada música em um turbilhão sonoro que não nega ao ouvinte as ideias mais sinceras e insanas de Michael Gira. A primeira faixa, “Screen Shot”, já aloca o ouvinte na obscuridade característica do Swans, pintando a todo instante uma atmosfera combativa e misteriosa: a voz intrigante de Michael Gira vai funcionando como o delinear rítmico e conceitual da canção, e envolto por uma instrumentação de cunho minimalista, o musicista brada um cenário sem mortes, sem dores, sem perdas, sem medos, sem sonhos, sem palavras… É arrebatador acompanhar o carrancudo vocalista a bradar a necessidade urgente do amor na apoteose da canção, em meio a um turbilhão de ruídos.

Tão obscura quanto a primeira faixa, “Just a Little Boy (for Chester Burnett)” insere o ouvinte em um ambiente desolador, em que a desconstrução é pautada no canto triste (e insano) de Gira sobre as armaduras nas quais nos envolvemos para que possamos nos sentir seguros; a força instrumental da canção provém da união dos ruídos sempre presentes na base sonora da banda com uma construção rítmica impecável, com grande destaque à monumental performance do baterista Thor Harris – que se mostra, por sua vez, fundamental para a criação da atmosfera caótica que as inexplicáveis ideias de Michael Gira exigem. Mais um vez, no desfecho, o amor é clamado em desespero.

A terceira, “A Little God in My Hands”, foi a primeira música do disco apresentada ao público, ainda no mês de março. Com uma proposta curiosa para iniciar a canção, com uma estrutura grooveada e quente (característica da música funk norte-americana), a banda vai jogando para o ouvinte, aos poucos, um número que só poderia ser seu: uma base caótica, compromissada quanto à inovação e sem compromissos com rótulos, vai construindo uma verdadeira muralha sonora, em que a tensão e o recorrente teor obscuro voltam a se comportar como um grande destaque. Sobra espaço ainda para um coro de mulheres repetir, de modo fantasmagórico, a linha “summon my soul so part” enquanto Gira derrama seu vocal arrastado em uma estranha poesia.

A quarta faixa não poderia ser mais brilhante: a dobradinha de “Bring the Sun” e “Toussaint L’Ouverture” entrega ao público mais de meia-hora (isso mesmo, 34 minutos) de pura insanidade, arquitetando muito provavelmente o número que monta as nuances sonoras mais ousadas de toda a carreira do Swans… E olha que relacionar a banda com ousadia não passa de uma grande redundância. Peso, técnica, loucura, terror, emoções tortas e androgenismo se reúnem em uma sequência épica capaz de arrepiar os pelos até do mais calejado dos ouvintes: uma faixa que poderia valer por um disco inteiro.

Depois de tanto barulho, seria “Some Things We Do” uma faixa mais tranquila? Sim se levarmos em consideração sua introspecção, e não se pensarmos que o íntimo é, na verdade, do insano Michael Gira: até quando ele está disposto a refletir, suas ideias soam macabras… Se bem que o acompanhamento assombroso de guitarras ajuda um bocado para criar todo esse clima misterioso. Mais um ponto positivo para o competente grupo que acompanha o compositor, que, neste disco, ainda ganha a companhia de gente como John Congleton, Bill Rieflin e Annie Clark (St. Vincent).

Se uma hora de porradas sonoras não bastasse, em “She Loves Us” se inicia a segunda parte do trabalho. São mais 17 minutos de muita potência e experimentalismo, demonstrando, mais uma vez, todo o brilhantismo e a “esquisitice” que englobam o Swans – o grupo que, claramente, detém o conceito sonoro mais primoroso da atualidade. Michael Gira apresenta suas ideias, e só um conjunto com tantas qualidades individuais poderia dar vida a pensamentos tão malucos… Realmente, o Swans é uma banda de instrumentistas fantásticos às ordens de um ser único, uma mente insana que pauta seu trabalho sempre em vias de inovação.

Mistério, melancolia e o auxílio de vozes femininas voltam a dar as caras em “Kirsten Supine”, uma canção dez minutos de andamento lento, que acentua a morbidez presente nos atuais ideais sonoros do Swans. A seguinte, “Oxygen”, é (acredite se quiser) o ápice energético do disco: composta por Michael Gira logo após uma grave crise de asma, essa incrível canção “revela” a importância de estar respirando, de poder sentir seu coração batendo… É raro pararmos para pensar na importância disso, mas os gritos do vocalista a clamar por oxigênio fazem com que a gente imagine a angústia de uma pessoa que está com dificuldades de respirar.

A penúltima, “Nathalie Neal”, é uma canção estritamente atmosférica em sua primeira metade, mas bastam que alguns minutos passem para que o ouvinte sinta novamente a instrumentação do Swans a pulsar sem moderação… Incrível como a banda conseguiu permear arranjos tão fantásticos com um pensamento energético, sem negar a seu público as “porradas” das quais o rock necessita. Em contramão, a faixa final é um número “quase tranquilo”, e brincando com o título do trabalho, se comporta como uma macabra canção de ninar em seu início… Isso até desabrochar em ruídos, que fazem nossos ouvidos quase explodirem. Para ser gentil, Michael Gira não precisa ser delicado. Sinal de que os 60 anos do músico podem significar, mais do que uma inegável experiência, um ápice artístico. Estranho? Sim, claro… Afinal, isso é Swans, amigo!

NOTA: 9,2

Track List:

01. Screen Shot [08:04]

02. Just a Little Boy (for Chester Burnett) [12:39]

03. A Little God in My Hands [07:08]

04. Bring the Sun | Toussaint L’Ouverture [34:05]

05. Some Things We Do [05:09]

06. She Loves Us [17:00]

07. Kirsten Supine [10:32]

08. Oxygen [07:59]

09. Nathalie Neal [10:14]

10. To Be Kind [08:22]

2014: Indie Cindy – Pixies

Indie Cindy

Por: Renan Pereira

O quinto disco dos Pixies: um lançamento que, anos atrás, parecia tão improvável quanto um novo álbum do Johnny Cash. Mas o mundo da música, felizmente, costuma pregar surpresas naqueles ouvintes que insistem em sepultar artistas que envelheceram… David Bowie sendo aclamado por um novo trabalho? Leonard Cohen produzindo um dos discos mais coesos de sua carreira? Michael Gira alcançando seu ápice artístico aos sessenta anos? Se tudo isso vem acontecendo, o ouvinte esperto jamais duvidará das capacidades de um veterano.

E quando as inúmeras décadas vividas englobam Black Francis, David Lovering e Joey Santiago? O resultado tende a ser, no mínimo, bem curioso. É estranho acompanhar os Pixies dando à luz a seu quinto trabalho vinte e três anos depois de seu antecessor, o disco “Trompe le Monde”, ainda mais sem a marcante presença de Kim Deal, que abandonou a banda para investir em sua carreira solo. Mais estranho ainda é perceber que, “Indie Cindy”, tido como um disco novo, é, na verdade, nada mais do que a compilação dos três últimos EP’s do grupo, lançados ao longo dos últimos nove meses… É como se o novo trabalho necessitasse de um tempo de gestação para nascer com forças suficientes para sobreviver. Pois, no fim das contas, “Indie Cindy” tem a capacidade de viver, mesmo que seja na incubadora, com o auxílio de aparelhos…

Podemos dizer que esses “aparelhos” tem como fonte de energia o passado glorioso que os Pixies carregam. Autores de uma das mais influentes discografias da história da música, o quarteto de Boston se elevou à glória não apenas pela altíssima qualidade de suas canções, mas devido à sua intensa e recorrente preocupação em inovar. Lá em 1987, Kim Deal experimentava seu vocal em diversos cômodos do estúdio (procurando alcançar o perfeito eco natural), enquanto Black Francis investia em todos os tipos possíveis de distorção, e Joey Santiago disparava sujeira para todos os lados… Bastam poucos fatos para que não seja nada difícil perceber porque os Pixies foram rotulados de “salvadores do rock”, em uma época em que os excessos do hard rock e do new wave ditavam os rumos da música comercial.

Já hoje, em 2014, mesmo com o seu prestígio inalterado, o grupo não consegue trazer a um novo público a mesma aura atraente de vinte e tantos anos atrás. Isso é compreensível? É claro, pois o tempo é um adversário que, no fim das contas, ninguém consegue derrotar. Eles envelheceram, estão agora em uma época totalmente diferente, e os desejos do público não são mais os mesmos. Obviamente, ninguém espera ver dinossauros do rock reinventando a roda mais de duas décadas depois de viver o seu ápice artístico, ainda mais se lavarmos em consideração um conjunto que ficou tanto tempo sem trabalhar em estúdio… Mas músicas de alta qualidade é um desejo geral que nunca deixaremos de ter – e, para nossa infelicidade, é aí que “Indie Cindy” derrapa.

Entretanto, existem algumas faixas divertidas. Se você der o play na primeira faixa, “What Goes Boom”, se sentirá de volta ao fim dos anos oitenta, com uma canção que poderia muito bem ter feito parte do set list dos velhos discos dos Pixies: um turbilhão de guitarras, uma boa melodia e um teor energético formam uma base que parece acariciar os ouvidos dos fãs das antigas. Pule para a quarta faixa e você poderá matar a saudade de Francis, Lovering e Santiago pautando seus lançamentos na busca de novos elementos, mesmo que isso possa resultar em uma estrutura sonora pra lá de estranha… A sétima, “Blue Eyed Hexe”, não chega a ser um primor, mas consegue provar que esses tiozinhos de 50 anos ainda tem energia pra colocar na fogueira.

Há, além disso, bons momentos de pura nostalgia: “Another Toe in the Ocean” parece ser uma ode ao rock do início dos anos noventa, fazendo com que o ouvinte chegue até mesmo a sentir o cheiro que envolvia aqueles anos; “Jamie Bravo”, a faixa final, tem um riff inicial fantástico, soando clássica, e fazendo-nos recordar dos momentos mais inspirados da banda… Canções que mostram que, mesmo em um mundo tão distante do oitentista, os veteranos Pixies ainda podem ser relevantes.

Então, onde estão as derrapadas? Basicamente, em todas as músicas ainda não citadas. Quando brinca com estruturas semi-acústicas, por exemplo, a banda transparece sinais de cansaço ao errar no que a grande maioria das bandas ditas “alternativas” pautam suas bases sonoras: canções inofensivas, que soam como trilha-sonora para elevadores… Esses são os casos de “Greens and Blues” e “Ring the Bell”, baladas sem-graça que poderiam ter sido compostas por um grupo chato, como o Travis, e não por uma das maiores bandas da história. Há ainda aqueles momentos em que as canções parecem não ter rumo, como é marcante na décima faixa, “Andro Queen”.

“Magdalena 318”, “Silver Snail”, “Snakes” e a faixa-título são canções que não conseguem dizer porque se fazem presentes no registro… Números pouco atraentes, monótonos e óbvios que podem fazer com que a atenção do ouvinte se disperse, e o tão esperado retorno dos Pixies acabe se tornando um fato muito aquém das expectativas.

Sim, “Indie Cindy” não é um grande álbum de retorno. Somando-se os prós e os contras, o que se vê é um trabalho banal, com poucas faixas que lembram a qualidade extrema que os Pixies alcançaram lá na virada das décadas de oitenta e noventa. Visivelmente, o disco acaba soando deslocado, tanto cronologicamente quanto conceitualmente, e deixa dúvidas quanto à qualidade dos futuros trabalhos da banda, se é que eles existirão. Mas há um porém que deve ser destacado: é óbvio que eles não desaprenderam. Muitos agora vão abandonar os Pixies, rotulando-os de artisticamente aposentados, e é aí que a surpresa pode morar: o novo registro da banda pode até ter poucas faixas atraentes, mas nestas o grupo mostra que ainda sabe como compor ótimas canções. Esperemos, portanto, um trabalho à altura dos Pixies nos próximos anos.

NOTA: 5,9

Track List:

01. What Goes Boom [03:32]

02. Greens and Blues [03:46]

03. Indie Cindy [04:41]

04. Bagboy [04:52]

05. Magdalena 318 [03:26]

06. Silver Snail [03:29]

07. Blue Eyed Hexe [03:11]

08. Ring the Bell [03:34]

09. Another Toe in the Ocean [03:46]

10. Andro Queen [03:23]

11. Snakes [03:45]

12. Jaime Bravo [04:24]

2014: Everyday Robots – Damon Albarn

Everyday Robots

Por: Renan Pereira

Damon Albarn sempre foi um sujeito inquieto. Depois te ter ajudado a renovar a música britânica através de sua banda Blur, um dos pilares do movimento britpop, o músico se viu à vontade para negar todas as referências de seu passado musical e embarcar em um projeto inovador, criando a primeira banda digital da história: surgia ali o Gorillaz, seu mais audacioso projeto, assim como a certeza de que o músico deixara de tomar diariamente seu chá das quatro para vivenciar novas experiências.

Os anos noventa passaram, assim como a primeira década do novo século, e Albarn se manteve não apenas relevante, mas como um dos artistas mais respeitados da música mundial. Agora, quando a metade da segunda década que vivemos se aproxima, e o músico lança o seu primeiro disco em carreira solo, a pergunta que fica é: conseguirá ele manter o seu prestígio? Ao vê-lo novamente abandonando a zona de conforto, obtemos um sinal positivo.

Afinal, em “Everyday Robots”, podemos ver Albarn rompendo mais uma vez com o seu próprio passado. Ainda que restem pequenos resquícios da sonoridade torta dos Gorillaz e do apelo pop do Blur, em seu novo trabalho, o músico procura brincar com novas texturas. Propositalmente lento e atmosférico, o disco busca em melancólicas passagens a genuína atualização musical de Albarn: bordado, desde o título, como um trabalho que procura refletir os tempos atuais, o presente registro dá ao artista uma nova identidade sonora, distante de tudo o que ele já fez.

Para encarar essa atualidade eletrônica e robótica, Albarn recrutou a ajuda do produtor Richard Russell, dono do selo XL Records, que acabou colaborando em todas as faixas do disco. Um esforço coletivo que floresce também nos encontros de Albarn com o renomado Brian Eno e com a emergente Natasha Kahn, do projeto Bat For Lashes. Sim, apesar de se caracterizar como o início de um projeto individual, “Everyday Robots” não significa que Damon Albarn desistiu de estar bem acompanhado. As pessoas inteligentes sempre recorrem a seus amigos, e com tantas amizades frutíferas, o músico não deixaria de contar com participações de tamanha qualidade em seu primeiro trabalho em viés “solitário”.

A primeira música a demonstrar o novo universo de Albarn é a faixa que dá título ao trabalho: a partir de um andamento lento, com uma estrutura tortuosa e arranjos minimalistas, o músico reflete seu olhar melancólico em uma bonita coleção de detalhes: são eles, afinal, que constroem o encanto que prende o ouvinte do início ao fim do disco. Igualmente atmosférica e contemplativa, a segunda, “Hostiles”, insere de uma vez por todas o ouvinte no conceito confessional proposto pelos versos de Albarn: um cara que ama, sofre e sobrevive, uma pessoa normal, assim como nós… E que, em sua estreia solo, deseja mostrar quem realmente ele é.

Mesmo quando canta em proximidade com temas mais do que óbvios da música pop, como nos singles “Lonely Press Play” e “Mr. Tembo”, Albarn se apresenta inteligente e maduro, fazendo da sequência de faixas do disco um grande questionamento sobre os rumos do ser humano… Será que as tecnologias estão nos tornando, aos poucos, mais robôs do que gente? É na união do sintético com o orgânico que mora não só a sonoridade do álbum, mas também a sua grande mensagem conceitual.

“Parakeet” é apenas uma introdução, uma breve trilha que abre os caminhos para “The Selfish Giant”, uma assertiva colaboração com Natasha Khan e que mostra Damon Albarn novamente à vontade para flertar com novos elementos… Um visionário nato, o músico não economiza nos novos encontros, brincando até mesmo com o jazz, enquanto os rumos eletrônicos vão pavimentando as vias sonoras do disco. A seguinte, “You and Me”, traz na participação de Brian Eno o encontro mais do que claro da música moderna, robótica e fria, com os inventos setentistas assinados pelo famoso produtor – que, de forma irônica (ou não), foi um dos precursores dessa estratégia de se amarrar os sons de forma obscura e atmosférica.

“Hollow Pounds” é uma canção que pode soar distante ao ouvinte, justamente por ser extremamente intimista, incluindo em seus versos passagens e datas importantes da vida de Albarn… praticamente um álbum de fotos que o artista agora libera ao público. É interessante, aliás, ver um músico tão famoso e experiente abrindo o seu coração agora, quando fazem mais de duas décadas que ele se apresentou ao mundo através do Blur… É como se durante vinte anos as pessoas não soubessem, de fato, que tipo de pessoa ele é: um sujeito que, partindo da urgência do Blur e do ambiente fictício dos Gorillaz, quer mais é escancarar suas mágoas em um trabalho tranquilo, e não tão fácil de digerir. É fato que “Everyday Robots” decepcionará quem esperava mais um capítulo inventivo na carreira de Albarn, pois o que fala mais alto no registro é, na verdade, a sensibilidade.

Mas o disco, apesar de muito bonito, comete o erro de chegar a sua parte final se arrastando, clamando por um respiro que, na realidade, só ocorrera na quarta faixa… Uma melancolia marcante volta a ser marca em “Seven High”, uma curta trilha construída por um piano, e na extremamente sentimental “Photographs (You Are Taking Now)”, que busca inspirações na literatura ativista através de Timothy Leary. Igualmente tristonha, a penúltima, “The History of a Cheating Heart”, flerta intensamente com a música folk, tanto que poderia muito bem ter feito parte de algum disco de Nick Drake.

“Heavy Seas of Love” fecha o disco com uma toada mais positiva, e nos responde àquela questão abordada no início deste texto: sim, Damon Albarn continua a ser um músico relevante. E como, no fim das contas, ele conseguiu isso mais uma vez? Fazendo de seu primeiro registro solo um surpreendente tratado de emoções, trazendo à tona, pela primeira vez em sua carreira, seus mais íntimos anseios. Com isso, pode ser dito, sem medo de errar, que “Everyday Robots” é o trabalho mais sincero que o músico já construiu: afinal, o disco fala justamente sobre quem realmente Albarn é… Uma pessoa comum, mas que por conseguir atravessar três décadas em evidência, merece nosso aplauso.

NOTA: 7,5

2014: De Lá Não Ando Só – Transmissor

De Lá Não Ando Só

Por: Renan Pereira

Se evoluir é um exercício pelo qual devemos pautar nossa existência, os mineiros do Transmissor têm muito o que ensinar. Fazendo de seu terceiro disco, “De Lá Não Ando Só”, um grande e nítido acumulado de vivências e novas experiências, a banda extrapola toda e qualquer expectativa, independente de sua extensão, para construir uma obra pautada na evolução. É como se o já maduro “Nacional”, de 2012, se comportasse apenas como um ensaio para o disco que agora temos em mãos.

Embora siga uma linha sonora explícita, “De Lá Não Ando Só” é um grande agregador de novas nuances à musicalidade do Transmissor. Ainda que a mistura do pop rock dos anos 2000 com as heranças setentistas do Clube da Esquina continue formando a base sonora do grupo, Pedro Hamdan, Daniel Debarry, Henrique Matheus, Jennifer Souza, Thiago Corrêa e Leonardo Marques encaram novos caminhos de uma velha paisagem. Todo o teor poético não está somente mantido, como se mostra melhor resolvido, encontrando na interação com uma forte base instrumental o seu maior exercício de expansão ao ouvinte. As belas melodias também se fazem presentes mais uma vez, porém acompanhadas por arranjos mais ricos em detalhes e complexidades. Não, o Transmissor não deixou de falar simples… Apenas aumentou o seu tom, que agora pode ser ouvido com maior nitidez.

Desejando não fazer do novo álbum um simples “mais do mesmo”, a banda mostra acerto ao flertar com “novos” aspectos do rock. Há um acumulado muito maior de referências em comparação aos trabalhos anteriores: se antes o grupo se mostrava satisfeito em refletir a sonoridade que fez o conjunto nascer e crescer como unidade, agora eles parecem querer superar a si próprios, absorvendo uma nova gama de texturas, características dos anos oitenta e noventa… Isso, claramente, torna a estrutura sonora mais poderosa e comunicativa.

O início do disco, porém, parece ser muito mais uma extensão do que já havia sido apresentado no álbum anterior: “Queima o Sol”, a faixa de abertura, parte dos conceitos de “Nacional” para soar agradável e classuda, um pop rock melódico com a leveza característica da música mineira. Já na segunda faixa, “Só Um”, o ouvinte é apresentado aos arranjos nitidamente evoluídos, que aumentam a comunicação das guitarras com o ouvinte… Afinal, ainda que os teclados atraiam, e as performances do baterista Pedro Hamdan se mostrem colossais, são as linhas de guitarra que dão ao trabalho o seu grande diferencial.

É claro que os vocais também formam um destaque positivo: doces, massageando nossos ouvidos, se comportam com perfeição durante todo o registro, ainda que dividido entre Jennifer, Leonardo e Thiago. É a moça que lindamente canta a terceira faixa, a simples, porém bela, “25 Horas por Dia”. “Todos Vocês” brinca com uma estrutura repleta de grooves inteligentes, mas é a primorosa letra que se destaca: “A verdade nunca foi à sua casa, pra bater à porta, pedindo pra entrar. Nesse tempo as coisas são tão diferentes, e o frio que há na gente, já pede pra ficar“. Profundo e bonito.

“Mais Quente do que Quis” é uma daquelas faixas que tem tudo para ser um grande hit, mas que, infelizmente, provavelmente será deixada de lado por nossas rádios tão preocupadas em banalidades. Tudo vai soando muito bem, não? O ápice, contudo, é atingido na bonita melancolia de “Nessas Horas”, que comprova todo o crescimento da banda: embebida em arranjos elegantes, que se comunicam com o rock progressivo, a faixa parece ser a mostra perfeita dos novos rumos sonoros do sexteto, que agora abraça texturas obscuras, de maior complexidade. A próxima, “Nada pra Te Devolver”, trata de seguir a mesma linha, com o grupo acertando em cheio no alvo mais uma vez.

“Retiro” contém flertes eletrônicos, que assentam muito bem a letra composta por versos curtos que é amparada pelo bonito vocal de Jennifer Souza. A musicista, aliás, parece encontrar um espaço maior dentro da banda com o novo disco: isso se deve ao teor democrático pelo qual o trabalho foi bordado, em que todos os membros do grupo colaboraram com quase igual importância. A nona faixa, que dá nome ao álbum, é um bom número pop que, pelo clima suave e melancólico, pode ser comparada às canções de Silva.

Na décima faixa, a banda brinca até mesmo com a aceitabilidade do público ao nomeá-la de “O que Você Quer Ouvir” – e não é que a música é, no fim das contas, justamente isso? Em “Canso a Cabeça” somos novamente apresentados a uma nova faceta do grupo, em que guitarras pesadas são o norte da canção… Uma densidade que se repete na apoteótica “Casa Branca”, que atesta o amadurecimento da banda a partir de uma ideia: consistência.

Mesmo pautando seu trabalho na linearidade sonora, em nenhum momento o Transmissor faz de “De Lá Não Ando Só” um registro capaz de enjoar o ouvinte. A toada aqui, na verdade, vai justamente no sentido contrário: as pontuais evoluções são alocadas com tanta inteligência que nos prendemos interessados do início ao fim da obra. Um grande disco, candidatíssimo a um dos melhores do ano, e o mais completo trabalho que o Transmissor já produziu. Será que alguém ainda pretende se embaraçar ao citar Skank, Pato Fu ou Jota Quest? O posto de melhor banda mineira da atualidade já tem dono… e ele é dividido, em partes iguais, entre os seis integrantes do Transmissor.

NOTA: 8,5

2014: It’s Album Time – Todd Terje

It's Album Time

Por: Renan Pereira

É curioso observar o poder de um disco bem-sucedido, louvado tanto pela crítica quanto pelo público… No ano passado, em seu retorno ao estúdio, os franceses do Daft Punk, outrora reconhecidos pelos seus inventos dentro da música eletrônica, resolveram voltar seus olhares para o passado, buscando na disco music setentista o grande norte de suas novas referências. O resultado? O maior êxito comercial do duo, alcançando um massivo sucesso principalmente nos Estados Unidos, um terreno sempre difícil para os músicos da parte latina da Europa. Logo, não seria surpreendente ver novos nomes investindo nesse mesmo conceito: afinal, um caminho não muito difícil para o sucesso é o que muitos buscam, não é verdade?

Logo no primeiro mês de 2014, a banda americana Broken Bells fez de seu segundo álbum, “After the Disco”, o primeiro “filho” de “Random Access Memories”. Com isso, a luz amarela se acendeu: estaria aí se iniciando uma nebulosa era de máquinas do tempo, cópias mal feitas de um álbum que nunca realmente se propôs a ser um simples retorno aos anos setenta? Se o sinal de alerta havia quase cessado com a má recepção ao primogênito de “Random Access Memories”, agora, seu segundo filho, é infelizmente adorado pelos mais diversos setores da crítica. O produtor norueguês Todd Terje parece ter enganado todo mundo com maestria, e seu primeiro trabalho em estúdio, “It’s Album Time”, tem sido cultuado como um grande disco.

Afinal, o que há de tão incrível no registro? Space disco? Ora, estamos em 2014 ou em 1978? O grande fato é que há quarenta anos diversos artistas já faziam o que Todd Terje está disposto a vender como atual. As concepções ao mesmo tempo dançantes e atmosféricas, por exemplo, já faziam parte do trabalho do italiano Giorgio Moroder lá na metade dos anos setenta, apresentadas por álbuns icônicos como “Knights in White Satin” e “From Here to Eternety”. E o que dizer dos “incríveis” flertes com o krautrock? Brian Ferry, ex-vocalista do Roxy Music, que marca presença no álbum (emprestando sua voz para uma insossa regravação de “Johnny and Mary”, de Robert Palmer) poderia muito bem ter avisado a Terje que a sua antiga banda já brincava com os mesmo elementos lá no longínquo ano de 1972.

No início do disco, emanações eletrônicas retrógradas já entregam o seu conceito, enquanto o porquê de seu título é “revelado”: se trata de um álbum de música? Ah, não me diga! Tão inútil como a primeira, a segunda faixa, “Leisure Suit Preben”, soa como alguma trilha-sonora perdida de algum filme hollywoodiano dos anos setenta, dando sons àquela cena em que o mocinho dirige seu Chevrolet Impala pela Golden Gate Bridge. A seguinte, “Preben Goes to Acapulco”, é salva por sua base rítmica, que, por instantes, até deixam os efeitos empoeirados em segundo plano.

Contando as viagens de um personagem, o disco desembarca em um bar caribenho em “Svensk Sås”, regando a sequência do registro a muitos drinks tropicais. Dá até para sentir o gostinho azedo do álcool, mas mesmo com as percepções alteradas, fica difícil se sentir atraído pelas bases sonoras que Terje nos oferece. “Strandbar” até trabalha para impregnar algum conceito mais moderno, mas é logo abafada por efeitos toscos que fazem até um trabalho do Kraftwerk soar mais atual. Mesmo devendo quanto ao dinamismo, a sexta faixa, “Delorean Dynamite”, se comporta como o melhor número do álbum: basta um maior compromisso com o nosso tempo para que a música de Torje não seja tão chata.

O que dizer da sétima faixa? Impossível dizer o que embaraça mais: a participação de Brian Ferry em uma regravação tão sonolenta ou a Pitchfork a nomeando como “best new track“. Convenhamos que as famosas publicações musicais já foram melhores: o site Consequence of Sound chama “It’s Album Time” de eclético, a revista Clash brada um momento épico, e até a crítica brasileira transforma rótulos como “empoeirado” e “descompromissado” em adjetivos positivos, os dois grandes sinônimos da qualidade musical. É o mundo da música sendo envolvido pela história do rei que diz defecar ouro, e os súditos passam a louvar até mesmo o seu cocô. Todd Terje vende um produto banal, meia-dúzia de pessoas tratam o disco como algo valioso e todo mundo sai acreditando, comprando o gato que o músico vende como lebre.

“Alfonso Muskedunder” vai bem enquanto brinca com o jazz, mas basta os tecladinhos retrógrados aparecerem para que o número desande em mais uma insossa seção ensolarada. O ouvinte que ainda tiver paciência para conferir “Swing Star”, uma canção em duas partes, ouvirá pouco êxito rítmico, e um andamento que nega o dinamismo da música eletrônica. Afinal, se um álbum que se chama de “dançante” faz o ouvinte ter vontade de dormir, seus erros são muitos.

Mas esse nem é o maior dos pecados de Terje, que comete equívocos graves ao camuflar a obra de artistas do passado para vender “It’s Album Time” como um provável resultado de sua criatividade como produtor. Provas? Procure ouvir o trabalho construído por caras como Bernard Fevrer e Brian Bennett lá nos anos setenta, e você acabará vendo que a “criatividade” de Terje é, na realidade, apenas uma revisitação a nuances sonoras pra lá de antigas. Já, com as duas últimas, “Oh Joy” e “Inspector Norse”, Terje parece querer colher a inovação plantada por alemães na música eletrônica ainda nos primeiros suspiros da década de setenta. É bom alguém avisar a ele que a época da colheita já passou.

Mas pelo menos o disco é bem produzido, mostrando um trabalho que, apesar de pobre em ideias, consegue passar para os ouvintes o que é proposto: um som leve, dançante e sem inovações, uma verdadeira trilha-sonora para elevadores – ou para bibliotecas? Caso você tenha gostado do som, pesquise sobre a chamada Library Music produzida na Europa há quarenta anos, e verá que, ao invés de inovar, Todd Torje quer apenas tirar uma casquinha de uma base musical já esquecida (mas que graças à internet, ainda está disponível a todos), para receber a louvação de um público que não viveu a era de ouro da música disco ou sequer andou pesquisando sobre o gênero. “It’s Album Time” é, no fim das contas, um disco falso destinado a um público pouco informado.

NOTA: 2,5