2014: Ultraviolence – Lana Del Rey

Ultraviolence

Por: Renan Pereira

Lana Del Rey gostaria de estar morta. Sério. Em recente entrevista ao jornal inglês The Guardian, a musa dos hipsters voltou a demonstrar sua obsessão mórbida. “Eu não gostaria de continuar com isso, mas eu sou assim”, disse a cantora. É importante citar, porém, que nessas alturas da entrevista, haviam sido citados ícones do universo pop como Kurt Cobain e Amy Winehouse, não apenas ídolos de Lana, mas também artistas que morreram muito cedo. Se aprofundando no universo particular da tristonha garota, dá para perceber que essa revelação nem é tão peculiar assim… Seus deuses morreram, o mundo em que ela gostaria de viver não existe mais, e o que ela quer, no fim das contas, é continuar vivendo apenas para morrer.

Se seu primeiro disco já se chamava “Born to Die”, o presente álbum apresenta visões da cantora sobre uma vida dita “ultra violenta”. É triste, deprimente, e se arrasta durante quase uma hora buscando nos lamentos de uma jovem “morta-viva” um conceito sonoro único e imutável. Contudo, a produção de Dan Auerbach mostra-se certeira, deixando Lana distante daquele cenário incerto de “Born to Die”, e amplifica o já conhecido universo blasé através de toques de jazz, blues e rock psicodélico. Enfim, como desejava, a cantora conseguiu lançar um disco com a cara dos anos sessenta – uma década em que seu mundo particular ainda poderia ser levado a sério, diga-se de passagem.

Quem conferiu o bom curta “Tropico”, lançado por Lana no último mês de dezembro, conhece bem os pensamentos que envolvem a estranha mente da cantora: mesmo vivendo na segunda década do século XXI, Lana ainda rumina nomes como Elvis Presley e Marilyn Monroe dentro daquela atmosfera típica da juventude americana dos anos cinquenta e sessenta. Não à toa, a musicista cita Bob Dylan, Frank Sinatra e Leonard Cohen como suas principais influências na música, em uma ênfase totalmente centrada nos velhos sonhos (e pesadelos) da cultura da América do Norte.

“Minha vida é um verdadeiro filme de merda”, disse a cantora nessa mesma entrevista ao The Guardian. O engraçado é que é esse filme que a cantora procura explorar, a todo instante, em sua mais nova obra… O que já é percebido na primeira faixa, a longa e chorosa “Cruel World”, na que você, muito provavelmente, já dará graças a Deus por Auerbach ter decido ser o principal produtor do disco. É inegável que o músico, integrante do The Black Keys, insere toda sua bagagem (e qualidade) dentro do universo particular de Lana Del Rey com muita inteligência.

A faixa-título, que vem em seguida, se agarra assertivamente em uma sonoridade barroca, conseguindo tirar todo o sumo de Auerbach, e deixando Lana à vontade em um cenário especialmente construído para seus lamentos sobre vários aspectos da vida. “Shades of Cool” mantem os mesmos elementos, e apostando forte na melodia , faz com que a voz da cantora flutue com uma força que até então não havia sido observada; um poderoso solo de guitarra também ajuda para tornar a terceira faixa uma das melhores do disco. A quarta, “Brooklyn Baby”, cita vários elementos da cultura hipster em um pensamento melódico que é confessamente emprestado dos grupos de garotas dos anos sessenta, como The Ronettes, The Supremes e The Shangri-Las.

O já conhecido single “West Coast” surge preenchendo a quinta faixa, e o ouvinte, nessas alturas, provavelmente se vê surpreendido pela qualidade do disco, distante da plasticidade de “Born to Die”. Tudo vai correndo bem, e até com naturalidade, por incrível que pareça. O porém surge no momento em que percebemos que “Ultraviolence” não faz nada além de insistir em uma única toada, do início ao fim, e boas canções acabam sendo jogadas em um molho insosso, sonolento, e que, naturalmente, entedia. Ainda que os rumos etéreos de “Sad Girl” demonstrem uma boa interação das velharias com o pop atual, é a partir da sexta faixa que o disco, como um conjunto, acaba tornando-se repetitivo em excesso.

Até porque a sétima faixa, bem como as seguintes, estaciona em um nível de melodrama tão alto que chega a ser irritante. Sem conseguir segurar o ímpeto de Lana em forçar a barra, Auerbach acaba deixando que a personalidade superficial da cantora acabe tomando conta dos últimos instantes do disco. Com isso, muita artificialidade constrói os rumos da péssima “Pretty When You Cry”, da etérea “Money Power Glory” e de “Fucked My Way Up to the Top”, canção que conta com uma letra relativamente tosca.

Mesmo mantendo-se no conceito exagerado, “Old Money” apresenta uma boa melodia, mostrando-se superior às antecessoras. Um breve toque de qualidade dentro do deserto criativo da última parte do álbum, que ganha ainda mais descrédito quando Lana incorpora sua “guru” Marilyn Monroe na última faixa, “The Other Woman”. Muito original, não? Pois assim mesmo é Lana Del Rey: uma artista que faz toda questão de ser um mais-do-mesmo da velha cultura americana, repleta de todos os clichês possíveis e imagináveis. Goste ou odeie, ela é assim.

Dá até para imaginá-la retrucando o jornalista do jornal inglês que estranhou o desejo dela de morrer: “Não interessa se é estranho, se é errado… Eu sou assim”. Tão artificial e óbvia que queria ter morrido aos 27 anos, assim como seus ídolos. Ainda faltam alguns dias para a moça fazer seus 28, mas é improvável que ela queira, realmente, bater suas botinhas de grife. O que vem de uma pessoa artificial (em todos os aspectos) não pode ser levado muito a sério – aliás, bem como este álbum em questão. É o melhor trabalho de Lana? Sim… O que, no fim das contas, não quer dizer muita coisa.

NOTA: 5,5

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2 opiniões sobre “2014: Ultraviolence – Lana Del Rey”

  1. ”Tão artificial e óbvia que queria ter morrido aos 27 anos, assim como seus ídolos.”

    E é por isso que você nunca será um crítico profissional, aclamado ou relevante, continue tentando.

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