2014: Nação Zumbi – Nação Zumbi

Nação Zumbi

Por: Renan Pereira

Nesse ano de 2014, fazem duas décadas que a banda Nação Zumbi, sob a liderança do visionário Chico Science, estremeceu os alicerces da música brasileira através do clássico álbum “Da Lama ao Caos”. E é bom perceber que, em vinte anos, a banda soube se reinventar e tocar a frente mesmo com a morte de Chico, ocorrida em 1997. Desde o disco “CSNZ”, lançado um ano após o trágico ocorrido, o que mais marcou conceitualmente a banda pernambucana foi a vontade de se superar, de crescer, de aprender através das feridas o que é ser um grupo completo e experiente.

Aos poucos, a lama e os caranguejos foram dando lugar a temas mais complexos, a intensidade dos elementos de percussão foi diminuindo, e a sonoridade envolvente passou a navegar para além dos mangues de Recife. Se “Da Lama ao Caos”, bem como o igualmente clássico “Afrociberdelia”, apontavam para uma direção musical totalmente nova, misturando a música regional de Pernambuco com o funk e diversas vertentes do rock, a Nação Zumbi, em sua nova fase, busca uma maior comunicação com os ouvintes de massa, trabalhando para que nossos ouvidos não sejam pegos com grandes surpresas.

Então aquele teor irrequieto dos primeiros trabalhos não existe mais? É possível dizer que, enquanto o som tornou-se mais polido, as letras conseguiram alcançar novas facetas, distantes da crítica social pregada pela mente insana do antigo líder. O que é totalmente compreensível: se, em seu início, a Nação Zumbi lutava pelo seu lugar ao sol, tentando dar uma nova cara à imutável cena nacional, agora a banda pode se gabar de seu espaço inquestionável. Tudo mudou, e muito… Obviamente, a proposta sonora da banda também deveria se transformar. Se você não quer viver tal mudança, é melhor ir atrás de passagens que te levem de volta para os anos noventa.

É claro que a percussão enlouquecedora faz falta, bem como o olhar crítico de Chico Science. A criatividade que entorna hoje em dia o som do conjunto não é nem sombra daquela de vinte anos atrás, e nas novas canções podem ser encontrados números tranquilos e/ou até mesmo românticos… E qual é o mal disso? Os integrantes do grupo andaram nos últimos tempos envolvidos em outros projetos, coletando novas referências, e o retorno da Nação Zumbi ao estúdio demorou tanto que teve até quem duvidou que ocorreria. Os tempos passam, as opiniões mudam, o passado fica para trás e o que nos resta é seguir em frente. Por mais que as marcas fiquem, o novo deve ser abraçado, como informa metaforicamente a primeira faixa do novo disco, “Cicatriz”.

A guitarra de Lúcio Maia insere a tensão necessária para a temática da segunda faixa, “Bala Perdida”, mas a produção e os versos não ajudam… A percussão pesada não cai bem na lentidão rítmica, e uma nova metaforização acaba soando como uma sobra conceitual d’O Rappa. “O Que Te Faz Rir” é um número curioso, ameno, mas que funciona com primor, ainda que a “testosterona” tradicionalmente imposta pelo vocal de Jorge Du Peixe se faça presente. Em suma, a Nação Zumbi não precisa abandonar sua personalidade para embarcar no trabalho mais sentimental de sua carreira.

A quarta, “Defeito Perfeito”, é uma boa demonstração da excelência da Nação Zumbi em criar seções rítmicas fantásticas, com grooves excitantes: em suma, uma música que agradará os ouvintes mais sedentos por inquietação sonora. Contando com a participação de Marisa Monte nos backing vocals, “A Melhor Hora da Praia” é aquele tipo de canção que, anos atrás, você jamais imaginaria a Nação Zumbi fazendo… Interessante como a evolução sentimental dos versos é capaz de levar a sonoridade a novos cenários, muito mais próximos da MPB do que propriamente ao manguebeat. Sobra até uma leve orquestração na quinta faixa, uma canção que poderia muito bem tocar nas rádios país afora… Assim como a balada “Um Sonho”, que apesar de pouco agregar, mostra uma Nação Zumbi que até então ignorávamos.

A sétima, “Novas Auroras”, parece condensar todo esse sentimento de abertura sonora pregada pelo disco… Afinal, ainda que nos álbuns sem Chico Science (e, principalmente, no clássico “Fome de Tudo”, de 2007), a banda já mostrava a clara intenção de ser um novo grupo, com uma nova toada, nunca esse conceito havia sido tão explorado quanto no presente registro. “Nunca Te Vi” pode ser uma prova de como, cuidadosamente, os marcantes arranjos de percussão da banda podem ser bem alocados dentro dessa sonoridade mais cadenciada e sentimental.

Tudo vai indo relativamente muito bem, mas… É obvio que algo está faltando. Surpreende que, logo em um momento de agitação social inédito para as novas gerações, a Nação Zumbi tenha abandonado o seu lado mais crítico. Não seria esse o momento ideal para o grupo apresentar, mais uma vez, seu olhar ácido sobre os acontecimentos que afligem a população? Talvez Du Peixe e seus companheiros estejam ainda dentro daquela inércia política que abatia o Brasil antes de junho de 2013 – até porque o processo de construção do novo disco havia se iniciado antes dos protestos que se espalharam pelo país. Um erro? Talvez esteja mais para um “menor acerto”.

Para não espantar seus ouvintes das antigas, a última trinca de faixas de “Nação Zumbi”, o disco, massageia os ouvidos daqueles que estavam ansiosos por canções pesadas, tomadas pelas antigas influências do conjunto. Riifs velozes, batidas furiosas e todo aquele sentimento inovador que permeava os primeiros registros do grupo dão o ar da graça em “Foi de Amor”, “Cuidado” e “Pegando Fogo” – mas a lírica, em contrapartida, está totalmente inserida nos conceitos atuais. Em suma, o desfecho do álbum marca o encontro da nova com a antiga Nação Zumbi.

Apesar de se comportar como um ponto de menor destaque dentro da discografia dos pernambucanos, “Nação Zumbi” se comporta como um necessário álbum de aprendizado. A banda não poderia passar toda a sua carreira cantando a lama dos manguezais do Recife, não é verdade? Além de passar por um momento de reflexão sonora, a Nação Zumbi nos convida a pensar sobre a importância das mudanças estéticas para o futuro de uma das mais importantes bandas do país. Assim, mesmo passando longe dos maiores êxitos do manguebeat, o presente registro contém, sem dúvida nenhuma, um válido resultado artístico.

NOTA: 7,0

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