2014: To Be Kind – Swans

To Be Kind

Por: Renan Pereira

Artistas de verdade não morrem. Músicos que ao atingir os 60 anos simplesmente sentam sobre suas glórias passadas e negam o poder inovador que a música contém não estão compromissados com a arte como um todo – e, se em algum dia estiveram, a preguiça espontânea faz com que esse dia esteja distante do nosso presente. Não apenas no Brasil, mas no mundo todo, existem inúmeros casos de músicos consagrados que, ao atingir uma idade avançada, ignoram toda a sabedoria adquirida com tantos anos de estrada em nome de uma filosofia chata, oportunista e degradante: deitam em seus berços esplêndidos e lá permanecem, bajulados pela imprensa e pelo público por uma obra importante, é verdade, mas que ficou no passado e não será repetida. Ainda que possam, músicos que morreram para a arte não querem ter uma sobrevida: “Já estou consagrado, sou um grande dinossauro, me chamam até de rei. Por que vou tirar a minha bunda gorda dessa cadeira tão confortável se não existe essa necessidade?”, pensam os gênios mortos.

Michael Gira poderia ser mais um desses casos. Músico consagrado há muito tempo, líder de uma das bandas mais influentes do rock alternativo, o musicista atinge sua sexta década de vida detendo uma glória passada que ninguém negará. Já fez muito pela música, inovou sem precedentes, criou ambientes sonoros que serão aclamados por décadas… E qual é o valor, afinal, disso tudo? Um prêmio de loteria, para quem vive o passado. Para Michael Gira, é um patrimônio a ser destruído.

Não por acaso, “To Be Kind” mostra um compositor inquieto, que não se contenta em ter troféus empoeirados na estante. Mais do que isso, o décimo-terceiro disco de estúdio do Swans é um combate contra o marasmo do passado, desconstruindo tudo o que já havia sido feito a fim de manter intacta uma excelência experimental. Raivoso e extremamente energético, o registro não precisa de um chão para pisar: derruba estruturas, quebra conceitos e se atira em um universo paralelo, distante desse nosso mundo guiado pela arrogância e pela preguiça intelectual.

Assim, o trabalho é guiado por épicos socos no estômago. Apenas uma das faixas tem menos do que sete minutos de duração, em um exercício claro da banda de transformar cada música em um turbilhão sonoro que não nega ao ouvinte as ideias mais sinceras e insanas de Michael Gira. A primeira faixa, “Screen Shot”, já aloca o ouvinte na obscuridade característica do Swans, pintando a todo instante uma atmosfera combativa e misteriosa: a voz intrigante de Michael Gira vai funcionando como o delinear rítmico e conceitual da canção, e envolto por uma instrumentação de cunho minimalista, o musicista brada um cenário sem mortes, sem dores, sem perdas, sem medos, sem sonhos, sem palavras… É arrebatador acompanhar o carrancudo vocalista a bradar a necessidade urgente do amor na apoteose da canção, em meio a um turbilhão de ruídos.

Tão obscura quanto a primeira faixa, “Just a Little Boy (for Chester Burnett)” insere o ouvinte em um ambiente desolador, em que a desconstrução é pautada no canto triste (e insano) de Gira sobre as armaduras nas quais nos envolvemos para que possamos nos sentir seguros; a força instrumental da canção provém da união dos ruídos sempre presentes na base sonora da banda com uma construção rítmica impecável, com grande destaque à monumental performance do baterista Thor Harris – que se mostra, por sua vez, fundamental para a criação da atmosfera caótica que as inexplicáveis ideias de Michael Gira exigem. Mais um vez, no desfecho, o amor é clamado em desespero.

A terceira, “A Little God in My Hands”, foi a primeira música do disco apresentada ao público, ainda no mês de março. Com uma proposta curiosa para iniciar a canção, com uma estrutura grooveada e quente (característica da música funk norte-americana), a banda vai jogando para o ouvinte, aos poucos, um número que só poderia ser seu: uma base caótica, compromissada quanto à inovação e sem compromissos com rótulos, vai construindo uma verdadeira muralha sonora, em que a tensão e o recorrente teor obscuro voltam a se comportar como um grande destaque. Sobra espaço ainda para um coro de mulheres repetir, de modo fantasmagórico, a linha “summon my soul so part” enquanto Gira derrama seu vocal arrastado em uma estranha poesia.

A quarta faixa não poderia ser mais brilhante: a dobradinha de “Bring the Sun” e “Toussaint L’Ouverture” entrega ao público mais de meia-hora (isso mesmo, 34 minutos) de pura insanidade, arquitetando muito provavelmente o número que monta as nuances sonoras mais ousadas de toda a carreira do Swans… E olha que relacionar a banda com ousadia não passa de uma grande redundância. Peso, técnica, loucura, terror, emoções tortas e androgenismo se reúnem em uma sequência épica capaz de arrepiar os pelos até do mais calejado dos ouvintes: uma faixa que poderia valer por um disco inteiro.

Depois de tanto barulho, seria “Some Things We Do” uma faixa mais tranquila? Sim se levarmos em consideração sua introspecção, e não se pensarmos que o íntimo é, na verdade, do insano Michael Gira: até quando ele está disposto a refletir, suas ideias soam macabras… Se bem que o acompanhamento assombroso de guitarras ajuda um bocado para criar todo esse clima misterioso. Mais um ponto positivo para o competente grupo que acompanha o compositor, que, neste disco, ainda ganha a companhia de gente como John Congleton, Bill Rieflin e Annie Clark (St. Vincent).

Se uma hora de porradas sonoras não bastasse, em “She Loves Us” se inicia a segunda parte do trabalho. São mais 17 minutos de muita potência e experimentalismo, demonstrando, mais uma vez, todo o brilhantismo e a “esquisitice” que englobam o Swans – o grupo que, claramente, detém o conceito sonoro mais primoroso da atualidade. Michael Gira apresenta suas ideias, e só um conjunto com tantas qualidades individuais poderia dar vida a pensamentos tão malucos… Realmente, o Swans é uma banda de instrumentistas fantásticos às ordens de um ser único, uma mente insana que pauta seu trabalho sempre em vias de inovação.

Mistério, melancolia e o auxílio de vozes femininas voltam a dar as caras em “Kirsten Supine”, uma canção dez minutos de andamento lento, que acentua a morbidez presente nos atuais ideais sonoros do Swans. A seguinte, “Oxygen”, é (acredite se quiser) o ápice energético do disco: composta por Michael Gira logo após uma grave crise de asma, essa incrível canção “revela” a importância de estar respirando, de poder sentir seu coração batendo… É raro pararmos para pensar na importância disso, mas os gritos do vocalista a clamar por oxigênio fazem com que a gente imagine a angústia de uma pessoa que está com dificuldades de respirar.

A penúltima, “Nathalie Neal”, é uma canção estritamente atmosférica em sua primeira metade, mas bastam que alguns minutos passem para que o ouvinte sinta novamente a instrumentação do Swans a pulsar sem moderação… Incrível como a banda conseguiu permear arranjos tão fantásticos com um pensamento energético, sem negar a seu público as “porradas” das quais o rock necessita. Em contramão, a faixa final é um número “quase tranquilo”, e brincando com o título do trabalho, se comporta como uma macabra canção de ninar em seu início… Isso até desabrochar em ruídos, que fazem nossos ouvidos quase explodirem. Para ser gentil, Michael Gira não precisa ser delicado. Sinal de que os 60 anos do músico podem significar, mais do que uma inegável experiência, um ápice artístico. Estranho? Sim, claro… Afinal, isso é Swans, amigo!

NOTA: 9,2

Track List:

01. Screen Shot [08:04]

02. Just a Little Boy (for Chester Burnett) [12:39]

03. A Little God in My Hands [07:08]

04. Bring the Sun | Toussaint L’Ouverture [34:05]

05. Some Things We Do [05:09]

06. She Loves Us [17:00]

07. Kirsten Supine [10:32]

08. Oxygen [07:59]

09. Nathalie Neal [10:14]

10. To Be Kind [08:22]

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Uma opinião sobre “2014: To Be Kind – Swans”

  1. Estou totalmente de acordo com a opinião publicada.
    Se Deus o permitir estarei dia 04 de Outubro de 2014 no Hard-Club no Porto para os ver e ouvir ao vivo ( já comprei bilhete)

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