2014: Indie Cindy – Pixies

Indie Cindy

Por: Renan Pereira

O quinto disco dos Pixies: um lançamento que, anos atrás, parecia tão improvável quanto um novo álbum do Johnny Cash. Mas o mundo da música, felizmente, costuma pregar surpresas naqueles ouvintes que insistem em sepultar artistas que envelheceram… David Bowie sendo aclamado por um novo trabalho? Leonard Cohen produzindo um dos discos mais coesos de sua carreira? Michael Gira alcançando seu ápice artístico aos sessenta anos? Se tudo isso vem acontecendo, o ouvinte esperto jamais duvidará das capacidades de um veterano.

E quando as inúmeras décadas vividas englobam Black Francis, David Lovering e Joey Santiago? O resultado tende a ser, no mínimo, bem curioso. É estranho acompanhar os Pixies dando à luz a seu quinto trabalho vinte e três anos depois de seu antecessor, o disco “Trompe le Monde”, ainda mais sem a marcante presença de Kim Deal, que abandonou a banda para investir em sua carreira solo. Mais estranho ainda é perceber que, “Indie Cindy”, tido como um disco novo, é, na verdade, nada mais do que a compilação dos três últimos EP’s do grupo, lançados ao longo dos últimos nove meses… É como se o novo trabalho necessitasse de um tempo de gestação para nascer com forças suficientes para sobreviver. Pois, no fim das contas, “Indie Cindy” tem a capacidade de viver, mesmo que seja na incubadora, com o auxílio de aparelhos…

Podemos dizer que esses “aparelhos” tem como fonte de energia o passado glorioso que os Pixies carregam. Autores de uma das mais influentes discografias da história da música, o quarteto de Boston se elevou à glória não apenas pela altíssima qualidade de suas canções, mas devido à sua intensa e recorrente preocupação em inovar. Lá em 1987, Kim Deal experimentava seu vocal em diversos cômodos do estúdio (procurando alcançar o perfeito eco natural), enquanto Black Francis investia em todos os tipos possíveis de distorção, e Joey Santiago disparava sujeira para todos os lados… Bastam poucos fatos para que não seja nada difícil perceber porque os Pixies foram rotulados de “salvadores do rock”, em uma época em que os excessos do hard rock e do new wave ditavam os rumos da música comercial.

Já hoje, em 2014, mesmo com o seu prestígio inalterado, o grupo não consegue trazer a um novo público a mesma aura atraente de vinte e tantos anos atrás. Isso é compreensível? É claro, pois o tempo é um adversário que, no fim das contas, ninguém consegue derrotar. Eles envelheceram, estão agora em uma época totalmente diferente, e os desejos do público não são mais os mesmos. Obviamente, ninguém espera ver dinossauros do rock reinventando a roda mais de duas décadas depois de viver o seu ápice artístico, ainda mais se lavarmos em consideração um conjunto que ficou tanto tempo sem trabalhar em estúdio… Mas músicas de alta qualidade é um desejo geral que nunca deixaremos de ter – e, para nossa infelicidade, é aí que “Indie Cindy” derrapa.

Entretanto, existem algumas faixas divertidas. Se você der o play na primeira faixa, “What Goes Boom”, se sentirá de volta ao fim dos anos oitenta, com uma canção que poderia muito bem ter feito parte do set list dos velhos discos dos Pixies: um turbilhão de guitarras, uma boa melodia e um teor energético formam uma base que parece acariciar os ouvidos dos fãs das antigas. Pule para a quarta faixa e você poderá matar a saudade de Francis, Lovering e Santiago pautando seus lançamentos na busca de novos elementos, mesmo que isso possa resultar em uma estrutura sonora pra lá de estranha… A sétima, “Blue Eyed Hexe”, não chega a ser um primor, mas consegue provar que esses tiozinhos de 50 anos ainda tem energia pra colocar na fogueira.

Há, além disso, bons momentos de pura nostalgia: “Another Toe in the Ocean” parece ser uma ode ao rock do início dos anos noventa, fazendo com que o ouvinte chegue até mesmo a sentir o cheiro que envolvia aqueles anos; “Jamie Bravo”, a faixa final, tem um riff inicial fantástico, soando clássica, e fazendo-nos recordar dos momentos mais inspirados da banda… Canções que mostram que, mesmo em um mundo tão distante do oitentista, os veteranos Pixies ainda podem ser relevantes.

Então, onde estão as derrapadas? Basicamente, em todas as músicas ainda não citadas. Quando brinca com estruturas semi-acústicas, por exemplo, a banda transparece sinais de cansaço ao errar no que a grande maioria das bandas ditas “alternativas” pautam suas bases sonoras: canções inofensivas, que soam como trilha-sonora para elevadores… Esses são os casos de “Greens and Blues” e “Ring the Bell”, baladas sem-graça que poderiam ter sido compostas por um grupo chato, como o Travis, e não por uma das maiores bandas da história. Há ainda aqueles momentos em que as canções parecem não ter rumo, como é marcante na décima faixa, “Andro Queen”.

“Magdalena 318”, “Silver Snail”, “Snakes” e a faixa-título são canções que não conseguem dizer porque se fazem presentes no registro… Números pouco atraentes, monótonos e óbvios que podem fazer com que a atenção do ouvinte se disperse, e o tão esperado retorno dos Pixies acabe se tornando um fato muito aquém das expectativas.

Sim, “Indie Cindy” não é um grande álbum de retorno. Somando-se os prós e os contras, o que se vê é um trabalho banal, com poucas faixas que lembram a qualidade extrema que os Pixies alcançaram lá na virada das décadas de oitenta e noventa. Visivelmente, o disco acaba soando deslocado, tanto cronologicamente quanto conceitualmente, e deixa dúvidas quanto à qualidade dos futuros trabalhos da banda, se é que eles existirão. Mas há um porém que deve ser destacado: é óbvio que eles não desaprenderam. Muitos agora vão abandonar os Pixies, rotulando-os de artisticamente aposentados, e é aí que a surpresa pode morar: o novo registro da banda pode até ter poucas faixas atraentes, mas nestas o grupo mostra que ainda sabe como compor ótimas canções. Esperemos, portanto, um trabalho à altura dos Pixies nos próximos anos.

NOTA: 5,9

Track List:

01. What Goes Boom [03:32]

02. Greens and Blues [03:46]

03. Indie Cindy [04:41]

04. Bagboy [04:52]

05. Magdalena 318 [03:26]

06. Silver Snail [03:29]

07. Blue Eyed Hexe [03:11]

08. Ring the Bell [03:34]

09. Another Toe in the Ocean [03:46]

10. Andro Queen [03:23]

11. Snakes [03:45]

12. Jaime Bravo [04:24]

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