2014: Everyday Robots – Damon Albarn

Everyday Robots

Por: Renan Pereira

Damon Albarn sempre foi um sujeito inquieto. Depois te ter ajudado a renovar a música britânica através de sua banda Blur, um dos pilares do movimento britpop, o músico se viu à vontade para negar todas as referências de seu passado musical e embarcar em um projeto inovador, criando a primeira banda digital da história: surgia ali o Gorillaz, seu mais audacioso projeto, assim como a certeza de que o músico deixara de tomar diariamente seu chá das quatro para vivenciar novas experiências.

Os anos noventa passaram, assim como a primeira década do novo século, e Albarn se manteve não apenas relevante, mas como um dos artistas mais respeitados da música mundial. Agora, quando a metade da segunda década que vivemos se aproxima, e o músico lança o seu primeiro disco em carreira solo, a pergunta que fica é: conseguirá ele manter o seu prestígio? Ao vê-lo novamente abandonando a zona de conforto, obtemos um sinal positivo.

Afinal, em “Everyday Robots”, podemos ver Albarn rompendo mais uma vez com o seu próprio passado. Ainda que restem pequenos resquícios da sonoridade torta dos Gorillaz e do apelo pop do Blur, em seu novo trabalho, o músico procura brincar com novas texturas. Propositalmente lento e atmosférico, o disco busca em melancólicas passagens a genuína atualização musical de Albarn: bordado, desde o título, como um trabalho que procura refletir os tempos atuais, o presente registro dá ao artista uma nova identidade sonora, distante de tudo o que ele já fez.

Para encarar essa atualidade eletrônica e robótica, Albarn recrutou a ajuda do produtor Richard Russell, dono do selo XL Records, que acabou colaborando em todas as faixas do disco. Um esforço coletivo que floresce também nos encontros de Albarn com o renomado Brian Eno e com a emergente Natasha Kahn, do projeto Bat For Lashes. Sim, apesar de se caracterizar como o início de um projeto individual, “Everyday Robots” não significa que Damon Albarn desistiu de estar bem acompanhado. As pessoas inteligentes sempre recorrem a seus amigos, e com tantas amizades frutíferas, o músico não deixaria de contar com participações de tamanha qualidade em seu primeiro trabalho em viés “solitário”.

A primeira música a demonstrar o novo universo de Albarn é a faixa que dá título ao trabalho: a partir de um andamento lento, com uma estrutura tortuosa e arranjos minimalistas, o músico reflete seu olhar melancólico em uma bonita coleção de detalhes: são eles, afinal, que constroem o encanto que prende o ouvinte do início ao fim do disco. Igualmente atmosférica e contemplativa, a segunda, “Hostiles”, insere de uma vez por todas o ouvinte no conceito confessional proposto pelos versos de Albarn: um cara que ama, sofre e sobrevive, uma pessoa normal, assim como nós… E que, em sua estreia solo, deseja mostrar quem realmente ele é.

Mesmo quando canta em proximidade com temas mais do que óbvios da música pop, como nos singles “Lonely Press Play” e “Mr. Tembo”, Albarn se apresenta inteligente e maduro, fazendo da sequência de faixas do disco um grande questionamento sobre os rumos do ser humano… Será que as tecnologias estão nos tornando, aos poucos, mais robôs do que gente? É na união do sintético com o orgânico que mora não só a sonoridade do álbum, mas também a sua grande mensagem conceitual.

“Parakeet” é apenas uma introdução, uma breve trilha que abre os caminhos para “The Selfish Giant”, uma assertiva colaboração com Natasha Khan e que mostra Damon Albarn novamente à vontade para flertar com novos elementos… Um visionário nato, o músico não economiza nos novos encontros, brincando até mesmo com o jazz, enquanto os rumos eletrônicos vão pavimentando as vias sonoras do disco. A seguinte, “You and Me”, traz na participação de Brian Eno o encontro mais do que claro da música moderna, robótica e fria, com os inventos setentistas assinados pelo famoso produtor – que, de forma irônica (ou não), foi um dos precursores dessa estratégia de se amarrar os sons de forma obscura e atmosférica.

“Hollow Pounds” é uma canção que pode soar distante ao ouvinte, justamente por ser extremamente intimista, incluindo em seus versos passagens e datas importantes da vida de Albarn… praticamente um álbum de fotos que o artista agora libera ao público. É interessante, aliás, ver um músico tão famoso e experiente abrindo o seu coração agora, quando fazem mais de duas décadas que ele se apresentou ao mundo através do Blur… É como se durante vinte anos as pessoas não soubessem, de fato, que tipo de pessoa ele é: um sujeito que, partindo da urgência do Blur e do ambiente fictício dos Gorillaz, quer mais é escancarar suas mágoas em um trabalho tranquilo, e não tão fácil de digerir. É fato que “Everyday Robots” decepcionará quem esperava mais um capítulo inventivo na carreira de Albarn, pois o que fala mais alto no registro é, na verdade, a sensibilidade.

Mas o disco, apesar de muito bonito, comete o erro de chegar a sua parte final se arrastando, clamando por um respiro que, na realidade, só ocorrera na quarta faixa… Uma melancolia marcante volta a ser marca em “Seven High”, uma curta trilha construída por um piano, e na extremamente sentimental “Photographs (You Are Taking Now)”, que busca inspirações na literatura ativista através de Timothy Leary. Igualmente tristonha, a penúltima, “The History of a Cheating Heart”, flerta intensamente com a música folk, tanto que poderia muito bem ter feito parte de algum disco de Nick Drake.

“Heavy Seas of Love” fecha o disco com uma toada mais positiva, e nos responde àquela questão abordada no início deste texto: sim, Damon Albarn continua a ser um músico relevante. E como, no fim das contas, ele conseguiu isso mais uma vez? Fazendo de seu primeiro registro solo um surpreendente tratado de emoções, trazendo à tona, pela primeira vez em sua carreira, seus mais íntimos anseios. Com isso, pode ser dito, sem medo de errar, que “Everyday Robots” é o trabalho mais sincero que o músico já construiu: afinal, o disco fala justamente sobre quem realmente Albarn é… Uma pessoa comum, mas que por conseguir atravessar três décadas em evidência, merece nosso aplauso.

NOTA: 7,5

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