2014: De Lá Não Ando Só – Transmissor

De Lá Não Ando Só

Por: Renan Pereira

Se evoluir é um exercício pelo qual devemos pautar nossa existência, os mineiros do Transmissor têm muito o que ensinar. Fazendo de seu terceiro disco, “De Lá Não Ando Só”, um grande e nítido acumulado de vivências e novas experiências, a banda extrapola toda e qualquer expectativa, independente de sua extensão, para construir uma obra pautada na evolução. É como se o já maduro “Nacional”, de 2012, se comportasse apenas como um ensaio para o disco que agora temos em mãos.

Embora siga uma linha sonora explícita, “De Lá Não Ando Só” é um grande agregador de novas nuances à musicalidade do Transmissor. Ainda que a mistura do pop rock dos anos 2000 com as heranças setentistas do Clube da Esquina continue formando a base sonora do grupo, Pedro Hamdan, Daniel Debarry, Henrique Matheus, Jennifer Souza, Thiago Corrêa e Leonardo Marques encaram novos caminhos de uma velha paisagem. Todo o teor poético não está somente mantido, como se mostra melhor resolvido, encontrando na interação com uma forte base instrumental o seu maior exercício de expansão ao ouvinte. As belas melodias também se fazem presentes mais uma vez, porém acompanhadas por arranjos mais ricos em detalhes e complexidades. Não, o Transmissor não deixou de falar simples… Apenas aumentou o seu tom, que agora pode ser ouvido com maior nitidez.

Desejando não fazer do novo álbum um simples “mais do mesmo”, a banda mostra acerto ao flertar com “novos” aspectos do rock. Há um acumulado muito maior de referências em comparação aos trabalhos anteriores: se antes o grupo se mostrava satisfeito em refletir a sonoridade que fez o conjunto nascer e crescer como unidade, agora eles parecem querer superar a si próprios, absorvendo uma nova gama de texturas, características dos anos oitenta e noventa… Isso, claramente, torna a estrutura sonora mais poderosa e comunicativa.

O início do disco, porém, parece ser muito mais uma extensão do que já havia sido apresentado no álbum anterior: “Queima o Sol”, a faixa de abertura, parte dos conceitos de “Nacional” para soar agradável e classuda, um pop rock melódico com a leveza característica da música mineira. Já na segunda faixa, “Só Um”, o ouvinte é apresentado aos arranjos nitidamente evoluídos, que aumentam a comunicação das guitarras com o ouvinte… Afinal, ainda que os teclados atraiam, e as performances do baterista Pedro Hamdan se mostrem colossais, são as linhas de guitarra que dão ao trabalho o seu grande diferencial.

É claro que os vocais também formam um destaque positivo: doces, massageando nossos ouvidos, se comportam com perfeição durante todo o registro, ainda que dividido entre Jennifer, Leonardo e Thiago. É a moça que lindamente canta a terceira faixa, a simples, porém bela, “25 Horas por Dia”. “Todos Vocês” brinca com uma estrutura repleta de grooves inteligentes, mas é a primorosa letra que se destaca: “A verdade nunca foi à sua casa, pra bater à porta, pedindo pra entrar. Nesse tempo as coisas são tão diferentes, e o frio que há na gente, já pede pra ficar“. Profundo e bonito.

“Mais Quente do que Quis” é uma daquelas faixas que tem tudo para ser um grande hit, mas que, infelizmente, provavelmente será deixada de lado por nossas rádios tão preocupadas em banalidades. Tudo vai soando muito bem, não? O ápice, contudo, é atingido na bonita melancolia de “Nessas Horas”, que comprova todo o crescimento da banda: embebida em arranjos elegantes, que se comunicam com o rock progressivo, a faixa parece ser a mostra perfeita dos novos rumos sonoros do sexteto, que agora abraça texturas obscuras, de maior complexidade. A próxima, “Nada pra Te Devolver”, trata de seguir a mesma linha, com o grupo acertando em cheio no alvo mais uma vez.

“Retiro” contém flertes eletrônicos, que assentam muito bem a letra composta por versos curtos que é amparada pelo bonito vocal de Jennifer Souza. A musicista, aliás, parece encontrar um espaço maior dentro da banda com o novo disco: isso se deve ao teor democrático pelo qual o trabalho foi bordado, em que todos os membros do grupo colaboraram com quase igual importância. A nona faixa, que dá nome ao álbum, é um bom número pop que, pelo clima suave e melancólico, pode ser comparada às canções de Silva.

Na décima faixa, a banda brinca até mesmo com a aceitabilidade do público ao nomeá-la de “O que Você Quer Ouvir” – e não é que a música é, no fim das contas, justamente isso? Em “Canso a Cabeça” somos novamente apresentados a uma nova faceta do grupo, em que guitarras pesadas são o norte da canção… Uma densidade que se repete na apoteótica “Casa Branca”, que atesta o amadurecimento da banda a partir de uma ideia: consistência.

Mesmo pautando seu trabalho na linearidade sonora, em nenhum momento o Transmissor faz de “De Lá Não Ando Só” um registro capaz de enjoar o ouvinte. A toada aqui, na verdade, vai justamente no sentido contrário: as pontuais evoluções são alocadas com tanta inteligência que nos prendemos interessados do início ao fim da obra. Um grande disco, candidatíssimo a um dos melhores do ano, e o mais completo trabalho que o Transmissor já produziu. Será que alguém ainda pretende se embaraçar ao citar Skank, Pato Fu ou Jota Quest? O posto de melhor banda mineira da atualidade já tem dono… e ele é dividido, em partes iguais, entre os seis integrantes do Transmissor.

NOTA: 8,5

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Uma opinião sobre “2014: De Lá Não Ando Só – Transmissor”

  1. UUffaaa!! Foi dificil mas enfim, consegui achar esse belíssimo cd numa loja aqui de Belô…desde já um clássico disco de rock (ou MPB ) e deverá ser inserido em qualquer lista dos melhores discos nacionais deste ano de 2014.

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