2014: It’s Album Time – Todd Terje

It's Album Time

Por: Renan Pereira

É curioso observar o poder de um disco bem-sucedido, louvado tanto pela crítica quanto pelo público… No ano passado, em seu retorno ao estúdio, os franceses do Daft Punk, outrora reconhecidos pelos seus inventos dentro da música eletrônica, resolveram voltar seus olhares para o passado, buscando na disco music setentista o grande norte de suas novas referências. O resultado? O maior êxito comercial do duo, alcançando um massivo sucesso principalmente nos Estados Unidos, um terreno sempre difícil para os músicos da parte latina da Europa. Logo, não seria surpreendente ver novos nomes investindo nesse mesmo conceito: afinal, um caminho não muito difícil para o sucesso é o que muitos buscam, não é verdade?

Logo no primeiro mês de 2014, a banda americana Broken Bells fez de seu segundo álbum, “After the Disco”, o primeiro “filho” de “Random Access Memories”. Com isso, a luz amarela se acendeu: estaria aí se iniciando uma nebulosa era de máquinas do tempo, cópias mal feitas de um álbum que nunca realmente se propôs a ser um simples retorno aos anos setenta? Se o sinal de alerta havia quase cessado com a má recepção ao primogênito de “Random Access Memories”, agora, seu segundo filho, é infelizmente adorado pelos mais diversos setores da crítica. O produtor norueguês Todd Terje parece ter enganado todo mundo com maestria, e seu primeiro trabalho em estúdio, “It’s Album Time”, tem sido cultuado como um grande disco.

Afinal, o que há de tão incrível no registro? Space disco? Ora, estamos em 2014 ou em 1978? O grande fato é que há quarenta anos diversos artistas já faziam o que Todd Terje está disposto a vender como atual. As concepções ao mesmo tempo dançantes e atmosféricas, por exemplo, já faziam parte do trabalho do italiano Giorgio Moroder lá na metade dos anos setenta, apresentadas por álbuns icônicos como “Knights in White Satin” e “From Here to Eternety”. E o que dizer dos “incríveis” flertes com o krautrock? Brian Ferry, ex-vocalista do Roxy Music, que marca presença no álbum (emprestando sua voz para uma insossa regravação de “Johnny and Mary”, de Robert Palmer) poderia muito bem ter avisado a Terje que a sua antiga banda já brincava com os mesmo elementos lá no longínquo ano de 1972.

No início do disco, emanações eletrônicas retrógradas já entregam o seu conceito, enquanto o porquê de seu título é “revelado”: se trata de um álbum de música? Ah, não me diga! Tão inútil como a primeira, a segunda faixa, “Leisure Suit Preben”, soa como alguma trilha-sonora perdida de algum filme hollywoodiano dos anos setenta, dando sons àquela cena em que o mocinho dirige seu Chevrolet Impala pela Golden Gate Bridge. A seguinte, “Preben Goes to Acapulco”, é salva por sua base rítmica, que, por instantes, até deixam os efeitos empoeirados em segundo plano.

Contando as viagens de um personagem, o disco desembarca em um bar caribenho em “Svensk Sås”, regando a sequência do registro a muitos drinks tropicais. Dá até para sentir o gostinho azedo do álcool, mas mesmo com as percepções alteradas, fica difícil se sentir atraído pelas bases sonoras que Terje nos oferece. “Strandbar” até trabalha para impregnar algum conceito mais moderno, mas é logo abafada por efeitos toscos que fazem até um trabalho do Kraftwerk soar mais atual. Mesmo devendo quanto ao dinamismo, a sexta faixa, “Delorean Dynamite”, se comporta como o melhor número do álbum: basta um maior compromisso com o nosso tempo para que a música de Torje não seja tão chata.

O que dizer da sétima faixa? Impossível dizer o que embaraça mais: a participação de Brian Ferry em uma regravação tão sonolenta ou a Pitchfork a nomeando como “best new track“. Convenhamos que as famosas publicações musicais já foram melhores: o site Consequence of Sound chama “It’s Album Time” de eclético, a revista Clash brada um momento épico, e até a crítica brasileira transforma rótulos como “empoeirado” e “descompromissado” em adjetivos positivos, os dois grandes sinônimos da qualidade musical. É o mundo da música sendo envolvido pela história do rei que diz defecar ouro, e os súditos passam a louvar até mesmo o seu cocô. Todd Terje vende um produto banal, meia-dúzia de pessoas tratam o disco como algo valioso e todo mundo sai acreditando, comprando o gato que o músico vende como lebre.

“Alfonso Muskedunder” vai bem enquanto brinca com o jazz, mas basta os tecladinhos retrógrados aparecerem para que o número desande em mais uma insossa seção ensolarada. O ouvinte que ainda tiver paciência para conferir “Swing Star”, uma canção em duas partes, ouvirá pouco êxito rítmico, e um andamento que nega o dinamismo da música eletrônica. Afinal, se um álbum que se chama de “dançante” faz o ouvinte ter vontade de dormir, seus erros são muitos.

Mas esse nem é o maior dos pecados de Terje, que comete equívocos graves ao camuflar a obra de artistas do passado para vender “It’s Album Time” como um provável resultado de sua criatividade como produtor. Provas? Procure ouvir o trabalho construído por caras como Bernard Fevrer e Brian Bennett lá nos anos setenta, e você acabará vendo que a “criatividade” de Terje é, na realidade, apenas uma revisitação a nuances sonoras pra lá de antigas. Já, com as duas últimas, “Oh Joy” e “Inspector Norse”, Terje parece querer colher a inovação plantada por alemães na música eletrônica ainda nos primeiros suspiros da década de setenta. É bom alguém avisar a ele que a época da colheita já passou.

Mas pelo menos o disco é bem produzido, mostrando um trabalho que, apesar de pobre em ideias, consegue passar para os ouvintes o que é proposto: um som leve, dançante e sem inovações, uma verdadeira trilha-sonora para elevadores – ou para bibliotecas? Caso você tenha gostado do som, pesquise sobre a chamada Library Music produzida na Europa há quarenta anos, e verá que, ao invés de inovar, Todd Torje quer apenas tirar uma casquinha de uma base musical já esquecida (mas que graças à internet, ainda está disponível a todos), para receber a louvação de um público que não viveu a era de ouro da música disco ou sequer andou pesquisando sobre o gênero. “It’s Album Time” é, no fim das contas, um disco falso destinado a um público pouco informado.

NOTA: 2,5

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s