2014: Supermodel – Foster the People

Supermodel

Por: Renan Pereira

Nunca bastou a nenhum projeto musical um simples conjunto de hits para que se candidatasse a uma quase unanimidade. Até por isso, o Foster the People ainda não obtém, sequer entre o público indie, uma louvação geral: há quem adore, há quem odeie e há quem o considera apenas um projeto legal. Mas afinal de contas, o que é o Foster the People? Um segundo álbum sempre tenta preencher as prováveis lacunas da estreia, e “Supermodel” se apresenta como o meio mais plausível para que certas dúvidas sejam respondidas.

Da força de “Torches”, o primeiro disco do conjunto, ninguém duvida. É provável também que ninguém levante alguma questão sobre a inteligência musical que permeia o cerne do conjunto, visto que seu líder, Mark Foster, não é apenas um músico, mas um sujeito graduado em música. Da mesma forma, ninguém discorda que, desde os primeiros segundos do primeiro disco, já estava clara a grande capacidade da banda em brincar de forma convincente com inúmeras facetas da música pop a fim de criar hits cativantes. O que dizer, afinal, de canções tão pegajosas e empolgantes como “Pumped Up Kids” e “Call It What You Want”? “Torches” convenceu com sua salada musical regada a números grudentos, mas ainda assim não foi capaz de dizer, em plenitude, o que o Foster the People é.

Seria a banda, enfim, uma grande hitmaker? Se o primeiro disco havia flertado com esse rótulo, seu sucessor deveria trazer a concretização de uma ideia sonora. Aguardado com ansiedade, “Supermodel” chega para tentar acrescentar mais alguns êxitos comerciais na sala de troféus do conjunto, enquanto tenta provar, até mesmo com certo ar de urgência, que Mark Foster e seus pupilos continuaram evoluindo nesses três últimos anos.

Assim como havia acontecido no registro anterior, “Supermodel” trata de saciar a sede do público por canções pegajosas logo em seu início. Fazendo seu dever de casa com primor, a primeira faixa, “Are You What You Want to Be?”, se comporta como um grande hino pop, partindo de onde “Torches” havia parado para conquistar o ouvinte sem nenhum dificuldade: uma letra interessante, arranjos certeiros e rumos melódicos pra lá de potentes servem como um perfeito abre-alas para o que promete ser um grande disco. A explosão sonora continua em “Ask Yourself”, que consegue emular um conjunto de clichês da música pop em uma estrutura atraente, satisfazendo os sempre ferrenhos planos comerciais da gravadora ao mesmo tempo em que consegue demonstrar a força artística do grupo.

Mas as estruturas óbvias do pop não conseguem se distanciar do descarte na terceira, “Coming of Age”, que apesar de se comportar como um número agradável para uma audição descompromissada, mais parece um rascunho do conceito “purpurinado” do último (e pior) disco do The Killers, “Battle Born”.  Ainda bem que gratas surpresas começam a surgir em “Nevermind”, uma assertiva canção de viés tropical que, para nosso espanto, bebe na fonte da chamada “nova MPB”, e mostra que, realmente, o Foster the People não deixou de crescer nesses três anos que separam “Torches” deste presente registro.

Toda essa evolução está ainda melhor condensada na dinâmica e moderadamente experimental “Pesudologia Fantastica”, em que a banda mostra pequenas fugas do habitual em uma estrutura rica e colorida, e deixando claro que o Foster the People está, mais do que nunca, disposto a flertar com o psicodelismo. Mais provas? Na curta “The Angelic Welcome of Mr. Jones” a banda incorpora os Beach Boys de “Pet Sounds” e “Smile” para criar uma vinheta de perfeita harmonia, condizendo bem com as pretensões do conjunto de fazer um “álbum perfeito de música pop”. Embora seja guiado por esse teor megalomaníaco, “Supermodel” nunca nega a seus ouvintes melodias de fácil acesso, visto “Best Friend” com suas guitarras rítmicas óbvias, uma pulsante linha de baixo e um clima todo animado. 

Mas a partir da oitava faixa, a banda parece deixar de atender suas próprias ideias a fim de satisfazer o dinheiro gasto com a luxuosa produção do disco, deixando as decisões conceituais e os rumos sonoros nas mãos do requisitado produtor Paul Epworth. Não há como negar a presença incisiva (e até mesmo exagerada) de Epworth na duvidosa “A Beginner’s Guide to Destroying the Moon”, que se enche de ecos de um pouco genuíno rock dos anos noventa para supostamente escancarar uma “evolução”. Porém, Epworth, Mark Foster e todas as pessoas que se envolveram com a produção de “Supermodel” deveriam saber que o Foster the People não alcança seus maiores méritos tentando imitar o Radiohead.

Mais um encontro com sons noventistas marca “Goasts in Tress”, um número pop que, de tão sem-graça e sonolento, poderia muito bem fazer parte de algum álbum do Travis. “The Truth” embarca em uma estrutura eletrônica tortuosa, e apesar de seu bom refrão, não diz nada quanto às qualidades do Foster the People; alguns até dirão que é a prova de que a banda sabe brincar com aspectos modernos da música eletrônica, mas a canção se trata, basicamente, de um ensaio do produtor Paul Epworth em que os integrantes do conjunto não são nada além do que meras marionetes. O fim do disco, realmente, não condiz com seu início arrasador: a faixa derradeira, “Fire Scape”, soa tão imatura que mais parece uma demo… Algo que seria até compreensível se o disco tivesse sido bordado com pressa, mas que não pode ser aceito quando se tem a notícia de que “Supermodel” foi construído ao longo dos três últimos anos.

Mas apesar de pouco assertivas, as últimas faixas não chegam a destruir o registro. Ainda que passe longe da ideia de “um perfeito disco de música pop”, o disco cumpre o seu papel de acrescentar novos hits à carreira da banda. Isso é muito pouco? Sim, se levarmos em consideração que o Foster the People é capaz de êxitos muito maiores… Não, se pensarmos que é essa é a grande intenção de qualquer projeto de música pop. É claro que as pretensões grandiosas não são cumpridas, mas negar ao disco o grande poder de suas primeiras faixas seria como assinar um atestado de surdez.

Se as faixas iniciais são convincentes, e as finais não atraem, não seria mais plausível, portanto, o lançamento de um EP? Talvez, mas é a urgência que claramente move o conjunto. Pressionado pelo público, pela crítica e pela gravadora a acertar em todas suas apostas, o Foster the People mostra, definitivamente, que grupo ele é: um trio ainda incomodado com os holofotes, ainda não completamente amadurecido e que não consegue caminhar por um disco de grande duração sem cometer alguns equívocos. Mas, ao mesmo tempo, é uma banda que merece nossa atenção e nossa torcida, pois se há algo que não lhe falta é capacidade: afinal, acaba ficando claro que, algum dia, eles farão um trabalho de dimensões grandiosas. “Supermodel” passa longe de ser um disco perfeito, mas mas ao comprimirmos apenas seus êxitos, veremos que se trata apenas de um ensaio para algo que ainda está por vir.

NOTA: 6,0

Track List:

01. Are You What You Want to Be? [04:30]

02. Ask Yourself [04:23]

03. Coming of Age [04:40]

04. Nevermind [05:17]

05. Pseudologia Fantastica [05:31]

06. The Angelic Welcome of Mr. Jones [00:33]

07. Best Friend [04:28]

08. A Beginner’s Guide to Destroying the Moon [04:39]

09. Goats in Trees [05:09]

10. The Truth [04:29]

11. Fire Escape [04:22]

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