2014: Singles – Future Islands

Singles

Por: Renan Pereira

É com certa dose de estranheza que o grupo Future Islands, após uma década em atividade, é somente agora descoberto pelo público de massa: pois “Singles”, o quarto álbum do trio da cidade de Baltimore, Maryland, pode ser encarado de inúmeras formas, menos como um “disco de estreia”. Maduro em essência, o trabalho converte a própria essência do Future Islands em uma base musical concisa, visando amplificar as melhores qualidades do conjunto em prol da construção de seu mais convincente catálogo de canções até aqui; intitulado com acerto, “Singles” consegue ser, além de um dolorido tratado sobre corações solitários, uma união de faixas facilmente assimiladas pelos ouvintes.

Tal qualidade deve-se basicamente a um ajuste fino na forma com a qual os arranjos são construídos. Se nos trabalhos anteriores a massa sonora surgia da força imposta pelos teclados de Gerrit Welmers, os alicerces de “Singles” surgem da forma com que a guitarra e o baixo de William Cashion encontram as dramáticas performances vocais de Samuel T. Herring. Absolutamente teatral, sendo, por agora, o grande “atrativo comercial” do Future Islands, Herring utiliza suas emoções escancaradas para conquistar o público e a crítica, bebendo de influências de gigantes da música, como David Bowie e Morrisey. 

No fim, todas as nuances apresentadas pelo álbum provém da união das performances melodramáticas de Herring com a base levemente dançante que vem adornado a carreira do grupo desde “Wave Like Home”, seu trabalho de estreia, lançado em 2008. Na realidade, é muito provável que a louvação que o disco tem recebido não existisse sem os vocais altamente emotivos: os versos são simplórios, muitas vezes até mesmo “bregas”, e só mesmo uma carga dramática tão atraente faz com que pensemos que há muito mais significado além dos clichês. Herring canta “baby don’t hurt me no more” e outras obviedades do tipo de uma forma tão autêntica, tão sincera, que tudo passa a ser inédito a nossos ouvidos.

O início do álbum, com a poderosa “Seasons (Waiting On You)”, já dá provas para o ouvinte que, apesar de seu conceito sisudo, “Singles” contém números dançantes em potencial: do baixo pulsante aos teclados que incluem bonitos detalhes à estrutura sonora, tudo parece trabalhar para criar a base perfeita para que Herring faça suas agonias dançarem em uma explosão pop. William Cashion e suas competentes linhas de baixo e os efeitos eletrônicos coloridos de Gerrit Welmers voltam a se destacar na dinâmica “Spirit”, mas é Herring mais uma vez que encanta o ouvinte: profundas, suas performances inserem na música pop um significado que não vinha sendo visto há muito tempo. Esquivando-se das superficialidades e das bizarrices vem adornando o universo pop nos últimos anos, Herring se apresenta absurdamente apaixonado e sincero, abrindo sua alma sem pensar em grana ou fama, e sim visando somente atingir, de alguma forma, os ouvintes que algum dia se depararem com sua música.

Na terceira faixa, “Sun in the Morning”, uma doce melodia se destaca em um intenso flerte com o passado; porém, é interessante como o grupo utiliza as heranças oitentistas do synthpop como um ponto de partida, e não como um norte a ser seguido… Afinal, se é do passado que é feito o futuro, o Future Islands sabe aproveitar de forma primorosa esse conceito. A seguinte, “Doves”, mostra que, sabendo onde pisar, o trio não precisa necessariamente se aventurar para fazer boas canções. Ainda que em alguns momentos haja um maior compromisso com o introspectivo, como em “Back in the Tall Grass” e suas interações com as origens europeias da dance music, tudo parece ser cuidadosamente bordado com a finalidade de atingir não apenas nossos ouvidos, mas também nossas emoções: afinal, com tantas aflições, Herring precisa de vários ombros amigos para poder chorar.

Nostálgica, “A Song for Our Grandfathers” carrega o ouvinte a uma proposta ainda mais melancólica, e aposta alto na climatização para que seus objetivos sejam alcançados. É a mesma melancolia, porém, que afasta a seguinte, “Light House”, de todos os méritos: é como se a banda sentisse certo conforto com o fundo do poço, e todas essas emoções que durante o restante do disco são encaradas com combatividade, servissem apenas para contemplar um momento máximo de desânimo. Algo não combina nem um pouquinho com a verve pulsante do Future Islands, que felizmente se redime na boa “Like the Moon”, em que Sam Herring volta a se apresentar como um grande destaque ao fluir seus sentimentos de forma assertiva.

“Fall From Grace” bebe do David Bowie do início dos anos oitenta, encontrando na base estilística do disco “Scary Monsters (and Super Creeps)” o sustento para uma das melhores canções do disco – um número que até se propõe a se aventurar com alguns riffs de guitarra surpreendentemente ruidosos. A faixa final, “A Dream of You and Me”, certifica a união do álbum com o público ao traçar um rumo de fácil audição, soando como um pop-rock retrô que parece salientar o ritmo agradável e as bonitas melodias que “Singles” nos reserva.

De certa forma, mesmo que involuntariamente, o Future Islands acaba plantando nos ouvintes um curioso sentimento: mesmo que você não veja com muitos bons olhos a proposta sonora da banda, passará a torcer pelo sucesso dela. Com isso, “Singles” é um daqueles discos que, mesmo não se fazendo presente na lista dos melhores, é capaz de cativar o ouvinte através da grande sinceridade com a qual o grupo encara a sua música: acreditando no que faz, sendo fiel a seus próprios valores, sem pensar em esconder os sentimentos que o guia. Um trabalho genuíno, competente, e se não elevará o Future Islands ao mainstream, parece ser, pelo menos, o ensaio de popularização que todas as bandas sinceras merecem.

NOTA: 7,2

Track List:

01. Seasons (Waiting for You) [03:46]

02. Spirit [04:22]

03. Sun in the Morning [03:48]

04. Doves [03:28]

05. Back in the Tall Grass [04:15]

06. A Song For Our Grandfathers [04:55]

07. Light House [04:47]

08. Like the Moon [04:40]

09. Fall From Grace [04:15]

10. A Dream of You and Me [03:49]

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