2014: Vista Pro Mar – Silva

Vista Pro Mar

Por: Renan Pereira

Embora venha sendo encarado, pela maioria da crítica especializada, como um “álbum de crescimento”, “Vista Pro Mar”, o segundo disco do capixaba Silva, deve ser encarado através de outra ótica. Até porque são muitas as diferenças entre o presente registro e  o álbum de estreia do músico, “Claridão”. Que Silva cresceu, evoluiu, isso é mais do que óbvio – e é, na verdade, um processo totalmente natural para um jovem que, logo em seu primeiro disco, foi rotulado como um dos grandes nomes da nova safra de artistas brasileiros. Seu público aumentou muito, e de um desconhecido promissor, ele acabou se tornando o grande queridinho dos hipsters: se faltava algo para atestar o crescimento de sua popularidade, a participação do músico na última edição do festival Lollapalooza serviu para mostrar que, hoje em dia, Lúcio Silva Souza é um nome respeitado dentro do cenário pop tupiniquim.

As mudanças, porém, não se concentram apenas na forma com que o público (e até mesmo a crítica) olha para Silva. Enquanto “Claridão” se comportava como uma grande novidade dentro da música brasileira, trazendo para nossas paisagens um estilo de música pop que há um bom tempo já estava sendo feita no exterior, “Vista Pro Mar” é um ponto de continuação. Tentando se desfazer do precipitado rótulo de “experimental” que recebera em seu primeiro trabalho, Silva agora parece querer brincar com as maiores tradições da música destinada às massas sem que o ouvinte possa ser pego de surpresa. Em suma, não há desafios. O que anos atrás era inédito e pulsante agora é convertido em cenários bucólicos, em paisagens sonoras que são bordadas voltando-se à contemplação.

O título do álbum já entrega sobre qual atmosfera Silva está investindo: um registro veranil, “Vista Pro Mar” é resultado de um sereno olhar para o oceano, trazendo à tona todos os sentimentos que a brisa litorânea é capaz de amplificar. Em meio às batidas das ondas e ao som das gaivotas, o músico divaga sobre o amor com a mesma sinceridade que, em 2012, ele parecia musicar aquele ano em que muita gente jurava que o mundo acabaria.

Portanto, se você deseja embarcar em “Vista Pro Mar”, se prepare para encarar em um trabalho confortante, de fácil audição, e que certamente te fará relaxar. Entre batidas modernas e uma melodia cantarolável surge a primeira faixa, iniciando os trabalhos de maneira competente: bastam os primeiros segundos para sentir o clima que embalará todo o registro. Silva é um ótimo cantor e, principalmente, um exímio produtor, manejando os sintetizadores de maneira inteligente, sabendo prender a atenção do ouvinte. Há quem reclame de suas letras simples – e em “Vista Pro Mar” elas estão, de fato, ainda mais simples. Mas quem disse que o simples não pode ser sofisticado? A poesia de Silva pode até não ser tão rebuscada, mas funciona perfeitamente como uma “acompanhante” para seus atraentes rumos sonoros.

Conhecendo a atmosfera do trabalho, o ouvinte se encontra pronto para percorrer um registro marcado por uma sonoridade tranquila, de fácil audição até para quem está musicalmente desatualizado. Não é surpreendente que haja, dessa forma, um constante sentimento de nostalgia: Silva faz uso de referências não tão novas para construir um som que é, inegavelmente novo. “Atual” é um adjetivo correto, mesmo quando canções como “É Preciso Dizer” se embebedam de referências oitentistas. Um single de potencial, a segunda faixa trabalha como uma boa canalizadora de emoções para a dança leve de “Janeiro” e seu positivismo harmônico.

Em um trabalho tão bonito, construído para ser uma adorável audição em um clima litorâneo, não poderia faltar aquele sentimento único de observar o mar durante o pôr-do-sol do último dia de férias: mais do que um tratado sobre a saudade de um momento que ainda não acabou, “Entardecer” dá ênfase à bela contemplação que foi presenciada. Com a companhia da doce voz de Fernanda Takai, Silva faz da quinta faixa, “Okinawa”, a canção mais linear do disco: uma simples música de amor, com palavras simplórias, mas que funciona com primor – principalmente devido ao casamento perfeito entre as vozes dos cantores.

É importante dizer que um dos maiores êxitos do disco está na forma com que Silva utiliza seu recolhimento como um bem público, fazendo de seus mais íntimos momentos matérias-primas de um catálogo de canções oferecidas aos ouvintes; mesmo se isolando em uma praia, o músico sabe como nos atingir. Vide a canção “Disco Novo”, com uma analogia que mostra como geralmente a pressão por um novo lançamento atinge os iniciantes que se dão bem em seu álbum de estreia… Se Silva estava sendo “pressionado” para lançar algo ao nível de “Claridão”, ele encontra na naturalidade o ponto a ser explorado: “Vamos, vem ouvir”, ele convida, encarando um novo disco como uma abertura para novos sentimentos. Todo esse teor de novidade, porém, acaba encontrando maior significado em “Universo”, quiçá a melhor faixa do álbum: um número altamente dinâmico, rico em detalhes, que nos dá a certeza sobre a evolução de Silva como produtor.

Outro turbilhão sonoro abraça o ouvinte em “Volta”, com mais uma certificação da habilidade do músico nos sintetizadores, perfazendo mais uma canção levemente dançante… Conceito que é abandonado brevemente quando surge a nona faixa, “Ainda”, composta por arranjos acústicos, e ambientada na máxima introspecção do disco – que, de certa forma, se comporta como um ponto fora da curva. Mas o respiro dura pouco, e em “Capuba”, a “eletrônica praieira” de “Vista Pro Mar” retorna com tudo, em mais uma ótima concepção de arranjos.

Interessante perceber que, embora seja mantido sempre na mesma temática, nas mesmas ambientações, “Vista Pro Mar” chega ao seu desfecho, com a canção “Maré”, sem enjoar o ouvinte. Na verdade, não seria de nada ruim se houvesse ainda mais duas faixas a explorar o conceito central: prova de que as fichas apostadas por Silva deram um bom resultado. Mesmo construindo um disco que não instiga, não surpreende, o músico parece ter acertado em todas as suas escolhas, querendo deixar claro que nem só de inventos pode viver um grande trabalho.

Até por isso, o presente registro não se comporta como um clássico – algo que “Claridão” só é devido ao contexto da época em que fora lançado. Mas Silva não quis fazer de “Vista Pro Mar” um grande clássico da música. Segundo o próprio, este disco foi criado em um momento diferente, sob circunstâncias distintas e, obviamente, com outras intenções. Portanto, para entender o álbum, é necessário vê-lo como um inofensivo produto da nova música pop brasileira, um álbum tranquilo que oferece ao público, a todo instante, melodias cativantes e palavras bonitas, diminuindo as pretensões a fim de alcançar uma fácil afinidade com o ouvinte. Se você esperava que Silva fosse te surpreender, acabará abismado justamente por ele não ter surpreendido.

Sim, o caminho tomado pelo músico é reto, límpido, fácil de seguir. Aí vem a pergunta: um grande artista precisa se arriscar? Nem sempre. O público de massa prefere músicas que possam ser facilmente digeridas, e quem pensa que a complexidade é um ponto-chave para construir um grande trabalho deve começar a aprender o que é a música pop. Para nossa sorte, disso Silva parece saber muito bem.

NOTA: 8,3

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