Entrevista: Radiolaria

Por: Renan Pereira

Minas Gerais sempre teve um estoque interminável de talentos da música brasileira. Seja com a poesia setentista do Clube da Esquina, com o rock rural de Beto Guedes, com os ensaios progressivos do 14 Bis, ou com a explosão pop-rock dos anos noventa e o surgimento de bandas como Skank e Pato Fu, o estado do pão-de-queijo também se tornou casa de uma reconhecida música de qualidade. Atualmente, ao lado de outros projetos (como o grupo Transmissor), a banda Radiolaria se mostra como uma genuína herdeira de todo esse passado de glória, fazendo com a música que ecoa de Minas (ou da capital Belo Horizonte, mais precisamente) continue relevante frente ao cenário alternativo nacional.

Surgida no fim da década passada, a banda Radiolaria se propõe a encontrar em suas canções, sem muito alarde, o meio-termo perfeito entre o popular e o experimental. Ainda que a tarefa seja árdua, e demonstre até mesmo pretensões que poderiam ser perigosas para um grupo estreante, tudo parece acontecer com naturalidade. Seu primeiro disco, o competente e linear “Vermelho”, dá as provas necessárias para fazer do conjunto um dos projetos mais promissores da nova geração.

Entrevistamos a banda para que pudéssemos conhecê-la melhor, além de suas músicas: pois em adição às bases sonoras, sempre sentimos vontade em conhecer as ideias e as direções artísticas adotadas pelos artistas. Segue, com isso, a nossa nova entrevista, cujas respostas foram discutidas por todos os integrantes da banda e redigidas por Felipe Barros.

radiolaria

Quando a Radiolaria surgiu, e quando o projeto começou a ser levado à sério, de forma profissional?

A banda, já sob a alcunha de Radiolaria (uma vez que já tínhamos outros projetos antes, com outros nomes, e que de certa forma funcionou como embrião da Radiolaria), passou a existir “formalmente” a partir do ano de 2009, logo após termos lançado uma demo com cinco músicas (em 2008). Este talvez tenha sido o ponto de partida referente ao processo de composição, quando percebemos que era o que queríamos fazer musicalmente; compor e criar coisas novas. Neste momento, a banda passou a existir de forma mais séria e consciente, com uma proposta mais definida e um pouco mais madura, ainda que as composições do primeiro disco tenham nascido de uma forma despretensiosa e quase natural, frutos de um processo de amadurecimento e aprendizado musicais de cada um dos integrantes, especialmente dos compositores que passaram a se aventurar com mais frequência na criação de canções. Do ponto de vista da profissionalização, acho que ela veio a reboque desta fase de amadurecimento que mencionei, quase que como uma consequência natural do processo criativo, e da necessidade que sentimos de levar esses resultados ao público.

Quais são os artistas que mais inspiram o grupo?

É difícil determinar aqueles artistas que mais nos inspiraram, tanto conjunta quanto individualmente, apesar de ser possível falar sobre bandas que nos acompanham desde o início do projeto. A banda começou como uma banda de Rock, com repertório que englobava coisas do movimento sessentista britânico, como Beatles, Cream, The Who e Stones, além de coisas nacionais, como Mutantes, Secos e Molhados e Clube da Esquina.

Creio, porém, que como compositores e músicos, nosso trabalho beba em fontes bem mais diversas. Eu (Felipe Barros) e o Felipe Xavier começamos na música lírica ainda muito novos, cantando em corais, e aos poucos, com o passar do tempo, fomos conhecendo mais profundamente o rock e outros estilos, como mpb, samba, pop, música caribenha, música latina, etc. De modo que tudo isso permeia nosso universo musical, que inclusive está sempre em expansão com o contato com coisas novas.

Momento pergunta mais do que óbvia: qual seria aquele disco que a banda levaria para uma ilha deserta?

Não consideramos a pergunta óbvia não, porque se assim fosse teria uma resposta também óbvia, ou fácil (risos).

Na verdade é um exercício muito difícil esse de pegar cinco músicos e fazer com que elejam conjuntamente um disco pra que sirva de símbolo de uma grande influência numa situação hipotética como essa da ilha deserta. Creio que não conseguiríamos eleger um único disco, já que como já mencionamos, nossa caminhada musical bebeu e bebe em muitas fontes, sendo que os ídolos e seus trabalhos (discos) são muitos.

Pra não gerar confusão neste sentido, creio que ninguém iria se opor ao fato de que levaríamos o nosso “Vermelho”, ainda que de lá sentíssemos falta do “Buena Vista Social Club”, do “Revolver” (Beatles), do “Acabou Chorare” (Novos Baianos),  do “Jardim Elétrico” (Os Mutantes), do  “Medle” (Pink Floyd), do “Chega de Saudade” (João Gilberto), e de tantos outros (risos).

Sobre o processo de composição da banda, como que ele ocorre? Vocês sentam e falam “vamos compor” ou deixam as coisas simplesmente acontecerem?

As músicas têm surgido de forma variada e aleatória, quase que despretensiosamente. Na maioria das vezes, começamos pela harmonia no violão, em seguida vem uma melodia de voz, consequentemente outros elementos surgem, e com isso a letra. Temos canções que foram feitas individualmente, bem como canções em conjunto. Às vezes traz um estribilho, um riff, outro vem com um rascunho, uma poesia, ou até palavras soltas, e num segundo momento tudo isso é montado e arranjado. Outros parceiros não integrantes da banda também contribuíram com algumas letras.

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Os anos noventa parecem ter sido bem mais receptivos a bandas mineiras, pelo menos no que tange ao sucesso comercial… Mas é claro que a situação do mercado fonográfico atualmente está extrema, tanto que muitas vezes nem as próprias gravadoras sabem qual caminho tomar. Qual é a análise que vocês podem fazer dessa situação, atendo-se ao cenário mineiro?

De fato, o mercado fonográfico sofreu enorme impacto com a questão do compartilhamento de músicas, surgimento do mp3, smartphones, etc, e concordo que o mercado, e mesmo seus mais diversos agentes, inclusive bandas, não sabem bem o caminho que tudo isso irá tomar. Mudança e inovação parecem ser as palavras de ordem e fazer previsões nesse cenário é bastante difícil.

Do ponto de vista do mercado mineiro podemos observar que a despeito da ausência de um sucesso comercial que pudesse gerar dividendos maiores aos artistas locais, e notoriedade nacional, tal qual aconteceu com Skank, Jota Quest, Pato Fu, na década de noventa, a galera da nova geração não deixa de se engajar na criação de projetos, de novas bandas, músicas, festivais, enfim, na proposição de uma ”nova” música mineira, que bebe nas fontes antigas, mas que propõe novos caminhos e tenta criar sua identidade.

Claro que a ausência de um aporte das gravadoras, especialmente no sentido de financiar a distribuição maciça dos trabalhos, além de remunerar os músicos como acontecia nos contratos de outrora, tudo isso dificulta a vida de quem procura viver de seu trabalho musical autoral. Não é nada fácil, mas acaba servindo como um divisor de águas entre aqueles que mesmo assim lutam por uma criação artística autêntica, e aqueles que pensam na grana antes de pensar na música. Não quero dizer que não se deva correr atrás do dinheiro, pois sem ele você não se sustenta enquanto artista, e provavelmente teria de largar tudo e partir pra outras profissões. Mas é interessante ver que aqueles que estão na luta pela construção de uma carreira, de uma identidade e de um espaço, estão com seu foco maior na música mesmo.

Além disso, hoje contamos com outros meios de financiamento da arte e da música no Brasil, como as leis de incentivo, assim como os financiamentos coletivos de projetos, de modo que a turma dá um jeito de se virar pra não deixar de produzir.

Vocês são a favor do financiamento coletivo para a produção de discos? Hoje em dia, até bandas experientes e conhecidas estão apelando para essa plataforma, como foi o caso recente dos Raimundos, por exemplo…

O financiamento coletivo é um meio que achamos válido pra angariar os fundos necessários aos processos envolvidos na criação musical. Muitas vezes pessoas que curtem o trabalho de um artista independente podem ajudar com uma grana e fazer com que aquele trabalho seja possível, cresça e siga adiante.

Mas creio que no universo independente possa acontecer um esgotamento da via de financiamentos coletivos para artistas que não consigam ampliar seu leque de fãs ao divulgar satisfatoriamente seu trabalho. Imagine seus vizinhos e colegas de faculdade tentando bancar todo o seu trabalho. Seria complicado. Portanto acho que quem se socorre do financiamento coletivo, que é extremamente válido, tem também que ver ele como um instrumento de financiamento da produção, mas se preocupando sempre em utilizar aquilo que foi produzido de forma inteligente e planejada, a fim de disseminar seu trabalho; o que no caso das bandas independentes pode ser feito majoritariamente pela internet.

Em um texto presente no site da banda, a seguinte citação chama a atenção: “as canções se equilibram, sem alarde, entre o popular e o experimental”. Creio que essa seja a grande chave para tornar um trabalho artisticamente válido e, ao mesmo tempo, atrativo ao público. Esse meio termo não é muito fácil de ser encontrado, não é verdade? Às vezes, as coisas se desequilibram sem mesmo que você perceba…

De fato é um ponto muito sensível este do equilíbrio popular/experimental. Não creio que tenhamos tido isso como norte no momento da criação das musicas, ou mesmo da produção do disco. Na verdade, acho que quando isso surge, esse equilíbrio, é fruto daquilo que já mencionamos, ou seja, do fato de termos fontes de inspiração muito vastas, que têm muito do popular, assim como do experimental. Creio que seja mais por aí do que por uma busca consciente de fazer algo assim. Não quero dizer com isso que não haja um direcionamento de estética na produção do disco, ou que eventualmente um dos compositores se proponha a fazer uma música mais pop ou mais experimental. Acho que tudo isso aconteceu no disco, mas de uma forma mais natural, sem uma busca rígida por esse equilíbrio.

Falando sobre o disco “Vermelho”: a perceptível linearidade das faixas foi algo pensado desde o início, ou que acabou surgindo naturalmente?

Essa linearidade estética, e de sonoridades, foi muito fruto do processo de produção mesmo, quando já em estúdio, através do ouvido atento dos nossos produtores e colaboradores na busca pelos timbres, arranjos, etc.

O disco conta com músicas que passeiam por universos distintos e mesmo estilos distintos, de forma que a busca por uma unidade estética foi importante para “amarrar” as composições e dar ao conjunto da obra algum ar de linearidade.

Como a banda espera estar daqui uns vinte anos? Com os bolsos cheios da grana e tocando no Faustão, ou com uma discografia respeitada dentro do cenário alternativo?

Na verdade gostaríamos de ambas as situações: a grana (desde que fruto de reconhecimento de um trabalho cuidadoso e muito bem feito); e com uma carreira sólida, de trabalhos artísticos de qualidade e que pudessem tocar as pessoas de forma verdadeira, sem apego a modismos ou tendências meramente comerciais.

Infelizmente parece que essas duas coisas, atualmente, não se encontram. O cenário “mainstream” sofre de uma inanição artística severa, em que o rentável comercialmente parece ser predominantemente superficial e passageiro ou até descartável.

Esperamos que esse cenário possa mudar e que as coisas voltem a se encontrar como no passado, mas, independente disso acontecer, estaremos fazendo a nossa música da forma como acreditamos.

Agradecemos imensamente a participação da banda Radiolaria. Abaixo, você tem a oportunidade de conferir “Vermelho”, o álbum de estreia da banda.

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