2014: G I R L – Pharrell Williams

Por: Renan Pereira

É muito normal que, de tempos em tempos, surjam novas estrelas da música. Às vezes elas surgem do nada, sem avisar, nos pegando de calças curtas… Noutras, em que o crescimento é progressivo, podemos acompanhar com nitidez o processo mais comum que envolve o nascimento de um novo sucesso da música popular. A presente fama de Pharrell Williams pode até estar associada a este segundo caso, mas tudo que envolve a popularização de seu nome deve ser considerada sob a ótica de que ele não precisou lançar nenhum disco para se tornar um músico famoso. É até engraçado observar que “In My Mind”, que até alguns dias atrás era o único exemplar da discografia solo de Pharrell, é, na realidade, o capítulo mais obscuro da carreira do produtor.

De certa forma, o desabrochar de Pharrell Williams mostra com clareza que, atualmente, o coletivo está se sobrepondo ao individual. Se os grandes êxitos nunca foram alcançados por quem decidiu andar na solidão, agora esta tônica parece se apresentar ainda mais relevante. Em suma, não é presunçoso afirmar que o produtor californiano seria apenas mais um músico perdido na multidão sem suas colaborações com outros artistas da música pop… A fama de Pharrell não veio de suas próprias canções, mas de suas aclamadas participações em trabalhos coletivos.

Mas também não podemos levar essa questão ao extremo, e dizer que Pharrell só é o músico respeitado que hoje é hoje em dia em função de sua contundente participação no premiado último disco do Daft Punk, “Random Access Memories” – ou, sendo ainda mais extremista, porque ele emprestou sua voz ao grande hit “Get Lucky”. Embora restrito muitas vezes aos bastidores, o crescimento do produtor ao longo dos últimos anos foi se tornando perceptível… Da parceria com Chad Hugo no The Neptunes, na banda N.E.R.D., chegando à produção de álbuns de Justin Timberlake, Jay-Z, John Legend, Frank Ocean e Daft Punk, tudo agora parece apontar, enfim, para “G I R L”, o primeiro trabalho solo de Pharrell a ser tratado com evidência.

É verdade que não dá para negar que o álbum está recheado de participações, mas pela primeira vez em muitos anos, Pharrell tem a oportunidade de trabalhar ditando todas as regras. Um exercício individual que se torna nítido logo no início do disco, com o surgimento luxuoso de “Marilyn Monroe”, a primeira faixa; embebida em uma produção caprichadíssima, a canção conquista os ouvintes sem grandes dificuldades através de seu ritmo cativante, que permeia todo um teor harmônico e sensual.

Porém, ao se embrenhar na continuação do disco, o ouvinte é desapontado por canções que não conseguem cumprir a promessa de um grande trabalho. Mostrando que o disco não estava sendo planejado, e que seu lançamento se deve muito à pressão que o músico vinha enfrentando para que sua recente fama fosse melhor aproveitada, “G I R L” se esparrama em faixas que, unidas, não conseguem significar muita coisa. Há o que parece ser sobras de estúdio de outros trabalhos, canções não amadurecidas e números incluídos somente para encher um set list, não existindo nenhum ponto de convergência.

Se a segunda faixa, “Brand New”, soa como uma faixa não aproveitada do último trabalho de Justin Timberlake, a quinta, “Gust of Wind”, parece ser uma sobra de “Random Access Memories”. A parceria de Pharrell com Miley Cyrus em “Come It Get Bea” resulta em uma música tão ruim que não seria nada surpreendente vê-la na extensão de “Bangerz”, e apenas quando se encontra com Alicia Keys é que o produtor consegue fazer de uma faixa colaborativa de seu novo disco um número a ser destacado: “Know Who You Are” consegue unir as obsessões dos dois músicos em relação ao R&B com grande acerto, estacionando em uma concepção habitual, bastante tradicional, porém sublime.

Das canções “solitárias” do disco, poucas também merecem um destaque positivo. Faixas como a funk “Hunter” e a estranha “Lost Queen” se perdem em estruturas pouco dinâmicas, mostrando até mesmo a pressa com a qual o disco foi bordado… É como se os executivos da Sony tivessem pedido a Pharrell para reunir canções para compor um disco de um dia para o outro, e o produtor simplesmente recolhesse sem muito cuidado alguns rascunhos de sua gaveta.

Mas se o recheio não é lá muito atraente, pelo menos os extremos do disco devem ser saboreados: tão assertiva quanto a primeira faixa, a última, “It Girl”, mergulha em R&B delicioso, que até consegue lembrar-nos dos momentos mais suaves da carreira de Stevie Wonder. Mas espera aí, e “Happy”? É uma canção deliciosa, um hit poderoso e perdeu injustamente o prêmio de “melhor canção original” na última edição do Oscar… mas sua presença no disco não é muito relevante; trata-se de uma decisão comercialmente óbvia, é verdade, mas a canção somente consegue encontrar seu real significado como trilha do filme “Meu Malvado Favorito 2”.

Porém, convenhamos que uma boa música, mesmo que não consiga se encaixar muito bem, é melhor do que a presença de uma canção de má qualidade, não é verdade? Pois o mesmo acontece com a quarta faixa, “Gush”, outro R&B bem-resolvido que mostra em qual terreno Pharrell Williams se sente mais à vontade: um ponto que o músico deveria considerar para o seu próximo trabalho. É melhor atirar em um alvo com precisão do que errar tiros dados para todos os lados.

Até porque, no fim, o que marca em “G I R L” é a sua inconsistência: um disco que não consegue manejar com competência até as suas melhores faixas. Porém, temos que admitir que se trata de um trabalho com boas ideias, com alguns singles de potencial e contando com a batuta de um artista que consegue mostrar sua qualidade… adjetivos comuns para um trabalho que, melhor amadurecido, poderia render ótimos frutos. De fato, a pressa acabou consumindo os rumos sonoros de “G I R L”, deixando até mesmo dúvidas sobre a forma com que Pharrell Williams conduz a sua carreira. Hoje ele é inegavelmente uma estrela, mas somente com trabalhos contundentes o prazo de validade de seu brilho pode ser estendido. E apesar de ser um dos produtores mais requisitados da atualidade, ele ainda não sabe, pelo jeito, o que fazer de sua carreira solo.

NOTA: 6,0

Track List:

01. Marilyn Monroe [05:51]

02. Brand New [04:31]

03. Hunter [04:00]

04. Gush [03:54]

05. Happy [03:53]

06. Come Get It Bea [03:21]

07. Gust of Wind [04:45]

08. Lost Queen [07:56]

09. Know Who You Are [03:56]

10. It Girl [04:47]

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