2014: St. Vincent – St. Vincent

St. Vincent

Por: Renan Pereira

Annie Clark é uma daquelas figuras ímpares da música, aqueles seres complexos que às vezes até duvidamos que façam parte do mesmo mundo que a gente. Andrógena e estranha são alguns dos adjetivos com os quais os mais apressados tentam rotulá-la, em uma fracassada tentativa de defini-la.  Talvez nem ela mesma saiba, ao fundo, quem realmente ela é… Certo dia, enquanto revelava a origem de sua alcunha artística, St. Vincent, que remete ao nome do hospital em que o poeta Dylan Thomas falecera, ela disse que “aquele foi o lugar em que a poesia veio a morrer. Essa sou eu”. Indecifrável.

É bem provável que essa ânsia de rotular à primeira vista venha do nosso comportamento quanto a coisas que, de alguma forma, fogem do que consideramos habitual. Embora seja assumidamente pop, St. Vincent não detém os mesmos predicados que formam normalmente o conceito de “diva”. De aparência frágil, voz suave e com uma proeminente via experimental, Annie Clark vai muito além das obviedades que permeiam a música popular. Algo que estranha e faz com que nos surpreendamos positivamente, pois até mesmo o mais pacato dos seres humanos sempre sente uma pontinha de atração pelo exótico. E, sem dúvida, St. Vincent intriga.

Fazendo de seu novo disco uma grande contemplação do universo particular que ela construiu ao longo desses oito anos, Clark borda o seu mais acessível e completo trabalho. Os experimentos e a base “estranha” se mantém, mas tudo que forma a complexa estrutura artística de St. Vincent é moldado a fim de atingir o grande público. A música pop não precisa ser óbvia, e a cantora trata de corrigir uma das mais errôneas ideias quanto ao que se considera “vendável”.

Bastam os primeiros segundos de “Rattlesnake” para que o ouvinte perceba a complexidade que entorna o disco. Envolta em uma sonoridade inventiva e dinâmica, que lembra os momentos mais experimentais de David Bowie e do Talking Heads, Clark dispara um fantástico conjunto de versos, contendo experiências intrigantes que construíram a artista única que ela é… A primeira faixa, por exemplo, é um verdadeiro relato sobre as percepções da musicista enquanto ela andava pelo deserto. “Uma comunhão com a natureza”, ela diz.

Perguntada sobre como o disco soaria, ela não titubeou ao afirmar que seria como “um registro festivo que você poderia tocar em um funeral”. De fato, apesar de mostrar toda a humanidade que pode existir dentro do androginismo, “St. Vincent”, o disco, não renega aos ouvintes uma constante e acertada aproximação com percepções entusiasmantes. Em “Birth in Reverse”, lá está St. Vincent empunhando sua guitarra para construir um número característico seu, tortuoso e complexo – e, ao mesmo tempo, festivo. Ainda está disposto a rotulá-la? Pois saiba que a tarefa fica cada vez mais difícil.

“Prince Johnny”, a terceira faixa, é uma canção extremamente sensorial, na qual St. Vincent brinca com nossas emoções vagando entre a suavidade e o caos. Essa guerra de sentimentos é, em grande parte, possibilitada pela forma inventiva com a qual a artista utiliza a sua guitarra… Não espere dela riffs óbvios, mas sim um conjunto de linhas tortas voltadas a intrigar o ouvinte. A própria forma classuda com que “Huey Newton” se desenvolve mostra com primor a intensa colagem de texturas e sentimentos que Annie Clark não se cansa de fazer. No poderoso single “Digital Witness”, tudo isso se funde em união a um jogo estético que sempre esteve presente na carreira da compositora.

A platônica “I Prefer Your Love” mostra St. Vincent flertando com algo mais próximo ao tradicional, porém com uma altíssima carga sentimental: a canção foi escrita para a mãe da artista, que na época estava doente. Segundo a própria musicista, enquanto “Strange Mercy”, seu álbum anterior, era tratado com um teor mais íntimo, o presente registro é mais expansivo quanto aos sentimentos. Algo que faz com que tudo se aproxime do ouvinte, apesar do dinamismo intensamente inventivo… Vai dizer que “Regret”, apesar de conter arranjos experimentais, não é uma canção acessível?

Haverá aqueles fãs das antigas, que dirão que o novo disco não contém uma sonoridade tão inédita quanto “Strange Mercy”. E isso é verdade. Porém, St. Vincent sempre tratou de fazer de seus registros em estúdio trabalhos únicos, distintos entre si… E apesar de ser menos experimental, “St. Vincent” é mais consistente, acumulando uma extensa bagagem para formar o melhor conjunto de canções já produzido pela musicista… e sem se esquecer, enfim, do público. “Bring Me Your Loves” parece ser, até mesmo, um alento destinado para os mais sedentos por grandes novidades. De certa forma, Annie Clark está disposta a agradar a gregos e a troianos.

A nona, “Psycopath”, esbarra com força na new wave dos anos oitenta, se comportando como um pop-rock com influências de David Byrne, enquanto a décima, “Every Tear Disappears”, utiliza todas as texturas tortuosas de St. Vincent para pregar em nossa mente um conjunto melódico memorável. Como se ainda bastasse algo para causar surpresa (ou até mesmo estranheza), um soft rock essencialmente setentista surge na última faixa, “Severed Crossed Fingers”, na qual St. Vincent explora a capacidade do ser humano em ter esperança mesmo quando ela, na verdade, inexiste. Mais uma sacada inteligente da musicista, que encerra o disco com uma inesperada tranquilidade.

É surpreendente a forma como Annie Clark insiste em nos surpreender a todo instante? Sim e não. No fim, mesmo sabendo que não dá para prever o que a artista irá aprontar, lá estamos nós sendo pegos de surpresa mais uma vez. Às vezes pensamos que St. Vincent ficaria bem em uma camisa-de-força, em outras temos certeza de que um trono seria mais adequado para ela. É justamente por nos confundir, por brincar com nossas percepções, que St. Vincent é uma das figuras mais necessárias da música atual.

NOTA: 8,9

Track List:

01. Rattlesnake [03:34]

02. Birth in Reverse [03:15]

03. Prince Johnny [04:36]

04. Huey Newton [04:37]

05. Digital Witness [03:21]

06. I Prefer Your Love [03:36]

07. Regret [03:21]

08. Bring Me Your Loves [03:15]

09. Psychopath [03:32]

10. Every Tear Disappears [03:15]

11. Severed Crossed Fingers [03:42]

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