2013: Beyoncé – Beyoncé

Beyoncé

Por: Renan Pereira

Era inevitável que, após lançar de surpresa o seu tão aguardado quinto álbum, e bem no apagar das luzes de 2013, Beyoncé se tornaria a cantora mais falada desse início de 2014. Aproveitando o seu ápice artístico e toda a fama que acumulou nesses últimos anos, a artista resolveu investir de forma incisiva no que é, provavelmente, o grande pilar da música pop: a imagem. Considerado pela própria cantora como um “álbum visual”, seu novo disco, auto-intitulado, procura condensar uma carreira inteira de referências musicais em prol de uma união completa entre sons e imagens.

Batidas, melodias e harmonias são muito mais do que “sons”. A música sempre foi responsável por inserir em seus ouvintes as mais diferentes percepções, em um exercício muito mais sinestésico do que simplesmente auditivo. E dentro dessas percepções está incluída, obviamente, a visual. É claro que sempre vai haver gente chata dizendo que a imagem não é algo com que o artista deva se preocupar. Lamento informar, mas quem pensa dessa forma não entende nada de música ou não consegue se conformar com a passagem dos anos.

A música, e principalmente a dita “pop”, sempre foi visual. Pensemos rapidamente naquele disco considerado o melhor de todos os tempos do gênero, e já lembraremos de Michael Jackson dançando com zumbis no vídeo de “Thriller”. Se pensarmos em uma mulher importante para a música pop, pensaremos em Madonna, e se falarmos de seu auge artístico lembraremos de “Like a Prayer” e todo aquele conjunto de imagens que chocou a igreja católica. Não adianta: quem se embrenha na música popular terá que lidar, inconscientemente, com questões que vão muito além do som.

Sendo um dos nomes mais importantes da música atual, Beyoncé percebeu que esse mundo em que as mídias estão cada vez mais interativas seria um prato cheio para o lançamento de um disco que une sensações sonoras e visuais. Cada música tem o seu vídeo, e para que o disco seja entendido em sua plenitude não bata ouvi-lo… é necessário vê-lo.

Um conceito que acabou exigindo uma produção caprichadíssima. Para que as imagens pudessem se interagir perfeitamente com as músicas, um teor mais atmosférico foi exigido. Para tanto, Beyoncé caprichou ao recrutar um fantástico time de produtores, que contém inclusive outros nomes famosos da música pop, como Timbaland, Pharrell Williams e Justin Timberlake.

E o disco visual se inicia posicionando-se quanto à ditadura da beleza; segundo a própria Beyoncé, “Pretty Hurts” é uma advertência sobre os perigos da desenfreada busca pelo corpo perfeito. Eis aí um ponto de destaque do disco, que soa praticamente inédito dentro da discografia da artista… Experiente, Beyoncé vê a oportunidade de investir também em temas polêmicos. Algo que é explorado com veemência lá pelo final do disco, quando a fenomenal “Flawless” discute os direitos das mulheres, contando até com um discurso da escritora e ativista nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche.

Mas o álbum, apesar de conter conceitos que inserem novos aspectos à carreira de Beyoncé, também trata de acrescentar à sua estrutura atmosférica revisitações aos discos anteriores da cantora. A poderosa “Drunk in Love” não somente revive a parceria de sucesso com o maridão Jay-Z de “Crazy in Love”, como surge se caracterizando como uma “versão amadurecida” do primeiro hit de Beyoncé em carreira solo. “Blow” se agarra nas referências oitentistas que já haviam ocupado o álbum “4”, enquanto a sétima faixa, “Jealous”, parece reviver o R&B altamente comercial que ocupou o terceiro e premiado disco da artista, “I Am… Sasha Fierce”. Tudo, porém, flui naturalmente, sem que as revitalizações sonoras soem aproveitadoras. Afinal, isso também faz parte do show, pois em seu novo disco, Beyoncé é, mais do que nunca… ela mesma.

Mas o que fala mais alto nesse disco são os sentimentos, afinal, nunca a cantora havia os explorado com tamanha maestria. Seja na estrutura dinâmica e futurista de “Haunted” ou em vias mais tradicionais, como as de “Rocket”, Beyoncé não nega a seus ouvintes o compartilhamento de suas mais íntimas emoções. Até quando ela se propõe a seduzir, como na extremamente sensual “Partition”, as coisas soam sinceras, e não uma simples apelação. É a parte visual da música falando alto.

Mas há de se dizer que o disco não é apenas Beyoncé, passando, na verdade, muito longe disso. Por trás das acertadas ideias da artista há um batalhão de colaboradores que fazem com que elas aconteçam da melhor forma. Em “Mine”, o rapper canadense Drake acaba ajudando (e muito) ao fazer da faixa uma das melhores colaborações dos últimos tempos, enquanto Frank Ocean implementa muitos dos conceitos de “Channel Orange” na subsequente, “Superpower”. Da mesma forma, o produtor Boots torna “No Angel”, a quinta faixa, em algo muito além do R&B comum com que ela poderia se caracterizar. Isso diminui os méritos de Beyoncé? Não, muito pelo contrário… Saber com quem andar é sempre um ponto positivo a ser considerado.

Sabendo onde pisar, Beyoncé abandona as inseguranças de outrora e exala confiança, a ponto de produzir algumas de suas melhores (quiçá as melhores) canções até o presente momento. E isso acontece quando os sentimentos de uma mãe de família são colocados acima de tudo. Fazendo da recente maternidade um tema relevante, ela brinca com a “participação especial” de sua filhinha na faixa final, “Blue”, e canta o amor de forma suave, como em “Heaven”, ou escancarando todo o poder que detém em suas mãos – caso de “XO”, a melhor canção do disco.

Por ser um disco que revela percepções muito íntimas de Beyoncé, o presente registro é um trabalho dedicado à família. Ao perceber que o bem-sucedido matrimônio e o nascimento de Blue Ivy fizeram a cantora evoluir não só como pessoa, mas também como artista, fica claro, mais uma vez, que a família é a base de todas as conquistas pessoais. Mesmo quem deseja fazer um grande disco de música pop precisa contar com o carinho e o apoio das pessoas a quem ama… E encontrando uma base sólida, tendo todas as condições de fazer o melhor trabalho possível, Beyoncé fez de seu último disco não “apenas” um ótimo registro audiovisual, mas o melhor álbum de sua carreira.

NOTA: 8,8

Track List:

01. Pretty Hurts [04:17]

02. Haunted [06:09]

03. Drunk in Love [05:23]

04. Blow [05:09]

05. No Angel [03:48]

06. Partition [05:19]

07. Jealous [03:04]

08. Rocket [06:31]

09. Mine [06:18]

10. XO [03:35]

11. Flawless [04:10]

12. Superpower [04:36]

13. Heaven [03:50]

14. Blue [04:26]

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