2014: High Hopes – Bruce Springsteen

High Hopes

Por: Renan Pereira

Bruce Springsteen parece não ter envelhecido. Apesar dos 64 anos que ele carrega nas costas, o grande “Boss” da música norte-americana continua sendo um artista de uma jovialidade surpreendente; quem acompanhou seu estupendo show na última edição do Rock in Rio sabe muito bem do que está sendo dito. Não é raro seus espetáculos ultrapassarem três horas de duração, com um set list gigantesco, capaz de agradar a todos os gostos, e com uma performance que não decai em nenhum momento. Claramente, Springsteen tem em mãos a mística fórmula da juventude.

Mostrando mais uma vez que quer continuar produzindo em um ritmo invejável, o músico decidiu lançar seu segundo disco em três anos. Sucedendo o ótimo “Wrecking Ball”, de 2011, “High Hopes” chega para mostrar mais um capítulo de uma longa discografia, brilhante apesar de conter alguns exemplares de gosto duvidoso. Mas se nos anos noventa Springsteen não conseguiu manter o nível que outrora havia sido apresentado, hoje ele colhe os ouros de uma “velhice” bem aproveitada: de certa forma, ele conseguiu unir, de forma exemplar, a maturidade adquirida em tantos anos de estrada com a tão citada “jovialidade aos sessenta anos”.

Mas “High Hopes” não é, necessariamente, um produto atual. Embora seja tratado como um “novo disco”, o álbum não é nada mais do que uma reunião de canções antigas que, por algum motivo, acabaram ficando de fora dos últimos álbuns do compositor. Há, obviamente, um trabalho cuidadoso para que tudo possa soar atual, como se a construção do disco não passasse de um exercício natural de continuação… O que, infelizmente, não é. Apesar da presença do guitarrista Tom Morello (Rage Against the Machine), ilustre convidado utilizado por Springsteen como uma ponte para as novas gerações, “High Hopes” não deixa de ser o que, no fundo, o seu conceito não consegue esconder: uma coletânea de sobras de estúdio.

Espera aí… Então “High Hopes” é um disco ruim? O texto começou tecendo elogios aos rumos atuais da carreira de Bruce Springsteen, e agora lá vem o autor se contradizendo, afirmando que “High Hopes” é um disco fraco? Não, não, “High Hopes” não é um disco ruim. Nenhuma de suas doze canções são de má qualidade: todas demonstram a característica qualidade de Springsteen como compositor. Boas canções, inegavelmente, mas que não funcionam como um conjunto… Se comportando como um quebra-cabeças em que as peças não se unem, “High Hopes” traz rascunhos de diferentes facetas do músico sem apresentar nenhuma interligação. Um mero amontoado de canções soltas, que vai diretamente ao oposto do conceito de “álbum”.

Porém, também não podemos afirmar que o disco é um lançamento desnecessário. Canções de potencial não devem ser simplesmente esquecidas, fadadas aos bootlegs não-oficiais, e Springsteen faz de “High Hopes” uma morada definitiva para suas boas sobras de estúdio. Um lançamento plausível, bem-recebido, mas nem por isso grandioso… Até o mais fanático admirador de Springsteen não negará a falta de poder do registro, comparando-o às grandes obras do compositor. É provável que até mesmo o músico não o considere como um de seus grandes trabalhos, e por isso o disco deve ser encarado sob a ótica correta: não uma nova obra-prima, mas um registro que aproveita ideias antigas em prol de um exercício físico. Afinal de contas, Springsteen nitidamente o lançou para não perder sua invejável boa forma.

Energia essa que é facilmente percebida na faixa-título, em que os arranjos de metais e a presença de Morello inserem a potência necessária para Springsteen brilhar… Porém, por melhor que seja, a canção, que se comporta como o carro-chefe do presente registro, não é nada mais do que a regravação de uma regravação: Springsteen já havia a gravado no EP “Blood Brothers”, de 1996, como uma versão cover da banda The Havalinas, cuja gravação original data de 1990. Um teor empoeirado que é amplificado pela faixa seguinte, “Harry’s Place”, canção composta em 2001 e que, a princípio, faria parte do álbum “The Rising”.

A emocionante “American Skin (41 Shots)”, inspirada em um cruel assassinato de um cidadão americano por policiais, viu a luz do dia em 2001, quando foi tocada por Springsteen em alguns shows e acabou fazendo parte do disco “Live in New York City”. Já “Just Like Fire Would”, apesar de ser um cover, soa como uma das clássicas canções oitentistas de Springsteen, trazendo aquele rock encorpado de “Born in the U.S.A.”, enquanto a soturna “Down in the Hole”, com seus arranjos atmosféricos, mostra uma faceta mais obscura do músico, mais ligada à música folk.

Como um bom passeio pela carreira do “Boss”, “High Hopes” não deixaria de apresentar aspectos mais atuais da carreira do compositor: como as interações com o R&B e o coro de vozes de “Heaven’s Wall”, que se relacionam naturalmente com a base conceitual de “Wrecking Ball”. A melodia e o modo como os vocais são tratados em “Frankie Fell in Love” deixam claro que aqui se faz presente mais uma clássica composição de Springsteen, um prato cheio para os admiradores dos hits radiofônicos do músico, bem como para as sempre atrativas apresentações ao-vivo. “This Is Your Sword” é mais um folk-rock de primeira, em que os agradáveis rumos melódicos, inspirados na música gospel norte-americana, servem como um complemento adequado para os belos lirismos de Springsteen.

Mesmo em disco visivelmente menor, menos super-produzido, há espaço para que a música de Springsteen alcance o épico; caso da reflexiva “Hunter of Invisible Game”, que apesar de seu caráter introspectivo, é transferida automaticamente a dimensões grandiosas através de seus belíssimos arranjos de cordas. A também épica “The Ghost of Tom Joad”, faixa do álbum homônimo de 1995, encontra nos riffs raivosos de Tom Morello uma expansão natural, devido à versão gravada pelo Rage Against the Machine em 1997, que acabou fazendo parte do disco “Renegades”… Como resultado, um misto das versões anteriores de Springsteen e da antiga banda de Morello, assemelhando-se às baladas grandiosas do Guns N’ Roses no início dos anos noventa.

“The Wall” retorna ao folk e ao íntimo de Bruce Springsteen, tratando com um instrumentação semi-acústica a memória de norte-americanos mortos na Guerra do Vietnã, enquanto a última faixa, “Dream Baby Dream”, é uma surpreendente regravação da canção mais acessível dos pioneiros do synthpop do Suicide, incluída a pedido de Morello… Um bom desfecho, com cara de canção de ninar, como tantos outros discos já se findaram.

No fim, o que fica é aquele famoso “sabor de quero mais”. Apesar de não ser um trabalho ruim, longe de se caracterizar como perda de tempo (ou dinheiro), “High Hopes” clama por algo maior que, em um futuro próximo, provavelmente virá. O grande ponto positivo é que, com um novo disco, Springsteen provavelmente pegará a estrada novamente, oferecendo ao público novas oportunidades de acompanhar um dos melhores shows da música mundial… E assim, ele felizmente continuará na ativa.

NOTA: 6,2

Track List: (todas as faixas compostas por Bruce Springsteen, exceto onde indicado)

01. High Hopes (Tim Scott McConnell) [04:57]

02. Harry’s Place [04:04]

03. American Skin (41 Shots) [07:23]

04. Just Like Fire Would (Chris Bailey) [03:56]

05. Down in the Hole [04:59]

06. Heaven’s Wall [03:50]

07. Frankie Fell in Love [02:48]

08. This is Your Sword [02:52]

09. Hunter of Invisible Game [04:42]

10. The Ghost of Tom Joad [07:33]

11. The Wall [04:20]

12. Dream Baby Dream (Martin Rev/Alan Vega) [05:00]

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