1958: Blue Train – John Coltrane

Blue Train

Por: Renan Pereira

O jazz é chato? Todos que pesquisam sobre música, alguma vez na vida, já se viram fazendo esse questionamento. É verdade que, por se distanciar da música popular que é feita hoje em dia, o gênero não é facilmente aceito pelas gerações atuais. Até as pessoas que (corretamente) não se prendem às comercialidades dos anos 2000 encontram, muitas vezes, um muro que os separam das obras jazzísticas de décadas atrás. Anos sessenta? Teve Beatles, Pink Floyd, Rolling Stones, Bob Dylan… Mas e Charles Mingus, John Coltrane? No máximo, quem quer dar uma de entendido, fala maravilhas de “Kind of Blue” sem sequer ter ouvido o disco, dizendo-se admirador de Miles Davis somente para parecer “cool”. Quer derrubar esse muro, se tornando realmente fã dos melhores nomes do jazz? Então comece por John Coltrane e seu “Blue Train”, um álbum que se comporta como uma verdadeira porta de entrada para todos os inventos que ocorreriam no gênero a partir de 1959.

Não, o jazz não é chato. Há quem baterá o pé e dirá que cada um tem a sua opinião, sendo livre para pensar o que bem entender sobre qualquer coisa. É verdade, o livre arbítrio é um dos grandes pilares da democracia, e a opinião de cada um deve ser respeitada. Mas e aquela pessoa que se resigna à ignorância, que se torna desconhecedor das coisas por pura teimosia? Se você ainda tem uma pontinha de receio em experimentar o novo (ou o “velho”, neste caso), faça um esforço para liberar a sua mente das opiniões prontas… Será recompensador, acredite. Quando o jazz for chato, o sertanejo universitário será arte.

Bem, voltemos à “porta de entrada”. Aí está você, lendo um texto sobre o tão falado, mas tão pouco ouvido, John Coltrane. O que é uma pena, pois mais ignorante que aquele que não conhece é quem finge conhecer. Você vai na página daquele seu colega baladeiro e vê Miles Davis entre as páginas curtidas, ao lado de nomes como Michel Teló e Paula Fernandes. Parafraseando uma propaganda atual, dizer que gosta de jazz sem ouvi-lo é uma coisa… Experimentá-lo intensamente é outra coisa!

E para isso nem é preciso se entregar às drogas. Quando John Coltrane criou “Blue Train”, ele havia acabado de ficar livre de seu antigo vício em heroína: uma prova de que, para viajar, não é necessário se inflar de ácido. Um aventureiro nato, Coltrane começou a costurar, com este disco, uma das carreiras mais inventivas da história da música, um grande baluarte das evoluções do jazz. Sua carreira solo já havia se iniciado como o álbum “Coltrane”, um ano antes, mas foi com “Blue Train” que, pela primeira vez, o saxofonista pôde deter todo o controle criativo que necessitava. Ele decidiu como o álbum seria, e das cinco canções do disco, quatro eram de sua autoria.

Tudo começa com a faixa título, e seus mais de dez minutos de duração. Após uma introdução classuda e misteriosa, que é repetida por alguns instantes, a faixa explode em uma viagem por cenários inimagináveis, em que o instrumento de Coltrane se torna o meio de transporte. Totalmente livre, o saxofonista passeia por diversas atmosferas em um absurdo dinamismo, capaz de encantar o ouvinte em cada nota executada. Na base instrumental, um time invejável de músicos que continha integrantes da banda de Miles Davis deu totais condições para o saxofone de Coltrane brilhar… Mais do que isso, eles também foram capazes de se destacar. O baterista Philly Joe Jones acrescentou uma incrível veia rítmica às canções, auxiliado pelas contundentes linhas de baixo de Paul Chambers. Com o piano de Kenny Drew a sonoridade tornou-se mais expressiva, mais dinâmica, e a longa duração das canções passam despercebidas até para aquele ouvinte mais ligado a concepções imediatistas.

A segunda faixa é a formidável “Moments Notice”, ainda mais deliciosa, impregnante, envolvente… Hora de destacar a técnica que, anos depois, seria conhecida como “Coltrane’s changes”, uma revolução nos conceitos harmônicos do jazz. De fato, apesar de estar preso à vertente hard-bop, “Blue Train” foi uma espécie de abre-alas da onda do free-jazz que chegaria ao seu ápice nos anos sessenta… Os experimentalismos que se seguiram tiveram, de alguma forma, a influência de Coltrane. Até o antigo companheiro Miles Davis, com o qual Coltrane nutria uma saudável rivalidade (coberta por muito respeito), se viu obrigado, em algumas oportunidades, a utilizar conceitos propostos pelo saxofonista. Mas o que mais pode ser dita sobre a segunda faixa do disco? É uma verdadeira epopeia, uma concepção altamente dinâmica e excêntrica que encanta sem nenhuma dificuldade. Sobra até um arranjo de cordas nos fantásticos rumos instrumentais propostos por Coltrane e seus companheiros de banda.

Fala-se que, em suas músicas, Coltrane sempre procurou demonstrar as facetas de sua alma. Na época, quando chocou os críticos musicais (sim, isso já existia naquela época), dizia-se que ele era um sujeito pouco simpático e, de certa forma, nervoso. Ainda que, nos anos que se seguiriam, o jazz se tornasse ainda mais veloz, não há como não sentir aspectos “raivosos” na musicalidade de “Blue Train”. “Locomotion”, a terceira faixa, segue com primor essa linha, embora a seguinte, “I’m Old Fashioned”, seja uma regravação de uma canção romântica, feita especialmente para dançar juntinho… Um respiro, um breve momento de calmaria em meio à atmosfera inventiva do disco.

Sabe aquele famoso ditado que diz que “depois da tempestade vem a calmaria”? Pois aqui, felizmente, acontece justamente o contrário; na verdade, “I’m Old Fashioned” é o único momento que “Blue Train” perde um pouco de força, embora apresente um inegável acerto melódico. Em um disco pautado na evolução, novidades devem ser apresentadas, e por isso “Lazy Bird” se comporta tão bem. Com mais uma performance impecável de todos os membros da banda, Coltrane flutua sem encontrar nenhuma barreira, admitindo, a todo momento, um genuíno exercício de expansão. Há de se destacar, também, as presenças de Curtis Fuller no trombone e de Lee Morgan no trompete, que pairam por todo o registro dando o suporte necessário para Coltrane brilhar.

E assim o disco se finda. São apenas cinco faixas, mas que constroem o ponto de partida para uma década gloriosa. John Coltrane morreria em julho de 1967, vítima de complicações referentes a um câncer de fígado, mas trabalharia até seus últimos dias em prol da evolução de gênero que ele ajudou a revolucionar. Uma carreira brilhante, que apesar de estar um pouco mais apagada hoje em dia, em virtude da diminuição da popularidade do jazz, continua absurdamente expressiva. Não são poucos os artistas que, mesmo hoje em dia, e em vertentes distantes do jazz, tem em Coltrane uma grande inspiração; talvez não tanto pelos elementos musicais, mas pelo modo de se ver a música… Se o saxofonista nos ensinou que a música pode ser uma extensão de nossa alma, bem-aventurado é quem aprendeu essa lição.

Se você ainda não tinha tomado coragem de se aventurar pelo jazz, eis aqui, enfim, uma grande oportunidade: afinal, nada melhor que a audição de um dos mais acessíveis trabalhos de um dos maiores nomes do gênero, não é verdade? Se “Blue Train” é uma porta de entrada, só nos resta desejar-te boas-vindas. Um mundo novo se abre ao seu redor, e a mente experimenta um novo conjunto de dimensões. Eis uma experiência que, com certeza, vale a pena.

NOTA: 9,5

Track List: (todas as faixas compostas por John Coltrane, exceto a quarta)

01. Blue Train [10:43]

02. Moment’s Notice [09:10]

03. Locomotion [07:14]

04. I’m Old Fashioned (Mercer/Kern) [07:58]

05. Lazy Bird [07:00]

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