2013: Seven – Phillip Long

Seven

Por: Renan Pereira

O número sete tem um significado especial para Phillip Long. Considerado sagrado e poderoso para o filósofo Pitágoras, o algarismo é carregado de simbolismos que são explorados pelo músico de Araras: “o número quatro, que simboliza a terra, associado ao três, que simboliza o céu, permite inferir que o sete representa uma totalidade em movimento ou um dinamismo total, isto é, a totalidade do universo em movimento”, diz o compositor em sua página do Tumblr. Chegando ao sétimo exemplar de sua discografia, Long vê suas possibilidades musicais aumentarem ao construir o que é, segundo ele próprio, o seu álbum mais eclético.

“Sobre o ‘Seven’, bem, ele caminha por outros rios, sua veia é bem diferente e eu o considero o trabalho mais expansivo meu. Há folk porque o folk é a fonte de tudo em mim, minhas raízes espirituais, mas há também essa dança com elementos distantes desse universo”, revelou Long em entrevista concedida ao blog em dezembro. Talvez por encarar os significados místicos do número sete, o músico tenha deixado para o seu sétimo disco suas concepções mais comunicativas. Ainda que represente sentimentos íntimos de seu criador, “Seven” sabe dialogar com o mundo e suas diversas facetas.

Lançado às sete horas do dia sete de dezembro, e contendo sete faixas, o novo disco de Phillip Long se comporta como um exercício de descoberta. Embora façam falta, os acordes acústicos se tornam mais discretos para que o músico encare mais um certeiro capítulo de evolução. Cada vez mais maduro, sentindo-se livre dentro de sua própria atmosfera, Long faz suas palavras flutuarem pelas sete canções do álbum em um sentido pleno de aventura. Mesmo que não trombe com o desconhecido (ele conhece muito bem o chão sobre o qual está pisando), o ararense topa uma viagem que ainda não havia percorrido. Sorte de seu público fiel, que já acostumado com o grande número de lançamentos, é acariciado com mais um aspecto sonoro de uma das maiores revelações da música brasileira.

“Closer to God”, a primeira faixa, já acaba deixando claro o teor “expansivo” de “Seven”: a lírica se mantém intimista e sentimental, mas os rumos instrumentais aumentam em poder com um tratamento épico inserido pelo produtor Eduardo Kusdra. Toques de rock progressivo, flertes com sintetizadores, harmonias cativantes e o clima matinal de sempre acabam envolvendo, com assertividade, o início do disco. Exercício que é contemplado pelo cenário roqueiro de “End of the Line”, utilizando mais do que nunca as referências que Long mantém nas obras setentistas de Neil Young. Uma revisitação a velharias, mas que não significa um resultado necessariamente retrógrado: é com a música do passado que Long sempre almejou o futuro.

A guitarra do músico holandês Anand Mahangoe explode em “Living on the Edge”, faixa que mostra o vocal de Phillip Long inserido em um cenário completamente novo, e talvez por isso, nesse primeiro momento, mais tímido do que o exigido pelo peso das guitarras… Algo totalmente normal e compreensível em um disco de descobertas. Da mesma forma que os mestres do folk tiveram que readequar seu vocal quando se aventuraram por rumos elétricos, Long traz nesse ponto um grande desafio. Porém, é sempre louvável quando um artista insiste em sair da zona de conforto, se arriscando para se superar, e nisso Phillip Long se mostra um mestre. Sua música nunca foi “o mesmo folkzinho de sempre”, e “Seven” parece demonstrar isso com perfeição.

“Wild Thing”, por exemplo, extrapola até mesmo as barreiras da música folk; se comportando como um bom pop-rock dos anos noventa, a canção traz nos bonitos arranjos instrumentais um complemento assertivo para uma letra especialmente grudenta, comercialmente viável, mesmo que passe longe de soar descartável. Sim, o mercado brasileiro está tomado por uma música de baixíssima qualidade, e disso já estamos cansados de saber… Mas como negar que algumas canções de “Seven” se mostram um prato cheio para as rádios? Talvez, em uma outra época, Phillip Long poderia ser até um “artista pop”.

Como um genuíno moço do interior, Long nunca deixou de incorporar os sentimentos do campo às suas canções; e é abraçando o country, soando mais caipira do que nunca, que o músico constrói em “Insane” mais um ponto de acerto, um pequeno retorno às raízes em meio a tantos voos. E é com um bom blues que ele volta a voar em “Devil’s Line”, canção em que deixar de destacar a formidável performance de Eduardo Kusdra nas guitarras seria um grande pecado.

Se a mesma carga sentimental de “Gratitude” ainda não havia envolvido “Seven”, o melhor acaba ficando para o fim. Uma daquelas canções que tocam a alma sem pedir licença, a belíssima “Naked As the Rain” condensa todos os novos caminhos do disco em uma base incrivelmente emotiva, em que a voz de Phillip Long e o contundente conjunto de sintetizadores trabalham naturalmente para massagear nossos ouvidos… É claro que a gente tenta, ao máximo, não utilizar jargões, expressões prontas, mas como não afirmar que “Seven” é fechado com chave de ouro?

Definitivamente, Phillip Long está pronto para voar ainda mais alto. Embora ele seja um músico muito ligado às raízes, e ainda se mostre mais à vontade com conceitos mais simplórios, suas possibilidades têm aumentado rapidamente. É até difícil pensar que, em 2011, o cara que hoje elabora discos como “Seven” e “Gratitude” lançava o tímido “Man on a Tightrope” como o primeiro trabalho da carreira. Se o tempo passa, se os anos vêm e vão em uma velocidade cada vez maior, ele parece passar ainda mais rápido para Phillip Long. Em pouco tempo, ele deixou de ser apenas mais um iniciante para se tornar um dos grandes compositores do cenário nacional.

NOTA: 7,7

Track List:

01. Closer to God [05:31]

02. End of the Line [04:47]

03. Living on the Edge [04:37]

04. Wild Thing [04:15]

05. Insane [04:13]

06. Devil’s Line [03:52]

07. Naked As the Rain [04:51]

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