1963: With the Beatles – The Beatles

With the BeatlesPor: Renan Pereira

Para o segundo álbum dos Beatles, George Martin resolveu não inventar. Seguindo a máxima de que “em time que está ganhando não se mexe”, o produtor resolveu seguir o mesmo conceito que havia construído (com louvor) o álbum “Please Please Me”. Uma mescla de canções originais, hinos pop com a marca da jovialidade característica do quarteto, com regravações de músicas norte-americanas, explorando o R&B e os clássicos da Motown. Uma decisão acertada, visto a louvação extrema que os garotos estavam recebendo: uma histeria coletiva que, na música popular, apenas Elvis Presley já havia experimentado. Com apenas um disco de estúdio e alguns singles, os quatro garotos de Liverpool já haviam se tornado celebridades, cuja fama parecia ir muito além das terras da rainha. A Europa já estava sendo dominada pela beatlemania, e a conquista definitiva da América era uma questão de tempo.

Portanto, seguir os caminhos que haviam levado o grupo à fama era, indubitavelmente, a regra a ser seguida. Mas essa “repetição do resultado” significava, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade: como acompanhar a intensidade que havia caracterizado o primeiro disco? Se “Please Please Me” estava sendo um grande sucesso, é porque o álbum soube como abocanhar o público com uma intensa novidade, uma música pulsante e sutil, que se comportava como o magnum opus de sua época. Como alcançar, com o segundo disco, uma louvação à altura do primeiro?

“Evolução” foi a resposta encontrada. Apesar de seguir a mesma linha lírica e sonora, “With the Beatles” viria a apresentar o quarteto a novos aspectos. Agora eles eram o carro-chefe da Parlophone, e não mais uma banda iniciante, vista com olhares desconfiados; se nas gravações de “Please Please Me” os recursos eram escassos, para gravar seu segundo álbum a banda contou com as melhores condições possíveis: equipamentos modernos, inúmeras seções e um belo orçamento. Enquanto os garotos excursionavam pelo Reino Unido em um ritmo exaustivo, Martin pôde tecer com muito cuidado os rumos do novo disco… As seções de gravação eram esporádicas, descaracterizando aquele conceito “raçudo” de “Please Please Me”, que havia sido gravado, quase em sua totalidade, em apenas um dia.

Contudo, um novo conjunto de grandes canções era necessário… E “With the Beatles” mostrou, de certa forma, que a banda estava amadurecendo, fazendo suas possibilidades aumentarem, apesar de ainda presos a um conceito simples. Lennon e McCartney aumentavam suas habilidades composicionais, e George Harrison finalmente estreava como escritor. Segundo palavras de Paul, George “tinha um monte de fãs, então sempre lhe dávamos pelo menos uma canção para interpretar. Até que ele se tocou que deveria compor as canções ao invés de cantar as nossas”. O sucesso crescia, e todos deveriam seguir crescendo. Felizmente, como todo mundo sabe, foi isso o que realmente aconteceu.

Para abrir o ótimo conjunto de canções de “With the Beatles”, nada melhor que “It Won’t Be Long”, uma balada energética que poderia muito bem ter sido um single de grande sucesso; ambientada em um tema recorrente dos primeiros anos dos Beatles (as relações afetivas juvenis), a música aborda o retorno de uma garota que havia abandonado o personagem. Segundo Paul, que dividiu a assinatura da canção com John, a intenção foi “dar um pouco de duplo sentido e isso foi o destaque da canção”. De fato, em “With the Beatles”, eles começaram a se aventurar por novas técnicas. A curiosidade fica para a intensa repetição da palavra “yeah”, construindo uma ligação natural para “She Loves You”, até então o maior sucesso dos besouros; não à toa, no Brasil, eles acabaram ficando conhecidos como “os reis do iê-iê-iê”. A segunda faixa, a melódica balada “All I’ve Got to Do”, é uma canção visada ao mercado norte-americano, escancarando uma das grandes inspirações de John Lennon nos primeiros anos de carreira: Smokey Robinson.

Porém, é quando chega em sua terceira música que “With the Beatles” é tomado pela magia da beatlemania. Como ignorar, afinal, o poder de “All My Loving”, uma das mais bonitas canções dos primeiros anos da banda? Sua letra é resultado da intensa agenda de shows a qual o grupo foi condicionado após sua explosão: fazer mais de um espetáculo por dia, nessa época, não era algo incomum para os Beatles. McCartney escreveu a letra da canção movido pela saudade, escancarando a falta que a presença de sua namorada na época, Jane Asher, o fazia. O destaque, porém, fica para o grande trabalho de Lennon na guitarra base.

“Don’t Bother Me” é a canção de George Harrison, escrita enquanto o guitarrista se encontrava de cama devido a uma forte gripe. Segundo palavras do próprio, “foi um exercício para ver se eu conseguia compor. Não acho que seja uma canção muito legal, mas mostrou que eu devia continuar tentando e eventualmente faria alguma coisa boa”. Apesar de muitas vezes esquecida pelo público, “Little Child” é uma canção fantástica, que se destaca nos primeiros exemplares do catálogo de canções da banda: potente apesar de simplória, e escancarando uma ótima performance de John na gaita de boca, a faixa, que primeiramente havia sido destinada à voz de Ringo Starr, acabou encontrando no pulsante vocal de seus compositores uma morada natural, propensa a encantar o ouvinte… “Bebezinha, por que não vem dançar comigo? Estão tão triste e sozinho, baby, me dê uma chance”, cantam Lennon e McCartney. É a fascinante simplicidade dos primeiros trabalhos da banda em uma de suas melhores representações.

Seguem, então, duas regravações que mostram o que público já havia percebido em “Please Please Me”: os covers dos Beatles se mostravam geralmente superiores às suas versões originais. Tanto “Till There Was You” quanto “Please Mr. Postman”, retiradas do mais clássico R&B americano, encontraram uma concepção mais atraente nas mãos dos garotos ingleses. Apenas a versão para “Roll Over Beethoven”, clássico de Chuck Berry, acabou desandando: embora o instrumental acompanhe o poder da gravação original, o vocal de George Harrison (na época ainda pouco desenvolvido) deixa a desejar.

A nona, “Hold Me Tight”, é um bom exemplo dos anseios da banda de atingir o mercado norte-americano, pautando seus rumos cada vez mais na elaboração de singles em potencial – o que não é, de jeito nenhum, algo necessariamente ruim; se a maior das louvações vem do público, nada mais correto do que tentar alcançá-lo… E os Beatles sempre obtiveram o sucesso massivo ligando a sua fama à aclamação crítica: mais do que nunca diminuir a qualidade de seu som, eles sempre trabalharam para crescer. Provas dessa ideia podem ser facilmente encontradas quando os garotos faziam de simples regravações números primorosos, como é o caso de “You Really Got a Hold on Me”, uma performance verdadeiramente perfeita: o sempre incrível George Martin assume o piano, e Lennon canta de forma magistral.

“I Wanna Be Your Man” havia sido composta, por Lennon e McCartney, especialmente para os Rolling Stones, que já haviam lançado a canção cerca de um mês antes do lançamento de “With the Beatles”; a prática era comum na época, visto que outras canções dos Beatles fizeram mais sucesso com outros nomes do que na voz de seus próprios compositores; por ser uma canção mais crua, com um vocal menos exigente, este acabou sendo deixado a cargo de Ringo Starr. Uma garota com olhar irresistível, lábios sedutores, mas que tem o diabo no coração, é cantada por George Harrison na regravação de “Devil in Her Heart”, canção composta por Richard Drapkin e que havia sido gravada pela grupo feminino The Donays. Já “Not a Second Time”, uma das mais exóticas canções já compostas pelos Beatles, com um arranjo assombroso de piano, ficou famosa pelas tais “cadências eólicas” percebidas pelo crítico William Mann, na época escrevendo para o famoso jornal The Times.

Ainda que fosse formado por uma ótima sucessão de faixas, “With the Beatles” necessitava de um “algo a mais” para o final: a última faixa de “Please Please Me” era a estupenda versão de “Twist and Shout”, e a faixa derradeira do segundo álbum não poderia ficar devendo quanto à energia. Por isso, Martin e seus pupilos deveriam caprichar. O resultado, no fim, acabou se mostrando altamente satisfatório: o cover de “Money (That’s What I Want)”, o primeiro grande sucesso da Motown, conseguiu alcançar o nível requerido… Mais uma vez, um disco dos Beatles se encerrava caracterizando tudo aquilo que a banda representava: a rebeldia juvenil que acabou tomando conta do Reino Unido, e caminhava a passos para dominar o mundo.

Apesar de menos consistente que “Please Please Me”, “With the Beatles” alcançou com louvor o que se desejava: não somente manter o sucesso do grupo, mas aumentá-lo. Sem dúvida, os quatro garotos de Liverpool haviam passado no “teste do segundo álbum”. Agora, não formavam apenas mais uma banda iniciante: eram o símbolo de uma geração, e os maiores nomes de um movimento chamado “Invasão Britânica”. Com o lançamento do single “I Want to Hold Your Hand” e sua aterrissagem nos Estados Unidos, onde abocanharam uma audiência absurda com sua apresentação no programa de Ed Sullivan, os Beatles repetiram o êxito dos exploradores europeus de outrora, conquistando os territórios da América. Naquele quarteto de jovens estava presente a maior banda da história, e ninguém mais parecia duvidar disso.

NOTA: 8,8

Track List:

01. It Won’t Be Long (Lennon/McCartney) [02:13]

02. All I’ve Got to Do (Lennon/McCartney) [02:03]

03. All My Loving (Lennon/McCartney) [02:08]

04. Don’t Bother Me (Harrison) [02:28]

05. Little Child (Lennon/McCartney) [01:46]

06. Till There Was You (Meredith Wilson) [02:14]

07. Please Mister Postman (Dobbins/Garrett/Gorman/Holland/Bateman) [02:34]

08. Roll Over Beethoven (Chuck Berry) [02:45]

09. Hold Me Tight (Lennon/McCartney) [02:32]

10. You Really Got a Hold on Me (Smokey Robinson) [03:01]

11. I Wanna Be Your Man (Lennon/McCartney) [02:00]

12. Devil in Her Heart (Richard Drapkin) [02:26]

13. Not a Second Time (Lennon/McCartney) [02:07]

14. Money (That’s What I Want) (Bradford/Gordy) [02:49]

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