Entrevista: Phillip Long

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Por: Renan Pereira

Em sua nova fase, o RPblogging está expandindo seus horizontes. O que era, no passado, apenas uma coleção de resenhas, está aos poucos, enfim, se tornando algo mais abrangente. Estava mais do que na hora de tentarmos algo maior, uma entrevista com um artista que admiramos… E o primeiro nome que nos veio à mente foi o de Phillip Long. Por quê?

Phillip Long é um operário da música, como escreveu com assertividade o crítico Iberê Borges para o site Move That Jukebox. Um trabalhador: escreve músicas e as lança, dando oportunidades iguais para todas as composições, e não negando ao público a afável experiência que é a audição de seus mais íntimos sentimentos. Pois mesmo se transformando em matéria-prima de sua obra, Long consegue atingir em cheio as emoções do público.

Autor de sete discos (o último, “Seven”, acabou de ser lançado), Phillip Long foi o convidado para a primeira entrevista do RPblogging. Convidado por e-mail, topou logo de cara a ideia, sempre se mostrando disponível. Ele, indubitavelmente, gosta de escrever… E mais do que simplesmente gostar, mostra que sabe como fazer. Tão cuidadosas e sensíveis quanto suas canções, suas respostas a nossas perguntas soam como um complemento da sua poesia.

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Você lançou o seu primeiro disco, “Man on a Tightrope”, em 2011. O que mudou no Phillip Long de lá até aqui?

Tanta coisa. Musicalmente falando, eu acho que agora conheço melhor os caminhos e atalhos dentro desse lance de escrever sobre o que a gente vive, meu tato sobre as coisas que me cercam e me atingem estão melhores. E há também essa mudança de vida, das coisas que a gente vai experimentando ao longo dos dias, que vão mudando a gente a cada passo. Eu ainda sei tão pouco de mim e ao mesmo tempo um pouco mais do que eu sabia. Sigo me investigando e investigando a vida, sou tão grato por poder fazer música sobre mim e sobre a vida e as pessoas se reconhecerem nisso tudo.

Hoje você é um músico respeitado no círculo alternativo, com um público fiel que só tem aumentado. Mas é claro que nem sempre foi assim. Como foi o seu começo como músico, e quais foram as dificuldades enfrentadas até se tornar um nome relativamente conhecido?

O começo foi despretensioso como é até hoje, eu gravo canções e as coloco no mundo. Cada movimento a partir disso é uma dádiva, é uma dádiva fazer música, em um mundo onde passamos a maior parte de nossas vidas pulando de instituições para instituições, em busca de qualquer espécie de segurança e estabilidade ilusórias, onde a gente morre antes de mesmo de respirar, fazer algo que seja natural é uma dádiva. As dificuldades são as dificuldades de sempre para todos que fazem música autoral nesse país, falta de estrutura, falta de grana, falta de espaço e etc. Eu andei muito pessimista com esse assunto há um tempo atrás, por que no fim das contas a gente quer seguir produzindo, aí você lança um disco e vê que algumas pessoas se identificam com aquilo e você pensa que o que importa mesmo é tocar as pessoas, se em meio a tanta adversidade a música faz sentido pra alguém já valeu a pena.

Qual foi o momento em que você teve a certeza de que fazer música era o que você queria para o seu futuro?

Até me mudar para Porto Seguro por volta de 2002, eu não tinha a menor ideia de que um dia viria a escrever canções. Eu sofri um choque cultural e acabei me interiorizando muito. Não ia para o colégio e ficava observando o mar, foram tempos dificeis, foi aí que eu comecei a escrever canções sobre as coisas que eu sentia, foi a forma que eu encontrei de lidar com minhas neuras, meus desajustes e etc. Não demorou muito a partir daí perceber que isso era a única coisa que eu sabia fazer direito, não algo pensado, só aconteceu como o universo quis.

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Creio que para você, assim como para a grande maioria dos novos músicos da cena alternativa, a internet tem sido uma grande aliada. A sua participação em projetos da Musicoteca certamente teve um papel fundamental… Há, porém, quem não vê com bons olhos o compartilhamento gratuito de músicas na internet. O que você diria a essas pessoas?

Se você é um músico independente não há como ignorar a internet, é a única ferramenta disponível para divulgação do trabalho, ou você aprende a lidar com isso ou você está morto. A rede tem sido a única ferramenta de divulgação que possuo desde o começo, e tem sido assim.

Através de seus discos, percebe-se uma evolução constante. Só que seu senso artístico foge um pouco do convencional: de 2011 para cá, já são sete álbuns de estúdio – o sétimo, “Seven”, acabou de ser lançado. Você atribui essa grande quantidade de lançamentos à ânsia de evoluir, de crescer musicalmente?

Então, eu verdadeiramente não sei dizer se trata de uma ânsia por evolução. Tudo foi muito natural sempre, eu escrevo muitas canções, a maior parte do tempo é isso que faço. Lógico que a cada passo sinto que meus sentidos melhoram, hoje sei melhor como me mover dentro de uma canção, como transmitir a minha mensagem, mas acho que no fundo o lance da produção desenfreada vem do fato de que não fecho as portas para nenhuma canção. Elas me aparecem e eu dou voz a elas.

As principais influências da sua música são claras: grandes nomes da música folk de décadas atrás, como Bob Dylan, Nick Drake, Neil Young… Ou seja, velharias. Alguém mais que você possa acrescentar? Algum artista mais atual?

Eu realmente sou muito apegado à velharias, e isso vem desde muito cedo. Acho que eu poderia acrescenter uma infinidade de velharias que fazem parte de mim. Cohen é um sujeito que me influencia muito, Tom Waits, Joni Mitchell, Cat Stevens, Paul Simon, Bruce Springsteen, tanta gente. Dos artistas mais atuais, Fleet Foxes me atinge muito, que é uma banda que também soa como velharia e que fala muito minha língua.

Meses atrás, consideramos “Gratitude”, o seu sexto disco, o melhor momento da sua carreira até agora: é um disco especialmente intimista, mas que mesmo assim consegue atingir em cheio as emoções do público. O que podemos esperar agora de “Seven”? O que se ouve é um trabalho um pouco diferente…

Fico profundamente feliz em saber disso. O “Gratitude” é um disco muito significativo pra mim e é uma honra que vocês o considerem o melhor momento de minha carreira até agora. Sobre o “Seven”, bem, ele caminha por outros rios, sua veia é bem diferente e eu o considero o trabalho mais expansivo meu. Há folk porque o folk é a fonte de tudo em mim, minhas raízes espirituais, mas há também essa dança com elementos distantes desse universo. Acho que vocês podem esperar do “Seven” mais uma faceta da minha alma e da minha vida, continua sendo um disco que aborda temas extremamente pessoais e sinceros.

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Algo muito interessante que vejo nessa nova geração de compositores é a vontade de colaborar, de participar de projetos de terceiros, perfazendo uma ajuda mútua. Você tem no Eduardo Kusdra um grande colaborador, e nomes como Phil Veras, Laura Wrona e Scott Thunes participaram de “Gratitude”. “Seven” traz novas colaborações? Planeja fazer alguma participação no trabalho de um outro artista?

O Eduardo é meu irmão de estrada e de vida, nós temos trabalhado juntos há tanto tempo e nossa ligação é profunda. Eu sempre tive muita sorte em poder contar com pessoas incríveis em meu trabalho, minha gratidão é máxima. No “Seven” eu conto com a participação do Albino Intantozzi na bateria, um dos maiores bateristas desse país. Além dele, o guitarrista holandês Anand Mahangoe participa da faixa “Living On The Edge”, foi uma enorme honra pra mim, o cara é incrível. E há também há a participação da cantora independente Maria Eliza nos backing vocals e duetos, que sempre foi uma grande parceira do meu trabalho. Eu estou sempre disposto a participar de projetos dos artistas que admiro, no momento não há convite algum.

Em entrevista recente ao Jardim Elétrico, você se queixou do modo com que os artistas independentes são tratados pelo mercado aqui no Brasil. Como isso pode ser melhorado? Talvez com uma maior união entre os músicos independentes?

Quando você começa a entrar na cena, você começa a descobrir que os músicos são a escala mais baixa nessa estrutura toda. Ao músico cabe o sacrifício e nada mais, o que é muito simples de se levar para a indústria, já que a doação é algo inerente ao criador, nós seguimos doando. Afinal, o músico independente precisa se mostrar e não se alimentar, aliás, todas as pessoas do mundo precisam do espetáculo e não de alimentação, essa é a lei. Como isso pode ser melhorado? Com sensibilidade, acredito, veja, é preciso que haja reciprocidade em tudo. Tratar um sensível com o mínimo de sensibilidade também, equilibrar as coisas, o artista se compromete, a indústria se compromete, as coisas se equilibram. Sobre a união artística, Van Gogh tentou isso com a casa Amarela, não deu muito certo, o ego sempre acaba por mostrar sua cara.

Você anunciou em seu Facebook, há pouco tempo, que em 2014 esterá lançando um disco com versões dos Smiths. O que te levou a planejar este trabalho?

Morrisey tem sido um guia espiritual há tanto tempo. O trabalho dele tanto nos Smiths quanto solo nos atinge profundamente.

O RPblogging agradece imensamente sua participação nessa que é a primeira entrevista do blog. Gostaria de deixar um recado final para os leitores?

Quem agradece sou eu, pela oportunidade de mostrar minhas impressões sobre as coisas que me cercam. Para todos aqueles que dançam com meu trabalho, minha gratidão máxima.

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Créditos:

Perguntas: Renan Pereira.

Respostas: Phillip Long.

Fotos: Christian Camilo, Leonardo Araújo e João Wolf.

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