Discografando: The Velvet Underground

Discografando

Eis a primeira postagem da mais nova seção do blog, a qual decidimos chamar de Discografando. Sobre o que ela se trata? Basicamente, fazer uma breve análise da discografia completa de uma banda ou artista, sem necessariamente apontar qual álbum é o pior ou o melhor. A intenção dessa seção, portanto, não é ranquear os exemplares de uma discografia, mas dar uma passada pela carreira de um nome importante da música, contando a sua história através de seus lançamentos de estúdio.

E nada melhor do que começar esta nova seção com uma das bandas mais influentes de todos os tempos, não? No caso, escolhemos o The Velvet Underground, banda norte-americana forma em 1964, na cidade de Nova York, por Lou Reed e John Cale.

The Velvet Underground & Nico1967: The Velvet Underground & Nico

Classificação: 5 estrelas

Frequentemente apontado como um dos mais importantes álbuns da história da música, “The Velvet Underground & Nico” iniciou a discografia da banda da melhor forma possível. Até aquele ano de 1967, quando as cores do movimento psicodélico e o movimento hippie tomava conta da cultura jovem de vários países do mundo, nada havia soado como o Velvet Underground. Nada. Em um tempo em que o tratamento suave das melodias dava as ordens na música popular, e o sentimento de “paz e amor” era geral, a banda nova-iorquina chegou para estremecer as bases do que era culturalmente aceitável.

Com “The Velvet Underground & Nico” e sua emblemática “capa da banana”, a estética do rock foi modificada para sempre. As melodias cuidadosas deram lugar a ruídos, sujeira e agressividade. A maconha e o LSD foram substituídos pela heroína, e o submundo foi abraçado: com letras que tratavam de sexo, prostituição, homossexualidade, caos e drogas, o Velvet Underground, de uma hora pra outra, inverteu os valores do rock… O que era anteriormente considerado de mal gosto se tornou poesia, e as pessoas começaram a olhar com mais carinho para os cenários menos coloridos da música. As sombras começaram a ter o seu valor.

Somando a um conceito lírico totalmente inédito, a presença da húngara Nico, com seu sotaque europeu, elevou o disco a uma áurea ainda mais andrógena. Os instrumentais elaborados por John Cale, acompanhando as guitarras sujas e raivosas de Reed, mostraram novas possibilidades para o uso dos instrumentos, criando novos conceitos de arranjos e gerando o embrião do que se tornaria, anos depois, o movimento punk. Em suma, “The Velvet Underground & Nico” não é só um dos melhores álbuns de todos os tempos; é o nascimento do rock alternativo.

White Light - White Heat

1968: White Light/White Heat

Classificação: 5 estrelas

As vendas de “The Velvet Underground & Nico” haviam sido um fracasso, e o produtor da banda, Andy Warhol, totalmente decepcionado, decidiu abandonar o grupo. O mundo só queria saber de “Sgt. Peppers’s Lonely Hearts Club Band”, e nem a aclamação recebida pela crítica conseguiu transformar o Velvet Underground em um sucesso.

Depois de quase se tornar a nova sensação do rock, a banda se viu de novo na estaca zero. Poucos conheciam e poucos estavam dispostos a ouvir o Velvet Underground; o psicodelismo estava em seu auge, dando pouco espaço para diferentes abordagens do rock. De certa forma indignada com o que estava acontecendo, o grupo nova-iorquino resolveu gravar um disco ainda mais experimental e barulhento.

Só que, para isso, a banda também não contaria com Nico, que estava vislumbrando uma carreira solo. Mesmo rachado, o grupo continuou com a intenção de gravar um novo álbum, que veio à tona em 1968, intitulado “White Light/White Heat”. Ainda mais desafiador que o álbum anterior, o disco foi marcado pela fantástica união da poesia andrógena de Reed com os instrumentais tortuosos de Cale, em um exercício insano de experimentação. No fim das contas, “White Light/White Heat” é um álbum que mesmo hoje, quase cinquenta anos depois de seu lançamento, mostra-se capaz de chocar o ouvinte.

The Velvet Underground1969: The Velvet Underground

Classificação: 5 estrelas

O clima dentro do Velvet Underground não estava dos melhores. Diferenças ideológicas e batalhas de egos permeavam o convívio dos dois fundadores da banda. No fim das contas, John Cale acabou sendo demitido, entrando para o seu lugar o também multi-instrumentista Doug Yule.

Sem a presença de Cale, a liderança se concentrou nas mãos de Lou Reed. Não por acaso, o terceiro álbum do Velvet Underground, auto-intitulado, é mais centrado nas letras do “poeta do underground”. São parcos os momentos de uma verdadeira experimentação, fazendo com que o disco, instrumentalmente, desse mais valor às melodias. “The Velvet Underground” é, portanto, o primeiro álbum tranquilo da banda.

Cada vez mais tomado pelas influências lisérgicas, Reed fez do disco um registro intimista, conceitualmente confessional, como bem representa a faixa “Pale Blue Eyes”, uma das mais conhecidas composições do músico. Liricamente impecável, o trabalho encontra na sensibilidade melódica uma completa oposição a tudo o que o grupo já havia feito, representando, com isso, o início de uma nova fase da carreira de Lou Reed. De acabamento sombrio, o registro encontra nas palavras e nos arranjos um produto extremamente relacionado ao íntimo de Reed, mas mesmo assim capaz de alcançar os sentimentos do público.

Loaded1970: Loaded

Classificação: 4,5 estrelas

Ainda mais distante dos ruídos experimentados em “White Light/White Heat”, “Loaded” parte do mesmo princípio sonoro de seu álbum antecessor para aconchegar os lirismos de Lou Reed em um ambiente tranquilo, permeado por abordagens serenas. As concepções sonoras mais silenciosas fazem a base, porém, para uma grande inquietação lírica: já abraçando elementos que seriam mais abordados em sua futura carreira solo, Lou Reed tratou de impressionar mais uma vez com um impecável conjunto de versos.

O compositor se viu a vontade para explorar Nova York de uma forma peculiar. Seja com o manuseio de personagens, como em “Lonesome Cowboy Bill” e “Sweet Jane”, ou em fantásticas incorporações intimistas, Reed arquitetou um disco que, como seu anterior, encontra nas palavras sua grande riqueza. São versos que se amarram, se completam, e mesmo assim surpreendem a todo instante. Eis aqui, indubitavelmente, a consolidação do “poeta do underground”.

A grande novidade de “Loaded” está, no fim das contas, no pensamento comercial que construiu o seu conceito. Sem barulhos, experimentos e canções longas, o disco foi planejado para alcançar as mãos do público, que sempre haviam se mostrado pouco generosas com a banda. Se isso foi um erro? É claro que não… Sem “Loaded”, a redescoberta da banda, que aconteceria anos mais tarde, com a explosão do punk, talvez não aconteceria. O álbum é um bom aquecimento para os momentos mais experimentais do grupo, embora esteja cronologicamente à frente.

Squeeze1973: Squeeze  

Classificação: 2 estrelas

Velvet Underground sem John Cale e Lou Reed? Sim, isso existiu, pelo menos oficialmente. “Squeeze”, último disco atribuído à banda é, na verdade, um projeto solo de Doug Yule sob o nome do antigo grupo: uma clara estratégia da gravadora para faturar algum dinheiro. Como resultado, um dos álbuns mais decepcionantes da história.

Pouca coisa de “Squeeze” remete à grandiosidade atingida pelo Velvet Underfround nos trabalhos anteriores. Sem Lou Reed as letras ficaram vazias, gritantemente medíocres… Se ainda houvesse John Cale para reger os instrumentais teríamos um produto interessante, mas, sem seus dois membros fundadores, o que era o Velvet Underground além de uma caricatura do passado? Tanto “Berlin”, de Reed, quanto “Paris 1919”, de Cale, lançados naquele mesmo ano, conseguiram mostrar mais do Velvet Underground do que o disco que carregou o nome do grupo.

Mas a estratégia da gravadora, no fim das contas, se mostrou totalmente equivocada: além de recolher inúmeras críticas da imprensa especializada, o disco não conseguiu vender bem. Infelizmente, um término decepcionante e melancólico para uma das mais brilhantes discografias da história da música.

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2 opiniões sobre “Discografando: The Velvet Underground”

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