2013: Grão – Fábrica

Grão

Por: Renan Pereira

“Grão” é uma espiral de emoções. Sentimentos bem tratados, que refletem em uma sonoridade complexa e atraente, capaz de prender o ouvinte apesar de seu lado introspectivo proeminente. Depois de trilhar um caminho mais coletivo no disco anterior da banda Fábrica, agora, no segundo registro do grupo, Emygdio Costa e seus companheiros decidiram se impregnar nas profundezas da alma do ser humano, transformando mágoas e amarguras em música para nossos ouvidos, e de forma literal. Mergulhado em um conceito experimental, que quebra a barreira dos gêneros ao fundir inúmeras vertentes sonoras, o novo disco do coletivo carioca é um álbum para ser ouvido enquanto se pensa na vida e as lágrimas escorregam no rosto.

De certa forma, ao prender-se a aspectos intimistas, “Grão” apaga todos os erros de seu antecessor. Se afastando da musicalidade óbvia do debut, que se resignava a mesclar samba e rock em um exercício de repetição, o novo álbum busca uma fuga do lugar-comum ao se estabelecer em um cenário genuinamente novo para a chamada “nova MPB”. Utilizando-se de referências pouco lembradas pelos artistas atuais, como Edu Lobo, Dorival Caymmi e Djavan, Emygdio Costa e seu louvável senso composicional partem do onírico rumo a uma dolorida realidade sentimental enquanto mesclam, com louvor, o velho e o novo. Além da forte inspiração em dinossauros da MPB, o grupo carioca não deixa de ser atingido pela música de nomes atuais.

E nessa atualidade, a inspiração mais forte de “Grão” mora em uma adaptação nada copiosa dos mesmos experimentos que vem sendo encabeçados pelos nova-iorquinos do Grizzly Bear… Um jogo atmosférico de sons, condensando camadas enquanto ritmos e melodias são interceptados na procura da mais hipnótica ambientação. Mas se a banda americana construiu sua viagem partindo das raízes folk norte-americanas, a Fábrica não deixou se levar pelas interferências gringas, produzindo um disco que é, acima de tudo, brasileiro. O que é mais tupiniquim, afinal, que o tropical encontro entre as raízes do samba e os acordes praieiros? Mesmo melancólico, e muitas vezes obscuro, “Grão” sabe explorar a natureza e o calor típicos de nosso país… Até porque não é necessário se afundar na neve do hemisfério norte para tratar da tristeza.

E a jornada do disco parte, literalmente, do “Ermo”. Já transferindo o ouvinte para a atmosfera do disco, a primeira faixa funciona como uma primeira contemplação dos cenários musicais propostos pela banda: em meio a acordes emotivos e vocalizações etéreas, a melancólica paisagem litorânea de “Grão” começa a se desenvolver. Entre concepções acústicas dançantes, extremamente brasileiras, a agradabilidade do disco é trazida à tona em “Viração”, a segunda faixa, um número “quase instrumental” que encontra nos vocais ritmados uma ponte para o público de massa. É inegável que, mesmo tratando do íntimo, o grupo sabe como dialogar com os ouvintes.

Violão e guitarra casam-se em “Mais Um” para construir magníficos arranjos, que cercam os primeiros versos do álbum… As letras, quando existem, são permeadas por versos tortuosos, especialmente herméticos, e de difícil interpretação. Como o próprio Costa já expôs, “Grão” é um disco construído inteiramente a partir de seu íntimo, refletindo seus ideais e sentimentos. É claro que quem participa do disco, como os tradicionais parceiros Cadu Tenório, Alexander Zhemchuzhnikov, Alexandre Goulart, Gabriel Feitosa e Ricardo Gameiro, agrega valor ao resultado final do registro… Mas toda a base, no fundo, parte de Emydgio Costa.

Seria “Grão”, então, um álbum solo de Costa levando apenas o nome da banda Fábrica? É possível que não, pois se o conceito é inteiramente criado pelo compositor, os detalhes ficam nas mãos de terceiros. Como ignorar Sávio de Queiroz e sua assertiva produção, por exemplo? Se as vozes e os instrumentos não fossem tratados com tanto cuidado, “Grão” não seria o ótimo disco que é. E não à toa, ele vai se caracterizando como uma das melhores produções do ano, encontrando em faixas como “Infante” (que conta com participação de Momo) e “Reposta” fantásticas interações entre acordes e ruídos.

“Partida”, a sexta faixa, borda o cenário de crianças brincando em meio a árvores, em um dia ensolarado, através de um certeiro jogo de guitarras, capaz de atestar a grande força instrumental do registro. Afinal, com poucos versos, os instrumentos têm que fazer a sua parte, não? Para tanto, os rumos estéticos do Sobre a Máquina, projeto de Emydgio Costa com Cadu Tenório e Alexander Zhemchuzhnikov, são transferidos de maneira correta para os conceitos atmosféricos de “Grão”.

Outro ponto interessante do disco é a sua capacidade de brincar com as nossas percepções. De uma hora para a outra, o que era tímido acaba se tornando grandioso, bem como o que era real, poucos segundos depois, acaba se tornando em sonho. Vagando de forma letárgica por sentimentos descontrolados, mas colhidos de modo que a música não se perca em nenhum instante, o disco vai brincando com nossas ideias de tempo e espaço. No fim das contas, tudo é muito incerto, maleável… Como são nossos sentimentos, realmente. Do início ao fim, as sonorizações arquitetam paisagens que hipnotizam o ouvinte, e faixas como “Matilha” e “Ferrugem” não deixariam de se amarrar a este conceito.

Trabalhos íntimos sempre estiveram mais ligados ao inverno; lembre-se de artistas como Nick Drake e Joni Mitchell, e perceberá que entre folhas caídas levadas por um vento gelado é que os grandes discos intimistas se ambientaram. Finalmente disposto a fazer da Fábrica um projeto ineditista, Emydgio Costa pensa diferente: o verão também pode ser triste. A nona faixa, “Verão”, demonstra claramente essa ideia, trazendo para 2013 os conceitos plantados por Dorival Caymmi lá nos primeiros suspiros da MPB. Sim, “Grão” é um disco bem atual, só que amarrado a velharias… Onde está a novidade então? No uso de conceitos que poucos artistas ousaram utilizar, como é o caso dos vocais ruidosos criados por Djavan, que voltam a aparecer com força na décima faixa do disco, a naturalística “Córrego”.

Finamente produzida, a faixa-título, que encerra o álbum, brinca com instrumentos e vozes desencontradas através de um jogo intensamente lisérgico, mostrando o turbilhão sobre o qual se encontram as nossas emoções. O descontrole é, de certa forma, natural a todos os seres humanos, e apesar de conciso, harmonizado pelo ótimo trabalho de Sávio de Queiroz como produtor, “Grão” sabe demonstrar como funciona o íntimo sentimental. No fim das contas, depois de decepcionar no ano passado, Emydgio Costa pagou todas suas dívidas ao mergulhar fundo em seu interior, transformando-o em praia para todos se banharem. Cada grão forma uma imensidão arenosa, onde podemos deitar tranquilamente para depois sermos levados por uma tempestade impiedosa.

NOTA: 8,5

Track List: (todas as faixas creditas apenas a Emydgio Costa, exceto a nona)

01. Ermo [00:48]

02. Viração [04:19]

03. Mais Um [04:28]

04. Infante [03:51]

05. Resposta [01:55]

06. Partida [03:26]

07. Matilha [02:26]

08. Ferrugem [02:15]

09. Verão (Emydgio Costa/Renata Arruda) [04:27]

10. Córrego [04:05]

11. Grão [03:06]

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